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Serv. Soc. Soc. número128

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Academic year: 2018

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Memória: 80 anos do

Serviço Social no Brasil:

O III CBAS “O Congresso da

Virada” 1979

Memory: 80 years of Social Work in Brazil

— The III CBAS (Brazilian Congress of

Social Workers), 1979’s “Turning

Congress”

Maria Beatriz Costa Abramides

Doutora em Serviço Social, professora do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-SP, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Aprofundamento Marxista (Neam), São Paulo/SP, Brasil.

[email protected]

Resumo: O artigo trata da contextualização

histórica do Serviço Social no Brasil com desta-que para o III CBAS, o conhecido “Congresso da Virada”, realizado em 1979. Indica os elementos intrínsecos à conjuntura da luta de classes no país, contra a ditadura, anticapitalista na direção do socialismo, que se expande a partir de 1978. Apresentamos a inserção dos assistentes sociais no processo de lutas sociais, como trabalhadores que de forma coletiva rompem com o

conserva-dorismo ao deinirem a direção social da proissão

voltada aos interesses imediatos e históricos da classe trabalhadora.

Palavras-chave: Serviço Social. Classe trabalha-dora. Ruptura com o conservadorismo.

Abstract: The article is about the historical

contextualization of Social Work in Brazil, and it highlights the III CBS (Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais — Brazilian Congress of Social Workers), known as the “Turning Con-gress”, which happened in 1979. It shows the

intrinsic aspects of the country’s class conlict

situation — against dictatorship, anti-capitalist, towards socialism — which expanded from 1978. We present the social workers’ integration

into the class conlict process, as workers who

collectively break with conservatism when they

deine the professional social direction, focused

on the immediate and historical interests of the working class.

Keywords: Social Work. Working class. Break with conservatism.

O Serviço Social — contextualização

histórica

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movimento operário em sua formação. A seguir adentraram os socialistas e comu-nistas que, com os anarquistas, se tornaram referência de um sindicalismo classista, autônomo, de organização desde os locais de trabalhos, de ênfase na ação direta, mobilizações massivas e greves regidas pelo princípio da democracia operária. Porém o governo federal, no início do século, instituiu a Lei Adolfo Gordo, que proibia os estrangeiros de participar da luta sindical, iniciando-se a perseguição aos operários com prisões e exílio.

De outro lado, para que o crescimento econômico capitalista se expandisse pau-tado na gestão fordista-taylorista da força de trabalho, era necessário que o Estado implementasse programas sociais que atendessem às reivindicações dos trabalha-dores e ao mesmo tempo liberasse a força de trabalho economicamente ativa dos gastos com serviços sociais, como educa-ção e saúde, para que pudessem consumir. Portanto, o Estado, além de criar progra-mas sociais, estabeleceu mecanismos de controle nas relações capital-trabalho, e entre outros instrumentos é criada a proissão de assistente social para atuar no âmbito da execução desses programas.

A partir de 1946, a Escola de Serviço Social se agrega à recém-criada Pontifí-cia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e em 1971 a ela se incorpora e se transfere para sua sede na Rua Monte Alegre, no bairro de Perdizes. Em 1972, o Curso de Serviço Social da PUC-SP

inaugurou o primeiro mestrado em Serviço Social da América Latina, e em 1981 o primeiro doutorado do país.

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sendo 152 mulheres, 25 delas dos cursos de Serviço Social. Em 1968, a polícia re-primiu o Congresso da UNE, fomos todos presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional, que até a anistia pesou muito sobre todas nós que permanecemos no país ou no exílio.

Antecedentes do Congresso da Virada

Na segunda metade dos anos 1970 presenciava-se uma efervescência da luta de classes no país no surgimento de um sindicalismo combativo contra a ditadura, o imperialimo, o capitalismo na perspecti-va do socialismo, que se expressou na Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais (Anampos), em 1978, e posteriormente na Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983, com sua fundação. A partir do sindicalismo classista, a categoria dos assistentes so-ciais se organizou desde 1978, de norte a sul do país, nas entidades sindicais, reto-mando os sindicatos de assistentes sociais que icaram fechados de 1969 até 1978. Os proissionais que assumiram essas entida -des vinham dos setores de esquerda que atuaram na clandestinidade, que estiveram à frente do processo de reconceituação da proissão, na articulação latino-americana de proissionais, nos movimentos popula -res que se iniciavam, como o feminista, de saúde, de moradia, do custo de vida, entre outros, e em experiências proissionais

nos marcos de intenção de ruptura que eclodiam.

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se somos trabalhadores coletivos inscritos na divisão sociotécnica do trabalho, nossa organização deve se dar por ramo de ati-vidade econômica e com os trabalhadores dos ramos devemos lutar por melhores condições de trabalho e salário.

Desde o primeiro momento os assis-tentes sociais, ao reorganizarem suas enti-dades sindicais e pré-sindicais — Apas, se iliaram a essa concepção e prática sindical classista, e são essas as determinações que incidirão forte e decisivamente na direção social da proissão dos anos 1980, que tem no III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS), o conhecido “Congresso da Virada”, sua expressão pública e cole-tiva da ruptura com o conservadorismo presente na proissão.

O “Congresso da Virada” — III CBAS —

1979

O “Congresso da Virada”, realizado de 23 a 27 de setembro de 1979, no Centro de Convenções do Anhembi, na cidade de São Paulo, irrompe marcado pela luta de classes ascendente no país. Em 1978, no I Encontro de Entidades Sindicais e Pré-Sin-dicais, éramos quatro entidades reorgani-zadas: Apassp São Paulo, Sindicato dos Assistentes Sociais de Minas Gerais, Apas Bahia e Apas Goiás. Esse encontro ocorreu em Belo Horizonte (MG), e deliberamos por: retomar a organização sindical dos assistentes sociais no país, realizar uma

pesquisa nacional sobre salário, condições de trabalho e carga horária dos assistentes sociais para mobilizar os proissionais a partir de seus locais de trabalho para a luta sindical. O apoio político e inanceiro do Centro Latino-Americano de Trabalho Social (Celats) fez com que no III Encon-tro de Entidades Sindicais e pré-sindicais em 1979, uma semana antecedendo o III CBAS, reuníssemos 29 entidades sindi-cais, pré-sindicais e de oposição sindical, na mesma concepção classista, articulada à Anampos, e a partir de 1983 à CUT classista e de lutas. Cabe registrar que nos anos 1990 a CUT consolidou e forta-leceu um giro sociodemocrata e se ateve às lutas institucionais, abdicando da ação direta. A partir de 2002, com os governos do PT de Lula e posteriormente de Dilma, manteve-se atrelada a um sindicalismo de cooptação, governista, muito distante do sindicalismo autônomo e classista de sua criação e em vigor nos anos 1980.

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uniicadas dos trabalhadores em serviço público, na participação efetiva no mo-vimento sindical classista, no apoio às greves em curso de trabalhadores, no apoio a projetos proissionais nos vários espaços sócio-ocupacionais voltados aos interesses dos usuários, na luta por direitos sociais, inserção na luta pela reforma agrária e urbana, apoio às ocupações de terras no campo e na cidade, na luta pelo ensino público, laico, universal, gratuito e de qualidade, na luta contra o pagamento da dívida externa, na solidariedade de classe às lutas latino-americanas e internacionais.

Essa ambiência de mobilização e lutas possibilitou que o III Encontro de entidades sindicais e pré-sindicais dos assistentes sociais sob a direção da Co-missão Executiva Nacional de Entidades Sindicais e Pré-Sindicais (Ceneas), alguns dias antes do III CBAS, deliberasse pela continuidade da construção e da consolida-ção das entidades sindicais, coordenaconsolida-ção das entidades pela Ceneas até a construção da Anas — entidade sindical nacional autônoma e independente do Estado, que ocorreu em 1983; continuidade na parti-cipação do movimento sindical classista e na fundação da CUT, realizada em 1983; continuidade de mobilização da categoria a partir de suas reivindicações especíicas e as dos trabalhadores em serviço público; o reconhecimento dos assistentes sociais partícipes do trabalho coletivo, inseridos na divisão sociotécnica do trabalho; a atuação junto aos movimentos populares

em defesa de suas reivindicações e apoio ativo e solidário às suas lutas, articulação com a Abepss, que iniciava o processo de renovação na formação proissional, que culmina com o currículo de 1982, referenciado na teoria social de Marx, na perspectiva da totalidade, e a rearticulação com o movimento estudantil. Iniciou-se ainda o debate relativo à necessidade de uma ação estratégica em todo o país para concorrer ao pleito do conjunto CFAS/ Cras, atualmente CFESS/Cress, que até 1979 encontrava-se sob a hegemonia dos setores conservadores e tecnocratas da proissão.

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se transformou em assembleia diária, que interferiu e “virou” o congresso com as críticas necessárias. Isso culminou com a destituição da comissão de honra, sendo que no encerramento foram convidados representantes dos movimentos sociais combativos como referência de lutas. A plenária inal deliberou pelo compromisso da proissão com a classe trabalhadora e os assistentes sociais se reconhecendo como trabalhadores em sua condição de assalariamento. A partir desse evento

co-letivo, massivo, da categoria, designamos emblematicamente a erupção do projeto de ruptura com o conservadorismo por sua direção social nos anos 1980 e pelo Pro-jeto Ético-Político proissional do Serviço Social brasileiro a partir dos anos 1990.

Recebido em 3/9/2016

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