EFEITOS PATRIMONIAIS DA UNIÃO ESTÁVEL
Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial à obtenção do grau de título de Bacharel em Direito, Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Câmpus de Erechim.
Orientadora: Professora Doutora Giana Lisa Zanardo Sartori.
ERECHIM - RS 2017
EFEITOS PATRIMONIAIS DA UNIÃO ESTÁVEL
Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial à obtenção do grau de título de Bacharel em Direito, Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Câmpus de Erechim.
Erechim, de de
BANCA EXAMINADORA _____________________________
Prof. Doutora Giana Lisa Zanardo Sartori URI - ERECHIM
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Prof. Nome do professor avaliador URI - ERECHIM
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Prof. Nome do professor avaliador URI – ERECHIM
Agradeço primeiramente a Deus pela vida. A minha família por todo apoio e paciência nesses meses de elaboração da Monografia, e aos meus verdadeiros amigos.
caminho. Portanto, quanto ao caminho direito, o caminho correto, e o único caminho, isso não existe.
(Friedrich Nietzsche)
A presente monografia, realizada na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões- Campus Erechim, articulou sua problemática de pesquisa nas questões que envolvem os efeitos da união estável sob a ótica patrimonial. O objetivo foi estudar os efeitos patrimoniais na esfera civil das relações de união estável. Foi utilizado o método indutivo, analítico descritivo, através da técnica de pesquisa bibliográfica de vários autores que escreveram sobre esse tema, jurisprudências, legislações, súmulas e notícias em jornais e revistas. Inicialmente fez-se uma retrospectiva histórica da família até o grande e importante marco de reconhecimento da união estável como entidade familiar na Constituição Federal de 1988. Foram abordados os conceitos, requisitos, características essenciais e os efeitos jurídicos pessoais resultantes da relação. Analisaram-se as Leis nº 8.971/94 e nº 9.278/96 fazendo-se uma retrospectiva histórica, e o Código Civil de 2002, que foi de suma importância para regulamentar a união estável. Ao final a análise e estudo destacaram os principais aspectos dos efeitos patrimoniais da união estável.
Nota-se um enorme avanço nas legislações até os dias atuais, e que, apesar das leis esparsas e o fato da união estável estar inserida nos artigos do Código Civil de 2002, ainda restam dúvidas na aplicação desses, acarretando o surgimento de lacunas sobre o tema.
Palavras-chave: Direito de Família. União estável. Entidade familiar. Efeitos patrimoniais
This monograph, presented at the Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões - Campus Erechim, articulated its research problematic in issues involving the effects of stable union under patrimonial optics. The objective was to study the patrimonial effects in the civil sphere of stable union relations. The inductive, descriptive analytical method was used through the bibliographic research technique of several authors who wrote on this topic, jurisprudence, legislation, overviews and news in newspapers and magazines. Initially, a historical retrospective of the family was made until the great and important landmark of recognition of the stable union as a family entity in the Federal Constitution of 1988. The concepts, requirements, essential characteristics and personal legal effects resulting from the relationship were discussed. The Laws No. 8.971/94 and No. 9.278/96 were analyzed by making a historical retrospective, as well as the Civil Code of 2002, which was very important to regulate the stable union. At the end, the analysis and study highlighted the main aspects of the patrimonial effects of the stable union.
There is a huge advance in legislation to date, and despite the fact that the laws are sparse and the fact that a stable union is included in the articles of the Civil Code of 2002, there are still doubts in the application of these laws, leading to the emergence of gaps in the theme.
Keywords: Family. Stable union. Family entity. Patrimonial effects.
1 INTRODUÇÃO...09
2 FAMÍLIA...11
2.1 Considerações gerais...11
2.2 Evolução histórica...13
3 UNIÃO ESTÁVEL COMO ENTIDADE FAMILIAR...21
3.1 Conceituação de união estável...22
3.2 Requisitos da união estável...23
3.3 Evolução histórica...26
3.3.1 União estável e a Constituição de 1988...30
3.4 União estável e as Leis nº 8.971/94 e nº 9.278/96: uma retrospectiva histórica...31
3.5 Efeitos jurídicos da união estável...33
4 EFEITOS PATRIMONIAIS DA UNIÃO ESTÁVEL...37
4.1 Aspectos introdutórios dos efeitos patrimoniais da união estável...37
4.1.1 Regime de bens...38
4.1.2 Regime de bens em relação à idade...39
4.1.3 Outorga de convivente...40
4.1.4 Administração dos bens...42
4.1.5 Celebração do contrato de união estável...43
4.2 Efeitos patrimoniais...44
4.2.1 Direito a meação...44
4.2.2 Direito real de habitação...46
4.2.3 Direito a alimentos...47
4.2.4 Direito à herança...48
4.2.5 Direito a benefícios da Previdência Social...59
5 CONCLUSÃO...50
REFERÊNCIAS...53
1 INTRODUÇÃO
Frente a grande dificuldade das pessoas de identificarem ou até mesmo conhecerem as diferenças presentes entre um casamento e uma união estável, ocasionou um grande aumento no número de pessoas vivenciando uma união estável, pois acreditavam que por não ter assinado um contrato escrito, nenhum de seus bens se comunicariam com os do seu companheiro. Diante deste desconhecimento, é que serão abordados e explicados os efeitos patrimoniais decorrentes de um fim na união estável, seja pela separação ou morte de um dos companheiros.
Durante muito tempo a união estável entre duas pessoas era considerada como algo à margem da lei, ou mesmo contra a lei. Entretanto essas uniões chegaram a um estágio, onde se deixavam bens e filhos, e quando terminavam em briga eram então colocadas frente à Justiça, com o intuito de se estabelecer parâmetros de divisão de bens e guarda de prole, após o fim das uniões.
A união estável é uma nova modalidade de se constituir família, partindo da compreensão de que tudo que se une poderá também se separar, surgiu então o interesse em conhecer melhor o que é união e quais são os direitos e as obrigações constitucionais que surgem da dissolução desta nova modalidade de se constituir família.
A união estável por anos não era reconhecida no ordenamento jurídico brasileiro, foi reconhecida pela Constituição Federal e somente o Código Civil de 2002 dedicou um livro específico a ela regulando regras já salientadas nas Leis nº 8.971/94 e 9.278/96, que cuidavam de matérias de quase totalidade revogadas. Isso ocorreu porque não se poderia admitir em pleno século XXI o Direito das Famílias não aceitar a realidade da vida moderna, e ferir princípios constitucionais dentre os quais ditam que quaisquer entidades familiares merecem proteção especial.
O reconhecimento da união estável como forma de família assume um papel especial na sociedade contemporânea, pois demonstra a efetiva ideia constitucional de que qualquer família, seja ela casamentaria ou não, tem uma proteção especial do Estado. Pois todas as entidades familiares tem a base igual, baseada principalmente no afeto, seguido de companheirismo, então não teria porque discriminar famílias que surgem de mesmas realidades.
Com a união estável reconhecida, automaticamente passam a vigorar novas regras patrimoniais entre o casal a depender do regime de bens adotado. Os efeitos patrimoniais
da união estável constituem nos resultados que este instituto traz economicamente aos companheiros e os direitos que estes têm com a separação ou morte.
Neste trabalho, serão abordadas questões pessoais e patrimoniais, com ênfase nessa última, mas sem deixar de lado o campo pessoal, pois o próprio ser humano vive em relações interpessoais, levando em considerações o estado emocional. Na primeira secção abordou-se sobre a Família (considerações gerais, evolução histórica), no segundo capítulo a União Estável como entidade familiar (conceituação de união estável, requisitos da união estável, evolução histórica, união estável e a Constituição de 1988, união estável e as Leis nº 8.971/94 e nº 9.278/96: uma retrospectiva histórica e efeitos jurídicos da união estável) e posteriormente, no terceiro capítulo Efeitos patrimoniais da união estável (aspectos introdutórios dos efeitos patrimoniais da união estável: Regime de bens, Regime de bens em relação à idade, Outorga de convivente, Administração dos bens, Celebração do contrato de união estável; Efeitos patrimoniais: Direito à meação, Direito real de habitação, Direito a alimentos, Direito à herança, Direito a benefícios da Previdência Social).
O estudo relata os regimes de bens vigentes no Código Civil, os adotados pelos companheiros em contrato de convivência e o regime de bens obrigatório para pessoas maiores de 70 anos. Será tratada também a necessidade de outorga do convivente, a administração dos bens e a possível celebração do contrato de união estável.
E, como ponto principal será analisado os efeitos patrimoniais da união estável, como a meação, direito real de habitação, direito a alimentos, direito à herança e o direito a benefícios da Previdência Social.
O objetivo desse estudo foi compreender os efeitos patrimoniais na esfera civil das relações de união estável. Foi utilizado o método indutivo, analítico descritivo, através da técnica de pesquisa bibliográfica de vários autores que escreveram sobre esse tema, jurisprudências, legislações, súmulas e notícias em jornais e revistas.
2 A FAMÍLIA
2.1 Considerações Gerais
Em razão das constantes e inúmeras transformações sociais que ocorrem no mundo todo, o conceito de família vem evoluindo e apresentando grandes modificações ao longo dos anos.
Em determinadas épocas da história, a família era um organismo mais amplo, como ocorreu no Brasil, na França, e na maioria dos países ocidentais, pois o modelo familiar seguido é o romano, e em outras épocas um modelo mais restrito, seguido o modelo dos gregos. O sistema jurídico brasileiro, apesar de todas as evoluções e modificações ocorridas ao longo dos anos, tem a base no direito romano.
Hoje em dia, pode-se encontrar infinitas formas de conceitualizar família, porém em todas elas há a afirmação de que a família é uma junção própria do ser humano, que busca uma organização, antes mesmo de constituir um Estado. Tudo isso porque a família está muito ligada. À vida provém de um vínculo familiar existente desde o nascimento e que dura à vida inteira, mesmo que depois casem ou vivam uma união estável.
Segundo Carlos Roberto Gonçalves:
[...] a família é uma realidade sociológica e constitui a base do Estado, o núcleo fundamental em que repousa toda a organização social. Em qualquer aspecto em que é considerada, aparece a família como uma instituição necessária e sagrada, que vai merecer a mais ampla proteção do Estado. A Constituição Federal e o Código Civil a ela se reportam e estabelecem a sua estrutura, sem, no entanto, defini-la, uma vez que não há identidade de conceitos tanto no direito como na sociologia. Dentro do próprio direito a sua natureza e a sua extensão variam, conforme o ramo (GONÇALVES, 2012, p. 17).
Seguindo esse mesmo ponto Antunes Varela dita:
A família é o núcleo social primário mais importante que integra a estrutura do Estado. Como sociedade natural, correspondente a uma profunda e transcendente exigência do ser humano, a família antecede nas suas origens o próprio Estado.
Antes de se organizar politicamente através do Estado, os povos mais antigos viveram socialmente em famílias (VARELA,1999, p. 42, grifo do autor).
Família no sentido latu sensu compreende os cônjuges e companheiros, os parentes da linha reta ou colateral e os afins (parentes do outro cônjuge ou companheiro),
que são pessoas ligadas por vínculo de sangue e que procedem, de um tronco ancestral em comum. Em sentido restrito ou chamado também de pequena família é a formada pelos pais e sua prole. E o sentido amplíssimo seria aquelas famílias constituídas pela consanguinidade ou pela afinidade. (GONÇALVES, 2012, p. 17 – 18).
Antes da Constituição Federal de 1988 a família brasileira era constituída pelo casamento regulado pelo Estado entre um homem, uma mulher e seus filhos. Foi a partir de 1988 com o artigo 226 parágrafos terceiro e quarto da Constituição Federal de 1988, que o conceito de família se abriu, adaptando-se melhor à realidade. O artigo 226 parágrafos terceiro e quarto da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) ditam: “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão termos da lei.”, parágrafo quarto: “Entende-se também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.”
O conceito de família está sempre caminhando junto com as evoluções ocorrentes no tempo e no espaço, tentando sempre estar atualizado e dentro dos novos limites da sociedade. Nesse ponto, Antunes Varela constata:
Nem sempre, porém, a família manteve os mesmos caracteres como grupo social.
A história das instituições revela, pelo contrário, uma profunda transformação, ao longo dos séculos, quer na constituição, quer na estrutura da família. E ainda hoje, a despeito da acção uniformizadora exercida pelos poderosos meios de comunicação do mundo moderno e pela extraordinária facilidade de contacto entre os diferentes povos do globo, se observam diferenças profundas, de continente para continente, na constituição e no funcionamento das instituições familiares (VARELA, 1999, p. 42 – 43, grifo do autor).
Percebe-se que a família é um fato cultural, a base das relações cotidianas entre seus membros dá-se pela ajuda recíproca. Família inicialmente era composta pelos familiares de um ancestral comum, depois passou a ser enxergado como o casal e seus filhos, e após a se organizar em conformidade com as afinidades e sentimentalismo seja matrimonial ou extramatrimonial. Essa evolução foi necessária para que a família se adequasse à medida que as transformações sociais foram acontecendo.
A família hoje é sustentada em laços de afeto, sendo sua causa originária e final.
Na família é permitido que seus constituintes desempenhem de forma plena a sua personalidade, cada qual com a sua, mas unidos por elos comuns, e buscando principalmente a tão sonhada felicidade.
2.2 Evolução Histórica
A Antiga Roma teceu normas severas que fizeram da família uma sociedade patriarcal. Ela era baseada no poder e na posição do pai, chefe da família, que comandava os demais membros.
Carlos Roberto Gonçalves aborda:
No direito romano a família era organizada sob o princípio da autoridade. O pater familis exercia sobre os filhos direito de vida e de morte (ius vitae ac necis). Podia, desse modo, vende-los, impor-lhes, castigos e penas corporais e até mesmo tirar- lhes a vida. A mulher era totalmente subordinada à autoridade marital e podia ser repudiada por ato unilateral do marido.
[...]A família era então, simultaneamente, uma unidade econômica, religiosa, política e jurisdicional. O ascendente comum vivo mais velho era, ao mesmo tempo, chefe político, sacerdote e juiz. Comandava, oficiava o culto dos deuses domésticos e distribuía justiça [...] (GONÇALVES, 2012, p. 31, grifo do autor).
Arnoldo Wald também estabelece um conceito sobre família:
[...] O conceito de família independia assim de consanguinidade. O pater familias exercia a sua autoridade sobre todos os seus descendentes não emancipados, sua esposa e sobre as mulheres casadas com manus com os seus descendentes (WALD, 2000, p. 9, grifo do autor).
A família romana tinha função essencial de perpetuar o culto familiar do ancestral comum e a religião doméstica. O afeto poderia até existir, mas não era meio de ligação para membros da família, pois o pater poderia amar muito sua filha, mas nenhum bem de seu patrimônio poderia transmitir a ela.
A mulher ao se casar, abandonava o culto do lar dos seus pais, e passava a cultuar os antepassados do marido, pois era proibido, uma pessoa pertencer simultaneamente à família paterna e a do marido.
O pater era responsável por conduzir a justiça dentro dos limites da casa, e governar o culto aos antepassados. Era muito importante ter um descendente homem, para que as atividades fossem desempenhadas, para a família não cair em desgraça.
Faziam parte do agregado familiar os filhos, os netos e demais descendentes do fundador dele, a mulher, os adotados, as noras e os escravos.
A família no direito romano era muito individualista, e isso refletia também no casamento. O casamento não era um ato repentino, ele ocorria sem prazo pré-
determinado, durava apenas enquanto permanecesse o afeto. A seguir um trecho de Carlos Roberto Gonçalves que demonstra isso:
Em matéria de casamento, entendiam os romanos necessária a affectio não só no momento de sua celebração, mas enquanto perdurasse. A ausência de convivência, o desaparecimento da afeição era, assim, causa necessária para a dissolução do casamento pelo divórcio [...] (GONÇALVES, 2012, p. 32, grifo do autor).
Com o passar dos anos o rigor das regras foi enfraquecendo e os romanos passaram a conhecer o casamento sem manu, onde os filhos obtinham patrimônios independentes e as mulheres depois de casadas poderia continuar sobre o pater poder de seus descendentes. A partir do século IV a ordem moral passou a existir.
Essas mudanças são fruto de visão cristã da família, e foi a partir daí que a família romana começou a progredir, dando mais liberdade para as mulheres e aos filhos e limitando cada vez mais a soberania do pater, a seguir um trecho que destaca essas mudanças:
A evolução da família romana foi no sentido de se restringir progressivamente a autoridade do “pater”, dando-se maior autonomia à mulher e aos filhos e substituindo-se o parentesco agnatício pelo cognitício.
O pater perdeu o ius vitae necique (direito de vida e morte) que exercia sobre os filhos e sobre a mulher. Os filhos passaram a administrar os pecúlios castrense (vencimentos militares), quase castrense (vencimentos de funcionários civis), profectício (doações feitas pelo pai) e adventício (doações e legados feitos ao filho por terceiros) (WALD, 2000, p. 10, grifo do autor).
É na fase imperial que a família romana se dissolve, pois, a mulher conquista sua total autonomia social e política.
A família cristã ocidental é muito diferente em diversos aspectos da família romana.
Dentre as principais, as pessoas passaram a pertencer simultaneamente a duas famílias, a materna e a paterna, e o casamento passou a ser fonte de formação de uma nova família.
A família cristã ocidental não aceitava a dissolução do casamento, pois era considerado um acordo de vontades e um sacramento, onde homens não podiam desfazer a união realizada por Deus e se o fizessem iam contra o ideal de família e os interesses dos filhos seriam prejudicados.
Posiciona-se Varela sobre o assunto:
Embora assente sobre a livre e espontânea vontade dos nubentes, o matrimonio entre baptizados era e continua a ser considerado pela Igreja um sacramento, que confere a união entre os cônjuges, como fonte permanente de graça, duas propriedades essenciais: a unida e a perpetuidade.
A família, deixando de constituir um organismo político, para se converter numa comunidade natural, passou a compreender apenas as pessoas ligadas entre si pelo vínculo sacramental do casamento e pelos laços biológicos da procriação. A mulher passou a ocupar na instituição familiar um lugar próprio, distinto do que competia aos filhos e aos netos. A ela incumbia especialmente o governo doméstico (que nos povos de origem germânica se chamava o poder das chaves:
die Schlusselgewalt) e a educação dos filhos (VARELA, 1999, p. 46 – 47, grifo do autor).
Arnoldo Wald explica este mesmo tema:
Na doutrina canônica, o matrimônio é concebido como sacramento, reconhecendo-se a indissolubilidade do vínculo e só se discutindo o problema do divórcio em relação aos infiéis, cujo casamento não se reveste de caráter sagrado (WALD, 2000, p. 13).
A evolução do direito romano para o canônico se deu na criação dos impedimentos para a celebração do casamento, justificando a anulabilidade ou a nulidade, e a regulamentação da separação de corpos e de patrimônios, onde acabava a sociedade conjugal, mas não o vínculo. A separação de corpos dependia de autorização do bispo ou sínodo, e só era concedida em casos de violência de um cônjuge contra outro, de adultério, tentativas de homicídio, e desrespeito à religião. Mesmo com a separação ainda existia o dever de fornecer alimentos e de fidelidade recíproca entre os separados, mas extinguia a obrigação de coabitação. (WALD, 2000, p. 9 – 16).
No fim da Idade Média, Igreja e Estado entraram em conflito para ver quem teria melhores condições de tratar das matérias de direito da família. A igreja católica criou o Concílio de Trento, que foi muito importante na evolução do direito de família nos países católicos. Tempo depois, Igreja e Estado se aliaram no combate aos casamentos clandestinos, onde passaram a exigir publicação previa, e testemunhas, regras as quais se encontram até hoje no direito moderno. (WALD, 2000, p. 13 – 17).
Com o passar dos anos, o poder civil passou a legislar pouco a pouco sobre o direito de família. Wald afirma:
A doutrina, por sua vez, foi destacando como elementos distintos os aspectos civil e religioso do casamento, o primeiro vinculado à lei do Estado e dependente de tribunais leigos, e o segundo como sendo da competência exclusiva dos órgãos eclesiásticos.
Passou a dominar assim modernamente a concepção leiga do casamento, vitoriosa na maioria das legislações vigentes, sem prejuízo do reconhecimento do casamento religioso.
Na sua técnica, o direito leigo da família conservou, todavia, os conceitos básicos elaborados pela doutrina canônica, que ainda hoje encontramos no próprio direito brasileiro (WALD, 2000, p. 17).
Com a aprovação do Concílio de Trento, houve uma atualização no direito canônico, diminuindo a importância dos eclesiásticos. Após o auge do direito canônico surgem no Brasil, as ordenações Filipinas. Elas admitem o casamento na Igreja ou com licença especial fora desta desde que já tenha havido cópula, ou quando marido e mulher são assim publicamente reconhecidos, por já estarem morando juntos a muito tempo.
(GONÇALVES, 2012, p. 32).
As Ordenações Filipinas mantiveram a ideia da indissolubilidade do casamento.
Entretanto, se o casamento fosse meramente consensual existiam alguns casos especiais em que aceitavam a anulação, desde que não tivesse havido relações sexuais entre os nubentes. Se o casal não tivesse estabelecido o regime de bens, consequentemente seria o da comunhão universal, sendo o patrimônio do casal uma coisa só. No contrato antenupcial, ambos os cônjuges poderiam fazer mútua e reciprocamente doações, respeitando o limite da doação marital. (WALD, 1990, p.31).
O legislador das Ordenações Filipinas foi muito inovador e esperto no que diz respeito aos interesses dos casais. Eles criaram a outorga uxória, que significa que a mulher deveria consentir na venda de qualquer imóvel, não importando o regime de bens adotados, sobre pena de nulidade da alienação. Essa tradição ainda é mantida na legislação brasileira. Ward comenta:
O legislador filipino foi muito diligente na defesa dos interesses do casal, estabelecendo a necessidade de outorga uxória (consentimento da mulher) para a venda de imóveis, qualquer que fosse o regime de bens do casal, sob pena de nulidade. Esta tradição peculiar do direito brasileiro é hoje ainda mantida, não se admitindo que o marido possa alienar ou gravar imóvel sem o consentimento da mulher, mesmo quando o regime de bens é separação total (WALD, 1999, p. 39).
A Consolidação das Leis Civis frisou exigências já utilizadas. Eram punidos os casamentos clandestinos, era necessário documento que comprovasse o casamento, seja por certidões, testemunhas ou qualquer instrumento público, o regime de bens era da comunhão universal, era necessária a outorga uxória nas alienações e questões de divórcio, nulidade do casamento ou separação eram de competência absoluta do juízo eclesiástico. (WALD, 2000, p. 19 – 20).
No século XIX, surgiu uma legislação especial regulando o casamento dos acatólicos. O decreto de 1863 passou a competência de reconhecer qualquer nulidade do casamento dos acatólicos para as autoridades civis. Esse mesmo decreto dispensou os impedimentos aos acatólicos, nos mesmos casos que são dispensáveis aos católicos.
(WALD, 2000, p. 20).
As ideias liberais trouxeram a necessidade de separação da Igreja e do Estado, e foi com a proclamação da República do Brasil em 1889 que houve a desvinculação dos mesmos e então se instituiu o casamento civil, mas continuou indissolúvel. (WALD, 1990, p. 34).
A partir daí, com o Decreto nº. 181 de 24.01.1890 passou a ser válido unicamente o casamento realizado perante as autoridades civis, a separação era concedida com justa causa ou mútuo consenso, mas mantendo, contudo, o vínculo e utilizando a técnica canônica dos impedimentos. (WALD, 2000, p. 21).
No Código Civil de 1916 (BRASIL, 1916) a família era constituída unicamente pelo matrimônio, modelo patriarcal e hierárquico. Nele era proibida a dissolução do casamento, fazia distinção entre seus membros e discriminava as relações extramatrimoniais e os filhos ilegítimos. Para tentar preservar o casamento, essas relações e os filhos ilegítimos eram penalizados com a perda de direitos. Arnoldo Wald fala sobre o Código Civil de 1916:
O Código Civil aceitou os processos de direito canônico referentes ao processo preliminar de habilitação para o casamento, aos impedimentos dirimentes e impedientes, às nulidades e anulabilidades e considerou indissolúvel o vínculo matrimonial (WALD, 2000, p. 21).
A família legítima era constituída através do casamento, sendo a única forma correta segundo o Código Civil de 1916 (BRASIL, 1916), e a que tinha a total proteção do estado brasileiro. As relações mantidas fora do casamento eram consideradas adulterinas e os filhos concebidos fora do casamento eram considerados ilegítimos, sendo diferentes dos filhos concebidos na constância do casamento que eram os chamados filhos legítimos. Na constância do Código Civil de 1916 o filho adulterino somente poderia ser reconhecido se o pai assim quisesse, e fizesse isto dentro do prazo. (DIAS, 2011, p. 30 – 31).
O grande marco relevante nesse código é o sistema codificado, porque o sistema brasileiro, na área de família, passa a ter suas próprias regras, deixando de lado as regras do período colonial.
Com o passar do tempo e com a evolução jurídica ocorrida criou-se a Lei nº. 6.515 de 26.12.1977 que regula a dissolução da sociedade conjugal e do casamento. Ela revoga alguns artigos do Código Civil de 1916, pois dita que a sociedade conjugal ou casamento pode ser desfeito de quatro formas, seja pela morte de um dos cônjuges, pela nulidade ou anulação do casamento, pela separação judicial ou pelo divórcio. (WALD, 2000, p. 23).
A Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) fez uma inovação no Direito de Família, pois incorporou diversos valores importantes, e estabeleceu princípios gerais de proteção à família. Ela estabeleceu a igualdade entre o homem e a mulher dentro da sociedade conjugal. Passou a proteger todos os membros da família de forma igual.
Estendeu a proteção do casamento à união estável entre homem e mulher e a qualquer um dos pais e seus descentes- família monoparental. Deu os mesmos direitos e qualificações entre os filhos havidos no casamento ou não, ou pela adoção, proibindo qualquer discriminação. Aos filhos mais velhos foi imposto o dever de cuidar os pais na velhice. Conservou a gratuidade do casamento civil e os efeitos do casamento religioso. E o prazo para o divórcio foi reduzido. (WARD, 2000, p. 24 – 25).
Carlos Roberto Gonçalves sustenta:
A nova Carta abriu ainda outros horizontes ao instituto jurídico da família, dedicando especial atenção ao planejamento familiar e à assistência direta à família (art. 226, §§ 7º e 8º). No tocante ao planejamento familiar, o constituinte enfrentou o problema da limitação da natalidade, fundando-se nos princípios da dignidade e da paternidade responsável, proclamando competir ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito. Não desconsiderando o crescimento populacional desordenado, entendeu, todavia, que cabe ao casal a escolha dos critérios e dos modos de agir “vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou particulares” (art. 226, § 7º) (GONÇALVES, 2012, p. 33).
Rolf Madaleno enfatiza:
Novos grupos familiares mereceram proteção no texto constitucional, como a entidade familiar das justas núpcias, a entidade familiar proveniente da união estável entre um homem e uma mulher, abrindo-se caminhos na doutrina e na jurisprudência para o reconhecimento de uma entidade familiar no relacionamento entre pessoas do mesmo gênero sexual. A família monoparental por igual mereceu reconhecimento constitucional, uma vez voltadas as atenções para a tutela da
pessoa, sua dignidade como ser humano e o desenvolvimento de sua personalidade no âmbito da entidade familiar (MADALENO, 2008, p. 12).
Essas modificações derrubaram vários dispositivos legais que estavam em vigor, como por exemplo, o Código Civil de 1916, que perdeu o papel de lei fundamental do direito de família, pois estava em desacordo com essas novas mudanças.
As Leis nº. 8.971 de 29.12.1994, e 9.278 de 10.05.1996 demarcaram os direitos e deveres dos companheiros que viviam uma união estável.
No Código Civil de 1916 (BRASIL, 1916) as relações de família se davam apenas pelo matrimônio. O Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002) trata da família, desenvolvendo mais o lado da pessoa humana.
As mudanças ocorridas no direito de família decorrentes da Constituição Federal de 1988 e do Código Civil de 2002 dão ênfase a função social da família.
Carlos Roberto Gonçalves destaca que:
Todas as mudanças sociais havidas na segunda metade do Século passado e o advento da Constituição Federal de 1988 levaram a aprovação do Código Civil de 2002, com a convocação dos pais a uma “paternidade responsável”, e a assunção de uma realidade familiar concreta, onde os vínculos de afeto se sobrepõem à verdade biológica, após as conquistas genéticas vinculadas e aos estudos do DNA. Uma vez declarada a convivência familiar e comunitária como direito fundamental, prioriza-se a família socioafetiva, a não-discriminação do filho, a corresponsabilidade dos pais quanto ao exercício do poder familiar e se reconhece o núcleo monoparental como entidade familiar (GONÇALVES, 2012, p. 33 - 34).
O Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002) disciplina o Direito de Família com os parâmetros para a constituição da família, as capacidades para que o casamento possa ser celebrado, os impedimentos para a realização deste, as suas causas de suspensão e invalidade, dentre outros tópicos.
A proteção à família não é só verificada no Livro IV do Código Civil de 2002. Ela pode ser percebida em vários outros negócios jurídicos disciplinados por essa codificação, como exemplo, nas doações (artigos 544, 546, 550, 511, parágrafo único, do Código Civil de 2002), na venda de ascendente a descendente (artigo 496 do Código Civil de 2002), na reparação do dano (artigo 948, II, do Código Civil de 2002), entre outros.
Nas palavras de Maria Berenice Dias:
[...]Talvez o grande ganho tenha sido excluir expressões e conceitos que causavam grande mal-estar e não mais podiam conviver com a nova estrutura jurídica e a moderna conformação da sociedade. Foram sepultados todos os dispositivos que já eram letra morta e que retratavam ranços e preconceitos
discriminatórios. Assim as referências desigualitárias entre o e a mulher, as adjetivações da filiação, o regime dotal etc.
Mas esse não foi o único mérito do codificador. Alguns avanços foram significativos, e os exemplos são vários. Corrigiu alguns equívocos e incorporou orientações pacificadas pela jurisprudência, como não mais determinar compulsoriamente a exclusão do sobrenome do marido do nome da mulher. Na legislação pretérita, era obrigatória a perda do nome do nome quando da conversão de separação em divórcio. O responsável pela separação não tinha direito a alimentos mesmo que não tivesse meios de sobreviver. Em boa hora o Código baniu a única hipótese de pena ao cônjuge culpado pela separação. No entanto, perdeu a nova consolidação uma bela oportunidade de promover alguns avanços. A guarda compartilhada só veio muito depois. Mas continua carecendo de regulamentação a posse de estado de filho, a filiação socioafetiva, de há muito já reconhecidos em sede jurisprudencial. Também olvidou-se a lei civil de normatizar as relações de pessoas do mesmo sexo, agora nominadas de uniões homoafetivas (DIAS, 2011, p. 32, grifo do autor).
Nota-se, que a família evoluiu com o tempo, mas teve como base familiar a família romana. O conceito de que família provém somente do casamento não é mais defendida.
Hoje em dia, a sociedade dá a todos o direito de buscar a felicidade, independentemente dos vínculos de afeto que estabeleça.
Ao longo da história da humanidade, a família passou por profundas transformações. Esse processo evolutivo inseriu inúmeras situações no âmbito jurídico. A evolução legislativa acontece desde o advento do Código Civil de 1916 até a vigência do novo Código Civil brasileiro.
A promulgação da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) foi um grande marco histórico na conquista de direitos de família. Nela foi reconhecida a união estável como entidade familiar tutelada e jurisdicionalizada. E foi com o Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002) que união estável teve seu conceito, requisitos e características definidos.
3 UNIÃO ESTÁVEL COMO ENTIDADE FAMILIAR 3.1 Conceituação de união estável
Casamento e união estável são entidades similares, mas não iguais. Sua real diferença encontra-se na formalidade da formação. No casamento, os cônjuges assumem uma relação pública e formal, enquanto na união estável não necessita da intervenção estatal para a convivência.
O Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002) não traz um conceito bem definido de união estável, e esse é o grande desafio do direito das famílias, pois para definir união estável deve-se entender o que é família, e na atualidade não é fácil conceituar e entender família frente às constantes transformações sociais e culturais. A família deixou de ser um grupo econômico e de reprodução, para ser um grupo de afeto e amor.
Assim como o conceito de família, o da união estável é variável também:
[...] Na união estável existe a convivência do homem e da mulher sob o mesmo teto ou não, mas more uxório, isto é, convívio como se marido e mulher fossem.
[...] Nesse sentido, a união estável é um fato jurídico, qual seja um fato social que gera efeitos jurídicos [...] (VENOSA, 2011, p. 38, grifo do autor).
Arnaldo Rizzardo constata:
A união estável encerra um significado facilmente perceptível. A palavra “união”
expressa ligação, junção, adesão; já o vocabulário “estável” tem o sinônimo de permanente, duradouro, fixo. Daí corresponder a expressão à ligação permanente do homem com a mulher (RIZZARDO, 1994, p. 333).
Ana Elisabeth Lapa Wanderley Cavalcanti define união estável como sendo “[...] o relacionamento entre um homem e uma mulher que pretendem formar uma entidade familiar sem as formalidades atribuídas ao casamento [...]” (CAVALCANTI, 1994, p. 67).
Luiz Augusto Gomes Varjão diz, “[...] em sentido amplo designa toda e qualquer união sexual livre entre o homem e a mulher. Em sentido estrito é a união more uxório, isto é, como se fossem casados, do homem com a mulher.” (VARJÃO, 1999, p. 41, grifo do autor).
Para Noemia Alves Fardin, “[...] união estável é a relação de um casal que vive como marido e mulher, sem o vínculo do matrimônio. [...]” (FARDIN, 1995, p. 35).
Segundo Maria Helena Diniz é:
[...] união livre e estável de pessoas livre de sexos diferentes, que não estão ligadas entre si por casamento civil [...] reconhece como entidade familiar a união estável, notória e prolongada de um homem com uma mulher, vivendo ou não sob o mesmo teto, sem vínculo matrimonial, desde que tenha condições de ser convertida em casamento, por não haver impedimento legal para sua convolação [...] (DINIZ, 2002, p. 322).
Noemia Alves Fardin complementa ainda:
Atualmente prevalece o conceito mais amplo de concubinato, sendo dispensada a convivência quoad thorum et mensam, isto é, a necessidade de viverem na mesma casa os parceiros da união estável. Hão, porém, de estar presentes condições básicas para que tal união seja social e juridicamente reconhecida, tais como: a) notoriedade; b) fidelidade; c) estabilidade; d) mútua assistência; e) sustento, guarda e educação da prole (FARDIN, 1995, p. 41, grifo do autor).
Marco Aurélio S. Viana conceitua união estável levando em consideração os elementos que julga serem importantes para que a união ocorra:
Sem uma preocupação de conceituar, mas apenas de realçar os elementos mais expressivos dessa relação, dizemos que a união estável é a convivência entre homem e mulher, alicerçada na vontade dos conviventes, de caráter notório e estável, visando a constituição de família (VIANA, 1999, p. 29, grifo do autor).
É importante lembrar que a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) de forma alguma iguala união estável ao casamento, pois não faz sentido estabelecer que a lei deva facilitar a conversão da união estável em casamento, tendo em vista que converter uma coisa em outra só é possível se estas forem desiguais, do contrário, é desnecessária e inconcebível a conversão de coisas iguais.
Deve ser garantido aos conviventes à notoriedade da relação, bem como o respeito e a possibilidade de a união estável ser convertida em casamento a qualquer momento, caso haja o interesse das partes e desde que não haja impedimentos legais.
Concluindo, a união estável é o desejo das partes de estarem juntos, sem a necessidade de formalidades ou obrigatoriedades processuais e legais. Podem as partes dividir ou não o mesmo espaço físico.
3.2 Requisitos da união estável
O Código Civil de 2002 dedica um artigo para falar dos requisitos para o reconhecimento da união estável:
Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecido com o objetivo de constituição de família.
§1º A união estável não se constituirá se ocorrerem os impedimentos do art. 1.521;
não se aplicando a incidência do inciso VI no caso de a pessoa casada se achar separada de fato ou judicialmente.
§2º As causas suspensivas do art. 1.523 não impedirão a caracterização da união estável (BRASIL, 2002, grifo nosso).
Noemia Alves Fardin (FARDIN, 1995, p.68 – 82) fala sobre alguns requisitos que entende serem importantes:
a) Comunhão de vida e interesses: é uma convivência firme, segura e duradoura.
Deve haver igualdade e associação entre os parceiros, com obrigações iguais entre os companheiros;
b) Estabilidade ou temporalidade: é o prolongamento no tempo que oferecerá a evidência da existência da união estável. Hoje em dia não há um prazo estabelecido como antigamente. A temporalidade varia de caso para caso, analisando-se os costumes, princípios ou aquilo que a sociedade estabelecia no início da união.
Como ocorre no casamento, uma ruptura breve, resultante de brigas e desentendimentos não descaracteriza a estabilidade da relação;
c) Fidelidade ou exclusividade: O dever de fidelidade não é imposto a ninguém, nem está fundamento em lei nenhum, mas é um dos requisitos mais exigidos para o reconhecimento da união, pois se trata de uma relação séria, única e honesta, que se assemelha muito ao casamento. Nas palavras de Noemia Alves Fardin (FARDIN, 1995, p.77) “A fidelidade recíproca pressupõe um compromisso implícito entre os parceiros de uma união estável, muitas vezes gerando uma sociedade de fato, pela composição de suas características e interesses mútuos.”;
d) Notoriedade ou publicidade: a união deve ser conhecida pelo maior número de pessoas possíveis, não permanecem em segredo, e podendo ser notada por qualquer pessoa que aviste o casal.
Em resumo:
O elemento da coabitação comum deve ocorrer, mas não é imprescindível, devendo haver um exame profundo das circunstâncias de fato. Frequentemente, até o próprio casamento, pode haver uma separação puramente material dos cônjuges, ocasionada por vários motivos de negócios, longa viagem, por questão de saúde, ou outros motivos superiores à vontade de ambos os parceiros da união. Em outros casos, pode acontecer a comunhão de vida em que ninguém diria que o casal está separado. [...]
A habitação comum ou comunhão de vida não será considerada como elemento fundamental se a completa indagação probatória. Sua existência não desconstitui a união estável e nem a caracteriza por si só. [...]
Nem o teto comum, nem a comunhão de mesa, nem mesmo o sustento da mulher pelo homem, ou vice-versa, são requisitos indispensáveis ao reconhecimento da união estável. E sim, a comunhão de leito, de caráter permanente, fiel, conhecido por terceiros, que constitua, ao menos, uma notoriedade, mesmo que discreta, [...]
(FARDIN, 1995, p. 72 – 73).
Maria Helena Diniz (DINIZ, 2002, p. 322 – 327) destaca os seguintes elementos como essenciais para a configuração da união estável:
a) Diversidade de sexo: uma vez existindo união entre pessoas do mesmo sexo, é somente reconhecida como uma união de fato;
b) Ausência de matrimônio civil válido e de impedimento matrimonial: pode ser reconhecida a união estável de pessoas separadas judicialmente ou de fato;
c) Notoriedade de afeições recíprocas: é o meio termo entre publicidade e o segredo.
É uma relação mais discreta, que é visualizada em um círculo restrito de pessoas mais íntimas dos parceiros. “A convivência more uxório deve ser notória, os companheiros deverão tratar-se, socialmente, como marido e mulher” [...] (DINIZ, 2002, p. 326, grifo do autor).;
d) Honorabilidade: a união deve ser baseada no respeito, honestidade e afeto entre o homem e a mulher;
e) Fidelidade ou lealdade: sendo fiéis, os companheiros, demonstram a real intenção de vida em comum, gerando uma aparência de “estado de casado”;
f) Coabitação: é a vivencia no mesmo teto. É a equiparação a vida de casados, tendo circunstancias que possam impedir a coabitação, mas que não desconfiguram a união.
Para Arnoldo Rizzardo (RIZZARDO, 1994, p. 343 – 345) não é necessário que se identifiquem todos os elementos na união estável, basta existirem alguns capazes e suficientes para mostrar a prática da união. A seguir a lista de elementos gerais:
a) Ânimo ou intenção de formar sociedade;
b) Posse do estado de casado;
c) Comunhão de vida e de interesses;
d) Notoriedade do relacionamento e honorabilidade da conduta;
e) Conduta dos concubinos: os companheiros têm a vida semelhante a pessoas casadas;
f) Dever de fidelidade;
g) Habitação comum;
h) Convivência more uxório: reciprocidade de respeito e afeto entre o casal;
i) Comunidade de leito: convivência, habitação comum, relação sexual;
j) Continuidade da união;
k) Dependência afetiva de um concubino ao outro;
Rolf Madaleno (MADALENO, 2008, p. 768 – 787) também cita alguns elementos para a aceitação como união estável:
a) Diversidade de sexos;
b) Coabitação;
c) Prazo para constituição;
d) Precedente casamento;
e) Convivência pública;
f) Continuidade;
g) Com o objetivo de constituir família;
h) Inexistência de impedimentos matrimonial;
Do ponto de vista de Maria Berenice Dias, a lei usa a palavra “publicidade”, mas ela não deve ser interpretada no seu extremo significado, o que a lei exige mesmo é a notoriedade, “[...] tudo que é público é notório, mas nem tudo que é notório é público. [...]”
(DIAS, 2011, p. 173).
Para ela, deve haver a durabilidade e a continuidade da relação, não sendo passageira, nem repentina e estar presente o objetivo de constituir família, que é um pressuposto subjetivo. Em síntese:
Com segurança, só se pode afirmar que a união estável inicia de um vínculo afetivo. O envolvimento mútuo acaba transbordando o limite do privado, e as duas pessoas começam a ser identificadas no meio social como um par. Com isso o relacionamento se torna uma unidade. A visibilidade do vínculo o faz ente autônomo merecedor de tutela jurídica como uma entidade. O casal transforma-se em universalidade única que produz efeitos pessoais com reflexos de ordem patrimonial. Atenta o direito a essa nova realidade, rotulando-a de união estável.
Daí serem a vida em comum e mútua assistência apontadas como seus elementos caracterizadores. Nada mais do que prova da presença do enlaçamento de vida, do comprometimento recíproco. A exigência de notoriedade, continuidade e
durabilidade da relação só serve como meio de comprovar a existência do relacionamento (DIAS, 2011, p. 174, grifo do autor).
Luiz Augusto Gomes Varjão (VARJÃO, 1999, p. 156) divide os requisitos em objetivos e subjetivos. Como requisitos objetivos temos a diversidade de sexo, inexistência de impedimento matrimonial, coabitação, fidelidade, período de convivência e publicidade. Nos requisitos subjetivos está presente a convivência more uxório (intenção de convivência) e affecio maritalis (vontade de viver com outra pessoa, como se casados fossem).
Em sua obra, Hélio Borghi divide os elementos em essenciais e os secundários ou subsidiários:
5.1 São três os elementos essenciais à caracterização da união estável, [...]:
Fidelidade [...], Notoriedade [...] Continuidade das relações sexuais [...]
5.2 Elementos secundários ou subsidiários [...]: Dependência econômica [...], Compenetração das famílias [...] (BORGHI, 2000, p. 6 – 10).
Os requisitos de constatação da união estável variam de autor para autor. Alguns são fundamentais e citados pela maioria para agraciar à união com um conceito semelhante ao do matrimônio.
3.3 Evolução Histórica
Os vínculos afetivos fora do casamento sempre existiram embora houvesse a negação dos legisladores e a rejeição social.
A legislação brasileira manteve-se em oposição ao concubinato, mesmo sendo um tipo de relacionamento numeroso. O Código Civil de 1916 (BRASIL, 1916) estabeleceu o casamento civil como única forma de constituição da família legítima e ignorou a família ilegítima. Fazia poucas menções ao concubinato e quando fazia, discriminava e penalizava os concubinos, tão somente para a proteção da família constituída pelos sagrados laços do matrimônio. O artigo 1.474 proibia à concubina de homem casado ou ao concubino de mulher casada ser indicado como beneficiário de contrato de seguro de vida, ao proibir que se instituísse como beneficiária pessoa legalmente inibida de receber doações do segurado. O artigo 1.719, III, proibia à concubina do testador casado ser nomeada herdeira ou legatária.
O Código Civil de 1916 (BRASIL, 1916) deixou clara a preferência legal pela família legítima, constituída pelo casamento, em detrimento da família de fato, constituída pela união estável.
Edgar de Moura Bittencourt foi o primeiro a usar a expressão união estável ao invés de concubinato, conforme disserta Rodrigo da Cunha Pereira:
A expressão união estável foi utilizada, pela primeira vez no ordenamento jurídico brasileiro, por Moura Bittencourt, que foi também o primeiro autor brasileiro a publicar obra sobre o tema, na década de 1960 [...] (PEREIRA, 2015, p. 196).
As legislações esparsas e as decisões judicias gradualmente passaram a reconhecer direitos aos concubinos.
A Súmula nº. 35 do Supremo Tribunal Federal, de 13 de dezembro de 1963, estabeleceu que “em caso de acidente do trabalho ou de transporte, a concubina tem direito de ser indenizada pela morte do amásio, se entre eles não havia impedimento para o matrimônio” (BRASIL, 1963).
As decisões judicias também passaram a reconhecer direitos às concubinas pela contribuição das mesmas ao patrimônio adquirido pelo esforço comum do casal. A Súmula nº. 380 de 03 de abril de 1964 do Supremo Tribunal Federal, determinou que
“comprovada a existência de sociedade de fato entre os concubinos, é cabível a sua dissolução judicial com a partilha do patrimônio adquirido pelo esforço comum” (BRASIL, 1964).
Sobre isso, Maria Berenice Dias complementa:
[...] passou a justiça a reconhecer a existência de uma sociedade de fato. Porém, para ensejar a divisão dos bens adquiridos na constância da união, havia necessidade da prova da efetiva contribuição financeira de cada consorte na constituição do patrimônio. Ou seja, os companheiros eram considerados “sócios”, procedendo-se à divisão de “lucros”, a fim de evitar que o acervo adquirido durante a vigência da “sociedade” ficasse somente com um dos sócios, em detrimento, normalmente, da mulher. Essa solução, inclusive, restou sumulada pelo STF. Tais subterfúgios eram utilizados para justificar a partição patrimonial, evitando-se com isso o enriquecimento injustificado de um dos companheiros. Todavia, nada mais se cogitava conceder, nem alimentos, nem direitos sucessórios (DIAS, 2011, p.
168, grifo do autor).
Outro marco jurisprudencial importante é a Súmula de nº. 382 pelo Supremo Tribunal Federal estabelecendo que: “A vida em comum sob o mesmo teto, more uxório, não é indispensável à caracterização do concubinato” (BRASIL, 1964). Assim, foi fixado o entendimento de que o simples fato dos concubinos residirem em domicílios diferentes
não impedia o reconhecimento da união, desde que presentes outros requisitos, como a afetividade e a intenção de constituir família.
Até 1977 não existia o divórcio, somente o desquite, que não dissolvia a sociedade conjugal e impedia novo casamento. Com a Lei nº. 6.515 de 1977 (BRASIL, 1977), o divórcio foi instituído no ordenamento jurídico brasileiro, abrindo assim, maior reconhecimento para as famílias de fato, acabando com o caráter da indissolubilidade do casamento e permitindo o reconhecimento de filho extraconjugal, por meio de testamento cerrado.
Por muitos anos, para julgar os litígios relacionados ao concubinato, aplicaram-se somente regras do Direito das obrigações e não as do Direito de família, pois a união estável obteve seu caráter de entidade familiar somente com a entrada em vigor da Constituição atual.
Segundo entendimento de Rodrigo da Cunha Pereira, a união estável veio se aprimorando até o Código Civil de 2002:
[...]o que era tratado exclusivamente no campo do Direito Comercial ou Obrigacional muda os rumos para o Direito de Família. Regulamentando o §3° do art. 226 da Constituição Federal vieram as Leis n° 8.971, de 29 de dezembro de 1994, tratando do direito dos companheiros a alimentos e sucessões, e a 9.278, de 13 de maio de 1996, abrindo o conceito de união estável, que era mais fechado na lei anterior, quando estabelecia o prazo de cinco anos para a caracterização da união estável. E, por último, a incorporação ao texto do Código Civil de 2002 de um título sobre união estável (arts. 1.723 a 1.727) consolida, de uma vez por todas, a compreensão dessa forma de família em nosso ordenamento jurídico [...]
(PEREIRA, 2015, p.197).
O Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002), em vigor desde 11 de janeiro de 2003, dedica um capítulo especial à União Estável, compreendendo os artigos 1.723 a 1.726, com sua conceituação, impedimentos, direitos e deveres dos companheiros, regime de bens e conversão em casamento e mais o artigo 1.727, que define o concubinato.
3.3.1 União Estável e a Constituição Federal de 1988
A Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) fez uma grande inovação ao elevar concubinato à condição de união estável e ao enquadrar a união estável entre o homem e a mulher no âmbito jurídico de família. Em outras palavras, ampliaram-se as espécies de famílias protegidas pelo Estado, deixando a exclusividade do casamento de lado, visando
à proteção de forma igualitária a todos os membros e descendentes. Estas mesmas ideias são encontradas na obra de Rodrigo da Cunha Pereira:
A grande evolução histórica da união estável no Brasil, então denominada concubinato, tem seu marco mais significativo na Constituição da República de 1988. Ao introduzir a expressão entidades familiares, designou e consagrou o princípio da pluralidade das formas de família, adotando oficialmente a expressão união estável, em substituição à expressão concubinato [...] (PEREIRA, 2015, p.
197).
Com a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) a união estável passou a ser entidade familiar, estando ao lado do casamento e da família monoparental, causando uma grande transformação jurídica, porque até então a única forma de constituir família, era através do casamento. Arnaldo Rizzardo afirma:
A relação de fato passou a integrar o conteúdo de família. Pelos termos da Constituição, protege-se a união estável como entidade familiar, eis que a família não se funda necessariamente no casamento (RIZZARDO, 1994, p. 334).
Maria Berenice Dias destaca as mesmas convicções:
A Constituição, ao garantir especial proteção à família, citou algumas entidades familiares – as mais frequentes -, mas não as desigualou. Limitou-se a elencá-las, não lhes dispensando tratamento diferenciado. O fato de mencionar primeiro o casamento, depois a união estável e, por último, a família monoparental não significa qualquer preferência nem revela uma escala de prioridade entre eles. [...]
A Constituição acabou por reconhecer juridicidade ao afeto ao elevar as uniões constituídas pelo vínculo de afetividade à categoria de entidade familiar [...] (DIAS, 2011, p. 169, grifo do autor).
O artigo 226, §3° da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) é o que fala sobre essas inovações da união estável:
Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
[...]
§3º. Para efeito de proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre homem e mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar a sua conversão em casamento.
[...]
Esse artigo retirou definitivamente a união estável do campo do direito das obrigações, e transferiu para o direito de família, deste modo, passou a união estável desfrutar de igual proteção estatal que o casamento. Constatou também, que a família
continua sendo base da sociedade, porém, retirou a exclusividade do casamento como sendo única forma da formação familiar.
Em síntese, a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) retirou a forma discriminadora com que o concubinato era visto; concubinato passou a ser união estável, sendo considerada uma entidade familiar, a qual tem a alternativa de ser transformada em casamento. Ela nada mais fez do que atribuir legalidade a um fenômeno social e humano que era muito comum e que já vinha obtendo reconhecimento, tanto pela jurisprudência quanto por leis esparsas, que passaram a proteger as relações independentes do casamento.
A Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) não regulamentou o instituto da união estável, nem determinou os contornos jurídicos do mesmo, deixando tal tarefa para a legislação ordinária e normas infraconstitucionais que melhor tratassem e regulassem a matéria, estabelecendo critérios para seu reconhecimento e fixando seus efeitos. Para isso, foram editadas as Leis nº. 8.971/94 e nº. 9.278/96.
3.4 União Estável e as Leis nº. 8.971/94 e nº. 9.278/96: uma retrospectiva histórica Lei n°. 8.971 de 29 de dezembro de 1994 (BRASIL, 1994) é a primeira lei destinada a regulamentar a união estável. É uma lei sucinta, composta por apenas três artigos, eis que os artigos 4º e 5º dizem respeito à data de vigência e à revogação das disposições em contrário. Ela foi editada com o objetivo de regular o direito dos companheiros no campo dos alimentos e sucessões.
O artigo 1° fala sobre os alimentos:
Art. 1º A companheira comprovada de um homem solteiro, separado judicialmente, divorciado ou viúvo, que com ele viva há mais de cinco anos, ou dele tenha prole, poderá valer-se do disposto na Lei nº 5.478, de 25 de julho de 1968, enquanto não constituir nova união e desde que prove necessidade.
Parágrafo único. Igual direito e nas mesmas condições é reconhecido ao companheiro de mulher solteira, separada judicialmente, divorciada ou viúva (BRASIL, 1994).
A principal novidade foi o prazo mínimo de convivência de cinco anos ou existência de prole comum como requisito para concessão do direito a alimentos. A prova da necessidade e a não constituição de nova união são outros dois requisitos. Esse artigo se absteve de mencionar os separados de fato.
Além do direito à meação do patrimônio comum, que está disposto no artigo 3°, essa lei inovou ao dar aos companheiros direitos hereditários:
Art. 2° As pessoas referidas no artigo anterior participarão da sucessão do (a) companheiro (a) nas seguintes condições:
I – O (a) companheiro (a) sobrevivente terá direito enquanto não constituir nova união, ao usufruto de quarta parte dos bens do de cujus, se houver filhos deste ou comuns;
II – O (a) companheiro (a) sobrevivente terá direito, enquanto não constituir nova união, ao usufruto de metade dos bens do de cujus, se não houver filhos, embora sobrevivam ascendentes;
III – Na falta de descendentes e de ascendentes, o (a) companheiro (a) sobrevivente terá direito à totalidade da herança (BRASIL, 1994).
O inciso III do referido artigo modernizou, ao prever a possibilidade de o companheiro herdar a totalidade dos bens do falecido, na hipótese de este não ter ascendentes ou descendentes.
Dois anos após a primeira lei ser editada, surge a Lei n°. 9.278 de 10 de maio de 1996, (BRASIL, 1996) com o intuito de regulamentar o §3° do artigo 26 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) e com a pretensão não declarada de constituir um verdadeiro estatuto da união estável. A nova lei é composta por onze artigos, que foram reduzidos a oito, e com apenas seis artigos com substância. Foram vetados os artigos 3°, 4° e 6°, que falavam sobre o contrato de vida em comum, o distrito e o regimento dos mesmos em cartório do Registro Civil e Registro de Imóveis:
Art. 1º É reconhecida como entidade familiar a convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, estabelecida com objetivo de constituição de família.
Art. 2° São direitos e deveres iguais dos conviventes:
I - respeito e consideração mútuos;
II - assistência moral e material recíproca;
III - guarda, sustento e educação dos filhos comuns.
Art. 3°(VETADO) Art. 4 (VETADO)
Art. 5° Os bens móveis e imóveis adquiridos por um ou por ambos os conviventes, na constância da união estável e a título oneroso, são considerados fruto do trabalho e da colaboração comum, passando a pertencer a ambos, em condomínio e em partes iguais, salvo estipulação contrária em contrato escrito.
§ 1° Cessa a presunção do caput deste artigo se a aquisição patrimonial ocorrer com o produto de bens adquiridos anteriormente ao início da união.
§ 2° A administração do patrimônio comum dos conviventes compete a ambos, salvo estipulação contrária em contrato escrito.
Art. 6°(VETADO)
Art. 7° Dissolvida a união estável por rescisão, a assistência material prevista nesta Lei será prestada por um dos conviventes ao que dela necessitar, a título de alimentos.
Parágrafo único. Dissolvida a união estável por morte de um dos conviventes, o sobrevivente terá direito real de habitação, enquanto viver ou não constituir nova união ou casamento, relativamente ao imóvel destinado à residência da família.
Art. 8° Os conviventes poderão, de comum acordo e a qualquer tempo, requerer a conversão da união estável em casamento, por requerimento ao Oficial do Registro Civil da Circunscrição de seu domicílio.
Art. 9° Toda a matéria relativa à união estável é de competência do juízo da Vara de Família, assegurado o segredo de justiça.
Art. 10. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 11. Revogam-se as disposições em contrário (BRASIL, 1996).
No primeiro artigo houve a conceitualização da união estável como sendo uma convivência entre um homem e uma mulher, duradoura, pública e contínua, e com o objetivo de constituir família.
Ao contrário da lei anterior, ela não estabeleceu prazo para a caracterização da união estável, nem fez menção a possível prole comum, mas traçou requisitos para o reconhecimento da união: 1) convivência entre um homem e uma mulher; 2) duradoura, pública e contínua; 3) com objetivo de constituir família.
O artigo 2º estabeleceu os direitos e deveres que ambos conviventes devem ter: 1) respeito e consideração mútuos; 2) assistência moral e material recíproca; 3) guarda, sustento e educação dos filhos comuns.
Artigos 3° e 4° foram vetados. O artigo 5º instituiu a meação sobre os bens adquiridos onerosamente por um ou ambos os conviventes, na constância da união, determinando que os mesmos passem a pertencer a ambos, em condomínio e em partes iguais, salvo estipulação contrária em contrato escrito. Aproximando assim, a união estável do regime da comunhão parcial de bens.
Artigo 6° foi vetado. O artigo 7º dita a assistência material à título de alimentos devida por um dos conviventes ao outro que dela necessitar, em caso de dissolução da união estável por rescisão. O parágrafo único estabelece que, no caso de dissolução da união por morte de um dos conviventes, o sobrevivente terá direito real de habitação do imóvel destinado à residência da família, enquanto não constituir nova união ou casamento.
O artigo 8° possibilita aos companheiros requerer a conversão da união estável em casamento, desde que de comum acordo e por requerimento ao Oficial do Registro Civil da Circunscrição de seu domicílio.
O artigo 9° estabelece a competência do juízo da Vara de Família para todas matérias referentes a união estável, e garantindo o segredo de justiça. Acabando com qualquer dúvida que porventura ainda existisse acerca da competência para julgar ações de união estável.