Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 1.425.353 - PB (2013/0409595-1)
RELATOR : MINISTRO NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO
RECORRENTE : JOSÉ DE ARIMATÉIA VIANA CORREA E OUTROS ADVOGADO : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
INTERES. : INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL
ADVOGADO : PROCURADORIA-GERAL FEDERAL - PGF - PR000000F
DECISÃO
RECURSO ESPECIAL. DIREITO SANCIONATÓRIO E PROCESSUAL CIVIL. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. INTIMAÇÃO PESSOAL DA DEFENSORIA PÚBLICA. ART. 44, I DA LC 80/94.
VISTA DOS AUTOS. IMPRESCINDIBILIDADE. NULIDADE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.
1. Trata-se de Recurso Especial interposto por JOSÉ DE ARIMATÉIA VIANA CORREA E OUTROS, com fundamento na alínea a do permissivo constitucional, contra acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 5a. Região, assim ementado:
PROCESSUAL CIVIL. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA.
SUBSTITUIÇÃO DO PATRONO INOPORTUNA. RECONSIDERAÇÃO.
REVELIA MANTIDA. JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE. PROVA EMPRESTADA. POSSIBILIDADE. PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO.
APELAÇÃO CONHECIDA MAS NÃO PROVIDA.
1. Hipótese de apelação contra sentença que julgou procedente, condenando os réus, ora apelantes, em face da prática das condutas nos arts. 9º, 10 e 11 da Lei nº 8.429/92, às sanções previstas no art. 12 do mesmo diploma.
2. O fato dos réus terem mudado de causídico nos autos não pode, nem deve influenciar no reconhecimento da revelia, por ofensa ao princípio da igualdade entre as partes, já que no momento do requerimento foi reconhecida a revelia, que se deu por causa da ausência de apresentação de defesa no prazo legal, o que decorre de prescrição legal.
3. Embora se reconheça que a ausência de remessa dos autos foi inadequada, a jurisprudência tem entendido que, em consonância ao Princípio da Instrumentalidade do Processo (o instrumentalismo a serviço do material e do substancial), o rigor formal deve ser afastado,
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caso a finalidade do ato seja atingida e não houver prejuízo a parte contrária.
4. Poderia o Defensor Público requerer em qualquer momento a remessa dos autos, desde quando foi intimado do ato processual correspondente, a fim de que lhe fossem enviados os volumes do processo e seus apensos, o que não foi feito ou sequer cogitado.
5. Não se pode cogitar que agora em sede recursal, venha a parte, que permaneceu inerte quanto à produção de provas, impugnar o julgamento antecipado da lide, quando ela própria ocasionou a prolação da sentença naquele momento processual ao se omitir quando instada a requerer a instrução que entendesse devida.
6. “A jurisprudência do STJ encontra-se consolidada no sentido de que, respeitado o contraditório e a ampla defesa, é possível a utilização de "prova emprestada" devidamente autorizada na esfera criminal, como ocorreu na espécie”. (MS 200901362351, CELSO LIMONGI (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/SP), STJ - TERCEIRA SEÇÃO, DJE DATA: 01/02/2011.)
7. É de se reconhecer a legitimidade e legalidade das provas constantes nos autos, suficientes a embasar a condenação dos Recorrentes, que apesar de recorrerem da sentença condenatória se omitem em impugnar direta e substancialmente a tutela judicial proferida em seu desfavor.
8. O Magistrado não pode se responsabilizar pela ocorrência da revelia, em função de constar nos autos a atuação da representante judicial que já tinha se manifestado oportunamente. O silêncio dos interessados quando intimados para especificar as provas não poderia naquele momento ser considerado como desídia do representante judicial, mas mera escolha dos réus, que se submeteriam ao ônus processual correspondente.
9. Apelação conhecida mas não provida (fls. 445/446).
2. Inconformados, os recorrentes alegam, primeiramente, ofensa ao art. 44, I da LC 80/94, defendendo a ilegalidade da intimação pessoal da Defensoria Pública que os assiste, em razão da não remessa dos autos para que fosse oportunizada a vista, cerceando-lhes o direito de defesa.
Frisam não ter sido franqueada a devida vista dos autos até a prolação da
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sentença, eivando de nulidade os atos ocorridos desde então.
3. No mais, aduzem violação dos arts. 330 e 331, § 2o. do CPC/73, sustentando o indevido julgamento antecipado da lide, a configurar, também, cerceamento de defesa dos ora recorrentes, visto que inexistente qualquer das circunstâncias ensejadoras da medida, seja a revelia; a desnecessidade de produção de provas; ou, ainda, não ser a lide unicamente de direito. Ressalta a contradição existente na conclusão das instâncias ordinárias na condução do feito sob a sistemática do julgamento antecipado, decorrente da utilização na fundamentação das declarações dos réus obtidas em fase inquisitorial, sem contraditório ou ampla defesa, que poderiam ser retratadas em juízo, caso fosse dada a oportunidade, sem o abreviamento do feito.
4. Contrarrazões às fls. 475/483.
5. Ouvido, opinou o Ministério Público Federal, em Parecer da lavra do eminente Subprocurador-Geral da República NICOLAO DINO, pelo desprovimento do Recurso Especial.
6. É o relatório. Decido.
7. O art. 44 da LC 80/94 especifica as prerrogativas da Defensoria Pública da União, estabelecendo o inciso I, com redação dada pela LC 132/09, ser prerrogativa dos membros da DPU receber, inclusive quando necessário, mediante entrega dos autos com vista, intimação pessoal em qualquer processo e grau de jurisdição ou instância administrativa, contando-se-lhes em dobro todos os prazos.
8. De acordo com o dispositivo, a entrega dos autos em vista constitui prerrogativa tão indispensável quanto a intimação pessoal do Defensor, de modo que o comando legal somente é devidamente cumprido com a observância conjunta e concomitante das duas determinações. A propósito, cite-se precedente desta Corte:
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RECURSO ESPECIAL - DIREITO PROCESSUAL CIVIL - NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL - AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO - FUNDAMENTAÇÃO DEFICIENTE - INCIDÊNCIA DA SÚMULA 284/STF - INTIMAÇÃO PESSOAL - DEFENSORIA PÚBLICA - PROTEGER E PRESERVAÇÃO A FUNÇÃO DO ÓRGÃO - DEFESA DOS NECESSITADOS - DEFENSOR PÚBLICO - PRESENÇA - AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO - ENTREGA DOS AUTOS COM VISTA - NECESSIDADE - PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA AMPLA DEFESA - RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE CONHECIDO E, NESSA EXTENSÃO, PROVIDO.
I - A não explicitação precisa, por parte da recorrente, sobre a forma como teria sido violado o dispositivo suscitado, no caso, o artigo 535, inciso II, do Código de Processo Civil, atrai a incidência do enunciado n. 284 da Súmula do STF.
II - O artigo 74 da Lei Complementar Estadual 35/2003, por compreender-se no conceito de lei estadual, não pode dar ensejo a abertura desta Instância especial. Incide, na espécie, por analogia o óbice da Súmula n. 280/STF.
III - A necessidade da intimação pessoal da Defensoria Pública decorre de legislação específica que concede prerrogativas que visam facilitar o bom funcionamento do órgão no patrocínio dos interesses daqueles que não possuem recursos para constituir defensor particular.
IV - A finalidade da lei é proteger e preservar a própria função exercida pelo referido órgão e, principalmente, resguardar aqueles que não têm condições de contratar um Defensor particular. Não se cuida, pois, de formalismo ou apego exacerbado às formas, mas, sim, de reconhecer e dar aplicabilidade à norma jurídica vigente e válida.
V - Nesse contexto, a despeito da presença do Defensor Público, na audiência de instrução e julgamento, a intimação pessoal da Defensoria Pública somente se concretiza com a respectiva entrega dos autos com vista, em homenagem ao princípio constitucional da ampla defesa.
VI - Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, provido (REsp. 1.190.865/MG, Rel. Min. MASSAMI UYEDA, DJe 1o.3.2012).
9. Frise-se que, no caso, o prejuízo é evidente. Sem a perfectibilização da intimação pessoal da DPU, com a remessa dos autos com
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vista, nem mesmo se inicia o prazo recursal, não havendo dúvida de que há efetivo prejuízo à defesa do assistido.
10. Ante o exposto, dá-se provimento ao Recurso Especial de JOSÉ DE ARIMATÉIA VIANA CORREA E OUTROS, para reconhecer a nulidade da intimação da DPU e dos atos posteriores, ficando prejudicado o exame das demais questões suscitadas.
11. Publique-se.
12. Intimações necessárias.
Brasília, 06 de dezembro de 2016.
NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO MINISTRO RELATOR