A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil Coloniality within the
perspective of the
intersectionality of race and gender: an analysis of the case of domestic workers in Brazil
Daphne de Emílio Circunde Vieira Andrade Maria Cecília Máximo Teodoro
Sumário
Editorial ...17
Bruno Amaral Machado, Camilla de Magalhães Gomes e Soraia Mendes
SEção i: Convidado ESpECial ...19 autonomiapESSoal, dEStino, julgamEntoSEinStituiçõESno BraSil: notaSSoBrEuma
pErguntaEalgumaSrESpoStaS ...21
Luiz Edson Fachin
SEção 2: doSSiê tEmátiCo ...40 partE gEral: aSpECtoS tEóriCoS ...41 raçaEESSEnCialiSmona tEoria FEminiStado dirEito ...43
Angela P. Harris, Tradução de Camilla de Magalhães Gomes e Ísis Aparecida Conceição
polítiCaSdamortE: Covid-19 EoSlaBirintoSdaCidadEnEgra ...75
Ana Flauzina e Thula Pires
QuEmpariu améFriCa?: traBalhodoméStiCo, ConStituCionaliSmoEmEmóriaEm
prEtuguêS ...94
Juliana Araújo Lopes
o lixo vai Falar: raCiSmo, SExiSmoE inviSiBilidadESdo SujEito nEgronaS narrativaS
dE dirEitoS humanoS ... 125
Ciani Sueli das Neves
dirEitoShumanoS, dEColonialidadEEFEminiSmodEColonial: FErramEntaStEóriCaS paraaComprEEnSãodEraçaEgênEronoSloCaiSdESuBaltErnidadE ...143
Rute Passos, Letícia Rocha Santos e Fran Espinoza
dirEito, raçaEgênEro: ElEmEntoSparaaConStruçãodEumatEoriaFEminiStado
dirEitoadEQuadaaoFEminiSmonEgro ... 174
Mário Lúcio Garcez Calil e Debora Markman
“nEgraSvadiaS”: aCriminalizaçãodoCorponEgroQuEouSaprotEStar ...197
Soraia da Rosa Mendes e Bruno Amaral Machado
a ExpEriênCiado aBaEtê Criolo ComoaçãodEEnFrEntamEntoadESigualdadESdE gênEroEraça: umaanáliSEdEdiSCurSoSoBrEintErSECCionalidadE
EFEminiSmonEgro ...213
David Oliveira e Thalita Terto Costa
EntrEaauSênCiaEoExCESSo: aatuaçãodoEStado SoBrECorpoSdiSSidEntES ...230
Dayane do Carmo Barretos, Klelia Canabrava Aleixo e Vanessa de Sousa Soares
SilênCioSEmitoSnumapErSpECtivaintErSECCional: doControlEinFormaldECorpoS
aoControlEpEnaldEmulhErESnEgraS ...248
Elaine Pimentel e Nathália Wanderley
miniStério púBliCoEdomínioraCial: pouCaSilhaSnEgraSEm umarQuipélagonão-
nEgro ...267
Saulo Murilo de Oliveira Mattos
polítiCaSpúBliCaSparaaartiCulação dEgênEroEraça: mEioSparagarantira
rEprESEntatividadEpolítiCaEjurídiCadamulhErnEgrano BraSil ...296
Mariana Dionísio de Andrade e Eduardo Régis Girão de Castro Pinto
partE ESpECíFiCa: inCidênCiaS ConCrEtaS ... 317 rEimagingthEpoliCingoFgEndErviolEnCE: lESSonSFromwomEn’SpoliCEStationS in BraSiland argEntina ... 319
Kerry Carrington, Melissa Bull, Gisella Lopes Gomes Pinto Ferreira e María Victoria Puyol
nECroBiopolítiCadEgênErono BraSilContEmporânEo: oFEminiCídio EmtEmpoSdE FaSCiSmoSoCial ...340
Maiquel Ângelo Dezordi Wermuth e Joice Graciele Nielsson
violênCiaContramulhErESQuilomBolaS: umarEFlExãoSoBrEaapliCaçãodEuma
pErSpECtivaintErSECCionalàluzdaidEiadE ContrapúBliCoSSuBaltErnoSdElinEada por FraSEr ...360
Maria Eugenia Bunchaft, Leonardo Rabelo de Matos Silva e Gustavo Proença da Silva Mendonça
polítiCaSpúBliCaSdEprEvEnçãoaoFEminiCídio EintErSECCionalidadES ...384
Thiago Pierobom de Ávila, Marcela Novais Medeiros, Cátia Betânia Chagas, Elaine Novaes Vieira, Thais Quezado Soa- res Magalhães e Andrea Simoni de Zappa Passeto
dirEitodEvivErSEmviolênCia: protEçãoEdESaFioSdoSdirEitoSdaSmulhErES
indígEnaSno SiStEma intEramEriCanodE dirEitoS humanoS ...417
Julia Natália Araújo Santos e Felipe Rodolfo de Carvalho
análiSEdEgênEroEdE CruzamEntoSintErSECCionaiSdE umprograma paraautorESdE violênCiadoméStiCaContraaSmulhErES ... 441
Mariana Fernandes Távora, Dália Costa, Camilla de Magalhães Gomes e Adriano Beiras
ControlEpEnaldalouCuraEdo gênEro: rEFlExõESintErSECCionaiS SoBrEmulhErES EgrESSaSdamEdidadESEgurançano riodE janEiro ...468
Bruna Martins Costa e Luciana Boiteux
ondEEStãonoSSoSdirEitoS? o CampoFEminiStadE gênEroBordadopElaSmulhErES
atingidaSporBarragEnS ...490
Tchenna Fernandes Maso e Tchella Fernandes Maso
oSSEgrEdoSEpiStêmiCoS dodirEitodotraBalho...520
Flávia Souza Máximo Pereira e Pedro Augusto Gravatá Nicoli
rEFormatraBalhiStaEdESigualdadEdEgênErono BraSil: umapErSpECtiva jurídiCaE
EConômiCa ...546
Natalia Branco Lopes Krawczun, Magno Rogério Gomes e Solange de Cassia Inforzato de Souza
a ColonialidadEdopodErnapErSpECtivadaintErSECCionalidadEdEraçaEgênEro:
análiSEdoCaSodaSEmprEgadaSdoméStiCaSno BraSil ...565
Daphne de Emílio Circunde Vieira Andrade e Maria Cecília Máximo Teodoro
CompEtiçãopolítiCaEdESigualdadESdEgênEronaSElEiçõESparaaSSEmBlEiaSEStaduaiS Em 2018 ...587
Lígia Fabris Campos, Décio Vieira da Rocha, Leandro Molhano Ribeiro e Vitor Peixoto
diSCrit: oSlimitESdaintErSECCionalidadEparapEnSarSoBrEapESSoanEgraCom
dEFiCiênCia ... 612
Philippe Oliveira de Almeida e Luana Adriano Araújo
SEção iii: tEmaiS gEraiS ...642 la CortE intEramEriCanadE dErEChoS humanoS. hErmEnéutiCadEldErEChoal mEdioamBiEntESano, alaidEntidadCulturalyalaConSulta, alaluzdE laSEntEnCia
“lhaka honhat (nuEStratiErra) vS. argEntina” (2020) ...644
Juan Jorge Faundes Peñafiel, Cristobal Carmona Caldera e Pedro Pablo Silva Sánchez
larESpuEStainStituCionalFrEntEalatratadEpErSonaSEnElEStadodE Chihuahua. unanáliSiSdEpolítiCapúBliCa ...676
Martha Aurelia Dena Ornelas
ComunidadESQuilomBolaS, raCiSmo EidEologiano diSCurSodE jair BolSonaro: EStudo
CrítiCodoSdiSCurSoSpolítiCoEjudiCial ...700
Ricardo de Macedo Menna Barreto e Helena Mascarenhas Ferraz
o prinCípio gEralda Boa adminiStraçãono Códigodo proCEdimEnto adminiStrativo portuguêS. piStaSdEinvEStigação...724
Ana Melro
doi: 10.5102/rbpp.v10i2.6855
A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil*
Coloniality within the perspective of the intersectionality of race and gender: an
analysis of the case of domestic workers in Brazil
Daphne de Emílio Circunde Vieira Andrade**
Maria Cecília Máximo Teodoro***
Resumo
A proposta do presente artigo é pesquisar as origens do pensamento de- colonial com base no surgimento do Grupo Modernidade/Colonialidade, a fim de entender como o processo de expansão dos territórios dos países da Europa Ocidental sobre os países do chamado Sul Global culminou na colonização não somente dos corpos, mas dos saberes e das mentes dos dominados. A partir das reflexões de autores decoloniais, como Aníbal Qui- jano e Maria Lugones, debatemos o surgimento do feminismo decolonial e sua importância para o desenvolvimento pessoal das oprimidas que se encontram nas fronteiras limites entre o obscurantismo da sociedade e o seu próprio sofrimento. Diante dessa análise e tendo como referencial as relações de trabalho, concluímos que as ações opressoras se perpetuam no mundo pós-colonial sobre os sujeitos e sujeitas subalternas e são mais in- tensas quando se analisa a interseccionalidade de raça e gênero. Na sequên- cia, propomos uma breve análise normativa do trabalho das empregadas domésticas no Brasil, bem como apresentamos um retrato desse mercado de trabalho, concluindo que sobre elas ainda pesa a opressão “das gentes” e do capital. Por fim, pontuamos uma última reflexão sobre a situação dessas sujeitas, especialmente no momento em que se vive a pandemia causada pelo Coronavírus. A pesquisa utiliza-se da produção acadêmica de autores e auto- ras alinhadas com o pensamento epistemológico decolonial, também como forma de contribuir para a ruptura com o padrão eurocêntrico do saber e reconhecer a importância do surgimento de uma nova proposta, que seja de complementariedade e não de exclusão.
Palavras-chave: Decolonialidade. Raça e Gênero. Feminismo. Direito do Trabalho. Domésticas. Coronavírus.
Abstract
The present article’s main aim is to use the decolonial thought that comes with the emergence of the Modernity / Coloniality, in order to understand how the process of expansion of Western Europe’s territories in the Global
* Recebido em 30/05/2020 Aprovado em 19/09/2020
** Mulher, negra, filha, amiga, feminista, trabalhadora, pesquisadora, advogada, eterna aprendiz. Mestranda em Direito Privado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Ger- ais. Bolsista CAPES pelo Programa de Excelên- cia Acadêmica – Proex. Integrante do Grupo de Pesquisa RED - Retrabalhando o Direito, da PUC Minas, coordenado pelos Professores Dou- tores Maria Cecília Máximo Teodoro e Márcio Túlio Viana. Integrante do GEPROS - Grupo de Pesquisa e Extensão Capitalismo e Proteção So- cial na Perspectiva dos Direitos Humanos e Fun- damentais do Trabalho e da Seguridade Social, da PUC Minas, coordenado pelo Professor Doutor Cléber Lúcio de Almeida. Lattes ID https://or- cid.org/0000-0002-4239-6117
E-mail: [email protected].
*** Mulher, mãe, professora, feminista. Pós- Doutora em Direito do Trabalho e da Seguridade Social pela Universidade de Castilla-La Mancha com bolsa de pesquisa da CAPES; Doutora em Direito do Trabalho e da Seguridade Social pela USP- Universidade de São Paulo; Mestre em Di- reito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Graduada em Direito pela PUC/MG; Professora de Direito do Trabal- ho do Programa de Pós-Graduação em Direito e da Graduação da PUC/MG; Professora Con- vidada do Mestrado em Direito do Trabalho da Universidade Externado da Colômbia. Pesquisa- dora; Líder do Grupo de Estudo RED – Retra- balhando o Direito, vinculado à RENAPEDTS;
Autora de livros e artigos. Advogada. Lattes ID http://lattes.cnpq.br/7521600430933892
ANDRADE, Daphne de Emílio Circunde Vieira; TEODORO, Maria Cecília Máximo. A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.564-585, 2020
South culminated over the centuries in the colonizing not only of bodies, but of flavors and minds of the ones who were forcefully dominated. Based on the reflections of decolonial author, such as Aníbal Quijano and Maria Lugones, this article discusses the rise of decolonial feminism and its importance for the personal development of the oppressed, who find themselves in the vicinity of society’s obscurantism and their own individuality. Through this analysis - having labor relations as a reference – the present work concludes that oppresion is perpetuated against subjects in the post-colonial world, taking into consideration that this same oppresion is even more intense when the intersectionality of race and gender is taken into account. There- fore, we propose a brief normative analysis of domestic labour in Brazil, presenting a portrait of this labour market, concluding these subjects are still inevitably victmized by “the people” and the capital. Finally, this article presents one final reflection on the situation of domestic workers, taking into consideration the seve- rity of the current Covid19 pandemic and its immediate consequences in this field. Finally, this research is based on academic works by authors in line with decolonial epistemological thinking as a way of contribu- ting to a break with the eurocentric knowledge standard and recognizing the importance of the emergence of a new scientific proposal, which should complementarity and not exclusionnary.
Keywords: Decoloniality. Race and gender. Feminism. Labor Law. Domestic workers. Covid19
Que um homem não te define Sua casa não te define Sua carne não te define Você é seu próprio lar Triste, Louca Ou Má – Francisco, el Hombre
1 Introdução
Brasil! A primeira palavra quando se pensa nessa nação é a diversidade. Sim, trata-se de um povo com diferentes matrizes culturais, dos índios aos imigrantes, dos escravos aos seus descendentes. No entanto, com base em qualquer recorte que se estude a sociedade brasileira, não se pode omitir seu passado colonial e escravocrata1.
A colonialidade é fruto da modernidade, porque marca toda a história do desenvolvimento de nossa nação, instaurando-se no presente sob novas formas de dominação que vão além da exploração das terras e da imposição do modo de vida do colonizador ao colonizado. Na América Latina, estudiosos e estudiosas do Grupo Modernidade e Colonialidade foram os primeiros a propor reflexões sobre as diferentes formas de opressão dos grupos subalternizados e como elas se manifestam na pós-modernidade.
Dessa matriz de pensamento, extraem-se as ideias sobre a colonialidade do poder, do saber e do ser. São outras, não tão novas assim, maneiras de perpetuar, no imaginário dos sujeitos e das sujeitas, a existência de um padrão universal de cultura. Trata-se de uma figura referencial para os demais, que invariavelmente recai sobre o homem, branco, europeu, heterossexual e cristão, o qual tem na sociedade, às vezes inconsciente do seu papel transformador, um fio condutor e reprodutor de opressão.
Na ponta desses mecanismos de dominação pelo saber, pela referência do ser e pelo poder estão as mu- lheres pretas e pardas, pobres, como sujeitas invisibilizadas em determinados aspectos da organização social, mas explorados em tantos outros. Por isso, não é coincidência que um importante desdobramento sobre os
1 Cf.: FREYRE, Gilberto. Casa-grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 48 ed. São Paulo: Global, 2003.
ANDRADE, Daphne de Emílio Circunde Vieira; TEODORO, Maria Cecília Máximo. A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.564-585, 2020
estudos decoloniais tenha como recorte a interseccionalidade de gênero e raça. Nesse sentido, destaca-se o trabalho da filósofa argentina Maria Lugones reconhecida por sua contribuição para o estudo da coloniali- dade do conceito de gênero e suas implicações.
A proposta de Lugones revela como as estruturas de poder enraizadas na sociedade latino-americana perpetuam as sujeitas subalternas, em sua maioria pretas e pardas, como minorias frente aos indicadores de desenvolvimento social, econômico e político. E essa realidade tem rostos, tem nomes e tem lugares já previamente designados para serem ocupados na divisão do trabalho do mundo capitalista.
Na sociedade brasileira, o trabalho reprodutivo remunerado é predominantemente prestado por domés- ticas e diaristas, sendo inegável o papel ocupado por elas em nossas vidas, em relação ao cuidado com pes- soas. Não obstante essa tarefa tenha um significado abstrato, tem se revelado bastante palpável nos tempos da pandemia pelo novo Coronavírus. Por isso, tanto no Brasil como em outros países muito se discute sobre a essencialidade de algumas profissões e sobre a necessidade de incentivar o autocuidado.
Verifica-se o crescimento dos debates para rever a divisão sexual do trabalho, cujos números sempre apontaram para a sobrecarga de horas semanais dedicadas pelas mulheres em comparação aos homens nas tarefas de cuidado. Todavia, paralelamente a isso, propomos intensificar esse olhar sobre o trabalho das do- mésticas e diaristas, considerando as recentes medidas legislativas de algumas cidades e Estados brasileiros que incluíram esse trabalho como atividade essencial, portanto, excluindo essas trabalhadoras das medidas de isolamento social indicadas pela Organização Mundial da Saúde como forma de preservação da vida face ao alastramento do Coronavírus.
Para aprofundar essa reflexão, a discussão se inicia na Seção 2 com a conceituação de colonialidade na modernidade, com base nas lições de Aníbal Quijano, um dos fundadores do Grupo Modernidade/Colonia- lidade. Em seguida, a colonialidade do gênero de Maria Lugones é explorada na Seção 3, complementando o estudo sobre as modernas formas de opressão sobre as mulheres e a necessidade de um feminismo que dialogue com essas questões.
Essa relação da interseccionalidade de gênero e raça é exemplificada na Seção 4 com um breve estudo sobre as regras de proteção para as empregadas domésticas brasileiras. Na sequência, debatem-se, na Se- ção 5, os dados relativos ao trabalho doméstico com base na interseccionalidade de raça e gênero a fim de averiguar como os fatores característicos desses trabalhos reforçam ou não a subalternização dessas sujeitas perante a sociedade brasileira.
Por último, na Seção 6, propõe-se a investigação de alguns dos principais efeitos sobre o trabalho das domésticas durante a pandemia por Coronavírus. Essa análise tem como referencial os relatos dessas traba- lhadoras, os quais têm como alguns de seus interlocutores os movimentos sociais representados pelos Sin- dicatos da categoria e a Federação Nacional das Empregadas Domésticas – FENATRAD. Somam-se a esse grupo a Agência da Organização Internacional do Trabalho no Brasil – OIT-Brasil e o Ministério Público do Trabalho – MPT; todos importantes para a construção do diálogo que se propõe a seguir, de combate às discriminações por raça e gênero nas relações de trabalho.
2 Breves apontamentos sobre o estudo da decolonialidade e a colonialidade do saber, do ser e do poder
Na América Latina, a expressão decolonialidade foi trabalhada inicialmente pelo Grupo Modernidade/
Colonialidade iniciado a partir dos estudos acadêmicos de Aníbal Quijano e Walter Mignolo, a quem outros importantes nomes do saber se agregaram, como Enrique Dussel e Imanuel Wallerstein2. Seu ponto de par-
2 Não se ignora que os estudos sobre pós-colonialismo tenham origem em alguns grupos de Universidades localizadas na Inglaterra e
ANDRADE, Daphne de Emílio Circunde Vieira; TEODORO, Maria Cecília Máximo. A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.564-585, 2020
tida é a construção de uma desobediência epistêmica ao modo de pensar tido como racionalizado, homoge- neizante e com pretensões universais, todo ele construído com base na ideia de um conhecimento total de matriz eurocêntrica que teve como marco histórico a descoberta do “Novo Mundo” no final do século XV.
O colonialismo foi a consequência do imperialismo europeu que culminou na conquista dos territórios das Américas, da África e de parte da Ásia. Seu intuito foi instaurar e perpetuar o controle sobre os locais descobertos o que implicava a necessidade de subverter as estruturas sociais dos povos originários. Esse foi o início de um tempo que se denominou modernidade3, marcado por uma dominação direta e política sobre povos não europeus. Um colonialismo que, rapidamente, evoluiu para a colonialidade das esferas do saber, do ser e do poder dessas sociedades4.
Pode-se afirmar que as primeiras formas de repressão sobre os colonizados recaíram sobre suas fontes de saber, o modo como produziam conhecimento com base nos ensinamentos dos ancestrais, orientados por comunicações recíprocas entre os sujeitos regionais, mas que não esvaziavam os significados de seus símbolos e imagens locais. Esses modos de reconhecimento de saberes locais, os quais permitiam aos povos originários identificarem-se como semelhantes, foram ofuscados e substituídos pelo pensamento conforme o padrão cultural europeu ou, em sentido mais amplo, padrão ocidental.
São exemplos dessa situação os casos de apagamento de saberes ou mesmo a negação do importante co- nhecimento nas áreas de agricultura, astrologia, astronomia, engenharia, geografia, geometria, matemática e saúde pelos ameríndios, pelos negros africanos e pelas civilizações pré-colombianas (maias, astecas e incas).
Em seu lugar, introduz-se a ideia de um conhecimento puro, produzido isoladamente, que para ser válido deve ao mesmo tempo ser imparcial, neutro, proposto por sujeitos hierarquicamente superiores em relação aos seus objetos de pesquisa e comprovado segundo métodos cartesianos.
Trata-se de um processo individualista, que se esconde atrás da premissa de uma racionalidade, nega a totalidade de saberes ou promove uma verdadeira “pilhagem de conhecimentos” a que se refere Boaventura de Sousa Santos5. Sua pretensão é se tornar universal, hierarquizante e, portanto, forte o suficiente para tor-
nos Estados Unidos da América, cuja proposta era descontruir a lógica do eurocentrismo acadêmico e investigar criticamente a formação de concepções dominantes da modernidade e suas fontes de opressão no passado colonial, a partir de um novo discurso social, próprio dos sujeitos que foram colonizados, especialmente os indianos, asiáticos e os norte-americanos. Entretanto, a menção à decolonialidade, como sendo uma expressão trabalhada pelo Grupo Modernidade/Colonialidade, refere-se à ruptura iniciada em 1998 por Mignolo ao que denominou “imperialismo” nos estudos culturais, subalternos ou pós-coloniais. Mignolo defendeu que as bases de dominação continuavam a se perpetuar nos estudos sobre o pós-colonialismo, porque tinham como referencial o Império Britânico, como se as heranças de seus coloniais pudessem ser replicadas e teorizadas nos estudos do pós-colonialismo da América Latina. MIGNOLO, Walter.
Postoccidentalismo: el argumento desde América Latina. Em: CASTRO-GÓMEZ, Santiago & MENDIETA, Eduardo (coords.). Teorías sin disciplina: latinoamericanismo, poscolonialidad y globalización en debate. México: Miguel Ángel Porrúa, pp. 26-49, 1998. Disponível em: http://
people.duke.edu/~wmignolo/InteractiveCV/Publications/Teoriassindisciplina.p-df Acesso em: 17 mai.2020, p. 26.
3 Nesse sentido, Enrique Dussel defende a tese que a modernidade tem dois conceitos. O primeiro marca um período de desen- volvimento do ser humano, que saindo do obscurantismo do período medieval, passa a ser guiado pela razão e cujos marcos históri- cos incluem o Renascentismo Italiano entre os séculos XIV e XVI e a Revolução Francesa no século XVIII. Nesse sentido, a Europa é o local onde ocorre essa transformação. O outro conceito entende a modernidade a partir de uma visão global, o qual tem como histórico o processo de expansão dos Impérios Europeus para o descobrimento de outros mundos. Inicia-se com as expedições de portugueses e espanhóis no século XV, desde o Oriente até o descobrimento da América em 1492, ano que significa o “marco tem- poral” da formação de um “Sistema-mundo”. Isso, porque, a partir dessa “integração” se pode contar a história, não obstante seus referenciais sejam o colonialismo e o eurocentrismo. DUSSEL, Enrique. Europa, modernidad y eurocentrismo. Em: LANDER, Edgardo (coord.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales, perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Clacso, pp. 24 a 33, 2000. Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100708040738/4_dussel.pdf Acesso em 17 mai. 2020.
4 Sobre a diferença entre colonialismo e colonialidade Aníbal Quijano explica que o colonialismo se refere a “ [...] uma relação de dominação direta, política, social e cultural dos europeus sobre os conquistados de todos os continentes. Essa dominação se conhece como colonialismo”. A colonialidade constitui“[...] o modo mais geral de dominação no mundo de hoje, uma vez que o colonialismo como uma ordem política explícita foi destruído”. Tradução livre. QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidad- racionalidad. Perú Indígena, ano 29, pp. 11-20, 1992. Disponível em: https://www.lavaca.org/wp-content/uploads/2016/04/quijano.
pdf Acesso em: 17 mai. 2020.
5 Cf.: SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos estud. – CEBRAP, São Paulo, n. 79, pp. 71-94, Nov. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101- 33002007000300004&lng=en&nrm=iso Acesso em 17 mai. 2020.
ANDRADE, Daphne de Emílio Circunde Vieira; TEODORO, Maria Cecília Máximo. A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.564-585, 2020
nar subalternos os povos que não são orientados por essa lógica.
Como parte desse primeiro movimento, o aniquilamento do saber avança sobre o imaginário dos sujeitos colonizados. É um processo que vai além dos saberes, porque interfere no próprio processo de autorreco- nhecimento dos povos originários, substituindo seus referenciais de cultura por outros, apontados como melhores, tanto intelectual quanto visualmente.
Não basta o esvaziamento das memórias desses corpos. Os colonizadores impõem, ainda, diferentes formas de exteriorizar esses padrões de expressão. Trata-se do uso da vestimenta, da linguagem correta, do culto religioso cristão, da superioridade do homem em relação às mulheres e às crianças6, do trabalho como forma de progresso material7, entre outros.
Desse modo, o colonialismo atinge um essencialismo, na medida em que o poder se manifesta sob dife- rentes formas nas relações sociais. Acerca das instâncias em que é possível identificá-lo, Quijano8 explica que:
como o conhecemos historicamente, em uma escala social, o poder é um espaço e uma malha de relações sociais de exploração / dominação / conflito articulado basicamente com base e em torno da disputa sobre controle das seguintes áreas da existência social: (1) o trabalho e seus produtos; (2) dependendo do primeiro, a “natureza” e seus recursos de produção; (3) sexo, seus produtos e a reprodução das espécies; (4) a subjetividade e seus produtos, materiais e intersubjetivos, incluindo conhecimento; (5) a autoridade e seus instrumentos, em particular a coerção, para garantir a reprodução desse padrão de relações sociais e regular suas mudanças.
Não obstante a resistência em alguma medida desses povos colonizados, a conjunção de fatores de domi- nação política — que englobava a produção econômica e cultural — rapidamente toma conta da sociedade em todos os seus vieses. E se transmuta em outro padrão de colonialismo, agora mais complexo, porque insere na mentalidade dos povos não-europeus o desejo 9de pertencerem ao outro lado, moldado como mo- derno e melhor. Esse modelo é o do homem europeu, branco, heterossexual, cristão e burguês, que compõe no imaginário de outros sujeitos a expressão máxima do poder.
Para ascender a uma parcela desse poder, os colonizados sujeitam-se a determinadas condições, cujas formas de implantação e suas consequências compõem o conceito da colonialidade na pós-moderni- dade, não mais do saber e do ser, mas também de poder. Sua marca principal é delimitar os grupos dos dominantes e dos dominados, das maiorias e das minorias sob o ponto de vista da distribuição do poder político, econômico e cultural nas sociedades conforme critérios fictícios definidos como “raças”, “et-
6 “Nesse sentido, Vieira Andrade destacou em estudos preliminares que “ [...] Aristóteles dispôs ser a mulher, em termos de classe, nada diferente de um escravo. Dessa forma, tanto a mulher quanto os escravos seriam desprovidos de uma racionalidade necessária para o “mando” e para a administração da polis. Além disso, a mulher estaria confinada à vida doméstica, âmbito ao qual ela pertence naturalmente de acordo com Aristóteles, haja vista a sua inevitável inferioridade em relação ao homem”. Cf.: BASTOS, Angélica Barroso; COSTA, Bárbara Amelize; VIEIRA ANDRADE, Daphne de Emílio Circunde; DAHAS, Débora Caetano; SOUTO, Gisleule Maria Menezes. Insurreição gênero nos espaços de poder: A representatividade feminina na política brasileira à luz da reforma eleitoral. Belo Horizonte: Motres, pp. 24-25, 2018.
Cf.: ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martin Claret, 2001.
7 Felice Battaglia, analisando os sentidos dados pelos economicistas ao trabalho explica que ele se apresenta, juntamente com a terra e o capital, como um fator de produção. Essa visão de trabalho, portanto, faz alusão ao sentido econômico que se dá ao trabalho, aquele que, em certa medida, exclui da sua compreensão seus fins e utilidades éticas e espirituais BATTAGLIA, Felice.
Filosofia do Trabalho. São Paulo: Saraiva, pp. 19-22, 1958.
8 Cf.: QUIJANO, Aníbal. “Colonialidad del poder y clasificación social”. Journal of world-systems research, v. 11, n. 2, p. 345, 2000.
Tradução livre. Disponível em: https://www.lavaca.org/wp-content/uploads/2016/04/quijano.pdf Acesso em: 17 mai. 2020.
9 Quijano explica que os colonizadores europeus inseriam seu modo de ser na vida dos colonizados e empreendiam maneiras de cooptá-los, dominando-os. Utilizavam-se, para isso, do desejo dos dominados de acesso ao poder. Segundo o autor: “Os coloni- zadores também impuseram uma imagem confusa de seus padrões próprios de produção e significados do conhecimento. Eles os colocaram, primeiro, longe do acesso dos dominados. Mais tarde eles foram ensinados parcial e seletivo, para cooptar alguns domi- nados em alguns casos do poder dos dominadores. Então, a cultura europeia também se tornou uma sedução: dava acesso ao poder.
Afinal, além da repressão, o principal instrumento de todo poder é sua sedução. Europeização cultural tornou-se uma aspiração”.
Tradução livre. QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidad-racionalidad. Perú Indígena, ano 29, pp. 12-13, 1992. Disponível em:
https://www.lavaca.org/wp-content/uploads/2016/04/quijano.pdf Acesso em: 17 mai. 2020.
ANDRADE, Daphne de Emílio Circunde Vieira; TEODORO, Maria Cecília Máximo. A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.564-585, 2020
nias” e “os grupos nacionais” 10.
A partir dessa lógica, é comum que os sujeitos subalternos dos tempos coloniais, discriminados em re- lação aos agentes dominadores, ocupem atualmente os lugares de menor poder na pirâmide social, o que perpetua a consequente discriminação em relação aos que estão no topo. Pode-se perceber esse padrão tanto em nível local (nacionais versus estrangeiros), interpessoal (homens versus mulheres), quanto global (centro versus periferia)11.
Nos tempos atuais, ainda que a dominação política formal dos antigos impérios não se estenda de igual modo sobre as ex-colônias como consequência principalmente da superioridade militar daqueles, o mesmo não se pode dizer das formas de controle econômico, cultural e social, as quais permanecem. O novo colo- nialismo é a continuidade de um processo anterior que se utiliza de novas maneiras de subjugar os povos, agora em uma escala macro e global, impulsionada pelo sistema econômico capitalista e cujos agentes são os descendentes euro-norte-americanos, atuais sucessores do antigo centro de poder da cultura ocidental.
Vive-se então um novo imperialismo que tem na colonialidade, e não mais no colonialismo político- -militar, uma confluência de formas diversas de dominação, as quais reafirmam os padrões anteriores, mas também avançam com novas mentalidades sobre os corpos e as mentes de grupos tidos como subalternos.
Trata-se uma “colonialidade de poder” 12que enforma a sociedade. Em sua base possui o fetiche do trabalho produtivo, do padrão de consumo como felicidade, da igualdade de gênero entre os indivíduos, da universa- lidade do conhecimento e da cultura13.
O movimento da decolonialidade14 propõe recuperar e debater as relações intersubjetivas baseadas na
10 Quijano critica a ideia da discriminação dos sujeitos em raça e classe, porque entende que é uma construção do próprio pro- cesso de dominação, tal como uma estratégia para manter o poder dos europeus sobre os povos colonizados e que se perpetua na colonialidade dos tempos atuais. Para ele: “De fato, se as principais linhas da exploração e dominação social em escala global, as principais linhas de poder mundo atual, sua distribuição de recursos e trabalho entre a população da mundo, é impossível não ver que a grande maioria dos explorados, os dominados, dos discriminados, eles são exatamente os membros das “raças”, dos “grupos étnicos”, dos “países” em que as populações foram categorizadas, colonizadas, no processo de formação dessa potência mundial, desde a conquista da América em diante”. Tradução livre. QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidad-racionalidad. Perú, Indígena, ano 29, 1992, p. 12. Disponível em: https://www.lavaca.org/wp-content/uploads/2016/04/quijano.pdf. Acesso em: 17 mai. 2020.
11 Essa divisão pela polaridade é um dos traços do colonialismo e da colonialidade moderna que, pensado à luz das relações sociais, significa colocar em lados opostos homens e mulheres, cristãos e mulçumanos, etc. Pensado sob a ótica do sistema global, significa repartir o mundo em países do eixo Norte, que se intitulam como socialmente mais desenvolvidos, racionais, superiores e, do eixo Sul, os quais são vistos como atrasados economicamente, não-civilizados. Os primeiros compõem o centro, hoje representados pe- los países da Europa Ocidental, e os demais formam a periferia, a saber: América Latina, África, países mulçumanos e do Sul da Ásia.
12 Quijano explica que o colonialismo se instaura em uma estrutura global, porque tem como principal articulador o poder. Aque- les que detêm o poder (hierárquico, espiritual, sobre os meios de produção ou do conhecimento epistêmico) são os dominantes, enquanto os outros, seus dominados. QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder y clasificación social. Journal of world-systems research, v. 11, n. 2, 2000, p. 342-386. Disponível em: https://www.lavaca.org/wp-content/uploads/2016/04/quijano.pdf Acesso em: 17 mai. 2020.
13 Sobre o colonialismo, Cléber Lúcio de Almeida e Wânia Guimarães Rabello Almeida argumentam que o neoliberalismo atua até mesmo sobre a subjetividade dos trabalhadores, cooptando-se para o aumento da produtividade: “[...] para envolver os trabal- hadores na busca dos desejos do capital, o capitalismo utiliza a produção e mobilização de afetos, ou seja, o poder de gerar normas através dos afetos. Dessa maneira, essas relações afetivas funcionam como base para a adesão dos trabalhadores aos desejos de capital”. ALMEIDA, Cléber Lúcio de.; Almeida, Wânia Guimarães Rabêllo de. El capitalismo neoliberal y la alienación subjetiva y colonial de los trabajadores: Deseos y afectos en el mundo del trabajo. Revista chilena de Derecho del Trabajo y de la Seguridad Social. Vol.
10. Núm. 20, pp. 1-21, 2019. Disponível em: https://revistatrabajo.uchile.cl/index.php/RDTSS/article/view/54227/59293 Acesso em: 07 mar. 2020.
E, também, nesse sentido: “É justamente aqui que parece residir a felicidade como insumo da nova mais-valia. Quando o trabal- hador é forçado a “vestir a camisa da empresa”, a “amar o que faz”, ele nem ao menos sente que trabalha, se dociliza e aceita todas e quaisquer situações, deixando de realizar, na qualidade de ser humano, nos âmbitos pessoal e social, atividades de lazer, bem como a convivência familiar e social”. TEODORO, Maria Cecília Máximo; OLIVEIRA, M. P. S. Felicidade: A mais-valia da modernidade líquida. Em: V ENCONTRO DA RENAPEDTS - Rede Nacional de Grupos de Pesquisa e Extensão em Direito do Trabalho e Seguridade Social, 2019, Rio de Janeiro. TRABALHO, DEMOCRACIA E DIREITOS: Desafios epistêmicos para a desmercantili- zação do labor humano. Belo Horizonte: Virtualis, 2019. v. 1. pp. 286-287.
14 Nos estudos acadêmicos, verifica-se com mais frequência o uso da expressão decolonialidade. No entanto, também se utiliza o termo descolonialidade. Essa última palavra remonta à ideia de descolonizar, como ato ou efeito de romper com a tradição do con-
ANDRADE, Daphne de Emílio Circunde Vieira; TEODORO, Maria Cecília Máximo. A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.564-585, 2020
reciprocidade do conhecimento, nos saberes locais e regionais, tidos como não científicos, muitos deles ig- norados ou aniquilados em razão da prática colonial do poder. E, além disso, permite uma interconexão de elementos às vezes ignorados para a construção do conhecimento acadêmico, como a ideia de raça, classe, sexo e gênero enquanto fatores de discriminação nas sociedades atuais, pensados sob uma perspectiva dos povos latinos e das suas particularidades.
3 Feminismo e colonialidade de gênero consoante Maria Lugones
Em seus estudos, a decolonialidade considera a pluralidade das existências que atravessa os tempos e os espaços. Forma uma linha de pensamento contra hegemônica, não pela mera desobediência epistemológica, mas para revelar outros conhecimentos preexistentes à era da modernidade, mas que foram apagados ou desacreditados. Nesse sentido, constitui-se um despertar das resistências contra os padrões relacionados a raça, classe, sexualidade e gênero. Por isso, os movimentos negro e feminista são importantes desdobramen- tos dessa pesquisa acadêmica.
Consciente disso, a pesquisadora argentina Maria Lugones dedicou-se ao estudo do feminismo, inte- grando o grupo Modernidade/Colonialidade. Para a autora, a colonialidade de gênero integra o conceito de colonialidade, mas não se resume às perspectivas setoriais apresentadas por Quijano. Ao menos não, caso se entendam que essas categorias sejam estanques e incomunicáveis. Por isso, Lugones propôs aprofundar os debates apresentados por Quijano para além dos sentidos da colonialidade de poder por meio do estudo de um feminismo que seja diferente do “feminismo de perfumaria”15.
Sobre o feminismo, o nível dos debates acadêmicos permite-nos compreender a grandeza da luta das mulheres e, ao mesmo tempo, afirmar que vários são os “feminismos” e suas reivindicações, exatamente porque elas sofreram e sofrem diferentes formas de opressão. Nesse sentido, é possível identificar diferentes tipos de movimentos das mulheres ao longo da história, que a literatura tentou enquadrar como “ondas”
do feminismo e cujas reivindicações eram ora centralizadas e homogeneizantes, ora difusas e heterogêneas.
No entanto, o exame de seus contextos e reinvindicações não autoriza concluirmos que entre eles não há correlação. Ao contrário, existe uma certa interconexão entre as questões que suscitam, valendo anotar que a luta feminina é por inclusão e está além das fronteiras dos países em que elas (as mulheres) vivem16.
Nesse sentido, o feminismo decolonial de Lugones17 é mais uma importante reflexão, porque dá um pas- so adiante ao examinar situações concretas sob o ponto de vista da interseccionalidade de raça, classe e gê- nero. Isso para demonstrar o quanto o processo de opressão pode ter uma múltipla combinação de fatores.
hecimento sistêmico eurocêntrico, a partir das experiências e realidades dos pesquisadores do Sul Global. Não há, aparentemente, diferenciação entre o uso das palavras descolonial ou decolonial, mas existem pesquisadores que manifestam sua preferência por um ou outro termo, como é o caso de Maria Lugones, que se refere ao feminismo que pesquisa como o “feminismo descolonial”. Para fins de padronização do texto, serão utilizadas as expressões decolonialidade ou decolonial, mesmo nos trechos que se referem ao pensamento de Lugones, ressalvadas as citações diretas.
15 Lutiana Nacur Lorentz argumenta que: “o feminismo carreirismo-branco, ou de conveniência, ou “de perfumaria”, na verdade é uma fraude ao real movimento porque tem como reais propósitos alavancar a carreira de específicas mulheres, em geral brancas, mas estas reproduzem os motes da sociedade patriarcal, machista e excludente tanto internamente, ou seja, nas próprias casas oprimem, empregadas domésticas em regra, negras e são refratárias (externamente) a libertação das mulheres (notadamente pobres) negando-lhes direitos sociais fundamentais, notadamente os trabalhistas”. LORENTZ, Lutiana Nacur. Paradigmas e paradoxos dos movimentos de mulheres (feministas?) no Brasil. Em: MIRAGLIA, Lívia Mendes Moreira; TEODORO, Maria Cecília Máximo;
SOARES, Maria Clara Persilva (Orgs.) Feminismo, trabalho e literatura: reflexões sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea.
Porto Alegre, RS: Editora Fi, pp. 286-313, 2020. Disponível em Disponível em: http://www.editorafi.org Acesso 8 mar. 2020.
16 Cf.: MATOS, Marlise. Movimento e teoria feminista: é possível reconstruir a teoria feminista a partir do Sul global? Revista de Sociologia Política. 2010, vol.18, n.36, pp.67-92. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-44782010000200006&script=sci_
abstract&tlng=pt Acesso em 20 jun. 2018.
17 Cf.: nota de rodapé 14.
ANDRADE, Daphne de Emílio Circunde Vieira; TEODORO, Maria Cecília Máximo. A colonialidade do poder na perspectiva da interseccionalidade de raça e gênero: análise do caso das empregadas domésticas no Brasil. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 10, n. 2 p.564-585, 2020
Essa situação, de maneira semelhante à discriminação das mulheres brancas e homens negros, fazem as “mu- lheres de cor”18, não-brancas, negras, mestiças, indígenas e asiáticas serem invisibilizadas perante esses dois outros referenciais. Para compreender isso, Lugones propõe o estudo do feminismo decolonial, que se justifica por19:
[...] fornecer uma forma de compreender a opressão de mulheres subalternizadas através de processos combinados de racialização, colonização, exploração capitalista, e heterossexualismo. Minha intenção é enfocar na subjetividade/intersubjetividade para revelar que, desagregando opressões, desagregam- se as fontes subjetivas e intersubjetivas de agenciamento das mulheres colonizadas. Chamo a análise da opressão de gênero racializada capitalista de “colonialidade do gênero”. Chamo a possibilidade de superar a colonialidade do gênero de “feminismo descolonial”.
Por meio de um conjunto de evidências extraídas das relações sociais mais íntimas20, Lugones propôs pensarmos como o processo de colonialidade de gênero teve efeitos diferentes sobre as sujeitas subalternas.
Em especial, as mulheres não brancas e as de cor foram desumanizadas não somente pela dicotomia hierár- quica homem e mulher, mas pela racialização, cujo processo pode ser mais facilmente compreendido com base em um simples exercício imaginário. Conforme Lugones21:
Assim, “mulheres” refere-se a mulheres brancas. “Negro” refere-se a homens negros. Quando se tenta entender as mulheres na intersecção entre raça, classe e gênero, mulheres não brancas, negras, indígenas, asiáticas ou mestiças são seres impossíveis.
Essa compreensão possibilita o reconhecimento de outros fatores de opressão sobre as mulheres que vão além do dimorfismo biológico que enxerga o masculino em oposição ao feminino, a sexualidade do homem em contraposição à da mulher, resumindo-se no padrão do heterosexualismo e da dominação pelo patriarcado. Essas são as características visíveis22 do sistema de gênero moderno/colonial, tal como apre- sentado por Quijano.
Todavia, além disso, cabe pensar na interseccionalidade de gênero e de raça. Assim, quando Quijano propõe que uma das formas de dominação se dá pela organização do trabalho e de seus produtos (a riqueza que ele gera), pode-se pensar que a própria divisão do trabalho, quando compreendida com base no critério da racialização, consolidou o poder colonial e reafirmou novas formas de controle, especialmente a partir do desenvolvimento do sistema capitalista.
A respeito do trabalho assalariado, por exemplo, quando se pensa no sistema capitalista europeu, pode-se afirmar que ele era reservado quase que exclusivamente aos homens brancos nascidos naquele continente23.
18 Lugones explica que o termo se relaciona com o feminismo negro de origem norte-americana, cujas articulações foram propos- tas por “mulheres latinas dos Estados Unidos, asiáticas, chicanas, afro-americanas, ou indígenas norte-americanas”. LUGONES, Maria. Rumo ao feminismo descolonial. Revista de Assuntos Feministas REF, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, v.
22, nº. 03, setembro dezembro/2014, p. 942. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/issue/view/2211/showToc Acesso em 23 set. 2017.
19 Cf.: LUGONES, Maria. Rumo ao feminismo descolonial. Revista de Assuntos Feministas REF, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, v. 22, nº. 03, setembro dezembro/2014, p. 941. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/
issue/view/2211/showToc Acesso em 23 set. 2017.
20 Nesse sentido, relações sociais mais íntimas não se refere ao sexo, mas às relações interpessoais entre pessoas mais próximas entre si.
21 Cf.: LUGONES, Maria. Rumo ao feminismo descolonial. Revista de Assuntos Feministas REF, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, v. 22, nº. 03, setembro dezembro/2014, p. 942. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/
issue/view/2211/showToc Acesso em 23 set. 2017.
22 Quijano defende que há elementos que marcam a colonialidade, sobretudo no cenário capitalista, como elementos que estrutur- am uma “classificação social universal”. Entre eles citem-se: a raça e suas características fenotípicas, como a cor da pele. QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder y clasificación social. Journal of world-systems research, v. 11, n. 2, 2000, p. 374. Disponível em: https://
www.lavaca.org/wp-content/uploads/2016/04/quijano.pdf Acesso em: 17 mai. 2020.
Lugones, no entanto, aponta que esses elementos por si só não compreendem todo o tipo de opressão dos dominadores, sobretudo quando se pensa na questão do gênero. LUGONES, Maria. Colonialidad y género, Tabula Rasa. Bogotá - Colombia, n.º 9: 73-101, julio diciembre 2008. Disponível em: http://www.scielo.org.co/pdf/tara/n9/n9a06.pdf Acesso em 22 mai. 2020.
23 “A divisão do trabalho é completamente racializada e geograficamente diferenciada. Aqui, vemos a colonialidade do trabalho como um entrelaçamento cuidadoso11 de trabalho e raça”. Tradução livre. LUGONES, Maria. Colonialidad y género, Tabula Rasa.
Bogotá – Colombia, n.º 9: 73-101, julio diciembre 2008, p. 80. Disponível em: http://www.scielo.org.co/pdf/tara/n9/n9a06.pdf