RECOMENDAÇÃO Nº 01/2013
O MINISTÉRIO PÚBLICO, neste ato representado pela Promotora de Justiça da Comarca Sanclerlândia - GO, Dra. Andréia Zanon Marques Junqueira que subscreve ao final, no uso de suas atribuições legais e institucionais, com fundamento no artigo 6º, inciso XX, da Lei Complementar Federal nº 75/1993, no artigo 80 da Lei Federal nº 8.625/1993 e na Lei Complementar Estadual nº 25/1998 (Lei Orgânica do Ministério Público do Estado de Goiás), e:
CONSIDERANDO que o Ministério Público tem recebido reclamações constantes, noticiando a ocorrência de poluição sonora produzida por som automotivo;
CONSIDERANDO que, não raramente, observa-se nas ruas e avenidas das cidades da Comarca de Sanclerlândia – GO veículos (parados ou em trânsito) equipados com som automotivo potente, ligados em volume excessivamente alto, inclusive ocasionando o acionamento dos alarmes de outros veículos estacionados e a vibração de janelas e portas próximas ao ponto de propagação;
CONSIDERANDO que é proibido perturbar o sossego público com ruídos e sons excessivos, conforme dispõe o artigo 61 do Código Municipal de Postura de Sanclerlândia (Lei nº 317/1984), artigo 50 do Código de Postura de Buriti de Goiás e artigo 54 do Código de Postura de Córrego do Ouro.
Art. 54, caput, da Lei Federal nº 9.605/1998:
Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Art. 42, inciso III, do Decreto-Lei nº 3.688/1941:
Art. 42. Perturbar alguém o trabalho ou o sossego alheios: III – abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos; Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa.
CONSIDERANDO que o crime de poluição sonora, previsto no art. 54, da Lei de Crimes Ambientais, está caracterizado quando os ruídos produzidos ultrapassarem os limites previstos na legislação em vigor, com riscos à saúde, necessitando da prova da medição por aparelho decibelímetro;
CONSIDERANDO que comprovada a perturbação do sossego por quaisquer outros meios de prova lícitos, estará configurada a contravenção prevista no art. 42, do Decreto-Lei 3.688/41;
CONSIDERANDO as disposições contidas nos arts. 6°, II, e 11 do Código de Processo Penal sobre a necessidade de apreensão dos objetos e instrumentos relacionados com o crime;
CONSIDERANDO que o aparelho de som, as caixas amplificadoras e os demais objetos capazes de produzir sinais sonoros são considerados instrumentos das infrações previstas no art. 42 do Decreto-Lei 3.688/41 e no art. 54 da Lei 9.60998;
CONSIDERANDO o dever legal das Polícias Civil e Militar de prevenir, reprimir, investigar e agir quando da ocorrência de toda e qualquer prática criminosa, especialmente quando de ação penal pública incondicionada;
CONSIDERANDO que, nos termos do artigo 228 do Código de Trânsito Brasileiro (Lei Federal nº 9.503/1997), constitui infração administrativa usar em veículos equipamento com som em volume ou frequência que não sejam autorizados pelo CONTRAN:
Art. 228. Usar no veículo equipamento com som em volume ou frequência que não sejam autorizados pelo CONTRAN:
Infração - grave; Penalidade - multa;
Medida administrativa - retenção do veículo para regularização.
CONSIDERANDO que, nos termos do artigo 1º da Resolução nº 204/2006/CONTRAN (que regulamentou o art. 228 da Lei nº 9.503/1997, acima transcrito), a utilização, em veículos de qualquer espécie, de equipamento que produza som só será permitida, nas vias terrestres abertas à circulação, em nível de pressão sonora não superior
a 80 (oitenta) decibéis, medido a 7 m (sete metros) de distância do veículo;
desfavoravelmente a biota; d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos;
CONSIDERANDO que a Constituição Federal vigente está fundada no respeito à cidadania e à dignidade da pessoa humana, nos termos do artigo 1º, II e III, e parágrafo único;
CONSIDERANDO a necessidade de se coibir, prevenir e reprimir a poluição sonora e o abuso de instrumentos sonoros produzidos por som automotivo, garantindo-se paz, sossego e tranquilidade à população das Cidades da Comarca de Sanclerlândia – GO;
CONSIDERANDO que cabe à Polícia Civil as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, nos termos do artigo 144, § 4º, da Constituição da República;
CONSIDERANDO que compete à Polícia Militar o policiamento ostensivo e a preservação da ordem pública, nos termos do artigo 144, § 5º, da Carta Magna;
CONSIDERANDO que a deterioração da qualidade de vida, causada pela poluição sonora, está sendo continuamente agravada, notadamente no seio dos centros urbanos, merecendo, por isso, atenção constante da Administração Pública e dos operadores do Direito;
CONSIDERANDO o previsto no artigo 11 da Lei de Improbidade Administrativa (Lei Federal nº 8.429/1992):
Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, e notadamente:
(…)
CONSIDERANDO que “todos têm direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (art. 225, caput, da CF/1988);
CONSIDERANDO que o meio ambiente urbano é também regulado pela legislação urbanística, dentre as quais os Códigos de Postura dos Municípios pertencentes à Comarca de Sanclerlândia;
CONSIDERANDO que incumbe ao Ministério Público zelar pela proteção ao meio ambiente e à ordem urbanística, bem como ao interesse público, na forma do artigo 129, inciso III, da Constituição Federal e Lei Federal nº 7.347/1985;
CONSIDERANDO que o Ministério Público pode expedir recomendações devidamente fundamentadas, visando à melhoria dos serviços públicos e de relevância pública, bem como aos demais interesses, direitos e bens cuja defesa lhe caiba promover (art. 35, caput, da Resolução nº 009/2010-CPJ);
E visando resguardar o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à ordem pública, bem como a saúde da população envolvida, RECOMENDA a adoção das medidas administrativas tendentes a intensificar o combate à poluição sonora produzida por som automotivo na Comarca de Sanclerlândia, por meio das seguintes providências:
I) à Polícia Militar:
b) no caso de a guarnição policial militar acionada para o local da ocorrência não poder contar com aparelho decibelímetro, que sejam identificadas e arroladas testemunhas presenciais, nada obstando que sejam integrantes da própria equipe militar, se não houver outras pessoas, encaminhando o infrator à Delegacia de Polícia Civil para as providências mencionadas no item anterior.
II) à Polícia Civil:
a) Que nas hipóteses de perturbação do sossego alheio, promova a lavratura do Termo Circunstanciado de Ocorrência de forma imediata pela prática da infração penal prevista no artigo 42, inciso III, do Decreto-Lei nº 3.688/41, independentemente de anuência ou representação de eventuais vítimas, devendo concluir os procedimentos com a maior brevidade possível, com o encaminhamento para o Juizado Especial Criminal;
b) Que, nas hipóteses de poluição sonora devidamente apurada mediante medição efetuada por decibelímetro, caracterizada especialmente acima de 80 dc, bom base na Resolução CONTRAN nº 204/06, proceda a lavratura de Auto de Prisão em Flagrante pelo crime previsto no artigo 54 da Lei Federal nº 9.605/98, com a instauração do competente inquérito policial, com posterior remessa à Escrivania do Crime, uma vez que comina pena de reclusão, de um a quatro anos, e multa;
c) uma vez configurada a prática da infração penal, providencie a apreensão do aparelho de som existente no automóvel, ou, não sendo isto possível sem dano ao veículo, a apreensão do próprio automóvel, por se tratar de instrumento utilizado para a prática de infração penal, lavrando-se o competente Auto de Apreensão e somente liberando o veículo ou aparelho de som mediante autorização judicial, ouvido o Ministério Público, ante a eventual necessidade de ser produzida prova pericial.
III) aos Departamentos Municipais de Fiscalização:
inclusive a apreensão de veículos com equipamentos que produzam som que perturbe o bem-estar público, com o encaminhamento e a aplicação de multa, nos termos do art. 13, § 4º, do Código Municipal de Posturas;
b) realização, no momento da autuação do infrator, de medição com aparelho de decibelímetro, visando aferir a real poluição sonora emitida no local;
Oficie-se, encaminhando a recomendação ao Batalhão da Polícia Militar de Sanclerlândia, bem como ao Delegado de Polícia e aos Departamentos Municipais de Fiscalização;
Remeta-se cópia da recomendação às Prefeituras Municipais de Sanclerlândia, Buriti de Goiás e Córrego do Ouro, ao Juiz da Comarca e aos Conselhos de Segurança dos municípios em comento.
Sanclerlândia, 09 de maio de 2013.