Revista Baiana de Saúde Pública FAKE NEWS: AS CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS PARA A SAÚDE DA POPULAÇÃO. Wéltima Teixeira Cunha a

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DOI: 10.22278/2318-2660.2020.v44.n1.a3199

ARTIGO ORIGINAL DE TEMA LIVRE

FAKE NEWS: AS CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS PARA A SAÚDE DA POPULAÇÃO

Wéltima Teixeira Cunhaa

http://orcid.org/0000-0002-5438-6768

Resumo

As fakes news e notícias verdadeiras envolvendo aspectos da saúde da popu-lação estão sendo constantemente reproduzidas em redes sociais, como o Facebook, ou aplicativos de mensagens, como o WhatsApp. No entanto, essas mensagens são, em sua maioria, falsas, podendo prejudicar a saúde da população, interromper terapia medica-mentosa, promover supostas medidas curativas e causar efeitos adversos. Parte da popu-lação brasileira tem acreditado nessas mensagens, e às vezes, mesmo em dúvida quanto à veracidade dos conteúdos, retransmitem para seus contatos, que adotam a mesma prática e contribuem para que a desinformação atinja grande parte da população. Nesse sentido, esta pesquisa tem como objetivo realizar o levantamento de notícias que se disseminaram nas redes sociais e foram classificadas pelo site do Ministério da Saúde como verdadeiras ou falsas, e avaliar as consequências negativas para a população da reprodução das fake news identificadas. Procedeu-se um levantamento bibliográfico sobre a temática, com foco nas informações encontradas no site do Ministério da Saúde. A análise de conteúdo ajudou na exploração qualitativa das 69 mensagens e informações de saúde referentes principalmente ao coronavírus. Portanto, esta pesquisa colabora na divulgação de uma situação irrespon-sável, que vem ocorrendo com mais frequência depois da popularização das tecnologias de informação.

Palavras-chave: Informações falsas. Saúde. População. Coronavírus.

a Farmacêutica. Doutoranda do Programa de Doutorado Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento UFBA/IFBA/UNEB. Docente do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologia da Bahia. Vitória da Conquista, Bahia, Brasil. E-mail: weltimacunha@gmail.com

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FAKE NEWS: THE NEGATIVE CONSEQUENCES FOR POPULATION’S HEALTH Abstract

Fake news and real messages, involving aspects of the population’s health, are being a constant in social networks such as Facebook and WhatsApp. However, these messages are mostly fake, which can harm the health of the population, interrupt drug therapy or have no effect. The Brazilian population has believed in these messages, and sometimes, even in doubt, they pass them on to their contacts, thus contributing to the messages reaching a large part of the population. In this sense, this study aims at surveying fake news on the Brazilian Ministry of Health website and assess the negative consequences for the population. A bibliographic survey on the subject was used, and, mainly, the information on the Ministry of Health website. Content analysis helped in the qualitative exploration of the 69 messages and health information referring, mainly to the coronavirus. Therefore, this study will help to publicize an irresponsible situation, which has been occurring more frequently after the popularization of information technologies.

Keywords: False Information. Health. Population. Coronavirus.

NOTICIAS FALSAS: LAS CONSECUENCIAS NEGATIVAS PARA LA SALUD DE LA POBLACIÓN Resumen

Las noticias falsas y las noticias reales que involucran cuestiones de salud de la población se vienen reproduciendo constantemente en redes sociales como Facebook o en aplicaciones como WhatsApp. Sin embargo, en su mayoría estos mensajes son falsos y pueden afectar la salud de la población, interrumpir la terapia con medicamentos o hacer que esta no logre su efecto. La población brasileña ha creído en estos mensajes, incluso en duda de la veracidad de contenido los transmiten a sus contactos, quienes tienen la misma práctica contribuyendo a la difusión de desinformación a una gran parte de la población. Esta investigación tiene como objetivo identificar noticias falsas en el sitio web del Ministerio de Salud y evaluar las consecuencias negativas para la población. Se utilizó una encuesta bibliográfica sobre el tema, principalmente la información en el sitio web del Ministerio de Salud. El análisis de contenido ayudó en la exploración cualitativa de los 69 mensajes y la información de salud que se refieren principalmente al coronavirus. Por lo tanto, esta investigación ayudará a difundir una situación irresponsable, que ha estado ocurriendo con mayor frecuencia después de la popularización de las tecnologías de la información.

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INTRODUÇÃO

As fake news sempre apresentaram abordagem de cunho histórico, econômico, político, social e religioso, levando vantagens a determinadores setores com sua disseminação. Isso, entretanto, tem sido um problema para parcelas da sociedade, inclusive para o setor de saúde, já que grande parte da população as assimilas como verdades ou acredita se tratar de fontes seguras de notícias, e por serem enviadas por pessoas próximas, a qualidade da informação passa despercebida1.

Vale ressaltar que as notícias falsas, as histórias fabricadas, as manchetes e os boatos não são novidade. Seu surgimento se deu na Itália, no século XVI, quando o poeta Pietro Aretino escreveu sonetos difamando todos os candidatos a sumo pontífice, excluindo apenas o seu patrono, Giulio de Médici, para que esse fosse eleito. O poeta tentou, sem sucesso, manipular o conclave papal de 1522, pois outro candidato se elegeu2.

Existem diversas motivações filosóficas, políticas e religiosas para a difusão da informação falsa no campo da saúde pública. Do ponto de vista filosófico, embora aas notícias sejam falsas, podem ter um caráter de verdade que dependeria do contexto. Do ponto de vista religioso, a disseminação de visões absolutas leva à propagação de visões preconceituosas e posturas violentas contra minorias sociais e étnicas no Brasil e no mundo, o que faz parte de uma prática de intolerância historicamente arraigada3-5.

Muitas notícias falsas induzem sua credibilidade ao leitor por meio da emoção ou de afinidade de crenças pessoais, criando uma polarização que prejudica os debates sobre resoluções ou entre visões de mundo3,5.

Nesse sentido, houve outras situações que comprometeram a saúde pública em todo o mundo. Um exemplo ocorreu em 2018, quando viralizaram notícias de que médicos estariam incentivando a população a não se vacinar contra a febre amarela; o Ministério Público Federal (MPF) teria proibido a vacina contra o Papiloma Vírus Humano (HPV); no Japão, a vacina contra HPV apresentava efeitos colaterais graves; ou que a nova dipirona importada da Venezuela continha vírus Marbug, relacionado ao Ebola6.

A tecnologia da informação aproximou o mundo por meio de redes sociais e mecanismos de divulgação das informações. O ambiente on-line abriga plataformas que, a exemplo de WhatsApp, Twitter e Facebook, têm proporcionado a rápida disseminação de notícias, entre elas as que são falsas.

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Segundo o Ministério da Saúde (MS), as fake news vêm contribuindo para a diminuição da cobertura vacinal das campanhas ocorridas a partir de 2016, mesmo que outros motivos também corroborem essa situação. A elas é atribuída a principal causa da queda de 70% a 75% no alcance das ações de imunização, ou seja, um impacto negativo para as ações de saúde pública7,8.

Outra informação do Ministério da Saúde divulgada em 2018 assegura que os aplicativos e trocas de mensagens em redes sociais levaram a população a deixar de se proteger contra a febre amarela, gripe e sarampo1,8.

De acordo com Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos, as notícias falsas se espalham 70% mais rápido do que as verdadeiras e alcançam muito mais gente9. No momento atual, com a pandemia do coronavírus SARS-CoV-2 (Covid-19), muitas notícias falsas têm surgido e se propagado com muita rapidez.

O coronavírus é uma família de vírus causadora de diversas infecções, inclusive em seres humanos. Ele pertence uma família de vírus conhecida desde a década de 1960, e é conhecido por causar alguns tipos de infecções respiratórias. Seu nome deriva da presença de estruturas em sua superfície que lembram uma coroa10.

Os coronavírus causam desde infecções leves, como resfriados comuns, até síndromes mais severas, como a síndrome respiratória aguda grave (Severe Acute Respiratory

Syndrome – SARS) e a infecção causada pelo novo coronavírus11.

As autoridades de saúde pública da China relataram vários casos de síndrome respiratória aguda (SARS) na cidade de Wuhan, província de Hubei, que tem 11 milhões de habitantes. Os cientistas chineses identificaram então um novo coronavírus como o principal agente causador dessa síndrome, ou da pneumonia desconhecida como era referida. A doença agora é denominada Covid-19, e o vírus causador é chamado de síndrome coronariana aguda 2, da síndrome respiratória aguda (SARS-CoV-2). É uma nova cepa de coronavírus que não havia sido previamente identificada em humanos11,12.

O primeiro alerta do governo chinês sobre o surgimento de um novo coronavírus foi dado em 31 de dezembro de 2019. Naquele momento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recebeu um comunicado sobre uma série de casos de pneumonia de origem desconhecida em Wuhan. Um mês depois, no dia 30 de janeiro de 2020, a OMS declarou em Genebra, na Suíça, que o surto do novo coronavírus (2019-nCoV) constituía uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII)12.

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da Covid-19, quando foi constatado que havia mais de 118 mil casos da doença registrados em mais de 100 países, além de 4.291 mortes14. A pandemia caracteriza-se pela distribuição em grande escala de casos de uma doença infecciosa, atingindo diversos países e mais de um continente, com transmissão sustentada entre pessoas. Tal forma é definida pela transmissão da doença por um indivíduo infectado que não esteve nos países com registro da doença a outro indivíduo que também não esteve naqueles países.

A doença pode se apresentar como uma infecção branda, ou até ser capaz de desencadear pneumonia, insuficiência respiratória e levar a óbito15.

Quanto ao diagnóstico, dá-se por exame clínico, bem como pelo histórico do paciente, como viagem ao local de surto ou contato com doentes. A confirmação se dá por meio de exame laboratorial específico para coronavírus e do sequenciamento do genoma viral16.

É importante destacar que os pacientes devem ser mantidos em isolamento enquanto apresentarem sinais e sintomas da doença. Os profissionais de saúde devem ter atenção especial quanto ao uso de equipamentos de segurança ao realizar o tratamento dos doentes, para que não sejam contaminados.

TRANSMISSÃO DOS CORONAVÍRUS

Alguns coronavírus infectam animais e pessoas, a transmissão pode ocorrer quando há o contato com animais e com pessoas contaminadas. Mas a transmissão dessas infecções entre pessoas, ocorre pelas gotículas de secreções eliminadas pelo doente ou assintomática quando tosse, espirra, ou por objetos contaminados.

Acredita-se que os coronavírus apresentam um período de incubação, assintomático, que varia entre cinco e 16 dias. Vale salientar que nas infecções brandas, os sintomas apresentados se assemelham aos de resfriados e gripes, como espirros, tosse, coriza e febre. Esses vírus também causam infecções graves, podendo desencadear pneumonia, insuficiência respiratória aguda, lesões pulmonares e até óbito17,18.

TRATAMENTO DAS INFECÇÕES POR CORONAVÍRUS

Não existe um tratamento para infecções causadas pelo coronavírus. Assim, o tratamento consiste em repouso, ingestão de bastante líquido e medidas para aliviar os sintomas. Em casos mais graves, deve-se incluir suporte de terapia intensiva7.

PREVENÇÃO CONTRA A COVID-19

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• Evitar contato próximo com pessoas que estejam doentes.

• Higienizar as mãos com água e sabão com frequência, especialmente após contato direto com pessoas doentes ou com o meio ambiente e antes de alimentar-se.

• Cobrir a boca e o nariz ao tossir e espirrar, preferencialmente com lenços descartáveis, lavando as mãos em seguida, ou usar a região interna do cotovelo. Se usar lenço, descarte-o imediatamente ou coloque dentro de um saco plástico, para posterior descarte.

• Não compartilhar objetos de uso pessoal, como copos e talheres. • Manter os ambientes bem arejados.

• Evitar contato próximo com animais selvagens ou doentes. • Evitar contato com animais domésticos.

• Quando sair de casa, usar máscara, seja de pano ou descartável. • Manter pelo menos 1 metro de distância entre você e qualquer pessoa. • Manter pelo menos 1 metro de distância para qualquer pessoa que

esteja tossindo ou espirrando. Quando alguém tosse ou espirra, pulveriza pequenas gotas líquidas do nariz, da boca ou da garganta que podem conter vírus e disseminá-lo.

• Evite tocar nos olhos, nariz e boca. As mãos tocam muitas superfícies e podem ser infectadas por vírus. Uma vez contaminadas, as mãos podem conduzir o vírus para os olhos, nariz ou boca.

• Fique em casa se não se sentir bem. Se você tiver febre, tosse e dificuldade em respirar, procure atendimento médico. Siga as instruções da autoridade sanitária nacional ou local, porque elas sempre terão as informações mais atualizadas sobre a situação em sua área.

• Os viajantes que retornam das áreas afetadas devem monitorar seus sintomas por 14 dias e seguir os protocolos nacionais dos países receptores; se ocorrerem sintomas, devem entrar em contato com um médico e reportá-los juntamente com o histórico de viagem.

• Adiar ou evitar viajar para locais onde esteja ocorrendo surto da doença. ISOLAMENTO VERTICAL E HORIZONTAL

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pessoas, e por essa razão, o fechamento de escolas, shoppings, teatros, entre outros locais e eventos que propiciam aglomerações19. De acordo com a OMS, há pessoas que defendem o isolamento vertical, no entanto, o isolamento horizontal é o ideal para se prevenir a disseminação de uma doença19.

Perante a pandemia de Covid-19 que se instalou em 2020, essas duas formas de isolamento geraram diversos debates, pois a doença, que apresenta alta transmissibilidade, possui uma mortalidade maior em determinados grupos, como idosos e indivíduos com problemas de saúde (doenças pulmonares, diabetes, asma, obesidade, câncer, pressão alta, problemas cardíacos e transplantados). Pessoas com Síndrome de Down também são suscetíveis por comumente apresentarem deficiência imunológica, serem obesas, terem condições que envolvem o aparelho respiratório, entre outros20. Por conta disso, há grupos que defendem o isolamento vertical, com o argumento de que é preciso manter as populações de risco protegidas sem causar prejuízos à economia.

O isolamento vertical é uma forma de distanciamento social que busca impedir a circulação daquelas pessoas pertencentes a grupos de risco para determinada doença. Desse modo, indivíduos que têm possibilidade de desenvolver a forma mais grave de uma doença são isolados, evitando o contágio. No entanto, indivíduos menos vulneráveis continuam a realizar normalmente suas atividades.

Esse tipo de isolamento é defendido, insistentemente, por grupos de empresários que acreditam que restringir a circulação de indivíduos menos vulneráveis afeta a economia, já que diversas atividades são paralisadas.

Sabe-se que nem sempre é possível isolar um indivíduo pertencente a um grupo de risco de forma que ele não entre em contato com familiares que podem continuar suas atividades laborais ou com crianças e adolescentes que seguissem frequentando a escola. Isso porque, nessa situação, pode ser que essas pessoas se contaminem nesses ambientes e contaminem o indivíduo vulnerável que está em isolamento19.

No que se refere à quarentena, trata-se uma medida de saúde pública utilizada para impedir a disseminação de doenças com grande transmissibilidade. Quando as pessoas saudáveis são submetidas a uma quarentena, porque tiveram contato com doentes ou estiveram em regiões de surtos epidêmicos, são orientadas a ter uma vida restrita com o intuito de impedir a disseminação20.

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Diante do exposto, este estudo se justifica porque as notícias falsas, ou fake

news, sobre informações de saúde estão sendo amplamente divulgadas nas redes sociais como

verdade. Ao se disseminam com rapidez, atingindo milhares de pessoas que acreditam no conteúdo, podem levar ao comprometimento da saúde coletiva.

Portanto, este estudo teve como objetivo levantar as mensagens falsas sobre o combate ou a prevenção do novo coronavírus que circularam nas redes sociais, no período de 29 de janeiro a 3 abril de 2020, e que foram avaliadas e publicadas pelo Ministério da Saúde em seu site dedicado a sinalizar se as informações eram fake news ou verdadeiras, para, assim, mostrar como cada uma delas pode interferir, negativamente, na saúde da população, caso seja acatada.

MATERIAL E MÉTODO

Para embasamento do estudo, procedeu-se um levantamento de literatura, no entanto, não foi encontrado nenhum estudo com essa abordagem. Portanto, a fundamentação teórica foi embasada em artigos científicos publicados em revistas on-line e sites confiáveis. Já a coleta de dados foi subsidiada quase exclusivamente pelo site do Ministério da Saúde. As fontes de consulta foram suficientes para reunir, comparar e listar as informações falsas publicadas pelo órgão e em outros sites, referentes à prevenção e ao tratamento da Covid-19, entre janeiro e abril de 2020. Utilizou-se o termo fake news como descritor para a busca de artigos. Em seguida, as notícias foram agrupadas em oito quadros, de acordo com o mês de publicação, para análise de conteúdo.

Salienta-se que, nos meses de coleta, poucos estudos foram publicados, em razão de a pandemia da Covid-19 ter se instalado em todo o mundo na mesma época de realização do estudo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O Ministério da Saúde avaliou cada uma das notícias na em data que viralizou nas redes sociais para que a população tomasse conhecimento sobre a veracidade ou não dos conteúdos.

No período de janeiro a abril de 2020, foram selecionadas apenas 83 mensagens na plataforma “Saúde sem Fake News” que circularam nas redes sociais como “verdadeiras”. Do total de mensagens encontradas, 69 eram relacionadas à Covid-19. A primeira foi divulgada no dia 29 de janeiro de 2020 e a última, do período estudado, no dia 3 de abril.

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para o funcionamento do organismo, e o gargarejo com água sal e vinagre é bom em qualquer situação, porém, não cura nenhuma doença, apenas aliviando alguns sintomas gripais. Água quente a 26ºC também não mata o novo coronavírus, haja vista que ele à temperatura de nosso organismo, 37ºC8.

Outras fake news identificadas foram a de que a Rússia havia conseguido a cura para a Covid-19 e um suposto áudio com a voz do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta22,23.

Quadro 1 – Mensagens avaliadas pelo Ministério da Saúde como fakes news ou verdadeiras, divulgadas entre 31 de março e 3 de abril de 2020. Brasília, DF – 2020 DATA MENSAGEM CIRCULANDO FAKE NEWS VERDADEIRANOTÍCIA 31/3/2020 Áudio do ministro da Saúde sobre o pico de infecção do coronavírus.

3/4/2020

Beber água de 15 em 15 minutos cura o coronavírus. Rússia anuncia cura para coronavírus.

Chá de limão com bicarbonato quente cura coronavírus.

Fonte: Elaboração própria.

Quadro 2 – Mensagens avaliadas pelo Ministério da Saúde como fakes news ou verdadeiras, divulgadas em 23 de março de 2020. Brasília, DF – 2020

DATA MENSAGEM CIRCULANDO FAKE NEWS VERDADEIRANOTÍCIA

23/3/2020

Ministro da Saúde pede para compartilhar áudio com informações do coronavírus.

Aplicativo Coronavírus-SUS, do Governo do Brasil, é inseguro. Governo do Brasil anuncia vacina do coronavírus.

China anuncia vacina para coronavírus.

Beber muita água e fazer gargarejo com água morna, sal e vinagre previne coronavírus.

Todos os países adotam as mesmas medidas para enfrentar o coronavírus.

Pesquisa publicada por cientistas chineses diz que coronavírus tornará a maioria dos pacientes do sexo masculino infértil. Colocar luvas para manusear dinheiro e evitar coronavírus. Tomar ou bebidas quentes para matar o coronavírus. Coronavírus morre a 26ºC.

Áudio de professor titular de cirurgia torácica da USP/HC/Incor sobre o Brasil ter se antecipado no combate ao coronavírus.

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Já no dia 23 de março (Quadro 2), foram publicadas 12 mensagens, das quais apenas duas são verdadeiras. Dentre as fake news, há um suposto anúncio da cura da Covid-19 pelo Brasil e pela China e uma denúncia de insegurança no site do Ministério da Saúde. Dentre as notícias verdadeiras encontra-se o áudio de um professor da Universidade de São Paulo (USP), que também foi amplamente compatilhado8.

Tal conteúdo é verdadeiro, pois alguns estados e municípios do Brasil anteciparam as ações de prevenção ao coronavírus, como a ampliação do horário de funcionamento dos postos de saúde, contratação de 5 mil médicos, distribuição de testes de diagnóstico para todo o país e contratação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI)8.

Ainda assim, a autora defende que as ações poderiam ter sido antecipadas ainda mais, e pontua que a distribuição de testes diagnósticos todo o Brasil não significa que a população tenha sido testada em massa, tampouco que pessoas que tiveram contato com doentes ou em locais com propagação comunitária da doença e aquelas com sintoma leves tenham sido submetidas ao teste.

No que se refere às medidas adotadas no combate à pandemia, elas variam de cada país, mas o que se observa é a adoção generalizada do isolamento e distanciamento social, uso de máscara facial e higienização das mãos com água e sabão ou álcool gel, que são recomendadas pela OMS. O uso de luvas também é importante para evitar o contato com o coronavírus e demais microrganismos14.

Segundo o MS8, o artigo que relaciona a Covid-19 à infertilidade masculina está em fase de pré-publicação e não houve revisão por pares, portanto, tem pouco valor científico. Trata-se de dados preliminares sobre a possibilidade de infecção de células do testículo pelo novo coronavírus, e está explicito que não existem dados suficientes para se estabelecer o risco de esterilidade. Outros vírus são capazes de infectar essas células e causar inflamação nos testículos, como o da caxumba. No entanto, na grande maioria dos casos essa infecção não leva à esterilidade. Portanto, até o momento, não é possível afirmar qualquer correlação do coronavírus com esterilidade.

Quadro 3 – Mensagens avaliadas pelo Ministério da Saúde como fakes news ou verdadeiras, divulgadas em 9 de março de 2020. Brasília, DF – 2020

DATA MENSAGEM CIRCULANDO FAKE NEWS VERDADEIRANOTÍCIA

9/3/2020

Beber água quente mata o coronavírus.

Código genético do coronavírus é diferente nos 2 brasileiros infectados.

Óleo consagrado para curar coronavírus.

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O Quadro 3 reúne mensagens sobre uma suposta cura para a Covid-19 através da água ou de óleo milagroso. Ambas as notícias são falsas, e podem acarretar prejuízos, uma vez que se tais óleos estiverem à venda e ao alcance da população, além de não surtir nenhum efeito preventivo ou curativo, ainda podem causar alergia às pessoas mais sensíveis.

O Ministério da Saúde8 não havia estabelecido a recomendação de quarentena aos viajantes assintomáticos até o dia em que a fake news foi disseminada, entretanto, o ministro passou a recomendar no dia 10 de março.

A notícia a respeito do código genético do coronavírus em pacientes do Brasil é verdadeira. De acordo com Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP, o vírus isolado encontrado no primeiro brasileiro com a doença se parece mais com o que foi sequenciado na Alemanha, com duas mutações similares. Já o segundo brasileiro infectado tem o coronavírus mais parecido com o detectado na Inglaterra. A ocorrência de mutações em vírus é esperada, o que não significa que irá gerar mudanças no comportamento do vírus24.

Segundo o MS, o número de mutações ocorre de maneira relativamente estável com o tempo e permite estabelecer uma espécie de relógio molecular. Sendo assim, os cientistas podem identificar de onde veio o vírus e há quanto tempo ele está em circulação entre uma determinada população.

Quadro 4 – Mensagens avaliadas pelo Ministério da Saúde como fakes news ou verdadeiras, divulgadas entre 2 e 3 de março de 2020. Brasília, DF – 2020

DATA MENSAGEM CIRCULANDO FAKE NEWS VERDADEIRANOTÍCIA

3/3/2020

Dono da marca “Quero” faz recall de 244 caixas de milho verde após presença de bactérias.

Receita de coco que cura coronavírus. Caso de coronavírus confirmado no Ceará. Caso de coronavírus confirmado no Piauí.

2/3/2020

Vitamina C cura coronavírus, que veio dos animais, e água com limão que cura câncer.

Utilizar álcool em gel nas mãos para prevenir coronavírus altera bafômetro nas blitzes.

Bombeiro afirma que há mais de 58 casos de coronavírus no Brasil. Coronavírus veio dos animais.

Álcool em gel é a mesma coisa que nada.

Fonte: Elaboração própria.

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As demais mensagens são falsas, haja vista que mesmo a água de coco sendo um hidratante natural, não tem poder curativo contra o coronavírus. Além disso, até a data das publicações, o estado do Ceará não tinha confirmado nenhum caso de Covid-19, e a divulgação da fake news poderia ter levado a população a entrar em pânico.

Quanto à vitamina C, ela não cura a Covid-19 e não existe estudo sobre essa afirmação. A respeito do álcool gel, não há interferência em teste de bafômetro, já que quando utilizado na higienização das mãos, o organismo não tem poder de absorção para que o álcool interfira no exame.

Já a notícia sobre a eficácia do álcool gel não procede, porque na concentração de 70%, o produto tem o poder de higienização e eliminação do vírus ou de bactérias antes de evaporar8.

A suposta afirmação de um bombeiro sobre o número de casos da doença também não procede. Além de não caber ao corpo de bombeiros a divulgação de dados sobre casos de coronavírus, mas sim às instituições de Saúde, havia apenas dois casos de coronavírus confirmados em São Paulo e 252 casos suspeitos até a data da publicação8.

Não se sabe se a transmissão do vírus se deu a partir de animais silvestres ou não. Tampouco se os casos surgiram na China ou se algum soldado de outros país, em missão na China, contaminou os habitantes8.

Apesar de muitos estudos tentarem identificar o local e o momento exatos do surgimento do coronavírus, ainda não se sabe quando, onde ou por que o CoV ultrapassou a barreira das espécies, infectando o homem e tornando-se o SARS-CoV-2. Há indícios de que a transmissão se originou de morcegos25.

Quadro 5 – Mensagens avaliadas pelo Ministério da Saúde como fakes news ou verdadeiras, divulgadas entre 27 e 28 fevereiro de 2020. Brasília, DF – 2020

DATA MENSAGEM CIRCULANDO FAKE NEWS VERDADEIRANOTÍCIA 28/02/2020 E-mail com informações de que chá de erva doce cura coronavírus.

27/2/2020

Fibrose nos pulmões ao respirar e coronavírus Coronavírus veio do inseticida.

Paciente com coronavírus curada em 48h com medicamentos de Aids.

Muitos casos confirmados de coronavírus no Brasil Coronavírus pode ser curado com tigela de água de alho recém-fervida.

Coronavírus vem do morcego.

Caso de coronavírus em casal na Feira dos Importados em Brasília. Tribunal chinês para matar 20 mil pacientes com coronavírus.

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No Quadro 5, todas as mensagens são falsas. O chá de erva doce é indicado, até o momento, para dispepsia, flatulência, quadros diarreico, de bronquite crônica e asma brônquica, tosse, astenia, halitose e indisposição26, mas não há medicamento ou receita de chá para o combate à Covid-19.

Segundo a OPAS, o vírus da COVID-19 pode se propagar por meio do contato direto, indireto (através de superfícies ou objetos contaminados) ou próximo (na faixa de um metro com pessoas infectadas), através de saliva e outras secreções ou gotículas respiratórias expelidas quando a pessoa tosse, espirra, fala ou canta. Indivíduos que entram em contato próximo (a menos de um metro) com uma pessoa infectada podem pegar a Covid-19 quando essas gotículas infecciosas penetram através da boca, nariz ou olhos18.

A última mensagem listada no Quadro 5 tem todas as características de fake news: tom alarmista, informações vagas e erros ortográficos. Além disso, não há nenhum registro de audiência no tribunal chinês sobre esse tema8.

Quadro 6 – Mensagens avaliadas pelo Ministério da Saúde como fakes news ou verdadeiras, divulgadas em 10, 12 e 19 de fevereiro de 2020. Brasília, DF – 2020 DATA MENSAGEM CIRCULANDO FAKE NEWS VERDADEIRANOTÍCIA 19/2/2020 Restaurante que serve carne humana.

12/2/2020

Contato da boca em latinhas causa vermes. Inseto que fura o pé.

Linguiça feita com carne de cachorro.

China cancelou todos os embarques de produtos por navio até março.

Cura contra o coronavírus.

Médicos tailandeses curam coronavírus em 48h. Plástico bolha e o novo coronavírus.

10/2/2020

Torsilax proibido por causar ataque cardíaco. Prevenção da dengue com copo de vinagre.

Médico em Goiânia revoluciona tratamento de câncer. Alerta terapêutico no fechamento ortofacial por uso Vonau. Chá de salsa limpa os rins.

Campanha de vacinação contra sarampo repassará R$ 1 per capita.

Banana cura depressão.

Superbactéria contraída por ingestão de açaí. Cera do ouvido indica câncer.

Chá de abacate com hortelã previne coronavírus.

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O Quadro 6 apresenta 18 mensagens, sendo que apenas quatro são verdadeiras. Porém, nenhuma delas se refere ao coronavírus. A China jamais cancelaria embarques de produtos, além de que há evidencias que o coronavírus não sobrevive por muito tempo fora do corpo de outros seres vivos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vem monitorando aeroportos, portos e fronteiras, e produtos ou alimentos fabricados na China estão entrando no Brasil sem restrições8.

Houve apenas uma cura após tratamento com um coquetel de medicamentos antivirais usados contra o HIV (lopinavir e ritonavir) e gripe (oseltamivir). O caso, registrado na Tailândia, ocorreu com uma paciente de 71 anos, que estava exausta antes da administração dessas drogas e, depois de 12 horas, conseguiu se sentar na cama13.

Há ainda, no Quadro 6, outras publicações de “receitas milagrosas” para cura da Covid-19 utilizando alimentos e folhas do dia a dia, a exemplo do mel e do abacate. Porém, ressalta-se que ainda não há cura para a infecção pelo novo coronavírus13.

Quadro 7 – Mensagens avaliadas pelo Ministério da Saúde como fakes news ou verdadeiras, divulgadas em 6 e 3 de fevereiro, 2020. Brasília, DF – 2020

DATA MENSAGEM CIRCULANDO FAKE NEWS VERDADEIRANOTÍCIA

6/2/2020

Semelhança do vírus HIV com o coronavírus. Situação fora de controle: novo coronavírus. Novo coronavírus causa pneumonia de imediato. Medicamentos eficazes contra o novo coronavírus. Novo coronavírus confirmado em Duque de Caxias. Novo coronavírus confirmado no Brasil.

Novo coronavírus confirmado no Paraná. Dados sobre o novo coronavírus na China. Informações sobre o coronavírus.

3/2/2020

Coronavírus atinge 3 estados brasileiros.

Suspeita de coronavírus no Hospital de Santa Maria (DF). Uísque e mel contra coronavírus.

Óleos para combater coronavírus.

Fonte: Elaboração própria.

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novo coronavírus. Um estudo publicado na revista Lancet, ao analisar dez sequências genéticas do novo coronavírus, observou semelhança do novo coronavírus com o já conhecido SARs (COV), cujo hospedeiro original é o morcego. O MS também reforça que o novo coronavírus não foi criado em laboratório8.

Ademais, até a data da publicação dessas notícias (6 de fevereiro), só havia dois casos de coronavírus confirmados no Brasil, portanto, são falsas as informações de novos casos em diversas regiões e de que a situação estava fora de controle na época. O quadro de pneumonia também não aparece de imediato após a contaminação pelo novo coronavírus. A pessoa infectada apresenta inicialmente sintomas mais leves, tosse seca ou com secreção, podendo evoluir posteriormente para febre acima de 37ºC, dificuldade de respirar, e agregar outros sintomas, como diarreia, inflamação na garganta, congestionamento nasal e dores no corpo. Em alguns casos, chega-se ao quadro de pneumonia8.

No município de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, no dia 3 de março havia dois casos suspeitos. O primeiro caso foi confirmado no dia 23 de março, segundo a prefeitura da cidade, conforme consta no registro da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil27,28. Portanto, foi posterior à data de publicação da notícia listada.

No Brasil o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado em 26 de fevereiro de 2020. O paciente, de 61 anos, estivera na Itália pouco tempo antes e não foi internado. Ficou em quarentena durante 14 dias em sua residência em São Paulo e se recuperou, curando-se da doença. Já a primeira morte em decorrência do novo coronavírus no país ocorreu em 25 de março, uma idosa de 75 anos que residia em Minas Gerais. Já no Paraná, os primeiros casos datam de 12 de março, e as primeiras mortes foram registradas no dia 27 do mesmo mês29.

A mensagem a respeito de “dados sobre o novo coronavírus na China”, de acordo com o MS, tem tom alarmista, erros ortográficos e informações vagas. A única mensagem verdadeira apresentada no Quadro 7 se refere aos casos suspeitos de Covid-19 no Brasil. No dia 3 de fevereiro não tinha nenhum caso suspeito. Três dias depois, surgiram nove casos suspeitos, todos posteriormente descartados30.

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Quadro 8 – Mensagens avaliadas pelo Ministério da Saúde como fakes news ou verdadeiras, divulgadas entre 29 e 31 de janeiro de 2020. Brasília, DF – 2020 DATA MENSAGEM CIRCULANDO FAKE NEWS VERDADEIRANOTÍCIA

29/1/2020

Governo esconde números sobre novo coronavírus. Pesquisadores da UFRJ e o novo coronavírus. Foto da China e o novo coronavírus. Sopa de morcego e o coronavírus.

Chá de erva doce e o tratamento do novo coronavírus.

30/1/2020

Vitamina C + zinco e o novo coronavírus.

Compras da China pela internet e o novo coronavírus. Carnaval será porta de entrada para o novo coronavírus. Médico falando sobre prevenção ao novo coronavírus. Feira dos Importados em Brasília e o novo coronavírus. Vídeo: vitamina D e a prevenção do novo coronavírus. Vitamina D e o novo coronavírus.

Notificação emergencial do Ministério da Saúde sobre novo coronavírus.

31/1/2020 Chá imunológico contra o novo coronavírus.

Fonte: Elaboração própria.

Por último, o Quadro 8 traz 14 mensagens publicadas no período de 29 a 31 de janeiro de 2020. Todas são falsas e se referem ao novo coronavírus.

A primeira mensagem afirma que o governo brasileiro esconde números de casos da Covid-19, porém, a informação é incorreta, visto que nessa data não havia casos suspeitos no Brasil. Os primeiros, como afirmado anteriormente, foram registrados em 6 de fevereiro e acabaram descartados. A primeira confirmação da doença ocorreu em 26 de fevereiro, portanto, até então, não havia razão para os pesquisadores testarem algum medicamento.

A foto relacionada à China apresentava muitas pessoas caídas no chão em uma rua, como se a cena estivesse relacionada à pandemia da Covid-19. A imagem, porém, foi registrada em 20148, anos antes do surgimento do novo coronavírus.

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Revista Baiana de Saúde Pública

O surgimento do novo coronavírus foi precedido por epidemias de outros dois vírus semelhantes a ele: a síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV), surgida na China em 2002, e a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV), surgida na Arábia Saudita em 2012.

Os coronavírus estão entre os vírus mais comuns daqueles descobertos em morcegos, animais considerados a fonte primária de transmissão. Ainda conforme Ritchmann31, a MERS chegou ao ser humano por intermédio de camelos e dromedários, infectados por morcegos. Já no caso da SARS, a civeta, animal parecido com um guaxinim, teria sido o transmissor para as pessoas31.

Repete-se, no último quadro, a suposta informação de que o chá de erva doce é eficaz no combate à doença. Porém, como já afirmado, não há relação comprovada entre essa receita “milagrosa” e a cura para a Covid-1932.

A respeito da indicação de chá imunológico para enfrentamento da Covid-19, publicada em janeiro de 2020, trata-se de fake news, pois nessa data, os testes com medicamentos ainda não tinham sido iniciados. Essas receitas têm a finalidade, apenas, de iludir as pessoas que estão em um momento de incerteza e dor. As vitaminas C e D são necessárias ao organismo para o seu bom funcionamento, no entanto, não há estudos científicos sobre a eficácia desses nutrientes contra o coronavírus8.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Observa-se que a elaboração das fake news demanda dedicação e tempo para disseminá-las com o objetivo de iludir e imprimir na população uma falsa visão sobre a realidade. A população, por sua vez, muitas vezes as aceita como tal e compartilha com seus contatos, sem, contudo, perceber a gravidade dos impactos que mensagens com esse teor podem causar à saúde física e psíquica de quem recebe, acredita e segue alguma das orientações falsas, a exemplo de usar uma “receita milagrosa”.

Além da irresponsabilidade de se utilizar da fragilidade, do medo, do pânico e da dor da população para difundir informações falsas, os autores de fake news prejudicam a saúde coletiva quando há aderência da população às “receitas milagrosas”, deixando de lado outras medidas importantes e simples no combate à Covid-19, como as orientações de órgãos governamentais.

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Outra pesquisa, realizada pelas Universidades de Princeton e de Nova York e publicada pela revista Science Advances em janeiro de 2019, avaliou o perfil de 3,5 mil internautas no Facebook durante a eleição presidencial de 2016, nos Estados Unidos. Constatou-se que as pessoas com idade superior a 65 anos compartilharam sete vezes mais notícias falsas do que aqueles com entre 18 e 29 anos34.

Pessoas com idades superiores a 60 anos costumam apresentar alguma comorbidade, que pode ser agravada ao seguirem notícias falsas acerca de receitas milagrosas. Isso vale também para pessoas jovens que portam alguma doença e, consequentemente, têm baixa imunidade, o que as torna mais suscetíveis à Covid-19, apesar de toda a população ser vulnerável.

Acredita-se que poucas pessoas saibam distinguir, entre as mensagens, quais são as falsas e as verdadeiras. Por essa razão, é necessário que os meios de comunicação endossem campanhas informativas, principalmente nesse momento de pandemia, considerando a facilidade com que a Covid-19 se espalha.

A investigação sobre as ações do Ministério da Saúde no combate às notícias falsas merece aprofundamento, em razão da complexidade da temática. Além disso, acredita-se que a disseminação e a crença em notícias falsas só podem ser resolvidas com um conjunto de mecanismos que vão desde recursos técnicos até o investimento em educação e destreza digital. Também devem ser elaboradas restrições através da legislação, como o corte de incentivos financeiros às páginas e perfis que disseminam notícias falsas, para combater a desinformação, mas sem perder de vista o desafio de respeitar a liberdade de expressão dos cidadãos.

Espera-se que este estudo proporcione aos leitores e pesquisadores o desejo de se aprofundar nessa temática e contribuir para o conhecimento de como diferenciar as fake

news de outras mensagens verdadeiras, bem como esclarecer os conteúdos e impedir que as

informações falsas causem danos à saúde física e mental das pessoas. Também buscou-se tornar o cidadão mais criterioso e capaz de julgar criticamente as informações a que tiver acesso.

Como esta pesquisa foi realizada no início da pandemia da Covid-19, há várias lacunas presentes. Nesse sentido, é importante que novos estudos sejam desenvolvidos, aprofundando o aspecto da metacognição, para se compreender a epistemologia do comportamento das pessoas e os motivos da absorção de informações como verdade sem que haja qualquer fundamento científico, entre outros aspectos.

COLABORADORES

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Revista Baiana de Saúde Pública

3. Revisão e/ou aprovação final da versão a ser publicada: Wéltima Teixeira Cunha. 4. Ser responsável por todos os aspectos do trabalho na garantia da exatidão e integridade de qualquer parte da obra: Wéltima Teixeira Cunha.

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