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Cad. Saúde Pública vol.21 número2

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 21(2):656, mar-abr, 2005 CARTAS LETTERS

Desigualdades raciais e saúde:

questões sobre o processo de racialização Racial inequalities and health:

questions concerning the racialization process Simone Monteiro 1

Livio Sansone 2

1Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

2Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil.

Correspondência

S. Monteiro

Departamento de Biologia, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. Av. Brasil 4365,

Rio de Janeiro, RJ 21045-900, Brasil. [email protected]

A resenha de Isabel Cristina Fonseca Cruz (Cad Saú-de Pública2004; 20:1767-9) destaca o propósito dos organizadores da coletânea Etnicidade na América Latina: Um Debate sobre Saúde e Direitos Reproduti-vos1, qual seja, incrementar a reflexão sobre as

inter-faces entre “raça”, etnicidade, saúde e desigualdades sociais, a partir das ciências sociais e da saúde, real-çando a originalidade e qualidade dos trabalhos. Ade-mais reconhece que o objetivo do livro foi o de con-jugar a visão de profissionais oriundos de instituições acadêmicas e de movimentos sociais.

No entanto, na qualidade de organizadores da co-letânea, faz-se necessário ressaltar dois pontos. O pri-meiro, diz respeito a um equívoco de interpretação da autora da resenha em relação ao capítulo de Mar-cos Chor Maio 2, intitulado Raça, Doença e Saúde Pú-blica no Brasil: Um Debate sobre o Pensamento Higie-nista do Século XIX. Cruz afirma que Maio “extrai ar-gumentos históricos para fundamentar que os médi-cos estiveram comprometidos com projetos polítimédi-cos racistas, como por exemplo, a incentivação [sic]da imigração européia em detrimento da inclusão da mão-de-obra negra no sistema capitalista emergente” (p. 1768). Esta, na verdade, é a perspectiva adotada por Sidney Chalhoub, em seu livro Cidade Febril3,

criticada por Maio em face da abordagem reducionis-ta do historiador no que reducionis-tange às relações entre pen-samento médico, interesses de classes sociais, ideo-logias raciais e políticas de saúde pública. Para Cha-lhoub, o higienismo teve um papel central na confi-guração de um quadro racializado no âmbito das po-líticas de saúde pública, expresso pela dicotomia: en-frentamento da febre amarela (“doença dos imigran-tes brancos”) versusindiferença à tuberculose (“doen -ça dos negros”). Logo na terceira página do capítulo, Maio 2(p. 17-8) revela a autonomia do pensamento

médico-sanitário a-racialista, em face ao mundo dos interesses, argumentando que “diferentemente de Chalhoub, (...) nas duas primeiras décadas do século XX, momento em que explode o debate sobre saúde pú-blica, o higienismo – assentado em princípios da

bac-teriologia e da microbiologia – manteve elos de conti-nuidade com o ideário neo-hipocrático do século XIX no Brasil, particularmente no que tange à recusa a chaves explicativas de natureza racial”. Ao propor um debate historiográfico, não resta dúvida que Maio re-lativiza a perspectiva racializada na esfera da saúde pública, diferente do que foi assinalado por Cruz.

O segundo ponto crítico da resenha refere-se à utilização da frase “expressão do pensamento do gru-po étnico hegemônico” (p. 1768) na abordagem dos capítulos de Peter Fry 4(As Aparências que Enganam: Reflexões Sobre “Raça” e Saúde no Brasil) e de Mônica Grin 5(Políticas Públicas e Desigualdade Racial: Do Dilema à Ação). Como não há qualquer argumento substantivo na resenha que justifique tal atribuição aos trabalhos em tela, esta qualificação adquire um tom de categoria de acusaçãoe, desta forma, não con-tribui para o enriquecimento da discussão acerca das inter-relações entre assimetrias raciais, desigualda-des sociais e os agravos à saúde no Brasil.

A visibilidade adquirida pela temática das rela-ções raciais no âmbito científico e político, em anos recentes, tem revelado posições distintas sobre as es-tratégias de enfrentamento das desigualdades raciais no contexto brasileiro. Tais enfoques são, sem dúvi-da, um estímulo à continuidade do debate, a despei-to das diferenças.

1. Monteiro S, Sansone L, organizadores. Etnicidade na América Latina: um debate sobre raça, saúde e direitos reprodutivos. Rio de Janeiro: Editora Fio-cruz; 2004.

2. Maio MC. Raça, doença e saúde pública no Bra-sil: um debate sobre o pensamento higienista do século XIX. In: Monteiro S, Sansone L, organiza-dores. Etnicidade na América Latina: um debate sobre raça, saúde e direitos reprodutivos. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2004. p. 15-44.

3. Chalhoub S. Cidade febril. São Paulo: Companhia das Letras; 1996.

4. Fry P. As aparências que enganam: reflexões so-bre “raça” e saúde no Brasil. In: Monteiro S, San-sone L, organizadores. Etnicidade na América La-tina: um debate sobre raça, saúde e direitos re-produtivos. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2004. p. 121-35.

5. Grin M. Políticas públicas e desigualdade racial: do dilema à ação. In: Monteiro S, Sansone L, or-ganizadores. Etnicidade na América Latina: um debate sobre raça, saúde e direitos reprodutivos. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2004. p. 331-44.

Referências

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