LUSINARDO DA SILVA
A COMPREENSÃO DE HOMENS SOBRE SEU PROCESSO DE ENVELHECIMENTO
Palhoça 2009
LUSINARDO DA SILVA
A COMPREENSÃO DE HOMENS SOBRE SEU PROCESSO DE ENVELHECIMENTO
Projeto de Pesquisa apresentado na Disciplina do Núcleo da Saúde, na modalidade de Trabalho de Conclusão de Curso II, e utilizado como requisito parcial para obtenção do Título de Psicólogo.
Orientadora: Profª. Zuleica Pretto, Msc.
Palhoça 2009
LUSINARDO DA SILVA
A COMPREENSÃO DE HOMENS SOBRE SEU PROCESSO DE ENVELHECIMENTO
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do Título de Psicólogo e aprovado em sua forma final pelo Curso de Psicologia da Universidade do Sul de SantaCatarina
Palhoça - SC, 28 de novembro de 2009.
__________________________________________________ Profª. Orientadora Zuleica Pretto, Msc.
Universidade do Sul de Santa Catarina
___________________________________________________ Profª. Ana Maria Lima da Luz, Msc
Universidade do Sul de Santa Catarina
___________________________________________________ Psic. Greice Caroline das Neves Pasqualotto, Esp.
Dedico esta pesquisa
A minha amada esposa Isaura Sameshima
Aos meus pais Luis Bezerra da Silva e
Maria da Conceição da Silva
(in memorian)
Ás minhas irmãs Maria Luiza, Antônia Teresinha,
Lícia Vitória e ao meu irmão Luis Filho
Aos amigos Eurico Pacífico e
Dom Geraldo do Espírito Santo Ávila
(in memorian)
Aos velhos, homens e mulheres
AGRADECIMENTOS
À minha amada esposa Isaura Sameshima, pelo amor, apoio, incentivo, dedicação e ajuda com quem posso sempre contar nesses anos de caminhada. O meu amor sempre forte!
Às minhas queridas irmãs Maria Luiza, Antônia Teresinha, Lícia Vitória e ao meu querido irmão Luis Filho pelo convívio fraterno, pela amizade recíproca, pelo carinho que nos une e por fazerem parte do meu contentamento de viver.
Agradecimento especial a minha Orientadora Profª. Zuleica Pretto, Msc. pelo seu saber acadêmico e estímulo para a conclusão desta pesquisa.
Agradeço aos participantes dessa pesquisa que se disponibilizaram a falar sobre suas vidas e contribuíram com a realização desse estudo, a minha gratidão.
A Profª. Ana Maria Luz, Msc. e a Psicóloga Greice Pasqualotto, pela aceitação do convite de participarem da minha banca examinadora, contribuindo para a melhoria deste trabalho.
Aos meus sobrinhos Eurico Júnior, Adriane, Edvarney Luís, Liana, Eveline, Greiciele, Ana Karine, Luiz Phillip, André, Diego, Amanda, Luis Davi, Lílian Taba, Kenzo Sameshima, Bruno e Raquel Ávila inclusive ao meu afilhado Flávio Iryoda pelos momentos maravilhosos que sempre vivemos juntos, em especial a minha sobrinha Liana, Psicóloga e colega pela sua orientação acadêmica e profissional, a minha gratidão e o meu amor de tio.
A todos os meus cunhados e seus filhos pelas alegrias no nosso convívio familiar, especialmente Eymard Mousinho, Lúcia Taba, seu marido Honório Taba e Hélio Sameshima pelo convívio mais próximo.
Aos casais de amigos e compadres Antônio Geraldo e Maria Célia, Isaac e Gláucia; Brasilino e Iara; Ronaldo Starling e Beatriz; Matias e Ione; Wander e Sandra, Edenilze Mousinho e filhos pelo convívio de anos de amizade, pelas risadas, apoio, dedicação e afeto, obrigado por fazerem parte da minha história de vida.
Aos colegas de graduação Regina Guidoni, Gustavo Ferro e Alexandre Maia pelas contribuições em aulas, discussões acadêmicas, seminários e pela agradável companhia de viagem para as aulas na Universidade.
A todos os professores que contribuíram para a minha formação de Psicólogo, a minha admiração, respeito e gratidão.
Paulo Leminski num de seus poemas faz uma pergunta
reveladora:
“Que podia um velho fazer nos idos de 1916, a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos e virar fotografia?”
E agora?
No Século XXI, nos tempos ditos pós-modernos há um
velho-novo?
Quem ele é, como vive e o que pensa?
(SILVA, LuZinardo-2009) -Pesquisador-
RESUMO
A presente pesquisa de conclusão de curso objetivou caracterizar a compreensão de homens sobre o seu processo de envelhecimento, considerando os aspectos biológicos, sociais e psicológicos envolvidos nesse processo. A longevidade de uma população é um fenômeno que vem se acentuando em todos os continentes e com este prolongamento de vida o sujeito traz consigo diversas ações/reações. Para responder o objetivo da pesquisa, foram realizadas entrevistas com quatro homens com idade cronológica a partir de sessenta anos, escolhidos aleatoriamente entre os freqüentadores da Unidade Básica de Saúde (UBS), do bairro Bela Vista-Palhoça. O instrumento de coleta de dados consistiu em entrevistas semi-estruturadas, posteriormente, transcritas, categorizadas e analisadas. As categorias de análise versaram sobre: Reconhecer-se Velho; Identificação das Mudanças Físicas e Biológicas; Identificação das Mudanças Psicológicas; A Rede de Relação Social e a Velhice; e Definição de Velhice. Estas Categorias estão fundamentadas no referencial teórico pré-definido e nas seis perguntas que compõe o Instrumento de Coleta de Dados – Entrevista Semi-Estruturada. Na análise de dados percebeu-se que os sujeitos entrevistados não se reconhecem velhos mesmo diante das suas mudanças fisiológicas. A compreensão sobre a velhice dos sujeitos pesquisados, tanto bibliograficamente como através de suas falas, contribui com relevância para a Psicologia como Ciência da Saúde, na medida em que pode favorecer não apenas a compreensão dessa etapa da vida, como possibilitar propostas de ações interventivas na área.
Palavras-chave: Envelhecimento; Aspectos Biológicos, Sociais e Psicológicos; Psicologia da Saúde.
SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ... 10 2. PROBLEMÁTICA ... 11 3. OBJETIVOS ... 17 3.1 Objetivo Geral: ... 17 3.2 Objetivos específicos:... 18 4. JUSTIFICATIVA ... 18 5. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA... 23
5.1. DEFINIÇÃO E TERMINOLOGIA DA VELHICE... 23
5.2. O ENVELHECIMENTO E AS MUDANÇAS FÍSICAS ... 25
5.3. ASPECTOS PSICOLÓGICOS ENVOLVIDOS NA VELHICE... 27
5.4. ASPECTOS SOCIO-CULTURAIS ENVOLVIDOS NA VELHICE... 29
5.5. ENVELHECIMENTO E POLÍTICAS PÚBLICAS ... 31
6. MÉTODO ... 34
6.1 TIPO DE PESQUISA... 34
6.2 PARTICIPANTES ... 34
6.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS ... 35
6.4 PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS... 35
6.5. ORGANIZAÇÃO, TRATAMENTO E ANÁLISE DE DADOS... 36
7. EXPOSIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS... 36
7.1 RECONHECER-SE VELHO ... 38
7.2 IDENTIFICAÇÃO DAS MUDANÇAS FÍSICAS E BIOLÓGICAS... 39
7.3 IDENTIFICAÇÃO DAS MUDANÇAS PSICOLÓGICAS... 42
7.4 A REDE DE RELAÇÃO SOCIAL E A VELHICE... 43
7.5 DEFINIÇÃO DE VELHICE ... 46
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS... 47
REFERÊNCIAS ... 50
APÊNDICES ... 53
APÊNDICE A ... 54
APÊNDICE B...Erro! Indicador não definido. APÊNDICE C ...Erro! Indicador não definido. APENDICE D ...Erro! Indicador não definido. APENDICE E...Erro! Indicador não definido. ANEXOS ... 55
1. INTRODUÇÃO
Este Trabalho de Conclusão de Curso buscou, a priori, pesquisar bibliograficamente os fenômenos que caracterizam o processo de envelhecimento do sujeito. Para isso, vinculado ao Estágio Curricular Obrigatório da disciplina Núcleo da Saúde do Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL foram realizados pesquisa de campo com homens, a partir de sessenta anos, usuários da Unidade Básica de Saúde Bela Vista, na cidade de Palhoça-SC. Esta unidade de saúde faz parte da Atenção Básica que deve prevenir e promover a saúde da população local, fortalecendo o atendimento primário.
Segundo preconiza o Projeto A atuação da Psicologia na Unidade Básica de Saúde Bela Vista – Palhoça, da Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL (2009), campus Grande Florianópolis - Unidade Pedra Branca - Curso de Psicologia, o serviço de psicologia foi implantado naquela Unidade Básica de Saúde, através de convênio com a prefeitura local, visando ações de promoção, prevenção e assistência à saúde da comunidade, bem como, pesquisas acerca dos fenômenos psicológicos, como meio de formação acadêmica/profissional em Psicologia – estágio profissionalizante e pesquisa, respectivamente.
Analisando o homem no seu processo de envelhecimento, e considerando os aspectos físicos, biológicos, psicológicos e sociais relacionados a este fenômeno, este trabalho se propõe a identificar como o sujeito compreende as mudanças decorrentes do seu processo de envelhecimento. Para responder tais questões, um estudo de publicações sobre o assunto foi feito e posteriormente foi realizada a pesquisa de campo focada no gênero masculino a partir de sessenta anos, uma vez que os órgãos públicos tanto de saúde como em geral reconhecem e divulgam que a velhice, conhecida como terceira idade, se inicia com a idade de sessenta anos.
A pesquisa bibliográfica que fundamenta a análise foi realizada através de publicações referentes ao tema, bem como em bancos de dados on-line da Unisul, UFSC, e sites do Ministério da Saúde, Secretaria de Saúde do Estado de Santa Catarina, Scielo e BVS-PSI, como consta nas referências bibliográficas.
Como fundamentação de análise de dados, buscou-se considerações teóricas referentes à psicologia, gerontologia e geriatria, bem como, definições e terminologias do envelhecimento dentro do contexto do processo de envelhecimento e suas implicações advindas desse processo.
2. PROBLEMÁTICA
Envelhecer é uma fase do desenvolvimento humano, em que o sujeito passa por um processo de mudanças físicas, psíquicas e nas relações que estabelece com o seu meio. Estas mudanças, segundo bibliografias publicadas, repercutem de maneira variada na pessoa tanto nas suas diversas relações de vida, como nas relações do outro para com ele, provocando, muitas vezes, sofrimento e incompreensão diante de uma realidade que nem sempre este sujeito se preparou ou experimentou anteriormente. Considerando o aspecto social do sujeito contextualizado na suas relações interpessoais no trabalho, na família e na comunidade, esta pesquisa associado-se àquelas já publicadas, tem o intuito de trazer mais uma contribuição de como o sujeito considerado cronologicamente velho compreende o seu processo de envelhecimento.
O envelhecimento é um fato certo em que todo e qualquer ser vivo, quando não há interrupção precoce deste processo, experimenta com singularidade. Para a Organização Pan-Americana de Saúde – OPAS, (2006), o envelhecimento é um processo seqüencial, individual, acumulativo, irreversível, universal, não patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprio a todos os membros de uma espécie, portanto, velhice não significa doença, ou prostração generalizada, é um processo natural da vida.
Neri (1999) expõe de maneira clara esse momento que o ser humano vivencia, considera que na velhice o indivíduo fica mais sujeito as perdas evolutivas em vários domínios, em virtude da sua programação genética, dos eventos biológicos, psicológicos e sociais, característicos de sua história individual e dos eventos que ocorrem ao longo do curso da história de cada sociedade. No entanto, para a autora, ainda que na velhice ocorram mais perdas do que ganhos evolutivos não significam dizer que velhice é sinônimo de doença e nem que as pessoas ficam impedidas de funcionar. Para Néri (1999),
portanto, viver significa adaptação ou possibilidade de constante auto-regulação, tanto em termos biológicos quanto em termos psicológicos e sociais.
Adaptação e auto-regulação foram percebidos no Estágio do Posto Bela Vista em que durante a atividade de estágio naquela Unidade de Saúde, observou-se que os usuários envelhecidos, com ou sem acompanhantes, não tinham acesso a profissionais de saúde especializados para atendê-los, contrariando o que é preconizado no Plano de Saúde do Ministério da Saúde. Somando a essa observação, percebeu-se que aqueles sujeitos geralmente estavam sozinhos e sempre em menor número com a relação às mulheres. E quando acompanhados, notou-se que nos momentos que este fazia alguma indagação vinha à tona certa impaciência e hostilidade da parte do acompanhante. O mesmo comportamento foi observado em alguns funcionários quando do atendimento, sendo que a reação do sujeito parecia ser sempre passiva ou demonstrava-se confuso.
Percebeu-se que nas conversas coloquiais entre os funcionários do posto de saúde, aqueles homens eram considerados velhos e o dia específico de atendimento médico para eles, era denominado de “dia dos idosos”. Alguns outros momentos, aludindo à relação de poder, determinados profissionais diziam que as mulheres desses sujeitos é que sabiam dizer da saúde deles, por que eles eram velhos.
Mediante estas observações, surgiu o interesse de pesquisar o envelhecimento daqueles sujeitos do gênero masculino, uma vez que se observou que o comparecimento deles além de ser um índice quantitativo menor, muitas vezes, a acolhida por parte dos profissionais do posto para eles era diferente, já que o acolhimento de mulheres se mostrava mais atencioso.
Diante desta constatação, despertou-se a curiosidade do pesquisador em saber se aqueles sujeitos compreendiam o seu processo de envelhecimento, e se compreendiam como identificavam as suas mudanças físicas, biológicas e sociais nesse processo e, além disso, qual a interpretação que tinham com a depreciação física e orgânica com a suas conseqüências socioculturais e psicológicas. Para isso, o pesquisador foi a campo para ouvi-los e identificar através de suas falas a reavaliação e reconstrução de suas posturas frente aos seus processos de envelhecimento.
Ainda que haja adaptação conforme a faixa etária de cada indivíduo, não se pode deixar de considerar que no envelhecimento, as perdas são muito mais acentuadas diz Fraiman (1995). Este autor ressalta que na sociedade em que vivemos a velhice difere de
outras categorias etárias basicamente no que se referem às inúmeras perdas tais como: de relacionamentos afetivos, tanto por afastamento ou morte; com profundas modificações familiares, a ausência dos próprios pais, do cônjuge; como o surgimento de novas famílias constituídas pelos filhos; ou mesmo diante das dificuldades quanto ao mercado de trabalho ou opção por uma segunda carreira, especialmente sob um sistema coercitivo de aposentadoria e subemprego; e ainda pela batalha contínua contra doenças crônicas e debilidades orgânicas que ameaçam a existência com a proximidade da morte, ameaça à sexualidade, à inteligência e à integridade. As pesquisas comprovam que estas questões apontadas por Fraiman (1995) se instalam no imaginário do sujeito que envelhece e o amedronta.
É importante destacar que o sentimento existencial dessa crise pode variar de pessoa para pessoa, mas de modo geral independe de sexo ou nível sociocultural. Essas expectativas são significantes para o sujeito considerado fisicamente velho e repercute na sociedade de consumo causando mudanças acentuadas num e noutro. Quanto a isso reflete Beauvoir (1970) na sua obra descritiva sobre a velhice diante repercussão social e psicológica que se instala na existência do sujeito que envelhece, onde cita o filósofo Marcuse no seu livro para enfatizar a sua denúncia:
A sociedade de consumo substituiu a consciência infeliz por uma consciência feliz e reprova qualquer sentimento de culpa. É preciso perturbar a tranqüilidade [...] Com relação às pessoas idosas, essa sociedade não é apenas culpada, mas criminosa. Abrigada por trás dos mitos da expansão e da abundância, trata os velhos como parias. (BEAUVOIR, 1970. p. 8)
Quando nos apropriamos sobre o pensamento de Beauvoir (1970), não se pode deixar de considerar as questões econômicas provenientes do envelhecimento progressivo de uma população, como vem acontecendo desde o século XX no Brasil e no restante do mundo.
Chauí (1979) fazendo coro a Beauvoir retrata os percalços da velhice numa sociedade capitalista dizendo que uma das funções do velho é lembrar e aconselhar, ou seja, unir o começo e o fim, fazendo a ligação entre o que foi e o porvir. Entretanto, a sociedade capitalista impede a lembrança, usa o braço servil do velho e recusa os seus conselhos. Cunha uma das citações de Espinosa: “não merece o nome de Cidade, mas o de servidão, solidão e barbárie”, a autora expõe na obra de Bosi (1979) que “a sociedade
capitalista desarma o velho mobilizando mecanismos pelos quais oprime a velhice, destrói os apoios da memória e substitui a lembrança pela história oficial celebrada”. Para Chauí (1979), a sociedade capitalista imputa, aos cidadãos envelhecidos, opressão. A filósofa argumenta que ser velho nessa sociedade significa sobrevier sem projeto, impedido de lembrar e de ensinar, sofrendo as adversidades de um corpo que se desagrega à medida que a memória vai-se tornando cada vez mais viva, a velhice, que não existe para si, mas somente para o outro opressor (ESPINOSA apud CHAUÍ, Bosi 1979, p.18).
Os estudos antropológicos sobre o envelhecimento, que Minayo e Coimbra Jr (2004) abordam no livro Antropologia, Saúde e Envelhecimento; demonstram que a apropriação social do sujeito não está necessariamente agregada na sua idade cronológica, uma vez que é através dos sinais externos do corpo, revelados no processo biológico, que “(...) é apropriado e elaborado simbolicamente por meio de rituais, que definem nas fronteiras etárias, um sentido político e organizador do sistema social”. (MYNAIO & COIMBRA JR, p.15, 2004).
Na educação ocidental, a palavra velho ou velha, tem conotação negativa e remete a um valor depreciativo, quando não, este valor está agregado àquilo que deve ser substituído, reformado ou mesmo jogado fora. Frequentemente, diz-se que “as coisas velhas não prestam mais” ou “o velho está ultrapassado”. Valoriza-se a palavra antigo, em detrimento da palavra velho.
Este valor culturalmente aprendido e incorporado socialmente tem seus contrastes civilizacionais, como explica Scott (SCOTT, apud MINAYO e COIMBRA JR 2004). As diversas sociedades constroem diferentes práticas e representações sobre a velhice, a posição social dos velhos nas comunidades e nas famílias e o tratamento que lhes deve ser dispensado pelos mais jovens. O autor reafirma a idéia de que, para se entender o lugar social dos idosos, é preciso compreender a forma como a sociedade organiza a estrutura, as funções e os papéis de cada grupo etário específico.
Historicamente, o processo de envelhecimento sempre despertou interesse no homem. Segundo Leme (1998), uma das primeiras representações gráficas ligada à debilidade veio do Egito - o hieróglifo que significa velho ou envelhecer, encontrado a partir de 2800-2700 a.C. representa uma pessoa deitada, com ideograma representativo de fraqueza muscular e óssea.
Posteriormente, na Grécia Antiga, o filósofo Aristóteles detalha em livros sua teoria de envelhecimento. Hipócrates, com os seus estudos, desenvolve a sua famosa teoria dos quatro humores corporais, cujos humores, dependendo da quantidade num corpo, levariam ao equilíbrio, doença e a dor. (LEME, 1998).
A teoria de Hipócrates influenciou a teoria de Galeno na Roma Antiga, e se manteve viva até o Renascimento. Leme (1998) afirma que “essas culturas milenares atribuíam ao envelhecimento, progressiva perda de elementos vitais e incapacidade do organismo de repor essas perdas, somado com um acúmulo de agravos e substâncias nocivas – o que, com as devidas ressalvas, podem ser dito ainda hoje.” (LEME, 1998, p.9). Apropriadamente os questionamentos contemporâneos de Néri (1995) sobre este assunto, de certa maneira, repetem aquelas indagações que os homens na antiguidade faziam sobre o processo do envelhecimento quando procuravam entender e lidar com a velhice:
O que é velhice? Ela pode ser evitada? Seus efeitos, uma vez instalados, podem ser anulados, remediados ou compensados? Todos os homens envelhecem do mesmo modo, na mesma época de suas existências e no mesmo ritmo? Que eventos orgânicos, sociais e psicológicos determinam as mudanças em processo e formas de atuação na vida típicos dessa fase? Como ela se articula com as fases precedentes? O que existe de específico à velhice e o que é compartilhado por outros momentos do curso de vida? O início da velhice representa continuidade ou ocorre uma ruptura em relação às fases precedentes? (NERI, 1995, p. 14).
De acordo com Beauvoir (1970), as representações do velho e da velhice, que se refletem no modo como são tratados, resultam tanto das circunstâncias materiais de cada sociedade quanto de seu sistema de valores e crenças, sofrendo mudanças em sociedades diferentes, e ao longo do tempo dentro de uma mesma sociedade.
Diante das indagações contemporâneas de Neri (1995), a escrita de Chauí (CHAUÍ in BOSI, 1979) é uma inquietante resposta nos dias de hoje. Revela que ser velho na sociedade atual é uma luta na preservação da identidade do sujeito, e condena determinadas pesquisas chamadas de “mecanismos científicos” que tem o intuito de apresentar o velho como “incapaz e incompetente”. Por fim, denunciando os atos oprobiosos desta “sociedade opressora”, para com os seus velhos, expõe as explícitas brutalidades de algumas pessoas e a permissividade tácita de outras, manifestadas por mecanismos institucionais visíveis, como a burocracia da aposentadoria e dos asilos. Diz
ainda que os mecanismos psicológicos sutis e invisíveis, como a tutelagem, a recusa do diálogo e da reciprocidade, forçam o velho a comportamentos repetitivos e monótonos.
Mesmo com essa compreensão vociferante, Chauí reconhece a relevância das pesquisas da Psicologia, que através de suas investigações científicas contribuem e partilham com as demais ciências em prol do bem estar do sujeito e da sociedade como todo.
De fato, a Psicologia no exercício da profissão tem os seus princípios éticos comprometidos com a sociedade, como todas as demais ciências. Estes princípios estão regulamentados no seu Código de Ética que agrega os valores contidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas – ONU. (2005, p.5).
A psicologia, em comprometimento nos seus Estatutos, tem como objetivo promoção da saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades, comprometendo-se ainda, a contribuir para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, crueldade e opressão do sujeito, independente de gênero, classe social e ideologia, aprimorando-se cientificamente para um desenvolvimento maior.
Assim como a Psicologia, outras ciências cuidam do envelhecimento do sujeito. Ciências estas, muitas vezes, intercambiam saberes com a Psicologia, buscando aliviar o sofrimento do sujeito envelhecido, visando o seu bem estar. Entre as ciências que procuram se associar com a Psicologia em pesquisas sobre o envelhecimento, destacam-se duas: a Geriatria, ramo da medicina que estuda, previne e trata das doenças e da incapacidade provenientes do envelhecimento, e a Gerontologia, diferente da Geriatria e mais intelectiva com a Psicologia. A Gerontologia, como ciência, também investiga os fenômenos fisiológicos, psicológicos e sociais relacionados ao envelhecimento do sujeito, reunindo conceitos teóricos provenientes de diferentes disciplinas, em torno do seu objetivo de estudo.
Para Carvalho Filho e Netto (2000), a maioria dos gerontologistas define o envelhecimento como a redução da capacidade de sobreviver. Segundo os autores, de fato, o envelhecimento pode ser conceituado como um processo dinâmico e progressivo, onde há modificações tanto morfológicas como: funcionais bioquímicas e psicológicas, que determinam progressivamente perda da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio
ambiente, ocasionando maior vulnerabilidade e maior incidência de processos patológicos que terminam por levá-lo à morte.
Quando se depara com expressivos depoimentos de sujeitos velhos revelando os seus sofrimentos e medo diante da velhice, constata-se ainda mais a necessidade de estender o campo de pesquisa sobre o tema, associando-o a outras ciências voltadas para este fenômeno.
“À medida que caminho para a velhice, a esperança e o louvor perdem a importância, enquanto as reminiscências ficam mais fortes. À proporção que envelheço, as lembranças ganham em intensidade, porque a expectativa da morte põe o passado mais em foco. Noto, também, que me lembro melhor quando estou deprimido (...) O envelhecimento é uma enchente de tormento. Só a morte encerra o fluxo doloroso da decadência.” (DIAMOND in BERMAN, 1989 p.92 e 94).
Reunindo tais dados e percebendo a importância do aspecto psicológico na vivência do processo de envelhecer de cada sujeito, tem-se encontrado artigos científicos, com olhar mais moderno e otimista em relação ao envelhecimento, tais como de Teixeira e Leão (2002) que consideram que o velho de hoje é diferente do velho dos séculos anteriores, e não se prende apenas à questão numérica longeva. Soma-se a isto, também no fato de que na modernidade parece não se esperar do velho uma atitude passiva diante da vida, portanto, o envelhecer para o campo da Promoção de Saúde passa a ser uma preocupação real, na medida em que esta objetiva a longevidade com qualidade de vida.
Reconhecendo-se a contribuição dos avanços científicos em várias áreas do conhecimento, a população dos chamados idosos vem significantemente aumentando, desde a metade do século passado. É um desafio para a saúde pública como Neri (2005) manifesta pontuando que este aumento populacional traz transformações nos valores ético, estéticos e no modo como se percebe o processo de envelhecimento.
3. OBJETIVOS
Investigar qual a compreensão de homens em relação ao seu processo de envelhecimento.
3.2 Objetivos Específicos:
• Identificar como percebem os homens as suas mudanças físicas e biológicas decorrentes do seu processo de envelhecimento;
• Verificar quais as mudanças psicológicas identificadas pelos homens no seu processo de envelhecimento;
• Identificar como os homens vivem as mudanças sociais decorrentes da velhice.
4. JUSTIFICATIVA
O interesse manifestado para a elaboração deste trabalho, originou-se da observação dos homens envelhecidos usuários da Unidade de Saúde Bela Vista, concomitante com a relevância social que o assunto requer. Segundo informações obtidas na própria Unidade de Saúde, além da Campanha Nacional de Vacinação Contra o Vírus Influenza, não existe qualquer estudo e programa que atendam a população idosa local, conforme respondeu a Enfermeira Chefe do Posto quando explicou que é o Clinico Geral que faz o atendimento médico aos pacientes considerados velhos quando procuram o posto de saúde.
Observou-se ainda que a população mulheres envelhecidas que freqüentavam o posto era quantitativamente superior aos de homens considerados velhos, com isso o interesse se tornou mais definido para pesquisar qual a compreensão que aqueles homens, a partir da idade cronológica de sessenta anos, freqüentadores do posto de saúde tinham sobre o seu processo de envelhecimento.
De acordo com Neri (2005), são considerados velhos, nos paises em desenvolvimento, sujeitos com 60 anos ou mais, e nos paises desenvolvidos este marco
etário se inicia aos 65 anos. No entanto, há importantes diferenças entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento; enquanto nos primeiros, o envelhecimento ocorreu associado às melhorias nas condições gerais de vida, enquanto nos outros, esse processo acontece de forma rápida, sem tempo para uma reorganização social e da área de saúde adequada para atender às novas demandas emergentes. Para o ano de 2050, a expectativa no Brasil, bem como em todo o mundo, é de que existirão mais idosos que crianças abaixo de 15 anos, fenômeno esse nunca antes observado no nosso País.
Para este trabalho escolheu-se o termo “velho” para denominar o sujeito, considerando que este termo é mais apropriado diante da construção longeva da velhice. Lopes e Park (2000) pontuam que a substituição do termo velho por idoso leva a um deslocamento da discussão sobre a velhice, colocando a longevidade em foco e deixando de discutir a questão da função social do velho. Tal deslocamento é favorável à manutenção dessa classe etária como mercado consumidor em potencial, e de sua imagem como improdutiva.
As manifestações acometidas no sujeito que envelhece são motivos de estudos para que melhor se entenda, não apenas as suas diversas ações/reações neste contexto, quanto às ações/reações do outro em relação ao sujeito. Isso faz com que as ciências se apropriem delas para pesquisas diversas sobre este tema, existindo com esta temática, uma vasta bibliografia voltada para o processo de envelhecimento do sujeito com as suas implicações biológicas, sociais e psicológicas.
Entretanto, há de considerar a necessidade de futuros trabalhos de corte seqüencial em prol de novas pesquisas em relação ao envelhecimento saudável ou não saudável e de gênero dentro do contexto sócio-histórico e psicológico. Não se pode deixar de relevar a oportuna recomendação de Backes (2001), na qual argumenta que as pessoas estão diante de um problema que envolve aspectos políticos, sociológicos, jurídicos, epistemológicos, antropológicos, psicológicos, e que, para prestar contas a esse conjunto de variáveis, precisam ser tratado interdisciplinarmente.
Uma vez entendendo-se da importância deste conjunto de variáveis citadas pela autora acima, preliminarmente, fez-se um estudo bibliográfico de mapeamento dos conteúdos já publicados, abordando o assunto envelhecimento, para num segundo momento realizar-se a pesquisa de campo.
Considerando as pesquisas estatísticas da ONU informando que o continente europeu, onde vivem 12% da população mundial, 28% das pessoas estão com mais de 75 anos de idade, e nos paises qualificados como de Terceiro Mundo o crescimento da população com idade superior a 60 anos aumentou a partir da metade do Século XX, a importância da pesquisa é mais preeminente.
De acordo com Carvalho Filho e Netto (2000), entre os anos de 1980 e 2000, o crescimento total da população na América Latina foi de 120%, e neste período o aumento populacional de pessoas com mais de 60 anos foi na ordem de 236%, ou seja, duas vezes maior do que o percentual da população total, com previsão para o ano de 2025 numa estimativa de 16 milhões de indivíduos com mais de 60 anos só na América Latina. No caso do Brasil, a projeção para o ano 2025 é numericamente considerável conforme os autores acima citados,
(...) demonstram que o Brasil deverá possuir a sexta maior população idosa do mundo, com cerca de 32 milhões de pessoas com idade acima de 60 anos (...)1 A expectativa de vida e o crescimento da população idosa se acham
relacionadas às taxas de fertilidade e mortalidade (...) A diminuição da taxa de fertilidade associada à redução da mortalidade de adultos e idosos, e que está ocorrendo mais rapidamente há três décadas, tem como efeito mudar a base da pirâmide populacional, hoje menor que em 1960 e, seguramente no ano de 2020 menor que hoje.” (CARVALHO FILHO e NETO, 2000, p. 15 e16)
Tendo em vista estas constatações reveladas sobre o crescimento acentuado da população de velhos no mundo, o interesse para a realização deste trabalho aumentou. Afinal, a longevidade dos sujeitos é um fenômeno de conquistas no campo social e da saúde, com conseqüências financeiras públicas e privadas. “O envelhecimento, como um processo, representa novas demandas por serviços, benefícios e atenções,” (NERI e DEBERT, 1999, p. 63). trazendo mais incursões psicológicas nesta mesma sociedade, e em especial na população envelhecida.
De acordo com o artigo “Empoderamento como estratégia de Promoção da Saúde no campo do Envelhecimento” de autoria de Teixeira e Leão (2002), este envelhecimento
populacional traz repercussões para a saúde da população, na medida em que ocorre a chamada transição epidemiológica, ou seja, uma mudança na incidência e prevalência das doenças, bem como nas principais causas de morte. Desse modo, o envelhecimento deve ser uma preocupação real para o campo da Promoção de Saúde, na medida em que esta objetiva a longevidade com qualidade de vida.
Quando se fala em qualidade de vida, consideram-se os aspectos psicológicos envolvidos no envelhecimento. Referente a essas alterações, Beauvoir (1970) considera que avelhice acarreta, ainda, conseqüências psicológicas, onde certos comportamentos são considerados, com razão, como característicos da idade avançada. Como todas as situações humanas, ela tem uma dimensão existencial ao modificar a situação do indivíduo com o tempo e, portanto, sua relação com o mundo e com sua própria história. A autora defende, ainda, que, hoje, é abstrato considerar em separado os dados fisiológicos e os fatos psicológicos, visto que eles se impõem mutuamente.
Beauvoir (1970), no Século XX, quando escreve das conseqüências advindas do envelhecimento, está caracterizando os resultados do processo de envelhecimento que se manifestam de forma variada no sujeito. Com propriedade, a autora reconhece que a questão não é simplória, exige estudos científicos diante da complexidade da dimensão existencial do sujeito com o mundo e com a sua própria história. E é sobre esse sujeito atrelado à sua história que a psicologia necessita desenvolver mais estudos buscando, com isso, melhor qualidade de vida para todos envolvidos neste processo de envelhecimento.
Para Neri (1995), há vários aspectos que necessitam de uma base de conhecimento sistematizado em relação aos estudos e trabalhos na psicologia do envelhecimento. Ela é a área que se dedica à investigação das alterações comportamentais que acompanham o gradual declínio na funcionalidade dos vários domínios do comportamento psicológico nos anos mais avançados da vida adulta.
As tensões emocionais manifestadas fisicamente no sujeito, e constatadas por outras ciências, respalda a importância e necessidade que a Psicologia tem na busca de melhor entendimento no processo de envelhecimento desse sujeito e suas conseqüentes implicações. O estado de tensão emocional é responsabilizado pela maior incidência de diversas infecções como, por exemplo, a aterosclerose, porém discute-se sua influência no processo de envelhecimento.
Borulière (BORULIÈRE apud CARVALHO FILHO e NETO, 2000) procurou analisar esse fato estudando 40 idosos portadores de úlcera gastroduodenal em comparação com 40 idosos sem qualquer enfermidade. Observou no grupo de ulcerosos, menor capacidade física, declínio mais rápido da capacidade intelectual, freqüentes alterações da personalidade e maior estado de tensão, não podendo descartar a tensão emocional como aceleradora do processo de envelhecimento.
Este reconhecimento independe de correntes de abordagem psicológica, considerando que a Psicologia é presença necessária para ajudar o sujeito envelhecido, quando vislumbra para si, saúde e bem-estar no seu convívio singular e com o meio em que interage. A importância de um acompanhamento psicológico colabora no equilíbrio, entre os limites e potencialidades do sujeito, na obtenção de um envelhecimento mais bem-sucedido. Como se refere Neri e Freire (2003), o envelhecimento bem-sucedido também é visto como uma competência adaptativa do indivíduo, ou seja, a capacidade generalizada para responder com flexibilidade aos desafios resultantes do corpo, da mente e do ambiente. Esses desafios podem ser biológicos, mentais, autoconceituais, interpessoais ou socioeconômicos. Segundo os estudiosos, essa competência é multidimensional: (a) emocional, no sentido das estratégias e habilidades do indivíduo para lidar com os fatores estressores; (b) cognitiva, em relação à capacidade para resolução de problemas; e (c) comportamental, no sentido do desempenho e da competência social.
A compreensão sobre a velhice, dos sujeitos pesquisados, permitirá tanto bibliograficamente como através de suas falas, o mapeamento desse processo de envelhecimento do sujeito, importante para a Psicologia e demais ciências diante dessa evolução demográfica progressiva em que a velhice, que cada vez mais se torna um desafio social.
A questão sociocultural está implicitamente agregada ao resultado e ao prolongamento de um processo biológico que Beauvoir (1970) afirma que não é estático, mas resultado e prolongamento de um processo, no qual está ligada à idéia de mudança. Mas, a vida do embrião, do recém-nascido, da criança, é uma mudança contínua, não caberia concluir daí, como fizeram alguns que a existência é uma morte lenta. O gerontologista americano Lansing (1970) propõe a seguinte definição de envelhecimento: “Um processo progressivo de mudança desfavorável, geralmente ligado à passagem do
tempo, tornando-se aparente depois da maturidade e desembocando, invariavelmente na morte”. (LANSING apud BEAUVOIR, 1970, p.17).
Sim, de fato, não é estático o processo biológico como não é estático o processo social que se transforma diante desta realidade quantitativa longeva, exigindo mais estudos e mais pesquisas científicas de modo a buscar soluções para o bem estar de todos envolvidos. O estímulo de uma maior integração psicológica e social trará melhor qualidade de vida para velhos e para os seus cuidadores, vez que nem sempre, um e outro, sabem que lugar ocupar diante das perdas e ganhos advindos da velhice que avança.
E neste andamento do antes, durante e depois, é importante que a Psicologia ajude, oriente, facilite e traduza com o sujeito esta fala neste instante de envelhecimento em que muitas vezes ele silencia e sofre.
5. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A fundamentação teórica deste trabalho é organizada em subitem para maior compreensão dos leitores. Nesse sentido, investigaram-se questões sobre o envelhecimento humano no que diz respeito às transformações físicas, biológicas, psicológicas e como esses sujeitos compreendem tais mudanças. E qual a interpretação que fazem dos fatores externos, tais como, a aceitação do processo de envelhecimento, a família e o meio social em que vivem, e por fim, como contribuem e agregam para si o aproveitamento e entendimento dessa fase da vida.
5.1. DEFINIÇÃO E TERMINOLOGIA DA VELHICE
As definições e terminologias usadas para designar o sujeito em idade avançada são diversas. Diante destas variedades de termos e definições pesquisadas, para este trabalho, adotou-se a terminologia “velho”. O Caderno de Atenção Básica do Ministério
da Saúde (2006) chama a atenção para uso de termo velho, não de maneira depreciativa, mas que em geral não é usado por uma questão de preconceito social.
Neri e Freire (2000) destacam outras nomenclaturas que identificam o velho, apontando que até recentemente, as pessoas eram chamadas de crianças, jovens e adultos, ou de velhos, sem meias-medidas, nem meias-palavras. Para os autores, na atualidade, está ocorrendo uma ampliação do número de termos com os quais podem designar as pessoas, que já viveram mais tempo ou a fase da vida antes designada apenas como velhice. Entre os mais comuns são: adulto maduro, idoso, pessoa idosa, pessoa de meia-idade, maturidade, idade madura, maior idade, melhor idade, idade legal e, o mais comum, terceira idade.
Algumas pessoas preferem ser chamadas de maduras ou da terceira idade, mas não gostam de ser denominadas velhas ou idosas. “É muito comum, hoje em dia, as pessoas dizerem que velhice não existe ou que velhice é um estado de espírito, ou que a vida começa aos quarenta.” (NERI e FREIRE, 2000, p.8).
A respeito da pessoa velha, Neri e Debert (1999), dizem que uma das marcas da cultura contemporânea é a criação de uma série de etapas no interior da vida adulta ou no interior deste espaço que separa a juventude da velhice como: "meia-idade", "idade da loba", a "terceira idade", a "aposentadoria ativa”. Seja como for, todas essas expressões teriam pelo menos dois senhores: um deles é o mercado de consumo para cada uma das etapas, o outro é a tentativa de quebrar preconceitos.
O envelhecimento mesmo sendo um processo que se desenvolve em todo e qualquer sujeito, não é bem recebido ou visto em si mesmo e socialmente. O sujeito diante de mudanças corporais, ainda que em outro tempo tenha visto e convivido com velhos, em decorrência do seu envelhecimento pode manifestar transtornos psicológicos diversos, como depressão, fobia, incompreensão, para citar alguns (NERI e FREIRE, 2000).
Indiferente às terminologias citadas, pode-se afirmar, em definição, que a velhice é um fenômeno biológico natural e social que se processa, existencialmente, sobre o ser humano, defrontando-se o sujeito com problemas e limitações de ordem biológica, econômica e sociocultural.
5.2. O ENVELHECIMENTO E AS MUDANÇAS FÍSICAS
Convive-se e se experimenta que o envelhecimento do homem se processa em toda a sua existência. Esse processo inicia-se imediatamente após a fecundação, visto que muitas células envelhecem, morrem e são substituídas antes mesmo de nascer. As bibliografias pesquisadas sobre o tema, têm demonstrado que envelhecer é um acontecimento natural que compõe o desenvolvimento normal e integral de qualquer pessoa, sendo produto de um processo dinâmico de uma vida na qual o indivíduo se modifica incessantemente.
A minuciosa descrição literária que Beauvoir (1970), na citação que segue, faz do processo físico-biológico de envelhecimento do sujeito, uma exposição que nem sempre se lê ou se ouve da parte de determinados especialistas ou profissionais de saúde. De modo que se possa ter assegurado este entendimento processual por todos, justifica a manutenção do parágrafo na íntegra como assim se descreve:
A aparência do indivíduo se transforma e permite que se possa atribuir-lhe uma idade, sem muita margem de erro. Os cabelos embranquecem e se tornam rarefeitos; não se sabe por quê: o mecanismo da despigmentação do bulbo capilar permanece desconhecido; os pelos embranquecem também, enquanto em certos lugares – no queixo das mulheres velhas, por exemplo – começam a proliferar. Por desidratação e em conseqüência da perda de elasticidade do tecido dérmico subjacente, a pele se enruga. Os dentes caem (...) A perda dos dentes acarreta um encolhimento da parte inferior do rosto, de tal maneira que o nariz – que se alonga verticalmente por causa da atrofia de seus tecidos elásticos – aproxima-se do queixo. A proliferação senil da pele traz um engrossamento das pálpebras superiores, enquanto se formam papos sob os olhos. O lábio superior míngua; o lóbulo da orelha aumenta. Também o esqueleto se modifica. Os discos da coluna vertebral empilham-se e os corpos vertebrais vergam: entre 45 e 85 anos o busto diminui dez centímetros nos homens e quinze nas mulheres. A largura dos ombros se reduz e a da bacia aumenta; o tórax tende a tomar uma forma sagital, sobretudo nas mulheres. A atrofia muscular e a esclerose das articulações acarretam problemas de locomoção. O esqueleto sofre de osteoporose: a substância compacta do osso torna-se esponjosa e frágil; é por este motivo que a ruptura do colo do fêmur, que suporta o peso do corpo, é um acidente freqüente. O coração não muda muito, mas seu funcionamento se altera, perde progressivamente suas faculdades de adaptação, o sujeito deve reduzir suas atividades para poder poupá-lo. O sistema circulatório é atingido; a arteriosclerose não é a causa da velhice, mas é uma de suas características mais constantes (...) As veias perdem sua elasticidade, o débito cardíaco decresce, a rapidez da circulação diminui, a pressão sobe (...) O consumo de oxigênio no cérebro reduz-se. A caixa torácica torna-se mais rígida e a capacidade respiratória, que é de 5 litros aos 25 anos, cai para 3 litros aos 85. A força muscular diminui. Os nervos motores transmitem com menor velocidade as excitações e as reações são menos rápidas. Há involução dos rins, das glândulas digestivas, do fígado. Os órgãos dos sentidos são atingidos. O
poder de acomodação diminui. A presbiopia é um fenômeno quase universal entre os velhos; e a vista “cansada” faz com que a capacidade de discriminação decline. Também diminui a audição, chegando frequentemente até a surdez. O tato, o paladar, o olfato têm menos acuidade de outrora (...) No homem idoso, não há anomalia especial dos espermatozóides; em teoria, a fecundação do óvulo pelo esperma senil é indefinidamente possível. Não existe lei geral sobre a interrupção da espermatogênese, mas apenas casos particulares. Entretanto, a ereção é duas ou três vezes mais lenta do que na juventude. (As ereções matinais que se observam, mesmo numa idade muito avançada, não têm um caráter sexual). Ela pode ser conservada por muito sem ejaculação, devendo-se esse controle, ao mesmo tempo, à experiência do coito e a uma redução da intensidade da resposta sexual (...) Com a idade, as possibilidades de ejaculação e de ereção diminuem e até desaparecem. Mas a impotência não acarreta sempre a extinção da libido.” (BEAUVOIR, 1970, p. 34 a 36).
Esta detalhada descrição que Beauvoir estampa, parece ser uma realidade que faz parte da história de qualquer sujeito, independente da cultura, etnia e nível socioeconômico, ou qualquer das referências que se imprime no homem como diferença social e regional. O processo de envelhecimento, descrito acima, faz parte do ciclo de vida do ser humano.
As transformações físico-orgânicas se evidenciam durante toda a existência, contudo, quando se envelhece essas perdas se acentuam nos funcionamentos orgânicos. Isso acontece com todas as reservas orgânicas que são acumuladas em anos anteriores à velhice. Para Leme (1998), a capacidade de adaptação do indivíduodepende, em grande parte, de sua disponibilidade de reserva. Assim, o idoso, que progressivamente perde reservas orgânicas, também progressivamente perde sua capacidade de adaptação a estresses orgânicos ou psicológicos, bem como as mudanças e variações do dia-a-dia.
Portanto, quando se depara com sujeitos velhos, com capacidade de desenvolverem os seus projetos de vida saudáveis, e inadvertidamente acometidos de uma doença, uma cirurgia, um esforço físico ou psíquico acentuados, podem sofrer de falência orgânica resultante de perdas de reservas decorrentes dos anos vividos. Uma das doenças, preocupante na saúde pública, no envelhecimento não-saudável do sujeito, é a demência e as suas conseqüências sócio-familiares. (FONSECA et al, 2008)
Muitos sujeitos com demência apresentam sintomas e necessidades de saúde que podem ser comparadas àquelas dos indivíduos que possuem câncer, sendo, até mesmo, mais duradouros. Dentre estes sintomas, encontram-se confusão mental, incontinência
urinária, dor, irritabilidade aumentada e diminuição do apetite. (HIGGINSON apud FONSECA et al, 2008).
Dentre as demências, a mais prevalente é a doença de Alzheimer, que apresenta como primeiro fator de risco a idade. Suas principais características são dificuldades progressivas de memória, linguagem, comportamento e afetividade. A perda de autonomia vai ocorrendo lentamente. (FONSECA et al, 2008).
Em geral, os profissionais da saúde apresentam boas noções sobre este processo extremamente danoso para o indivíduo velho e aqueles que estão ao seu redor. O enfermeiro é identificado como um dos principais agentes orientadores do doente de Alzheimer e de sua família, principalmente em meios rurais. Além disso, o entendimento de sua prevalência, seus fatores de risco e das intervenções potenciais vem emergindo como uma faceta importante da saúde pública. (FONSECA, et al, 2008).
Em conseqüência destas perdas físicas e que podem afetar o psiquismo, surgem demandas emocionais sofridas que podem fragilizar o sujeito ou este sujeito pode se deparar com um momento de vida que não sabe como lidar. Esta repercussão não se restringe apenas ao sujeito, ela envolve todo um sistema político, social e de saúde com agravantes aspectos psicológicos. (FONSECA, et al, 2008).
5.3. ASPECTOS PSICOLÓGICOS ENVOLVIDOS NA VELHICE
Os sintomas do envelhecer variam. Em determinados momentos o sujeito pode sentir-se perdido e ansioso diante das dúvidas, questionamentos e interrogações inerentes que os momentos de mudança trazem. Diante destas situações, o sujeito pode perguntar-se: Como lidar com este momento novo? Que caminhos futuros definir? Pode-se pensar que o futuro agora é curto, talvez se empenhem em repensar atitudes, buscando soluções e caminhos para lidar com esse período de velhice.
De acordo com Oliveira et al (2007) a psicologia do envelhecimento é uma área de investigação relativamente recente iniciada com as pesquisas desenvolvidas pela Gerontologia datada do ano de 1835 “quando um cientista belga publicou um livro no qual abordava as diferenças entre aspectos físicos e comportamentais de indivíduos de acordo
com a idade.” Atualmente o idoso é estudado a partir de uma visão mais holística, que agrega conceitos da biologia, sociologia e psicologia. (NERI apud OLIVEIRA et al, 2007).
Como já mencionado no tópico Envelhecimento e Mudanças Físicas, as perdas e ganhos acontecem no decorrer do processo de maturação do sujeito, contudo, na sua velhice os déficits se acentuam e podem despertar sentimentos negativos, ansiedade, depressão, desesperança, medo, lapso de memória e outros sintomas que comprometem a sua auto-estima.
No que tange à depressão, é importante destacar que ela tem sido considerada como um dos transtornos que mais afetam o velho. Seu diagnóstico é ainda mais complexo quando comparado ao diagnóstico em outras faixas etárias, pois, o próprio processo de envelhecimento apresenta algumas características semelhantes aos sintomas depressivos, o que conduz à confusão no diagnóstico. Diante disso, todo cuidado deve ser redobrado pelos profissionais de saúde que atendem e cuidam de sujeitos envelhecidos, e com esta cuidadosa atenção as Políticas Públicas devem aprimorar os programas e projetos para com os seus cidadãos envelhecidos. (OLIVEIRA et al, 2007).
Vale acrescentar ainda que, a família ou os chamados cuidadores, pelo convívio que têm com o sujeito velho, são os que devem ficar mais atentos para os sinais que pontuam uma possível depressão no sujeito, pois, este é um dos fatores de riscos elencados pelo Caderno de Atenção Básica “Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa” (Ministério da Saúde, 2006) quando define que, o isolamento, dificuldades nas relações pessoais, problemas de comunicação e conflitos com a família ou com outras pessoas podem contribuir ou desencadear a depressão. As dificuldades econômicas e outros fatores de estresse da vida diária têm igualmente um efeito importante.
Neste sentido, é realista a escrita de Teixeira e Leão (2002) ao dizerem que o envelhecimento é um grande paradoxo humano, já que ninguém quer ficar velho, muito menos morrer, estas preocupações sociais e individuais da velhice, podem ser vistas como uma conquista, afinal nem todos se recolhem diante dos sofrimentos aqui elencados, não querem ficar emparedados numa fila de velhice terminal.
As evoluções nos paradigmas sobre o desenvolvimento e o envelhecimento, enquanto um processo multidimensional traz para discussão a possibilidade de o envelhecimento poder ser vivido com satisfação, saúde e bem-estar, instigando a busca de
variáveis que interferem no alcance de um processo bem-sucedido. Cupertino et al. (2007) cita: “Rowe e Kahn (1998) apresentam três indicadores de envelhecimento saudável: baixo risco de doenças e de incapacidades funcionais; funcionamento mental e físico excelentes; e envolvimento ativo com a vida.” (ROWE e KAHN apud CUPERTINO et al., 2007).
Essa possibilidade aumenta na medida em que a sociedade considera o contexto familiar e social, conseguindo assim, reconhecer as potencialidades e o valor das pessoas idosas. Pois, como reconhece o Caderno 19 do Ministério da Saúde que trata do Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa, parte das dificuldades das pessoas idosas está mais relacionada a uma cultura que as desvaloriza e limita. (Ministério da Saúde, Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa, cad.19, 2006)
5.4. ASPECTOS SOCIO-CULTURAIS ENVOLVIDOS NA VELHICE
Entre as mudanças fisiológicas provocadas pelo envelhecimento, acontecem mudanças em outros âmbitos da vida do sujeito: na família, na relação com os filhos, na experiência profissional, com a aposentadoria, e outras mais.
A partir da aposentadoria, o sujeito pode perder a identidade profissional que antes lhe era assegurado pela comunidade como pessoa produtiva. Além disso, esse período nem sempre corresponde às expectativas que ele vislumbrava quando se mantinha ativo no trabalho, o que provoca, muitas vezes, uma dualidade de sentimentos diante dos novos acontecimentos da falta da rotina diária do trabalho (LIMA, 2006).
Quando se fala em aposentadoria na cultura ocidental em geral, as palavras evocadas com mais freqüência são velhice e morte. O tempo livre de que o sujeito passa a dispor em conseqüência da aposentadoria é às vezes associado à idéia de ócio, de inutilidade, nada pra fazer. A sociedade passa a ter um olhar para esses sujeitos como um peso, e considera o aposentado produtivamente como inútil. Sobre isso, Gaiarsa “[...] declara que o velho é ignorado por que não está mais no processo de produção (e reprodução). Economicamente ele não existe [...]”. (GAIARSA, 1986, p. 22).
Assim, na velhice, as possíveis reflexões sobre a sua vida emocional, afetiva e social podem impulsionar ou não, a uma revisão de vida. Afinal, como apregoa o
Caderno de Atenção Básica do Ministério da Saúde (1996), o envelhecimento do sujeito é inevitável e natural. O processo de diminuição progressiva de sua reserva funcional, em condições normais, não costuma provocar grandes sofrimentos, contudo, em condições adversas podem ocasionar uma condição patológica (doenças, acidentes e estresse emocional) que exige um cuidado maior com a velhice.
Ainda assim, o documento referido acima ressalta que certas alterações decorrentes do processo de envelhecimento podem ter seus efeitos minimizados pela assimilação de um estilo de vida mais ativo do sujeito. Menciona ainda que, com base no princípio de territorialização, a Atenção Básica, bem como o Programa de Saúde da Família deve ser responsável pela atenção à saúde de todas as pessoas idosas que estão na sua área de abrangência, inclusive, aquelas que se encontram em instituições públicas ou privadas e o próprio sujeito com a sua família. (Secretaria de Atenção a Saúde no Caderno de Atenção Base nº. 19. MS-2006).
Outro fenômeno freqüentemente observado no processo social de envelhecimento tem sido a violência, tanto da família quanto da sociedade em geral. .Segundo o Caderno de Atenção Básica do Ministério da Saúde (1996), a violência contra o velho tem se evidenciado de várias formas: violência física, sexual, psicológica, econômica ou financeira, ou ainda patrimonial, institucional, abandono, negligência e autonegligência.
A violência evidenciada de forma física obriga o velho a fazer o que não deseja, agredindo-o com tapas, empurrões, socos, chutes, provocando lesões que podem levá-lo a morte. A violência sexual contra o velho visa obter prazeres carnais através de força física, subjugando-o a atos libidinosos diversos. Já a violência psicológica refere-se a toda ação ou omissão que conduz o velho a transtornos psicológicos. Estas ações são agressões verbais ou gestuais manifestadas com insultos, humilhação, aprisionamento e outras práticas que se aproveitam da fragilidade e dependência do sujeito. A violência econômica, financeira ou patrimonial se expressa na exploração econômica do velho possuidor de bens ou valores. Este tipo de abuso ocorre tanto no âmbito familiar como nas instituições em que o sujeito é residente. Uma outra forma de violência é a institucional, como o termo já esclarece, vem dos serviços públicos, esta violência se evidencia através das ações agressivas que impede o velho de ter acesso aos seus direitos como cidadão, como por exemplo, a omissão, a negligência e a má qualidade dos serviços oferecidos.
Os casos de abandono e negligência são característicos dos maus tratos que os considerados cuidadores imputam ao velho dependente, através de não atendê-lo nas suas necessidade básicas de saúde, segurança, alimento e higiene pessoal, entre outras que comprometam a sua segurança pessoal. Por fim, evidencia-se a autonegligência que é a violência da pessoa idosa contra si mesma, ameaçando sua própria saúde ou segurança. Geralmente, manifesta-se com a recusa ou o fracasso de prover a si próprio um cuidado adequado, mesmo tendo condições físicas para fazê-lo (CADERNO DE ATENÇÃO BÁSICA DO MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1996).
Estudos mostram que, quanto mais velha e mais dependente for o velho, maior é o seu risco de ser vítima de violência. A pessoa velha, por receio ou vergonha, geralmente, tem dificuldade em denunciar a violência a que está sendo submetida.
Uma dessas violências mais graves sofrida pelo velho é gerada pela sua própria família, chamada de violência intrafamiliar. A agressão acontece dentro de casa ou fora dela, é cometida por parentes naturais ou não, esta violência, às vezes, é velada e crescente, podendo levar o sujeito agredido à morte. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006).
Infelizmente, em determinadas ocasiões, a identificação de sinais de violência contra o velho é negligenciada por certos profissionais de saúde quando atendidos por eles. Justifica-se esta negligência pela dificuldade em identificar a agressão ou pela ausência de suporte formal para auxiliar a vítima.
De acordo com a Lei Federal nº. 10.741/2003, art. 19, está previsto que os casos de suspeita ou confirmação de maus tratos contra idoso são de notificação obrigatória ao Conselho Municipal, Estadual ou Nacional dos Direitos do Idoso, Delegacias de Polícia e Ministério Público.
5.5. ENVELHECIMENTO E POLÍTICAS PÚBLICAS
O Ministério da Saúde através do Caderno de Atenção Básica que regulamenta o documento Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa reconhece que é função das políticas de saúde contribuir para que mais pessoas longevas obtenham o melhor estado de saúde possível. O envelhecimento ativo e saudável é o grande objetivo nesse processo
qualitativo do homem que envelhece. Considerando-se a saúde de forma ampliada, torna-se necessária alguma mudança no contexto atual em direção à produção de um ambiente social e cultural mais favorável para população idosa. Com esta preocupação, e baseado nas alterações que envolvem o processo de envelhecimento, o Governo Federal instituiu a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, pela portaria Ministerial nº 2.528 de 19 de outubro de 2006. Tal política tem as seguintes diretrizes:
• Promover o envelhecimento ativo e saudável;
• Atender integralmente à saúde da pessoa idosa e prover recursos que assegurem a qualidade de atenção básica;
• Formar e educar permanentemente os profissionais de saúde do SUS na área de saúde da pessoa idosa, bem como apoiar pesquisas;
• Divulgar e informar sobre a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa para profissionais de saúde, gestores e usuários do SUS
Através do decreto, Lei nº 11.433, de 28 de dezembro de 2006, foi criado o Dia Nacional do Idoso, que é celebrado no dia 1º de outubro, com o intuito de valorizar à pessoa idosa na sociedade e promover a Política Nacional do Idoso.
Outro documento criado pelo governo brasileiro é o Estatuto do Idoso, que preconiza além de políticas de promoção da saúde, recomenda a valorização e manutenção da autonomia, das redes de suporte social, reforça o cuidado e atenção integral do Sistema Único de Saúde – SUS.
Concomitante ao Governo Federal, o Ministério Público de Santa Catarina em 12 de janeiro de 2004, através da Lei 12.967, autoriza Governo do Estado de Santa Catarina a implantar centros de convivência da terceira idade, em convênio com as prefeituras municipais.
Estes Centros de Convivências, segundo os artigos da Lei, “são pólos aglutinadores de pessoas com idade a partir de sessenta anos, tendo como finalidade a promoção de atividades de lazer ou de cunho cultural, laborativo, ou associativo e de educação para a cidadania através de programas específicos.” (Lei do Ministério Público de Santa Catarina, 2004).
Os Centros de Convivências para os velhos, conforme manda a Lei, deverão ter funcionamento diário em período de doze horas e no bojo técnico multidisciplinar, de
serviço a oferecer a esta comunidade, no mínimo deve instar com uma equipe de Psicólogo, Educador Físico, Assistente Social, Auxiliar de Enfermagem e monitores. A lei prevê ainda, garantir os cuidados básicos, de alimentação, de saúde, de higiene e de segurança, favorecendo a geração de emprego e renda destinados à pessoa idosa, bem como a promover a capacitação de recursos humanos objetivando contribuir e aumentar os limites e as potencialidades dos idosos com estimulação de suas participações nos núcleos de alfabetização do Estado.
Estas ações do Governo Federal e do Governo do Estado de Santa Catarina procuram atender as recomendações da II Assembléia Mundial sobre o Envelhecimento (ONU, Madrid 8 a 12 de abril 2002) em que define as diretrizes que orientam as políticas públicas relativas à população idosa para o Século XXI focando num novo conceito de envelhecimento produtivo, numa estratégia de enfrentamento diante do aumento quantitativo de pessoas a partir de 60 anos de idade.
A política voltada para o envelhecimento crescente, não se restringe às ações políticas nacionais. Em 2002, foi realizada a II Assembléia Mundial das Nações Unidas sobre Envelhecimento, em Madri, na Espanha, onde a Unidade de Envelhecimento e Curso de Vida da Organização Mundial de Saúde – OMS, produziu o documento Envelhecimento Saudável – Uma Política de Saúde, com o objetivo de chamar a atenção e mobilizar a sociedade para a promoção da saúde.
É importante acrescentar que os cuidados para com os velhos, não se devem restringir às ações governamentais, os próprios idosos devem buscar garantias de uma melhor qualidade para as suas vidas, se organizando em associações não só para reivindicar os seus direitos como cidadãos, como numa demonstração de suas capacidades produtivas.
Esta capacidade produtiva vem contribuir para a sua qualidade de vida, uma vez que está condicionada à satisfação, ao envolvimento e ao senso de realização em sua competência e responsabilidade social. Pois, como diz Neri (2002, p.38): “as virtudes da velhice e o envelhecer com boa qualidade de vida individual e social dependem do equilíbrio existente entre as limitações e as potencialidades da pessoa”.
6. MÉTODO
6.1 TIPO DE PESQUISA
Neste trabalho optou-se pela abordagem de pesquisa qualitativa,
[...] a Pesquisa Qualitativa não surge como contrária à Pesquisa Quantitativa, surge como uma possibilidade de desvendamento de um objeto objetivo. Ou em outras palavras, surge como um método mais adequado à compreensão de um fenômeno social. (BACELLAR, 2000, p.12)
Com base no Objetivo Geral pode-se classificar esta pesquisa do tipo exploratória, ela estimula os entrevistados a pensarem livremente sobre algum tema, objeto ou conceito, fazendo emergir aspectos subjetivos que atingem motivações não explícitas, de maneira espontânea. O objetivo principal deste tipo de pesquisa é o aprimoramento de idéias ou a constituição de hipótese.
Gil citando Selltiz et al. ([1967], 2002) “[...] estas pesquisas envolvem: (a) levantamento bibliográfico; (b) entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com problema pesquisado; e (c) análise de exemplos que ‘estimulem a compreensão’”. (SELLTIZ apud GIL et al., 1967, p. 63, 2002, p. 41).
6.2 PARTICIPANTES
Num segundo momento, atrelado ao Estágio Específico em Psicologia II, e de acordo com o cronograma pré-estabelecido, a presente pesquisa teve como população entrevistada, quatro sujeitos do gênero masculino, a partir de 60 anos, freqüentadores e usuários da Unidade Básica de Saúde Bela Vista da Cidade de Palhoça. Estes quatro convidados e colaboradores foram limitados em conseqüência da objetividade específica desta pesquisa, e o tipo de entrevista assegura a sua melhor qualidade.
6.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS
Para esta pesquisa foi utilizado: computador, gravador digital, papel, caneta, impressora, mesa e cadeira.
6.4 PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS
A coleta de dados se deu através de entrevistas individuais, sendo elas semi-estruturadas, com a finalidade de proporcionar flexibilidade na coleta de informações, garantindo assim uma maior facilidade na verificação da validade das respostas. Este tipo de pesquisa permite ao pesquisador esclarecer o significado de suas perguntas adaptando com facilidade as pessoas e circunstâncias em que se desenvolve a entrevista (GIL, 1999). As entrevistas foram gravadas, com as devidas autorizações concedidas pelos participantes, e posteriormente foram transcritas para que fosse feita a análise dos dados obtidos.
Os sujeitos foram convidados no posto de atendimento, quando se fizeram presentes para as suas consultas regulares em que se perguntou sobre o interesse de participarem deste trabalho de pesquisa. Diante de suas respostas positivas, foi marcado um dia determinado para comparecerem no posto de saúde com este objetivo.
Esta pesquisa foi aplicada no ambiente de um posto de saúde do Bairro Bela Vista na cidade de Palhoça-SC. As entrevistas foram realizadas em uma das salas de atendimento na Unidade Básica de Saúde do bairro Bela Vista da cidade de Palhoça, arejada e bem iluminada, tendo mesa e cadeiras confortáveis. Na entrevista foi utilizado um gravador de voz e estas tiveram duração aproximadamente de 20 minutos cada.
A pesquisa se deu mediante a aceitação dos participantes em fazer parte da pesquisa e após o cumprimento dos compromissos éticos que a permeiam, tais como: a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assinatura do Termo de Consentimento para Gravações de Voz, a garantia do anonimato e a manutenção do sigilo das informações coletadas.