RADIO COMUNITÁRIA E GINCANA DA SAÚDE: Processo sensível para
trabalhar promoção de saúde numa comunidade indígena
Rádio comunitária e gincana da saúde: processo sensível para trabalhar promoção de saúde numa
comunidade indígena
Radio comunitaria y gincana de la salud: proceso sensible para trabajar promoción de salud en una
comunidad indígena
ABSTRACT
Objective: to report a health education activity performed by a multiprofessional residence team in an indigenous community in the state of Piauí. Methodology: This is an experience report of an action of health education carried out with adolescent students of a school of indigenous community, aged between 10 and 14 years. This was organized in three moments: the reception, with a community radio, the main activity, the “health game” and to end the activity, the dynamic "I'm in and I’m out". Results: It was noticed that the participants felt motivated to participate in this activity through their potential: through dance, singing and sharing their own knowledge about the themes worked. This is an important fact, since it shows the exchange between the professional and the subject, that is, the activation of the mechanism of approach with the community. Conclusion: Health education allows the exchange of knowledge between professionals and community, as well as being an alternative to bring scientific knowledge closer to popular knowledge.
RESUMO
Objetivo: Relatar atividades de educação em saúde realizadas por uma equipe de residência multiprofissional em uma comunidade indígena de no estado do Piauí. Metodologia: Trata-se de um relato de experiênciade educação em saúde realizada com estudantes adolescentes de uma escola de comunidade indígena, com idade entre 10 a 14 anos. Esta foi organizada em três momentos: acolhimento, com a rádio comunitária, atividade principal, a gincana da saúde e o encerramento, a dinâmica “tô dentro e tô fora”. Resultados: Percebeu-se que os participantes se sentiram motivados em participar desta atividade por meio de seus potenciais: através da dança, do canto e compartilhando seu próprio conhecimento acerca das temáticas trabalhadas. Este é um fato importante, já que demonstra a troca entre o profissional e o sujeito, ou seja, a ativação do mecanismo de aproximação com a comunidade. Conclusão: A educação em saúde permite a troca de saberes entre profissionais e comunidade, além de ser uma alternativa para aproximar o saber científico com o saber popular.
RESUMEN
Objetivo: relatar una actividad de educación en salud realizada por un equipo de residencia multiprofesional en una comunidad indígena de en el estado de Piauí. Metodology: Se trata de un relato de experiencia de una acción de educación en salud realizada con estudiantes adolescentes de una escuela de comunidad indígena, con edad entre 10 a 14 años. Esta fue organizada en tres momentos: acogida, con la radio comunitaria, actividad principal, la gincana de la salud y el cierre, la dinámica "dentro y fuera". Resultados: Se percibió que los participantes se sintieron motivados en participar de esta actividad por medio de sus potenciales: por medio de la danza, del canto y compartiendo su propio conocimiento acerca de las temáticas trabajadas. Este es un hecho importante, ya que demuestra el intercambio entre el profesional y el sujeto, es decir, la activación del mecanismo de aproximación con la comunidad. Conclusión: La educación en salud permite el intercambio de saberes entre profesionales y comunidad, además de ser una alternativa para aproximar el saber científico con el saber popular.
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¹Psicólogo, Doutorando em Saúde, Ambiente e Sociedade pela Fiocruz, Preceptor na Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade/RMSFC – Universidade Estadual do Piauí/UESPI – Teresina/Piauí/Brasil. [email protected].
²Profissional de Educação Física, Residente na Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade/RMSFC – Universidade Estadual do Piauí/UESPI – Teresina/Piauí/Brasil. [email protected].
³Assistente Social, Residente na Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade/RMSFC – Universidade Estadual do Piauí/UESPI – Teresina/Piauí/Brasil. [email protected].
4Cirurgiã-Dentista, Residente na Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade/RMSFC – Universidade Estadual do
Piauí/UESPI - Teresina/Piauí/Brasil. [email protected].
5Fisioterapeuta, Residente na Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade/RMSFC – Universidade Estadual do
Piauí/UESPI – Teresina/Piauí/Brasil. [email protected].
6Psicóloga, residente na Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade/RMSFC – Universidade Estadual do Piauí/UESPI
– Teresina/Piauí/Brasil. [email protected].
Breno de Oliveira Ferreira¹
Edirlane Soares do Nascimento²
Glucio Ramon Araújo Costa Oliveira³
Larissa Campos Rodrigues Pinheiro
4Suellen Aparecido Patrício Pereira
5Raksandra Mendes dos Santos
6Descriptors
Health Education. Community Radio, health game. indigenous community. Health Personnel.
Descritores
Educação em Saúde. Rádio Comunitária, Gincana. Comunidade Indígena. Profissional de Saúde.
Descriptores
Educación em Salud. Radio Comunitaria. Gincana, comunidad indígena. Personal de Salud.
Sources of funding: No Conflict of interest: No
Date of first submission: 2016-08-12 Accepted: 2017-11-11
Publishing: 2017-03-28
Corresponding Address
Raksandra Mendes dos Santos - Rua Rui Barbosa, 97. Centro. Santo Inácio do Piauí. CEP:64-560.000.
Telefone: (86)9 9492-6172.
[email protected]. Universidade Estadual do Piauí/UESPI – Teresina.
INTRODUÇÃO
A Educação em Saúde como abordagem curadora e promotora de saúde, tem como princípios regentes as necessidades globais e individuais das populações, com a proposta de capacitar os indivíduos para uma aprendizagem ao longo da vida, no sentido de controlarem e agirem sobre os seus próprios determinantes de saúde(1). Pressupõe, tal como
preconizado desde a Conferência de Alma-Ata(2), uma
visão positiva da saúde(3).
A sua abordagem permeia todos os níveis de atenção, mas é na Atenção Primária à Saúde que ganha significado especial: é através de uma menor densidade tecnológica na assistência que são fortalecidas ações preventivas e promotoras, formando indivíduos com poder de decisão sobre sua própria saúde e responsabilidade sobre a saúde da comunidade em que vivem(4).
Permeadas nesse sentido, as ações educativas em saúde devem extrapolar o campo da informação, ao integrar valores, costumes, modelos e símbolos sociais que delineiam as condutas e práticas(5,6) e, nessa
perspectiva, é inquestionável a indissociabilidade da Educação em Saúde de uma prática interdisciplinar(6)
.
Neste sentido ressalta-se a promoção da educação como instrumento de transformação social, desde que não se constitua como elemento técnico, pois se assim se limitar perde a sua função de promover reflexão nos sujeitos (7).
Imersa na perspectiva da Educação em Saúde e na interdisciplinaridade da atenção, encontra-se a proposta da Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade (RMSFC), como facilitadora da construção do conhecimento ampliado de saúde, em resposta ao desafio de atuar nas coletividades, visualizando as dimensões objetivas e subjetivas dos sujeitos do cuidado(8,9).
Busca não somente a reformulação dos saberes iniciais por vezes fragmentados e desarticulados, mas também promover a transformação do serviço de saúde que os recebe, incentivando a reflexão sobre a prática desenvolvida e as possibilidades e limites para transformar coletividades(9).
Dentre as coletividades que apresentam demandas sinalizadas de educação em saúde e desenvolvimento de uma assistência transformadora estão as Comunidades Indígenas.
Pensar e trabalhar com Saúde Indígena traz questionamentos e necessidades diferenciadas. O atendimento a esses povos traz consigo a marca da historicidade de suas lutas e conquistas no âmbito da aquisição de direitos(10).
Nessa perspectiva, o Ministério da Saúde, considera que, a assistência e a promoção da saúde nas comunidades indígenas apresentam impacto significativo nas condições de saúde e qualidade de vida dessa população(11).
Através da Política Nacional da Atenção à Saúde dos Povos reconhecer as diferenças étnicas e os direitos culturais indígenas(12), formalizando, assim, um avanço
nas diretrizes norteadoras das políticas públicas de saúde voltadas a essa clientela(13).
O presente texto relata uma experiência de Educação em Saúde da RMSFC da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) em parceria com a Secretaria de Saúde do Estado do Piauí (SESAPI) em uma comunidade indígena pertencente ao estado do Piauí e integrante do Projeto “Piauí tem índio sim”.
O projeto, lançado em 19 de abril de 2016, visa o mapeamento de territórios indígenas no Estado, com o reconhecimento das comunidades existentes, a ampliação e melhoria do acesso à assistência em saúde.
METODOLOGIA
Trata-se de um relato de experiência de uma atividade de Educação em Saúde desenvolvida pela equipe da RMSFC da UESPI em uma comunidade indígena localizada em um município do estado do Piauí.
A atividade foi realizada por cinco profissionais residentes, das categorias de Fisioterapia, Educação Física, Odontologia, Psicologia e Serviço Social visando uma abordagem ampliada durante a atividade. Foi selecionado um grupo de aproximadamente 50 estudantes, em idade de 10 a 14 anos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O projeto em questão parte da necessidade de se reconhecer a existência de indígenas no estado, informação desconhecida por grande parte da população. Segundo informações cedidas pela SESAPI o projeto de criação do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) é uma antiga reivindicação dos povos com origem indígena e tem o objetivo de fortalecer e dar visibilidade a esses povos que vivem em território piauiense e necessitam de uma assistência em saúde que leve em consideração as características específicas no atendimento dessa população.
De modo que foram executadas diferentes atividades na comunidade, como exame ginecológico pelas enfermeiras, roda de conversa sobre sexualidade na adolescência, atividades lúdicas com crianças, abordando a temática cultura de paz e meio ambiente, oficina de postura e círculo de cultura com idosos.
Neste relato nos deteremos a Gincana e a Rádio Comunitária. Atividade que foi organizada em três momentos: acolhimento, com a rádio comunitária, como atividade principal, a gincana da saúde e o encerramento com a dinâmica “tô dentro e tô fora”.
As gincanas são projetos geralmente desenvolvidos em escolas, que possibilitam uma maior expressão dos estudantes e uma abordagem diferenciada da comumente utilizada em sala de aula, por ser uma metodologia que promove interação, diversão, entretenimento e principalmente a troca de saberes, compartilhamento de informações a partir de uma abordagem lúdica que envolva a comunidade acadêmica.
Uma Rádio Comunitária pode ser entendida como uma ferramenta que disponibiliza um conteúdo de interesse social que vai ao encontro da realidade em que está inserida. Constituindo-se como um canal de comunicação que contribui com a democratização da informação. Sendo um dos princípios básicos da rádio comunitária a participação da comunidade, indo para além de um ouvinte que só pede músicas ou conversa com os locutores(14).
Neste sentido, a RMSFC, uniu a perspectiva da gincana e da rádio comunitária em uma única atividade,
de modo que ambas ocorreram paralelamente, pois o público era o mesmo e as metodologias se aproximavam, uma vez que a rádio funcionou como um link entre a comunidade e os profissionais da saúde. A dinâmica da rádio é um momento de encenação, em que se utiliza um banner com a imagem de uma rádio, um computador com vinhetas e músicas atuais, caixa de som e dois radialistas, papel interpretado por residentes, com a intenção de simular um programa de rádio.
Nesse contexto a rádio teve um potencial de comunicação, no qual possibilitou durante toda a tarde a participação direta dos estudantes, que muitas vezes em atividades de educação em saúde se mostram resistentes à participação, assim foi um instrumento que de forma sensível, dinâmica e interativa potencializou as informações que foram expostas durante atividade.
Nessa perspectiva, a rádio comunitária se adaptou ao público de adolescentes que estavam presentes, em que muitos pediram músicas, enviaram recados e tiraram suas dúvidas sobre os respectivos temas em questão (álcool e outras drogas, higiene corporal, saúde bucal, sexualidade e dentre outros). Tornando o ambiente divertido e harmonioso, pois a linguagem adaptada ao público adolescente permitia prender a atenção dos mesmos na atividade, por isso a importância de se pensar em uma prática de educação em saúde que não seja simplesmente uma transmissão de conhecimento, mas sim uma prática capaz de produzir sentidos e aspectos subjetivos ligados ao entendimento e compreensão daquilo que estava sendo exposto.
Com esse vínculo incialmente criado, os adolescentes puderam juntamente com os residentes construir uma atividade de educação em saúde pautada na problematização da realidade que podem ou não ajudar na solução de possíveis problemas dentro da comunidade. Pois nessa perspectiva o público alvo pode pensar, refletir, transformar–se e possibilitar a transformação do ambiente em que vivem.
Nessa perspectiva do conhecimento ser algo socialmente construído ou compartilhado, foi possível perceber que durante a execução da atividade muitos adolescentes queriam mostrar seus potenciais através da dança, do canto e do próprio conhecimento acerca das
temáticas em questão, pois este fator é crucial dentro do contexto de educação em saúde, visto que a equipe de residentes estava com todas as informações, que para além de repassadas, foram dialogadas pelo próprio público, causando uma troca entre o profissional e o sujeito, assim a atividade da radio, através do seu mecanismo de aproximação com a comunidade, dando voz e vez, fez com a atividade criasse um ambiente de aproximação entre estes, tirando qualquer distanciamento existente entre o publico e os profissionais (residentes e preceptores).
De modo que proporcionou um espaço de troca de saberes, onde os residentes puderam compartilhar informações e principalmente aprender com aquele contexto, criando assim atmosfera de aprendizagem. E é com esse pensamento que a equipe de residentes planejou e executou a atividade de educação para os adolescentes, pois além de ensinar, foi possível aprender sobre o modo de vida destes.
Depois do acolhimento com a Rádio, teve-se a atividade principal: a gincana da saúde. Este momento foi organizado da seguinte maneira: formaram-se quatro equipes e o nome de cada uma foi escolhida pelos próprios participantes. Foram realizadas questões de mito ou verdade relacionadas às temáticas de higiene, saúde bucal e alimentação saudável, provas especiais visando à movimentação e animação dos participantes e o desafio final, como oportunidade da recuperação de pontos. Em alguns momentos da gincana, a rádio era acionada para estimular os participantes por meio de recados e pedidos de música.
Durante a gincana os grupos se manteram bastante animados e entusiasmados, e no momento das respostas sobre as questões era disponibilizado ao grupo um minuto para a discussão daquela temática, problematizando se a afirmativa apresentada era mito ou verdade. E no decorrer da resolução das mesmas existiam os comentários dos residentes, que davam explicações mais embasadas sobre o tema em questão, trazendo elementos novos ao que era colocado pelos estudantes.
Como o planejamento não é algo engessado, possibilitando avaliação durante a execução e possíveis alterações, algumas demandas foram surgindo no
decorrer da gincana, muitos gostavam de dançar, e pra ressaltar o protagonismo dos adolescentes e dar relevância aos aspectos que são pertinentes a idade dos mesmos realizamos como prova final da gincana uma competição de dança, no qual os mesmos se mostraram muito eufóricos e entusiasmados, proporcionando um momento de descontração e animação, pois até mesmo o corpo docente da escola ficou envolvido, se divertindo e prestigiando seus alunos durante a atividade.
Como finalização e até mesmo uma forma de avaliação, a atividade foi encerrada em uma grande roda com todos os alunos, residentes, preceptores e professores, numa dinâmica simples, mas que gerou sentidos e valores. Na dinâmica intitulada “Tô dentro, tô fora”, os participantes foram convidados a estender a mão para o centro da roda caso concordassem com o que foi dito (“tô dentro”) ou colocar a mão para fora da roda caso descordassem (“tô fora”). De modo que foram sendo trazidos vários aspectos discutidos durante a atividade, como por exemplo, “drogas, tô dentro ou tô fora?”, “Respeito, tô dentro ou tô fora?”, “Saúde bucal, tô dentro ou tô fora?”, dentre outros aspectos. Dinâmica que possibilitou o encerramento da atividade de forma divertida e com o envolvimento de toda a escola, que neste momento já tinha se dirigido ao pátio.
CONCLUSÃO
É importante salientar que trabalhar com crianças e adolescentes, metodologias diferenciadas e que provoque entusiasmo nas mesmas, facilita o processo ensino-aprendizagem.
Nessa perspectiva, utilizar as metodologias rádio comunitária e gincana da saúde foi uma proposta audaciosa, visto que era o primeiro contato da equipe da RMSFC com o público de comunidade remanescente indígena. No entanto, as propostas trabalhadas provocaram e resignificaram a prática do fazer dos residentes, oportunizando a estes, o olhar ampliado para o leque de possibilidades de discutir assuntos diversos e distintos como álcool e outras drogas, higiene corporal, saúde bucal, sexualidade e dentre outros.
Foi percebido ainda que essa forma de desenvolver a educação em saúde, transformou alguns
(pre)conceitos em possibilidades, tendo em vista que a cultura de um povo pode influenciar e provocar o despertar de atenção de outros atores (residentes) que estão distante do modo de viver destes, que são sujeitos com práticas culturais diferenciadas dos grupos de mesmo segmento de vida, trabalhados por e com os residentes na zona urbana.
E por fim, torna-se relevante destacar que de todos os aprendizados adquiridos pelos residentes durante a realização da ação de educação em saúde na comunidade de remanescentes indígenas, o maior foi a percepção de um grupo muito organizado politicamente e que busca sua identidade cultural, em que é perceptível a receptividade em relação às ações de saúde oferecidas, onde o respeito entre os saberes foi fundamental para a aproximação entre profissionais e os sujeitos que compõem esse grupo específico.
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