www.bjorl.org
Brazilian
Journal
of
OTORHINOLARYNGOLOGY
ARTIGO
ORIGINAL
Sleep
disorders
in
children
with
moderate
to
severe
persistent
allergic
rhinitis
夽
Jessica
Loekmanwidjaja,
Ana
Cláudia
F.
Carneiro,
Maria
Lúcia
T.
Nishinaka,
Daniela
A.
Munhoes,
Gabriela
Benezoli,
Gustavo
F.
Wandalsen
∗e
Dirceu
Solé
UniversidadeFederaldeSãoPaulo(UNIFESP),EscolaPaulistadeMedicina(EPM),DepartamentodePediatria,SãoPaulo,SP,Brasil
Recebidoem5dedezembrode2016;aceitoem20dejaneirode2017 DisponívelnaInternetem4dejulhode2017
KEYWORDS Sleepdisorders; Allergicrhinitis; Children; Writtenquestionnaire Abstract
Introduction:Allergicrhinitisisassociatedwithseveralcomplications,includingsleep disor-ders.TheChildren’sSleepHabitsQuestionnairehasbeenrecentlytranslatedandvalidatedin Portuguesefortheevaluationofsleepdisordersinchildren.
Objective:Toassess sleepdisordersinchildren withmoderate tosevere persistentallergic rhinitisandtocorrelatethefindingswithdiseaseseveritymarkers.
Methods:Weevaluated167children(4---10years),112withallergicrhinitisand55controls. Parents/guardiansofthechildrenansweredtheChildren’sSleepHabitsQuestionnaire, consis-tingof33questionsdividedintoeightsubscales,whichreferstothepreviousweek.Patients withrhinitiswerealsoevaluatedregardingthescoreofnasalandextra-nasalsymptomsrelated tothepreviousweekandthepeaknasalinspiratoryflow.
Results:Therewerenosignificantdifferencesbetweengroups ofdifferentage.Allpatients withrhinitiswerebeingtreatedwithnasaltopicalcorticosteroids.ThetotalChildren’sSleep HabitsQuestionnairescorewassignificantlyhigheramongchildrenwithrhinitisthanincontrols (median48vs.43,p<0.001).Significantlyhighervalueswerealsoobservedfortheparasomnia (9vs.8),respiratorydisorders(4vs.3)anddaytimesleepiness(14vs.12)subscales.Among thepatientswithrhinitis,nosignificantcorrelationwasobservedbetweenthetotalChildren’s SleepHabitsQuestionnairescoreanddiseaseactivityvariables,butmoderatecorrelationswere observedfortherespiratorydistresssubscalevs.nasalsymptomscore(r=0.32)andvs. extra--nasalsymptomscore(r=0.32).
DOIserefereaoartigo:http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2017.01.008
夽 Comocitaresteartigo:LoekmanwidjajaJ,CarneiroAC,NishinakaML,MunhoesDA,BenezoliG,WandalsenGF,etal.Sleepdisordersin
childrenwithmoderatetoseverepersistentallergicrhinitis.BrazJOtorhinolaryngol.2018;84:178---84.
∗Autorparacorrespondência.
E-mails:[email protected],[email protected](G.F.Wandalsen).
ArevisãoporparesédaresponsabilidadedaAssociac¸ãoBrasileiradeOtorrinolaringologiaeCirurgiaCérvico-Facial.
2530-0539/©2017Associac¸˜aoBrasileiradeOtorrinolaringologiaeCirurgiaC´ervico-Facial.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum
Conclusion: Childrenwithmoderatetoseverepersistentallergicrhinitis,evenwhensubmitted toregulartreatment,haveahigherfrequencyofsleepdisordersthancontrols,particularly concerningnocturnalbreathingdisorders,daytimesleepiness,andparasomnias.Theintensity ofsleepdisordersfound insomesubscaleswascorrelatedwithobjectivemarkersofallergic rhinitisseverity.
© 2017 Associac¸˜ao Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia C´ervico-Facial. Published by Elsevier Editora Ltda. This is an open access article under the CC BY license (http://
creativecommons.org/licenses/by/4.0/). PALAVRAS-CHAVE Distúrbiosdesono; Rinitealérgica; Crianc¸as; Questionárioescrito
Distúrbiosdosonoemcrianc¸ascomrinitealérgicapersistentemoderada-grave Resumo
Introduc¸ão: Arinitealérgicaestáassociadaadiversascomplicac¸ões,como,porexemplo,os distúrbiosdosono.OChildren’sSleepHabitsQuestionnaireéumquestionárioparaavaliac¸ão dosdistúrbiosdosonoemcrianc¸as,recentementetraduzidoevalidadoparaoportuguês.
Objetivos: Avaliar distúrbios do sono em crianc¸as com rinite alérgica persistente mode-rada/graveecorrelacionarosachadoscommarcadoresdegravidadedadoenc¸a.
Método: Foramavaliadas167crianc¸as(4-10anos),112comrinitealérgicae55controles.Todos osresponsáveispelascrianc¸asresponderamoquestionário,compostopor33questõesdividas em oito subescalase referentes àúltimasemana.Os pacientescomriniteforam avaliados tambémpeloescoredesintomasnasaiseextranasaisreferentesàúltimasemanaepelopico defluxoinspiratórionasal.
Resultados: Nãohouvediferenc¸assignificantesentreosgruposcomrelac¸ãoàidade.Todosos pacientescomriniteeramtratadoscomcorticosteroidetópiconasal.Oescoretotaldo questio-náriofoisignificantementemaiorentreoscomrinitedoqueentreoscontroles(mediana48vs.
43;p<0,001).Valoressignificantementemaiorestambémforamobservadosparaassubescalas deparassonias(9vs.8),distúrbiosrespiratórios(4vs.3)esonolênciadiurna(14vs.12).Entre ospacientescomrinitenãofoiobservadacorrelac¸ãosignificanteentreoescoretotaldo ques-tionárioeasvariáveisdeatividadedadoenc¸a,porémcorrelac¸õesmoderadasforamobservadas paraasubescaladedistúrbiosrespiratóriosvs.escoredesintomasnasais(r=0,32)evs.escore desintomasextranasais(r=0,32).
Conclusões: Crianc¸ascomrinitealérgicapersistentemoderada-grave,mesmoemtratamento regular, apresentam maior frequência de distúrbios do sono do que controles, particular-menteemrelac¸ãoaosdistúrbiosrespiratóriosnoturnos,àsonolênciadiurnaeàsparassonias. Aintensidadedasalterac¸õesdosonoencontradasemalgumassubescalassecorrelacionoucom marcadoresobjetivosdegravidadedarinitealérgica.
© 2017 Associac¸˜ao Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia C´ervico-Facial. Publicado por Elsevier Editora Ltda. Este ´e um artigo Open Access sob uma licenc¸a CC BY (http://
creativecommons.org/licenses/by/4.0/).
Introduc
¸ão
Dados obtidos pelo International Study of Allergies in Childhood(ISAAC) apontamsera prevalênciade sintomas deriniteentreescolareseadolescentesbrasileirosde25,7% e29,6%,respectivamente,eaderinoconjuntivitealérgica de12,6%paraaquelesede14,6%paraosadolescentes.1
Embora seja vista, muitas vezes, como uma doenc¸a de menor gravidade quando comparada com a asma, a rinite alérgica é capaz de alterar de forma marcante a qualidade de vida dos pacientes, assim como seu desem-penho, aprendizado e sua produtividade.2---7 Além dos sintomas per se, o esquema de tratamento pode ser res-ponsabilizadopeloincômodorelatadopelospacientescom rinite alérgica, sobretudo os com formas mais intensas.8 Distúrbiosdesono,dificuldadedeconcentrac¸ão,quedade
rendimento(escola/trabalho)esonolênciadiurnatemsido frequentementereferidospelos pacientescom rinite alér-gica,sobretudonasformaspersistentes.2---8
A avaliac¸ão da interferência da rinite alérgica sobre o sono tem sido objeto de estudo por pesquisadores, entretanto,oempregodemétodosobjetivos,comoa polis-sonografia,émuitolimitadoemestudospopulacionaispelas dificuldadestécnicasepráticas.Assim,odesenvolvimento dequestionárioseescalasdeavaliac¸ãoparausoem pedia-triatemsidoestimuladoparapoderserusadoem estudos maisamplos.9---16 EntreessesdestacamosoChildren’sSleep
HabitsQuestionnaire(CSHQ),17 cujo propósito é avaliar o comportamento do sono em crianc¸as com idade escolar e inclui os sintomas mais comuns dos distúrbios do sono infantil,segundoaClassificac¸ãoInternacionaldosDistúrbios doSono.18Idealizadoemlínguainglesa,oCSHQfoi
recente-mentetraduzidoevalidadoparaoportuguêseescoreglobal médiode47pontosfoiobservadoentrecrianc¸assaudáveis.19 Até o momento, apenas um único artigo estudou a presenc¸a de distúrbios do sono em crianc¸as com alergia respiratóriacom oquestionárioCSHQ.4 Nesteestudo mul-ticêntrico, feito em diversos centros da América Latina, foi evidenciado que crianc¸as com asma e/ou rinite alér-gicaapresentavammaiorprevalênciadedistúrbiosdosono quandocomparadascomcontroles.4
Objetivo: avaliara presenc¸a de distúrbios do sono em crianc¸ascomrinitealérgicapersistente moderada-gravee correlacionarosachadoscommarcadoresdegravidadeda doenc¸a.
Método
Participaramdoestudopacientes(quatroa10anos) matri-culados e regularmente acompanhados havia pelo menos um ano em ambulatório especializado por rinite alérgica persistentemoderada/grave(RAPMG),econtroleshígidos, não alérgicos, da mesma faixa etária. Todas as crianc¸as foram submetidas, à admissão, a exame físico completo para exclusão de possíveis doenc¸as crônicas capazes de interferircom a qualidade do sono, alémde consumo de medicamentos.Nãoforamadmitidascrianc¸as(pacientese controles)com obstruc¸ão mecânica das vias aéreas supe-riores,doenc¸asneurológicas,distúrbiospsiquiátricosouas em uso de anticonvulsivantes, assim como de asma não controlada.20 Tambémnãoforamincluídascrianc¸asemuso deanti-histamínicosdeprimeiragerac¸ão.
Todososresponsáveispelascrianc¸asresponderamoCSHQ traduzido e validado para o português.19 O CHSQ é com-postopor33questõesdivididasemsubescalasdenominadas como:resistência air dormir (vaipara acama nomesmo horário;adormece sónaprópriacama;adormecenacama de outro; precisa de um dos pais no quarto de dormir; reluta na hora de dormir; tem medo de dormir sozinho (pontuac¸ão: 6 a 18); início do sono (pontuac¸ão: 1 a 3); durac¸ãodosono(dormepouco,dormeonecessário;dorme amesma quantidadedehoras todosos dias--- pontuac¸ão: 3 a 9); c) ansiedade ao dormir (precisa de um dos pais no quarto de dormir; medo de dormir no escuro; medo dedormir sozinho;problemas para dormir fora decasa ---pontuac¸ão:4a12);despertaresnoturnos(mudaparaoutra camanomeiodanoite;despertaumavezduranteanoite, acordamaisdeumavez ---pontuac¸ão:3 a9); parassonias (molhaacamaà noite;faladuranteosono;inquietoese movemuito;andadormindo;rangedentesduranteosono; acordagritando,suando;acordaassutadocom pesadelo ---pontuac¸ão: 7 a 21); distúrbiosrespiratórios do sono (res-sonaalto;parecepararderespirarduranteosono;roncos ---pontuac¸ão:3a9)esonolênciadiurna(acordasozinhode manhã;acordamal-humorada;éacordadaporoutros;tem dificuldadedesairdacama;demoraaficarbemacordado; parececansadoao:verTV;andardecarro---pontuac¸ão:8a 24).Oescoreéobtidopelasomatóriadospontosreferentes àsquestõeseoescoretotal(variac¸ãode35a105)pelasoma dosescoresdosoitoitens.17
Ospacientes com RAPMGtambémforam avaliadospor escoresclínicosdesintomas nasais(ESN; obstruc¸ãonasal, pruridonasal,espirroserinorreia)edesintomasextranasais (Esen;hiperemiaocular, prurido ocular, lacrimejamentoe
pruridofaríngeo) referentesà semana anterior.Para cada sintomaatribui-sepontuac¸ãode0a3(0=ausente;1=leve; 2=moderadoe3=intenso).21 Assim,oESNtotaleoEsen totaloscilaramentre0e12pontos.OspacientescomESN ≥3quenãotinhamapenasumsintomaforamconsiderados comrinitecontrolada.
Alémdosescores,ospacientescomRAPMGforam ava-liadosquantoàfunc¸ãodacavidadenasalpelamedic¸ãodo picodefluxoinspiratórionasal(PFIN),empregou-se equipa-mento específico(PeakNasal InspiratoryFlowMeter®, HS ClementClarke,ReinoUnido).Duranteoprocedimento,os pacientes apósexpirac¸ão pulmonarmáxima, como medi-dor de pico de fluxo acoplado à face, foram instruídos a fazerinspirac¸ãomáximapelonariz,manteroslábios total-mente fechados, atéa capacidadepulmonar total.Foram feitastrêsmedic¸õeseamelhorfoianotada,desdequenão houvessediferenc¸asuperiora10%entreelas.22Ofluxo inspi-ratórionasalmáximofoiregistradopelocursordoaparelho emlitrosporminuto.
OestudofoiaprovadopeloComitêdeÉticaemPesquisa dainstituic¸ão (824.192/2014). Todosos paise/ou respon-sáveis pelas crianc¸as, assim como elas, concordaram em participar do estudo mediante a assinatura do termo de consentimentolivreeesclarecido,assimcomoode assen-timentopelascrianc¸as.
Análiseestatística
De acordo com a natureza das variáveis estudadas foram empregados testes paramétricos e não paramétricos. A comparac¸ãoentreasidadesdospacientese doscontroles foifeitapelotestetdeStudent.Aanálisecomparativados escorestotaisedesubescalasentreospacienteseos con-troleseosdos comrinitecontroladaenãocontroladafoi feitapelotestedeMannWhitney.Oestudodarelac¸ãoentre osescoresglobaledassubescalasdoCHSQeoESNeoPFIN foifeitocomocálculodocoeficientedecorrelac¸ãode Spe-arman.Emtodosostestesfixou-seem5%onívelderejeic¸ão dahipótesedenulidade.
Paraocálculoamostralforamconsideradosamédiado escoretotaldoCSHQde47pontosobservadanavalidac¸ãodo questionárioemportuguês,19diferenc¸amínimade4pontos emrelac¸ãoaoscontroles,desviopadrãode8pontos,poder de80%ep = 0,05.Assimseriamnecessárias51crianc¸aspor grupo.Para oestudo dascorrelac¸õesdoquestionáriocom asvariáveisde gravidadedarinitealérgica,consideramos coeficientedecorrelac¸ãomínimode0,25;poderde80%e
p = 0,05;comdefinic¸ãodepelomenos98crianc¸asnogrupo comrinitealérgica.
Resultados
Completaram o estudo 112 crianc¸as com RA e 55 con-troles. Os dois grupos foram semelhantes com relac¸ão à idade (tabela 1). Entre os pacientes, 48 (43%) eram do gênero feminino; 88 (79%) tinham asma e oito (7%) con-juntivite alérgica associada à RAPMG. Todos os pacientes eram tratados com corticosteroide tópico nasal e parte deles,46(41%),recebiaanti-histamínicoH1oraldesegunda gerac¸ãona semanaqueantecedeuaavaliac¸ão.Amedic¸ão
Tabela1 Análisecomparativadecrianc¸ascomrinitealérgicapersistentemoderada/graveecontrolesnãoalérgicossegundo oescoretotaleoescoredassubescalas(medianaeintervalointerquartil)doChildren’sSleepHabitsQuestionnaire(CSHQ)
Controle Rinitealérgica p
N 55 112 Idade(anos)b 7,3±1,5 8,0±1,8 0,2 EscoreCSHQtotalc 43(38---49) 48(44---54)a <0,0001 Subescalas Resisteairdormirc 7(6---10) 7(6---10) 0,7 Iníciodosonoc 1(1---2) 1(1---2) 0,4
Durac¸ãodosonoc 3(3---3) 3(3---5) 0,06
Ansiedadecomsonoc 5(4---7) 6(4---8) 0,3
Despertaresnoturnosc 3(3---4) 4(3---4) 0,08
Parassoniasc 8(7---10) 9(8---10)a 0,002
Distúrbiosrespiratóriosc 3(3---4) 4(3---5)a 0,003
Sonolênciadiurnac 12(9---14) 14(10---17)a 0,003
a Medianaeintervalointerquartil---significantementemaior.
b TestetdeStudent.
c TesteUdeMann-Whitney.
doPFINfoifeitademodoapropriadoem94%(94/112)dos pacientes.
Aanálisecomparativaentreosdoisgruposemrelac¸ãoà pontuac¸ãototaldoCSHQ demonstrou valores significante-mentemaioresdeescoretotaledosescoresdassubescalas parassonias, distúrbios respiratórios e sonolência diurna entreospacientescomRAPMG(tabela1).
A presenc¸a de asma, entre os pacientes, não induziu alterac¸õessignificantesnoescoretotaleosdassubescalas quandocomparadoscomoscomRAPMGisolada(escoretotal rinitecomasmavs.rinitesem asma:mediana [Me] = 49; intervalo interquartil [IIQ] = 43---54) vs. Me = 47 [IIQ = 44---53];p = 0,8).
Com o critériode ESN > 3 verificamos que 53 (47,3%) pacientes apresentavam RAPMG nãocontrolada.O escore totaldoCSHQ foisignificantementemaiselevadoentreos com rinite não controlada (Me = 49; IIQ = 44---54) em comparac¸ão com os controlados (Me = 46; IIQ = 41---50) (fig. 1). Esses doissubgrupos decrianc¸as comrinite alér-gicaapresentaramescoressignificantementesuperioresaos dogrupocontrole(fig. 1).Deformasemelhante,o usode anti-histamínicooral tambémnãoseassociouaalterac¸ões nasrespostasdoquestionário(escoretotalusovs.nãouso: Me = 46[IIQ= 42---52]vs.Me = 49[IIQ= 44---53];p = 0,2). ConsiderandoamédiadoescoretotalCSHQobservadana suavalidac¸ãoemportuguês(47pontos)comocritériopara diagnósticodedistúrbiodesono,verificamosqueentreos pacientescomRAPMG57(51%)poderiamserdefinidoscomo portadores de distúrbio do sono. Em relac¸ão ao controle darinite,58%doscomrinitenãocontroladaapresentaram alterac¸ão no escore total do CSHQ e 44% dos com rinite controlada.
Oestudodarelac¸ãoentreoescoretotaldoCSHQesuas subescalascomoESN,EseneosvaloresdePFINdocumentou significânciaparcialdessascomparac¸ões(tabela2). Coefici-entesdecorrelac¸ãomoderados(r > 0,30)foramobservados apenas entre a subescala de distúrbios respiratórios e os escoresdesintomasnasais(r=0,32)eextranasais(r=0,32) (tabela2,fig.2).
Tabela2 Coeficientesdecorrelac¸ãodeSpearman(valores significantes;p<0,05)entreoescoretotaleosescoresdas subescalasdoChildren’sSleepHabitsQuestionnaire(CSHQ) emarcadoresdecontroledarinitealérgicaa
ESN Esen PFIN
r EscoreCSHQtotal 0,15 0,16 −0,22 Despertaresnoturnos --- 0,16 ---Parassonias --- 0,25 ---Distúrbiosrespiratórios 0,32 0,32 ---Sonolênciadiurna 0,17 --- −0,27
a ESN, escorede sintomasnasais;Esen,escore desintomas
extranasais;PFIN,picodefluxoinspiratórionasal.
Discussão
Acredita-seque a rinite alérgica possa afetar o sono por diferentes mecanismos. A congestão nasal secundária ao processo inflamatório da mucosa nasal induz aumento da resistênciadas vias aéreas e pode resultarem respirac¸ão oral,interrupc¸ãodosonoefadiga.23 Alémdisso, mediado-resinflamatóriosdoprocessoalérgico,comoahistaminae certascitocinas,podematuardiretamentenosistema ner-vosocentralealteraroritmodosono.23Recentemente,foi observadoemcrianc¸ascomdistúrbiodosonoqueapresenc¸a derinitealérgica(semapneiaobstrutivadosono)diminuio tempodesonoREM(RapidEyesMovement).24
Apesar de ser apontada como uma das principais con-sequênciasdarinitealérgica,asalterac¸õesouosdistúrbios dosono foramainda pouco avaliados por ferramentas ou instrumentosvalidadosemcrianc¸as.25
Em nosso estudo documentamos que as crianc¸as com rinite alérgica apresentam maiores pontuac¸ões no CSHQ quandocomparadascom ascrianc¸ashígidas, oque indica maiorchance de distúrbios do sono entreaquelas. Toda-via, se pensarmos no uso isolado do CSHQ, qual escore seriacapazdeidentificarapresenc¸adedistúrbiodosono?
70
60
50
40
30
Rinite não controlada Rinite controlada
p < 0,001 p = 0,03
p = 0,02
Controles
CSHQ
Figura1 EscoretotaldoChildren’sSleepHabitsQuestionnaire(CSHQ)decrianc¸ascomrinitealérgicacontrolada(rinite contro-lada:escoredesintomasnasais≤3)(cinzaclaro),nãocontrolada(rinitenãocontrolada:escoredesintomasnasais≥4)(cinza escuro)econtroles(branco).
r = 0,32; p < 0,001 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 0 2 4 6 8 10 12 14 0 2 4 6 8 10 12 14 ESN ESEN Distúrbio respiratório Distúrbio respiratório r = 0,32; p < 0,001
Figura 2 Dispersão dos valores da subescala específica do
Children’sSleepHabitsQuestionnaire(CSHQ)emarcadoresde controleda rinite alérgica (ESN, escore de sintomas nasais; Esen, escore de sintomas extranasais; r = Coeficiente de correlac¸ãodeSpearman).
Segundo os idealizadores do CSHQ, esse valor seria 41.17 Empregando esse valor como ponte de corte,verificamos que83%dascrianc¸ascomRAPMGseriamclassificadascomo portadoresdedistúrbiosdesonoe entreoscontrolesessa porcentagemchegariaa60%.Poroutrolado,se empregásse-mosamedianadoescoretotaldoCSHQobservadaemnosso grupocontrole(Me=43)comopontodecorte,teríamos76% dealterac¸õesentreoscomRAPMGe44%entreoscontroles. Entretanto,noestudoamplodevalidac¸ãoparaoportuguês essepontofoide47.19 Admitindo-seessepontodecorte, teríamosdistúrbiosdesonoem 51%dos comRAPMGeem 24%dos controles.Diante dessesresultados,qualquer que fosseocritérioempregadoficaclaroqueospacientescom RAPMGtêmmaiorfrequênciadedistúrbiosdesono.
Revisãosistemática recenteavaliou a associac¸ão entre rinite alérgica e distúrbios do sono em crianc¸as.26 Dos 18 estudos selecionados sobre o tema, publicados nos últimos 25 anos, 12 encontraram maior prevalência de distúrbios do sono nas crianc¸as com rinite alérgica, com predominânciaderoncoshabituais.26Asgrandesdiferenc¸as nosmétodosempregadosemcadaestudo,queenvolveram diversas faixas etárias e diferentesmétodos diagnósticos, nãopossibilitaramametanáliseecompilac¸ãodosdadosda revisão,26 assim comodificultama comparac¸ão comnosso estudo.
Diversosestudosmostraramqueacongestãonasaléum fator de risco independente para distúrbios respiratórios durante o sono. O sono é maisafetado quandoa conges-tãonasalégrave,levaaparassonias,roncos,distúrbiosna respirac¸ãoeconsequentementeasonolênciadiurna.26Nosso estudodemonstrouqueparassonias,distúrbiosrespiratórios esonolênciadiurnaapresentammedianasmaioresnos paci-entes comrinite alérgicadoque nos pacientescontroles. Essasalterac¸õesdosonoobservadasnascrianc¸ascomrinite
alérgicaprovavelmentecontribuemparacomplicac¸ões pre-viamente descritas da rinite alérgica, como reduc¸ão da qualidadedevidaenodesempenhoescolar.2---7
Nopresenteestudopudemosobservarassociac¸ão signifi-cativaentreosdistúrbiosdosonoediversosmarcadoresde gravidadeounãocontroledarinitealérgica,achado docu-mentadoatéomomentoporlimitadonúmerodeestudos.25 NotassignificativamentemaioresdoCSHQforam encontra-das naqueles com rinite alérgica não controlada (fig. 1) e houve correlac¸ão significantede diversas subescalas do questionáriocomoescoredesintomasepicodefluxonasal (tabela2).Essascorrelac¸ões,entretanto,foramfracas na maioriadoscasos,correlac¸õesmoderadasforam encontra-dasapenasnasubescaladedistúrbiosrespiratórios.
Emnossoestudo,umaferramentaobjetivadeavaliac¸ão dafunc¸ãonasalfoiempregada,opicodefluxoinspiratório nasal.Pudemosdocumentarcorrelac¸ãosignificantee nega-tivadessavariávelcomoescoretotaldoquestionárioecom asubescaladesonolênciadiurna.
Afaltadetratamentoregulareefetivodarinitealérgica éapontadacomoumadasprováveiscausasdaassociac¸ãoda doenc¸acomalterac¸õesdosono.26 Ensaiosclínicos observa-ram quea introduc¸ão docorticosteroideintranasalnesses pacientes contribui positivamente para na qualidade do sono e na reduc¸ão desses distúrbios.27,28 Em nossoestudo incluímosapenaspacientesemtratamentocom corticoste-roideintranasalepudemosdocumentarqueaassociac¸ãoda rinitecomasalterac¸õesdosonotambéméobservada nes-sascrianc¸as.Chamaaatenc¸ãoaelevadataxadepacientes tratadosemesmoassimnãocontrolados(47%).Esseachado podeserdevido,emparte,aorigorosocritériodefinidopara controledarinitealérgica(escoredesintomasmáximode 3pontosemescalade12pontos).Poroutrolado,estudos feitosempacientescomrinitealérgicajádocumentarama persistência desintomasemboa partedeles,mesmo com usoregulardamedicac¸ão.3,29Finalmente,nenhumcontrole objetivodousodamedicac¸ãofoifeito,umavezqueessenão eraoobjetivodoestudo,e,assim,nãoépossívelgarantir realeregulardamedicac¸ão.
Apesardemuitousado,oCSHQaindacarecedevalidac¸ão contra instrumentos clássicos para o diagnóstico de dis-túrbios do sono. Pelo nosso conhecimento, apenas um estudo comparou subescalas do CSHQ com achados obje-tivos evidenciadosempolissonografia decrianc¸as.30 Neste estudo nãofoi encontrada correlac¸ão significanteentre a polissonografia e quatro subescalas do CSHQ e os autores observaramqueessassubescalas doquestionário apresen-tambaixasensibilidadeealtaespecificidadenodiagnóstico de distúrbios do sono.30 Entretanto, é importante desta-car que os distúrbios do sono englobam uma vasta série dealterac¸ões,doenc¸asesintomas.Oquestionáriousadono presenteestudo(CSHQ)éumaferramentadetriagem,tem alimitac¸ãodenãopoderestabelecerdeformaconclusivaa presenc¸aounãodedistúrbiosdosonoesuanatureza.
Apresenc¸adeoutrasdoenc¸asalérgicas,comoaasma,ou detratamentoscomcertasmedicac¸ões,poderia represen-tarpossívelviésdoestudo.Paraminimizartalfatooptamos porincluirapenascrianc¸ascom asmacontroladae excluir asem usodeanticonvulsivanteseanti-histamínicos clássi-cos.Observamosqueapresenc¸adeasmacontroladaeouso deanti-histamínicosdesegundagerac¸ãonãoseassociaram significantementecomasrespostasdoquestionário.
Conclusão
Crianc¸ascomRAPMG,mesmoemtratamentoregular, apre-sentam maior frequência de distúrbios do sono do que controles,particularmente em relac¸ão aos distúrbios res-piratóriosnoturnoseasonolênciadiurna.Aintensidadedas alterac¸õesdosonoencontradasnessassubescalasse corre-lacionoucom marcadoresobjetivosdegravidadedarinite alérgica.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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