UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
FRANCIELY DA LUZ OLIVEIRA
FORJANDO “MÁQUINA GRANDE” NOS SERTÕES DO ATLÂNTICO:
DIMENSÕES CENTRO-AFRICANAS NA HISTÓRIA DA
EXPLORAÇÃO DAS MINAS DE IPANEMA E NA INSTALAÇÃO DE
UMA REAL FÁBRICA DE FERRO NO MORRO DO ARAÇOIABA
(1597-1810)
CAMPINAS 2020
FRANCIELY DA LUZ OLIVEIRA
FORJANDO “MÁQUINA GRANDE” NOS SERTÕES DO ATLÂNTICO:
DIMENSÕES CENTRO-AFRICANAS NA HISTÓRIA DA
EXPLORAÇÃO DAS MINAS DE IPANEMA E NA INSTALAÇÃO DE
UMA REAL FÁBRICA DE FERRO NO MORRO DO ARAÇOIABA
(1597-1810)
Orientador
Prof. Dr. Aldair Carlos Rodrigues
ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELA ALUNA FRANCIELY DA LUZ OLIVEIRA E ORIENTADA PELO PROF. DR. ALDAIR CARLOS RODRIGUES
CAMPINAS 2020
Dissertação apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestra em História, na área de Política, Memória e Cidade.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSIFIA E CIÊNCIA HUMANAS
A Comissão julgadora dos trabalhos da Defesa de Dissertação de Mestrado, composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 30 de Março de 2020, considerou a candidata Franciely da Luz Oliveira aprovada.
_______________________________________________
Prof. Dr. Aldair Carlos Rodrigues
____________________________________________________ Profª. Drª. Crislayne Gloss Marão Alfagali
____________________________________________________ Prof. Dr. Robert Wayne Andrew Slenes
A Ata de Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertações/Teses e na Secretaria do Programa de Pós Graduação em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Dedico a
Valéria Maria, minha mãe, e para tantas outras mulheres que como ela nunca deixaram de somar esforços e sacríficios para manter seus filhos e filhas estudando;
Meu pai e a todos meus irmãos e irmãs, obrigada por toda a força e carinho, por nunca me deixarem desistir;
Luan, meu companheiro de vida, sonhos e lutas, obrigada por todo seu amor por mim.
Agradecimentos
O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento: 001. Sem tal recurso, esta pesquisa não teria sido possível.
***
Por trás do nome estampado na capa desta dissertação há várias mãos, sujeitos, carinhos e afetos, cada qual ao seu modo, responsáveis por me ajudar a concluir este trabalho. Sou eternamente grata a cada uma dessas pessoas. Sei que o espaço é breve para se fazer os merecidos agradecimentos, mas saibam que tenho um enorme carinho e apreço por todos.
Em primeiro lugar, agradeço a minha mãe, Valéria Maria. Infelizmente, por conta de uma série de mazelas sociais, minha mãe faz parte da enorme estatística de jovens mulheres brasileiras que não tiveram a oportunidade de concluir seus estudos e, muito cedo, tornaram-se mãe. Na simplicidade dos seus atos e com sua coragem e valentia para educar a mim, minhas irmãs e meu irmão, ela sempre nos incentivou e lutou para que seguíssemos adiante com nossos estudos e sonhos. Ainda que isso lhe custasse muitas dificuldades pessoais e uma série de trabalhos precários. Tenho certeza de que sem minha mãe eu não teria alcançado passos tão largos num país tão desigual e injusto como o nosso.
Agradeço ao meu pai, Adilson. Sinto profundamente que a epidemia tenha interrompido nosso combinado de fazermos uma grande festa em comemoração à defesa do meu trabalho. Como minha mãe, meu pai também não teve a oportunidade de concluir seus estudos. Ele sempre sonhou em ver seus filhos estudando, pois sabia que apenas isso poderia livrá-los de um destino cruel reservado às pessoas pobres nascidas no interior e trabalhadores do meio rural. Suas palavras, conselhos e toda sua ternura ainda permanecem comigo e me tornam forte para seguir adiante.
Agradeço a minha irmã Francine pela sua calma e ternura, por ter me acolhido e acalmado em tantos momentos de aflição, e por ter feito de tudo para que nesses últimos anos as coisas fossem mais leves. Igualmente, sou grata a minha irmã Viviane – obrigada por ter me ajudado em tantos momentos de desespero. Ter a sua presença e a do Fábio por perto foi fundamental. Ao Fábio, agradeço a enorme paciência em me ajudar a resolver tantos “perrengues”. Além de tudo, sou grata por todo seu apoio, principalmente nos momentos finais da pesquisa, quando tudo parecia não ter fim. De maneira muito carinhosa, ele leu e comentou
quase todo o trabalho. Por fim, agradeço a Manu, minha irmãzinha. Nossa família jamais seria a mesma sem o encanto e a inteligência dela.
Além disso, agradeço ao meu cunhado Walter e toda sua família. Sem dúvidas, os finais de semana que passamos reunidos no sítio eram uma injeção de ânimo para eu voltar para Campinas e retomar os estudos.
Aos meus colegas da graduação e da Moradia da Unicamp, local em que por muitos anos para mim foi sinônimo de morada, abrigo e lar. Agradeço em especial a César, Daniel, Rafaela, Elis, Karen, Jéssica Cecim, Angélica e Soler. Além deles, agradeço às pessoas que conheci no cursinho Popular Proceu, principalmente aos alunos e alunas. Também agradeço pela amizade e pelas conversas que tive com Ana, Claire e Milton, pessoas com quem aprendi muito. No Proceu também conheci duas pessoas incríveis, Bosso e Thais, e sou grata por tantos momentos agradáveis que passamos juntos.
Sou também muito grata pelos colegas que fiz no grupo de Maracatu em Barão Geraldo, o “Maracatucá”. Em especial, agradeço a amizade de Mirela.
No contexto das casas onde morei, agradeço pela amizade que construí com Everson, Mari e Murilo – foi imprescindível estar com vocês no último período do mestrado. Obrigada por todo o apoio.
Aos amigos e amigas que conheci no decorrer da pós-graduação, Felipe, Jessyka, Jonatas, Noemi e Julian, meus sinceros agradecimentos. Obrigada pela forma como me acolheram e me ajudaram com as questões da pesquisa e com meus anseios pessoais. Felipe e Jessyka, em especial, me ajudaram nas questões em torno do debate da história indígena. Sem vocês eu não teria encarado o desafio de me embrenhar nesse assunto. Sou grata pelo companheirismo que construímos ao longo dos últimos anos. A Felipe, obrigada pelas conversas, por ouvir meus desabafos e por fazer-me sentir segura diante de tantas incertezas geradas pelo processo da escrita.
Ainda na pós-graduação tive o prazer de conhecer novos amigos e reafirmar a amizade de outros. Agradeço a Leonardo, Laila, Guido, Lívia, Carla, Bruno, João, Meire, Eduardo, Victor, Natalia e Mayara.
Agradeço aos professores com quem convivi na pós-graduação e nas linhas de pesquisa, Izabel Marson, Stela Bresciani, Josiane Cesaroli, Rui Luiz Rodrigues, Leila Mezan e Lucilene Reginaldo. Obrigada por terem discutido comigo esse projeto e pelas experiências compartilhadas.
Agradeço ao meu orientador Aldair, pela paciência, pela leitura atenta do meu trabalho, pelo compromisso com a minha pesquisa e com a Universidade pública.
Aos professores que fizeram parte da minha banca de qualificação e defesa, Robert Slenes e Crislayne Alfagali. Sem dúvidas eu não teria alçado passos tão largos sem o debate a que tive acesso através da arguição de ambos. Obrigada pela leitura atenta do trabalho e pelas indicações de fontes e bibliografias.
Agradeço aos funcionários do Arquivo do Estado de São Paulo, em especial a Márcia. Na Unicamp, agradeço a Maria Helena da Biblioteca Central, a Neiva, Santos e Bel da Biblioteca do IFCH, além de sr. Luís e Bene do xerox. Também agradeço às funcionárias terceirizadas, em especial a Marli. Meus agradecimentos também a Leandro, secretário da pós-graduação, a Anicleide Zequini, do Museu Republicano de Itu, aos funcionários da Biblioteca Municipal de Sorocaba e aos funcionários da Fazenda Ipanema em Iperó.
Por fim, agradeço ao meu companheiro Luan, por todo carinho e amor, e por nunca ter me deixado desistir das minhas escolhas e sonhos.
Com certeza não consegui mencionar aqui tantas outras pessoas que foram fundamentais para a conclusão deste trabalho, pessoas que passaram pela minha vida nos últimos anos e que me proporcionaram aprendizados que sempre carrego em meus pensamentos e ações.
“Num país onde quase ninguém lê, escrever é quase um sacerdócio. Ao contrário do que muitos pensam, ser poeta não é um privilégio, é um castigo. Porque escrever dói, arranca pedaços e deixa marcas profundas no coração. Muitas vezes ele desce até o inferno para que o leitor suba ao céu e leia a sua dor como se fosse dor alheia. É a magia das palavras. Escrever é sangrar um pouco todo dia na presença de testemunhas que assistem a tudo, mas não podem fazer nada. E de tão trágicos, os poetas, mergulham em poças de letras feito que se afoga no fundo do mar. É quando o poema prende a respiração para que outra pessoa possa respirar”.
RESUMO
A presente dissertação investiga as dimensões da diáspora africana ao longo das tentativas de ocupação, exploração e construção de uma fábrica de ferro, localizada no termo da Vila de Sorocaba. O recorte cronológico abarca o período de descoberta dos depósitos de ferro pelas autoridades coloniais, no final do século XVI, até a instalação da Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema nas primeiras décadas do século XIX. Apesar das fontes utilizadas, em sua maioria registros oficiais, também foi possível apreender a importância de outros sujeitos como indígenas, mamelucos, africanos e seus descentes, nas explorações das minas de ferro. Através da comparação dos projetos iluministas portugueses para os sertões do Atlântico Sul, a partir da segunda metade do século XVIII, em São Paulo e em Angola, foi possível compreender a importância da história centro-africana, suas técnicas e saberes empregados na transformação do minério de ferro em vários tipos de objetos. Desse modo, a pesquisa almeja contribuir com a historiografia que, recentemente, vem investigando a participação dos sujeitos locais na implementação dos projetos iluministas portugueses, mostrando outros aspectos das narrativas e da história das técnicas, das ciências e dos saberes, utilizados nos projetos coloniais para exploração, transformação da natureza e ocupações dos sertões.
Palavras- Chave: 1. Fábrica de Ferro de Ipanema; 2. Ferro; 3. Diáspora Africana; 4. Metalurgia 5. Cidades e vilas – Sorocaba (SP)
ABSTRACT
This dissertation investigates the dimensions of the African diaspora during the attempts to occupy, explore and build an iron factory located at the boundaries of Vila de Sorocaba. The chronological cut includes the period of discovery of iron deposits by the colonial authorities, at the end of the 16th century, until the installation of the Royal Iron Factory São João do Ipanema in the first decades of the 19th century. In conjunction with the sources used, mostly official records, it was also possible to apprehend the importance of other subjects, such as indigenous people, Mamelukes, Africans and their descendants, in the exploitation of the iron mines. By comparing the Portuguese illuminist projects for the South Atlantic hinterlands from the second half of the 18th century in São Paulo and Angola, it was possible to understand the importance of Central African history, its techniques and knowledge used in the transformation of the iron ore on various types of objects. Thus, the research aims to contribute to the historiography that, recently, has been investigating the participation of local subjects in the implementation of Portuguese enlightenment projects, showing other aspects of the narratives and the history of techniques, sciences and knowledge used in colonial projects for exploration, transformation of nature and occupations of the hinterlands.
Keywords: 1. Fábrica de Ferro de Ipanema; 2. Iron; 3. African Diaspora; 4. Metallurgy; 5. Cities and towns - Sorocaba (SP)
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - Visão parcial da FLONA Ipanema, com destaque a área preservada de Mata
Atlântica 16
Figura 2 - Visão parcial do rio Ipanema, do Morro do Araçoiaba e de um prédio do conjunto
arquitetônico 16
Figura 3 - Foto da cópia da tela em óleo de Ettore Marangoni pintada em 1974 19
Figura 4 - Localização aproximada dos principais grupos indígenas no século XVI na região
correspondente ao Estado de São Paulo 38
Figura 5 - Localização aproximada da “População indígena no sudeste do continente
sul-americano (século XVI)” 39
Figura 6 - Itinerário de Ulrich Schmidel com destaque ao caminho do Peabiru 50
Figura 7 - Mapa Arqueológico da região do município de Sorocaba, produzido pelo
arqueólogo Wanderson B. Esquerdo 58
Figura 8 - Recorte do Mapa produzido a partir das viagens e descrições feitas sobre a
SUMÁRIO
Nota da Autora 14
Introdução 15
Capítulo 1: Pelos caminhos e terras indígenas umas minas de ferro: descobrimento, primeiras ocupações e explorações do Morro do Araçoiaba na Capitania de São Vicente
(1597-1684) 32
1.1. Povos indígenas das atuais terras paulistas 32
1.2. Porta de entrada para os sertões paulistas: as primeiras ocupações na região da serra
acima 43
1.3. Para além da borda atlântica as trilhas do Peabiru: em terras indígenas umas minas de
ferro 48
1.4. Entre Engenhos de ferro e a busca por índios nos sertões: as primeiras forjas no Morro do
Araçoiaba 56
Capítulo 2: Os interiores atlânticos na segunda metade do século XVIII: projetos de fábricas de ferro para os sertões da Capitania de São Paulo e no interior de Angola
(1760-1775) 70
2.1. Domingos Pereira e seus sócios: sobre a sociedade e companhia para o estabelecimento de uma Fábrica para caldear o ferro no termo da Vila de Sorocaba (1760- 1768) 70 2.2. Projetosde “máquina grande” para os sertões das bordas do atlântico: conexões entre as
minas de Ipanema e a Fábrica de Nova Oeiras em Angola (1765-1769) 82
Capítulo 3: Para além da serra acima, adentrando os sertões e forjando fábricas de ferro: aspectos da diáspora centro-africana no morro do araçoiaba (1765-1775) 98 3.1. Alargando sertões e forjando Fábricas na Capitania de São Paulo 98 3.2 Desvendando os segredos das fundições: aspectos da diáspora centro-africana nas terras
do Morro do Araçoiaba 119
Capítulo 4: Levantando os edifícios para a fábrica grande: outros planos ilustrados para
as mesmas paisagens (1784- 1810) 145
4.1. Retomando antigos planos para os sertões do Atlântico 145
4.2 João Manso Pereira: químico, naturalista e inspetor da possível fábrica de ferro de São
Paulo (1797-1803) 155
4.3 Os planos pragmáticos de Martim Francisco de Andrade para a construção das ferrarias
aos pés do Araçoiaba (1801- 1803) 168
4.4. Participação estrangeira na instalação da fábrica grande: africanos e seus descendentes,
suecos, ao lado de indígenas e homens do país (1803-1811) 179
Considerações Finais 188
Fontes Consultadas 194
Referências Bibliográficas 203
Nota da Autora
Neste trabalho, com o intuito de promover maior fluidez na escrita e na leitura do texto, optamos por atualizar o português da grafia original das fontes acessadas. Sempre que possível, tentamos manter fielmente os significados expressos nos documentos.
INTRODUÇÃO
Em 2014, por conta de um convite feito pela minha irmã e meu cunhado, estive pela primeira vez na Fazenda Ipanema, como todos a conhecem na região, localizada no município de Iperó, vizinho da cidade de cidade de Sorocaba, no interior do Estado de São Paulo. Aceitei o convite sem grandes pretensões. Até hoje lembro-me dos sentimentos e sensações deste dia. Fui tomada por uma vontade enorme de conhecer com detalhes as histórias que estavam por trás daquelas construções vultuosas e antigas, as quais se mesclavam com a densa Mata Atlântica da paisagem. Chegando ao local nos direcionamos para as trilhas do parque. Acompanhados por um guia, a intenção era percorrer um longo caminho até o alto do morro do Araçoiaba. Seguimos em grupo. Com o celular na mão, ao invés de fotos, comecei compulsivamente a anotar várias indagações, tarefas para a casa. Também não poupei perguntas ao guia, que não nos privou de uma história oficial, marcada pela atuação dos “grandes homens” europeus, quase sempre adjetivados como, desbravadores, colonizadores, detentores das luzes, e conhecedores dos saberes técnicos e científicos sobre a siderurgia.
Depois da trilha, não tivemos tempo para percorrer outros pontos. Saí de lá inquieta, com um desejo enorme em aprofundar meus conhecimentos e produzir uma pesquisa sobre a fábrica de ferro. Foi então que, entre 2015 e 2016, tive a oportunidade de desenvolver uma monografia sobre o tema. No entanto, meu objetivo era apenas fazer algumas considerações acerca do patrimônio material e natural.
Na Fazenda Ipanema, estas duas categorias são bastante presentes e objeto de estudos no campo do patrimônio. O conjunto arquitetônico e histórico foi tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 1964 e pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) em 1974. Ele é composto por várias construções restauradas da antiga Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema, a qual funcionou até o ano 1895. Os prédios compõem a belíssima paisagem, circunscrita em uma área preservada de Mata Atlântica, que integram uma Unidade de Conservação, a FLONA IPANEMA (Floresta Nacional de Ipanema). Atualmente o local é administrado pelo Instituto Chico Mendes (ICMBIO), que organiza e faz a gestão da FLONA,
recebendo visitantes de uma variada faixa etária ao longo de todo o ano, principalmente estudantes das escolas da região de Sorocaba.1
Figura 1 - Visão parcial da FLONA Ipanema, com destaque a área preservada de Mata Atlântica
Fonte: site do ICMBIO FLONA IPANEMA, seção atrativos para os visitantes. Disponível em <http://www.icmbio.gov.br/flonaipanema/guia-do-visitante.html>. Acesso em 02 de março de 2020.
Figura 2 - Visão parcial do rio Ipanema, do Morro do Araçoiaba e de um prédio do conjunto arquitetônico
Fonte: Site do ICMBIO FLONA IPANEMA, seção atrativos para os visitantes. Disponível em <http://www.icmbio.gov.br/flonaipanema/guia-do-visitante.html>. Acesso em 02 de março de 2020.
1Para detalhes mais completos sobre os desdobramentos posteriores depois do final do estabelecimento ver:
OLIVEIRA, Franciely da Luz; CARVALHO, Aline Vieira de. A Fábrica de Ferro São João do Ipanema:
disputas patrimoniais e constituição das políticas ambientais no Brasil. XXIX Simpósio Nacional de História
(ANPUH), Brasília, 2017. Disponível em: <https://www.snh2017.anpuh.org/resources/anais/54/1489523889>. Acesso em 02 de março de 2020.
Não prossegui com a pesquisa no campo dos estudos sobre patrimônio, mas reconheço que ela foi fundamental na minha carreira como pesquisadora. A partir dela tive acesso a vários trabalhos a respeito da Fábrica de Ipanema, em diversos campos do conhecimento como história, biologia, patrimônio, turismo, geografia, geologia, engenharia, direito, educação ambiental etc. Até hoje todas estas leituras compõem meu repertório intelectual e ajudaram-me a olhar com maior clareza para vários detalhes do meu objeto de estudo.
Em 2017, tive a oportunidade de ingressar no mestrado na área de História Política, Memória e Cidade, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), quando comecei a desenvolver o projeto que deu origem a atual pesquisa. Tinha como objetivo compreender as reformas ilustradas na Capitania de São Paulo, a partir de sua restauração em 1765, e os impactos destas políticas para construção de uma fábrica de ferro na Capitania. Todavia, estava mais interessada nos estadistas, políticos e naturalistas, do que em outros sujeitos históricos.
Dois momentos foram fundamentais, para que eu repensasse minha proposta de pesquisa. O primeiro deles, em maio de 2017, quando pude assistir a defesa de doutorado da professora Crislayne Alfagali. Recordo-me que saí da sala deslocada, desestabilizada, no bom sentido, as arguições da autora e da banca incitaram-me a uma série de reflexões. Dei-me conta que a história da Fábrica de Ipanema estava muito mais conectada com a outra margem do Atlântico. Muitos aspectos do meu objeto, portanto, começavam pela África e não apenas pela história de Portugal.
Depois, no segundo semestre do mesmo ano, tive a oportunidade de cursar na pós graduação a disciplina oferecida pelo professor Aldair. A matéria tinha como proposta analisar as “Dimensões da diáspora africana: identidade e circulação de técnicas e saberes em perspectiva atlântica (séculos XVI- XIX)”. As aulas, as leituras da bibliografia, o debate com os colegas da história social, possibilitaram-me outros horizontes teóricos. No final da disciplina, lembro que produzi um pequeno artigo valendo-me das mesmas fontes utilizadas para a montagem de meu projeto de mestrado. Este artigo tinha como objetivo demonstrar a importância das dimensões e a centralidade da história centro-africana para a compreensão da história das minas de Ipanema. Diferente do meu projeto de mestrado feito em 2016, desta vez, comecei minha narrativa pelos elementos históricos da história africana.
A partir de então, comecei, cada vez mais, a dialogar com o campo de estudos da história da África, da história social e principalmente da diáspora africana nas Américas. Em 2018, tive a oportunidade de ser monitora da professora Lucilene Reginaldo numa disciplina para graduação, a qual procurava apresentar aos alunos algumas abordagens da história da
África. A professora, mesmo sabendo sobre minhas limitações teóricas, gentilmente acolheu-me. Sem dúvidas, a experiência nesta matéria foi imprescindível para minha formação. Na época eu estava preparando meu texto de qualificação, então as discussões, a leitura dos textos e a participação nas aulas foram fundamentais para entender e aprofundar diversos aspectos do meu trabalho.
Tenho certeza de que, depois destas oportunidades, nunca mais fui a mesma pesquisadora, muito menos a mesma pessoa. Em março de 2018, quando comecei o trabalho no Arquivo Público do Estado de São Paulo, eu já tinha outro olhar sobre um conjunto de fontes tradicionalmente utilizado nas pesquisas sobre a Fábrica de Ipanema. Outras perguntas norteavam-me, bem diferentes daquelas que apresentei no projeto de seleção para o mestrado e nos encontros da linha de pesquisa. Na qualificação em março de 2019, as mudanças já puderam ser sentidas. Sou muito grata por todas as oportunidades acadêmicas e pelas pessoas que me ajudaram nesta jornada. Sem grandes pretensões, espero que o aprendizado alcançado até aqui, de algum modo, tenha reverberado na dissertação de mestrado que se segue.
***
Em 2018, em função da efeméride dos duzentos anos das primeiras fundições dos altos fornos construídos pelo engenheiro alemão Varnhagen, uma série de comemorações foram realizadas na Fazenda Ipanema. Além disso, nos meios de comunicação tanto impresso como televisivo várias reportagens foram veiculadas. 2 O que mais chamou-me a atenção foi um dos selos comemorativos, lançado pela agência dos correios. A estampa reproduziu uma pintura feita por Ettore Marangoni (1907-1992), um suíço radicado no Brasil que viveu a maior parte de sua vida em Votorantim, município vizinho de Sorocaba. O artista produziu, a partir de suas
2 Cito como exemplo algumas reportagens que circularam na época, todas elas são enfáticas em relação ao trabalho
europeu nos altos fornos. Poli Usp celebra 200 anos da primeira corrida de ferro gusa na fundição Ipanema
com maquete em impressão 3D.Disponível em <
https://www.poli.usp.br/noticias/8703-poli-usp-celebra-200-anos-da-primeira-corrida-de-ferro-gusa-na-fundicao-ipanema-com-maquete-em-impressao-3d.html> Acesso em 02 de março de 2020; TOMAZELA, José. Há 200 anos, país iniciava produção de ferro nos altos fornos de
Iperó. Matéria produzida no jornal eletrônico do Estadão, 01 de novembro de 2018. Disponível em<
https://sao- paulo.estadao.com.br/blogs/pelo-interior/ha-200-anos-pais-iniciava-producao-de-ferro-nos-altos-fornos-de-ipero/> . Acesso em 02 de março de 2020; SHIKAMA, Felipe. Realidade aumentada chega à Floresta Nacional
de Ipanema, lançamento dessa novidade marca a data em que se comemora os 200 anos da construção dos Altos Fornos de Varnhagen. Matéria produzida no jornal eletrônico do Cruzeiro do Sul, 01 de novembro de 2018.
Disponível em< https://www.jornalcruzeiro.com.br/cultura/realidade-aumentada-chega-a-flona/> Acesso em 02 de março de 2020; Início da fabricação de ferro no Brasil completa 200 anos – TV SOROCABA/ SBT. Matéria veiculada nos meios televisivos e no canal do Youtube da emissora, 01 de novembro de 2018. Disponível em<https://www.youtube.com/watch?v=IkaKw4ZGe2A> Acesso em 02 de março de 2020.
releituras históricas, uma série de quadros acerca da história de Sorocaba, inclusive, a respeito da Fábrica de Ipanema3.
Figura 3 - Foto da cópia da tela em óleo de Ettore Marangoni pintada em 1974
Fonte: Acervo pessoal da autora, foto feita da imagem exposta no Centro de Memória da FLONA Ipanema em Iperó-SP.
A imagem é uma fotografia feita a partir de uma cópia da tela, exposta no centro de memória da FLONA Ipanema. A pintura original foi feita em 1974 e se encontra sob a posse do acervo do Museu Histórico Sorocabano. A representação a respeito dos trabalhadores africanos e seus descendentes é bastante racializada. São homens despidos de parte de suas roupas, sem sapatos e executando algumas tarefas braçais. A tela, historicamente datada, reforça uma ideia estereotipada e preconceituosa, a de que os escravizados foram responsáveis apenas por empregar sua força física nas minas e forjas de Ipanema, nada mais. Na pintura, são sujeitos passivos, aguardando as ordens dos trabalhadores brancos, europeus. É assim que o maior contingente de trabalhadores da fábrica, que surgiu e se sustentou no bojo de uma sociedade escravista, foi representado nas comemorações de 2018.
Na FLONA Ipanema, a tela é uma das poucas referências aos escravizados. Os demais registros visuais, materiais e simbólicos contam ao visitante detalhes completos da face europeia da história. No entanto, quase nada é dito sobre os trabalhadores de origem africana, indígenas, agricultores desprovidos de recursos, e muito menos sobre as mulheres do local. E, até mesmo, a respeito dos europeus, igualmente em condições precárias, que gastaram suas vidas na construção das ferrarias para exploração e fundição do ferro. Todas as informações,
3 Notas biográficos do artista Ettore Marangoni, A história da Arte com história. Disponível em<
ainda são pautadas por uma história oficial. Norteados por uma narrativa que parte de um ideário de progresso da nação, no qual o empreendimento é retratado como resultado do conjunto das políticas joaninas a partir de 1808, as quais formaram o “berço da siderurgia brasileira.”
***
Na contramão desta narrativa oficial, a pesquisa que se segue tem outros objetivos. A intenção é o desprendimento de uma análise que contemple apenas o circuito ilustrado luso-brasileiro, suas relações e interfaces para a construção da Fábrica de Ipanema. É importante notar que não se trata de desprezar ou ignorar outras correntes de pensamento historiográfico, muito menos desmerecer a importância de alguns sujeitos históricos. O intuito é reconhecer os limites interpretativos e propor outras leituras para as fontes, sempre que possível, trazendo a devida complexidade de que o tema carece. Nossa proposta, dessa maneira, é uma tentativa de romper com o espaço geográfico, simbólico e hegemônico entre Brasil e Portugal. E, assim, tendo como foco as relações multicêntricas, que perpassaram as decisões locais, no espaço do Morro do Araçoiaba, nos inúmeros esforços para ocupação, exploração das minas e construção de ferrarias e fábricas para fundição do minério de ferro.4
O presente estudo, portanto, dialoga com os trabalhos que, principalmente desde os anos 2000, têm reforçado a centralidade da história e das experiências africanas para melhor compreensão das dimensões da escravidão nas Américas. E, assim, fornecendo novas interpretações sobre as trajetórias e atuação dos escravizados na construção do “Novo Mundo”. Nesse sentido, refletindo sobre o protagonismo destes sujeitos no processo de circulação de saberes e técnicas pelo Atlântico sul.5
4 A respeito da mudança teórica que ocorreu no campo das ciências humanas, a partir dos anos 1960, que promoveu
“um profundo ‘descentramento’ “, e uma enorme mudança de paradigmas nas pesquisas, na qual a relação entre “centro” e “periferia” para o período moderno foi erradicada, ver principalmente: SLENES, Robert W. A
importância da África para as Ciências humanas. Texto apresentado no seminário “Respostas ao racismo:
produção e compromisso político em tempos de ações afirmativas”, realizado em 3 de dezembro de 2009 no IFCH/ Unicamp; LARA, Silvia H. Conectando Historiografias a escravidão africana e o antigo regime na América
Portuguesa, p.26. In: MODOS de governar: ideias e práticas políticas no imperio portugues, seculos XVI-XIX.
Coautoria de Fernanda Bicalho, Vera Lucia Amaral Ferlini. São Paulo, SP: Alameda, 2005; WOOD, A.J.R. op cit, 2009; FEIERMAN,Steven. “African Histories and the dissolution of world history”. In: Bates, R.H., Mudinbe, V.Y. and O´Barr, Jean. Africa and the disciplines. The contributions of researche in Africa to the Social
Sciencies and Humanities. Chicago: The University of Chicago Press, 1993, p. 167-212; FERREIRA,
Roquinaldo. A institucionalização dos Estudos Africanos nos Estados Unidos: advento, consolidação e
transformações. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 30, nº 59, p. 73-90 – 2010. Disponível
em: http://www.scielo.br/pdf/rbh/v30n59/v30n59a05.pdf.
5 Cito alguns trabalhos que foram fundamentais para esta pesquisa, reconhecendo, entretanto, graças à profusão
do campo, que muitos trabalhos deixaram de ser contemplados aqui em que pesem suas contribuições para o debate historiográfico. Ao longo do texto, utilizo outros autores que não aparecem nesta lista. LARA, Sílvia. Conectando
Historiografias a escravidão africana e o antigo regime na América Portuguesa, p.26. In: MODOS de governar: ideias e práticas políticas no imperio portugues, seculos XVI-XIX. Organização de Fernanda Bicalho,
Para a historiadora Beatriz Mamigonian, a busca por uma experiência propriamente africana é uma tentativa de diferenciá-los dos seus descendentes nascidos no local onde fixaram-se, dos colonizadores europeus e dos nativos, bem como, mais tarde, dos imigrantes. O propósito das investigações é manter o centro das observações nos africanos de primeira geração, com intuito de analisar a vida dos inúmeros homens, mulheres e crianças que foram trazidos às Américas pelo tráfico transatlântico entre os séculos XVI e XIX.6
Tal objetivo implica uma tentativa de descobrir as marcas e memórias das primeiras gerações para as subsequentes. A busca, desse modo, segue dois percursos. Um deles por meio do nível coletivo, através das rotas comerciais, intercâmbios diplomáticos e culturais, além do tráfico de escravos. Outro modo possível, consoante Mamigomian, seria através de uma análise individual, uma busca por pessoas ou pequenos grupos. Em geral, a intenção dessa conduta é conectar os sujeitos, grupos ou indivíduos ao continente africano, aspirando a interligá-los às suas regiões de origem, quando possível, de maneira precisa. Para a autora, ainda que a proposta ocasione alguns problemas teóricos e metodológicos, pesquisas recentes têm mostrado certa viabilidade.7
A temática sobre a presença africana na Real Fábrica de Ipanema tem sido objeto de vários estudos. No entanto, a maior parte deles têm como recorte temporal um período posterior ao que se apresenta nesta pesquisa. Ainda são escassos os trabalhos que privilegiaram as dimensões da história centro-africana no bojo dos projetos reformistas pombalinos para os sertões Atlânticos, a partir da segunda metade do século XVIII. O principal motivo pela escolha de outros recortes, sem dúvidas, é a abundância dos registros históricos. Para o período posterior a 1810, quando o empreendimento oficialmente foi fundado pelas autoridades régias, há um
Thompson e a experiência negra no Brasil. Projeto História. São Paulo, n. 12, out. 1995; MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. África no Brasil: mapa de uma área em expansão. Topoi (Rio J.), v. 5, n. 9. Rio de Janeiro. 2004; REIS, João Jose. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês, 1835. 2. ed São Paulo, SP: Brasiliense, 1987; CARNEY, Judith Ann. Black rice: the African origins of rice cultivation in the Americas. Cambridge [Estados Unidos]: Harvard University Press, 2001; SLENES, Robert Wayne Andrew. Na senzala,
uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava: Brasil Sudeste, século XIX. 2. ed. corr.
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011; SLENES, Robert. A Árvore de Nsanda transplantada: cultos kongo
de aflição e identidade escrava no Sudeste brasileiro (século XIX). In: LIBBY, Douglas Cole; FURTADO,
Júnia Ferreira (Org.). Trabalho Livre, Trabalho Escravo: Brasil e Europa, séculos XVIII e XIX. São Paulo: Annablume, 2006; SLENES, Robert W. “Malungo, ngoma vem!” África coberta e descoberta no Brasil. Revista USP, nº 12, p. 48-67, 1991-1992; PIROLA, Ricardo Figueiredo. Senzala insurgente: malungos,
parentes e rebeldes nas fazendas de Campinas (1832). Campinas, SP: Editora da Unicamp, c2011; ALFAGALI,
Crislayne Gloss Marão. Em casa de ferreiro pior apeiro: os artesãos do ferro em Vila Rica e Mariana no século XVIII. 1 edição – São Paulo: Alameda, 2018; GOUCHER, Candice L. African metallurgy in the Atlantic world.
The African Archeological Review,11, 1992; GOUCHER, Candice. Rituals of iron in the Black Atlantic World.
In: AKINWUMI, Ogundiran; PAULA, Saunders (Org). Materialities of Ritual in the Black Atlantic. Bloomington, Indiana University Press, 2014.
6 MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. África no Brasil: mapa de uma área em expansão. Topoi (Rio J.), v. 5, n.
9. Rio de Janeiro. 2004, p. 36.
sistemático conjunto de documentos. Além disso, a fábrica passou a receber progressivamente um número enorme de escravizados de origem africana, principalmente a mão de obra forçada dos africanos livres, depois de 1830.8
Em geral, nos artigos, dissertações e teses sobre o estabelecimento, são apresentadas pesquisas que se atentam para as redes de sociabilidade entre os escravizados, além do impacto das ações judiciais perante a estrutura administrativa, suas revoltas, fugas, e a formação de famílias escravas no interior da fábrica. Além de reafirmar e compreender os variados modos dos processos de resistência dos africanos livres e escravizados, e as relações estabelecidas entre ambos os grupos.9
É consenso entre as pesquisas que a Real Fábrica não teria perdurado, quase até o final do século XIX, sem o uso, pelo Estado Imperial do Brasil, de um contingente enorme de mão de obra forçada e escrava. Ao lado dos estrangeiros da Europa, não há dúvidas, os estrangeiros da África e seus descendentes ocuparam todos os tipos de funções, exceto aquelas de cunho administrativo. Eram eles mestres, aprendizes, oficiais de fundição, trabalhando em atividades como as de refino, ferreiros, carpinteiros, sapateiros, tropeiros etc. Em vários momentos os altos fornos foram operados, juntamente com outras atividades das fundições, apenas pelos escravizados.10
8 Segundo o catálogo organizado pela pesquisadora Karina Oliveira Morais dos Santos, o maior acervo documental
existente sobre a Fábrica de Ipanema está disponível no Arquivo Público do Estado de São Paulo. O conjunto é composto distintas tipologias documentais, cartas, ofícios, memorandos, balanços econômicos, memoriais etc. As fontes estão distribuídas em oito caixas, das quais cinco foram catalogadas por essa historiadora. A data inicial do inventário pertence ao ano de 1810, quando oficialmente o estabelecimento foi criado. SANTOS,Karina de Oliveira Morais dos. Mão de obra na Fábrica de Ferro de São João de Ipanema: um catálogo de documentos
do Arquivo Público do Estado de São Paulo (1810-1842). Periódicos Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp). In: Fontes, v. 4 n. 6 (2017 -1 ): Documentos e instrumentos de pesquisa, p.35-136. Disponível em: < https://periodicos.unifesp.br/index.php/fontes/article/view/9156> Acesso em 25 de fevereiro de 2020.
9 São exemplos dessa abordagem interpretativa alguns trabalhos, a saber: RODRIGUES, Jaime. Ferro, trabalho
e conflito: os africanos livres na Fábrica de Ipanema. Revista de História Social, Campinas- SP, número: 4/5,
1997/1998, p.29.42; FLORENCE, Afonso Bandeira. Resistência Escrava em São Paulo: a luta dos escravos da
fábrica de ferro São João de Ipanema 1828-1842. Afro-Ásia, 18, 1996, p.7-32; MAMIGONIAN, Beatriz
Galloti. Do que “o preto mina” é capaz: etnia e resistência entre africanos livres. Afro-Ásia, 24, 2000, p. 71-95; REIS, João, MAMIGONIAN, Beatriz. Nagô and Mina: The Yoruba Diaspora in Brazil. In: FALOLA, Toyin; CHILDS, Matt (Eds.). The Yoruba Diaspora in the Atlantic World. Indiana, Indiana University Press, 2004. pp. 77- 110; MAMIGONIAN, Beatriz Galloti. Africanos livres: a abolição do tráfico de escravos no Brasil. Companhia das letras, 2017; RIBEIRO, Mariana Alice Pereira Schatzer. Entre a Fábrica e a Senzala: um estudo
sobre o cotidiano dos africanos livres na Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema – Sorocaba- SP (1840-1870). Dissertação de Mestrado, Unesp, Assis-SP, 2014; SANTOS, Karina de Oliveira Morais dos. Alemães, Suecos, Africanos e indígenas: mão de obra na Fábrica de Ferro São João de Ipanema. Histórica – Revista
Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo, número 61, maio de 2014, p. 44.52; DANIELI NETO, Mario. Escravidão e indústria: Sorocaba (SP):1765-1895, 2006.Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia, Campinas, SP; ROCHA,Ilana Peliciari. Escravos da nação: o público e o
privado na escravidão brasileira, 1760-1876. Tese de Doutorado, Universidade Estadual de São Paulo, 2012;
MENON, Og Natal A Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema e seu mundo (1811- 1835). Dissertação (Mestrado) – PUC, São Paulo, 1992.
10 Dentre as pesquisas, citadas na nota de rodapé anterior, ver principalmente: ROCHA, Ilana Peliciari. Op cit,
Em relação à mão de obra forçada, outro grupo pouco mencionado pelas pesquisas é o de origem indígena. Ainda que numericamente menor, não é possível relegar a participação destes sujeitos a um passado remoto, conotando a esta presença a noção de uma “pré-história” das terras do Morro do Araçoiaba. As fontes sobre os trabalhadores indígenas são escassas. Ainda assim, a partir dos poucos registros e da conjuntura histórica da Capitania de São Paulo e do Estado Imperial brasileiro, muitos caminhos interpretativos podem ser traçados. Em geral, quando mencionadas são apenas informações de notas de rodapé, e não ocupam a atenção que o tema ainda carece nos trabalhos historiográficos sobre a fábrica11.
A respeito da presença africana nas minas de Ipanema, poucos trabalhos procuraram associar a experiência dos escravizados com a bagagem histórica e as experiências de vida que os inúmeros grupos abarcados no local traziam de suas regiões de origem, na África. Apesar dos avanços da historiografia e dos profícuos caminhos permitidos pelas fontes ainda restam muitas pesquisas a serem feitas. Ao longo de todo o século XIX, paulatinamente a origem dos sujeitos escravizados, como atestam os registros, eram oriundos da região centro-ocidental africana12.O local é uma extensa área em que há muitos séculos possuí uma íntima relação com a transformação do minério de ferro em objetos de variadas formas para uso doméstico, na agricultura e nos ritos religiosos. Certamente, os escravizados partilharam muitos elementos comuns, como questões relativas às cosmologias e às técnicas de trabalho com o ferro, elementos que impactaram a forma como eles lidaram com o árduo processo de escravização na Fábrica de Ipanema13.
11 Localizamos algumas fontes, para anterior e posterior ao período de 1810 sobre a presença indígena no
Araçoiaba, principalmente ao longo da administração do alemão Varnhagen, depois de 1814. Além disso, o senador Nicolau Vergueiro e José Bonifácio, quando esteve na fábrica, fazem menção ao uso deste tipo de mão de obra. Ver principalmente: VERGUEIRO, Nicolau Pereira de Campos. História da fábrica de Ipanema e defesa
perante o Senado. Brasília, DF: Senado Federal: Editora da UnB, 1979; JOSÉ BONIFÁCIO de Andrada e Silva. Memória Econômica e Metalúrgica Sobre a Fábrica de Ferro de Ipanema (1820). In: BARBOSA, Francisco
de Assis. Dom João VI e a siderurgia no Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1958. Este debate, no que concerne o período posterior a década de 1820, tem sido realizado por uma historiografia que tem como foco a questão das fronteiras imperiais depois do processo de independência do Brasil. Nesse sentido, é imprescindível incluir nas análises as interações entre indígenas, africanos e seus descendentes, interrogando noções como o processo de racialização, nação, cidadania e trabalho no contexto do Estado Imperail. Para as pesquisas posteriores que se propunham a pensar o uso da mão de obra indígena em Ipanema, em paralelo ao de origem africana, um ponto de partida são as discussões realizadas por: Miki, Y. (2018). Frontiers of Citizenship: A Black and
Indigenous History of Postcolonial Brazil (Afro-Latin America). Cambridge: Cambridge University Press.
doi:10.1017/9781108277778.
12 Ver principalmente os dados alçados na pesquisa da autora: RIBEIRO, Mariana Alice Pereira Schatzer. Op cit,
2014.
13 Ver principalmente: SLENES, Robert Wayne Andrew. op cit, 2006; SLENES, Robert W.op cit, 1991-1992;
SYMANSKY, Luís Claúdio P e GOMES, Flávio dos Santos, “Iron Cosmology, Slaveryn and Social Control:
The Materiality of Rebellion in the Coffe Plantations of the Paraiba Valley, Southeastern Brazil” Journal of
Não desprezamos neste trabalho, no entanto, a hipótese de que muitos sujeitos tenham, de fato, aprendido muitas habilidades da lide com o ferro no interior da fábrica. Ainda assim, não é possível negligenciar ou desconfiar da possibilidade de que muitos ferreiros, fundidores e outros tipos de artesãos também tenham abarcado nas minas de Ipanema. Sem dúvidas, ambas as hipóteses precisam ser avaliadas e testadas com maior rigor pelas futuras pesquisas.
Nesta dissertação, todavia, nos atentamos para as dimensões da diáspora africana ao longo das primeiras tentativas de ocupação, exploração e construção de uma fábrica de ferro nas terras do Morro do Araçoiaba, na Vila de Sorocaba. O recorte cronológico compreende o período de descoberta dos depósitos, no final do século XVI, até os primeiros preparativos para instalação da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, em 1810.
As fontes consultadas, em sua maioria, são documentos oficiais, cartas régias, ofícios, bandos, correspondências, relatórios, relatos e memórias de viajantes, naturalistas etc. A despeito do caráter oficial dos registros, foi possível apreender a participação e a importância de outros sujeitos históricos como indígenas, mamelucos, africanos e seus descendentes, escravizados do real fisco, além dos pequenos agricultores, nas inúmeras tentativas de exploração das minas de ferro nas terras do Araçoiaba ao longo de quase três séculos de história. Um dos focos centrais da dissertação tem como objetivo apresentar, de modo comparativo, os projetos ilustrados portugueses para os copiosos sertões das bordas do Atlântico Sul, a partir da segunda metade do século XVIII, tanto na Capitania de São Paulo como no interior de Angola. Conhecer o outro lado do Atlântico, portanto, nos permitiu entender a importância da história centro-africana, suas técnicas e saberes empregados, para a transformação do minério de ferro em vários objetos, além dos inúmeros significados atribuídos por estes povos aos materiais fundidos. Nesse sentido, a pesquisa também tem como intenção contribuir com a historiografia que, recentemente, tem investigado a participação dos sujeitos e das circunstâncias locais na implementação dos projetos pragmáticos. Assim, é possível acessar outras faces que compõem a história das técnicas, das ciências, dos saberes, utilizados ao longo dos projetos reformistas para o espaço colonial, para operar uma transformação da natureza e ocupação dos sertões.
Cumprindo tais propostas, a presente dissertação foi dividida em quatro capítulos. No primeiro, demonstramos as relações entre as descobertas das minas de ferro no Morro do Araçoiaba com as incursões coloniais dos bandeirantes aos sertões da Capitania de São Vicente, a partir do final do século XVI. Não é possível, portanto, pensar a lógica das primeiras incursões ao morro apartada de toda esta dinâmica de apresamento e escravização de inúmeros grupos
étnicos nos sertões paulistas. É crucial considerar como as tramas e tensões que perpassam a história indígena foram responsáveis por delinear vários projetos coloniais. Procuramos reforçar que a região do Araçoiaba não era um espaço vazio e isolado de uma conjuntura histórica. Pelo contrário, foi um local bastante marcado pelas relações luso-indígenas.
Trata-se de um capítulo com poucas análises documentais, tendo em vista a escassez dos registros, por isso em alguns momentos a narrativa é bastante descritiva. No entanto, encaramos o desafio em dialogar com uma densa historiografia que, desde os anos 2000, têm repensado as relações coloniais sob o prisma de uma enorme população indígena que nos deixou poucos registros escritos. A partir desse debate, organizamos o capítulo em quatro momentos históricos, os quais assinalam os processos de transformação das terras indígenas, onde as minas de Ipanema estavam localizadas, bem como o uso desta mão de obra em condição escrava e forçada ao longo das primeiras tentativas particulares de fundição do minério, nos séculos XVI e XVII.14
Na segunda metade do século XVIII, no interior das reformas pombalinas para o Império português, a Capitania de São Paulo passou por várias mudanças. Uma delas foram as medidas para sua restauração política, tornando-a independente do Rio de Janeiro. Como afirma a historiadora Heloísa Bellotto, São Paulo era um ponto estratégico para assegurar o controle de alguns pontos nevrálgicos como a região da colônia do sacramento e da lagoa dos patos. A atividade dos bandeirantes foi responsável por uma enorme extensão aos limites do tratado de Tordesilhas. Nesse sentido, o reestabelecimento de São Paulo se constituía como, afirma a autora, num “tampão defensivo entre a arca hispano-americana e a região de mineração”15.
Como parte destes projetos reformistas, o governador Luís Antônio de Sousa Mourão também tinha como objetivo a construção de fábricas de ferro, a partir de 1765. No
14 Aqui cito alguns dos principais nomes desta historiografia com quem tentamos traçar um diálogo no primeiro
capítulo do texto, complementados com outros outros autores que não estão elencados aqui. MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994; CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992; CUNHA, Manuela Carneiro da; BARBOS, Samuel. (Orgs.) DIREITOS dos povos indígenas em disputa. São Paulo, SP: Editora UNESP, 2018; CUNHA, Manuela Carneiro da. Índios no Brasil: história, direitos e cidadania. São Paulo, SP: Claro Enigma, 2012; ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas:
identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Editora da FGV:
FAPESP, 2013; SAMPAIO, Patricia Melo. Espelhos partidos: etnia, legislação e desigualdade na Colônia. Manaus, AM: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2012; CHAMBOULEYRON, Rafael. Povoamento
Ocupação e Agricultura na Amazônia Colonial (1640-1706), Belém- Pará, 2010; DORNELLES, Soraia
Sales, A questão indígena e o Império: índios, terra, trabalho e violência na província paulista, 1845-1891. Tese de Doutorado, Unicamp, 2016; ALVARENGA, Felipe de Melo. De terras indígenas à princesa da serra
fluminense: o processo de realização da propriedade cafeeira em Valença (província do Rio de Janeiro, século XIX), 1. Ed – Jundiaí- SP, Paco Editorial, 2019, p.55-137.
15 BELLOTTO, Heloisa Liberalli. Autoridade e conflito no Brasil colonial: o governo do Morgado de Mateus em
segundo capítulo apresentamos os pormenores desta empreitada, que até hoje é bastante rememorada pelos trabalhos historiográficos. Porém, priorizamos uma análise sobre alguns elementos da trajetória de Domingos Ferreira, responsável por organizar uma sociedade particular para explorar o ferro nas minas de Ipanema, termo da Vila de Sorocaba.
Outro sujeito bastante analisado, no mesmo capítulo, foi João de Oliveira um mestre de caldear. Contratado para descobrir o “modo” de fundir o minério de ferro e organizar as construções para a futura fábrica, João tentou ausentar-se de suas funções em Ipanema para deslocar-se para Angola. Essa informação, até hoje, foi pouco explorada pela historiografia. Utilizamos a informação como desponte para aproximar a história do Araçoiaba de elementos do outro lado do Atlântico, na África. Sendo assim, demonstramos as relações entre os projetos de construção de fábricas, “máquinas grandes”, para os sertões das bordas do Atlântico sul. Exploramos as conexões entre a fábrica de ferro que se procurou estabelecer nas minas de Ipanema, por Domingos Ferreira e seus sócios, e a que foi construída no interior de Angola através dos investimentos régios.
A Fábrica de Nova Oeiras, a qual carregava em seu nome uma homenagem ao Marquês de Pombal, também fazia parte dos projetos ilustrados para o ultramar português. Luiz Antônio de Sousa Botelho, governador de São Paulo, tinha nos sertões de Angola, não só um companheiro da administração colonial, mas um amigo e parente. Francisco Inocêncio Sousa Coutinho, seu cunhado, partilhara de várias angústias em relação aos projetos pombalinos, dentre eles o desafio de construir e fazer funcionar uma fábrica de ferro com ferrarias hidráulicas. Ao longo de suas administrações várias correspondências pessoais foram trocadas entre os governadores, das quais selecionamos algumas e analisamos parte delas no capítulo.
Dessa maneira, assinalamos, no capítulo dois, que é imprescindível um conhecimento acerca de uma história social da fábrica de Nova Oeiras, a partir de uma perspectiva que rompa com a lógica difusionista de um centro europeu versus suas periferias, a qual nos possibilita outras interpretações para a história mineralogia, da mineração e siderurgia no cenário do Atlântico Sul e no espaço das minas de Ipanema. Sendo assim, mostramos a história da fábrica e dos trabalhadores de Oeiras, práticos, fundidores e ferreiros centro-africanos que foram cruciais ao projeto ilustrado de Sousa Coutinho. Mais do que uma história de Nova Oeiras, procuro trazer ao leitor elementos históricos, sociais e culturais de uma face centro-africana, suas experiências e os elementos locais que desafiaram a lógica pragmática de
operar da ilustração portuguesa nos sertões angolanos16. A partir desta experiência histórica, traçamos alguns paralelos com o projeto da fábrica de ferro na Capitania de São Paulo.
No terceiro capítulo, estruturado em duas seções, primeiramente tratamos sobre os elementos da conjuntura local de São Paulo que justificavam a pressão das autoridades coloniais para a construção de uma fábrica de ferro na Vila de Sorocaba. Tanto para Angola como em São Paulo, os objetivos coloniais pragmáticos eram bastante parecidos. A saber, a racionalização do território, a povoação dos sertões, a exploração dos recursos naturais, a criação de vilas e povoações civis, a instituição de leis e da justiça portuguesa, o controle da população local, a manutenção e a expansão das fronteiras coloniais etc.17
Vários destes assuntos foram pautas do governo de Luiz Antônio de Sousa. Contudo, a questão da fortificação das praças, organização dos exércitos, a manutenção e expansão das fronteiras coloniais, como a historiografia tem reforçado, foram centrais. Nesse contexto, reiteramos a importância da exploração do minério de ferro para estes projetos pragmáticos. O ferro era um objeto imprescindível para as artilharias e fortificações, além de muito utilizado na agricultura e nos engenhos de açúcar, e em tantas outras atividades cotidianas. Se o ferro fosse produzido localmente, muito seria economizado com o valor, até então, gasto com a importações. Muito ferro em barra era comprado da Suécia, Biscaia, Inglaterra, além de muitas barras que também foram enviadas de Angola18.
Tal qual Sousa Coutinho, em São Paulo a atuação dos sujeitos locais foi crucial, indígenas aldeados, memelucos, artesãos pobres, escravizados de origem africana, são elementos chave para compreendemos os projetos ilustrados. Evidenciamos a importância destas pessoas no trabalho e na lide com as atividades envolvendo a transformação, manutenção de objetos de ferros acabados e semiacabados, nas tendas de ferreiro. Ainda que não haja tantas fontes a respeito destes trabalhadores, procuramos analisar como, diante deste projeto pragmático, todo artesão individual iniciado nos conhecimentos sobre a lide com as atividades das ferrarias, foi recrutado. Em muitos casos de maneira forçada, para trabalhar em vários projetos coloniais.
Em paralelo à cooptação de todo o tipo de mão de obra, o projeto da fábrica de ferro nas minas de Ipanema não cessou. Na segunda parte do terceiro capítulo, apresentamos ao leitor
16 Para o segundo capítulo me baseio nas interpretações e principalmente nos dados alçados, a partir de várias
fontes, pela historiadora: ALFAGALI, Crislayne Gloss Marão. Ferreiros e Fundidores de Illamba. Uma história
social da fábrica de ferro e da Real Fábrica de Nova Oeiras (Angola, segunda metade do século XVIII). 1°
ed. – Luanda: Fundação Dr. António Agostinho Neto, 2019.
17 Ver principalmente: TORRÃO FILHO, Amilcar. Paradigma do caos ou cidade da conversão? São Paulo na
administração do Morgado de Mateus (1765-1775). São Paulo, SP: Annablume, 2007.
alguns aspectos das diáspora centro-africana nas terras do Morro do Araçoiaba, a partir da segunda metade do século XVIII. Nas minas de Ipanema, um habilidoso sujeito escravizado foi um dos únicos que logrou a tirar as melhores forjas do único forno construído no local. Ao lado do mestre de caldear João de Oliveira, o hábil artesão encontrou o ponto correto para fundir o minério. Não há fontes precisas sobre o trabalho escravo na empreitada organizada por Domingos Ferreira e seus sócios. No entanto, a partir das cláusulas do contrato desta sociedade e outras pistas históricas, demonstramos que participação de escravizados peritos, tanto negros como mulatos, foi algo previsto desde o início. Sendo assim, este dado não pode ser ignorado na pesquisa.
Além deste habilidoso artesão escravizado, certamente, outros sujeitos com o mesmo estatuto social trabalharam nas minas de Ipanema. O terceiro capítulo também apresenta algumas conjecturas acerca dos escravizados propriedades dos ex- jesuítas, os quais passaram a pertencer ao real fisco. Alguns deles, no século XVIII, foram levados para trabalhar nas construções para a futura fábrica na Vila de Sorocaba. Até a expulsão dos religiosos, em 1759, uma vasta mão de obra, principalmente de origem indígena, além de africana, foi iniciada nas atividades de ferraria e outros ofícios mecânicos. Depois, quando se tornaram propriedade régias, eles foram aproveitados em várias obras públicas. Neste capítulo, portanto, descrevemos e analisamos os detalhes em torno deste tema, e como ocorreu este processo, até então, pouco explorado nos trabalhos que tratam a respeito da história da exploração das minas de Ipanema. Por fim, ainda no terceiro capítulo, apostamos no argumento de que desde o início, provavelmente, pode ter ocorrido tanto nos trabalhos de forja e fundição do ferro, como em outras atividades, uma forte presença e experiência centro-africana nas terras do Araçoiaba. Muitos trabalhos historiográficos não se atentaram para esta face da história, ou mencionaram brevemente tal legado, às vezes, direcionando as análises apenas para as trajetórias e as técnicas de origem europeia. Perseguindo tal hipótese, organizamos alguns elementos centrais tratados pelos debates historiográficos. Assim, aprofundamos uma discussão sobre alguns elementos sociais, culturais e históricos sobre os significados do trabalho dos ferreiros, fundidores e dos objetos confeccionados por estes artesãos nas sociedades centro-africanas.
Através deste debate, reforçamos ao leitor, a necessidade da compreensão da dinâmica colonial africana, para não incorrermos em certos anacronismos. Muitos deles partem do pressuposto de uma lógica norteada por ideias do presente, utilizando critérios de industrialização que organizam a lógica mundial do comércio atualmente. Por isso, entender a história africana é crucial para compreendermos como os inúmeros homens, mulheres e crianças, transportados de maneira forçada para as Américas, puderam ressignificar suas
relações com um elemento central em suas vidas no contexto dos seus locais de origem. Sendo ainda mais propositiva: como as pessoas que chegaram nas minas de Ipanema acionaram seu legado, suas visões de mundo, cosmologias, e histórias para sobreviver, realizar novas leituras de mundo, transformar suas vidas e culturas no contexto escravista? Estas e outras indagações são expostas e analisadas ao longo do texto.
No quarto e último capítulo, a análise recaiu sobre os projetos ilustrados para os sertões do Atlântico Sul, no final do século XVIII e início do XIX. Tanto a fábrica de Nova Oeiras, como a exploração das minas de Ipanema, foram retomadas pelos projetos reformistas do ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, filho do antigo governador de Angola, Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho. As histórias de ambos os locais, apesar de suas especificidades, continuaram conectadas, e se cristalizaram como marcas dos paradoxais projetos pombalinos para o ultramar. Por isso, logo que assumiu seu posto D. Rodrigo de Sousa, em uma nova fase pragmatismo português, retomou os objetivos para construir “máquinas grandes” para fundição e forja de ferro.
Na segunda seção do quarto capítulo, investigamos a centralidade do químico de naturalista João Manso. O estudioso era um mulato, nascido na colônia que através de seus estudos, muitos deles desenvolvidos de forma autodidata, integrou o circuito ilustrado luso-brasileiro a partir do final do século XVIII. Sendo a fama do naturalista bastante conhecida pelas autoridades coloniais, D. Rodrigo de Sousa, imediatamente após assumir seu posto, acionou-o para trabalhar na Capitania de São Paulo. Pela carta régia de 1799, foi atribuído a Manso o cargo de Inspetor da futura fábrica de ferro na Vila de Sorocaba. Analisamos, a partir de alguns elementos centrais de sua trajetória, suas relações pessoais, suas memórias públicas sobre temas diversos na área dos estudos naturais e a importância deste químico para o pragmatismo português.
A atuação deste sujeito, até hoje, é bastante ofuscada nas pesquisas sobre a Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema, pouco se atribuiu ao seu trabalho a densidade analítica que o caso merece nas narrativas que contam a história do estabelecimento. No período que João Manso ocupou seu cargo ele esteve bastante envolvido com o aprimoramento das técnicas para fundição do minério das minas de Ipanema. Sua história de vida, novamente, nos traz outros ângulos da ilustração portuguesa, bastante norteados pelas dinâmicas locais do espaço colonial. Tentamos explorar algumas perspectivas, mas assumimos que muito trabalho nesse sentido ainda pode ser realizado.
Na penúltima seção, exploramos as informações registradas por Martim Francisco Ribeiro de Andrada, em seu diário, acerca do Morro do Araçoiaba. Esse naturalista, irmão mais
jovem de José Bonifácio, foi nomeado pela Coroa portuguesa em 1801 para substituir João Manso, ocupando o cargo de Diretor Geral das Minas de ouro, prata e ferro da Capitania de São Paulo. Martim Francisco chegou em Sorocaba em 1803, depois passou alguns dias no Araçoiaba, descrevendo e analisando as potencialidades físicas do morro e todas as condições para, enfim, se levantar uma “máquina grande” de fundir e forjar o ferro, utilizando as ferrarias hidráulicas. A partir destas observações, o naturalista produziu uma extensa memória, tratando de vários temas. O estudo tinha como objetivo orientar as autoridades coloniais para prosseguir com as construções das ferrarias. Nesta seção, portanto, investigamos os pormenores deste relato, o qual traz informações acuradas a respeito das circunstâncias naturais e sociais sobre e região das minas de ferro de Ipanema, na Vila de Sorocaba.
Por fim, procuramos analisar as considerações feitas por Martim Francisco, quase todas, foram incorporadas pelas autoridades coloniais para efetuar as construções da Real Fábrica de Ferro, criada através de uma carta régia em 1810. Essa carta, bastante rememorada pela historiografia, no entanto, foi pouco circunscrita a este movimento do pragmatismo ilustrado para os sertões do Atlântico Sul, que ocorreu desde a segunda metade do século XVIII. Não é possível interpretar esta fonte apartada desta conjuntura histórica.
Junto com uma colônia de suecos, contratado por Portugal para trabalhar na exploração das minas, em 1811, também aportaram em Sorocaba os estrangeiros de origem africana. Além de indígenas dos aldeamentos, dos agricultores pobres e outros tantos homens e mulheres, que ajudaram a compor esta experiência de construção de ferrarias, nas planícies do Araçoiaba. Reforço, desse modo, que não é possível considerar apenas a experiência europeia, pois eles não foram os únicos estrangeiros no local.
Apresentamos a ideia de “estrangeiridade” africana, emprestando aqui o termo cunhado pela historiadora Mary Karasch em seus trabalhos, para indicar que a experiência no Araçoiaba foi dinâmica, plural e para (re)afirmar que os escravizados também eram estrangeiros19. Muitas condições para o início do estabelecimento dependiam diretamente de
vários saberes distintos, agregados no espaço para se levantar a fábrica com os tão sonhados altos fornos, e assim aumentar a produção. Certamente uma abundância de técnicas e conhecimentos, não só europeus, foram aplicados nas minas de Ipanema. Muitas deles também eram mormente de origem centro-africana, indígena, mameluca, de agricultores pobres, sentenciados, jornaleiros, artesãos de toda ordem etc.
19 KARASCH, Mary C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo, SP: Companhia das
Tal qual Nova Oeiras, desde o século XVIII, Ipanema também foi um estabelecimento “imaginado” para os sertões. Nela reuniram-se sujeitos de variadas procedências sociais com a intenção de alcançar os “segredos das fundições” do minério de ferro e, por fim, “plantar” e “fincar” as técnicas da metalurgia e mineralogia europeia, da ciência e indústria moderna em solo colonial20. Convido o leitor para que juntos adentremos aos
detalhes das primeiras explorações destas minas de ferro até as tentativas de instalação da Real Fábrica de Ferro, no alvorecer do século XIX.
CAPÍTULO I
PELOS CAMINHOS E TERRAS INDÍGENAS UMAS MINAS
DE FERRO: DESCOBRIMENTO, PRIMEIRAS OCUPAÇÕES
E EXPLORAÇÕES DO MORRO DO ARAÇOIABA NA
CAPITANIA DE SÃO VICENTE (1597-1684)
1.1. Povos indígenas das atuais terras paulistas
Como nos adverte o historiador John Monteiro, “praticamente todos os aspectos da formação da sociedade e economia paulista durante seus primeiros dois séculos confundem-se de modo essencial com os processos de integração, exploração e destruição de populações indígenas trazidas de outras regiões.” Para o autor, na fase inicial das relações luso-indígenas estão as bases da escravidão no Brasil, tanto indígena como africana21.
Como pontua Stuart Schwartz, ao analisar o caso dos engenhos de açúcar da Bahia, mas que igualmente pode nos servir de inspiração, “a tentativa de utilizar o trabalho forçado dos nativos não pode ser simplesmente descartada como um ‘início malogrado’ “ 22 .
A presença indígena no espaço que abrigaria o distrito da Real Fábrica de Ipanema, e depois no quadro dos seus trabalhadores escravizados ou jornaleiros, não deve ter suas dimensões avaliadas apenas em função de seu número. Na verdade, o que está em jogo é a própria montagem de uma sociedade escravista, a qual se traduz por meio das relações de subordinação e poder que dão vivacidade ao sistema. Não há dúvidas de que isso é um elemento que merece ser considerado adequadamente 23.
Como a historiografia tem salientado, é necessário cuidado para não adotarmos a ideia de uma “crônica da extinção” acerca dos povos nativos 24. Tendo em vista que a introdução
21 MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994, p. 9 e 18.
22 SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial 1550-1835. São Paulo,
SP: Companhia das Letras, 1988, p.40.
23 SAMPAIO, Patricia Melo. Espelhos partidos: etnia, legislação e desigualdade na Colônia. Manaus, AM:
Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2012, p.26-7.
24 MONTEIRO, John Manuel. Tupis, Tapuias e Historiadores, Estudos de História Indígena e Indigenismo.
Tese de livre docência, Campinas- SP, agosto de 200, p.37; “No século XIX, depois de uma nova onda de escravização indígena juridicamente amparada nas Cartas Régias de 1808, reabilitando a guerra justa e o cativeiro, e sua revogação em 1831, optou-se definitivamente, pelo silêncio normativo quanto ao tema” Dornelles concluiu