CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:
ÁREA: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS ÁREA:
SUBÁREA: Direito SUBÁREA:
INSTITUIÇÃO(ÕES): FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS - FACAMP INSTITUIÇÃO(ÕES):
AUTOR(ES): THAIS VIEIRA ZANGARO AUTOR(ES):
ORIENTADOR(ES): DANIEL PACHECO PONTES ORIENTADOR(ES):
SUMÁRIO
METODOLOGIA ... 5
1. NOÇÕES BÁSICAS E HISTÓRICAS ... 6
2. PROCEDIMENTOS RESTAURATIVOS: ... 10 2.1 Neutralização ... 10 2.2 Câmaras restaurativas ... 11 2.3 Escuta restaurativa ... 11 2.4 Debate restaurativo ... 12 2.5 Mediação restaurativa... 12 2.6 Mediação vítima-transgressor ... 12 2.7 Círculo restaurativo ... 12 2.8 Câmara de família ... 13 3. CIRCULO RESTAURATIVO ... 13
4. FUNDAMENTOS ÉTICO-FILOSÓFICOS DA JUSTIÇA RESTAURATIVA: ... 14
5. OLHARES SOBRE O CRIME E A REALIZAÇÃO DA JUSTIÇA: ... 16
6. ANÁLISE: VERGONHA REINTEGRATIVA E REGULAÇÃO RESPONSIVA ... 17
7. QUAL A POSIÇÃO DA JUSTIÇA RESTAURATIVA EM RELAÇÃO AO SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL? ... 19
8. JUSTIÇA RESTAURATIVA E ESTUDO JURÍDICO BRASILEIRO: ... 20
9. RESULTADO ... 24
10. CONCLUSÃO ... 25
RESUMO
Esse trabalho contém uma introdução conceitual à ideia da Justiça Restaurativa e às diferenças entre a justiça restaurativa e a justiça criminal convencional. Engloba, também, a questão da possibilidade jurídica do paradigma e sua compatibilidade com o ordenamento jurídico brasileiro, com possíveis sugestões para sua implementação no país. A autora busca demonstrar que, se observados os princípios e procedimentos da justiça restaurativa e das peculiaridades jurídicas do país, é viável implementar o modelo no Brasil.
INTRODUÇÃO
Esse trabalho contém uma introdução conceitual à ideia da Justiça Restaurativa e às diferenças entre a justiça restaurativa e a justiça criminal convencional. Engloba, também, a questão da possibilidade jurídica do paradigma e sua compatibilidade com o ordenamento jurídico brasileiro, com possíveis sugestões para sua implementação no país. A autora busca demonstrar que, se observados os princípios e procedimentos da justiça restaurativa e das peculiaridades jurídicas do país, é viável implementar o modelo no Brasil.
A Justiça Restaurativa representa um novo paradigma aplicado ao processo penal, que busca intervir de forma efetiva no conflito que é exteriorizado pelo crime, e restaurar as relações que foram abaladas a partir desse evento.
A justiça restaurativa é desenvolvida dentro de um processo regular, onde está somente poderá ocorrer se, de fato, houver uma cooperação entre todos os envolvidos no conflito, já que este encontro visa restaurar os sentimentos positivos de ambas as partes os quais não somente se concentrem na solução dos conflitos, reparação e reintegração, mas também, em uma busca contínua da diminuição da criminalidade e em reduzir o impacto que a conduta delituosa causou na vítima e na sociedade, pois ambos tiverem seu modo de vida afetado, tendo que conviver com as consequências do ato delituoso.·.
Tal justiça foi trabalhada ao longo deste trabalho de modo a propor uma alternativa ao sistema retributivo que se mostra, ao longo dos anos, insuficiente e ineficaz. Como será apresentado em seguir, através de fundamentos ético-filosóficos, a sociedade perece e decaí gradativamente ao logo da história pela falta de eficiência da Administração Pública que não consegue apresentar soluções ou medidas para evitar ou diminuir a quantidade de crimes recorrentes, insistindo em um sistema precário e ultrapassado que não produz resultados, o qual gera grande obstáculo entre a vítima e o criminoso.
Além disso, há diversos procedimentos e pilares da justiça restaurativa a serem seguidos para que esse sistema obtenha êxito. Pelo fato da justiça restaurativa ser um método inclusivo, que propõe a participação de todos os envolvidos na relação conflituosa, a justiça restaurativa pode ser aplicada em casos dos mais diversos âmbitos do direito, seja na área criminal, de família, da infância e juventude ou cível.
A Justiça Restaurativa apresenta-se como um modelo complementar de resolução de conflitos e que tem a qualidade de poder ser aplicado, a princípio, tanto dentro da estrutura do Poder Judiciário quanto fora dela. Trata-se do modelo da Justiça Restaurativa, que, segundo Pedro Scuro Neto (2010, p. 112), “atende ao imperativo psicológico básico da sociedade moderna: o desejo de reconhecimento, pelo qual o indivíduo procura suprimir o estado de tensão que reina na sua fonte pulsional, geradora de necessidades”.
OBJETIVOS
• Comprovar que o ordenamento jurídico brasileiro é passível de implementar a justiça restaurativa;
• Diferenciar a justiça retributiva (comum) da justiça restaurativa; • Descrever e explicar os elementos que regem tal justiça;
• Analisar os métodos alternativos da justiça restaurativa para solucionar o problema;
METODOLOGIA
A pesquisa será iniciada após a análise de diversos artigos escritos por doutrinadores e pesquisadores brasileiros que dominam o assunto.
Após essa fase inicial será realizada uma comparação entre o sistema restaurativo e o sistema retributivo para que haja um claro entendimento a respeito do tema abordado.
Pelo fato desse sistema ser pouco aprofundado no Brasil não será possível uma investigação quantitativa e com entrevistas, mas será possível fazê-la através de observação e métodos teóricos que foram utilizados em soluções de conflitos, sendo reaproveitados como exemplos claros de que tal justiça é um método alternativo eficiente, quando utilizado.
1. NOÇÕES BÁSICAS E HISTÓRICAS
A justiça restaurativa ganhou importância no Brasil por volta dos anos 70, pelo fracasso do modelo tradicional-a justiça retributiva-, já que este não obteve resultados promissores em relação à prevenção ao crime e entre as vítimas e os infratores.
Diante desse fracasso, surge uma nova corrente que atua, principalmente, nas áreas da vitimologia e criminologia. Pode-se concluir então, que a justiça restaurativa tem início a partir do momento em que o infrator transgride as regras de conduta social e vem a cometer um fato delituoso tendo com resultado uma lesão ao bem jurídico tutelado pelo Estado (SENA, 2010).
Dessa forma, tal modelo de justiça faz com que o infrator conjuntamente com a vítima e toda a comunidade envolvida participe ativamente de um processo que visa a resolução das questões resultantes de tal delito de modo que os próprios responsáveis assumam sua parcela de culpa e demonstrem-na em forma de desculpas, mudança de comportamento, restituição e generosidade- quatro elementos essenciais para a reparação, cada qual com grande relevância para a vítima e para o infrator. O que faz com que a reparação seja uma decisão da vítima e do infrator e não por terceiros ou pelo Estado-Jurisdição (SENA,2010).
Uma vez que se faz reconhecer que a criminalidade por si só aumenta os prejuízos causados à sociedade na medida em que a criminalidade passa a ocorrer com frequência dentro do convívio social a justiça restaurativa contribui para que o infrator e a vítima possam resolver os conflitos gerados pelo ato delituoso, além de possibilitar ao infrator uma maior inclusão e reintegração com a própria vítima e a sociedade (SCURO NETO, 2006).
Para este modelo de justiça, o crime não é apenas a violação da lei, mas sim um causador de danos, que atinge a vítima e a sociedade em geral, e por tal motivo passa a ser necessário a repará-lo, para que assim o ato delituoso cometido pelo infrator possa diminuir ao máximo as consequências causadas à sociedade. Já o modelo retributivo tem uma noção abstrata do crime como controle a Justiça Penal, o qual o infrator deve pagar multa ou cumprir a pena de forma exclusivamente individual, considerando ser mais eficaz a pena que altera condutas através de ameaças a castigos físicos e psicológicos para, assim, coibir a criminalidade.
e deve pagar pelo que fez através de castigos, ofensas, punições e discriminações por parte da vítima, comunidade e até o próprio Estado (Sena, 2010). O processo restaurativo se inicia a partir do momento em que o infrator e a vítima aceitam encontrar-se para solucionar, da forma mais pacifica possível, o conflito causado pela pratica do ato delituoso. Busca-se criar um ambiente amistoso e seguro para que a vítima se sinta à vontade para buscar uma aproximação com o infrator e posteriormente venha a entender o que motivou o infrator a agir de tal forma e com isto chegar a uma conclusão do conflito e o que pode ser feito para que novos conflitos não ocorram (SLAKMON, 2005).
Ressalte-se que é fundamental assegurar aos participantes boa informação sobre as etapas do procedimento e consequências de suas decisões, bem como garantir sua segurança física e emocional. Nesta ocasião, o papel dos facilitadores é muito importante, os quais devem ser tão discretos quanto possível, no sentido de não dominarem as ações do evento, mas conduzirem as partes no caminho de alcançar, por seus próprios meios, o encontro da solução mais adequada ao caso.
O objetivo desta aproximação é fazer com que o infrator se responsabilize pelos seus atos e possa reparar o dano causado ou minimizar as consequências que sua conduta gerou a sociedade e também se desculpar com a vítima e toda a sociedade para que, assim, adquira consciência de que seu ato delituoso teve consequências lesivas e de que não infringirá novamente as regras de convívio impostas pela justiça.
Consequentemente, a justiça restaurativa busca não apenas reparar o dano, mas sim que o infrator possa ser reinserido no meio social e com isso não cometa nenhuma transgressão às regras de conduta social. De forma que tal modelo não visa apenas aplicar práticas punitivas e sim possibilitar uma nova chance ao infrator de se desculpar e reparar o dano causado à sociedade, para que com tal atitude, possa ser reinserido no meio social (SCURO NETO, 2006).
A Justiça Restaurativa representa um novo paradigma aplicado ao processo penal, que busca intervir de forma efetiva no conflito que é exteriorizado pelo crime, e restaurar as relações que foram abaladas a partir desse evento. Assim, e desde que seja adequadamente monitorada essa intervenção, o modelo traduz possibilidade real de inclusão da vítima no processo penal, sem abalo do sistema de proteção aos direitos humanos construído historicamente (Sena, 2010).
somente o crime propriamente dito e sim compreender, desde a violação da tutela jurisdicional do Estado em relação ao bem jurídico, até a relação aos danos causados às vítimas, a comunidade e ao Estado.
Há três elementos que fazem parte do conceito da justiça restaurativa, são eles: elemento social que consiste em compreender o crime não apenas como uma violação das condutas sociais, mas sim como um ato capaz de importunar toda a sociedade a qual foi afetada pela pratica do ato delituoso, o qual gera uma disfunção nas relações interpessoais dos indivíduos já que o crime não afeta apenas o Estado, mas implica, também, na visão que a comunidade passa a ter do crime e do indivíduo que o cometeu; elemento participativo que se baseia em afirmar que só haverá justiça restaurativa se a vítima efetivamente participar da resolução do conflito proporcionado pelo infrator trazendo consequências á toda comunidade, inclusive á vítima, consciência e prejuízos ao infrator; já o elemento reparador visa basicamente restaurar o dano sofrido pela vítima, fazendo com que o infrator de fato repare o dano que ele causou.
Esta concretização se dá quando há o encontro da vítima frente a frente com o infrator, buscando de fato a efetiva reparação de todo o prejuízo obtido pela vítima por conta da conduta delituosa do infrator.
Vistos os três elementos de tal justiça, podemos concluir que este modelo ocorre de forma informal, voluntária e através da intervenção de mediadores, para buscar da melhor maneira possível a resolução do conflito. Diz-se que é voluntária porque ocorre da livre e espontânea vontade dos envolvidos - vítima, comunidade e infrator - para obter a reparação do prejuízo causado à vítima, ressaltando-se que apenas ocorrerá quando todos os envolvidos no conflito concordarem com a utilização da justiça restaurativa, respeitando os procedimentos adequados para tal reparação e informal porque não existe uma forma determinada para que a reparação seja feita, basta que haja a manifestação de vontade dos indivíduos no conflito, quando convidados a utilizar a justiça restaurativa, para assim buscar a melhor solução para a reparação do dano.
Por conta de tal informalidade, a figura do mediador é imprescindível nesta forma de justiça, já que ele é a pessoa responsável por fazer com que a vítima aceite se encontrar como o infrator para analisar e possivelmente compreender os motivos que o levaram a cometer o ato delituoso e fazer com que ele se desculpe com a vítima para posteriormente reparar o dano, tentando diminuir as consequência
causadas por seu ato.
Há, também, a figura da sociedade que foi afetada na sua forma de convivência social devido à conduta cometida pelo infrator, que veio a ferir um bem jurídico tutelado pelo Estado. O mediador busca fazer com que as partes cheguem a um acordo que seja justo para todos, sempre com o cuidado de que tal diálogo não supere a cordialidade e a educação, uma vez que a reparação do dano será decorrente de todo o acordo definido pelas partes. Por fim, por mais que a justiça seja informal e somente ocorrer de forma voluntária entre todos os envolvidos no processo de restauração, nela deve sempre estar presente a segurança, em especial da vítima, para que esta se sinta amparada para que haja a possibilidade de se encontrar com quem lhe causou prejuízos para, posteriormente, realizar um acordo que seja benéfico para ambos e todas as outras pessoas envolvidas em tal situação.Vale ressaltar que o mediador deve ser efetivamente treinado para que sua capacidade de comunicação e compreensão seja aprimorada para que reste frutífero o acordo entre os envolvidos (SCURO NETO, 2000).
A justiça restaurativa é desenvolvida dentro de um processo regular, onde esta somente poderá ocorrer se, de fato, houver uma cooperação entre todos os envolvidos no conflito,já que este encontro visa restaurar os sentimentos positivos de ambas as partes os quais não somente se concentrem na solução dos conflitos, reparação e reintegração, mas também, em uma busca contínua da diminuição da criminalidade e em reduzir o impacto que a conduta delituosa causou na vítima e na sociedade, pois ambos tiverem seu modo de vida afetado, tendo que conviver com as consequências do ato delituoso.
No Brasil, há de se pensar neste modelo já que atualmente não temos nenhum dispositivo normativo que tenha em seu conteúdo práticas que sejam totalmente restaurativas, porém há avanços em dispositivos que trazem algumas práticas restaurativas de modo ainda tímido no âmbito jurídico.
Um dos pontos centrais da Justiça Restaurativa está em entender que todos nós vivemos em sociedade, interligados de alguma forma, como se estivéssemos em um grande círculo, cada qual com sua individualidade, mas apresentando igual importância para o desenvolvimento do todo e influenciando diretamente os rumos da coletividade. Portanto, não é possível simplesmente excluir qualquer pessoa quando vem à tona um conflito, mas, ao contrário, faz‑se necessário trabalhar as responsabilidades coletivas e individuais para que ela retorne à convivência
comunitária da melhor forma possível (GOMES PINTO, 2004).
Assim, a Justiça Restaurativa traz uma verdadeira mudança de paradigma, daquele retributivo (punitivo) para o restaurativo, pois, tomando como foco central os danos e consequentes necessidades, tanto da vítima como também do ofensor e da comunidade, trata das obrigações decorrentes desses prejuízos de ordem material e moral. Para tanto, vale‑se de procedimentos inclusivos e cooperativos, nos quais serão envolvidos todo aquele direta ou indiretamente atingidos, tudo de forma a corrigir os caminhos que nasceram errados (ZEHR, 2008).
2. PROCEDIMENTOS RESTAURATIVOS:
Fixada a importância do método de resolução de conflitos restaurativo, este é o momento para explicar os procedimentos definidos por este método, a partir do entendimento de Scuro Neto (2006).
Para a justiça restaurativa, “fazer justiça” significa restaurar, reconstituir e reconstruir. Além disso, todos os envolvidos e afetados por um crime devem ter a oportunidade de participar do processo restaurativo já que o papel do poder público é preservar a ordem social, assim como à comunidade cabe a construção e manutenção de uma ordem social justa.
Os próprios responsáveis devem reparar sempre que possível o dano causado a vítima, assumir sua culpa e demonstrá-la por meio de desculpas, mudança de comportamento, restituição e generosidade. Por isso, vale enfatizar que a reparação deve ser decidida pelos próprios envolvidos (infrator e vítima) e não por imposição de terceiros, juiz ou sociedade.
2.1 Neutralização
A “estratégia de neutralização” consiste em considerar as necessidades da vítima e a sua importância no processo legal. Pressupõe que o infrator deve assumir responsabilidades e um compromisso que vai além da pena imposta pela justiça retributiva.
chamado mediação. Na mediação, iniciada na década de 1970, promove-se um encontro entre as partes envolvidas em um conflito, visando um acordo que pode incluir reparação dos danos causados. O objetivo é chegar a um acordo por escrito, sobre os prejuízos materiais e morais, definindo o que será feito para reparar os males causados à vítima, assim como estabelecer uma ordem de prioridade para restaurar o que foi perdido, destruído ou danificado.
2.2 Câmaras restaurativas
Há, também, câmaras restaurativas que se baseiam em uma reunião de pessoas afetadas por atos delituosos onde pessoas, de alguma forma, lhes dão apoio, encontram meios de reparar os prejuízos e evitar a repetição da conduta delituosa. As câmaras são acessíveis tanto pela vítima com também pelo infrator e as autoridades que investigam o incidente, sob a supervisão de um mediador devidamente treinado para decidir se a câmara será necessária; selecionar, contatar e convocar os participantes; preparar e organizar seus métodos de solução de conflitos; redigir um acordo entre as partes;
Nas câmaras, os participantes têm a oportunidade de relatar os acontecimentos a partir de seu ponto de vista, bem como dizer os impactos causados em sua vida desde então por conta do ato delituoso. Um termo deve ser lavrado e assinado por cada um dos participantes. Os termos do acordo podem incluir pedido formal de desculpas, garantia da não ocorrência de novo ato delituoso, ressarcimento dos danos, reparação de danos materiais, serviço comunitário, compromisso de assumir comportamento adequado.
A duração média das câmaras esperada é de 90 minutos, porém pode variar de acordo com a complexidade do incidente.
2.3 Escuta restaurativa
A chamada “escuta restaurativa” é o início de todo processo restaurativo e requer o “ouvir” de modo ativo, impessoalidade e a imparcialidade. O procedimento é usado quando há necessidade de refletir acerca de uma situação e para que os envolvidos encontrem alternativas por si mesmos. Na “escuta restaurativa” é absolutamente fundamental que mediador não procure dominar a discussão e dar
prioridade a sua própria agenda.
O mediador não pode usar o encontro para assustar, fazer investigação, extrair confissão ou desculpa, comportando-se como se fosse o centro das atenções ou quisesse que os presentes o reconhecessem como tal e se recolhessem à condição de observadores passivos. O ouvir restaurativo permite que todos expressem seus pontos de vista e viabiliza o debate entre os envolvidos.
2.4 Debate restaurativo
O “debate restaurativo” é um encontro promovido para resolver situações difíceis, frequentemente opondo pessoas com poder diferenciado. É um procedimento que requer capacidade de expressar e ouvir, procurando sentimentos e necessidades, também o entendimento de por que o acusado agiu de tal forma.
2.5 Mediação restaurativa
A “mediação restaurativa” é o encontro que deve ser realizado quando uma pessoa acredita que o acusado é a causa do problema. Como se sabe é da essência da mediação a imparcialidade, assim o mediador deve se manter imparcial e procurar ajudar as partes a encontrar uma resolução para o problema.
2.6 Mediação vítima-transgressor
Já a denominada “mediação vítima-transgressor” é o encontro restaurativo em que um reconhece que fez mal ao outro, e em que ambos concordam que as situações podem ser “resolvidas” com a ajuda de um mediador imparcial.
2.7 Círculo restaurativo
O “círculo restaurativo” é uma reunião promovida para agregar e aproximar as pessoas para resolver um problema por meio de respeito mútuo, confiança e reconhecimento.
2.8 Câmara de família
Como último procedimento, destaca-se a “câmara de família” que é a reunião realizada para conciliar as pessoas para que haja a resolução dos conflitos através de respeito mútuo, confiança e reconhecimento. A sua indicação pelo mediador está diretamente ligada a constatação de que “conciliar” é necessário para resolver um problema.
3. CIRCULO RESTAURATIVO
De todos os procedimentos restaurativos citados anteriormente, o círculo restaurativo, tem sido o mais utilizado no Brasil. Na realidade, o procedimento compõe-se de três etapas, sendo a primeira chamada depré-círculo (reunião preparatória), a segunda o círculo restaurativo propriamente dito e a terceira e última etapa, o pós-círculo (reunião de acompanhamento do cumprimento das obrigações estabelecidas). Das reuniões participam vítimas, ofensores e pessoas da comunidade afetadas pela infração, além dos mediadores. Deste modo, o círculo restaurativo é um espaço de poder compartilhado, em que as pessoas comparecem de livre e espontânea vontade e ninguém é culpabilizado; é um local onde os participantes assumem responsabilidade pelo acontecido e chegam a um acordo que restaure a relação social rompida.
As diferenças básicas entre o modelo formal de Justiça Criminal (retributivo) e o modelo restaurativo, são expostas em formato tabular para melhorar visualização dos valores, procedimentos e resultados dos dois modelos e os efeitos que cada um deles projeta para a vítima e para o infrator:
JUSTIÇA RETRIBUTIVA JUSTIÇA RESTAURATIVA Conceito jurídico-normativo de
Crime
Conceito realístico de Crime
Primado do interesse público Primado do interesse das pessoas envolvidas e comunidade
Culpabilidade individual voltada para o passado
Responsabilidade pela restauração numa dimensão social, compartilhada coletivamente
e voltada para o futuro Uso dogmático do Direito Penal
Positivo
Uso crítico e alternativo do Direito
Indiferença do Estado quanto às necessidades do infrator, vítima e comunidade afetados
Comprometimento com a inclusão e Justiça Social gerando conexões
Monocultura e excludente Culturalmente flexível
Dissuasão Persuasão
4. FUNDAMENTOS ÉTICO-FILOSÓFICOS DA JUSTIÇA RESTAURATIVA:
Compreende-se facilmente que o modelo kantiano, justiça retributiva, na medida em que se pretende fundado numa regra racional, expressa uma certa concepção de poder na relação entre indivíduo e sociedade. Trata-se, à toda evidência, de um modelo hierárquico e vertical, tanto assim que o direito público kantiano é concebido pela unificação da vontade – portanto da regra de razão prática –sob uma constituição para compartir o que é de direito.
Se antes da instituição de um estado legal público os homens, os povos e os Estados isolados nunca podem estar seguros uns dos outros em face da violência e fazer cada um o que tem por justo e bom a partir de seu próprio direito, sem para tal dependerem da opinião do outro, necessitando, para tanto, sair do estado de natureza para associar-se no estado civil, compreende-se que é pela união dos homens sob leis jurídicas estatais que a regra de razão impera e, portanto, ser necessário sempre este terceiro, representado pelo Estado, para ditar qual a regra a ser aplicada e a resposta em caso de violação.
Por isso que, para Kant, à universalidade do valor da liberdade enquanto regra formal da razão subsiste, portanto, um outro valor, de ordem política, que é de estruturação da vida em sociedade sob um certo monismo valorativo, conforme uma fonte única do direito, ao qual veda a oposição de resistência ou de perscrutação de sua origem (GOMES PINTO, 2004).
Temos que pensar na justiça como um valor que emerge da relação. Entende-se que Nietzsche e Foucault dão uma outra possibilidade de refletir sobre a relação de poder sobre o justo. A justiça liga-se, para Nietzsche, a uma relação de
confronto entre homens que lhes reclama a capacidade de avaliação e de mediação de uma pessoa e outra. Esta relação primeira aparece entre comprador e vendedor, entre credor e devedor. Neste ponto encontra-se o primeiro momento em que uma pessoa defronta-se com a outra, precisando medir, estabelecer preços, imaginar equivalências e todo este procedimento constituiu o que hoje chamamos de pensamento.
De modo que, para Nietzsche, a própria palavra ‘homem’ designasse o ser que mede valores, o animal avaliador, expressando um sentimento de si próprio. É com base nesta forma mais rudimentar de direito pessoal, da troca, que, transposto posteriormente a complexos sociais, chega-se à grande generalização de que cada coisa tem seu preço, de que tudo deve ser pago, estabelecendo-se o mais velho cânone da justiça como a boa vontade entre homens de poder aproximadamente igual de entender-se entre si mediante um compromisso e, quanto aos de menor poder, forçá-los a um compromisso entre si (BENEDETTI, 2005).
Dá-se, com isto, a oportunidade à emergência de um outro modo de subjetivação não apenas da postura que se há de ter face ao conflito, como, ainda, uma diversa percepção do outro com quem se confrontou e sobretudo da relação com a norma.
De fato, a agressão sofrida pela vítima causa-lhe não apenas dor, privação de direitos, como sobretudo ressentimento que pode passar a se expressar como desejo de vingança. O causador dessas sensações deixa de ser visto como sujeito e passa a ser encarado como alvo de ações, como objeto sobre o qual há de recair sua represália.
Da parte do agressor, a vítima é igualmente despersonalizada, seja para ser vista como repositório de valores materiais dos quais se vê privado e dos quais deseja se apossar, seja para ser encarada como alvo de descarga de um ressentimento que igualmente a marca por um não-lugar que a relação interpessoal ou social lhe reserva como seu.
Colocá-los um frente ao outro para avaliarem o conflito faz com que tenham necessariamente de atentar para outras formas de avaliação que não as suas e, com isto, de reavaliar suas próprias condutas.
O desafio que se coloca, então, é de substituir um modelo de aplicação do direito fundado na lógica dedutiva, em que, de uma premissa maior fundada na
descrição da conduta típica, passamos à menor, a prática de uma conduta infratora àquela prescrição para concluir inevitavelmente pela punição, para o espaço do diálogo, da contraposição discursiva e retórica. Trata-se, portanto, da passagem de um modelo que parte de cima, da regra, para o mundo da conduta e dos sentimentos e sensações, para outra, que vem de baixo, justamente destas pulsões, paixões, ressentimentos, sentimentos que ditam as interpretações do mundo e nos levam a agir e a interagir.
Por isso, neste espaço de vinculação com o vivido, mais do que a regra, o que importa é o processo de interpretação, construção e de expressão desta regra. É neste espaço que poderemos chegar a uma elaboração do que se viveu e do que se vive, a uma composição equilibrada sobre os termos em que podemos viver, a uma efetiva construção do que é a justiça, fazendo com que responsabilidades sejam assumidas e novas possibilidades sejam entrevistas(ZEHR, 2012).
Uma possível conclusão adequada é que com a transformação pretendida, a justiça não há de respeitar mais ao princípio da constituição da sociedade civil, como nos contratualistas, tal como Kant, e daí fundar o modelo retributivo, prescrevendo uma conduta que há de ser obedecida sem oportunidade de questionamento e de resistência. Pelo contrário, a justiça, em sua abertura, se pauta por um processo de reforma permanente, como expressão de sua inserção histórica. Daí a ênfase em seu dinamismo próprio, criando inclusive espaços outros de acolhimento e de promoção de direitos, atentos à necessidade de fala, de escuta, de diálogo e de canais de expressão.
5. OLHARES SOBRE O CRIME E A REALIZAÇÃO DA JUSTIÇA:
O quadro abaixo, de Scuro Neto, se demonstra como uma ferramenta interessante e didática de demonstrar os pressupostos do sistema retributivo e do sistema restaurativo quanto ao crime e Justiça:
Justiça Retributiva Justiça Restaurativa Crime: noção abstrata, infração à lei, ato
contra o Estado
Crime: ato contra pessoas e comunidades
6. ANÁLISE: VERGONHA REINTEGRATIVA E REGULAÇÃO RESPONSIVA
JonhBraithwaite foi um dos responsáveis por dar consistência teórica à Justiça Restaurativa, compreendendo-a como um método eficaz de controle do crime, inclusive em maior grau do que a justiça penal tradicional (Justiça Retributiva). Sua grande contribuição ao estudo do tema foi a elaboração de dois conceitos que tem gerado um satisfatório funcionamento do modelo de justiça restaurativo: “vergonha reintegrativa” e o de “regulação responsiva”.
Benedetti (2005, p. 210) relata que Braithwaite propôs um novo método de controle do crime, fundado na noção de “vergonha reintegrativa”. Tal se apresenta como o ato de demonstrar vergonha no indivíduo e, assim, teria o privilégio de, ao Compromisso do infrator: pagar multa ou
cumprir pena
Compromisso do infrator: assume
Responsabilidades e faz algo para compensar o dano
Crime: ato e responsabilidade exclusivamente individuais
Crime: ato e responsabilidade com dimensões individuais e sociais
Pena eficaz: a ameaça de castigo altera condutas e coíbe a criminalidade
Castigo somente não muda condutas, além de prejudicar a harmonia social e a qualidade dos relacionamentos
Vítima: elemento periférico no processo legal:
Vítima: vital para o encaminhamento do processo judicial e a solução de conflitos Infrator: definido em termos de suas
deficiências
Infrator definido por sua capacidade de reparar danos
Preocupação principal: estabelecer culpa por eventos passados (Você fezou não fez?)
Preocupação principal: resolver o conflito, enfatizando deveres e obrigações futuras. (Que precisa ser feito agora?)
Ênfase: relações formais, adversativas, adjucativas e dispositivas
Ênfase: diálogo e negociação impor sofrimento para punir e coibir Restituir para compensar as partes e reconciliar
Comunidade: marginalizada, representado pelo
Estado
Comunidade: viabiliza o processo restaurativo
mesmo tempo, coibir o crime e promover a reintegração do ofensor.
Em relação ao referido conceito, Benedetti ainda diz o seguinte:Na análise das várias correntes criminológicas realizada por Braithwaite, merece destaque o labeling approach, ou teoria do etiquetamento, consoante a qual, em apertada síntese, a estigmatização de um indivíduo ocasionada pela sua definição como criminoso precipita a sua desviação secundária, eis que o indivíduo tende a incorporar à sua identidade o rótulo que lhe é conferido e, assim, assumir em definitivo o papel social de criminoso. A intervenção penal, força motriz do perverso processo de etiquetamento, é, então, refutada pelo labeling approach, que reputa menos prejudicial a “prudente não-intervenção”.
Braithwaite acredita que o ato de inculcar vergonha no indivíduo, por meio de sinais de reprovação social indutivos de um sentimento de culpa, é um potente mecanismo de controle do crime e, nesse sentido, identifica como uma falha do labeling approach o fato de essa perspectiva ter se ocupado somente da face negativa da vergonha presente no processo de etiquetamento e, assim, não haver vislumbrado outra solução que não a simplista nãointervenção. Em oposição à estigmatização apontada pelo labeling approach, a qual identifica como uma forma de “vergonha desintegrativa”, que tende a isolar o indivíduo da comunidade e induzi-lo ao crime, ele propõe uma “vergonha reintegrativa”, na qual a manifestação de reprovação social é seguida de atos de reaceitação, que interrompem a assimilação do papel social de criminoso e, por via de conseqüência, impedem a reincidência.
Continuando a análise sobre os princípios que seriam a condição de efetividade da Justiça Restaurativa, aparece a discricionariedade. Compreendida no sentido de que ao Estado seja dada a possibilidade de modular a sua atuação de acordo com a necessidade de uma resposta mais ou menos interventiva para a coibição do crime no caso concreto. A essa discricionariedade de decisão quanto à resposta a ser imposta, o autor chama de “regulação responsiva”, opondo-a ao “formalismo regulatório” hoje vigente (BENEDETTI, 2005).
7. QUAL A POSIÇÃO DA JUSTIÇA RESTAURATIVA EM RELAÇÃO AO SISTEMA DE JUSTIÇA CRIMINAL?
Na prática, até os dias atuais, a maioria dos programas restaurativos funcionam às margens do sistema de justiça criminal ou, quando muito, situam-se em algum estágio do procedimento criminal tradicional, mas sem que isso importe numa significativa reformulação do processo penal (SHAPLAND, ROBINSON e SORSBY, 2011). Em todo caso, há algumas exceções – por exemplo, a experiência neozelandesa com as conferências de grupos familiares (familygroupconferences) (MORRIS e MAXWELL, 2000) – a maioria das manifestações práticas de justiça restaurativa segue “sem realmente proporcionar uma forma de resolução de conflitos que modifique as bases retributivas da justiça criminal” (ACHUTTI e PALLAMOLLA, 2014, p. 444). Já na teoria, a esperança de alguns é pela emergência de um sistema restaurativo capaz de substituir o tradicional sistema de justiça criminal (ZEHR, 1990). Além de desenvolver mecanismos de combate ao perigo de extensão da rede de controle penal através dos critérios de encaminhamento de casos aos programas restaurativos, a justiça restaurativa pode atuar de forma a reduzir a resposta punitiva do sistema penal e ao mesmo tempo aumentar o acesso à justiça.
Para Capelletti e Garth (1998) o acesso à justiça pode ser encarado como o requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos – de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas declarar, os direitos de todos. Garantir o acesso à justiça de forma igualitária, portanto, significa assegurar os direitos expostos pela Constituição.
Pode-se relacionar a justiça restaurativa com os juizados criminais ao menos na intenção manifesta da lei 9.099/95 de introduzir mecanismos informais de resolução de conflitos no sistema de justiça criminal. Vale ressaltar que as diferenças entre as duas propostas sãoinúmeras. O fundamental é que a justiça restaurativa pretende ampliar não o exercício do poder punitivo, mas sim o acesso à justiça de qualidade:
“[…] Num quadro de dupla entrada (mediação e punição), o qual poderá, em tese, diminuir tanto o número de castigos impostos, quanto a cifra negra, oferecendo resposta institucional mais acessível e viável para uma série de conflitos que ficaram
marginalizados ou não encontraram respostas satisfatórias dentro de um sistema de mão única, fechado e inflexível” (SICA, 2007, p. 153).
8. JUSTIÇA RESTAURATIVA E ESTUDO JURÍDICO BRASILEIRO:
Quando se analisa o contexto brasileiro, a crise de legitimidade do sistema penal ocupa um lugar de destaque e se manifesta através de indicadores como a falta de credibilidade e eficiência do sistema judiciário, o fracasso das políticas públicas de contenção da violência, o esgotamento do modelo repressivo de gestão do crime, déficits de comunicação e de participação agravados pelas práticas autoritárias das agências judiciais, etc. (SICA, 2007).
De outra parte, encontram-se as crescentes taxas de violência, que colocam a sociedade brasileira entre as mais violentas do mundo. o aumento da violência é fruto de diversos fatores, parte deles resultante do processo de democratização inacabada da sociedade brasileira. A esse respeito, ao analisar o aumento da violência na cidade de São Paulo nas últimas duas décadas, Teresa Caldeira (2003) aponta alguns dos fatores que contribuíram para o incremento da violência e que, sem dúvida, podem ser estendidos aos demais grandes centros urbanos do país: “o aumento da violência é resultado de um ciclo complexo que envolve fatores como o padrão violento de ação da polícia; descrença no sistema judiciário como mediador público e legítimo de conflitos e provedor de justa reparação; respostas violentas e privadas ao crime; resistência à democratização; e a débil percepção de direitos individuais e o apoio a formas violentas de punição por parte da população” (CALDEIRA, 2003, p. 101).
Para Caldeira (2003), o universo do crime, composto pela crescente sensação de insegurança e medo, o crescimento da violência, o fracasso das instituições da ordem (principalmente polícia e Judiciário), a privatização da segurança e da justiça e o contínuo cercamento e segregação dos espaços urbanos revelam o caráter disjuntivo da democracia brasileira, que vivencia processos contraditórios de desenvolvimento. Assim, o universo do crime indica esse caráter disjuntivo em dois sentidos:
“[…] em primeiro lugar, porque o crescimento da violência em si deteriora os direitos dos cidadãos; e em segundo, porque ele oferece um campo no qual as
reações à violência tornam-se não apenas violentas e desrespeitadoras dos direitos, mas ajudam a deteriorar o espaço público, a segregar grupos sociais e a desestabilizar o estado de direito” (CALDEIRA, 2003, p. 56)
Segundo oxhorn e Slakmon (2005), a justiça restaurativa é uma alternativa para qualificar a administração da justiça, contribui para o incremento da democracia e, portanto, torna a justiça mais democrática, pois funciona por meio da sociedade civil, mas nunca é independente do Estado.
“Ao ceder ativamente a jurisdição sobre alguns aspectos do sistema de justiça para organizações sociais, um Estado com baixos níveis de legitimidade social e eficácia pode fortalecer a sociedade civil de modos que ajudarão a melhorar não apenas a sua capacidade de assegurar os direitos de cidadania fundamentais, mas também, de um modo mais geral, a qualidade da democracia” (OXHORN & SLAKMON, 2005, p. 188).Os mesmos autores lembram que, “em democracias altamente desiguais como a do Brasil, o sistema de justiça tende a refletir e perpetuar as desigualdades socioeconômicas existentes” (OXHORN & SLAKMON, 2005, p. 196).
Prudente, recentemente, mapeou os projetos, programas e iniciativas voltados à administração de conflitos interpessoais em operação no país, que foram divididos em dois grupos: o primeiro envolve mecanismos que a autora denomina de tradicionais, por abranger “as práticas de conciliação previstas na lei 9.099/95 e realizadas no âmbito de juizados especiais, assim como os projetos de oferta de assistência jurídica gratuita”; e o segundo engloba as práticas denominadas de alternativas, por incluir iniciativas não previstas nos procedimentos legais, tanto dos juizados especiais quanto da justiça comum.
Este último grupo contempla, em especial, “iniciativas de mediação, justiça restaurativa e arbitragem, realizadas tanto por instituições públicas como pela sociedade civil”. Ainda em relação ao segundo grupo, foram analisadas apenas as iniciativas de caráter institucional, restando excluídas as práticas informais de gerenciamento de conflitos, ou seja, aquelas que não apresentavam uma instituição responsável pela organização das atividades (PRUDENTE, 2012, pp. 79-80).
Segundo o autor (2012), a maioria das iniciativas foi considerada como “alternativa” (75%), enquanto a minoria (25%) se enquadrava na classificação “tradicional”. A mediação (26,9%), a conciliação (15,6%) e a orientação jurídica (9,3%) são as mais frequentes quando há o uso de apenas uma modalidade; e, na
forma combinada, destaca-se o oferecimento conjunto da mediação e da orientação jurídica (verificado em 21,8% das iniciativas); a imensa maioria (79,3%) trabalha com conflitos interpessoais em geral, enquanto uma pequena parcela (10,9%) trabalha com conflitos relacionados a bens disponíveis (geralmente na forma de instituições ou empresas de oferta de serviços de justiça privada, como arbitragem,conciliação e mediação, quando contratadas pelas partes).
Há, ainda, 5,2% das iniciativas que trabalham com conflitos de família; em relação ao perfil das pessoas que atuam diretamente na gestão dos conflitos, 74% são profissionais, de atuação técnica, com formação acadêmica específica, e apenas 2% apresentam uma gestão comunitária dos conflitos, admitindo leigos ou membros da comunidade sem formação específica. Em 24% dos casos, por fim, a atuação é mista, envolvendo tanto técnicos quanto leigos e membros comunitários; quanto às instituições responsáveis, 48% das práticas são promovidas pelo Poder Público, 45% são oriundas de organizações da sociedade civil, e 7% são mistas.
Dentre as de responsabilidade do poder público, o Poder Judiciário (com 23,89%) e o Poder Executivo (com 17.67%) são os mais presentes, enquanto, nas promovidas pela sociedade civil, destacam-se ONGs (13,51%) e universidades (11,95%);
As práticas restaurativas propõem o envolvimento, tanto quanto possível, de todos aqueles que têm interesse em determinada ofensa, em um processo que coletivamente identifica e trata os danos, necessidades e obrigações decorrentes da ofensa, a fim de promover o restabelecimento das pessoas e endireitar as coisas, na medida do possível (ZEHR, 2012).
Segundo o mesmo autor, os três pilares da justiça restaurativa são:
1. DANOS E NECESSIDADES: Experiência reparadora para todos os envolvidos. 2. OBRIGAÇÕES: O ofensor deve ser estimulado a compreender o dano que causou e entender as consequências de seu comportamento, assumindo responsabilidade de corrigir a situação – tanto concreta quanto simbolicamente. 3. ENGAJAMENTO/PARTICIPAÇÃO: Todas as pessoas envolvidas (vítima, ofensor e comunidade), desempenham papéis significativos e, por isso, precisam de informações.
diálogo para a busca do consenso, porquanto apenas os envolvidos na relação conflituosa e terceiros atingidos, ou seja, aqueles que vivenciaram a desavença sabem qual a solução mais adequada para aplacar o mal dela decorrente.
Permite que todos aqueles atingidos direta ou indiretamente pelo conflito sejam protagonistas na busca do entendimento e não meros expectadores de uma decisão verticalizada.
Não se pode desconsiderar que para a vítima é importante acreditar na justiça e, para isso, deve ser instruída e consultada sobre os rumos do processo.
Para as vítimas é possível, segundo Zehr, oferecer uma sensação de restauração, mesmo que no âmbito simbólico, permitindo respostas para algumas questões que as preocupam, por exemplo: Por que eu? Essa pessoa tinha alguma coisa pessoal contra mim? Essa pessoa vai voltar? Eu poderia ter feito alguma coisa para não me tornar uma vítima? Muitas outras dúvidas podem e devem ser esclarecidas.
Por ser um método inclusivo, que propõe a participação de todos os envolvidos na relação conflituosa, a justiça restaurativa pode ser aplicada em casos dos mais diversos âmbitos do direito, seja na área criminal, de família, da infância e juventude ou cível.
9. RESULTADO
O presente estudo se mostra relevante no mundo moderno, principalmente no Brasil, devido à ineficácia do sistema retributivo em enfraquecer a criminalidade e violência do país, o que gera um sentimento de impunidade e mais violência por parte da própria população que busca medidas irregulares para que a “justiça” seja feita.
Além disso, a implementação do novo sistema restaurativo pode diminuir o preconceito e a dificuldade de reinserção do criminoso à sociedade, mesmo após o cumprimento de sua pena, já que ele se atenta a condições realistas, socioculturais e econômicas.
10. CONCLUSÃO
O presente trabalho infere que a justiça restaurativa é uma opção para o Brasil já que o sistema atual apresenta grandes falhas, não se mostra suficiente para conter a violência constante, gera insegurança à sociedade e faz com que a justiça seja desacreditada.
Diante de tudo o que foi exposto podemos concluir que a justiça restaurativa promove o encontro entre infrator e vítima de um ato delituoso para que o infrator se responsabilize pela prática de seu ato e tente ao máximo reparar o prejuízo que ele causou a vítima, tentando desta forma minimizar as consequências do ato delituoso
O Brasil é um país que tem altos índices de criminalidade e isto deve ser levado em conta na hora de aplicar a justiça restaurativa, pois é necessário realmente tentar fazer com que o infrator deixe a vida delituosa e para que isto ocorra este modelo de justiça deve ser muito bem analisado e testado em pequenas proporções para que posteriormente seja aplicado em grande escala.
Vale ressaltar que tal procedimento deve ser realizado comcautela para que não cause mais dano à vítima e para que não afaste o autor do delito de ter um pensamento reflexivo de seus atos delituosos.
Desse modo, a implementação das práticas restaurativas traz também grande mudança no ambiente institucional e no comprometimento de todos os colaboradores, auxiliares da justiça e servidores, o que tem sido percebido de uma forma bastante positiva pelo jurisdicionado, motivo maior da existência de todo serviço público.
O presente estudo se mostra relevante no mundo moderno, principalmente no Brasil, devido a ineficácia do sistema retributivo em enfraquecer a criminalidade e violência do país, o que gera um sentimento de impunidade e mais violência por parte da própria população que busca medidas irregulares para que a “justiça” seja feita.
Além disso, a implementação do novo sistema restaurativo pode diminuir o preconceito e a dificuldade de reinserção do criminoso à sociedade, mesmo após o cumprimento de sua pena, já que ele se atenta a condições realistas, socioculturais e econômicas.
Cumpre ressaltar que é preciso construir uma justiça restaurativa brasileira, considerando que nossa criminalidade retrata mais uma reação social, inclusive organizada, a uma ordem injusta, cruel, violenta e, por que não, também criminosa.
11. BIBLIOGRAFIA:
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