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JOÃO PAULO BRESKOVIT

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Academic year: 2021

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JOÃO PAULO BRESKOVIT

O CASO POVO INDÍGENA XUCURU E SEUS MEMBROS VS. BRASIL E OS DIREITOS HUMANOS DOS POVOS INDÍGENAS: UMA ANÁLISE HISTÓRICA DE

UM MASSACRE LEGITIMADO

Projeto de pesquisa da monografia final do Curso de Graduação em Direito da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, apresentado como requisito parcial para a aprovação no componente curricular Metodologia da Pesquisa Jurídica. DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientadora: Dra. Joice Graciele Nielsson

Três Passos (RS) 2020

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JOÃO PAULO BRESKOVIT

O CASO POVO INDÍGENA XUCURU E SEUS MEMBROS VS. BRASIL E OS DIREITOS HUMANOS DOS POVOS INDÍGENAS: UMA ANÁLISE HISTÓRICA DE

UM MASSACRE LEGITIMADO

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Conclusão de Curso – TCC da UNIJUI – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande Do Sul. DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais

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Orientadora: Dra. Joice Graciele Nielsson

Três Passos (RS) 2020

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Dedico esta conquista aos meus pais, meu irmão e amigos pelo apoio contínuo, amor incondicional. Muito obrigado!

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AGRADECIMENTOS

À minha família, em primeiro lugar, que me educou, que sempre me apoiou, e fez o possível e impossível para poder chegar até esse momento.

Aos meus amigos, que ao longo dos meus anos colaboraram muito com seus conhecimentos e experiências de vida, acrescentando muito para minha vida.

Aos meus colegas que viraram amigos além da sala de aula, em especial as queridas Élen, Morgana, Mariéli e Jaciana e aos demais colegas pela maravilhosa convivência nesses anos de curso.

À minha estimada Professora Jóice Graciele Nielsson quem tive a honra de tê-la como orientadora do presente trabalho de conclusão de curso e o qual tenho como referência no meio acadêmico pelo seu profissionalismo e posicionamentos.

À Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul por proporcionar um ambiente discussão, convivência, e formação a todos.

Por fim, a todos que contribuíram, de algum modo, para a concretização deste trabalho.

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"A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Os espíritos xapiri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chama-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemias que nos devoram. Não conseguirão mais conter os seres maléficos, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar." - Davi Kopenawa, xamã e líder político dos Yanomami

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RESUMO

Esta monografia tem como objetivo de estudo a questão indígena e sua trajetória no Brasil e no mundo, percorrendo pelo período da colonização e os dias atuais, com a intenção de identificar os principais marcos históricos e contextualiza-los. Destacam-se os conceitos construídos ao longo de uma história de luta, resistência e busca de reconhecimento por estas comunidades, a partir de temáticas como a invisibilidade destes povos perante o Estado e a sociedade, e a ineficiência das políticas públicas destinadas a essas comunidades indígenas. Este trabalho aborda também a relação da Organização das Nações Unidas (ONU) com os direitos indígenas, bem como identifica os avanços e mecanismos advindos dela. Outra organização que será evidenciada é a Organização dos Estados Americanos (OEA) que ajuda a promover o direito dos povos indígenas através do Sistema Interamericano de Direitos Humanos (SIDH), contemplando o direito desses povos através do julgamento de casos de violação dos seus direitos. Além disso, buscasse o estudo do caso 12.728, chamado "Caso Povo Xucuru e seus membros", levado à jurisdição da Comissão Interamericana de Direitos Humano devido as diversas violações de direitos pelo Estado Brasileiro, como a falta de respeito ao direito à integridade pessoal, direito ao território, violação do direito a garantias judiciais, proteção judicial, entre outros. A realização do presente trabalho se deu através de pesquisa bibliográfica, além disso, será utilizado notícias e dados estatísticos divulgados pelos meios de comunicação, especialmente aqueles disponíveis na internet.

Palavras-chaves: Direitos dos Povos Indígenas. Povo Xucuru. Direito Internacional. Direitos Indígenas. Direitos Humanos. Convenção 169 da OIT. Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas de 2007. Demarcação de terras.

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ABSTRACT

This monograph aims to study the indigenous issue and its trajectory in Brazil and in the world, covering the period of colonization and the present day, with the intention of identifying the main historical landmarks and contextualizing them. The concepts constructed over a history of struggle, resistance and search for recognition by these communities stand out, based on themes such as the invisibility of these peoples before the State and society, and the inefficiency of public policies aimed at these indigenous communities. . This work also addresses the relationship of the United Nations (UN) with indigenous rights, as well as identifies the advances and mechanisms arising from it. Another organization that will be highlighted is the Organization of American States (OAS) that helps to promote the rights of indigenous peoples through the Inter-American Human Rights System (IAHRS), contemplating the rights of these peoples through the judgment of cases of violation of their rights. In addition, seek the study of case 12.728, called "Case of the Xukuru People and their members", brought to the jurisdiction of the Inter-American Commission on Human Rights due to the various violations of rights by the Brazilian State, such as the lack of respect for the right to personal integrity, right to the territory, violation of the right to judicial guarantees, judicial protection, among others. This work was carried out through bibliographic research, in addition news and statistical data published by the media will be used, especially those available on the internet.

Keywords: Indigenous Peoples' Rights. Xucuru people. International right. Indigenous Rights. Human rights. ILO Convention 169. 2007 United Nations Declaration on the Rights of Indigenous Peoples. Land demarcation.

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LISTA DE SIGLAS

AGNU - Assembleia Geral das Nações Unidas

CIDH - Comissão Interamericana de Direitos Humanos CIR - Conselho Indígena de Roraima

DNUDPI - Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas FUNAI - Fundação Nacional do Índio

MPF- Ministério Público Federal

OEA – Organização dos Estados Americanos OIT - Organização Internacional do Trabalho

SIDH – Sistema Interamericano de Direito Humanos SPI - Serviço de Proteção ao Índio

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...10

2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA LEGISLAÇÃO INDIGENISTA NO BRASIL ... 13

2.1 Indígenas no Brasil: definição legal e imaginário nacional... 13

2.1.1 Índios ou indígenas ...15

2.2 Práticas de Extermínio, Políticas Desenvolvimentistas... 18

2.3 A materialização da legislação indigenista ... 21

3 O DIREITO INDIGENA NO ÂMBITO INTERNACIONAL: A CORTE INTERAMERICANA E O “CASO BRASIL X POVO XUCURU ...28

3.1 Os Povos Indígenas e o Direito Internacional de Proteção aos Direitos Humanos...28

3.2 OEA e a Corte Interamericana de Direitos Humanos ... 34

3.3 Povo Indígena Xucuru: a responsabilidade do Estado Brasileiro perante as violações de direitos humanos dos povos indígenas...37

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...46

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1 INTRODUÇÃO

Em tempos como este, de desrespeitos diários aos direitos fundamentais e de perigo iminente de destruição de regras constitucionais, pela falta de mecanismos garantidores dos direitos lá resguardados, o presente trabalho monográfico tem por objetivo estudar a evolução da questão indígena no estado brasileiro, seu processo de colonização e exploração das terras dos povos indígenas até aos dias atuais, bem como, no âmbito internacional, identificando seus principais marcos e os contextualizando.

Embora, atualmente exista um conjunto jurídico capaz de proporcionar direitos e garantias aos povos indígenas, por suas dificuldades de efetivação, as injustiças sociais ainda se perpetuam, movidas pela ganância pelo dinheiro, dos governos, instituições, indústrias, empresas e fazendeiros, que exploram suas terras, de maneira inconsequente e desmedida, e ignoram estas populações e seus direitos consagrados.

A não efetivação de direitos fundamentais no estado brasileiro, não é novidade a quem vive a realidade brasileira nos seus mais inerentes aspectos, porém, uma parcela dessa população, os indígenas, está ainda buscando uma equidade de oportunidades e condições as quais a grande maioria já usufrui, uma vez que, ainda estão lutando, não apenas contra um sistema econômico capitalista devastador, mas contra o imaginário populacional construído a base de achismos e preconceitos, onde o indígena é visto como alguém desprovido de racionalidade.

Esse pensamento pode ser visto materializado, até nas mais infrutíferas imaginações, basta olharmos para ruas de nossas cidades, meu caso, Três passos, noroeste do estado do Rio Grande do Sul, indivíduos do povo Caingangues vagando pelas ruas, em busca de comida e vestimentas, percebidas pelo escambo em trocas pelo seus artesanatos, sem qual possibilidades de construção de uma realidade melhor, em decorrência de uma não efetiva riqueza de propriedades demarcadas, para buscarem seu sustento, tem a necessidade de vagar, e enfrentar o preconceito e a “violência dos brancos civilizados”, não raro notícias de

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atropelamentos, humilhações e abusos sexuais, das quais, a vítima, não importa aos olhos da sociedade.

Todo esse pensamento tem origem em um modelo político e econômico que têm como prioridade o desenvolvimento rápido e inconsequente, indiferentes às cicatrizes que deixara, as quais, o aumento vertiginoso das desigualdades, a repulsa ao diferente do modelo pré-estabelecido e a destruição das culturas não dominantes. Obviamente, isso não é algo característico do Brasil, sendo o nosso País, apenas mais um a sofrer os efeitos colaterais do modo de desenvolvimento colonialista.

O trabalho propõe discutir as dificuldades da efetivação das leis indigenistas no país, entendendo como as barreiras hoje colocadas, se originaram, e quais são as forças contrárias a ela.

Desta forma, o projeto pretende perpassar pela história conhecida, desde a colonização até as primeiras legislações codificadas, entendendo como ocorrem as Práticas de Extermínio das populações originárias e como estas foram impulsionadas pelas Políticas Desenvolvimentistas e também quais foram as principais Lutas de Resistência que buscaram a materialização do direito consagrado em nossa constituição.

No cenário internacional, busca-se mostrar os principais marcos sobre a concretização das legislações que tratam sobre o direito dos povos originários, como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 1989, Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, de 1965, e a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas, da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 2007, momentos estes, que irão ser analisados e contextualizados, discorrendo sobre suas influências no âmbito nacional.

Através do levantamento bibliográfico, jurisprudencial, utilizando dados de órgãos como IBGE e FUNAI, pelo método dedutivo por meio de dois capítulos mediante uma pesquisa de natureza analítica-qualitativa, realizada de forma indireta.

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O primeiro capítulo aborda a Evolução Histórica da Legislação Indigenista no Brasil, e o segundo, trata acerca do Direito Indígena no âmbito internacional, fazendo análise sobre o caso o caso Povo Indígena Xucuru1 e seus membros vs. Brasil e a responsabilidade do estado brasileiro perante as violações de direitos humanos dos povos indígenas.

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O nome do povo é encontrado na literatura indígena brasileira ora como “Xukuru” ora como “Xucuru”. Neste trabalho, será usado o nome “Xucuru”, vez que é este o usado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.

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2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA LEGISLAÇÃO INDIGENISTA NO BRASIL

Neste capítulo será apresentado um breve histórico do tratamento dado aos povos indígenas brasileiros, promovido pelo estado, em decorrência de um pensamento forjado por um modelo político e econômico colonialista, onde os povos originários são vistos como um empecilho ao desenvolvimento da coletividade.

Inicialmente será tecido uma análise acerca definição legal da palavra “índio e indígena” e de seus significados, uma vez que tal definição tem sido alvos de polemicas e preconceitos.

Após, será analisado o período marcado pelo extermínio em massa de povos indígenas brasileiros, compreendido entre a chegada dos colonizadores europeus ao Brasil, em 1500, até seu declínio no século XIX, contextualizando seus principais momentos.

Veremos como surgiram os primeiros órgãos e legislações de proteção ao direitos das populações indígenas, que por fim, contribuíram para o elenco trazido pela Constituição Federal de 1988, que inaugura a era de interação entre os povos indígenas e a Sociedade Brasileira, porém neste momento, em pés de igualdade, sendo tais povos, reconhecidos como cidadãos brasileiros, respeitando o princípio da igualdade, mas sem intervir na proteção a diversidade cultural dos povos indígenas estabelecido pela Carta Magna.

2. 1 Indígenas no Brasil: definição legal e imaginário nacional

Falar hoje sobre indígenas no Brasil, significa falar de uma diversidade de povos, que habitavam e habitam estas terras, hoje conhecidas como continente americano, mais precisamente Brasil, muito antes da invasão europeia. Segundo uma definição técnica das Nações Unidas, de 1986, as comunidades, os povos e as nações indígenas são aqueles que, são a continuidade histórica das sociedades anteriores ao processo colonizatório desenvolvido em seus territórios, possuem a necessidade de conservar, desenvolver e a transmitir aos seus sucessores, seus territórios ancestrais, sua identidade étnica, seus padrões culturais, suas instituições sociais e seu sistema jurídico, uma vez que estes, são a base de sua existência.

Estimativas demográficas apontam que por volta de 1500, quando da chegada de Pedro Álvares Cabral à terra hoje conhecida como Brasil, essa região

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era habitada pelo menos por 5 milhões de indígenas. Hoje, essa população está reduzida a pouco mais de 800.000 indígenas em todo Brasil, segundo dados de 2010 do IBGE. De acordo com a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a atual população indígena do Brasil está dividida entre as aldeias, dos quais os números chegam na casa 503.000 indígenas, e grande parte fora das áreas indígenas, onde se estima um total de 315 mil indivíduos, inclusive em áreas urbanas. (FUNAI, 2020).

A população indígena Brasileira está aumentando de forma contínua, a uma taxa de crescimento de 3,5% ao ano. Esse número está em ascendência devido à continuidade dos esforços de proteção dos índios brasileiros, queda dos índices de mortalidade, em razão da melhora na prestação de serviços de saúde as comunidades, antes, isoladas e marginalizadas, e de taxas de natalidade superiores à média nacional.

A maioria destas populações vive na região designada como Amazônia Legal, mas registra-se a presença de grupos indígenas em praticamente todas as Unidades da Federação, uma vez que a peregrinação se mostra com uma possibilidade para muitos destes indivíduos, tanto pelas invasões ilegais a suas terras, como pela busca de matéria, como ocorre com algumas populações existentes no sul do Brasil, que tem seus sustentos providos pelos seus artesanatos. Somente nos estados do Rio Grande do Norte e no Distrito Federal não se encontra registro da presença de grupos indígenas em suas delimitações.

De acordo com a Fundação nacional do Índio (FUNAI), os indígenas brasileiros estão divididos em duas classes:

A) Os isolados, que se refere especificamente aos grupos indígenas com ausência de relações permanentes com as sociedades nacionais ou com o ínfimo contato, seja com não-índios, seja com outros povos indígenas. Observou-se, através da história e seus traços maléficos, que o motivo do isolamento destas populações, seria o resultado dos encontros com efeitos negativos para suas sociedades, como epidemias, doenças, assassinatos, a violência física, as invasões e expropriações de suas terras e recursos naturais, ameaçando suas vidas, seus direitos e sua continuidade histórica como grupos culturalmente diferenciados. Esse isolamento para com as populações não indígenas, também se relaciona com o estado de autossuficiência social e econômica, quando a situação os leva a suprir de forma autônoma suas necessidades sociais, materiais ou simbólicas, evitando

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relações sociais que poderiam desencadear tensões ou conflitos Interétnicos. (FUNAI);

B) Os em via de integração, aqueles que ainda mantêm parcialmente as condições de sua vida nativa, porém realizam atividades comuns aos demais setores da população nacional não indígena.

A Funai considera "de recente contato" aqueles povos ou grupos indígenas que mantêm relações de contato permanente e/ou intermitente com segmentos da sociedade nacional e que, independentemente do tempo de contato, apresentam singularidades em sua relação com a sociedade nacional e seletividade (autonomia) na incorporação de bens e serviços. São, portanto, grupos que mantêm fortalecidas suas formas de organização social e suas dinâmicas coletivas próprias, e que definem sua relação com o Estado e a sociedade nacional com alto grau de autonomia. (FUNAI, 2019)

Com o passar dos anos, após a colonização, foi imposto aos povos indígenas a ideia de que o contato com os estranhos aos entes de suas tribos e a sedentarização dos seus integrantes, seria uma forma destes povos se protegerem aos males que estavam naquele momento expostos, porém tais afirmavas, nada mais era que um projeto dos colonizadores para possibilitar a ocupação de áreas no interior do país.

Hoje se observa que a aplicação de políticas assistencialistas e/ou universalizantes voltadas a alguns povos com contato recente produz efeitos colaterais desagregadores, especialmente para os povos que mantêm firmes suas formas de organização social e dinâmicas próprias de relações com o Estado e a sociedade nacional, motivando a formulação e a aplicação de políticas públicas diferenciadas, que propiciem, de forma condizente com estas especificidades, o acesso desses povos aos seus direitos sociais enquanto cidadãos brasileiros. (FUNAI, 2019)

Exige-se então, um esforço a mais, e necessário do Estado, para que este efetive uma política indigenista não-assimilacionista, pautada na defesa de direitos dos povos indígenas, observando as singularidades destes grupos.

2.1.1 Índios ou indígenas

As designações índio e indígena, conforme a língua portuguesa significa nativo, natural de um lugar. É também o nome dado aos primeiros habitantes (habitantes originários) do continente americano, os chamados povos indígenas. Mas esta denominação, é apenas o resultado de um erro de rota marítima.

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O navegador italiano Cristóvão Colombo, em nome da Coroa Espanhola, empreendeu uma viagem em 1492 partindo da Espanha rumo às Índias, na época uma região da Ásia. Castigada por fortes tempestades, a frota ficou à deriva por muitos dias até alcançar uma região continental que Colombo imaginou que fossem as Índias, mas que na verdade era o atual continente americano. Foi assim que os habitantes encontrados nesse novo continente receberam o apelido genérico de “índios” ou “indígenas” que até hoje conservam. Deste modo, não existe nenhum povo, tribo ou clã com a denominação de índio. (LUCIANO, 2006, p. 29-30)

Desde a primeira invasão de Cristóvão Colombo ao continente americano, há mais de 519 anos, a denominação de índios dada aos habitantes nativos dessas terras continua persistindo até os dias de hoje. Para maioria da população branca, a denominação tem um sentido pejorativo, resultado de todo o processo histórico de discriminação e preconceito. Para eles, o índio representa um ser sem civilização, sem cultura, incapaz, selvagem, preguiçoso, traiçoeiro etc. Para outros ainda, o índio, em uma visão romantizada, é o protetor das florestas, um símbolo de inocência, praticamente um ser mítico (LUCIANO, 2019)

Com o surgimento do movimento indígena organizado a partir da década de 1970, os povos indígenas do Brasil chegaram à conclusão de que era importante manter, aceitar e promover a denominação genérica de índio ou indígena, como uma identidade que une, articula, visibiliza e fortalece todos os povos originários do atual território brasileiro e, principalmente, para demarcar a fronteira étnica e identitária entre eles, enquanto habitantes nativos e originários dessas terras, e aqueles com procedência de outros continentes, como os europeus, os africanos e os asiáticos. (BANIWA,2006, p. 30)

Deste modo, o sentido pejorativo de “índio” foi sendo modificado para outro positivo, sendo uma de identidade multiétnica de todos os povos nativos do continente. De pejorativo passou a uma marca identitária capaz de unir povos historicamente distintos e rivais na luta por direitos. Irmãos que compartilham de alguns interesses comuns, como os direitos coletivos, a história de colonização e a luta pela autonomia sociocultural de seus povos diante da sociedade global.(BANIWA,2006)

Deste modo, a principal marca do mundo indígena é a diversidade de povos, culturas, civilizações, crenças, economias, enfim, uma multiplicidade de formas de vida coletiva e individual. Contudo, a valorização positiva da denominação genérica de índio, que apesar de simbolizar a superação do sentimento de inferioridade imposto a eles pelos colonizadores durante todo o processo de colonização, não

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apaga o modo pejorativo com que a população brasileira não-indígena ainda se refere aos povos originários, uma vez que tal termo, conjuntamente com os temos “bugre” e “caboclo” ainda está associado aos povos nativos preconceituosamente.

Por isso, muitos índios negavam suas identidades e suas origens, ou melhor, tentavam negar suas origens étnicas, pois na maioria dos casos a negação era uma verdadeira ilusão, uma vez que ninguém consegue esconder aparência física, usos, costumes e modos de vida e de pensamento.

O indígena de hoje é um indivíduo orgulhoso de suas raízes, de ser originário, de ser portador de civilização própria e de pertencer a uma ancestralidade particular. Este sentimento e esta atitude positiva estão provocando o chamado fenômeno da etnogênese, principalmente no Nordeste.

No processo de etnogênese, os membros do grupo étnico geram os próprios sinais diacríticos. Nem sempre, entretanto, é o próprio grupo quem determina os traços culturais a serem utilizados na elaboração de sua etnicidade. Trata-se de uma tentativa de fazer a sua própria história de dentro para fora e, ao mesmo tempo, buscar mover-se além das condições impostas sobre o grupo. Partindo desse pressuposto, afasta-se da perspectiva das teorias da aculturação e da transfiguração étnica. (SILVA,2010)

Os povos indígenas, que por força de séculos de repressão colonial escondiam e negavam suas identidades étnicas, agora reivindicam o reconhecimento de suas etnicidades e de suas territorialidades nos marcos do Estado brasileiro. Para estes povos, denominados também de “ressurgidos” ou “resistentes”, não fazer parte do arco de aliança política e identitária de parentes indígenas pode ser atualmente o pior castigo.

Neste sentido, eles representam hoje o segmento indígena mais ativo e mais combativo na busca por reconhecimento e visibilidade política, buscando marcar posição e fronteira étnica que lhes garantam um espaço sociocultural e político num mundo que ilusoriamente se pretende cada vez mais uma monocultura global.

As contradições e os preconceitos têm na ignorância e no desconhecimento sobre o mundo indígena suas principais causas e origens e que precisam ser rapidamente superados. Um mundo que se auto define como moderno e civilizado não pode aceitar conviver com essa ausência de democracia racial, cultural e política. (BONIWA,2006, p. 35)

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O Brasil não possui uma estimativa precisa sobre a população indígena existente em seu território, vez que apenas em 2010 ocorreu o primeiro senso onde os indivíduos deste vasto território puderam se definir como indígenas, e legitimar o conhecimento popular sobre a vasta diversidade sociocultural dos indígenas no Brasil é enorme.

Esses povos falam cerca de 180 línguas distintas do idioma oficial, com usos, costumes e tradições diferenciadas, isso sem mencionar o imenso patrimônio ambiental abrigado em suas terras, que oferece possibilidades de garantir um desenvolvimento sustentável, em especial na Amazônia brasileira.

Até o momento, foram reconhecidas 582 terras indígenas em território nacional. A extensão total dessas terras alcança 108.429.222 hectares, o que equivale a 12,54% de todo o território brasileiro. Vale notar ainda que a maior parte dessas terras está localizada na Amazônia. São 405 terras indígenas na chamada Amazônia Legal, somando 103.483.167 hectares, ou seja, praticamente 99% do total da extensão das terras indígenas do país concentram-se nessa região, sendo que ali vivem aproximadamente 60% da população indígena do país. Os outros 40%, portanto, vivem espremidos no pouco mais que 1% restante de terras, espalhadas ao longo das regiões Nordeste, Sudeste, Sul e do estado do Mato Grosso do Sul.3 As terras indígenas fora da Amazônia, em geral, são áreas diminutas e maciçamente povoadas, palco de constantes conflitos entre índios e não-índios e de inúmeros problemas resultantes de um inchamento populacional. (ARAUJO,2016, p. 23)

Os direitos dos povos indígenas, hoje previstos na Constituição brasileira, foram sendo, e estão sendo conquistados e amadurecidos no andar de uma história marcada pela violência e o preconceito, que por muitos e muitos anos, nem mesmo possibilitou que estes indivíduos pudessem sem ouvidos.

2.2 Práticas de Extermínio, Políticas Desenvolvimentistas

O debate em torno da relação entre os povos originários dessa terra e o povo brasileiro não originário vem de longa data, mais precisamente, desde a chegada dos primeiros colonizadores a está terra tropical, houve um tempo que chegou-se a ser discutida a humanidade destes povos, uma vez possuíam costumes destoantes dos ditos normais, sendo considerados pelos legisladores do brasil colonial como bestas desprovidas de alma, e que desta maneira deveriam ser tratados, ou seja, como o dos animais e da flora que aqui havia. Algo hoje impensável a um ser racional, mas que necessitou na época, da palavra do Papa Paulo III para que

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ficasse evidenciada a verdade de que os povos nativos desta terra são “gente” e gozam de perfeita liberdade e como tal devem ser tratados.

Nós, que, embora indignos, exercemos sobre a terra o poder de nosso Senhor e buscamos com todas as nossas forças recolher as ovelhas dispersas de seu rebanho no aprisco a nós confiado, consideramos, no entanto, que os índios são verdadeiramente homens e que eles não só são capazes de compreender a fé católica, como, segundo nos informaram, anseiam sobremaneira recebê-la. (PAULO III,1537)

Outro documento histórico correlato é a célebre Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, quando da “descoberta” de novas terras, tal relato traduzia a visão europeia do primeiro contato com os povos originários como sendo “silvícolas” que não possuíam na visão dos invasores, fé, leis ou governantes, sendo assim, carentes do cristianismo para a salvação de suas almas e de um modelo “civilizado” de sociedade, concretizada por meio da submissão a cruz ou pelo medo da espada.

Nota-se que o emprego da palavra “silvícola”, apesar de mostrar a ignorância do conquistador sobre o território conquistado, massifica uma rica diversidade social, formada por mais de 230 povos, que possuem seus próprios sistemas de organização política, econômica, social, cultural e jurídico, os quais são totalmente destoantes do que era bem vista pelos colonizadores, uma vez que o estado/igreja não admitia estruturas políticas e jurídicas paralelas. (DIETRICH, 1995)

A população indígena no país existente à época da colonização sofreu um enorme decréscimo, entre o século XVI e o século XX, passando de um número estimado de 3 milhões de habitantes para a casa dos milhares, que falavam cerca de mil e trezentas línguas diferentes e integravam centenas de povos ou sociedades Indígenas. Quando se deparamos com tamanha discrepância de tais números com os números atuais, tomamos conta de que, nossos colonizadores promoveram um holocausto indígena que condenou ao genocídio dezenas de milhares de pessoas e centenas de Etnias por meio dos Extermínios em massa, das epidemias trazidas do exterior e da escravidão aqui impetrada.

Essa época ficou marcada pela brutalidade física contra tais povos, com o propósito de promover uma “limpeza étnica” que favorecesse o progresso e desenvolvimento do branco “civilizado”. Porém a violência física não foi a única:

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Na concepção da igreja católica, o indígena era um ser desprovido de cultura, crença e educação, uma folha em branco na qual tudo se poderia escrever. [...] A catequese e a educação ministradas aos povos indígenas significaram, na verdade, o emprego de outro tipo de violência contra esses povos, configurada pela imposição de valores sociais, morais e religiosos, acarretando a desintegração e conseqüente destruição de incontáveis sociedades indígenas, o que caracteriza o etnocídio, um processo diverso do genocídio, porém com resultados igualmente nefastos para os povos dominados. (BELFORT, 2006)

Desde a colonização pelos europeus no Brasil, em 1500, até os dias atuais, os conflitos fundiários estão entre os principais fatores de extermínio da população indígena no Brasil. A princípio, a mão de obra indígena foi conseguida através de escambo, era utilizada na extração do pau-brasil e em pequenas lavouras ou na coleta de “drogas do sertão”, frutas, sementes, raízes e outras plantas que tinham finalidades medicinais e culinárias, como o Cacau, cravo, guaraná, urucum, poaia e baunilha. (SOUZA,2019)

Conforme a necessidade de mão de obra crescia, a escravização de índios por meio das “bandeiras de apresamento” se tornou uma realidade para os colonizadores, estas, expedições que tinham como objetivo a captura de indígenas para serem usados como mão-de-obra escrava, contudo, impedimentos legais foram surgindo a partir do século XVI. (HIGA, 2019)

A escravidão indígena foi proibida pela primeira vez por meio de Carta Régia de 1570, a qual instituiu a “Guerra Justa”, Todavia, as falhas na Lei e a opinião destoante das autoridades, tornaram inefetiva a proibição, permitindo que a sujeição dos povos indígenas continuasse. Conforme a lei, o índio somente poderia ser escravizado em situações de “Guerra Justa”, o que consistia faticamente, na legitimação do processo de expulsão dos povos originários de seus territórios e escravização dos remanescentes dos massacres genocidas.

A historiografia oficial tentava justificar o extermínio em larga escala de velhos, mulheres e crianças indígenas sob o argumento de que eram preguiçosos e indolentes e não gostavam de trabalhar, omitindo que a imposição desses trabalhos representava uma violação à organização social e à soberania dos povos indígenas. Assim, pode ser situada na era colonial a criação de justificativas ideológicas para a opressão do colonizador europeu, que consistiam em deturpar, de forma pejorativa, a imagem dos povos indígenas e em reproduzir esses pré-conceitos no seio da sociedade brasileira, caracterizando um processo de inferiorização, marginalização e exclusão social das minorias étnicas que estigmatiza, até os dias atuais, as sociedades indígenas do Brasil. (BELFORT, 2006)

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Em síntese, neste deplorável período, centenas de povos indígenas, línguas, práticas culturais e saberes ancestrais, sucumbiram a violência física e cultural motivada pela ganância homicida daqueles que demonizaram e inferiorizam o “desconhecido” em troca de uma evolução nunca conquistada.

2.3 A materialização da legislação indigenista

Após séculos de violações aos direitos fundamentais das populações indígenas, que partiam da premissa de que estes povos seriam culturas inferiores, e que não resistiriam aos efeitos do desenvolvimento proporcionados pela colonização, a Constituição Federal de 1988, documento máximo desta terra, vem por termo final a este pensamento, meio necessário, mas que ainda caminha a passos lentos para sua plenitude desejada. Porém a anteceder a Carta Magna, dois grandes institutos surgiram, estes, a Fundação Nacional do índio e o Estatuto do índio.

Em 05 de dezembro de 1967 por meio da Lei n°5.371, após a extinção do Serviço de Proteção aos Índio, um órgão público criado em 1910 que prestava assistência aos povos indígenas no Brasil por receber uma imensa quantidade de denúncias sobre irregularidades na esfera pública, como corrupção e fraudes, surge a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), com a função de auxiliar os povos indígenas, principalmente, em garantir a posse permanente das terras em que habitavam, além de seu usufruto exclusivo.

Ocorre que a FUNAI ergueu-se sobre os escombros do SPI, aproveitando inclusive a sua estrutura de pessoal, recursos, não trazendo mudanças tão significativas quanto esperado, uma vez também, que se originou no período da Ditadura Militar em um contexto de reformas na estrutura do país, as quais visavam principalmente, a expansão política e econômica para o interior do país.

Isso fez com que as políticas indigenistas ficassem às sombras dos planos do governo, como construção de estradas, hidrelétricas, expansão das fazendas e da mineração. Nesse período muitos índios sofreram com a violação de seus direitos. (SOUZA,2019)

Foi apenas a partir da criação do Estatuto do Índio em 1973 com a promulgação da Lei 6.001, que se regularizou a situação jurídica dos povos

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indígenas, havendo neste período, grandes avanços as políticas indigenistas no Brasil.

A partir da Constituição de 1988, deu início a uma nova era de interação entre os povos indígenas e o Estado Brasileiro, agora em uma situação de igualdade, norteada pelo respeito aos direitos humanos dos povos indígenas, prometendo um futuro de liberdade, autodeterminação, segurança, condições de subsistência e justiça para os descendentes dos povos originários do Brasil, ou seja, a Carta magna de 1988, buscou promover de fato uma ruptura ao passado de violência, de discriminação e de invasão e expulsão dos povos de propriedades de direito. (REZENDE, 2014)

O tratamento especial trazido pela atual constituição, busca reconhecer os direitos dos povos indígenas não pela incapacidade civil dessas populações, mas sim, pelo reconhecimento da diversidade cultural, que proporcionou a elaboração, nos anos que se seguiram, de ampla legislação infraconstitucional indigenista, contemplando os direitos dessas minorias, nos seus vários âmbitos. (BELFORT, 2006)

A carta magna brasileira, em seu artigo 5º, mais importante rol de direitos humanos possuintes pelo povo brasileiro, ou seja, incluindo povos indígenas, uma vez que a legislação comum é aplicável naquilo em que não contrarie a legislação especial voltada para essas minorias, segundo dispõe o Estatuto do Índio em seus artigos 1º, parágrafo único, 2º, I e X e 6º.

A Constituição Federal tratou de garantir especialmente o direito territorial indígena, no capitulo intitulado “DOS INDIOS”, definindo, no parágrafo 1º do seu artigo 231, o conceito de Terras Indígenas:

São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. (BRASIL,1988)

Entende-se que os direitos territoriais dos povos nativos, são originários e imprescritíveis, ou seja, são concebidos no passado e se operam para o futuro, ademais independem de reconhecimento formal, apesar de que sempre que um povoado indígena ocupar tradicionalmente determinada área, o estado está obrigado, por força constitucional a promover este reconhecimento, declarando tal

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local, como área indígena, e terá que realizar a demarcação física dos limites de tal área, com o objetivo de garantir a sua proteção dos “colonizadores” da atualidade, exploradores ilegais e grandes produtores de grãos e de carne bovina, que se aproveitam das brechas do sistema de fiscalização para continuar os efeitos nocivos dos primeiros colonizadores, sendo assim imprescindível à preservação dos recursos ambientais necessários ao bem estar da populações indígenas, e por tabela, nas condições de vida da sociedade em geral, uma vez que os danos causados a estes territórios, impactam diretamente ao meio ambiente, bem mais precioso de uma sociedade com perspectiva de uma futuro.(ARAÚJO, 2006)

Para além dos direitos estatuídos no “Capítulo dos Índios”, o multiculturalismo e o respeito à diversidade, constituiu um dos maiores marcos legais na relação do Estado e da sociedade com os povos indígenas, quis o Legislador Constituinte garantir a estas Sociedades no artigo 215 e seu parágrafo 1º a obrigatoriedade do estado de proteger às manifestações culturais dos povos indígenas, outorgando especial proteção ao patrimônio cultural dos Povos Indígenas ao incumbir o Ministério Público da defesa judicial de direitos e interesses das populações indígenas, por força do disposto no artigo 129, V. (BELFORT, 2006)

Em síntese a Constituição Federal estabelece os fundamentos dos direitos indígenas e o esboço de um roteiro para suas implementações, instituindo diretrizes para a sua implantação, sendo os principais exemplos de direitos constituídos pela CF/88:

 Direito à sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições.

 Direitos originários e imprescritíveis sobre as terras que tradicionalmente ocupam, consideradas inalienáveis e indisponíveis.

 Obrigação da União de demarcar as Terras Indígenas, proteger e fazer respeitar todos os bens nelas existentes.

 Direito à posse permanente sobre essas terras.

 Proibição de remoção dos povos indígenas de suas terras, salvo em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população ou no interesse da soberania do país, após deliberação do Congresso Nacional, garantido o direito de retorno tão logo cesse o risco.

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A Constituição reconheceu aos povos indígenas direitos permanentes e coletivos e inovou também ao reconhecer a capacidade processual dos índios, de suas comunidades e organizações para a defesa dos seus próprios direitos e interesses.

Além disso, a Constituição atribuiu ao Ministério Público o dever de garantir os direitos indígenas e de intervir em todos os processos judiciais que tratem a respeito de tais direitos e interesses, fixando, por fim, a competência da Justiça Federal para julgar as disputas sobre direitos indígenas.

O anteriormente citado Capítulo dos Índios, na Constituição foi o resultado de imensa mobilização, durante o processo constituinte, por parte dos índios e de setores da sociedade civil.

A UNI lançou a campanha “Povos Indígenas na Constituinte”, que mobilizou indígenas de todo o território nacional e desempenhou papel fundamental para a reversão de um cenário desfavorável aos direitos destas populações no Congresso Constituinte e para a concretização dos avanços afinal aprovados no texto constitucional. Esse grande movimento durante o processo de elaboração da Constituição fortaleceu o movimento indígena e estimulou a criação de novos movimentos e organizações de apoio voltadas para a implementação dos direitos assegurados na nova carta magna.

[...] Com o advento da Constituição de 88, o Estado começou a estruturar, por meio do Ministério Público Federal (MPF), uma eficiente rede de atendimento às demandas jurídicas dos povos indígenas. Para tanto, o MPF designou Procuradores da República dedicados à defesa dos interesses indígenas em todos os estados da federação, lotados nas capitais e nas cidades do interior que sediavam varas da Justiça Federal. O MPF também estruturou um corpo de assessores técnicos em diversas áreas, como antropologia e engenharia florestal. A inserção do MPF no trato da questão indígena tem sido fundamental, permitindo aos índios afinal contarem com um órgão independente dotado de profissionais qualificados para a defesa de seus interesses. (ARAÚJO,2006)

No tocante à defesa judicial dos interesses indígenas, as inúmeras iniciativas adotadas pelo MPF perante o Judiciário, ao lado de ações paradigmáticas movidas por organizações não governamentais, permitiram o estabelecimento de vários precedentes importantes na interpretação e na consolidação dos dispositivos constitucionais. É possível dizer que o Judiciário se acostumou a tratar dos temas

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indígenas que, até 1988, chegavam aos Tribunais de forma apenas esporádica e sob o véu de um desconhecimento profundo da realidade afeta a eles.

A defesa judicial dos direitos indígenas, pelos advogados e organizações não governamentais em geral, passou a contar com a participação do povo indígena interessado no processo de discussão e de formulação da estratégia jurídica a ser adotada para o seu tratamento, o que implica uma via de mão dupla que tem permitido aos índios também se familiarizarem com os mecanismos de funcionamento do Poder Judiciário brasileiro, instituição até então praticamente desconhecida da maioria dos povos indígenas em nosso país. (ARAÚJO,2006)

Vale lembrar que mover ações judiciais em nome de comunidades indígenas logo após 1988 não foi uma tarefa tão simples. Um dos principais problemas enfrentados pelos advogados de organizações não-governa-mentais era o questionamento que se fazia acerca do seu próprio papel de advogados dos índios. Havia, em especial, duas estranhezas que davam ensejo a incontáveis perguntas e a obstáculos práticos. A primeira delas dizia respeito ao pagamento do salário dos advogados, já que os índios não teriam recursos para tanto e havia muita dificuldade de compreensão, quanto ao funcionamento das organizações do terceiro setor. A segunda estranheza recaía sobre a possibilidade de os índios constituírem advogados sem que para isso a FUNAI houvesse dado o seu assentimento, em razão do regime tutelar. (ARAÚJO, 2006)

Já em relação à possibilidade de os povos indígenas constituírem seus próprios advogados independentemente de qualquer autorização do órgão tutor, os advogados dedicaram-se a um amplo processo de esclarecimento das autoridades sobre a aplicação do artigo 232 da Constituição Federal de 1988, que conferiu aos índios legitimidade processual para defender em juízo seus direitos e interesses.

Não bastassem as questões sobre a capacidade processual, também surgiram dúvidas sobre a forma de representação dos povos indígenas. Como se sabe, os povos indígenas organizam-se de forma coletiva e a sua representação se dá de acordo com os modos internos a cada um deles. Um povo adota o sistema de representação por meio de um único chefe, que pode ser um cacique, um tuxaua ou outra denominação equivalente. Outro povo pode adotar o sistema de representação coletiva, na qual um grupo de lideranças é que detém a competência para, por exemplo, outorgar instrumento procuratório para a atuação de um advogado em juízo.

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Nessas circunstâncias, sempre que questionados sobre o modo de representação de determinado povo indígena indicado na procuração, era necessário explicar ao juiz o sistema de organização daquele povo, demonstrando que o instrumento conferido estava de acordo com os seus usos, costumes e tradições. Isso só era possível com o auxílio da antropologia que, através dos estudiosos das culturas indígenas, fornecia descrições precisas sobre a organização e os costumes de cada povo. (ARAÚJO, 2016)

Como foi dito, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, o movimento indígena vem se fortalecendo e se estruturando, assumindo cada vez mais os espaços políticos existentes para a discussão de questões de interesse dos índios em todo o país. As organizações indígenas, que multiplicaram e passaram a investir na capacitação técnica de seus quadros, priorizando-a, atuam em todos os níveis de discussão dos assuntos indigenistas do local ao global, passando pelo regional e pelo nacional. Em todos os campos do conhecimento despontam profissionais indígenas bastante qualificados, e o país viu surgir ao longo desses anos diversas iniciativas na área de educação, desde as escolas indígenas de Ensino Fundamental bilíngue, os cursos de formação e treinamento de professores indígenas especializados, até a criação de uma universidade indígena.

No campo do direito, destaque-se ainda a atuação de organizações e de alguns advogados indígenas em fóruns e em organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Recentemente, a Comissão de Direitos Humanos da OEA expediu medida cautelar sobre a necessidade de o governo brasileiro finalizar o processo de demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, procedimento inédito no tocante à análise de causas indígenas relativas ao Brasil. A medida resultou da iniciativa adotada pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR), representado pela advogada indígena Joênia Wapixana, cuja atuação perante o organismo internacional garantiu o sucesso da demanda. (ARAÚJO, 2006)

Enfim, os avanços legislativos inaugurados pela Constituição Federal, apesar inaugurar um novo tratamento aos povos originários, superando o entendimento de que a necessidade de proteção especial pelo legislador aos povos indígenas derivava da incapacidade dessas minorias em praticar atos na vida civil, para grande da população, tal pensamento ainda não se aclarou, restando para muitos indivíduos, o preconceito de um povo que não reconhece os males que causou, e que ainda causa. Em face deste contexto nacional de evolução do tratamento as

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sociedades indígenas, vê-se que tais mudanças não se originaram apenas pelas lutas e pelos pensadores nacionais, desta maneira, é preciso realizar a análise, dos movimentos e reconhecimentos em âmbito internacional, tema qual será dedicado o próximo capítulo.

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3. O DIREITO INDIGENA NO ÂMBITO INTERNACIONAL: A CORTE INTERAMERICANA E O “CASO BRASIL X POVO XUCURU”

A evolução do reconhecimento aos direitos dos povos indígenas no âmbito internacional é um fato que não pode ser desprezado em suas mais variadas esferas de discussão, versem elas sobre direitos humanos em caráter geral, versem sobre direitos humanos em caráter específico, como a proteção de conhecimentos tradicionais dos povos indígenas, em razão de sua relevância para o desenvolvimento sustentável e a conservação de biodiversidade.

Uma ampla variedade de instrumentos normativos internacionais aborda e reconhece direitos aos povos indígenas. Essa ampliação do arcabouço legal internacional de proteção a direitos desses povos, tem como consequência o fortalecimento do direito à diversidade e o aumento da atuação indígena em instâncias ocupadas, historicamente, pelos não-indígenas, em caráter exclusivo e em detrimento da sociedade civil, de modo geral.

Assim, esse capítulo pretende realizar uma abordagem sintética da evolução do tratamento dispensado aos povos indígenas no direito internacional de proteção aos direitos humanos, buscando conhecer os principais instrumentos que regem o tema. Por fim, analisará a abordagem do tema perante o Sistema Interamericano de Direitos Humanos, a partir do julgamento do caso “Brasil X Povo Xucuru”.

3.1 Os Povos Indígenas e o Direito Internacional de Proteção aos Direitos Humanos

Ao iniciar a discussão acerca da noção de Povos Indígenas, deve-se destacar que, tal conceito não nasce de um estudo específico acerca de um povo indígena isolado, mas sim a compreensão de que tais indivíduos coletivamente constituem um mosaico global de povos que, apesar de suas diferenças, compartilham uma experiência comum de colonização e lutas semelhantes, nascendo a necessidade de uma definição universal de “povos indígenas”.

Tal expressão engloba uma diversidade gigantesca de grupos sociais que vivem, e sobrevivem, sob condições geográficas, políticas, econômicas e sociais destoantes. Grande parte destes povos vivem em condições inóspitas, insalubres, pobres em recursos para subsistência, e quando do contrário, em locais demasiadamente conflituosos, porém tal realidade, não se figura como uma

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escolha, mas sim, por um deslocamento forçado por circunstâncias históricas. (REZENDE, 2014)

Segundo estimativas da ONU existem cerca de 370 milhões de pessoas indígenas no planeta, espalhadas em cinco mil grupos diferentes, que falam aproximadamente 7 mil línguas, distribuídos em 90 países, e que representa em torno de 5% da população mundial. Apesar de parecer inadequado agrupar tão grande diversidade em só uma denominação, ela se dá, pois todos têm um passado comum de marginalização, exclusão e violência. (FUNAI, 2017)

Esse conceito reflete as questões políticas em jogo em torno das reivindicações dos povos indígenas na ONU e da definição das novas relações a serem estabelecidas com os Estados onde vivem estes povos. (Rezende,2014)

O estudo realizado pela Organização Internacional do Trabalho – OIT, em 1953, referia-se aos indígenas como os descendentes da população aborígene originária de um local antes da colonização, e que esses, teriam mais tendência a viver em conformidade com suas instituições sociais, econômicas e culturais do que com a cultura nacional, além de preservarem e transmitirem a suas futuras gerações, sua identidade étnica.

No âmbito da Organização Internacional do Trabalho -OIT, (…) o Convênio Nº 107 de 1957 fazia menção à condição indígena, enfatizando em seu artigo 1º “o caráter atrasado das comunidades indígenas em relação às sociedades nacionais que estas integram”. Tratava-se obviamente de uma visão etnocêntrica e colonialista. Posteriormente, o Convênio 169 de 1989 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, reformulou seu conceito de indígena, ainda utilizando porém o termo “tribal”, que possui conotações discutíveis do ponto de vista etnológico. (BRITO, p.62, 2004)

No estudo das Nações Unidas sobre discriminação contra as populações indígenas, elaborado por Martinez Cobo relator especial da Subcomissão para a Prevenção da Discriminação e para a Proteção das Minorias da Organização das Nações Unidas, e publicado em 1987, o próprio conceito de povos indígenas está fundamentado na noção de subordinação como é possível observar na definição:

379 - Por comunidades, populações e nações indígenas, deve-se entender aquelas que, ligadas por uma continuidade histórica às sociedades anteriores à invasão e às sociedades pré-coloniais que se desenvolveram em seus territórios, consideram a si mesmas distintas de outros setores da sociedade que dominam no presente sobre seus territórios ou parte desses territórios. São no momento elementos não dominantes da sociedade e estão determinadas a conservar, a desenvolver e a transmitir às gerações futuras seus territórios ancestrais e sua identidade étnica, como base de sua

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existência continuada como povos, em conformidade com seus próprios padrões culturais, as instituições sociais e os sistemas jurídicos. (ONU, 1987) A noção de “povos indígenas” consagrada pela Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas (DNUDPI) de 2007, está diretamente ligada à emergência do movimento desses povos no cenário internacional e é importante ressaltar a participação direta destes no debate em torno da definição de “povos indígenas”. Essa participação tem uma importância não apenas simbólica, mas foi a primeira vez que a ONU autorizou que membros da sociedade civil, diretamente afetados pela decisão política em jogo, participassem da negociação de um instrumento internacional, sendo talvez, um primeiro sinal de autodeterminação, um dos princípios fundamentais da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O debate doutrinal no Grupo de Trabalho sobre os Povos Indígenas da Sub-Comissão de Direitos Humanos da ONU, sempre foi cerrado, não só pela dificuldade de compreender uma massa imponente e diversa de povos em uma só definição, mas também, pelas consequências políticas que isto traria.

O principal embate foi em compreender, em até que ponto uma definição universal de povos indígenas seria realmente desejável? Vez que parte das representações indígenas à época, tinham enorme temor, do que uma definição muito restrita poderia significar para muitos povos, já outros representantes temiam que, uma falta de definição poderia permitir que muitos estados se eximissem da discussão e negassem a existência desses povos em seu território. Após muitos debates, foi compreendido que uma definição acerca do que seriam “povos indígenas” era necessária, porém tal deliberação não poderia ser universal, vez que poderia por causar a exclusão muitos grupos do corpo de direitos que estava sendo criado. Optou-se então por uma definição de critérios mínimos que atendessem à necessidade de elaboração de um sistema normativo internacional de proteção dos direitos dos povos (REZENDE, 2014).

Um reflexo disso, foi que a Organização internacional do trabalho (OIT), veio a abandonar uma concepção “primitivista”, que até aquele momento era perpetrada, que evoluiu para a noção de indígenas ou autóctones. Esse abandono pode ser visualizado quando analisamos a processo que levou a substituição da Convenção 107 de 05 de julho de 1957 pela Convenção 169 de 07 de junho 1989 pela OIT.

A convenção de 1957 trazia uma das primeiras definições oficias da ONU acerca dos povos indígenas, vez que seu artigo primeiro:

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[...] estipulava que essas populações possuem condições sociais e

econômicas correspondentes “a um estágio menos avançado que o estágio

alcançado por outros setores da comunidade nacional”.

Tal afirmativa refletia uma doutrina racista de hierarquização das culturas, que inferiorizava àqueles distantes dos costumes da civilização europeia. Tal texto também trouxe o termo “Semitribais”, o qual se referia àqueles indivíduos que perderam suas características culturais, e se aproximavam das tidas como evoluída, ou seja, a civilização europeia. (RESENDE, 2014)

O surgimento dos movimentos indígenas internacionais, bem como o próprio direito internacional, levou a OIT a reconhecer a inaceitabilidade do texto da Convenção de 107, visto que sua visão integracionista não mais condizia com os avanços do direito e da sociedade.

A partir de então, a doutrina passou a defender a ideia de que os povos autóctones deveriam ter o controle sobre seu desenvolvimento econômico, social e cultural, interagindo com a sociedade nacional de forma equânime através de suas próprias instituições. Este Convênio, de modo explícito, proscreve as políticas de assimilação ou integração forçada que alienavam os povos indígenas da capacidade de tomar decisões sobre o seu destino.

[…] o Convênio 169 reconhece “as aspirações de tais povos a assumir o controle de suas próprias instituições e formas de vida e do seu desenvolvimento econômico, e a manter e fortalecer suas identidades, línguas, religiões, dentro dos estados em que vivem”. Este Convênio garante o direito dos povos a definir suas prioridades de desenvolvimento. (FAJARDO, 2009)

A Convenção 169 da OIT sobre Povos Indígenas e Tribais, em seu preâmbulo, insiste sobre “a contribuição particular dos povos indígenas para a diversidade cultural e a harmonia social e ecológica da humanidade e para a cooperação e o entendimento internacionais”. Reconhecendo assim o valor da diversidade cultural, passa a condenar toda forma de assimilação expressa nas normas anteriores.

Outra importante mudança refere-se termo “populações”, antes usado na Convenção de 107, porém não mais usado, em seu lugar passou -se o termo “Povos". Tal mudança terminológica traduz a passagem de um sujeito objeto para um sujeito de direitos.

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A Convenção 169 trouxe consigo não só o direito de participação dos povos indígenas, mas também o direito de serem respeitados e aceitos. A partir da Convenção 169, os povos indígenas passaram a ter um instrumento de nível internacional que respaldou o direito às diferenças culturais, o direito de participação, o direito à consulta e entre outros. Por fim, a OIT esclarece, após tantas discussões, que a Convenção 169 não define quem são os povos indígenas, apenas norteia, através de critérios objetivos e subjetivos para descrever os povos que ela buscar proteger.

A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma das mais importantes Instituições Internacionais, foi instituída em 26 de junho de 1945 numa Conferência realizada em São Francisco nos Estados Unidos com representantes de 50 países que assinaram a carta com exceção da Polônia que assinou mais tarde, totalizando 51 países fundadores. Passando a existir oficialmente em 24 de outubro de 1945, depois da ratificação feita pela China, França, União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos.

Com o findar da Segunda Guerra Mundial em 02 de setembro de 1945, ficou evidente aos principais países do globo a necessidade de se criar mecanismos para tentar evitar novos conflitos internacionais e toda a devastação que eles causam, tal cenário foi favorável para o surgimento e reconhecimento internacional do direito internacional dos povos indígenas, com as mudanças na política internacional que vão incentivar na promoção desses direitos. A luta contra o fascismo contribuiu a nível internacional com medidas de proteção de minorias e com as normas para resistência contra o racismo e discriminação.

A ONU foi idealizada como um instrumento a fim de manter a paz e a segurança internacional e tentar desenvolver uma relação amigável entre as nações com base nos princípios de igualdade dos direitos de autodeterminação dos povos, além de criar uma aliança que aperfeiçoe a resolução problemas internacionais econômicos, sociais, culturais, e humanitários, além de tentar promover e estimular os direitos humanos e as liberdades fundamentais para todos.

Um dos primeiros instrumentos de direito internacional inaugurado pela ONU, além, claro, da própria Carta de criação da ONU, que beneficia os povos indígenas em seus direitos individuais e coletivos, foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral da ONU, em 10 de dezembro de 1948, e simbolizou o marco maior do processo de reconstrução dos direitos humanos no

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pós-guerra e introduziu a concepção contemporânea dos direitos humanos, cujas características basilares são a sua universalidade e indivisibilidade, possuindo em seus artigos relevância para as questões indígenas, descrito nos artigos:

Art. 1: Todos os seres humanos nascem livres e iguais de dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns dos outros com espírito de fraternidade.

Art. 2: Todo ser humano tem capacidade para gozar de direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. (ONU, 1948).

Tal declaração é de tamanha importância, que é considerada um marco para uma nova premissa com relação aos Direitos Humanos, consecutivamente, sendo um referencial obrigatório quando se trata dos direitos dos povos indígenas.

Os principais órgãos que compõe a ONU são a Assembléia Geral, Conselho de Segurança, Corte Internacional de Justiça, Secretariado, Conselho Econômico e Social, e Conselho de tutela; entre esses órgãos se tem as Agências Especializadas que são vinculadas ao Conselho Econômico e Social (ECOSOC), no qual foi determinado na Carta da ONU no art. 55, que a mesma ficaria a cargo criar as entidades especializadas. (CASELLA; ACCIOLY; NASCIMENTO, 2011).

Com a declaração universal dos direitos humanos, foram surgindo diversos tratados em matéria de direitos humanos, sendo os principais, no tocante ao Direito Indígena:

a) o Pacto de Direitos Civis e Políticos, que foi aprovado em 16 de dezembro de 1966 pela Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), e trouxe em seu artigo 27, as primeiras reivindicações dos povos indígenas acerca dos seus direitos, na qualidade de minorias.

Nos Estados em que haja minorias étnicas, religiosas ou lingüísticas, as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter, conjuntamente com outros membros de seu grupo, sua própria vida cultural, de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua. (PIDCP, 1966)

b) A Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, que foi adotada pelas Nações Unidas em 21 de dezembro de 1965, sendo um instrumento internacional dirigido ao combate da discriminação racial, definindo em seu artigo primeiro, como qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica

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que tenha por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, em condições de igualdade dos direitos humanos e as liberdades fundamentais. (ONU, 2016). c) A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, aprovada em 13 de setembro de 2007, trazendo consigo o compromisso de servir de orientação aos Estados sobre a questão indígena referente à discriminação, saúde, educação, as formas de desenvolvimento, nos aspectos econômico, social, cultural. Buscando uma boa relação de cooperação entre povos indígenas e os Estados.

Esses instrumentos contribuíram para efetivação, ao menos que mínima, dos direitos dos povos indígenas, vez que com a ratificação pelos Estados, este deveriam prestar esclarecimentos acerca da efetivação do proposto pelos tratados.

3.2 OEA e a Corte Interamericana de Direitos Humanos

Ao lado do sistema global de proteção dos direitos humanos, surgem os sistemas regionais, os quais possuem o propósito de internacionalizar os direitos humanos na esfera regional.

Nesse sentido, em 30 de abril de 1948, durante IX Conferência Internacional Americana, foi aprovada a Carta da Organização dos Estados Americanos, tratado interamericano, que cria a Organização dos Estados Americanos (OEA).

A OEA, de acordo com a Carta das Nações Unida, tem como principais objetivos e princípios:

a) garantir a paz e a segurança continentais; b) promover e consolidar a democracia representativa, respeitado o princípio da não-intervenção; c) prevenir as possíveis causas de dificuldades e assegurar a solução pacífica das controvér-sias que surjam entre os Estados membros; d) organizar a ação solidária destes em caso de agressão; e) procurar a solução dos problemas políticos, jurídicos e econômicos que surgirem entre os Estados membros; f) promover, por meio da ação cooperativa, seu desenvolvimento econômico, social e cultural; g) erradicar a pobreza crítica, que constitui um obstáculo ao pleno desenvolvimento democrático; e h) alcançar uma efetiva limitação de armamentos convencionais que permita dedicar a maior soma de recursos ao desenvolvi-men-to econômico-social dos Estados membros (artigo 2 da Carta). (OEA,2016)

A organização tem sua formação composta por um Assembleia Geral, Conselho Permanente e Conselho Interamericano de Desenvolvimento Integral, Conferências Especializadas, Secretaria Geral, Comissão Interamericana de

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