Linguagem e identidade: os discursos sobre ser brasileiro
Luciana Cristina Ferreira Dias
Centro de Ciências Humanas- Universidade Estadual de Londrina- (UEL) Rodovia: Celso Garcia Cid, s/n . Caixa-postal: 6001- cep- 86051-990- Londrina- PR
Instituto de Estudos da Linguagem – IEL
Departamento de Lingüística Aplicada- Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Abstract: This study intents to reflect upon national identitiy (in this case, the brazilian
one), taking in consideration essays where we can find some representations about who brazilians are and how senses have been built in language. For this, it is necessary to keep in mind another view of subject and language.
Keywords: language; discourse; identity; portuguese; discourse analysis.
Resumo: O estudo tenciona refletir a respeito da identidade nacional (nesse caso, a
brasileira), levando em consideração ensaios nos quais podemos encontrar algumas representações de quem os brasileiros são e como os sentidos estão sendo construídos na linguagem. Para tanto, é necessário ter em mente uma nova visão de sujeito e de linguagem.
Palavras-chaves: linguagem; discurso; identidade; língua portuguesa; análise do
discurso.
1. Considerações iniciais:
Partir de um estudo cuja perspectiva seja discursiva, buscando ampliar as possibilidades de reflexão sobre o binômio linguagem/identidade, no domínio aplicado, implica alguns deslocamentos necessários em relação à noção de sujeito e de discurso por parte do investigador. Dessa forma, olhar para o discurso não pode restringir-se a uma análise do produto lingüistico visto como uma seqüência linear, tampouco como superfície acabada. Assim sendo, o presente trabalho nasceu dessa preocupação de compreender conceitos para que possamos problematizar na/pela linguagem os dizeres que constituem a identidade nacional na sua relação com a língua materna. Nessa tentativa de desenhar um percurso investigativo, há possibilidades de nos deparamos com tensões e conflitos, com ilusões e certas “pedras” no caminho. Mas é isso o que torna o processo mais instigante, essa necessidade de nos enxergarmos como outros, de nos interrogarmos acerca do que nos parece estranhamente familiar.
O presente artigo tenciona criar um espaço de elucubrações e de reflexões sobre a identidade nacional (o que vem a ser brasileiro) e a língua portuguesa, de modo que percebamos como os sentidos sobre ser brasileiro são construídos no discurso e quais
posições ideológicas são postas em cena quando o sujeito toma a palavra e produz sentidos sobre a brasilidade.
Tomando como base um ensaio jornalístico no qual configura uma reflexão sobre a identidade do brasileiro, a análise terá como enfoque os efeitos das formações ideológico-discursivas preponderantes sob esse ensaio. Outrossim, o trabalho buscará estabelecer conexões entre discurso e posições identitárias sobre ser nacional, ser brasileiro, partindo do estudo das formações imaginárias - o (s) brasileiro (s) representado(s) e o jogo de imagens veiculado nos textos, bem como da identificação simbólica que designa a produção do sujeito do inconsciente.
2. Sobre linguagem e identidade:
Diferentemente de algumas áreas das ciências humanas, que relacionam identidade individual à percepção consciente de si mesmo, ou identificam os indivíduos segundo elos de raça, nacionalidade, classe, cultura etc., agrupando-os conforme características que os tornam “iguais” por oposição aos “não-iguais” (ênfase na distinção indivíduo/grupo social), este trabalho vinculará a questão da identidade à inscrição do sujeito em formações discursivas, o que implica levar em conta a dimensão da alteridade discursiva nacional e não da diversidade lingüístico-cultural.. Assim, o presente projeto buscará compreender efeitos de sentido – sócio-historicamente produzidos na relação da inscrição na língua portuguesa com a ideologia, tendo como pano de fundo uma noção de sujeito produzido na heterogeneidade, no conflito, no desejo de ser e de não ser. No sofrimento da infindável busca de completude.
A meu ver, a questão de estar preso a uma dada língua e da problemática das memórias discursivas que atuam na constituição desses sujeitos contribuem para que a nossa relação com a linguagem e com análises sejam vistas de forma diferenciada.
Primeiro, para que seja possível o estabelecimento de uma nova contribuição para os estudos aplicados na área de ensino de língua materna seria interessante problematizar uma visão na qual se privilegie características próprias de um povo, características essas que permitem um reconhecimento mútuo entre os indivíduos. Vejo que para que haja um novo espaço de elucubrações e reflexões ( expansão das possibilidades), mostra-se válida a emergência de uma outra dimensão de análise, a da alteridade. Conseqüentemente, serão trazidos à baila o inconsciente e o discurso dentro de tal dimensão. Em outras palavras, o analista precisa ter em mente o fato de que o sujeito não é fonte intencional de um sentido que lhe seria transparente, um sujeito dono do seu dizer. Nesse caso, entram em cena o eixo interdiscursivo (a dimensão da interdiscursividade constitutiva de todo dizer), ou seja, a determinação sócio-histórica do sentido cujo controle escapa ao sujeito e uma concepção de sujeito não mais visto somente como falante, que encontraria na língua um instrumento para exprimir suas intenções de comunicação, mas sim como um espaço do sujeito afetado pela determinação sócio- histórica do dizer por memórias discursivas contraditórias (Serrani- Infante, 1998;p.245).
Podemos entender o já-dito como constitutivo de todo discurso, sendo que o discurso um continuum apoiado num passado, que aponta para um futuro, um devir, ao servir de matéria-prima para outros discursos. (PECHEUX, 1969).
Com efeito, pensar língua(gem) e sujeito, por um viés discursivo exige do analista uma visão diferente. De fato, não podemos ser vítimas das ilusões discursivas, mas tirar proveito delas, como tão bem nos sugere Orlandi (1999). Tendo em vista a explicitação de conceitos, assim, é interessante evidenciar, de forma mais longa, os esquecimentos propostos por Pêcheux que vão nos colocar frente a uma nova forma de ver sujeito e linguagem. Primeiro o autor supracitado nos fala do esquecimento número um, da ordem do inconsciente, que nos dá a ilusão de que somos origem do dizer, quando, na verdade, retomamos sentidos preexistentes. Os dizeres não nascem em nós, eles são determinados pela maneira como nos inscrevemos na língua e na história. Ora, entramos no processo discursivo e somos afetados pela língua e pela história. Na verdade somos pegos. Segundo, o autor apresenta-nos o esquecimento número dois, da ordem da enunciação, que nos dá a ilusão de que aquilo que falamos apresenta somente um sentido, uma forma de dizer. Nesse caso, apaga-se a existência de cadeias parafrásticas que se relacionam ao que foi dito, que explicita o que dizemos.
O trabalho traz para debate futuros a importante questão das filiações sócio- históricas de identificação com o ser brasileiro, tomando-se como ponto de partida a própria questão do sujeito e do discurso. Dessa forma, faz-se necessário analisar as representações (imagens) que podem assumir no discurso forma de estereótipos, etnocentrismo, idealizações, o que nos leva a refletir sobre o imbricamento de questões simbólicas e ideológicas. Tal dimensão de análise diz respeito à interdiscursiva, a da alteridade própria à língua materna. O jogo entre ser brasileiro e não ser.
Em relação a processos identificatórios, vale ressaltar que tal noção, identificação, merece ser explicada com maior detalhe. Quando tomamos a palavra, o que está em questão é o agenciamento de significantes, ou seja, um jogo de processos identificatórios, o que envolve, de um lado, imagens inscritas no inconsciente (identificação imaginária). E de outro, elementos do saber discursivo, o sujeito do inconsciente e o significante (suporte material do discurso) consistindo na identificação simbólica (uma ordem que o produz como sujeito). Nos termos de Chnaiderman (1998), para que ocorra o reconhecimento do eu com a imagem é preciso que ele esteja imerso em uma estrutura simbólica. Ainda dentro dessa perspectiva, segundo Lacan (apud Chnaiderman) “é a aventura original através da qual, pela primeira vez, o homem passa pela experiência de que se vê e concebe como um outro que não ele mesmo”... (p.96). Essa regulação da estrutura imaginária se dá através do registro do simbólico, de modo que a linguagem é condição sine qua non de constituição do sujeito.
A partir de uma concepção de sujeito clivado, múltiplo, heterogêneo, vejo que a análise de enunciações acerca do que vem a ser brasileiro, na tessitura do ensaio jornalístico, nos permitirá compreender as imagens construídas sobre o que somos e sobre como somos vistos. Como o brasileiro inclui-se no nacional e se exclui. Levando-se ainda em conta a questão do sujeito, apesar de a heterogeneidade Levando-ser constitutiva de todo discurso, essa é apagada pelo locutor, que, numa tentativa de ser Um, tanto harmoniza o que é diferente quanto apaga as vozes discordantes. (Authier Revuz, 1990). Tal desejo de dominância faz com que o sujeito feche o seu texto numa unidade coerente, de tal modo que, negando o Não Um, o sujeito mostra seu desejo de ser completo e afirmar o “Um”.
Levando em conta os esquecimentos de que falou Pêcheux (1988) que nos revelam uma forma outra de ver a identidade, estarei tecendo considerações acerca de dois textos que seguem abaixo, trazendo à tona a construção de nossa identidade nacional vista nessa perspectiva como heterogênea, contraditória e marcada pelo jogo do mesmo e do diferente.
Acompanho com assombro o que andam dizendo sobre os primeiros 500 anos do brasileiro. Concordo com todas as opiniões emitidas e com as minhas em primeiríssimo lugar. Tenho para mim que há dois referenciais literários para nos definir. De um lado, o produto daquilo que Gilberto Freyre chamou de casa-grande e senzala, o homem miscigenado, potente e tendendo a ser feliz. De outro, o Macunaíma, herói sem nenhuma definição, ou sem nenhum caráter — como queria o próprio Mário de Andrade.
Fomos e seremos assim, em nossa essência, embora as circunstâncias mudem e nós mudemos com elas. Retomando a imagem literária, citemos a Capitu menina — e teremos como sempre a intervenção soberana de Machado de Assis.
Um rapaz da platéia me perguntou onde ficaria o homem de Guimarães Rosa — outra coordenada que nos ajuda a definir o brasileiro. Evidente que o universo de Rosa é sobretudo verbal, mas o homem é causa e efeito do verbo. Por isso mesmo, o personagem rosiano tem a ver com o homem de Gilberto Freyre e de Mário de Andrade. É um refugo consciente da casa-grande e da senzala, o opositor de uma e de outra, criando a sua própria vereda mas sem esquecer o ressentimento social do qual se afastou e contra o qual procura lutar.
É também macunaímico, pois sem definição catalogada na escala de valores culturais oriundos de sua formação racial. Nem por acaso um dos personagens mais importantes do mundo de Rosa é uma mulher que se faz passar por jagunço. Ou seja, um herói — ou heroína — sem nenhum caráter.
Tomando Gilberto Freyre como a linha vertical e Mário de Andrade como a linha horizontal de um ângulo reto, teríamos Guimarães Rosa como a hipotenusa fechando o triângulo. A imagem geométrica pode ser forçada, mas foi a que me veio na hora — e acho que fui entendido.
CONY, Carlos Heitor. Folha Ilustrada, 5o Caderno, São Paulo, 21/04/2000, p. 12.
Tomando como referencial de análise, a categoria das ressonâncias discursivas (Serrani-Infante, 2001), buscar-se-á analisar certos itens lexicais que se materializam no eixo da formulação, o intradiscurso, itens esses que se caracterizam pela repetição, que participam da construção de um sentido predominante. A autora propõe as ressonâncias discursivas como recorrências parafrásticas que se condensam em sentidos predominantes na construção da referência do objeto do discurso, nesse caso, o ser brasileiro. Isso está intimamente atrelado `a noção de formação discursiva, visto que, nos termos de Serrani, temos a formação discursiva como um espaço marcado pela condensação de regularidades enunciativas em processos heterogêneos e contraditórios de produção de sentido. É o que veremos a seguir.
No texto em questão, percebemos que o brasileiro é representado por personagens provenientes da Literatura. Primeiro, surge a figura do homem vira-lata, misturado, potente, denominado refugo, aquele que perdeu alguns traços na miscigenação, que já não é passível de definição, isto é, pertence a essa raça pura. Logo em seguida, surge a imagem do Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Por fim, como fechamento aparece a figura de Diadorim, do universo rosiano, alguém que se passa por outra pessoa.
Diante disso, mostra-se necessário atermos às marcas que se repetem: sem nenhum caráter, sem nenhuma definição, refugo, herói, heroína, itens que configuram no fio do dizer, na seqüência linear, mas que apontam para um já-dito que torna possível a retomada do dizer. Primeiramente, o pronome adjetivo nenhum precisa ser considerada com atenção. Tal modalização apreciativa produzem sentidos que apontam para um herói que luta, mas que é também vazio, ou seja, não carrega valores, não tem
nenhum caráter. Uma posição enunciativa que se inscreve em uma formação discursiva e não outra para Ter um sentido e não outro. Diante disso, as palavras não têm seu sentido nelas mesmas, isto é, elas derivam seus sentidos das formação discursivas, dessas condensações de sentidos, em que se inscrevem. Mas há ainda a questão da ideologia. Segundo Orlandi (2001), tudo que dizemos tem, pois, um traço ideológico em relação a outros traços ideológicos. Temos, nessa perspectiva, que os dizeres são histórica e ideologicamente constituídos na tensão entre a repetição e o deslocamento, uma vez que a formação discursiva de forma alguma é um espaço fechado e homogêneo, mas sim um espaço marcado pela contradição, pela diferença e sobretudo pelas fronteiras fluidas e em constante (re)configuração do estabilizado, do dizer legimitado.
Vale dizer que estamos considerando que o nível no qual se diz e no qual o sujeito intervém não está apartado da memória discursiva, do interdicurso. No eixo vertical de constituição dos sentidos, o interdiscurso, nota-se um saber que foi se constituindo na relação do sujeito com a linguagem. Essas ressonâncias materializam uma posição enunciativa sobre ser brasileiro, que não deixa de nos remeter a uma imagem de sujeito produto de uma indefinição, que não está inserido em nenhum critério de classificação. Com efeito, o brasileiro é representado como uma falta de definição, de caráter, de verdade, as representações figuram personagens instigantes e centrais nas suas respectivas narrativas, entretanto parecem falhas, imperfeitas (é Capitu, a que traz a dúvida, parece faltar com a verdade; é Macunaíma, aquele que não quer trabalhar; é Diadorim, mulher que se passa por homem).
Essas unidades lingüísticas, ou itens lexicais, mobilizam o interdiscurso na construção de representações de sentidos. Nesse caso, temos uma representação do brasileiro como um sujeito que é miscigenado e forte, um herói sim, mas que, diferente de uma outra possibilidade de herói como aquele que respeita às leis, que não mente, escapa do controle, consegue burlar, romper com as convenções sociais e morais. Podemos arriscar dizer que essa posição enunciativa na qual se inscreve o autor do texto toma como base o olhar do europeu sobre nós brasileiros que nos constitui. Temos então implícito a questão do jeitinho brasileiro, da malandragem, do deixar para depois ecoando nesses dizeres. Ao mesmo tempo que o brasileiro tem sua garra (já que é fruto de uma mistura, que o tornou potente), ele consegue escapar dos laços da ideologia européia que produz sentidos ligados à necessidade de trabalho, respeito às normas e à aversão à mentira e ao logro. Dessa forma em sintonia com Orlandi (1990) também estou partindo da premissa de que a história do Brasil é contada a partir do olhar do europeu sobre o Brasil, ou seja, tentar investigar a maneira pela qual os sujeitos-europeus fizeram os sentidos pelos quais nos orientamos, bem como as posições a partir das quais produziam seus dizeres nos revela que o brasileiro é em si mesmo heterogêneo e contraditório, construído em diversos discursos.
4. Comentários finais:
Convém ressaltar que a formação discursiva com relação ao ser brasileiro à qual o ensaio está filiado aponta para a idéia de um sujeito herói, que luta, que busca, mas em quem falta caráter, princípios que conduzam um comportamento social ideologicamente visto como o ideal por uma certa ideologia ou moral.
O brasileiro é aquele que não se encaixa em nenhuma escala de valores, aquele cujo comportamento desperta interesse e inquietação nos outros. Contraditório, heterogêneo e construído em diferentes discursos, a construção de sentidos sobre a identidade nacional deve ser sempre concebida como múltipla e complexa.
Contraditória, uma vez que o brasileiro, no caso do texto analisado, é ao mesmo tempo potente (o que sugere vigor e força) e sem caráter (aquele em que há a falta de algo, a falta da verdade, da honestidade). Heterogênea, uma vez que o brasileiro não pode ser visto como um povo, mas sim como brasileiros no plural. Dito de outro modo, vale evidenciar que os brasileiros não compõem um povo homogêneo, mas sim que podem tomar posições que se diferem de um estereótipo, muitas vezes, utilizado pelo poder em tempos de crise, o que torna todos iguais, todos do mesmo “jeitinho”. Complexa, pois essa construção de sentidos se dá em diferentes discursos (discurso histórico, discurso literário, discurso político, discurso da mídia) permeado por ideologias diversas. Uma tessitura marcada sempre pelo outro e pela possibilidade de dizer um sentido outro, que escape, ao menos em parte, do esperado, do estabilizado, da monotonia da repetição feito “papagaio” sem historicidade. (cf. ORLANDI, 1998)
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