Religiosidade e Moralidade: categorização de usuários de serviços
em comunidades terapêuticas
1Gabriela Spanghero Lotta (FGV),
Giordano Morangueira Magri (NEB-FGV),
Dominique Nunes Almeida (USP),
Maria Izabel Sanches Costa (FGV)
Ana Claudia Salgado Cortez (USP),
Taciana Barcellos Rosa (UFRGS),
Adriana Pinheiro Carvalho (USP)
Juliana Rocha Miranda (FGV)
Introdução
A compreensão do poder alocativo do Estado passa por entender como os agentes implementadores interagem com usuários e distribuem bens, serviços e sanções (Lipsky, 2010). Os denominados Burocratas de Nível de Rua (BNR) são centrais nessa discussão, na medida em que são os atores responsáveis por implementar as políticas na interação com os usuários e determinam quem recebe o que, como e quando (Oorshot, 2006). Sua ação tem poder alocativo e distributivo (Lipsky, 2010, Tummers, 2015) e pode impactar também na construção de identidades e na concepção de cidadania dos usuários (Siblot, 2002; Zacka, 2017; Lotta e Pires, 2019; Maynard-Moody e Musheno, 2003).
Além dos elementos organizacionais, algumas pesquisas têm reforçado que, para entender o uso da discricionariedade por parte dos BNR, é central compreendê-los como atores sociais que carregam valores, concepções de mundo, moralidades e formas de enxergar e julgar os usuários dos serviços (Harrits e Moller, 2013; Moller e Stensota, 2017; Zacka, 2017; Maynard-Moody e Musheno, 2003; Dubois, 1999). Além disso, estes indivíduos também ocupam posições em uma sociedade marcada por diferenças e desigualdades (Lotta e Pires, 2020). Estes vários elementos impactam na maneira como enxergam o usuário, como o classificam e decidem o tipo de serviço que entregarão a eles (Harrits e Moller, 2014), podendo engendrar em práticas de redução ou reprodução de desigualdades como fruto da posição social que ocupam (Lotta e Pires, 2019).
Neste artigo, buscamos contribuir com esta literatura que analisa como as posições sociais e valores dos BNR afetam sua ação discricionária, observando um elemento pouco tratado na literatura: a religiosidade. Embora pouco estudada nas pesquisas sobre BNR, a religião pode influenciar a prestação de serviços públicos na medida em que seus prestadores reproduzem valores e posicionamentos morais atrelados a suas crenças religiosas (Freeman e Houston, 2010)
Assim, neste artigo, buscamos compreender como a dimensão religiosa influencia a ação discricionária dos BNR impactando na maneira como constroem legitimidade dos usuários que atendem. Para tanto, observamos a influência da dimensão religiosa em um dos mecanismos centrais da ação dos BNR: o processo de categorização de usuários (Lipsky, 2010). Este processo marca o momento em que os BNR precisam operar as categorias oficiais das políticas em situações reais e, para tanto, precisam interpretar e julgar o caso (Maynard-Moody e Musheno, 2003, Lipsky, 2010, Harrits e Moller, 2013). Na medida em que este processo é marcado por interpretações e julgamentos e tem impacto na construção da elegibilidade, ele é crítico para compreender os efeitos da política e reprodução ou redução de desigualdades (Pires, 2019; Lotta e Pires, 2019).
Para conduzir esta análise escolhemos o caso dos BNR das Comunidades Terapêuticas (CTs) do Estado de São Paulo. As CTs são Organizações da Sociedade Civil (OSC) que oferecem serviço voltado ao acolhimento e tratamento - via internação - de pessoas com transtornos decorrentes do uso problemático de substâncias psicoativas (SPAs) (Pires, 2018). São organizações que possuem estreito vínculo religioso, pois, em sua maioria, são constituídas e financiadas por instituições religiosas (Diest/Ipea, 2016). Os BNR das CTs foram estudados a partir de entrevistas e aplicação de vinhetas nas quais analisamos como a dimensão religiosa afeta a maneira como eles categorizam os usuários.
O artigo está estruturado em cinco seções. Na próxima seção debatemos a literatura nacional e internacional sobre a prática de categorização e julgamento dos BNR na implementação de políticas públicas, bem como a influência da religião na sua atuação. Na terceira seção apresentaremos a metodologia da pesquisa. A quarta parte está subdividida em duas etapas: na primeira apresentamos os resultados das comparações entre as vinhetas e na segunda analisamos os resultados e buscamos identificar possíveis diferenças entre as atuações das CTs religiosas e das sem vínculo religioso. Na última seção apresentamos as considerações finais.
Revisão Teórica
Parte da literatura sobre implementação de políticas tem se voltado, nos anos recentes, a compreender como esta fase pode repercutir em reprodução de desigualdades na entrega dos serviços públicos mesmo em políticas desenhadas para reduzir as desigualdades (Pires, 2019; Lotta & Pires, 2019), com atenção especial à atuação dos Burocratas de Nível de Rua (BNR). A atuação deles é marcada pelo uso de discricionariedade e pode construir processos de tratamentos diferenciados a depender do público atendido pela política, mesmo em contextos de políticas universais (Lotta e Pires, 2019; Pires, 2019).
A discricionariedade é reconhecida nos estudos de implementação como um elemento desejável e inevitável (Lotta e Santiago, 2017). Contudo, durante o exercício da discricionariedade, as práticas e comportamentos dos BNR acabam trazendo efeitos (materiais e simbólicos) não esperados, que podem diminuir ou reforçar desigualdades e discriminações múltiplas (Harrits, 2019), submetendo alguns dos usuários a posições inferiores em razão de suas características (Wacquant, 2008).
Um dos principais mecanismos por meio dos quais o tratamento desigual pode acontecer na implementação das políticas é o processo de categorização operado pelos BNR (Pires, 2019). Este processo é o momento no qual os BNR aplicam as definições formais da política aos casos reais (Lipsky, 2010; Harrits e Moller, 2013). É, portanto, um processo de ordenação social e classificação interpretativa de indivíduos e fenômenos (Møller, 2016); informado por julgamentos e classificações (Maynard-Moody e Musheno, 2003).
As categorias operadas pelos BNR durante a implementação trazem em si trajetórias enraizadas na sociedade, o que acaba por determinar como os cidadãos serão tratados pelo Estado (Mohr, 1994; Møller e Stensonta, 2017; Zacka, 2017). Esse processo pode gerar efeitos diversos para os indivíduos, tanto no que se refere ao acesso a serviços de forma desigual, quanto em termos de construção simbólica de determinados tipos de cidadãos (Harrits e Moller, 2014; Lotta e Pires, 2019 e 2020; Zacka, 2017; Dubois, 1999). Dessa forma, as análises sobre as categorizações permitem compreender como o Estado prioriza, na prática, determinados públicos, como constrói elegibilidade e em que medida cria ou reproduz estereótipos sociais excludentes (Moller e Harrits, 2011).
O processo de categorização operado pelos BNR é influenciado por diversos elementos não formais, como suas posições sociais, a maneira como enxergam os usuários, suas moralidades, a distância social entre burocratas e usuários e a maneira como o Estado reproduz estereótipos
sociais (Harrits e Moller, 2014; Tummers, 2015; Schneider e Ingram, 2005; Zacka, 2017; Harrits, 2019). Embora se reconheça a influência que estes vários elementos causam sobre o processo de categorização, há um elemento ainda pouco estudado por estas pesquisas: a religiosidade dos BNR.
A religião pode ser fator simbólico fundamental nesse processo de categorização efetuado pelos BNR e pode desempenhar papel central na ação do Estado (Bruce, 2000; Cunningham, 2005; Haven-Smith, 2003; Lowery, 2005). Segundo Freeman e Houston (2010), a religião dos BNR importa para a análise de políticas públicas por três razões principais.
Primeiramente, a religião é proeminente na prestação de serviços públicos dado que os governos fazem parcerias com organizações religiosas para a implementação de políticas. Conhecer os serviços prestados por essas organizações, assim como sobre suas parcerias com órgãos estatais é fundamental para compreender o Estado e suas interações com a sociedade. Em segundo lugar, a religião pode afetar a natureza da interação entre os BNR e os destinatários da política pública (Freeman e Houston, 2010). Em pesquisa realizada matizesnos EUA, a variável “uma fé profunda em Deus” foi considerada a mais importante para a promoção de confiança entre os prestadores de serviços públicos e seus usuários (Wuthnow, 2004).
Ademais, a religião dos BNR pode interferir no encaminhamento do serviço prestado. Pesquisas anteriores mostram que os de operadores da área de segurança pública na Flórida, ao atenderem mulheres vítimas de estupro, se recusam a recomendar a pílula do dia seguinte devido às suas convicções religiosas (Catalanello, 2007). Casos semelhantes também ocorrem no Brasil (Madeiro et al, 2016). No entanto, sabemos pouco ainda sobre a frequência com que as crenças religiosas dos agentes públicos entram em conflito com suas responsabilidades de trabalho ou como eles lidam com esses conflitos (Friedman e Houston, 2010). Esse desconhecimento se dá em um contexto de crescente heterogeneidade e mudança da perspectiva religiosa da população (Friedman e Houston, 2010), fato que se evidencia também no caso brasileiro, onde o panorama religioso sofreu fortes mudanças nas últimas décadas, tornando-se cada vez mais heterogêneo (Alves et al, 2017). Tal movimento deve-se à multiplicação e maior visibilidade de grupos orientais, ao processo de afirmação religiosa indígena e afro-brasileira, à maior presença pública das diferentes do Judaismo e Islamismo, ao aumento das religiões espiritualistas em torno da chamada Nova Era, ao fortalecimento institucional de grupos
católicos de renovação carismática e ao crescimento evangélico, especialmente pentecostal e neopentecostal (De Oliveira Ribeiro, 2013).
Tendo em perspectiva essa heterogeneidade religiosa, é imprescindível compreender como o Estado e seus agentes lida com ela, considerando que os BNR serão capazes de deixar de lado suas questões religiosas para agirem de forma neutra (Friedman e Houston, 2010), e que estas influências afetam a maneira como as políticas são implementadas. É nesta discussão que o presente artigo se situa, buscando compreender como a dimensão religiosa influencia a ação discricionária dos BNR, impactando na maneira como categorizam os usuários e encaminham o serviço prestado.
Metodologia
Para compreender como a dimensão religiosa influencia a ação discricionária dos BNR impactando na maneira como constroem legitimidade dos usuários que atendem, escolhemos, neste artigo, analisar o caso do processo de categorização operado pelos BNR das Comunidades Terapêuticas (CTs). Essa escolha se justifica porque, enquanto serviço que integra a rede de políticas de atenção ao consumo de álcool e outras drogas, as CTs são objeto de diversas controvérsias pelo caráter religioso do serviço. Segundo mapeamento nacional, 95,6% das CTs afirmam utilizar a espiritualidade como método de tratamento (Ipea, 2017). A orientação do trabalho atende ao tripé “disciplina, trabalho e espiritualidade”, que consiste na combinação de atividades religiosas (orações, participação em cultos e leitura bíblica) e atendimentos de profissionais especializados como médicos, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros (Santos, 2018).
Escolhemos estudar as CTs do Estado de São Paulo porque é ali que se concentra a maior parte das CTs brasileiras (21% de acordo com o Ipea/2016). As CTs analisadas são as que integram o “Programa Recomeço: uma vida sem drogas”, a principal política de drogas do governo estadual. O programa é intersetorial - envolvendo as secretarias de Saúde, Desenvolvimento Social, Educação, Segurança Pública, Justiça e Defesa da Cidadania - e tem implementação feita por Organizações da Sociedade Civil, que se dividem entre organizações de interesse de saúde e organizações de interesse social. As segundas, alvo da nossa análise, são conveniadas à Coordenação de Políticas sobre Drogas (COED) da Secretaria de Desenvolvimentos Social (SEDS) do Estado de São Paulo e visam oferecer acolhimento e
tratamento, por meio de internação, para pessoas com transtornos decorrentes do uso problemático de substâncias psicoativas (SPAs).
Escolhemos analisar 44 CTs, o que corresponde a 68% dos serviços credenciados pelo governo do estado de São Paulo. Na seleção, procuramos diversificar entre organizações sem identificação religiosa (52%) e organizações publicamente religiosas (48%), já que nosso interesse está em compreender como a religião marca processos de categorização dos BNR frente aos usuários do serviço. As organizações religiosas são de matriz cristã, católicas ou evangélicas, e neste artigo não analisamos diferenças entre elas. A classificação entre CTs religiosas e não religiosas se deu por informações colhidas a partir da autodeclaração espontânea dos entrevistados durante as entrevistas e de um processo sistemático de triangulação a partir da análise de websites e redes sociais dessas OSCs, onde se verificaram vínculos com igrejas, diretorias compostas por pastores e padres, fotos e vídeos de cultos, missas, batismos, orações e outros rituais presentes nessas religiões.
No entanto, como a espiritualidade é utilizada como forma de tratamento em quase todas as CTs do país independente de seu vínculo religioso, é provável que algum tipo de espiritualidade ou prática religiosa esteja presente mesmo nas CTs sem identificação com a religião, o que torna o objeto ainda mais complexo. Segundo Barcellos e Guareschi (2015), mesmo as CTs que afirmam não possuir vínculo religioso assumem uma crença num Deus cristão ao utilizarem os 122 passos como método de tratamento.
A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas com BNR que atuam nestas CTs. Foram selecionados 65 profissionais, entre psicólogos e assistentes sociais, sendo preferencialmente, trabalhadores 2 por CT. Nossa amostra não é estatisticamente representativa. Para escolha dos entrevistados, em primeiro lugar, seguimos a estratégia de seleção por
2 Os Doze Passos são:1) Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio
sobre nossas vidas; 2) Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade; 3) Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos; 4) Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos; 5) Admitimos, perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas; 6) Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter; 7) Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições; 8) Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados; 9) Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem; 10) Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente; 11) Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade; 12) Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades. Texto retirado do website dos Narcóticos Anônimos: https://www.na.org.br/os_12_passos_de_narcoticos_anonimos.html - acessado em 12/11/2020
conveniência, isto é, a disponibilidade e interesse em participar da pesquisa. Além disso, seguimos a seleção estratificada não randômica (ou sampling for range), por meio da qual são identificadas subcategorias do grupo sob estudo – como unidades organizacionais/território, tempo de serviço, formação profissional, entre outras sinalizadas como relevantes pela literatura – assegurando assim a diversidade dos respondentes a partir dessas características (Trost, 1986; Small, 2009). No caso, além dos critérios que orientaram a diversificação entre CTs religiosas e sem identificação religiosa, procuramos variar entre psicólogos e assistentes sociais nas CTs, visto que são os principais trabalhadores da linha de frente neste serviço. A diferença entre as profissões não será objeto das análises deste artigo.
As entrevistas se utilizaram de dois instrumentos: perguntas sobre perfil e atuação e aplicação de vinhetas. As entrevistas sobre perfil e atuação seguiram roteiro semi-estruturado inspirado naquele desenvolvido por Maynard-Moody e Musheno (2003) para análise da atuação de BNR. Com relação à vinheta, ela é um método semi-experimental que consiste em apresentação de imagens, vídeos ou textos criados para estimular entrevistados a responderem o que fariam diante de situações concretas, que, apesar de fictícias, aproximam-se de situações reais (Harrits, 2019). Numa abordagem qualitativa, as respostas às nossas vinhetas foram abertas, com objetivo de captar categorias e interpretações (reasoning), de modo abrangente, sobre as características dos casos apresentados e encaminhamentos sugeridos a cada um deles (Harrits, 2019).
A aplicação de vinhetas nos permitiu comparar, em profundidade, mecanismos de interpretações e decisões dos trabalhadores das CT, por meio de uma variação sistemática dos atributos das vinhetas (Harrits, 2019). Para tanto, criamos dois casos hipotéticos sistematizados no Quadro 1 (na íntegra no ANEXO 1) que têm a mesma situação de atendimento, mas variam em atributos relacionados à posição social (classe social) e composição familiar dos acolhidos: ambos são jovens de 18 anos internados em uma CT pelo uso de crack e que se recusam a participar de atividades religiosas. A variação está no perfil da família e da condição socioeconômica dos jovens.
Quadro 1 - Descrição dos casos das vinhetas
Vinheta A Vinheta B
Nome do acolhido: Pedro Idade: 18
SPA: crack
Nome do acolhido: Roberto Idade: 18
Situação familiar: pais casados, dois irmãos. Região de residência: bairro de classe média
Emprego dos pais: pai taxista e mãe professora de matemática
Comportamento/histórico: usa SPA desde o colegial. Já chegou a roubar os pais e dormir fora de casa para usar crack. Pais decidem enviá-lo para a CT. Fez muitas amizades. Não gosta de atender telefone da família. Tem muita energia.
Componente religioso: não gosta de participar das atividades, principalmente as que têm a ver com religião.
Situação familiar: mãe, três irmãos. Região de residência: região de invasão Emprego dos pais: mãe diarista
Comportamento/histórico: usa SPA desde o colegial. Já chegou a roubar os pais e dormir fora de casa para usar crack. Mãe decide enviá-lo para a CT. Fez muitas amizades. Não gosta de atender telefone da família. Tem muita energia.
Componente religioso: não gosta de participar das atividades, principalmente as que têm a ver com religião.
A vinheta A foi aplicada a 31 trabalhadores, sendo 13 de CTs religiosas e 18 de CTs sem identificação religiosa. A vinheta B foi aplicada a 34 profissionais, 19 de CTs religiosas e 15 de CTs sem identificação religiosa. As respostas foram gravadas, transcritas e posteriormente analisadas, com apoio software NVivo. Foram realizadas duas etapas de codificação. A primeira foi axial baseada em três códigos: categorias, interpretações e encaminhamentos. Depois da codificação axial, cada código foi recategorizado de maneira grounded3 (Charmaz, 2006) para
compreender variações internas a cada um deles.
Em seguida, analisamos as categorias, interpretações e encaminhamentos utilizados realizando dois processos de comparação. No primeiro, comparamos como estes três elementos apareceram de forma similar ou diferente entre as vinhetas A e B. No segundo processo, comparamos estes três elementos observando CT religiosa e não religiosa. Desse modo, pudemos compreender padrões gerais de categorização operados pelos trabalhadores das CTs, assim como uma aproximação de como informam sua discricionariedade por noções sociais mais amplas relacionadas à religião. Embora as vinhetas não captem as interações e decisões efetivamente tomadas, ao simularem uma situação real, oferecem estimativa de como os profissionais agiriam em situações específicas, o que nos ajuda a conectar seus processos interpretativos às suas ações (Harrits, 2019). A seguir apresentamos os resultados a partir das análises realizadas.
Resultados
Para comparar as vinhetas, observamos três elementos: as categorias utilizadas para enquadrar os casos; a forma de interpretação do problema; e o encaminhamento dado aos casos.
Processos de Categorização dos Casos
A tabela 1 sistematiza estas categorias utilizadas pelos BNR em cada vinheta e apresenta a comparação destes elementos entre as vinhetas A e B e entre as CTs religiosas e não religiosas. Tabela 1 - Categorias segundo as vinhetas e CTs religiosas e não religiosas.
CATEGORIAS Vinheta A Vinheta B Vinheta A+B
Relig Não Relig Relig Não Relig Relig Não Relig
Jovem 6 (46%) 5 (27%) 3 (15%) 6 (40%) 9 (28%) 11 (33%) Resistente 0 6 (33%) 3 (15%) 0 3 (9%) 6 (18%) Inteligente 1 (7%) 0 1 (5%) 1 (6%) 2 (6%) 1 (3%) Brincalhão 1 (7%) 0 0 0 1 (3%) 0 Agitado 1 (7%) 1 (5%) 0 0 1 (3%) 1 (3%) Doente 0 1 (5%) 0 2 (13%) 0 3 (9%) Família ausente 0 1 (5%) 1 (5%) 0 1 (3%) 1 (3%) Bom filho 0 0 2 (10%) 1 (6%) 2 (6%) 1 (3%) Pobre 0 0 1 (5%) 1 (6%) 1 (3%) 1 (3%) Família desestruturada 0 0 1 (5%) 0 1 (3%) 0
Mal educado 0 0 1 (5%) 0 1 (3%) 0 Fonte: Elaboração própria
Os dados nos mostram que a categoria mais acionada em ambas as vinhetas foi “jovem”, categoria que enquadra o comportamento à ideia de imaturidade. Outras categorias bastante mobilizadas foram "indisciplina" e "problemas na relação com os pais". A forma como as categorias foram operadas relacionam a situação de dependência química com o comportamento do indivíduo. Além disso, para alguns BNR há o entendimento de que o ambiente em que o atendido cresceu possa, de alguma maneira, influenciar essa condição de dependência química. Essas ideias, bem como as três categorias mais usadas, estão alinhadas às normas formais das CTs que são definidas como um serviço destinado a jovens, adultos e suas famílias e compreendem o abuso de substâncias químicas como um transtorno associado a problemas relacionais, incluindo os familiares, e comportamentais (De Leon, 2003).
Ao compararmos as diferenças entre as vinhetas, no entanto, vemos distintos usos de categorias. Na vinheta A, por exemplo, foram ativadas diversas categorias negativas a respeito do jovem, como: resistente, difícil, agressivo, revoltado, descompromissado, e perdido. Estes são todos adjetivos atribuídos a um jovem rebelde, a um adolescente que tem comportamento revoltado, algo que, de alguma forma, naturaliza o uso abusivo das drogas atribuindo este ato a um comportamento juvenil. Em contraste, no caso da vinheta B, foram atribuídas outras categorias como: bom filho, bom menino e inteligente, além de diversas categorias relacionadas à família e à classe social, tal como família desestruturada e pobre. Neste caso, portanto, o comportamento não é atribuído a uma juventude rebelde, mas sim a um jovem bom, mas pobre e de família desestruturada. Neste contexto, o uso abusivo de drogas aparece como uma questão familiar e de classe, e não como um ato rebelde da juventude.
Quando comparamos as categorias mobilizadas pelas CTs religiosas com as não religiosas, observamos mais uma vez a prevalência da categoria "jovem" em todas elas. Mas nessa comparação chama atenção o aparecimento de uma categoria exclusiva das CTs não-religiosas: "doente". Uma possível explicação é de que as CTs religiosas tendem a usar mais justificativas contextuais, sejam comportamentais (individuais) ou culturais (coletivas), em detrimento às explicações de saúde, que aparecem apenas nas CTs sem vínculo religioso.
Outro elemento que se coloca de forma mais sutil é o fato da “família desestruturada” e do assistido ser “mal educado” aparecerem somente nas CTs religiosas, sugerindo a importância da dimensão familiar para estas organizações.
Interpretação dos Casos
A segunda dimensão analisada comparativamente é como os profissionais interpretam os casos. A tabela 2 apresenta esta variação de interpretação comparando-a entre as vinhetas A e B e entre as CTs religiosas e não religiosas.
Tabela 2 - Interpretações segundo as vinhetas e CTs religiosas e não religiosas.
INTERPRETAÇÕES Vinheta A Vinheta B Vinheta A+B
Relig Não Relig Relig Não Relig Relig Não Relig Problema é na relação com os pais 9 (69%) 7 (38%) 9 (47%) 8 (53%) 18 (56%) 15 (45%)
Problema é por ser jovem 3 (23%) 18 (100%) 2 (10%) 5 (33%) 5 (15%) 23 (69%)
Culpa das amizades erradas 2 (15%) 4 (22) 0 0 2 (6%) 4 (12%)
Falta religião 5 (38%) 1 (5%) 3 (15%) 1 (6%) 8 (25%) 2 (6%)
Falta disciplina 0 3 (16%) 4 (21%) 0 4 (12%) 3 (9%)
Família protegeu excessivamente 0 3 (16%) 0 0 0 3 (9%)
Não valoriza a vida 1 (7%) 1 1 (5%) 1 (6%) 2 (6%) 2 (6,%)
Crack vicia 1 (7%) 0 1 (5%) 2 (13%) 2 (6%) 2 (6%)
Classe média 0 1 (5%) 1 (5%) 1 (6%) 1 (3%) 2 (6%)
Fraqueza momentânea 0 1 (5%) 0 0 0 1 (3%)
Faltou afeto 0 1 (5%) 2 (10%) 1 (6%) 2 (6%) 2 (6%)
Culpa é dos traumas 0 0 3 (15%) 3 (20%) 3 (9%) 3 (9%)
Problema é social 0 0 1 (5%) 2 (13%) 1 (3%) 2 (6%)
Fonte: Elaboração própria
A “falta de religião” foi uma interpretação mobilizada em ambos os tipos de CTs, nas duas vinhetas. Embora naturalmente esta tenha sido uma interpretação mais realizada em CTs religiosas, o fato de também aparecer em ambas as vinhetas e entre profissionais de CTs não religiosas mostra o papel constitutivo da religião na política ofertada em comunidades terapêuticas.
Olhando agora para as variações entre as duas vinhetas, novamente observamos que a família é culpabilizada pelo uso abusivo de drogas o que, como já foi dito, corrobora com os princípios da política. No entanto, há uma diferença fundamental na culpabilização da família comparando as vinhetas. Na vinheta A, a família é culpada por ser “superprotetora”, ou por ter “expectativas muito altas em relação ao filho”, impondo a ele uma pressão desnecessária. Interessante observar que a interpretação “teve base familiar”, embora tenha sido mobilizada apenas uma vez, aparece justamente na vinheta A, o que ajuda a exemplificar a diferença da composição familiar nos julgamentos operados pelos BNR. O fato de ter um pai presente gera imagem de uma família que deu apoio e educou este filho, privilégio de partida não oferecido à mãe solo. A interpretação, portanto, na vinheta A, é de que há um problema nas relações familiares que é típico de um filho cuidado e protegido em excesso. Assim, o uso abusivo das drogas é visto como um comportamento típico de um adolescente rebelde em situações familiares deste tipo.
Outro elemento usado na interpretação desta vinheta A é a ideia de que o uso abusivo de drogas é causado também pelas “amizades erradas” ou é fruto de uma "fraqueza
momentânea". Mais uma vez, podemos ver que a droga não é considerada um elemento inerente à família com a figura paterna presente, devendo haver, portanto, uma explicação externa que possa explicar o uso problemático. O trecho abaixo traz a interpretação da vinheta A que mostra a droga como um elemento externo, introduzido por amigos:
“Eu trabalharia com ele esse círculo de amizade, mostraria que tem possibilidade de outras amizades, não só aquelas amizades que pode muitas vezes influenciar o comportamento. Para ele ser aceito do jeito que ele é, não precisa usar substância” (Vinheta A, entrevistado 16)
Por outro lado, no caso da vinheta B as interpretações foram bem distintas. Em primeiro lugar, os entrevistados culpam a família por ser “ausente”, tanto pelo fato de a mãe trabalhar excessivamente para sustentar a família, como pelo pai ter abandonado esta família, que ficou “desestruturada”. Temas como “falta de afeto” e “solidão” ajudam a explicar a situação vivida por este jovem no contexto familiar. Neste caso há um discurso estereotipado da mãe solo, que não consegue dar atenção e o cuidado suficiente para os seus filhos. Ademais, diferente da vinheta A, não há menção sobre suas amizades, mas sim sobre problemas sociais e traumas, o que denota que o uso abusivo de drogas é explicado por estes BNR a partir do contexto social e familiar, e não pelas escolhas de um jovem rebelde. Isso sugere que, na perspectiva destes burocratas, para jovem de classe mais vulnerável a droga não precisa ser ofertada por amigos mal intencionados que se aproveitam de um momento de fraqueza: ela já faz parte da vida dele.
As frases abaixo mostram este processo de interpretação operado na vinheta B:
"Essa pessoa foi criada pela mãe que chega todo dia às 8hs da noite cansada e não tem coragem de perguntar: - filho como foi na escola?" (Vinheta B, entrevistado 56).
“O jovem de uma classe mais baixa, que tem a mãe como a provedora… tem irmãos mais novos que talvez o veem como referência e um ponto de apoio para a mãe, gosta de estudar… então é um jovem que talvez tenha muitas expectativas na vida, mas não tem tantas possibilidades de viver uma vida em relação a estudos, suporte, passeios… uma vida com mais possibilidades do que responsabilidades e privações” (Vinheta B, entrevistado 47)
Comparando as interpretações realizadas pelas CTs religiosas com as não religiosas não encontramos grandes diferenças nas categorias utilizadas. Contudo, a ordem de incidência dessas categorias varia bastante entre religiosas e não religiosas. Nas CTs religiosas a ordem das três interpretações mais utilizadas são “o problema é na relação com os pais”, “falta religião”, e o “problema é por ser jovem”. Nas CTs não religiosas o ranking se mostra da seguinte forma: “problema é por ser jovem”, “problema é na relação com os pais” , e “culpa
das amizades erradas”. O papel da família e da religião parecem ressaltados para os trabalhadores das CTs religiosas, ao passo que, nas não religiosas, a juventude é o elemento principal.
Encaminhamentos para os casos
Por fim, o terceiro elemento que analisamos, comparativamente, foi a forma como os profissionais pensam em encaminhamentos. A tabela 3 mostra estes resultados comparando entre as Vinhetas e as CTs religiosas e não religiosas.
Tabela 3 - Encaminhamentos segundo as vinhetas e CTs religiosas e não religiosas.
ENCAMINHAMENTOS Vinheta A Vinheta B Vinheta A+B
Relig Não Relig Relig Não Relig Relig Não Relig Acionar a família 8 (61%) 13 (72%) 10 (52%) 11 (73%) 18 (56%) 24 (72%)
Propor outras atividades que motivem
1 (7%) 10 (55%) 8 (42%) 4 (26%) 9 (28%) 14 (42%)
Ouvir 5 (38%) 5 (27%) 3 (15%) 9 (60%) 8 (25%) 14 (42%)
Conscientizar 4 (30%) 5 (27%) 2 (10%) 1 (6%) 6 (18%) 6 (18%)
Trabalhar autoestima 5 (38%) 2 (11%) 5 (26%) 3 (20%) 10 (31%) 5 (15%)
Ajudar na procura de serviços
e benefícios 3 (23%) 3 (6%) 2 (10%) 4 (26%) 5 (15%) 7 (21%) Respeitar religiosidade 3 (23%) 3 (6%) 2 (10%) 0 5 (15%) 3 (9,%)
Encaminhar para outros
serviços de saúde 3 (23%) 2 (11%) 0 1 (6%) 3 (9%) 3 (9%) Encaminhar para psicólogo 0 4 (22%) 4 (21%) 2 (13%) 4 (12%) 6 (18%)
Oferecer alternativas religiosas
ou espirituais 2 (15%) 2 (11%) 3 (15%) 2 (13) 5 (15%) 4 (12%) Acionar ou rever amizades 2 (15%) 2 (11%) 0 0 2 (6%) 2 (6%)
Amor exigente 2 (15%) 1 (5%) 0 0 2 (6%) 1 (3%)
Realizar diagnóstico sobre a
situação e história 1 (7%) 2 (11%) 4 (21%) 2 (13%) 5 (15%) 4 (12%) Usar informações científicas
para convencimento 0 2 (%) 0 0 0 2 (6%)
Encaminhar para escola ou
trabalho 0 2 (11%) 0 4 (26%) 0 6 (18%)
Fazer acreditar na importância da fé
1 (7%) 1 (5%) 0 4 (26%) 1 (3%) 5 (15%) Fonte: Elaboração própria
Os encaminhamentos mais recorrentes em ambas as vinhetas foram “acionar a família”, “propor atividades que os motivem”, “criar vínculo” e “valorizar a auto-estima”. Estes encaminhamentos são fortemente enfatizados como práticas a serem executadas pelas CTs, o que mostra um alinhamento entre parte da ação dos BNR e a política formulada.
Entretanto, em uma análise comparativa entre as vinhetas, percebemos que os julgamentos morais e de classe são também utilizados como critérios para definir os tipos de encaminhamentos que cada jovem e família receberá da CT. Como no caso da vinheta A os profissionais culpam a família (super protetora) e as amizades, o encaminhamento proposto é de acionar a família, propor que o jovem reveja suas amizades, criar novos padrões de comportamento, bem como encaminhar a família para um serviço denominado "Amor Exigente"4 (pela superproteção da família). Já para o caso da vinheta B, os profissionais
sugerem realizar um diagnóstico sobre a situação e história do jovem e incentivar a volta aos estudos e a entrada no mercado de trabalho. Propõem, assim, que educação e trabalho são a
4Amor Exigente é um programa não governamental do tipo grupo de ajuda mútua destinado a pais e familiares de pessoas que fazem uso problemático de drogas.
saída para este jovem. Não há menção ao "Amor Exigente" nem a mudanças de comportamento ou de amizades.
Na comparação entre as CTs religiosas e as não religiosas, também encontramos formas diferentes de pensar os encaminhamentos. A família é a grande protagonista nas soluções propostas pelos profissionais de ambos os tipos de CTs, reforçando que a família é vista neste serviço como central no processo de recuperação, sobretudo pelo entendimento das situações de co-dependência em relação ao usuário. Encaminhamentos como “Respeitar religiosidade”, “Oferecer alternativas religiosas ou espirituais” e “Fazer ele acreditar na importância da fé” nos comprovam o atravessamento da questão religiosa na estruturação da implementação da política como um todo, independente do vínculo religioso da CT. O relato abaixo reforça a centralidade da religião no tratamento das CTs.
"Pelo menos lá onde eu trabalho, quando a pessoa não quer participar da questão da espiritualidade, a psicóloga entra para fazer um trabalho paralelo, porque não é obrigatório, e tentar mostrar para ele que a questão da espiritualidade também é interessante. Porque não adianta você trabalhar a sua mente, o corpo e não trabalhar a espiritualidade. Porque todas essas bases têm que estar fortalecidas" (Vinheta A, entrevistada 20).
A diferença na forma de lidar com a questão religiosa nas duas vinhetas é um fato que chama atenção. Apesar de para ambos aparecer a possibilidade de oferecer alternativas às atividades religiosas, para a vinheta A a possibilidade de ter sua religiosidade (ou a falta de religiosidade) respeitada é três vezes maior que na vinheta B. Ademais, para a vinheta A aparece duas vezes mais a necessidade de fazer o jovem acreditar na importância da fé. Algumas frases abaixo reforçam esses argumentos.
"Se ele não quer participar, não vou obrigá-lo. Mas trazer também aos poucos, porque eu acho que não pode ser nada muito brusco, que é a ideia da espiritualidade, porque se faz importante sim no crescimento dele, na melhora dele. É importante que a gente tenha a questão espiritual trabalhada. Não é só a religiosidade, é a questão dele com ele mesmo tem que estar bem elaborada. E eu vejo que a religião para a dependência química traz uma estrutura muito boa" (Vinheta B, entrevistada 58).
"Entendemos que frequentar igreja engloba o sucesso de um acolhimento; procura diferenciar espiritualidade, religiosidade e religião; entretanto, sugeriria atividades alternativas, caso o acolhido não queira participar da espiritualidade" (Vinheta A, entrevistada 24).
Por fim, apesar de não termos identificado muitas diferenças entre as CTs religiosas e não religiosas, cabe frisar algumas diferenças indicadas nas últimas colunas da Tabelas 5 e 6 (Vinhetas A+B). As CTs religiosas justificam mais o uso de drogas por um problema de
auto-estima e que, portanto, precisa de mudança de comportamento, podendo ser resolvida a partir do autoconhecimento. Neste caso, a fé é central no tratamento, pois pode facilitar essa conexão simbólica com a sensibilidade das emoções. Já as CTs não religiosas, tendem a acreditar mais na ideia da construção de vínculo e se propõem a adaptar atividades religiosas, bem como tendem a dar foco na educação.
Discussões
As análises das vinhetas confirmam como os processos de categorização operados pelos BNRs utilizam diversos elementos formais e informais. As regras oficiais da política ficaram evidentes na maneira como os burocratas categorizam os usuários e como pensam os encaminhamentos. O modelo terapêutico proposto pelas CT compreende que o tratamento se baseia na mudança de comportamentos e de padrões relacionais a partir do aprendizado social, que envolve o engajamento em um conjunto de atividades relacionadas à troca de experiência, trabalho e espiritualidade (De Leon, 2003). Para estas instituições, assim como para a maioria dos modelos de tratamento para a dependência química, os problemas de relacionamento estão diretamente associados ao abuso de substâncias, podendo a família atuar tanto como responsável pelo surgimento do abuso de drogas, quanto como instituição protetora para a saúde de seus membros (De Leon, 2003; Schenker e Minayo, 2004). Como consequência, há necessidade de se tratar o sistema familiar para a transformação da situação de dependência química. Na análise das vinhetas, identificamos que há uma narrativa comum, independente do tipo de CTs e de vinheta, de que os jovens são indisciplinados e têm problemas na relação com os pais que requerem tratamento familiar e atividades socioeducativas. Isso está claramente alinhado aos princípios formais das CTs.
Com relação ao encaminhamento, os profissionais também enfatizam a importância do ato de ouvir, acolher e criar vínculo frente às dificuldades apresentadas nas duas vinhetas, sendo esta uma ação baseada nas propostas oficiais do serviço. Além disso, conforme apontado por Senghass e Freier (2018), o estabelecimento de relações de confiança com os atendidos, são também uma estratégia frequentemente utilizada por trabalhadores da ponta para superar possíveis barreiras à cooperação nas mudanças comportamentais.
Por outro lado, os dados demonstram claramente a importância do uso de categorias informais e estereótipos na maneira como estes burocratas atuam, elementos que não fazem parte da política. Os dados mostram que os BNR tendem a introduzir no processo de
categorização julgamentos baseados na condição social dos usuários e no tipo de família que repercutem na definição de qual encaminhamento cada jovem receberá. Verificamos que, ao jovem de classe menos vulnerável, são acrescentados atributos que indicam rebeldia e resistência, enfatizando-se o peso da dimensão individual e comportamental no problema com o uso de drogas. Por sua vez, o jovem em situação de maior vulnerabilidade e com família monoparental é descrito como um bom menino de família desestruturada e pobre, contexto no qual o uso de drogas está associado a uma questão familiar e de classe, e não como um ato rebelde da juventude.
Às respectivas famílias também são atribuídas características distintas, a depender da classe social. Os BNR fazem suposições diferentes sobre os recursos e habilidades das famílias. Apesar de a família ser culpabilizada pelo uso abusivo de drogas nos dois casos, corroborando com os princípios da política, há marcantes diferenças nesse processo de interpretação. Para os profissionais, a família A é culpada por proteger o filho em excesso, enquanto o uso de drogas pelo jovem da vinheta B decorre da pouca presença da mãe e da ausência do pai. Identificamos, portanto, que a introdução de uma variável relativa às condições socioeconômicas e familiares muda como os profissionais pensam os casos. Tais achados reforçam a ideia de que as categorias operadas pelos BNRs trazem estereótipos e julgamentos enraizados socialmente, que determinam como os cidadãos serão tratados pelo Estado, podendo reforçar desigualdades já existentes (Mohr, 1994; Møller e Stensonta, 2017; Zacka, 2017; Lotta e Pires, 2019).
Na análise comparativa das percepções dos profissionais das CTs religiosas e sem vínculo religioso, identificamos que nas religiosas o processo de responsabilização da família é reforçado, sendo a falta de fé apontada como problema central a ser enfrentado no tratamento dos usuários. Entretanto, também verificamos que há diferenças nos encaminhamentos. A família é vista como central no processo de recuperação nos dois tipos de organização, mas se destaca com maior tendência das CTs não religiosas. Conforme exposto nos resultados, se o papel da família e da religião é o elemento central para os trabalhadores das CTs religiosas, a juventude é o das CTs sem vínculo religioso. Há, portanto, uma diferença na forma como as CTs religiosas e não religiosas entendem o peso do papel da família e da religião no serviço ofertado.
Outro elemento que se coloca de forma mais sutil é o fato de categorias como a “família desestruturada” e jovem “mal educado” aparecerem somente nas CTs religiosas. Nas religiões cristãs, a família tem um papel central na construção de valores morais e religiosos e de padrões
de comportamento, o que se insere na educação que os pais devem garantir aos filhos. Quando há um jovem que resiste a atividades religiosas, o fato de haver uma família monoparental e que supostamente não garante bons padrões de educação aos filhos ressalta uma visão do papel moral que a família tem nesse contexto.
As referências à espiritualidade em ambos os tipos de CTs e vinhetas se alinham ao fato de que, no geral, as CTs propõem como metodologia de tratamento uma mudança de identidade, incentivando transformações de natureza subjetiva-moral nos sujeitos que fazem uso problemático de SPAs (Machado, 2011; Melo e Corradi-Webster, 2016; Loeck, 2018). Nesse sentido, a espiritualidade atingiria dois objetivos simultâneos: seria o principal recurso para a superação da adicção, oferecendo amparo emocional e psicológico para a manutenção da abstinência; e refere-se ao estabelecimento de um padrão de conduta moral para os acolhidos, em geral, a conduta cristã, que auxiliaria na transformação subjetiva pretendida (Melo e Corradi-Webster,2016; Loeck, 2018; Santos, 2018). Portanto, tratando-se de um problema comportamental, a (falta de) fé é entendida como central para a mudança da realidade desses atendidos.
É por isso que, embora tenhamos identificado diferenças importantes na forma como a religião/espiritualidade é mobilizada, tal questão aparece como uma preocupação dos profissionais independentemente da orientação religiosa da CT, demonstrando que a religiosidade desempenha um papel na entrega do serviço. Este fato é reforçado ao analisarmos que, embora a interpretação "falta de religião" tenha ocorrido mais em CTs religiosas, o fato de também aparecer nas respostas de profissionais de CTs não religiosas mostra o papel constitutivo da religião na política ofertada nestas organizações.
No entanto, embora a espiritualidade seja presente em todos os casos, chama atenção que na vinheta A se respeite muito mais a religiosidade (ou falta dela) do que na vinheta B. Uma hipótese para explicar essa diferença é que essa classificação está diretamente relacionada à classe dos indivíduos. É possível que no caso da Vinheta B a religião seja vista como uma solução central não apenas pelo sistema de crenças que a religião significa, mas também como uma forma de proteção e ascensão social para jovens de classe baixa. Esta visão corrobora achados de outras pesquisas que sugerem que indivíduos de baixa renda que frequentam instituições religiosas possuem acesso a uma rede alternativa de proteção social oferecida por essas instituições, por meio da qual acessam suporte psicológico, material e oportunidades de trabalho (Scheve e Stasavage, 2006). Tal hipótese, no entanto, precisaria ser verificada em
pesquisas futuras que não tratem a religião de forma homogênea, já que, no caso brasileiro, grupos religiosos possuem diferenças sociais e econômicas importantes (Campos, 2008; Mariano, 1999; Freston, 2004; Almeida, 2017).
Considerações Finais
Este artigo teve como objetivo analisar de que forma a dimensão religiosa afeta a maneira como os BNR pensam a interação com os usuários e a entrega de serviços. Ao analisar comparativamente a ação discricionária entre burocratas de organizações religiosas e não religiosas, observamos em que medida e como a religião influencia a maneira como estes agentes atuam.
A pesquisa identificou que, tal como apontam Freeman e Houston (2010), a religião é um elemento quase que necessariamente presente na interação entre os BNR e os destinatários da política, ao ponto de sua ausência ser considerada um problema na perspectiva destes atores. Assim, as mudanças na rotina e na forma como os BNR integram o elemento religioso no serviço prestado diariamente não se mostram capazes ainda de dissociar o uso problemático de drogas da dimensão espiritual do indivíduo, gerando essa relação intrínseca à política pública. Apesar das distinções demonstradas neste artigo, a religiosidade aparece como uma preocupação dos BNR independentemente da orientação religiosa da CT, o que comprova que a religiosidade permeia as estratégias mobilizadas neste serviço.
Neste artigo buscamos contribuir com a literatura que analisa de que forma os valores dos BNR afetam sua ação discricionária, momento no qual os BNR aplicam as definições formais da política aos casos reais (Lipsky, 2010; Harrits e Moller, 2013), destacando o elemento da religiosidade (Freeman e Houston, 2010). Trouxemos recursos empíricos que confirmam as discussões sobre as categorias operadas pelos BNR durante a implementação, as quais são enraizadas na sociedade e determinam como os cidadãos serão tratados pelo Estado (Mohr, 1994; Møller e Stensonta, 2017; Zacka, 2017).
Por fim, destacamos propostas para agendas futuras. Dada a natureza da ação dos BNR, marcada por interpretações e julgamentos, os quais têm impacto na construção da elegibilidade do usuário que irá acessar i serviço público, compreender como se dão os efeitos dessas ações nas políticas, reproduzindo ou reduzindo desigualdades (Pires, 2019; Lotta e Pires, 2019) parece ser um caminho já explicitado para o aprofundamento de pesquisas em distintas áreas. Todavia, como forma de corroborar com a exposição de elementos não formais, como posições sociais,
moralidades, distância social (Harrits e Moller, 2014; Tummers, 2015; Schneider e Ingram, 2005; Zacka, 2017; Harrits, 2019), explorar a religião se mostrou como um fator simbólico fundamental nesse processo de categorização efetuado pelos BNR, desempenhando papel central na ação do Estado (Bruce, 2000; Cunningham, 2005; Haven-Smith, 2003; Lowery, 2005) e podendo ser aprofundado partir de pesquisas posteriores.
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ANEXO 1 Caso A - metade
Pedro é um jovem de 21 anos que faz uso abusivo de drogas desde os 15. Filho de um motorista de taxi e de uma professora de matemática, Pedro mora com os pais e dois irmãos num bairro de classe média. Pedro era uma criança muito inteligente e muito popular na escola. Quando entrou no ensino médio, mudou de escola e começou a sair com um novo grupo de amigos. Foi quando começou a usar drogas. Depois que experimentou o crack, passou a matar aula para fumar. Com o tempo, começou a roubar coisas de casa para comprar crack e a dormir algumas noites fora de casa. Os pais já tentaram várias vezes tratar o vício do filho, de várias formas, e agora mandaram ele pra Comunidade. Ele está aqui há três semanas, já fez muitas amizades. Os pais ligam para ele todo dia, mas ele não gosta de atender. Ele tem muita energia, mas não gosta muito de participar das atividades, principalmente as que tem algo a ver com religião.
Caso B - metade
Roberto é um jovem de 21 anos, mas faz uso abusivo de drogas desde os 15. Filho de uma faxineira diarista, Roberto é o mais velho de quatro filhos. Todos foram criados sem pai, e moram numa região de invasão. A mãe trabalha muito já que precisa sustentar sozinha a casa e não consegue ficar muito tempo com os filhos. Roberto era uma criança muito inteligente e muito popular na escola, sempre entre os melhores alunos. Quando entrou no ensino médio, mudou de escola e começou a sair com um novo grupo de amigos. Foi quando começou a usar drogas. Depois que experimentou o crack, passou a matar aula para fumar. Com o tempo, começou a roubar coisas de casa para comprar crack e a dormir algumas noites fora de casa. A mãe já tentou tratamento e agora decidiu mandá-lo pra Comunidade. Ele está aqui há três semanas, já fez muitas amizades. A mãe liga para ele todo dia, mas ele não gosta de atender. Ele tem muita energia, mas não gosta muito de participar das atividades, principalmente as que tem algo a ver com religião.
ANEXO 2
CATEGORIAS DEFINIÇÃO TERMOS USADOS
Jovem Quando os profissionais se referem aos acolhidos jovens e imaturos.
Jovem, novo, imaturo, inexperiente
Resistente Quando os profissionais se referem aos acolhidos sem compromisso, sem
disciplina e com comportamento agressivo.
Difícil, agressivo, revoltado, negligente, descompromissado, indisciplinado,
perdido
Inteligente Quando os profissionais se referem aos acolhidos inteligentes.
Inteligente
Brincalhão Quando os profissionais se referem aos acolhidos que brincam, têm bom humor
Brincalhão
Agitado Quando os profissionais se referem aos acolhidos ansiosos e inquietos.
Agitado, ansioso
Doente Quando os profissionais se referem à acolhidos com doenças mentais e
traumas.
Doente, traumatizado
Família ausente Quando os profissionais se referem à ausência ou falta das famílias dos
acolhidos.
Família ausente, acolhido carente
Bom filho Quando os profissionais se referem aos bons acolhidos.
Bom filho, bom menino
Pobre Quando os profissionais se referem aos acolhidos de baixa renda.
Mal educado Quando os profissionais se referem aos bons acolhidos sem educação
Mal educado
INTERPRETAÇÕES DEFINIÇÃO EXEMPLOS
Problema é na relação com os pais Quando os profissionais entendem que o problema do acolhido é causado
pela relação com os país.
Problemas de vínculo com os pais, falta de acolhimento pelos pais.
Problema é por ser jovem Quando os profissionais entendem que o problema do acolhido é causado
pela juventude.
Problema é ser jovem,/adolescente/revolta etc
Culpa das amizades erradas vinheta Quando os profissionais entendem que o problema do acolhido é causado
por amizades ruins.
Culpa de amizades ruins, más influências
Falta religião Quando os profissionais entendem que o problema do acolhido é causado
por faltar religião.
Falta religião
Falta disciplina Quando os profissionais entendem que o problema do acolhido é causado
por falta de disciplina.
Falta disciplina, falta compromisso, falta autodeterminação
Família protegeu excessivamente Quando os profissionais entendem que o problema do acolhido é causado
por excesso de proteção da família.
Família protegeu demais, família protegeu
excessivamente.
Não valoriza a vida Quando os profissionais entendem que o acolhido não valoriza a vida.
Não valoriza a vida
Crack vicia (doença) Quando os profissionais entendem que o crack é uma SPA viciante e que vício é doença.
Crack vicia
Teve base familiar Quando os profissionais entendem que o acolhido teve base familiar.
Vem de família estruturada, teve base familiar.
Classe média Quando os profissionais entende qual a classe social do acolhido Vem de classe média, vem de classe baixa
Fraqueza momentânea Quando os profissionais entende que uso e recaída em SPA é fraqueza momentânea.
Fraqueza momentânea
Faltou afeto, tem solidão, tristeza Quando os profissionais entendem que o acolhido não teve afeto.
Acolhido que não teve afeto, acolhido é triste, acolhido tem
solidão. Culpa é dos traumas Quando os profissionais entendem
que o problema do acolhido é causado pelos traumas que carrega
O problema são os traumas.
Problema é social Quando os profissionais entendem que o problema do acolhido é causado
por seu pertencimento social
O problema é a falta de recursos financeiros, O problema é o envolvimento com o tráfico.
ENCAMINHAMENTOS DEFINIÇÃO EXEMPLO
Acionar a família respondem que acionariam a Quando os profissionais família do acolhido.
Acionar a família
Propor outras atividades que motivem
Quando os profissionais respondem que proporiam outras
atividades ao acolhido.
Propor outras atividades, adaptar o que existe para o acolhido Ouvir respondem que tentariam ouvir ao Quando os profissionais
acolhido.
Ouvir, acolher, criar vínculo
Conscientizar respondem que tentariam Quando os profissionais conscientizar e mudar o comportamento do acolhido.
Conscientizar, criar novos padrões de comportamento
Trabalhar autoestima respondem que trabalhariam com a Quando os profissionais melhora de autoestima do
acolhido.
Valorizar o jovem, Trabalhar autoestima do jovem
Ajudar na procura de serviços respondem que ajudariam o Quando os profissionais acolhido na procura de serviços e
benefícios.
Ajudar a procurar o CRAS, ajudar a pedir o Bolsa Família, ajudar com o INSS, ajudar a procurar
Respeitar religiosidade respondem que respeitariam a Quando os profissionais religiosidade do acolhido. Encaminhar para outros serviços
de saúde
Quando os profissionais respondem que encaminhariam o
acolhido para outros serviços de saúde
Encaminhar para o CAPS, encaminhar para o psiquiatra
Encaminhar para psicólogo respondem que encaminhariam o Quando os profissionais acolhido para o psicólogo na
própria CT
Encaminhar para psicólogo
Oferecer alternativas religiosas ou espirituais
Quando os profissionais respondem que ofereceriam alternativas religiosas e espirituais
para o acolhido
Oferecer alternativa religiosa, oferecer alternativa espiritual
Acionar ou rever amizades respondem que acionariam amigos Quando os profissionais ou aconselhariam acolhido a rever
suas amizades
Acionar amigos, rever amizades
Amor exigente respondem que encaminhariam o Quando os profissionais acolhido para o Amor exigente, programa não governamental do
tipo grupo de ajuda mútua destinado a pais e familiares de
pessoas que fazem uso problemático de drogas.
Encaminhar para o Amor Exigente, mandar para o Amor
Exigente
Realizar diagnóstico sobre a situação e história
Quando os profissionais respondem que fariam diagnóstico
sobre história e situação do acolhido.
Diagnosticar acolhido, diagnosticar situação do acolhido,
diagnosticar história do acolhido.
Usar informações científicas para convencimento
Quando os profissionais respondem que usariam informações científicas para
convencer acolhido
Usar informações científicas
Encaminhar para escola ou mundo
do trabalho respondem que encaminhariam o Quando os profissionais acolhido para escola ou trabalho
Incentivar volta dos estudos, estimular a procurar trabalho
Fazer acreditar na importância da
fé respondem que tentariam fazer o Quando os profissionais acolhido valorizar a fé
Fazer o acolhido acreditar na importância da fé