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Dissertação Tedson da Silva Souza.pdf

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Academic year: 2021

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AS DINÂMICAS DAS INTERAÇÕES HOMOERÓTICAS NOS SANITÁRIOS PÚBLICOS DA

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APA E ADJACÊNCIAS

Salvador 2012

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F

AZER

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ANHEIRÃO:

AS DINÂMICAS DAS INTERAÇÕES HOMOERÓTICAS NOS SANITÁRIOS PÚBLICOS DA

E

STAÇÃO DA

L

APA E ADJACÊNCIAS

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Antropologia.

Orientador: Prof. Dr. Edward John Baptista das Neves MacRae

Salvador 2012

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AGRADECIMENTOS

Ao meu orientador Edward MacRae que me adotou como um filho.

A Minha Mãe, Terezinha, que esteve presente nas horas mais difíceis, compreendendo e apoiando todas as minhas escolhas.

.

A Minha avó Lindaura (in memorian).

Ao amigo Ari Sacramento, pelas orientações e pela confiança no meu trabalho.

A Ton Israel pelas leituras, revisões e dicas.

A Osmundo Pinho pelas aulas de África Antropológica e pelas indicações

bibliográficas, tão importantes para a construção do referencial teórico deste trabalho.

A todos os colegas, professores e funcionários do PPGA/UFBA.

Aos amigos Maurício Tavares, Rafael Abreu e Silvana Oliveira, sempre presentes em momentos de descontração e de desabafo.

A todos os participantes da pesquisa, que me contaram suas histórias.

A Ranieri Souza pela compreensão e disponibilidade nessa reta final.

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As pesquisas de sexualidade in loco são bastante insólitas no campo da Antropologia e essa situação se agrava quando as variáveis homossexualidade, raça e gênero são tomadas para compreender as interações sexuais entre homens nos espaços públicos das grandes cidades. A fim de compreender tal dinâmica, procedo, através de uma abordagem autoetnográfica, uma investigação das práticas de “pegação” em banheiros públicos masculinos da Estação da Lapa – maior terminal de ônibus urbano de Salvador – e adjacências. Como não se trata de um objeto tradicional da Antropologia (“comunidade X ou Y”), tomo como objeto a deriva urbana da pegação no Centro da Cidade por onde transitam sujeitos que praticam sexo ocasional e não comercial entre homens, nas negociações e consórcios episódicos tecidos no – e no entorno do – “banheirão”. Percebo que, para além de um simples terminal com um sanitário, a Estação da Lapa é ressignificada como espaço de práticas sexuais de desejos dissidentes, na direção de interesses tão diversificados quantos são os sujeitos que interagem na cena e que só são reunidos aqui pelo traço em comum dos desejos, diversificadamente, homo-orientados.

Palavras-chave: Homossexualidade Masculina. Gênero. Raça. Corpo. Narrativas pessoais. Autoetnografias.

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ABSTRACT

In loco research into sexuality is very unusual in anthropology and it is even less common to take into account variables like homosexuality, race and gender in order to understand sexual interaction among men in public areas of big cities. In order to understand such a dynamics, I have undertaken an autoetnography, an investigation of “cruising “ practices in male public conveniences in the Lapa station- the biggest urban bus terminal in Salvador, where there is a transit of subjects who practice occasional and non-commercial sex among men. Studying the negotiations and episodic conjunctions occurring in and in the vicinities of the public convenience, I notice that the terminal is resignified as a space for sexual practices of dissident desires, in accordance with interests as diverse as are the subjects who interact in the scene and who are only united by their common desires of a diversified homosexual nature.

Key words: Male Homosexuality. Gender. Race. Body. Personal narratives. Autoetnography

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Figura 1 Pegação com sigilo – Salvador 67

Figura 2 Post Clube do Banheiro – SSA 68

Figura 3 Pegação no Orkut 70

Figura 4 Perfil Disponível.com 72

Figura 5 Clube do Banheiro – SSA 79

Figura 6 Escada do SSA SHOPPING 81

Figura 7 O caso Jão Vitor 83

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INTRODUÇÃO 8

A SUBJETIVIDADE ERÓTICA DO ANTROPÓLOGO EM CAMPO 9

UMA NARRATIVA DE SI COM PERSPECTIVAS DIALÓGICAS 13

1 INÍCIO DE CONVERSA: TEMÁTICA, SEXUALIDADES DISSIDENTES E O OBJETO DE

ESTUDO 16

1.1 A “GANG BANG” NO SANITÁRIO DA ESTAÇÃO 16

1.2 A LAPA: UM TERRITÓRIO MARGINAL 23

1.3 PERCURSO ETNOGRÁFICO 26

1.4 SEXO E ESPAÇOS PÚBLICOS 29

1.5 O “BANHEIRÃO” COMO LOCAL DA PRÁTICA SEXUAL HOMO-ORIENTADA 37

2 EROTICIDADES HETEROSSEXUAIS MASCULINAS: TENSÕES EM TORNO DO MODELO

HEGEMÔNICO 42

2.1 A MASCULINIDADE HEGEMÔNICA E AS HOMOSSEXUALIDADES BRASILEIRAS 43 2.2 O “HETEROSSEXUAL PASSIVO” E OUTRAS HETEROSSEXUALIDADES FLEXÍVEIS EM

CAMPO 48

2.3 O JOGO DAS HETEROSSEXUALIDADES FLEXÍVEIS 55

2.3.1 A SACANAGEM – “TODO MUNDO FAZ” “POR DEBAIXO DO PANO TUDO PODE

ACONTECER” 56

2.4 “DESCARTO AFEMINADOS”: ENTRE O CIBERESPAÇO E A RUA 65

3 UM NEGÃO DESSE... VIADO! : RAÇA, GÊNERO, SEXUALIDADES E TENSÕES NA

PEGAÇÃO DA ESTAÇÃO DA LAPA 77

3.1 O CASO ZUMBI DOS PALMARES E AS TENSÕES ENTRE MOVIMENTOS NEGRO, LGBT E O

“MEIO HOMOSSEXUAL” 86

3.2 “DIGA PRA ELE QUE VOCÊ ME CONHECE E QUE EU NÃO SOU LADRÃO” 97

3.3 O SURFISTINHA DE OLHOS AZUIS E A CAIXINHA DE NATAL 102

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 104

REFERÊNCIAS 107

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INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a Antropologia Social abriu-se para o estudo das culturas de grupos sociais urbanos e começou a fazer uma espécie de “antropologia de nós mesmos”. Com isso, pesquisadores que muitas vezes se auto-identificam com minorias como mulheres, gays e negros colocaram questões referentes a sexualidades dissidentes na pauta de pesquisa das Ciências Sociais. A inclusão desses novos campos de pesquisa demandou a criação de uma nova metodologia para a construção da etnografia, que levasse em conta o autobiográfico e empregasse uma nova concepção para o conceito de subjetividade. Além disso, precisava ser construída de maneira dialógica através de uma escrita capaz de revelar diferentes vozes culturais. Desse modo, a subjetividade passa a ser construída de forma transpessoal, estabelecendo uma relação entre memória pessoal e memória coletiva.

Diante dessa conjuntura, achei necessária a escrita de um texto autoetnográfico, em que a posição do pesquisador diante do objeto fosse explicitada. Esta dissertação foi construída por mim, homem negro, morador do Subúrbio Ferroviário de Salvador, assumidamente homossexual e adepto da deriva urbana e da “pegação” em banheiros públicos. Logo, esse relato não é apenas sobre a vida sexual de “outros” homens que buscam interações sexuais em banheiros, e, sim, sobre uma reunião de relatos autobiográficos, observações participantes e depoimentos de homens que partilham da mesma prática.

Por isso, o objetivo desta dissertação é configurar, através de uma abordagem (auto)etnográfica, as interações em banheiros públicos masculinos da Estação da Lapa – maior terminal de ônibus urbano de Salvador e adjacências, isto é, os trânsitos desses sujeitos que praticam sexo ocasional e não comercial entre homens, nas negociações e consórcios episódicos tecidos no, e no entorno do, “banheirão”.

É necessário ainda asseverar que este estudo não é sobre uma comunidade ou um grupo homogêneo, mas sobre a prática da “pegação” (caracterizada como breve, impessoal e, na maioria dos casos, não mediada por palavra) e os sujeitos que por ela transitam e operacionalizam a cena. Por isso, diante de toda a dinâmica, diversidade e interatividade do objeto, foi impossível a adoção de uma postura metodológica rígida de caráter homogeneizador. Desse modo, a imersão do sujeito pesquisador na deriva homoerótica que atravessa e demarca, erótica e sexualmente, os sanitários públicos

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masculinos da Estação da Lapa, Shopping Piedade e Shopping Center Lapa darão o rumo ao relato que foi construído através de observação participante da cena e das coletas de dados, a saber: observações livres (em que foi feito um percurso nos banheiros de pegação, colhendo, meticulosamente, impressões, descrições e cenas), entrevistas itinerantes (em que, inserido na cena, o pesquisador fez contato verbal com os partícipes) e, por fim, entrevistas profundas (em que há maior interação entre o entrevistador e o entrevistado) (PERLONGER, 2008).

A SUBJETIVIDADE ERÓTICA DO ANTROPÓLOGO EM CAMPO

No final do século XIX e início do século XX, a Antropologia foi fundada sobre princípios positivistas e, no intuito de ser reconhecida como ciência, pretendeu adotar, como parâmetro para coleta de dados, os padrões de objetividade e neutralidade característicos da matemática e das ciências exatas. O objetivo do trabalho do antropólogo – que, naqueles tempos, geralmente, era branco, homem, heterossexual, europeu ou estadunidense – consistia, em geral, em etnografar o cotidiano de povos distantes do dele em colônias conquistadas pelas Expedições Européias, nas “exóticas” e desconhecidas América, África, Ásia e Oceania. Mas, apesar de todas as distâncias e divergências, para ser bem sucedido em campo, era necessário que este pesquisador fizesse uma espécie de imersão nos costumes desses “outros”, vivenciando a dinâmica social desses povos. Estava estabelecida a tensão entre tornar-se amigo, conquistar a confiança dos “informantes” e, consequentemente, estar “contaminado” pelos impactos emocionais provocados pelas situações vividas em campo e a busca pela “isenção” e objetividade científicas modeladas nas “ciências duras”.

Embora não exista uma espécie de código de conduta em que se explicite até onde o pesquisador deve ir em relação aos contatos com os seus informantes, observa- se que interações mais íntimas, a exemplo de interações afetivas com os informantes, não são bem avaliadas no seio das discussões no âmbito das ciências sociais.

Um caso bastante conhecido que até hoje levanta questionamentos sobre o envolvimento sexual do etnógrafo em campo é o de Malinowvki, considerado o pai da Antropologia Moderna. Ele foi o primeiro antropólogo a pensar em etnografia densa, pois seus escritos traziam análises minuciosas, sistemáticas e detalhadas dos povos estudados. Apesar de expedições etnográficas serem muito comuns antes de sua atuação

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como pesquisador, ele ganha notabilidade por “inventar” o método da observação participante que consistia em conviver longamente com a comunidade pesquisada, participar de suas atividades, aprender sua língua para, prescindindo da ajuda de intérpretes e registro de dados feito de forma distante e formal, poder familiarizar-se com o que antes fora estranho ao pesquisador. Em suas pesquisas nas Ilhas Trobriand, Malinowvski (1983 [1929]) estuda a sexualidade dos nativos, escrevendo notas de campo com vários recortes que, naturalmente, dada a amplitude e densidade dos dados coletados em relação ao que, de fato, é tratado na análise constante de um relatório do estudo feito, não se tornaram públicos enquanto o autor vivia. Em 1967, entretanto, foi publicado o diário pessoal de Malinowski sob o título de Um diário no sentido estrito

do termo, em que o antropólogo confessa ter sentido desejo sexual em campo,

masturbar-se e até mesmo manter relações sexuais com os nativos. A partir dessa publicação, o tema da sexualidade do pesquisador, tópico que não era até então citado em seus escritos, nem nos de outros antropólogos, tornou-se também objeto de crítica, contestação, mas também, por outro lado, validação como dado de análise em pesquisa. A subjetividade sexual do pesquisador é trazida, assim, para o centro da discussão sobre a inquirição em Antropologia, sendo, então, a “reflexividade e a subjetividade” (STRATHERN, 2004), em sua acepção mais íntima e profunda, discutidas como dado de campo.

É fato que a sexualidade sempre esteve presente nas pesquisas antropológicas (BRAZ, 2010). Através da sexualidade, era possível estabelecer as fronteiras entre “nós” (pesquisadores) e “eles” (pesquisados), porque, nos relatos de pesquisa, a sexualidade era sempre vista como exótica, distante, estranhada – a sexualidade do outro. A questão foi tradicionalmente abordada na busca pelo entendimento de como se dão as relações de parentesco na configuração das comunidades. Vários antropólogos Newton (1993), Kulick (1995), entre ouros começaram a questionar essa perspectiva de estudos da sexualidade, porque tal perspectiva tinha como objetivo e/ou efeito aumentar a distância entre pesquisador e pesquisado, colocando a sexualidade dentro de padrões euro-americanos. Assim, a sexualidade do outro (não branco, não europeu) era muitas vezes classificadas como doentia, patológica, categorizando, desse modo, o sujeito pesquisado como inferior, exótico, selvagem.

Embora o tema da sexualidade estivesse sempre presente nas análises euro-americanas, essas pesquisas tendiam à patologiazação da sexualidade dos outros. Há,

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assim, alguns pesquisadores (TORGOVINICK, 1990; KULICK, 1995, dentre outros) que sugerem a abordagem também da sexualidade do antropólogo in loco. Kulick (1995) questiona o silêncio sobre a sexualidade do pesquisador em campo tratando dos problemas decorrentes do silenciamento da sexualidade da antropologia como forma de manutenção do pacto da diferença irreconciliável entre nós e eles.

Ao abordar questões relativas a relações de poder em pesquisa, Cardoso (1996) diz que, tradicionalmente, a Antropologia tratava de contextos distantes e inferiorizados. Posteriormente, começam a ser estudadas sociedades mais próximas, porém ainda em estado de pauperização. Há, nessa relação, o suposto problema do envolvimento do antropólogo com o participante, possivelmente com o intuito de este engajar-se em uma barganha de política pública. No caso da pesquisa sobre sexualidade, em que há envolvimento sexual, quando há esta disparidade entre etnógrafo e etnografado, a sexualidade pode figurar como moeda de troca, barganha, exercício de poder.

Kulick (1995) ressalta que, em estudos com grupos desprivilegiados socialmente, o envolvimento sexual entre pesquisador e pesquisado tem sido visto como uma forma de operação do poder na qual os sujeitos são postos em uma posição hierárquica mais baixa. Ainda segundo o autor, esse estabelecimento de relações de poder está pautado em um modelo de construção de sexualidades ocidentais embasada na tríade raça, sexo e gênero.

Um exemplo prático, e numa perspectiva invertida, aconteceu no Brasil no estudo de Rojo (2004), que se envolve com uma das participantes de seu estudo, praticante de naturismo. Ela era professora universitária, psicóloga, entretanto – como alega Rojo – não mantinha nenhum domínio sobre a participante, nem nenhum problema provocado pelo envolvimento sexual. Nesse caso, o domínio a partir do fator econômico não existe.

Em todo caso, tradicionalmente, quando se trata de sexualidade, a abordagem era sempre in absentia, sempre se discutindo o outro, da terceira pessoa de quem se fala. A consideração da sexualidade do pesquisador in loco, em Antropologia, tem seu início mais representativo no caso Humphreys (1975), que faz uma pesquisa sociológica no final da década de 1960 nos Estados Unidos. O sociólogo pesquisou as tearoom trade – termo que se refere a “atividades sexuais entre homens em um banheiro público” (NARDI, 1999) – em campo, observando e atuando muitas vezes como “bicha vigia”, “tomando conta” do banheiro para que seus usuários engajassem em práticas sexuais

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(HUMPHREYS, 1975). A pesquisa foi publicada em 1970 e o pesquisador nela declara que, para conseguir as informações, muitas vezes disfarçou-se de funcionário do governo e adentrou os lares desses homens com intuito de aplicar questionários e entrevistas sobre a vida de cada um. Consequentemente, apesar da importância de seus estudos, esse pesquisador foi visto como personna non grata em antropologia por sua criticada (falta de) ética. Entretanto, Nardi (1999) tenta resgatar a importância do trabalho de Humphreys por este sugerir a mudança de abordagem metodológica por fazer pesquisa in loco sobre sexualidade nesta ciência.

Em Cuerpo, parentesco y poder, ao responder ao que é um ato sexual nas pesquisas que fizera, Godelier (2000) afirma que

[p]arece que quando lhes é pedido para definir o que para eles significa um ato sexual, de acordo com a sua experiência, antropólogos e psicanalistas se encontram em situação distinta, ainda que, de certa forma, similar. Porque nenhum deles costuma observar diretamente atos sexuais durante o exercício de sua profissão. À primeira vista, o que parecem experimentar é a forma como as pessoas falam ou não a respeito. (GODELIER, 2000, p. 173, apud DÍAZ-BENÍTEZ, 2010, p. 21).

Na perspectiva do presente estudo, a citação de Godelier talvez seja bastante pertinente no sentido de ajudar a entender como a metodologia antropológica tem, tradicionalmente, possibilitado que se estudem os discursos sobre as práticas sexuais, e não as práticas propriamente ditas. Nesse sentido é que a contribuição desse marxista se faz presente, já que questiona os métodos tradicionalmente utilizados em Antropologia na abordagem do objeto de estudo.

Godelier questiona a falta de trabalhos etnográficos e de psicologia sobre sexualidade in loco e chega a afirmar que antropólogos e psicólogos conhecem somente discursos sobre sexualidade, não sabendo, especificamente, da prática sexual dos participantes em virtude da busca pelo distanciamento entre pesquisador e pesquisados, tão caro à ciência positivista. Porém, Díaz-Benítez (2010) o critica por evitar o contato com os humanos e estudar a sexualidade de “entidades” das comunidades. A pesquisadora atenta para o fato de que “O próprio Godelier pesquisou entre os baruya, de Papua Nova Guiné, outro tipo de atos sexuais – aqueles que acontecem na imaginação e sem manifestações corporais visíveis” (DÍAZ-BENÍTEZ, 2010, p. 22).

Em uma pequena busca no portal da Capes, notei que ainda é muito pequeno o número de trabalhos sobre a sexualidade in loco, sobre erotismo e prazer sexual nas Ciências Humanas e Sociais do Brasil. A heterogeneidade dos nomes dos trabalhos

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impossibilitou que eu os quantificasse, pois a busca via web tornou-se bastante difícil. Pude notar, através das leituras de Parker (1999) (e, mais especificamente nos estudos empreendidos por Braz (2010) que realiza esse levantamento no âmbito do grupo de pesquisa que integra o Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM)) que o número de pesquisas sobre a sexualidade é um pouco maior quando o foco é a “sexualidade e juventude” e “sexualidades em tempos de Aids ou na prostituição”.

Nas últimas décadas, levantei através da internet as etnografias de Gaspar Neto (2008), Díaz-Benítez (2010), Braz (2010), Costa Neto (2005) e Vale (2000) que trabalham com observação de práticas sexuais in loco. A dissertação de mestrado em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense de Gaspar Neto (2008), intitulada

Na Pegação: encontros homoeróticos em Juiz de Fora e a de Costa Neto (2005), que

retrata a pegação nos banheiros da UFRN, intitulada Banheiros Públicos: os bastidores

das práticas sexuais, versam sobre objetos muito parecidos com o meu, pois tratam de

pegação homoerótica em lugares públicos ou semi-públicos.

Diferente desta dissertação, nenhum dos trabalhos citados acima é um relato autoetnográfico, todos os pesquisadores optaram por deixar claro que não eram adeptos das práticas sexuais etnografadas.

UMA NARRATIVA DE SI COM PERSPECTIVAS DIALÓGICAS

Os relatos das minhas experiências de interação sexual nos sanitários públicos e escadas da Estação da Lapa são o ponto de partida para a realização deste estudo autoetnográfico. Ao escrever sobre autoetnografia, Versiani (2005) enxerga essa modalidade de texto como uma alternativa de construção de uma subjetividade através de processos dialógicos, que possibilitam dar vozes e visibilidade a “minorias” por meio de textos de cunho autobiográficos. Ao dialogar com Watson (1993) e Clifford (1998), ele atenta para a necessidade da negociação construtiva do texto, privilegiando a polifonia das vozes. Clifford se refere “à não negação da experiência pessoal e, principalmente, à explicitação do ‘contexto performativo imediato’ no qual ocorre a relação interpessoal entre etnógrafo e etnografado como pressuposto básico da construção da própria etnografia” (VERSIANI, 2005, p. 84).

Gostaria de explicitar que, neste trabalho, descarto o distanciamento do objeto pregado, tradicionalmente, como pressuposto indispensável para a realização do

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trabalho de campo. Eu sou, ao mesmo tempo, produtor de conhecimento e objeto etnografado e entendo que seria um equívoco metodológico falar aqui em terceira pessoa, pois este trabalho não é, e não pretende, ser a interpretação de uma realidade distante. O outro que encontrei no campo é muito parecido comigo e o diálogo construído no decorrer do texto é intersubjetivo.

Em Sexo público, Lauren Berlant e Michael Warner (2002) refletem sobre a cultura sexual hegemônica que insiste em separar a vida pessoal da vida pública, destinando tudo relacionado às questões de sexualidade ao âmbito da intimidade pessoal. É através dessa estratégia que a heteronormatividade1 impera, impossibilitando a construção de novas culturas sexuais não normativas ou explicitamente públicas.

É exatamente a partir da necessidade de um olhar que se desloca das díades homossexualidade/heterossexualidade, norma/desvio, regra/exceção, centro/margem que esta pesquisa mostra-se de extrema relevância. O texto problematiza as explicações acerca das relações entre homens com desejos homo-orientados e de seu exercício em espaços públicos; uma vez que, os discursos da cultura sexual normativa descontextualizam as circunstâncias nas quais os encontros entre gays, bissexuais, transgêneros e homens-que-fazem-sexo-com-homem (HSH) em sanitários públicos são/foram possíveis em nome de uma narrativa de coerção estética dos usos dos corpos.

Lancei olhares, que evitam psicologizar e patologizar a questão do sexo público e dessa forma discutir tais relações nos espaços urbanos nos quais há a alternativa de se poder ser anônimo em meio ao público.

Assim, nesta dissertação, o leitor encontrará logo no primeiro capítulo um relato de uma das minhas idas a campo. Esse posicionamento foi escolhido para que o leitor pudesse começar seu percurso pelo texto, criando imagens desse objeto de enorme heterogeneidade que é a “pegação no banheiro da Estação da Lapa e adjacências”. Essa parte do trabalho dedica-se a apresentar o histórico de como o presente estudo se configurou.

1 Por heteronormatividade, entende-se a reprodução de práticas e códigos heterossexuais, sustentada pelo casamento monogâmico, amor romântico, fidelidade conjugal, constituição de família (esquema pai-mãe-filho(a)(s)).Na esteira das implicações da aludida palavra, tem-se o heterossexismo compulsório, sendo que, por esse último termo, entende-se o imperativo inquestionado e inquestionável por parte de todos os membros da sociedade com o intuito de reforçar ou dar legitimidade às práticas heterossexuais (FOSTER, 2001, p. 19).

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No capítulo 2, problematizarei o modelo de masculinidade hegemônica presente no imaginário brasileiro. O objetivo é discutir outros modelos de eroticidade heterossexual masculina permissíveis na prática do “banheirão”. Os relatos de campo ilustram identidades de homens que se auto-definem como heterossexuais, mas cujas práticas alteram, de certo modo, a matriz heterossexual hegemônica, fugindo do que se convencionou permissível para um “macho” dentro da conjuntura social brasileira. Lançarei o meu olhar para essas heterossexualidades periféricas e, para isso, também é necessário discutir qual o discurso que regula a eroticidade heterossexual hegemônica, isto é, o que é ser um “homem de verdade” no Brasil? Na última seção, discutirei a hierarquia que se construiu tomando como topo o modelo hegemonizado e como base a ostensiva repulsa em relação aos afeminados.

Por fim, no capítulo 3, através dos relatos etnográficos, tratarei das relações entre negritude e sexualidade na Cena da Pegação da Estação da Lapa, um lugar considerado marginal. Para isso, trabalharemos com discursos sobre as identidades do homem negro e a relação entre conceitos como sujeira versus limpeza, belo versus feio dentro desse território de deriva sexual.

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1 INÍCIO DE CONVERSA: TEMÁTICA, SEXUALIDADES DISSIDENTES E O OBJETO DE ESTUDO

Este capítulo terá início com um relato de uma das minhas idas a campo. Esse posicionamento foi escolhido para que o leitor pudesse começar o percurso pelo texto, criando na mente retratos desse objeto de heterogeneidade tamanha que é a “pegação no banheiro da Estação da Lapa e adjacências”. Entendo por “adjacências” os sanitários e escadas de emergência dos shoppings Piedade e Center Lapa. Esta parte do trabalho dedica-se a apresentar o histórico de como o presente estudo se configurou. Assim, após situar o leitor acerca da escolha do tema, apresento o objetivo da pesquisa e as perguntas de pesquisa. Em seguida, discuto de forma panorâmica a visão de alguns autores no tocante à prática sexual homo-orientada em contextos públicos e privados, além de tratar da escolha do macro-território e da microterritorialidade (o “banheirão” como contexto de vivências homoeróticas consideradas dissidentes) em que o registro de dados se deu.

1.1 A “GANG BANG2“ NO SANITÁRIO DA ESTAÇÃO

Eram quase 22h de uma terça-feira do mês de maio. Após assistir a uma sessão de filmes LGBT no Complexo Cultural da Caixa Econômica, localizado na Rua Carlos Gomes, atravessei a Avenida Sete de Setembro e segui pela Praça da Piedade. No entorno da Praça, já se encontravam alguns garotos a procura de clientes na noite do Centro de Salvador, que se esvaziava. Confesso nunca ter conseguido estimar a idade desses meninos que fisicamente são raquíticos e, por conta do tipo franzino, aparentam ter menos idade do que tem. Certo dia, numa dessas idas e vindas pelo Centro, quando voltava de um show no Âncora do Marujo3, conversei com um deles. O garoto aparentava uns 16 anos e me abordou oferecendo serviços. Daniel cobrava R$50 por um “boquete”4

. Esse valor baixou gradativamente para R$40, R$30 e parou em R$5,

2 É um dos principais gêneros de sexo explícito, muito requisitado pelos fãs do cinema pornô. É caracterizado por cenas de sexo entre uma pessoa e várias outras em um curto espaço de tempo. Disponível: http://pt.wikipedia.org/wiki/Gang_bang em: 21/10/2011

3 Bar tradicional do baixo gay soteropolitano, palco para shows de transformistas, situado na Rua Carlos Gomes

4

O mesmo que sexo oral ou felação - prática sexual que consiste em acariciar o pênis do parceiro com a boca, a língua ou ainda a garganta.

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quando eu disse não estar interessado. Para minha surpresa, o garoto magro que trajava short, camisa e boné Adidas e uma corrente de prata no pescoço, informou ter 23 anos.

Após passar pela Praça, acompanhei o grande fluxo de trabalhadores dos shoppings Center Lapa e Piedade, de estudantes de escolas públicas, cursos técnicos profissionalizantes e faculdades da região. Todos seguiam apressadamente pela “Ladeira do Camelô” em direção à Estação da Lapa – maior terminal de ônibus da cidade.

Na noite daquela terça-feira, ao chegar ao pavimento superior5 da Estação da Lapa, fui direto ao sanitário masculino. Ao adentrar o recinto, sujo, mal cheiroso (é indispensável lembrar o cheiro fétido, que mistura o ardor da uréia ao péssimo cheiro das fezes espalhadas pelos cantos) e com um dos dois mictórios de inox quebrado e isolado, segui em direção ao mictório dos fundos e acabei sendo surpreendido: o equipamento, com vazamentos que permitia que a urina caísse sobre os pés dos usuários, estava totalmente ocupado e oito homens espremiam-se e masturbavam-se um ao lado do outro. Notei também que mais outros seis exibiam, discretamente, os pênis em frente ao espelho e tentavam disfarçar fingindo estar penteando o cabelo ou lavando as mãos em pias, cujas torneiras haviam sido arrancadas. A estratégia deles era, ao perceber que estavam sendo observados por outros homens com desejo homo-orientado, colocar o pênis para fora das cuecas rapidamente, mostrar e esconder em seguida, deixando apenas à mostra a excitação através do volume das bermudas e calças.

Eles eram de todas as idades, comerciários, rodoviários e estudantes, alguns de farda, um trajava o uniforme do Colégio Estadual Senhor do Bonfim, situado nos Barris, outro era rodoviário e vestia a farda da empresa Litoral Norte e ainda tinha um jovem com a farda de uma casa de material elétrico localizada no bairro da Calçada. Fiquei olhando aquela cena excitante e, como o mictório estava cheio, eu não podia “estacionar” 6

como os demais e me contentei em observar a cena a alguns metros de

5 No pavimento superior da estação da Lapa, ficam localizados um dos postos de recarga e revalidação do cartão de meia passagem estudantil, dezoito lojas e dezesseis boxes (dentre elas um sebo e diversas lanchonetes que vendem cachorro quente e suco), telefones públicos (a maioria com defeito) e muitos ambulantes vendendo desde comida e produtos eletroeletrônicos a cartões de recarga para celular.

6 Os adeptos da pegação utilizam a palavra estacionar para reclamar quando alguém para no mictório, finge estar urinando e não sai mais, passando horas ocupando o espaço. Geralmente, quem “estaciona” no mictório acaba despertando suspeita dos seguranças e dos auxiliares de serviço gerais do banheiro e fazem com que eles comentem em alto e bom tom “Aquele viado estacionou no mictório olhando o cacete dos outros”.

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distância. De repente, o jovem mais cobiçado no momento por trazer consigo as características que compõem o tipo “moleque” (rapaz negro, másculo, utilizando bermuda da Mahalo7, camiseta regata preta e boné) – um dos tipos mais viris e valiosos daquele contexto – agarrou o pênis do homem ao lado, um senhor negro retinto, cerca de 1,70m de altura, magro, aparentando entre 45 e 50 anos, cabelos curtos grisalhos, de vestimenta discreta (trajava camisa social de manga comprida azul e calça social de tergal, figurando como um pastor de igreja neopentencostal). Era mais um homem comum no meio da multidão, mas que tinha uma “ferramenta” que aumentava o seu poder de sedução, um pênis descomunal, aparentando de medir entre 22cm e 25cm.

Eu já conhecia esse “negão” de outras “pegações” na Estação da Lapa e nos banheiros do Shopping Piedade, Center Lapa e da Estação Iguatemi, mas o que me fazia lembrar dele era o relato de um colega de trabalho, considerado bonito por estar dentro dos padrões de beleza nacional – ser um “moreno jambo”, no degradê de cores da Bahia, ter 1,90m, 27 anos e um sorriso avassalador. Lembro “João”8 dizer que “aquele negão crente é feio, mas eu não resisto à pica dele, abaixo e chupo onde estiver, mas uma vez no banheiro da Estação Iguatemi ele tirou onda comigo e não deixou”.

E a “pegação” continuava. O jovem atraente de bermuda Mahalo se curvou, ficou de joelhos e começou a chupar o enorme pênis do “negão”. A atitude do rapaz foi a senha para que eu e os demais homens, que observavam de longe, cheios de desejo, nos sentíssemos a vontade para nos aproximar. Uma semi-roda com cerca de doze homens se formou em volta dos dois, o rapaz sugava sem parar o pênis preto, cheio de veias e com uma mancha branca entre a glande e o prepúcio que aparentava ser uma lesão por Vitiligo. Em seguida, pênis de todas as cores e tamanhos brotaram das calças e começou um “chupa-chupa”, um “pega-pega” generalizado.

Outras rodas se formaram pelo sanitário, perdi a conta dos homens que se masturbavam e se chupavam mutuamente. Alguns, certamente, voltavam de uma noite regada a muita cerveja e cravinho na tradicional Terça da Benção no Pelourinho e, quando iam urinar, se deparavam com uma cena digna de gang bang pornô gay e interagiam, outros bradavam coisas como “Isso aqui tá foda!! Esse rebanho de viado fica fodendo aqui, depois quando morre acha ruim!”, “É uma sacanagem da porra, com

7 Grife de moda Surf Wear muito popular na Bahia. Uma das preferidas dos “moleques” da periferia, vendedores de picolé, engraxates, guardadores de carros, por isso, usar Mahalo é indicador de virilidade e masculinidade.

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tanto hotel baratinho os filhas da puta ficam nessa putaria e ninguém pode mijar”. Em situações cotidianas, toda vez que um desavisado ou um não receptivo reclamava, fazia-se uma pausa brusca nas interações e o contingente defazia-sejante fazia-se dispersava. Alguns paravam em frente ao espelho e fingiam pentear o cabelo, outros tentavam esconder a ereção. Existiam aqueles que “davam um tempo” e deixavam o sanitário por alguns minutos, mas voltavam na maioria das vezes. No entanto, o clima daquela noite era propício para uma postura diferenciada, com a falta de vigilância na Estação da Lapa, que, naquele horário, não tinha segurança, guardas municipais, policiais militares ou mesmo o auxiliar de serviços gerais, o que fazia com que aqueles adeptos do sexo anônimo se sentissem menos temerosos. Outro fator que considero determinante é a reunião de muitos homens em busca de prazer no mesmo espaço. Talvez isso tenha coibido a prática de violência física pelos usuários do sanitário público que se sentiram incomodados com a prática.

E as interações continuavam no “banheirão” da Lapa, alguns pênis “esporravam9“, os que queriam penetrar e serem penetrados se apropriavam da porta interditada dos fundos onde se dividia espaço com grandes ratos. O lugar mal iluminado, mal cheiroso, cheio de fezes e urina espalhados pelo chão e paredes, era isolado por um madeirite. Ali naquele quadrado improvisado – que funcionava como um dark room10 – era permitido todo tipo de interação e, principalmente, a penetração, raramente concretizada no meio dos sanitários na frente dos outros participantes.

Cada vez mais, as interações se intensificavam e vários homens chegavam ao clímax. O “negão bem dotado” ejaculou no rosto do rapaz da bermuda Mahalo. Com o rosto todo sujo de “gala11“, ele se deparou com as limitações causadas pela degradação da estrutura física do sanitário da Estação da Lapa. Ao dirigir-se à pia para lavar o rosto,

9 Fiz opção por utilizar o termo nativo. O mesmo que ejacular, atingir o orgasmo, ou para empregar um vocabulário mais popular “gozar”

10 (do inglês, quarto escuro, também designado por backroom ou blackroom) é um quarto ou sala com iluminação muito baixa ou totalmente escura que existe em alguns bares ou saunas. A finalidade do dark

room é propiciar atividade erótica ou sexual entre os presentes que é quase anônima por causa da

escuridão, e por isso pode ajudar reduzir as inibições das pessoas. Dark rooms começaram aparecer nos Estados Unidos nos anos 70 em boates gays. Hoje em dia, também há dark rooms em estabelecimentos voltados ao público heterossexual. Disponível: http://pt.wikipedia.org/wiki/Darkroom em: 29/11/2011 11 Optei usar aqui novamente o termo nativo. Nos dicionários de língua portuguesa, a palavra gala significa grande festa, geralmente de caráter oficial: noite de gala; uniforme de gala. Mas em Salvador e, em outras cidades do nordeste como Aracaju, Fortaleza e Recife, o termo foi ressignificado e substitui “porra” – palavra considerada de baixo calão por no resto do país ser sinônimo de esperma, mas que entre os soteropolitanos é muito utilizada para designar espanto, admiração, aborrecimento, elogio e para fazer pausas em discursos informais. Na capital da Bahia, a palavra “gala” é, massivamente, utilizada para se referir ao sêmen.

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não encontrou torneiras, pois todas haviam sido arrancadas. A única alternativa para a assepsia do rosto foi a abertura das torneiras do mictório, que estavam fechadas, pois como já relatei anteriormente, o equipamento tinha um furo e derramava urina sobre os pés dos usuários. Mesmo após a ejaculação cinematográfica do negão “desmarcado” 12, a “pegação” continuava com muito fôlego.

Os espectadores de filmes pornôs13sabem do poder da ejaculação nesse gênero. Ela é o momento do ápice de uma relação sexual e o fato de ser registrada com riqueza de detalhes ao espectador é requisito indispensável para que o filme seja considerado de boa qualidade. Enquanto homens saciados e satisfeitos com seus gozos, ou com o prazer de terem presenciado uma ejaculação digna de uma produção pornô, deixam o sanitário, outros sedentos por prazer interagiam formando novos círculos para desfrutar da libido de forma proibida em outros espaços.

É indispensável registrar que a proximidade da meia-noite – horário de partida da maioria dos últimos ônibus para bairros mais distantes como os localizados no Subúrbio Ferroviário ou em Cajazeiras e cidades da Região Metropolitana – fazia com que muitos daqueles homens acelerassem o passo desesperadamente. Alguns chegavam a dizer: “tenho que gozar logo, senão eu perco o buzu”. Poucos eram os que, como eu, tinham a coragem de ficar à mercê dos ônibus pernoites, no meu caso, depois das 23h. Eu tinha a opção de pegar um ônibus à 1h da madrugada ou às 3h30. Outra opção para voltar para minha residência, localizada no bairro de Paripe, seria uma das Kombis que, porventura, faziam transporte clandestino durante a madrugada na Estação da Lapa. O fator financeiro representava um complicador para quem desejava voltar para casa utilizando essa modalidade de transporte, pois nem todos podiam pagar pela Kombi, já que a maioria dos adeptos da “pegação” naquele sanitário é formada por estudantes e trabalhadores que utilizavam o cartão Salvador Card14 e não dispunham de dinheiro em espécie.

Com o esvaziamento, apenas um grupo bem menor, de seis homens, continuava as interações homoeróticas. Essa diminuição de adeptos os tornou mais suscetíveis à

12 Optei por utilizar o termo nativo, bastante utilizado em Salvador e Região Metropolitana. “Desmarcado” nesse contexto refere-se ao fato de ele possuir um pênis considerado descompensado, desmesurado, enorme. A palavra é sinônima de “pauzudo”.

13 Para mais informações sobre o cinema pornô no Brasil ver (ABREU, 1996) e (DÍAZ-BENÍTEZ, 2010) 14 Cartão de passe estudantil ou de vale transporte eletrônico pré-pago. Geralmente o usuário recarrega o cartão previamente no início do mês. Ele não é aceito nas Kombis clandestinas, pois elas estão fora do sistema oficial de transporte coletivo da cidade.

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ação dos “sacizeiros15“. Quatro dos homens praticavam uma masturbação coletiva e recíproca no mictório e dois deles estavam mais afastados. O mais velho, aparentando 50 anos, que era gordo, branco, tinha cabelos pretos e media cerca de 1,70m de altura, chupava o pênis de um homem pardo, magro, aparentando 28 anos e com cerca de 1,75m de altura. Os dois carregavam mochilas e pareciam ter saído do trabalho em algum restaurante – é comum que garçons e ajudantes de cozinha da região central e também da orla peguem a segunda condução de volta para casa na Estação da Lapa, que é um dos poucos pontos da cidade com possibilidade de transporte 24h.

Tudo parecia tranquilo, mas o clima de excitação mudou com a chegada de dois homens, sujos e maltrapilhos, que se posicionaram na parte dos fundos do sanitário para “fumar uma pedra” 16

. Naquele momento, apesar da fala de suposto consentimento dos dois rapazes que diziam “podem continuar, com a gente é limpeza, é nenhuma...”, o medo e a tensão sobressaíram-se ao prazer e o banheiro foi esvaziado. Essa desconfiança é decorrente da relação tensa entre os adeptos da “pegação” e os usuários de drogas (principalmente crack) que circulam pela Estação.

Certa vez, fui confundido com um Policial Militar por um homem que utilizava um dos boxes do sanitário da Lapa para cheirar cocaína. Ele tinha acabado de sair do reservado e eu observava a “pegação” que acontecia no mictório através do espelho quando ele encostou ao meu lado e disse “Se você é policial e vai me prender, prenda logo, não fique me olhando não!!”. Fui tomado de surpresa pela fala do rapaz e, com medo de represálias, fui obrigado a me justificar dizendo: “Meu velho, você tá viajando brother! A minha onda aqui é outra, eu não tô ligado na sua não. Fique frio! De onde você tirou essa idéia de que eu sou policial?”. No final, ele acabou pedindo desculpas pelo ocorrido e tudo ficou bem, mas nem sempre as coisas se resolvem dessa maneira.

Os “sacizeiros” são jovens mendicantes que ficam embaixo de escadarias e em áreas mais recônditas da mal conservada Lapa. Ali eles sobrevivem, praticando pequenos furtos e roubos, e também prestando serviços sexuais para “homens com desejo homorientado” que praticam “cruising17“ (“caçação”) no centro da cidade. Em

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Gíria popular em Salvador (BA), que define as pessoas viciadas em crack ou usuário de drogas pesadas em geral. Para fumar a pedra de crack é preciso ter uma espécie de cachimbo improvisado o que remete ao personagem Saci-Pererê do folclore brasileiro. Disponível em: <http://www.dicionarioinformal.com.br/sacizeiro/.>. Acesso em: 24 set. 2011.

16 O mesmo que utilizar Crack 17

É o ato de caminhar ou dirigir-se a uma localidade em busca de um parceiro sexual, geralmente anônimo e casual. O termo também é usado quando a tecnologia é usada para encontrar o sexo casual,

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depoimento, um dos informantes desta pesquisa atentou para os riscos da ação desses garotos que, segundo ele, não são “michês profissionais e querem dinheiro a qualquer custo. São aproveitadores, muitas vezes não conseguem nem fazer o pau subir” (20/11/2011), afirmou o estudante universitário, de 28 anos, frequentador da cena da “pegação” na região da Lapa desde a adolescência.

Ele também disse ter presenciado por várias vezes “sacizeiros” inconformados por não conseguirem dinheiro com “as gays”, passarem informações de “bote” para policiais militares que, munidos de características físicas e também da localização exata de onde as interações estão ocorrendo, fazem um flagrante e conduzem esses homens para módulos policiais e lá realizam uma chantagem. Ainda segundo o informante, esses policiais dariam uma “ponta18“ para os “sacizeiros”, ou seja, uma percentagem do dinheiro extorquido.

Um homem desempregado, de 30 anos, contou ter sido vítima de extorsão por parte de policiais militares após ser flagrado em uma relação sexual com outro homem dentro de uma cabine do sanitário da Estação da Lapa. “Nós fomos levados para uma sala especial para essas coisas por dois policiais, chegando lá, eles perguntaram onde a gente morava e ameaçaram contar para nossa família. Na época (2005), eu morava com minha avó e tinha saído para pagar a prestação de uma geladeira na Insinuante do Shopping Piedade. Um deles (policiais) encontrou o carnê e 50 reais da prestação e ficou com o dinheiro, nos liberando em seguida”.

Apesar de ter ouvido muitos relatos, eu nunca presenciei casos de extorsão em campo, nem sofri chantagens por parte de policiais, mas já ouvi xingamentos, fui vítima de agressões verbais e presenciei agressões físicas tanto por parte de seguranças quanto por policiais.

Após a dispersão no sanitário masculino, desci as escadas que dão acesso à plataforma A da Estação para tomar o pernoite para Paripe. Ao mesmo tempo em que eu seguia para pegar a última condução, também faziam o mesmo percurso os últimos homens que interagiam no WC. Para minha surpresa, todos eles se dirigiram para a última escadaria da Estação – que promove acesso à última plataforma de embarque da Lapa. Essa plataforma, onde os passageiros embarcavam com destino a cidades da como o uso de um site na Internet ou um serviço de telefonia. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Cruising_for_sex em: 21/10/2011>. Acesso em: 20 set. 2011.

18 Para os jovens da periferia e do Subúrbio Ferroviário de Salvador “dar uma ponta” significa pagar algum dinheiro por um serviço informal prestado, que pode ser um pequeno trabalho braçal ou até a prestação de favores sexuais.

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Região Metropolitana, foi interditada no início da década passada para obras do metrô e, por isso, é pouco movimentada. Chegando à escadaria, percebi que o lugar deserto era propício a práticas sexuais. Dois homens já fingiam urinar encostados no canto da parede e, rapidamente, foram se aproximando e começaram a interagir, mas as interações que ocorriam na escada não chegaram ao ápice, foram interrompidas pelo barulho que alertava para a saída do “pernoitão” de 1h da manhã.

1.2 A LAPA: UM TERRITÓRIO MARGINAL

A Estação da Lapa é o maior terminal de ônibus da cidade de Salvador, funciona 24h e recebe mais de 460 mil passageiros por dia. O precário, sujo e inseguro terminal é a única alternativa que eu e muitos deles temos para tomar um transporte de volta para casa. De acordo com dados da Transalvador19, cerca de 460 mil passageiros embarcam e desembarcam diariamente no Terminal, cujo funcionamento 24 horas por dia, recebendo 71 linhas urbanas e 21 metropolitanas. São 325 ônibus por hora com uma frota de 511 coletivos por dia. A Estação, com área total ocupada de 150.000,00m2, correspondendo a 30.000,00m2 de área construída e 120.000,00m2 de área urbanizada – possui nove escadas rolantes20, a maior parte delas eternamente quebrada, dificultando a locomoção dos usuários entre um nível e outro e, também, entre a Lapa e a Avenida Joana Angélica.

A escada rolante quebrada causadora de maior transtorno à população é a responsável por ligar a Lapa ao Colégio Central, na Joana Angélica21. O não funcionamento do equipamento, considerado pelo CREA-BA o maior do Brasil, com 12m de desnível, dificulta a vida dos passageiros que precisam subir e descer a pé. O

19 Superintendência de Trânsito e Transporte do Salvador, vinculada a Secretaria dos Transportes Urbanos e Infraestrutura da Prefeitura do município.

20 Dados do portal oficial da Transalvador e do Relatório de Vistoria da Estação da Lapa nº. 007/2006, elaborado pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia da Bahia CREA (SANTOS, 2006) a pedido do Ministério Público do Estado da Bahia – 4ª Promotoria de Justiça do Consumidor. O objetivo da vistoria era “verificar condições físicas nos aspectos da manutenção periódica, estruturas, instalações, acessibilidade, segurança e conforto ambiental, a fim de constatar problemas decorrentes do uso, vida útil do equipamento e estado de conservação, bem como verificar se aquela Estação tem condições de suportar eventual incremento do afluxo de pessoas decorrente da instalação de Posto do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador – SETPS. Quando houve divergência entre os dados, como no caso do número de escadas rolantes – O CREA-BA apontou onze escadas na Estação da Lapa e a Transalvador nove – optei pelos dados da Transalvador que administra todas às estações de ônibus urbano da cidade.

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O equipamento foi interditado no dia 25/10/2011, cinco ônibus foram disponibilizados pela Transalvador para fazer o traslado de passageiros até o Colégio Central na Avenida Joana Angélica

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drama da escada rolante quebrada é tão grande que está naturalizado nas músicas da Axé

Music, como é o caso de Óculos Escuros, da Banda Eva, na qual escutamos, num dos

versos, “na promoção Hot-dog, Ki-suco, da escada quebrada já vejo o circular”. Essa situação está tão impregnada no cotidiano soteropolitano que, numa das minhas passagens pelo Terminal, um vendedor de recargas para celular, vendo a minha insatisfação com a tal escada, exclama: “Anormal aqui é se tivesse funcionando!”.

Outro problema que provoca pavor e faz com que os usuários da Lapa apressem o passo é a insegurança. Apesar de contar com um posto da Polícia Militar (PM) e outro da Guarda Municipal, os assaltos são constantes na Estação. Matéria publicada no site do Jornal Correio no dia 28/08/2011, aponta a escadaria que dá acesso à Avenida Joana Angélica como o ponto mais perigoso. Em Estação da Lapa vive pânico durante assalto a repórter Camila Mello narra o episódio em que um homem rouba o celular de uma garota na escadaria da Joana Angélica, a menina grita e ele dispara para cima provocando pânico e confusão entre os usuários da Lapa. Um dos ambulantes da Estação relatou: “Foi gente correndo, caindo, deixando chinelo para trás. Nesse horário de 7h ainda não tem policial”. De acordo com o periódico da Rede Bahia, “ocorrem em média 15 assaltos por dia na estação, principalmente de manhã cedo e à noite” e “seis vigias trabalham na estação – três de dia e três à noite – além de três duplas de policiais, com um carro, das 7h às 19h”.

Eu mesmo fui vítima de uma tentativa de assalto no banheiro da Lapa. Na noite do dia 20/06/2011, após sair do exame de qualificação, fiquei ávido pelo retorno ao campo e segui da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas em São Lázaro de ônibus em direção ao Terminal. Ao me dirigir ao banheiro, que estava vazio naquela noite, fui abordado por dois homens enquanto urinava no segundo mictório dos fundos. Um deles fazia cobertura para o outro apontar uma faca grande e enferrujada ao meu pescoço. Eles queriam levar minha mochila, que só tinha o caderno de campo e um livro. Nesse dia eu havia esquecido o telefone celular que eles imaginavam estar guardado na mochila, mas para minha sorte eu saí de casa apressado por conta do Exame e deixei o aparelho. Um deles dizia “Passa o celular” e eu respondi “Não tenho celular, nessa mochila tem apenas um livro e um caderno”. Ele arrancou a minha mochila e, quando vasculhava meu material em busca de dinheiro e do celular, foi surpreendido pela entrada de três seguranças. De forma hábil, o assaltante escondeu a “peixeira” enferrujada nas calças. Um dos seguranças perguntou o que estava acontecendo, eu

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respondi que eles estavam me assaltando e que ele tinha colocado uma “peixeira” no meu pescoço e havia escondido a faca nas calças. Um deles, o que apontou a faca, dizia aos seguranças “Ele fez um programa comigo e não pagou”. O segurança fez a revista no homem e encontrou a faca enferrujada. Enquanto isso um deles se dirigiu a mim e perguntou: “Você é viado é? Você fez um programa com o cara e não quer pagar?!” Irado, apesar da situação – acho que esse foi único momento em que perdi a calma – respondi: “Você deve estar pensando que eu achei meu ‘pau’ no lixo pra ‘trepar’ com uma ‘desgraça’ dessa? Me respeite, rapaz!”.

O ladrão insistia em gritar que eu tinha feito um “boquete” nele e que não tinha cumprido com o acordo de pagar dez reais. Diante do deboche e escárnio das insinuações dos seguranças que afirmavam coisas como – “tem muito ‘viado’ que vem pra cá chupar pau de marginal, mas esse não deve ser o seu caso...”. Seguidas de um irônico e sarcástico sorrisinho e da afirmação de um deles que disse não ter poder de Polícia e que por isso soltaria o cara que atentou contra a minha vida – decidi procurar o efetivo da PM, mas, ao chegar ao módulo policial, descobri que não havia nenhum soldado de plantão e fui aconselhado por um Guarda Municipal a sair da Estação rapidamente, pois o “cara” já deveria estar solto. Acatei aos conselhos e fui obrigado a evitar a Estação da Lapa por 15 dias, com medo de encontrar um dos dois.

Os banheiros masculinos da Estação da Lapa são o ponto principal de partida para uma série de encontros homoeróticos que acontecem no entorno entre os banheiros masculinos e escadas de emergência dos Shoppings Piedade, Center Lapa, terrenos baldios e da própria escada que leva até a última plataforma do subsolo do Terminal de ônibus urbano. Nesse circuito, muitas interações que começam de forma anônima acabam em hotéis de bairros como Barris, Largo Dois de Julho, Avenida Sete de Setembro e Rua Carlos Gomes.A Estação da Lapa foi escolhida por ser a ligação entre a Grande Salvador e a “Região Moral” – conceito de Park utilizado por Pherlongher (1987/2008) para referir-se às zonas de perdição e vício das grandes cidades – Boca do Lixo. De acordo com Pinho (2011), seria quase possível fazer a mesma analogia que o antropólogo argentino fez com o Centro de São Paulo para caracterizar a Rua Carlos Gomes, em Salvador, pois a localidade concentra bares gays, boates, saunas, além da presença de michês e travestis se prostituindo em via pública.

Ao escrever sobre sociabilidade no Metrô, a antropóloga Janice Caiafa (2007) aponta que a experiência do transporte coletivo promulga sociabilidades e

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comunicabilidades de toda ordem. São fluxos de intersubjetividades e experiências culturais que permitem a seus usuários vivenciarem, de acordo com a autora, um ritmo coletivo de recolocação dos corpos e assumindo novos sentidos na coletividade· O fluxo contínuo de pessoas na Estação da Lapa configura várias possibilidades de relações e interações intensas e (des)contínuas entre todos os usuários. No terminal, entre esperas e deslocamentos, é possível se alimentar, (re)encontrar pessoas, marcar encontros, ou seja, realizar aquelas atividades cotidianas da vida social-cultural – e isso inclui o acesso ao “banheirão”.

Outro fator que acarretou na escolha da Região da Lapa como campo de estudo foi o estado de degradação em que se encontram os equipamentos públicos do Centro da Cidade do Salvador e, principalmente, da suja, mal conservada e insegura Estação de ônibus, que sofre com o descaso da administração municipal. Esse contexto de precariedade faz com que a prática considerada abjeta da “pegação homoerótica” torne-se ainda mais dissidente dentre as práticas torne-sexuais “marginalizadas”.

1.3 PERCURSO ETNOGRÁFICO

Os primeiros contatos com textos de temática gay, como as produções dos antropólogos como Luiz Mott (2000), Peter Fry e Edward MacRae (1991), aconteceram no decorrer da graduação, quando eu cursava a disciplina Antropologia Cultural, no Bacharelado em Comunicação com habilitação em Jornalismo. Estimulado pela leitura dos textos, lancei outro olhar para o circuito de “pegação” homoerótica de Salvador. Entre os anos de 2004 e 2007, trabalhei como auxiliar administrativo no Espaço Xisto Bahia, nos Barris, Centro de Salvador e, frequentemente, transitava pelos sanitários públicos da Estação da Lapa e dos shoppings Center Lapa e Piedade. Numa dessas passagens, atentei para uma interação entre homens com desejo homo-orientado no interior desses espaços.

Passei a observar com atenção a atuação desses homens que, por inúmeras vezes, praticavam exibicionismo, voyeurismo, masturbação recíproca ou não e até sexo oral nos mictórios desses movimentados banheiros. O primeiro contato misturou medo e excitação, mas não demorei em enxergar nessa prática uma alternativa para satisfazer os meus desejos homoeróticos. Emprego a palavra alternativa, pois essa prática anônima e marginal representou para mim uma opção à cena gay tradicional. Eu nunca me senti à

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vontade no circuito de bares e boates gays. A música eletrônica, o jogo de caras e bocas, a necessidade do corpo “sarado” me excluíam do processo. Faltava a mim “didática” para a dinâmica da paquera e da conquista.

A emergência de personagens homossexuais nas telenovelas brasileiras, a proliferação de Paradas do Orgulho Gay em diversas partes do país e a chegada de estudantes oriundos de programas de ações afirmativas na universidade faziam com que discussões acaloradas sobre a questão gay acontecessem em sala de aula. Em 2007, chega a hora de escolher o tema do trabalho de conclusão de curso de graduação. Como homossexual assumido, imaginava que a produção deveria ser um projeto experimental que abordasse o tema homossexualidade, mas eu não simpatizava com as pesquisas realizadas na época por alguns colegas de curso, pois eram voltadas para o estudo da representação de homossexuais em telenovelas da Rede Globo ou sobre as versões britânica e norte-americana da série Queer as Folk. Eu não me sentia representado em nenhuma dessas produções, apesar de ser consumidor ávido das novelas e das séries, e de acreditar que estudar os discursos dessas representações era importante para compreender a cena gay contemporânea.

Por isso, meu Projeto Experimental da graduação foi uma série de reportagens para o rádio sobre o sexo público na cena gay soteropolitana. Através de um trabalho de observação participante, entrevistei, de forma espontânea, e revelando a minha condição de pesquisador, homens adeptos da pegação. O trabalho também contou com entrevistas de militantes do movimento gay e estudiosos da questão LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros).

No decorrer da coleta de depoimentos, os entrevistados apresentaram uma nova topografia do sexo público na capital baiana que extrapola os limites da região central. De acordo com informações das fontes, é possível presenciar tais interações na região do Iguatemi, Pituba, Barra e até em bairros mais afastados como Paripe, Pau da Lima e Cajazeiras. É importante atentar para o dinamismo desse circuito, que, por muitas vezes, é itinerante e muda conforme o grau de vigilância e repressão da prática nos sanitários públicos.

O conjunto de discussões de internautas nos fóruns das comunidades do Orkut sobre interações homoeróticas em Salvador também serviram de base para a formação de uma topografia de locais de “pegação” na cidade. As comunidades “Pegação em Salvador”, “Clube do Banheiro SSA”, “Pegação com sigilo-Salvador” e “BSB-Bofes

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Suburbanos da Bahia” possuem uma diversidade de discussões sobre a prática em locais públicos e realizam uma espécie de “agendamento” de encontros entre usuários em sanitários públicos da cidade. A descrição das comunidades em suas páginas principais é reveladora das representações e discursos sobre a “prática da pegação” e seus locais na capital baiana.

Dessa maneira, decidi dar continuidade ao projeto de estudos no mestrado, pesquisando tais ambientes, vivenciando a teoria aprendida e formulando novas proposições sobre o tema. O foco da minha (auto)etnografia é o circuito de pegação em banheiros da região central da cidade; mais especificamente, os banheiros da Estação da Lapa, Shopping Piedade e Center Lapa. Com isso, configurei, através de uma abordagem autoetnográfica, as interações sexuais desses banheiros públicos masculinos da capital baiana, isto é, os trânsitos dos sujeitos nas negociações e consórcios episódicos tecidos no – e no entorno do – “banheirão”, bem como a produção do significado erótico desses espaços sociais. Esses banheiros foram escolhidos por propiciarem maior anonimato. São locais de circulação de uma massa de gays, homens que fazem sexo com homens (HSH) e de outras tribos urbanas consideradas “marginais” e, por isso, potencializam a cena da “pegação”.

Por conseguinte, após imergir na deriva homoerótica que atravessa e demarca, erótica e sexualmente, os sanitários públicos, escadas de emergência e lugares recônditos como o teto e o subsolo da Estação da Lapa e dos Shoppings Piedade e Center Lapa, busquei entender, durante o presente estudo, como essa cena se articula. Como esse espaço de trânsito é reconfigurado para o exercício dessas sexualidades consideradas dissidentes, analisando os mecanismos de operacionalização desses lugares para interações sexuais. Procurei compreender as negociações sexuais entre os sujeitos na cena do banheiro e entender a trama tecida entre esses homens com desejo homo-orientado, que sofrem uma repressão, ainda que não explicitada, pelo discurso heteronormativo. Eu ansiava também compreender o significado da pegação nos WC para a comunidade gay soteropolitana, através da coleta de relatos sobre sexo público entre homens com desejo homo-orientado em Salvador.

É preciso ressaltar, com Perlongher (2008, p. 60), que este estudo “[...] não é sobre uma comunidade, nem sequer sobre um grupo, mas [...] uma abordagem de certa prática e das populações nela envolvidas”. É exatamente esse fator que impossibilita que haja uma postura metodológica rígida e de caráter homogeneizador.

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A fim de responder às questões de pesquisa e buscar atingir os objetivos, procedi ao registro de dados nos banheiros da Estação da Lapa e adjacências, utilizando-me de notas de campo e entrevistas com participantes. Julgo, assim, de significativa importância descrever esse local de práticas sexuais consideradas dissidentes para melhor entendimento do estudo feito.

Não obstante, antes de adentrar com mais detalhes na explicitação de meu local de registro de dados, explano a seguir, de forma genérica, a cena gay de Salvador e recortes de outras capitais brasileiras, além de fazer referências a estudos de pesquisadores em outros países. É importante ressaltar que a Estação da Lapa é a principal ligação entre os bairros periféricos, o subúrbio ferroviário, a região metropolitana e a cena Gay22 do Centro de Salvador. Por isso, o “banheirão” da Lapa é encenado tanto por trabalhadores, estudantes que se deslocam para casa ou para escola depois de um dia de trabalho ou estudo como por um contingente de gays, lésbicas profissionais do sexo (travestis e michês) e de jovens negros, periféricos com práticas homoeróticas, sem nenhuma vinculação identitária, que vão em busca de diversão e sexo nos espaços de homossociabilidade da Carlos Gomes e do Beco dos Artistas. Dessa forma, busco levar o leitor a compreender melhor as escolhas feitas ao longo da pesquisa empreendida, principalmente no tocante à escolha dos locais de registro.

1.4 SEXO E ESPAÇOS PÚBLICOS

A sexualidade e o erotismo são elementos fortalecedores da identidade e cultura

gay. O apelo ao erotismo é predominantemente presente e movimenta a Cena Gay

Ocidental. Em Tricks, friends, and lovers: erotic encounters in the field, ao observar a Cena Gay da Noruega, Ralph Bolton (1995) constata que a cultura gay comemora o erótico, que é o fundamento do seu ser, mas com o surgimento da AIDS esse erotismo teve de ser ressignificado por conta das ameaças das poderosas forças heterossexistas de morte e opressão. A epidemia da AIDS e a pressão dos grupos conservadores não podem ser considerados os únicos motivos que provocam a condenação do sexo e do

22 Em Public Sex, Gay Space, Leap (2007) entende por Cena Gay um conjunto locais significados pelo contingente de homossexual para expressão de sua sexualidade. Essa cena é diversificada e acontece tanto em locais públicos (ruas, praças, praias e banheiros públicos) quanto em privados (bares, boates, saunas e cinemas).

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erotismo na cena gay. De acordo com a antropóloga Gayle Rubin (1993, p. 4 apud SPARGO, 2006, p. 5), “[o] reino da sexualidade tem sua própria política e modos de opressão internos. Assim como outros aspectos do comportamento humano, as formas institucionais concretas de sexualidade, em qualquer tempo e local, são produtos da atividade humana”. Com isso, constata-se que mesmo em contextos construídos em torno de uma sexualidade considerada abjeta em relação aos padrões estabelecidos pelo discurso heteronormativo dominante, práticas sexuais como relações homoeróticas em espaços públicos são rotuladas como ainda mais abjetas dentro da Cena Gay.

Para Green (2000), a acessibilidade do homem a determinados espaços públicos potencializou os encontros homoeróticos aleatórios, pois constituíam um dos poucos meios de conhecer parceiros em potencial. Parques e praças tornaram-se locais propícios para a “pegação” entre homens. Quando mapeia a topografia homossexual dos dois grandes centros urbanos do sudeste brasileiro no século passado, o autor afirma que, após passar por uma série de melhoramentos, o Vale do Anhangabaú, na capital paulista, na época apelidado de Central Park do Brasil, “logo tornou-se um ponto de encontro para homens interessados em paqueras homoeróticas” (GREEN, 2000, p. 97). Na década de 30, o Anhangabaú, a Avenida São João, a Praça da República, o Jardim da Luz e o banheiro público da Estação da Luz foram espaços do centro de São Paulo que atraíam homens em busca de contato sexual com outros homens.

Essa configuração de espaços para a vivência sexual dissidente toca no que Costa (2010) trata como “território”. Para o autor, “[o] território significa a brecha por entre o espaço público normatizado, ou agregações informais, nas quais sujeitos negociam representações sobre si mesmos e estabelecem moldes culturais práticos para suas relações” (COSTA, 2010, p. 21). Assim, ainda segundo o referido autor, os territórios homoeróticos representam a “apropriação de partes do espaço urbano no qual tais sujeitos podem exercer práticas homoafetivas. Essas territorializações se relacionam à produção de representações sociais que definiram, no processo histórico, as origens do desvio social” (COSTA, 2010, p. 22). Nesse sentido, o sexo em espaços públicos é entendido como uma prática considerada dissidente, porém imbricada de sujeitos que também circulam pelas redes públicas normatizadas pelo imperativo heterossexual.

Perlongher (2008, p. 159), por sua vez, trata dos espaços em que os sujeitos à deriva interagem como sendo “[o]s diversos pólos e categorias [que] funcionariam como pontos de ‘reterritorialização’ na fixação a um gênero ou a uma postura

Referências

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