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PLATÃO

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Academic year: 2021

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PLATÃO: ALICERCES DA FILOSOFIA OCIDENTAL Nascido em Atenas, Platão (427-347 a.C.) pertencia a uma das mais nobres famílias atenienses. Seu nome verdadeiro era Arístocles, mas, devido a sua constituição física, recebeu o apelido de Platão, termo grego que significa “de ombros largos”.

Platão foi discípulo de Sócrates, a quem considerava o mais sábio e o mais justo dos homens. Depois da morte de seu mestre, empreendeu inúmeras viagens, período em que ampliou seus horizontes culturais e amadureceu suas reflexões filosóficas.

Por volta de 387 a.C. retornou a Atenas, onde fundou sua própria escola filosófica, a Academia, nos jardins construídos por seu amigo Academus. Essa escola foi uma das primeiras instituições permanentes de ensino superior do mundo ocidental. Uma espécie de universidade pioneira dedicada a pesquisa científica e filosófica, além de um centro de formação política.

A maior parte do pensamento platônico nos foi transmitida por intermédio da fala de Sócrates, nos diálogos socráticos, escritos pelo próprio Platão. Seu pensamento é tão vasto e importante que deu origem a uma expressão famosa: “Toda filosofia ocidental são notas de rodapé de Platão”. Vejamos algumas concepções de suas teorias sobre a realidade, o conhecimento e a política.

Dualismo Platônico

Como grande parte dos pensadores de sua época, Platão também enfrentou o impasse criado pelos pensamentos de Parmênides e Heráclito, isto é, sobre o problema da permanência e da mudança, da unidade e da multiplicidade. E chegou a um conclusão dualista, isto é, de que existiriam duas realidades diametralmente opostas, baseadas em dois aspectos antropomórficos:

MUNDO SENSÍVEL (Kósmos horatós, em grego) – corresponde à matéria e compõe-se das coisas como as percebemos na vida cotidiana (isto é, pelas sensações), as quais surgem e desaparecem continuamente. Assim, as coisas e fatos do mundo sensível são temporárias, mutáveis e corruptíveis (o mundo Heráclito);

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MUNDO INTELIGÍVEL (kósmos noetós, em grego) – corresponde as ideias, que são sempre as mesmas para o intelecto, de tal maneira que nos permitem experimentar a dimensão do eterno, do imutável, do perfeito (o mundo de Parmênides). Todas as ideias derivam da ideia do bem.

Demiurgo e o Mundo

Apesar de, para Platão, existirem apenas essas duas realidades, ele supôs que uma terceira realidade operou na criação do mundo, pois – como argumenta o filósofo no diálogo Timeu – tudo o que foi gerado deve ter tido um princípio gerador, isto é, uma causa. Desse modo, defendeu a ideia de que o universo (mundo sensível) surgiu por obra de um demiurgo, palavra de origem grega que significa “aquele que faz”, “construtor”.

De acordo com essa doutrina, o demiurgo buscou as ideias eternas do mundo inteligível como modelo para dar forma à matéria indeterminada (cf. Platão, Timeu, p. 96-97). Isso quer dizer que, de um lado, as ideias e a matéria já existiam antes, sendo, junto com o demiurgo, as três realidades fundamentais da cosmogênese platônica. De outro lado, significa que o mundo sensível foi construído pelo demiurgo (uma espécie de deus “artesão”) à imagem das ideias eternas.

Teoria das ideias

Observe que a concepção dualista de Platão – também conhecida como teoria das ideias – opera uma mudança radical em relação ao pensadores anteriores ao situar o ser verdadeiro fora ou separado do mundo sensível. Não era assim para os filósofos pré-socráticos, que buscavam a arché das coisas nas próprias coisas. Para Sócrates, a essência ou o ser verdadeiro também se encontrava nas coisas.

Isso significa que o ser verdadeiro é, para esses filósofos, imanente (isto é, encontra-se neste mundo ou se confunde com ele), enquanto para Platão é transcendente.

Processo de Conhecimento

A teoria das ideias também costuma ser estudada em seus aspectos epistemológicos, isto é, como uma teoria sobre o conhecimento verdadeiro (epistemologia). É que, para Platão, o processo de conhecimento desenvolve-se por meio da passagem progressiva do mundo sensível, das sombras e aparências, para o mundo das ideias, das essências (ou seres verdadeiros).

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A primeira etapa desse processo é dominada pelas impressões ou sensações advindas dos sentidos. Essas impressões sensíveis são responsáveis pela opinião que temos da realidade. A opinião representa o saber que se adquire sem uma busca metódica.

O conhecimento, porém, para ser autêntico, deve ultrapassar a esfera das impressões sensoriais, o plano da opinião, e penetrar na esfera racional da sabedoria, o mundo das ideias. Para atingir esse mundo, o ser humano não pode ter apenas “amor às opiniões” (filodoxia); precisa possuir um “amor ao saber” filosofia).

O método proposto por Platão para realizar essa passagem e atingir o conhecimento autêntico (epistéme) é a dialética. Equivalente aos diálogos críticos de Sócrates, a dialética socrático-platônica consiste, basicamente, na constraposição de uma opinião à crítica que dela podermos fazer, ou seja, na afirmação de uma tese qualquer seguida de uma discussão e negação dessa tese, com o objetivo de purificá-la dos erros e equívocos, e permitir uma ascese até as ideias verdadeiras.

Somente quando saímos do mundo sensível e atingimos o mundo racional das ideias é que alcançamos também o domínio do ser absoluto, eterno e imutável. Nesse mundo das ideias só podemos entrar, segundo Platão, através do conhecimento racional, científico ou filosófico.

O Mito da Caverna

Platão criou em seus textos várias alegorias para expor suas doutrinas, a mais conhecida é o mito da caverna, que ajuda a evolução do processo de conhecimento.

De acordo com essa alegoria, homens prisioneiros desde pequenos encontram-se em uma caverna escura e estão amarrados de tal maneira que permanecem sempre de costas para a abertura da caverna. Nunca saíram e nunca viram o que há fora dela. No entanto, devido à luz de um fogo que entra por essa abertura, podem contemplar na parede do fundo a projeção das sombras dos seres que passam lá fora, em frente do fogo. Acostumados a ver somente essas projeções, isto é, as sombras do que não podem observar diretamente, assumem que o que vêem é a verdadeira realidade.

Se saíssem da caverna e vissem as coisas do mundo luminoso, não as identificariam como verdadeiras ou reais. Isso levaria um tempo. Estando acostumados às sombras, às ilusões, teriam de habituar os olhos à visão do real:

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primeiro olhariam as estrelas da noite, depois as imagens das coisas refletidas nas águas tranquilas, até que pudessem encarar diretamente o Sol e enxergar a fonte de toda a luminosidade.

O CONHECIMENTO NA TERRA SÃO SOMBRAS Apesar do volume de textos atribuídos a Platão que sobreviveram, pouco é conhecido sobre sua vida. Nascido numa família nobre em Atenas por volta de 427 a.C., foi batizado como Arístocles, mas ganhou o apelido de Platão (amplo). Embora provavelmente destinado a uma vida na política, tornou-se aluno de Sócrates. A condenação à morte imputada ao mestre teria desiludido Platão, que abandonou Atenas, viajou bastante, passando um período no sul da Itália e na Sicília, antes de retornar por volta de 385 a.C. Fundou em Atenas uma escola conhecida como Academia, permanecendo como seu líder até a morte, em 347 a.C.

Obras-Chave – Apologia, Críton, Górgias, Hípias maior, Mênon, Protágoras, Fédon, Fedro, A República, O banquete, Parmênides, Sofista, Teeteto

Em 399 a.C., o mentor de Platão, Sócrates, foi condenado à morte. Como Sócrates não havia deixado nada escrito, Platão assumiu a responsabilidade de preservar para a posteridade o que tinha aprendido com o mestre – primeiro na Apologia, relato sobre a defesa de Sócrates em seu julgamento, e depois ao usá-lo como personagem de uma série de diáusá-logos. Nesses diáusá-logos, às vezes, é difícil distinguir quais pensamentos são do mestre e quais ideias partiram do discípulo, mas evidencia-se um retrato de Platão usando os métodos do mestre para explorar e explicar suas próprias ideias.

Inicialmente, as preocupações de Platão eram como muitas de seu mentor: buscar definições de valores morais abstratos, como “justiça” e “virtude”, assim como refutar a noção de Protágoras de que certo e errado são termos relativos. Em A república, Platão explicou sua visão de cidade-estado ideal e explorou aspectos da virtude, mas, ao fazê-lo, também tratou de outros temas além da filosofia moral. Como os antigos pensadores gregos, questionou a natureza e a

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substância do cosmos e explorou como o imutável e o eterno podiam existir num mundo em aparente transformação. No entanto, diferentemente de seus predecessores, concluiu que o “imutável” na natureza é o mesmo que o “imutável” em mora e sociedade.

Procura do Ideal

Em A República, Platão descreve Sócrates fazendo perguntas sobre as virtudes, ou conceitos morais, a fim de estabelecer definições claras e precisas. Sócrates tinha dito que “a virtude é conhecimento” e que, para agir de maneira justa, por exemplo, você devia primeiro perguntar o que é justiça. Platão sugeriu que, antes de nos referirmos a qualquer conceito moral em nosso pensamento ou raciocínio, devemos primeiro explorar o que queremos dizer com esse conceito e o que o torna precisamente o tipo de coisa que é. Ele levantou, ainda, a questão de como reconheceríamos a forma correta, ou perfeita, de qualquer coisa: uma forma que fosse verdadeira para todas as sociedades e épocas. Ao fazer isso, Platão sugere que deve existir alguma espécie de forma ideial das coisas no mundo em que vivemos – sejam essas coisas conceitos morais ou objetos físicos -, da qual estamos cientes, de alguma forma.

Platão falou sobre objetos no mundo ao nosso redor. Quando vemos uma cama, ele disse, sabemos que é uma cama e podemos reconhecer todas as camas, mesmo que elas possam diferir em vários aspectos. Cães, em suas várias espécies, são ainda mais variados, apesar de todos os cães compartilharem a característica “canina”, que é algo que podemos reconhecer e que nos permite dizer que sabemos o que é um cão. Platão argumentou que, para além do fato de existir uma “característica canina” compartilhada ou uma “característica cama” compartilhada, todos nós temos em nossas mentes uma ideia de uma cama ideal ou de um cão ideal, que usamos para reconhecer qualquer exemplar específico.

Usando um exemplo matemático para reforçar seu argumento, Platão mostrou que o verdadeiro conhecimento é alcançado pela razão em vez dos sentidos. Ele afirmou que podemos formular em bases lógicas que o quadrado da hipotenusa de um triângulo retângulo é igual à soma dos quadrados dos catetos, ou que a soma dos três ângulos internos de qualquer triângulo é sempre 180 graus. Sabemos da veracidade dessas afirmações, ainda que o triângulo perfeito não exista em nenhum lugar no mundo natural. Apesar disso, conseguimos apreender o triângulo perfeito (ou a linha reta perfeita, ou o círculo perfeito)

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em nossas mentes, usando a razão. Platão especulou, então se tais formas perfeitas poderiam existir em algum lugar.

Mundo das Ideias

O raciocínio levou Platão a uma única conclusão: deve haver um mundo de ideias, ou formas, totalmente separado do mundo material. Lá, a ideia do triângulo perfeito, ao lado das ideias de cama e de cão perfeitos, existiria. Ele concluiu que os sentidos humanos não conseguem perceber tal lugar; ele só nos é perceptível pela razão. Platão foi mais além ao afirmar que o reino de ideias é de fato a “realidade”, e o mundo que nos cerca é moldado por essa outra realidade.

Para ilustrar seu pensamento, Platão apresentou o que se tornaria conhecido como a “teoria da caverna”. Ele nos convidou a imaginar uma caverna na qual as pessoas estão aprisionadas desde o nascimento, amarradas, encarando a parede ao fundo, na escuridão. Elas só podem olhar para a frente. Atrás dos prisioneiros há uma chama brilhante que lança sombras na parede para a qual eles olham. Há também uma plataforma entre o fogo e os prisioneiros, na qual pessoas andam e exibem vários objetos de tempos em tempos, de modo que as sombras desses objetos são lançadas na parede. Tais sombras são tudo que os prisioneiros conhecem do mundo, e eles não tem noção alguma sobre os objetos reais. Se um prisioneiro conseguir se desamarrar e se virar, verá ele mesmo os objetos. Mas, depois de uma vida de confinamento, ele provavelmente ficará muito confuso e talvez fascinado pelo fogo, e muito provavelmente se voltará de novo para a parede, a única realidade que conhece.

Platão disse que tudo que nossos sentidos apreendem no mundo material não passa de imagens na parede da caverna, ou seja, são simples sombras da realidade. Essa crença é a base de sua teoria das formas: para cada coisa na terra que temos o poder de aprender com nossos sentidos há uma correspondente “forma” (ou “ideia”) – uma eterna e perfeita realidade daquela coisa – no mundo das ideias. Como o que apreendemos pelos sentidos é baseado em uma experiência de “sombras” imperfeitas ou incompletas da realidade, não podemos ter um conhecimento real das coisas. No máximo, podemos ter opiniões, mas conhecimento genuíno só pode vir do estudo das ideias, e isso só pode ser alcançado pela razão. Essa separação em dois mundos distintos – um, da aparência, e o outro, do que Platão considerou como realidade de fato – solucionou o problema da busca de constantes num mundo

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aparentemente em transformação. O mundo material pode estar sujeito à mudança, mas o mundo das ideias de Platão é eterno e imutável. Platão aplica sua teoria não apenas às coisas concretas, como camas e cães, mas também a conceitos abstratos. No mundo das ideias de Platão há uma ideia de justiça, que é a justiça verdadeira, enquanto todos os exemplos de justiça do mundo material ao nosso redor são apenas modelos ou variantes menores. O mesmo é verdadeiro em relação ao conceito de bondade, que Platão considera ser a ideia suprema e o objetivo de toda investigação filosófica.

Conhecimento Inato

Persiste o problema de como podemos nos familiarizar com essas ideias, para que tenhamos a capacidade de reconhecer os exemplos imperfeitos no mudno em que vivemos. Platão argumentou que nossa concepção das formas ideais deve ser inata, ainda que não estejamos cosncientes disso. Ele acreditava que os seres huamnos são dividiso em duas partes: corpo e alma. Nossos corpos possuem os sentidos, poir meio dos quais somos capazes de apreender o mundo material, enquanto a alma possui a razão, com a qual podemos apreender o reino das ideias. Platão concluiu que a alma, imortal e eterna, habitou o mundo das ideias antes do nosso nascimento e ainda deseja retornar àquele reino após nossa morte. Por isso, as variantes de ideias que o mundo dos sentidos apresenta nos soam como uma reminiscência. Rememorar as lembranças inatas dessas ideias exige razão, um atributo da alma.

Para Platão, a tarefa do filósofo é usar a razão para descobrir as formas ideais ou ideias. Em A República, ele também sugeriu que os filósofos – ou mais exatamente aqueles que são fiéis à vocação da filosofia – deveriam ser a classe dominante, pois somente o verdadeiro filósofo poderia entender a natureza do mundo e a verdade dos valores morais. No entanto, assim como o prisioneiro da teoria da caverna que prefere as sombras aos objetos reais, muitos acabam se voltando para o único mundo no qual se sentem confortáveis: Platão muitas vezes achou difícil convencer seus colegas filósofos da verdadeira natureza de sua vocação.

Legado Incomparável

O próprio Platão era a personificação de seu filósofo ideal, ou verdadeiro. Debateu questões de ética antes levantadas por seguidores de Protágoras e Sócrates, mas durante o processo explorou pela primeira vez o próprio caminho para o conhecimento. Exerceu influência profunda sobre seu discípulo Aristóteles, ainda que este discordasse da teoria das formas. As ideias de Platão

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chegaram até o islamismo medieval e os pensadores cristãos, incluindo Santo Agostinho, que combinou as ideias de Platão com as da Igreja católica.

Ao propor que o uso da razão em vez da observação é o único caminho para adquirir conhecimento, Platão lançou os alicerces para o racionalismo do século XVII. A influência platônica ainda sobrevive. O amplo leque de temas sobre os quais escreveu levou Alfred North Whitehead, lógico britânico do século XX, a dizer que toda a filosofia ocidental subsequente “consiste num conjunto de notas de rodapé de Platão”.

Referências

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