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Patricia do Prado Ferreira Lemos

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Academic year: 2018

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATOLICA DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE ESTUDOS PÓS-GRADUADOS EM PSICOLOGIA SOCIAL

Patrícia do Prado Ferreira Lemos

O SUJEITO E O GOZO ESCÓPICO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA CONECTADA

Doutorado em Psicologia Social

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PATRÍCIA DO PRADO FERREIRA LEMOS

O SUJEITO E O GOZO ESCÓPICO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA CONECTADA

Doutorado em Psicologia Social

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Doutor em Psicologia Social, sob orientação do Prof. Dr. Raul Albino Pacheco Filho.

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FERREIRA-LEMOS, P.P. O sujeito e o gozo escópico na sociedade contemporânea conectada. Tese apresentada ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Psicologia Social.

Aprovado em: ________________________

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AGRADECIMENTOS

Agradeço ao meu orientador Raul Pacheco, a quem admiro pela generosidade e paixão em transmitir, por me acolher tão bem desde quando me interessei pelo Núcleo de Psicanálise e Sociedade, por todas as trocas dentro ou fora da sala de aula, pela leitura cuidadosa de minha tese, pelo respeito às minhas ideias e pelas sugestões apresentadas. Aos professores doutores Sonia Borges e José Aidar, pelas valiosas sugestões no momento da minha qualificação e aos professores doutores que compõem a banca examinadora.

Ao Conrado Ramos e ao Guilherme Mola, pelas inúmeras e preciosas contribuições nas discussões no Núcleo de Pesquisa.

A todos colegas que passaram ou estiveram no Núcleo, em especial àqueles que me foram mais próximos nesses 4 anos: Lilian Clementoni, Makau Formigoni, Renata Bazzo, Ana Paula Baima e, mais ainda, ao Gabriel Maia, pelas conversas nos corredores e pela troca teórica e musical, especialmente ao inesperado fim do nosso prazo, e à Karla Rampim, amiga e parceira de aventuras acadêmicas, papos incendiários e viagens absolutamente divertidas.

Ao meu querido Pedro, sem o qual este processo seria ainda mais solitário, por não medir esforços em me levar, buscar ou esperar, pelo respeito aos meus silêncios, ausências, angústias, loucuras, pelo amor e por tudo que dividimos desde quando nos conhecemos.

Aos meus pais, Antonio e Angélica, por toda ‘humanidade’ que transmitem, por respeitarem nossas diferenças e especialmente, por todas as oportunidades que me deram, acompanhando com apoio e amor os caminhos que trilhei.

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À minha irmã, Silvinha, pela presença constante em minha vida, por tentar colocar meus pés no chão, pela disponibilidade em ouvir meus lamentos (e não consenti-los), pela parceria de nossa infância e mais ainda pela amizade de agora.

Aos queridos amigos que fiz na graduação e que habitam minha vida desde então: Mel Scanhola, Ana Fattore, Fran Sousa, Rafinha Christofoletti, Luiz Luz, Fer Lemos, Moacyr Neto, Jama Garcia, Paty ‘de Santos’, Dani Shinzato, Luís Gustavo (Verde), Sander Albuquerque e Rick Abussafy.

Aos amigos de Araguari que estão sempre presentes: Glauco Ribeiro, Vêva Tomé, Aline Schellas, Léo Carulla, Ciça Resende, Roberto Amaral e Marília Nunes.

À amiga Daniela Dechichi, que tive o prazer de ter novamente próxima a mim e com quem dividi almoços reconfortantes durante esses anos.

À família Mendes Lemos, Magaly, Marcelo, Isabela e Lucas, pela compreensão e gentileza.

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ... 11

CAPÍTULO I: AS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS ... 28

1. Modernidade, modernismo e modernização ... 30

1.1. E depois, a pós-modernidade? ... 38

2. A crise do capital e o retorno à Marx ... 46

3. Diagnósticos Sociais ... 55

3.1. Sociedade Narcísica, Hipermodernidade e Modernidade Líquida ... 55

3.2. Sociedade de risco e medo ... 66

3.3. Cibercultura e Sociedade em Rede ... 70

CAPÍTULO II – PSICANÁLISE E SOCIEDADE: O SUJEITO E AS TRANSFORMAÇÕES DO OUTRO ... 77

1. Sujeito: da linguagem ao gozo ... 78

2. A estrutura do sujeito e as transformações no Outro ... 98

2.1. Sofrimento e contemporaneidade ... 102

2.2. O pai proletário: declínio da função ou da imagem? ... 104

3. Discurso do capitalista: incidências no sujeito e no laço social ... 108

3.1. A precariedade dos laços sociais e as redes sociais virtuais ... 113

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1. O Facebook ... 129

2. Schautrieb e Schaulust através da tela ... 134

3. Recorte: Disconnect ... 156

4. A Sociedade Escópica no contexto de rede... 159

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 169

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ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1 - Matema dos discursos ... 51

Figura 2 - Discurso do Mestre ... 52

Figura 3 - Discurso Universitário ... 52

Figura 4 - Um par de sapatos, Van Gogh, 1886 ... 58

Figura 5 - Um par de sapatos, Van Gogh, 1886 ... 59

Figura 6 - Diamond dust shoes, Andy Warhol, 1980 ... 60

Figura 7 - Diamond dust shoes, Andy Warhol, 1980 ... 60

Figura 8 - Esquema do buquê invertido... 83

Figura 9 - Esquema L ... 85

Figura 10 - A alienação ... 87

Figura 11 - Grafo do desejo ... 88

Figura 12 – Intersecção na Separação ... 89

Figura 13 - Operação de separação... 90

Figura 14 - Circuito da pulsão ... 92

Figura 15 - Os quatro discursos ... 94

Figura 16 - Operação de um quarto de giro ... 94

Figura 17 - Discurso do Capitalista ... 109

Figura 18 - 'Tradução' da estrutura algébrica do discurso do capitalista ... 111

Figura 19 - Namoro Fake ... 114

Figura 20 - O homem-polvo virtual ... 119

Figura 21 - A Condição Humana, Renè Magritte, 1935 ... 142

Figura 22 - Esquema simplificado do buquê invertido... 145

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FERREIRA-LEMOS, Patrícia do Prado. (2014). O sujeito e o escópico na sociedade contemporânea conectada. Tese (Doutorado em Psicologia Social). 196 f. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

RESUMO

Esta pesquisa propôs articular psicanálise e sociedade, atentando-se para as contingências do capitalismo tardio que atravessam os laços sociais e repercutem nos sujeitos. Diante deste cenário, entendemos que a internet assume notório papel, especialmente em suas redes sociais, ao evidenciar a composição dos laços, assim como aspectos da estrutura dos sujeitos. Deste modo, a tese que se buscou defender é a de que na conjuntura atual, sobretudo a partir dos aparatos tecnológicos, os sujeitos são capturados mais notadamente por uma modalidade de gozo, a qual apreendemos ser o escópico, que diante de suas especialidades indica particularidades da estrutura dos sujeitos e também de suas articulações com os outros e os objetos. Para tanto, dividimos o trabalho em 03 (três) capítulos que se complementam: no primeiro investigamos diferentes leituras da cultura contemporânea, contrapondo concepções modernas às pós-modernas e elucidando a sociedade na qual os sujeitos estão inseridos; no segundo marcamos diferenças teóricas introduzidas pela psicanálise, apresentando peculiaridades da estrutura do sujeito e as colaborações de autores da psicanálise para a discussão sobre sujeito na atualidade e, posteriormente, no terceiro capítulo, contemplamos nosso objetivo e discorremos sobre o campo escópico, destacando as implicações e a captura do sujeito por esta modalidade de gozo, sobretudo a partir das redes sociais. Para tanto, elegemos o site Facebook como rede social para investigação, tomando-o como um dispositivo que representa algumas das composições contemporâneas da cultura. Destacamos, por fim, o modo como a estrutura do sujeito e a transistoricidade da linguagem no âmbito da humanidade se relacionam com as formas de aparelhamento do gozo e com a diversidade histórica discursiva dos laços sociais.

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FERREIRA-LEMOS, Patrícia do Prado. (2014). The subject and the scopic in contemporary connected society. Thesis (Ph.D. in Social Psychology). 196 p. Pontifical Catholic University of São Paulo, São Paulo.

ABSTRACT

This research proposes to interface psychoanalysis and society, focusing on the contingencies of late capitalism which cross social linkings and are reflected on the subjects. In view of this situation, we understand the internet takes a notable role, when regarding social networking, by displaying the constitutions of social linkings and some aspects of the structure of these subjects. Thus, the thesis we have seeked to defend is that in the present conjuncture, especially in light of its technological apparatuses, the subjects are more significantly captured by a distinctive modality of gaze, one we apprehend being the "scopic", which in face of its features, exposes the peculiarities of the subjects structures and their interface with other subjects and objects. For such a task, we have divided our research into three complementary chapters: in the first, we investigate different readings about contemporary culture, contrasting between modern and post-modern conceptions and shedding some light on the society in which the subjects are taking part; in the second chapter, we highlight some theoretical differences introduced by Psychoanalysis, presenting the peculiarities of the structure of the subjects, along with some contributions by psychoanalytic authors, regarding the debates around subjects in our society; Finally, in the third chapter, we contemplate our objectives and examine the notion of "scopic field", highlighting the implications on subjects by this modality of gaze, especially in light of social networks. We chose Facebook site as the main social network under investigation, taking it as a device which represents some of contemporary cultural constitutions. We finally stress how subject's structures and language's transhistoricism relate to the forms of gaze implementation and the discursive diversity of social linkings, showing that historical shifts do affect the subjects, but not in its structure.

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APRESENTAÇÃO

Existe uma composição desta pesquisa. Ela é derivada de um trajeto que nos acompanha desde quando escolhemos a investigação como um caminho a ser trilhado. Mesmo que tenhamos modificado o objeto, passando da televisão à internet, num percurso que acompanha o próprio trajeto dos media, há um fio condutor que une a pesquisa de iniciação científica a esta tese de doutorado: a relação entre as pessoas mediada pelos meios de comunicação.

Os quinze anos que distanciam um trabalho do outro apontam uma modificação teórica, referente a uma escolha particular, e também evidenciam essa transformação no eixo dos media. Ao fim da década de 1990, mesmo com o início da expansão da internet, a televisão ainda se configurava como o principal meio de comunicação que exercia ativamente influência na vida das pessoas, apresentando-se enquanto uma sugestão de modos de agir e pensar. Talvez ainda possamos compreendê-la deste modo imparcial e sugestivo, mas atualmente é improvável que os holofotes não tenham se desviado e se direcionado à internet, que se apresenta, dentro de suas características particulares, enquanto o principal media contemporâneo. Este processo encontra-se ainda em curso, mas desde meados da primeira década de 2000 iniciou-se uma massiva ampliação de acesso, muito fortificado por políticas públicas que desenvolveram projetos de ‘inclusão digital’, como o programa de 2005 do governo federal Computador para todos – Projeto Cidadão Conectado, que objetiva a democratização do acesso à tecnologia, visando a inserção dos cidadãos na ‘nova linguagem’ e possibilitando que mais pessoas se ‘beneficiem’ da rede.

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ocasião da conclusão de especialização em Psicologia Clínica (PUC-Rio, 2006). Neste momento, buscamos entender a partir das elaborações psicanalíticas de Freud sobre vínculos sociais, especialmente Psicologia das Massas e análise do ego (1921) e Mal-estar na Civilização (1930), a estrutura grupal da associação de pessoas em comunidades virtuais.

No ano de 2004, chama-nos a atenção a massificação das redes sociais, representada – particularmente no Brasil – pelo site Orkut1, juntamente com outros dispositivos, como as salas de bate-papo de todos os tipos disponíveis em dezenas de sites de relacionamento e propensos a formação de redes. Na práxis psicanalítica, particularmente em nossa escuta, as falas começaram a ser atravessadas por relatos, confusões e confissões vindos desses acontecimentos online, que despertavam fantasias e causavam rebuliço no eu. Com a novidade e experimentação, alguns aproveitavam para dar ‘asas a imaginação’ e se apresentavam em rede com identidades bastante criativas, avatares que permitiam ao sujeito um verdadeiro passeio por suas identificações. Ainda neste tempo, e não por acaso, era bastante comum encontrarmos uma série de perfis fakes (falsos), compostos por esses ‘outros’ que habitam cada um de nós. Isso nos despertou algumas questões e desenvolvemos nossa dissertação de mestrado a partir do entrelaçamento entre fantasia e laço social em redes sociais. Foi também no período correspondente à elaboração da dissertação, que vimos outras redes sociais ganharem força no Brasil – e também ao redor do mundo –, com características distintas daquelas às quais nos empenhamos, como o Facebook2, que ainda demorou um pouco para cair nas graças dos brasileiros – até pela dificuldade do idioma, que nesta época era exclusivamente em inglês.

Entretanto, especialmente estes dois dispositivos – Orkut e Facebook naquilo que convidavam as pessoas a se conectarem umas as outras e a se representarem em rede, suscitaram algo que nos apontava para algo do jogo escópico enquanto um possível ‘mediador’ dessas relações, tal como se dá no off-line, mas que aparece amplificado pelas redes sociais virtuais.

Como expusemos, o computador e seus desdobramentos – os gadgets que dele derivam – poderiam ser eleitos como objetos que simbolizam a cultura contemporânea,

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entrelaçando suas consequências e ‘novidades’. Apesar de uma invenção relativamente recente é cada vez mais notório que a tecnologia e a cultura se entrelaçam, como apontado por Pierre Lévy (1999) no termo ‘cibercultura’. Nesta concepção, este modo de cultura engloba um conjunto de técnicas, práticas, atitudes, modos de pensamento e de valores que se desenvolvem concomitante ao meio de comunicação que surge na interconexão dos computadores, ou seja, o ‘ciberespaço’ (p.17).

Lúcia Santaella, no livro Linguagens líquidas na era da mobilidade (2007), destaca que as mídias (fotografia, televisão, jornal, internet), são capazes de transformar o social. Para melhor dizê-lo, a autora refere-se à ‘ecologia midiática’ – termo definido por Neil Postman em 1970 como “o estudo das mídias como ambientes” – para enfatizar a possibilidade de transformação:

(...) quando uma nova mídia é criada e socialmente introduzida, adotada, adaptada e absorvida, ela faz crescer em torno dela práticas e protocolos sociais, culturais, políticos, jurídicos e econômicos. Isso tem recebido o nome de ‘ecologia midiática’ que implica a total integração de uma mídia nas interações sociais cotidianas. Embora haja uma tendência a pensar as mídias apenas como meios de conexão e transmissão de mensagens de um ponto a outro, elas, na realidade, alteram de modo significativo os ambientes em que vivemos e a nós mesmos como pessoas. (Santaella, 2007, p. 232)

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A internet é um espaço de comunicação propriamente surrealista, do qual “nada é excluído”, nem o bem, nem o mal, nem suas múltiplas definições, nem a discussão que tende a separa-los sem jamais conseguir. A internet encarna a presença da humanidade a ela própria, já que todas as culturas, todas as disciplinas, todas as paixões aí se entrelaçam. Já que tudo é possível, ela manifesta a conexão do homem com a sua própria essência, que é a aspiração à liberdade (Lévy, 2002/2007, p.12).

Se seguirmos esta afirmação de Lévy, teríamos margem para questionar se a internet poderia ser tomada como Outro não castrado, sem falta, sem impossível? Em caso afirmativo, como se posiciona o sujeito do qual se ocupa a psicanálise diante deste “todo-possível”? Seria o apogeu da queda do simbólico, do mestre degenerado, do declínio do pai, do sujeito pós-moderno, da esquizofrenização da cultura ou da perversão generalizada (formulações que fragmentam o atual campo de pensamento psicanalítico)? Haveria, neste momento, uma modificação na estrutura do sujeito ou seriam transformações discursivas – de ordenadores de gozo –, decorrentes do capitalismo tardio, refletindo no laço social? São questões que nos movem e às quais nos dedicamos, especialmente nos dois primeiros capítulos. De que sociedade estamos falando? Quais são suas características? Como o sujeito se insere neste contexto?

Antes de tudo, é importante que ressaltemos algumas considerações no trâmite do objeto em observação, para que possamos entender como se configura. Pois, apesar de todo o rebuliço do dispositivo internet, como afirmamos, ele só se torna acessível à população geral a partir de meados de 1995. Portanto, estamos tratando de alguma coisa com menos de duas décadas em ação e em permanente transformação. Mas há algo que consta desde os primórdios, na década de 1970, quando a internet era acessível apenas a hackers e cientistas: o projeto de redes interligadas e comunicação interpessoal (Castells, 1999).

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facilitador da disseminação da informação, que alavanca a sociedade pós-industrial que, como se sabe, pretende ser tecnizada, globalizada e em rede (Castells, 1999). É a globalização de fato acontecendo e, como precisa Castells, este momento afeta a vida em sociedade:

Se você não se importa com as redes, as redes se importarão com você, de todo modo. Pois, enquanto quiser viver em sociedade, neste tempo e neste lugar, você terá de estar às voltas com a sociedade de rede. Porque vivemos na Galáxia da internet”. (Castells, 2003, p.230)

A internet se configura como o ‘tecido de nossas vidas’, comparável à rede elétrica, por sua capacidade de distribuir a força da informação por todos os domínios das atividades desenvolvidas, pela influência em diferentes setores e também pela participação nas relações sociais (Castells, 2003). E ainda, como sugere Viana (2013) na apresentação de Cypherpunks:

A rede mundial de computadores apresenta, como muitas tecnologias, uma variedade de usos possíveis. É, como a energia elétrica, a semente de uma gama infinita de possibilidades, e semente poderosa: seu potencial ainda está sendo descoberto ao mesmo tempo que se rumo vai sendo definido pelo caminhar tecnológico e pelo caminhar político. (Viana, 2013, p.9)

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Lévy (1999), considerado por muitos um otimista, coloca que vivemos um ‘momento de mutação’, tempo que marca, inclusive, transformação nos modos de se relacionar, partindo para um ‘coletivo inteligente’, que compartilha informações sobre todas as coisas, o tempo todo e que, ao mesmo tempo, afeta os sujeitos humanos de modo particular:

Cabe apenas a nós continuar a alimentar essa diversidade e exercer nossa curiosidade para não deixar dormir, enterradas no fundo do oceano informacional, as pérolas de saber e de prazer – diferentes para cada um de nós – que esse oceano contém. (Lévy, 1999, p.91/92)

Slavoj Žižek (2006a), pensador esloveno contemporâneo, em sua leitura sobre o ciberespaço, remete à ideia de tela em associação à psicanálise, ressaltando o modo como o social se faz presente no particular – ou, para lembrar Lacan, tal como a banda de Möebius, é indissociável o exterior do interior.

Para Žižek, o ciberespaço é capaz de promover encontros entre o sujeito e seus ‘eus’, que por vezes lhe são desconhecidos ou estão adormecidos. Esta possibilidade de encontro se daria pelo fato de que a mediação da tela do computador proporciona certo afrouxamento das amarras às quais o sujeito se vê referenciado em sua vida off-line:

Dicho de otro modo, los ‘múltiples yos’ que se exteriorizan en la pantalla son ‘aquello que yo quiero ser’, la forma en que quiero verme a mí mismo, las figuraciones de mi yo ideal; en este sentido, son como las capas de una cebolla: no hay nada en el centro, y el sujeto es esta ‘nada’ misma. (Žižek, 2006a, p. 231)

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mestrado, intitulada Através – Da Digitalização da Vida (Ferreira-Lemos, 2009), na qual nos aprofundamos no estudo das relações estabelecidas nas comunidades virtuais. Para tanto, após a pesquisa bibliográfica pelos campos sociológico e filosófico a respeito da internet recorremos, especialmente, aos conceitos psicanalíticos de fantasia e nó borromeano (Lacan, 1974-1975) – que compreende os elos Real, Simbólico e Imaginário – para investigar o assunto e posteriormente coletamos material disponível em rede.

Nosso percurso nos mostrou que as relações estabelecidas no ciberespaço, compreendidas enquanto relações virtuais, tais quais os laços que se desenrolam fora da rede, são mediadas pela fantasia. Como sabido, para a psicanálise, a fantasia funciona como proteção frente ao real – o que não pode ser representado, apreendido – que dá contorno à realidade psíquica – modo pelo qual participamos no mundo:

O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e é tão incompletamente apresentado pelos dados da consciência quanto o é o mundo externo pela comunicação de nossos órgãos sensoriais. (Freud, 1900/2006, p.637, grifos do autor)

Com efeito, é possível afirmar, apoiados especialmente na concepção freudiana sobre o tema, transcrita por Jacques Lacan em O Seminário, livro 5 – As formações do inconsciente (1956-1957), através do matema , que todas as relações que o sujeito estabelece – com outros sujeitos ou com as coisas do mundo – têm a mediação da fantasia. Ainda, vale ressaltar:

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Assim, a partir da imersão nos sites de relacionamentos observamos a questão escópica como um problema potencial a ser investigado em outro momento, culminando nesta proposta tese. Várias perguntas foram surgindo e primeiramente, perguntamo-nos sobre um possível endereçamento daquelas mensagens, das imagens, dos infindáveis modos pelos quais milhares de pessoas pareciam evocadas a aderir a um verdadeiro empuxo ao gozo escópico. E afirmamos que desde o início desta pesquisa o que se constata é uma crescente: aparelhos celulares sem a função de conexão à internet e captura de imagens, por exemplo, tornaram-se absolutamente obsoletos.

Diante do cenário composto de uma crescente facilidade (e demanda) de conexão entre as pessoas combinada a uma proliferação de aparelhos tecnológicos (quiçá ideológicos) e redes sociais – Facebook, Instagram – que implicam num sem fim de possibilidades de ‘ver e ser visto’, atentamos para a presença dominante do par exibicionista e voyerista, assim como para um caráter de vigilância – olho que vigia e pune – que aos poucos vêm ganhando destaque na esfera da cibercultura, especialmente impulsionado pelas denúncias de Julian Assange e Edward Snowden. Tais circunstâncias nos levam a apreender que há aqui algo de importante a ser pesquisado relacionado diretamente à pulsão escópica, assim como ao viés da sociedade do capitalismo tardio que se utiliza desse gozo como moeda, seja para o exibicionismo, seja para a vigilância.

Algo dessa correlação é indicado por Antônio Quinet (2002/2004), ao denominar a sociedade contemporânea de ‘Sociedade Escópica’, ponto que corrobora para tecermos nossas considerações. Quinet tomou a televisão enquanto o dispositivo paradigmático da ‘Sociedade Escópica’ e confiamos que a internet possua características que a coloca enquanto seu maior representante na atualidade. Dentre elas, destacamos o passo que permite a interação entre o media e o ‘usuário’. Estaríamos mesmo, como propõe Quinet, em um momento “para-além do panóptico da visibilidade como fonte de poder e de controle” (p.287) ou existe uma falsa liberdade e que acarreta na legitimação da vigilância? Quem olha o quê? Quem e para quem se mostra?

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buquê invertido. Entretanto, o olhar como objeto a também deve ser compreendido como um dos modos de apagamento do sujeito, isto é, “um modo de o sujeito se colocar em relação ao gozo, e também uma modalidade de apagamento diante do objeto causa do desejo” (Quinet, 2002/2004, p.66).

Assim, ao mesmo tempo orientados por esta questão e para-além dela, o que nos evidenciam as relações sociais que se dão nas redes sociais virtuais? O que nos podem dizer sobre os laços sociais contemporâneos regidos pelo discurso capitalista? Há algo da estrutura subjetiva que aflora estes e nestes vínculos? Como a questão escópica enoda este contexto? E, especialmente, como se dá a captura do sujeito pela modalidade de gozo escópico no contexto das redes sociais?

No âmbito dos estudos que se dedicam à observação dos acontecimentos sociais e também na concepção filosófica, a temática do olhar sempre esteve presente, como enuncia Alfredo Bosi em seu artigo Fenomenologia do Olhar (1988). No decurso de seu texto, Bosi percorre o pensamento antigo, em que gregos e romanos helenizados pensam duas diferentes dimensões para o olhar: o olhar receptivo (o ver-por-ver) e o olhar ativo (ver-depois-de-olhar). O autor atravessa o pensamento de inúmeros filósofos, especialmente Descartes, que coloca o olhar no domínio da ciência. Ao mesmo tempo, nos chama atenção para a leitura de Maurice Merleau-Ponty, sobretudo a partir de O visível e o invisível (1964), onde se entende que:

Há um parentesco entre o olhar do outro e meu corpo vivo, que remete a ‘um único mundo’. (...) Nesse mundo a espessura da carne não deve ser temida como um obstáculo que separa o eu do outro, mas acolhida como um meio de comunicação. Eu diria que todo o pensamento de Merleau-Ponty começa e termina com um apelo à fruição desse olhar não só pelos artistas mas por todos os homens. (Bosi, 1988, p.82)

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Em Freud, no texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), o autor coloca a existência de pulsões do prazer em olhar e em se exibir, associando-as à curiosidade sexual. Denomina assim, de ‘pulsão de ver’ ou ‘escópica’ a manifestação sexual espontânea que pode surgir nas crianças, tornando-as voyeurs. Deste modo, a ‘pulsão de ver’ permite estabelecer outra atividade para o olho: ele não será somente fonte de visão, mas também fonte de prazer. O que isso significa? Que olhar provoca algum tipo de satisfação, isto é, ele é fonte de gozo. É exatamente esta formulação que nos conduz a nossa principal hipótese: navegar pelo ciberespaço, seja como um navio sem destino ou ladeado por outros navegantes (nas redes sociais, por exemplo) proclama o olhar, ou seja, implica certo gozo escópico.

No texto As pulsões e suas vicissitudes (1915) Freud se atenta aos componentes da pulsão: a fonte, a pressão, a finalidade e o objeto; e aos seus destinos: reversão em seu oposto, retorno em direção ao próprio indivíduo, recalque e sublimação. Ressaltamos, que seja qual for a condição, a pulsão jamais será totalmente satisfeita, estando ao alcance dos sujeitos somente a satisfação parcial. Por isso, quando Freud elabora os destinos da pulsão, ele não coloca a satisfação como uma saída. Entretanto, são estes reveses que funcionam como motores dos sujeitos, nesse jogo que os leva na busca constante de gozo.

A pulsão escópica em Freud, i.e., a busca de satisfação através do olhar, é descrita a partir da mudança possível entre a atividade e a passividade – ver e ser visto, olhar e ser olhado – e pela introdução de um novo sujeito (outro) para quem o sujeito se exibe para ser olhado/visto. Ainda, a pulsão escópica possui três tempos, que são: autoerotismo, voyeurismo e exibicionismo, que coexistem. O autoerotismo concentra-se no primeiro tempo da organização libidinal, no tempo narcísico em que se exclui o outro enquanto diferente; o voyeurismo relaciona-se ao ‘ver o outro’ e o exibicionismo ao ‘ser visto pelo outro’. Antônio Quinet (2002/2004) retoma Lacan ao afirmar que como convém à pulsão, na pulsão escópica não há mais sujeito, somente o objeto que brilha em satisfação, o gozo escópico, a Schaulust. Assim, atentamos: na dinâmica do ciberespaço temos a veemência do jogo ‘olhar e ser olhado’? O laço social e a pulsão escópica se relacionam?

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conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1985), e coloca que o olhar – objeto de que depende a fantasia à qual o sujeito está apenso numa vacilação essencial – se especifica como inapreensível:

Em nossa relação às coisas, tal como constituída pela via da visão e ordenada nas figuras de representação, algo escorrega, passa, se transmite, de piso para piso, para ser sempre nisso em certo grau elidido – é isso que se chama o olhar. (Lacan, 1964/1985, p. 74)

O olhar se situa, portanto, no campo do pulsional, no real, que não pode ser apreendido. Não é o olhar do sujeito, mas aquele que incide sobre ele, que o concebe como objeto.

A pulsão escópica e o olhar são elementos estruturais dos sujeitos e dos laços sociais. Ao refletir a sociedade enquanto comandada pela modalidade de gozo escópico pensa-se que o olhar “é elevado ao status de mestre/senhor, ou melhor, é utilizado pelo mestre/senhor fazendo confundir o S1 da lei com olhar vigilante e exigente do Grande Diretor” (Quinet, 2002/2004, p.285). Portanto, o convite à visibilidade da sociedade contemporânea se relaciona ao discurso do mestre? E é possível pensar em uma relação com o discurso do capitalista?

Estes são questionamentos que consideramos mais relevantes de nosso estudo. Além de nos propormos a investigar um acontecimento expressivo e atual de nossa sociedade, ao pesquisarmos este elemento pelo viés da psicanálise o que pretendemos também atestar é que não se trata somente de um fenômeno de massa. O que envolve o florescimento da internet ou dos sites de relacionamento, está atrelado a um discurso – que originalmente engendraria laços sociais – que pode se comunicar à estrutura do sujeito. Portanto, há algo do sujeito e do discurso implicado nessa trama e que a fortalece.

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1964/1985, p. 73). Assim, Lacan expõe que “o olhar só se nos apresenta na forma de uma estranha contingência, simbólica do que encontramos no horizonte e como ponto de chegada de nossa experiência, isto é, a falta constitutiva da angústia da castração” (ibid., p. 74). Além disso, Lacan entende a partir das ideias de Merleau-Ponty:

(...) somos seres olhados no espetáculo do mundo. O que nos faz consciência nos institui, do mesmo golpe, como speculum mundi. Não haverá satisfação em estar sob este olhar (...) que nos discerne e que, de saída, faz de nós seus olhados, mas sem que isto se nos mostre? (Ibid., p.76)

Há uma cisão entre ver e olhar: ‘ver’ não é ‘olhar’, quando vemos agimos com os olhos do eu, isto é, dotamos de sentido aquilo que nos é visível, selecionando imagens que reconhecemos. Já o olhar é de outra ordem, implica o desejo e é nisso que é pulsional:

De maneira geral, a relação do olhar com o que queremos ver é uma relação de logro. O sujeito se apresenta como o que ele não é e o que se dá para ver não é o que ele quer ver. É por isso que o olho pode funcionar como objeto a, quer dizer, no nível da falta (-). (Lacan, 1964/1985, p.102)

Nesse imenso palco, onde é possível que todos façam espetáculo, que se exponham e que assistam, é imprescindível que se atente para o que acontece a fim não só de entendermos a dinâmica social contemporânea pautada na incidência do discurso do capitalista, como também perceber a estrutura subjetiva que engendra este movimento e que o viabiliza.

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Diante da exposição das inquietações que nos conduziram à formulação das questões propostas, traçamos um percurso que nos permite nos aproximarmos da elaboração de elucidação dos questionamentos e hipóteses aqui estabelecidas. Para tanto, dividimos este trabalho em três capítulos.

No primeiro, intitulado As sociedades contemporâneas, iniciamos a pesquisa procurando compreender a ideia de modernidade, partindo das elaborações de Marshall Berman (1982/1986), que a concebe a partir do estabelecimento do capitalismo, no início do século XVI. Assim, atravessamos diferentes momentos modernos, até chegarmos à atualidade, marcada pelo capitalismo tardio. Ainda, indagamos a concepção de pós-modernidade, trazendo especialmente as considerações de Perry Anderson (1998/1999) e Jean François Lyotard (1979/1988). Este trajeto nos leva a questionarmos o retorno às elaborações de Marx para o entendimento da atual crise no sistema capitalista, como sugere Eric Hobsbawn (2011), David Harvey (2010), István Mèszaros (2009/2011), entre outros, mostrando a atualidade e lucidez da contribuição de Marx, que contribui ferozmente para a discussão da contemporaneidade. É também nesta ocasião que começamos a apresentação da teoria dos discursos em Lacan (1969-70/1992), providencial para o entendimento dos modos de aparelhamento de gozo predominantes em momentos históricos distintos e que diretamente se ocupam da relação indissociável entre sujeito e cultura.

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Assim, ao final deste capítulo, nos dedicamos a abordar teorias que insistem em indicar o que consideram ‘sintomas’ contemporâneos e suas consequências na vida dos ‘sujeitos genéricos’, movimento que denominamos ‘diagnósticos sociais’: Sociedade Narcísica (Christopher Lash), Hipermodernidade (Gilles Lipovetsky), Modernidade Líquida (Zygmunt Bauman), Sociedade de Risco (Ulrich Beck), Cibercultura (Pierre Lévy) e Sociedade em Rede (Manuel Castells). Embora a discussão esteja distante de nossa abordagem psicanalítica lacaniana, os apontamentos destes autores nos auxiliam a entender de que modo a cultura vem sendo apreendida por diferentes e influentes teóricos, que destacam, especialmente, que algo ocorre no âmbito social e, consequentemente, nos sujeitos a partir da estrutura capital, como dos aparatos tecnológicos.

No segundo capítulo, Psicanálise e Sociedade: o sujeito e as transformações no Outro, nossa atenção está voltada às elaborações da psicanálise diante do cenário que apontamos no capítulo anterior. Abrimos este investigando a questão do sujeito da psicanálise, marcando sua evidente dissidência com a psicologia do eu e com teorias que antecedem a psicanálise. Vemos que é Freud quem viabiliza Lacan a elaborar o sujeito enquanto um conceito, ao conceber o inconsciente e postulá-lo como estruturado como uma linguagem – fato evidente em suas elaborações teóricas, decorrentes da técnica de escuta psicanalítica que fundou: a associação livre.

Neste caminho, trazemos primeiramente as elucidações e avanços de Lacan na teoria do sujeito, apresentando motes relevantes, tais como o estádio do espelho, o buquê invertido de Bouasse, alienação, separação, pulsão e a teoria dos discursos. Optamos por inaugurar este capítulo com este percurso, a título de seguirmos com a pesquisa que iniciamos no primeiro capítulo e introduzirmos diferenças teóricas que fundamentam nossa escrita a partir do segundo capítulo. Sendo assim, a leitura da segunda parte do capítulo é possível ser feita tendo como referência o que é explorado em Sujeito: da linguagem ao gozo.

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incidências no laço social. Ainda, é importante que se destaque a crítica às teorias que sugerem a emergência de um sujeito inédito em nosso tempo, tais quais as que condiremos ‘diagnósticos sociais’, que fragmentam e dissolvem conceitos fundamentais da psicanálise, como o da estrutura do sujeito. Neste sentido, as elaborações de Markos Zafiropoulos (2002) nos auxiliam a esclarecer qualquer mal-entendido possível de advir da própria elaboração lacaniana, especialmente relacionada ao declínio da imago paterna. Posteriormente, consideramos a precariedade dos laços sociais na condição do discurso do capitalista, que inviabiliza a relação do sujeito com o outro, privilegiando e fortalecendo a sua relação com objetos. Nesta cena, os vínculos sociais que se dão nas redes sociais do ciberespaço, emergem enquanto um espelhamento da relação dos sujeitos dominados pelo capitalismo tardio e potencialmente fortificam o distanciamento entre as pessoas, mascarado pela ilusão de proximidade ao possibilitar a ‘conexão’ de todos com todos.

Isso posto, consideramos que preparamos abertura para nos dedicarmos ao terceiro capítulo da tese, O sujeito e o gozo escópico na sociedade contemporânea, no qual contemplamos nosso objetivo principal, ao tentarmos elaborar de que modo o sujeito é capturado pela modalidade de gozo escópico na sociedade contemporânea, especialmente a partir das redes sociais e, mais particularmente, no Facebook.

Deste modo, na primeira parte do capítulo apresentamos o site Facebook, escolhido enquanto dispositivo de investigação, por uma questão necessária de recorte e por entendermos que se configura enquanto importante representante das condições sociais que descrevemos nos dois primeiros capítulos, ao reproduzir algumas das articulações sociais do capitalismo tardio, uma vez que incorpora questões mercantis e também relações sociais em sua plataforma. É também aqui que apresentamos e discutimos, além da descrição e dados do site, alguns estudos que o tomam enquanto uma espécie de epidemia social, causadora de diferentes tipos de males.

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tecnologias de sociabilidade perpassam a estrutura do sujeito, naquilo que ela se articula ao escópico. Trazemos o campo do visível (olho) e do invisível (olhar) para a discussão, colocando em relevo as peculiaridades de cada campo e aproximando estas características com essa captura de um modo particular de gozo. Nesse sentido, procuramos apreender o que é que exerce o fascínio dos sujeitos humanos aos dispositivos tecnológicos que se constituem sobretudo pela imagem, a representação. Para-além das teorias que marcam o narcisismo enquanto uma das principais características do sujeito na atualidade, buscamos incrementar e nos aprofundar na relevância do jogo escópico na constituição psíquica, conduzindo nossas explanações articuladas a estrutura do sujeito, o que nos leva a reverenciar que não existe uma mudança estrutural, mas uma conexão que enoda estrutura e gozo. Ainda, questionamos se é possível pensar no olhar a partir da rede social Facebook, isto é: o sujeito é olhado pelo objeto? Para tanto, trazemos como recorte duas tramas do filme Disconnect (Rublin, 2012) que nos auxiliam a pensar de que modo o olhar pode voltar-se para o sujeito nas redes sociais.

Finalizando este capítulo e também nosso argumento, atemo-nos em A Sociedade Escópica no contexto de rede à construção conceitual de ‘Sociedade Escópica’ de Antônio Quinet (2002/2004), revisitando a ‘Sociedade do Espetáculo’ de Guy Debord e a ‘Sociedade Disciplinar’ de Michel Foucault, referências para a elaboração. Consideramos que ao destacar suas características e decorrências, justificamos nossa escolha por essa ideia para considerarmos a sociedade contemporânea, abarcando aquilo que desenvolvemos anteriormente e contribuindo para se pensar a sociedade conectada. Neste sentido, desmembramos as duas propostas que sustentam a ‘Sociedade Escópica’ e avançamos para considerarmos a sociedade atual, em sua crescente vigilância social online e offline, assim como a crescente demanda por visibilidade emanada pelos conectados e instigada pelos aparelhos tecno(ideo)lógicos. Deste modo, buscamos entender e apontar, corroborando com as considerações postas neste e nos capítulos anteriores, de que modo o gozo escópico aparece e protagoniza nossa cultura.

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indicando que as contribuições da psicanálise são essenciais para que se possa compreender os desdobramentos no momento social presente, a implicação do sujeito nesta conjuntura e os possíveis efeitos nos laços sociais.

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CAPÍTULO I

AS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS

Especialista sem espírito, sensualista sem coração, e esta nulidade é tida como o supra-sumo da civilização (Goethe)

A investigação bibliográfica que iniciamos nos primórdios desta pesquisa, com intuito de entendermos a circunstância atual da sociedade, nos levou ao encontro de um sem fim de autores que nos auxiliariam neste processo. Entretanto, e não por acaso, encontramos na obra de alguns teóricos sociais perguntas e descompassos que podem enriquecer este trabalho. Como é de se esperar nas ciências humanas, especialmente nas sociais, não existe um universal que permeie as teorias e que possibilite uma proposta sem questionamento; o que existe é um emaranhado de dúvidas, de posições que marcam as diferentes leituras dos autores da sociedade contemporânea. Esta falta de unidade por vezes aparece enquanto um problema para os pensadores que se inquietam com a fragmentação do pensamento, indissociável de uma espécie de ‘sintoma’ que também aponta para a fragmentação da sociedade.

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É verdade que a psicologia individual relaciona-se com o homem tomado individualmente e explora os caminhos pelos quais ele busca encontrar satisfação para seus impulsos instintuais; contudo, apenas raramente e sob certas condições excepcionais, a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. (...) desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificável das palavras, é, ao mesmo tempo, também psicologia social. (Freud, 1921/2006, p.81)

Do mesmo modo, podemos perceber ao longo dos seminários de Lacan, a insistência em marcar a intrínseca relação entre o sujeito e o social, destacando a importância da cultura, do simbólico e do discurso na constituição subjetiva. O sujeito é efeito do significante e esta afirmativa também nos indica que não devemos nos alienar diante do que se passa no contexto histórico-social. Lacan ressalta a necessidade de um analista se atentar para a subjetividade de sua época:

(...) como poderia fazer seu ser o eixo de tantas vidas quem nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas num movimento simbólico. Que ele conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua de Babel, e que conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas. (Lacan, 1953/1998, p.322)

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1. Modernidade, modernismo e modernização

Se há necessidade de situarmos a modernidade, iremos concebê-la tendo como norte as formulações de Marshall Berman (1982/1986), que a considera a partir da implementação do capitalismo enquanto modo de produção e a divide em três momentos, sendo: 1) o início do século XVI ao fim do século XVIII; 2) a ‘onda revolucionária’ de 1790, marcada especialmente pela revolução Francesa e 3) a partir do século XX. Estes três momentos são marcados por um processo de evolução da modernidade, que irá apurá-la, até chegarmos ao seu estágio ‘final’ ou atual, marcado pela globalização mundial e pelo capitalismo tardio.

A modernização se instaurou há mais de quinhentos anos, desenvolvendo uma história e variedade de tradições próprias (Berman, 1982/1986). Na primeira fase de seu processo evolutivo, a modernidade tem um caráter experimental, onde as pessoas estão passando a vivenciá-la, com quase nenhum senso de comunidade moderna. Para Berman, Jean-Jacques Rousseau seria a ‘voz moderna’ desta primeira etapa, considerando-o como “matriz de algumas das mais vitais tradições modernas, do devaneio nostálgico à auto-especulação psicanalítica e à democracia participativa” (1982/1986, p.16). Rousseau foi quem utilizou pela primeira vez a palavra moderniste3 e em seu romance Júlia ou A Nova Heloisa (1761) podemos ver, a partir das descrições do jovem Saint-Preux, o tourbillon social, no qual se encontravam o personagem, o próprio Rousseau e a sociedade francesa à época. Saint-Preux escreve a Júlia sobre o que vivencia na vida metropolitana, indicando-nos os afetos diante da emergência da modernidade, como cita Berman (p.16-17):

(...) eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante de meus olhos, eu vou ficando aturdido. De todas as coisas que

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me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas perturbem meus sentimentos, de modo a fazer que eu esqueça o que sou e qual meu lugar. (Rousseau apud Berman, 1982/1986, p. 16-17)

Na segunda fase (talvez a que de fato mais simbolize alguma ruptura), encontramos o sentimento revolucionário desencadeado pela primeira grande revolta social que de fato questiona a velha ordem europeia, a Revolução Francesa de 1789 e que dá visibilidade para as transformações que ocorrem em várias esferas da vida pessoal, social e política. Antes desse momento, as ‘maiores’ nações da Europa ainda eram governadas pela monarquia, com apoio da nobreza e do clero. Todavia, a ‘burguesia’ ou a nova classe média, emergia pelo continente europeu, especialmente a partir da Revolução Industrial Inglesa, também fundamental para a origem da classe operária, que se concentrava nas cidades recém-industrializadas.

Ainda, antes de 1789, a burguesia se sentia enfurecida em manter, às suas custas, os privilégios da aristocracia da corte de Versalhes de Luís XVI e também os eclesiais. A França encontrava-se endividada e a burguesia procurava junto ao governo, ter seus interesses igualmente atendidos; a nobreza e o clero também haviam se revoltado, recusando a implementação pelo rei Luís XVI de pagamento de impostos sob suas propriedades.

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toma a França como um todo: camponeses saqueiam feudos, queimam castelos e mosteiros, títulos de propriedades privadas são destruídos, etc.. De fato, é quando o a propriedade feudal é substituída pela propriedade burguesa. Aos poucos, a revolução contagia a Europa – “quando a França espirra, a Europa inteira se resfria” (Metternich, 1832) –: há movimentos na Espanha, na Itália, na Grécia...

Como resposta aos movimentos revolucionários que se espalhavam pela Europa, formaram-se coligações preocupadas em contê-los. É o caso do Congresso de Viena, por exemplo, que em 1814 reunia diplomatas que se ocupavam em elaborar um novo mapa a fim de reprimir as revoluções, restaurar tronos às famílias reais que haviam sido derrotadas pelas tropas de Napoleão, estabelecer alianças com a burguesia, etc..

Todo este cenário europeu era ainda intensificado pelas transformações que refletiam na sociedade desde a Revolução Industrial. A Inglaterra, berço deste processo, era confrontada a todo tempo pelos problemas urbanos e sociais de diversas ordens, que atingiam mais diretamente a vida das pessoas da ‘nova’ classe baixa, oriunda de todo avanço moderno. Assim, numa espécie de complementação em detrimento do estabelecimento do sistema do capital, entre Revolução Industrial e Revolução Francesa, o senhor feudal foi substituído pelo capitalista industrial, sendo o proletariado o maior instrumento de produção. Temos então que, apesar das promessas revolucionárias de ‘liberdade’ do movimento francês, a revolução industrial inglesa, que também se disseminou, oferece o outro lado: aquele da alienação e exploração do trabalhador.

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Nota-se que no Discurso no Aniversário de “The People’s paper” (14/04/1856) Marx não se posicionava ‘contra’ a modernidade, o que buscava era que ‘homens de vanguarda’, os operários, tomassem a frente do poder e governassem, pois assim como as máquinas, os operários também eram uma invenção dos tempos modernos:

Nos nossos dias, tudo parece prenhe do seu contrário. Observamos que maquinaria dotada do maravilhoso poder de encurtar e de fazer frutificar o trabalho humano o leva à fome e a um excesso de trabalho. As novas fontes de riqueza transformam-se, por estranho e misterioso encantamento, em fontes de carência. Os triunfos da arte parecem ser comprados à custa da perda do carácter. Ao mesmo ritmo que a humanidade domina a natureza, o homem parece tornar-se escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Mesmo a luz pura da ciência parece incapaz de brilhar a não ser sobre o fundo escuro da ignorância. Todo o nosso engenho e progresso parecem resultar na dotação das forças materiais com vida intelectual e na redução embrutecedora da vida humana a uma força material. Este antagonismo entre a indústria e a ciência modernas, por um lado, e a miséria e a dissolução modernas, por outro; este antagonismo entre os poderes produtivos [productive powers] e as relações sociais da nossa época é um facto palpável, esmagador, e que não é para ser controvertido. (...) Sabemos que, para trabalharem bem, as novas forças da sociedade apenas precisam de ser dominadas por novos homens — e os operários são esses [novos homens]. Eles são tanto uma invenção dos tempos modernos como a própria maquinaria. (Marx, 1856/2007, s/p)4

Entretanto, como lembrou Herbert Marcuse (1964) muitas décadas depois, o trabalhador é cada vez mais seduzido pelo consumo e pelos bens materiais. Para ele, a sociedade bidimensional, que coloca em oposição capitalista e proletariado, perde sua força ao longo do processo de modernização e, portanto, a classe dominada torna-se menos contestadora. A sociedade torna-se unidimensional, i.e., sem opositores. Ao

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contrário de Berman, que condena esta posição de Marcuse, acreditamos que seu posicionamento relaciona-se muito mais a uma crítica à alienação produzida pelo sistema capitalista, numa espécie de equivalente a alienação fundamental formulada por Lacan (1969-70/1992), na qual o Outro é quem tem os meios de gozo.

Para Berman, os pensadores do século XIX, como Marx e Nietzsche, estavam divididos entre o entusiasmo e a animosidade da vida moderna, conflito que permitia saídas criativas e pensamentos elaborados. Em contraposição, os pensadores do século XX possuem uma concepção mais rígida, tanto para o ‘entusiasmo cego e acrítico’ ou sua condenação, tal como proferido pela perspectiva ‘neo-olímpica’, referida ao pensamento de direita de Weber e seguida por outros. E de que modo poderíamos entender o posicionamento dos pensadores do século XXI?

Na terceira e última fase da modernidade, datada a partir do século XX, Berman considera que o processo de modernização encontra-se estabelecido, expandido de forma global e atingindo esferas da arte e do pensamento. Considera-se que se trata de um período que marca o apogeu do pensamento moderno, ao mesmo tempo em que se pode dizer de sua fragmentação.

A obra freudiana é elaborada neste momento e contribui, entre tantas outras frentes, para a discussão do sujeito ao postulá-lo enquanto cindido entre sujeito inconsciente e sujeito consciente. Assim, Freud transpõe o cogito cartesiano, marco da filosofia moderna5. Além disso, Freud indica a relação intrínseca entre sujeito e social, apreendida a partir de sua escuta clínica.

Dentre as inúmeras contribuições a este respeito, destacamos os textos Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), O Futuro de uma Ilusão (1927), Mal-estar na Civilização (1930), Por que a Guerra? (1932), Moisés e o Monoteísmo (1939) nos quais encontramos em evidência a impossibilidade de se pensar sujeito e social enquanto duas instâncias separadas. Este é um ponto de suma importância para nossa tese e que abordaremos no capítulo seguinte, acrescentando a contribuição lacaniana que soma para melhor entendimento. Para tanto, destacamos sua indicação do sujeito como significante que se representa para outro significante, assim como a elaboração da relação entre sujeito e Outro e, mais além, com o desejo do Outro.

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Por hora, marcamos o esforço intelectual freudiano em entender os processos de construção e destruição da cultura a partir dos pressupostos psicanalíticos, como

registrou no pós-escrito (1935) de Um estudo autobiográfico (1924-25), onde evidencia que desde 1923 se interessava pelo tema:

Meu interesse, após fazer um détour de uma vida inteira pelas ciências naturais, pela medicina e pela psicoterapia, voltou-se para os problemas culturais que há muito me haviam fascinado, quando eu era um jovem quase sem idade suficiente para pensar. (Freud, 1935/2006, p.76)

Assim, em meio a um turbilhão de acontecimentos sociais que agitavam a agenda moderna, a obra freudiana pode auxiliar a compreensão de vários deles. Albert Einstein (1932), por exemplo, reconhece a relevância de Freud neste processo, dirigindo-lhe uma carta questionando sobre a possibilidade de livrar a humanidade da ameaça de guerra.

Embora Freud não tenha direcionado seu estudo ao tema da modernidade, podemos considerá-lo um pensador moderno que se ocupou em entender aquilo que se passava no psiquismo humano no âmbito singular e que, inevitavelmente, voltou-se a apreender a relação entre a constituição subjetiva e os aparelhamentos sociais. Entendemos que as aflições do modernismo, que se estendem no contemporâneo, podem ser lidas na obra freudiana.

Como sugere Pacheco Filho no artigo O frenesi teórico sobre o sujeito do capitalismo tardio (2012), a reflexão psicanalítica não deve ser tomada como uma investigação de aspectos específicos dos laços sociais em sociedades determinadas, “em grande parte das vezes o pensamento da psicanálise volta-se para teorizar um sujeito genérico (o sujeito humano) em suas relações com a estrutura transistórica da Linguagem” (s/p.).

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pode ser tomado como uma obra que busca indicar o ‘complexo de Édipo’ nas formações tribais do passado. Ao contrário, o recurso freudiano ao totemismo, que culmina na elaboração do mito, teria um caráter crítico à sociedade burguesa moderna. Vemos em Totem e Tabu que a partir da morte do pai primevo, soberano e absoluto, pelos membros do clã – seus filhos –, se instituem leis sociais de regulação, que culminam no horror ao incesto – um dos ‘crimes’ do pai – e na condenação do parricídio. Para Safatle, este mito nos diz que nas relações sociais os sujeitos agem como se carregassem o peso do ‘assassinato do pai’: “que nada mais é do que a encarnação imaginária de representações fantasmáticas de autoridade e soberania” (Safatle, 2009, p.367). O que fica como herança do parricídio na horda primeva, do vazio deixado pela morte do pai primevo, é a articulação do vínculo entre enunciação do poder e apropriação do gozo: “O mito do pai primevo é assim a representação imaginária própria a um tempo que vê a essência de todo poder como regulação e administração biopolítica da satisfação subjetiva” (ibidem., p.369). Esta dinâmica, que concede às figuras ou instituições, a responsabilidade pela “distribuição desigual de satisfação subjetiva” (ibidem.), pode ser vista nos sujeitos modernos à época de Freud e nos contemporâneos, por uma razão de constituição, não exatamente de tempo. O que indica Freud em Totem e Tabu e também desenvolve em Psicologia das Massas e Análise do eu (1921), é que a relação de poder é fruto de uma exigência constitutiva dos sujeitos, o que justificaria o fascínio das massas por instituições como a igreja e o exército. Obviamente, a relação se estabelece através de identificações imaginárias, como desenvolve Freud em seu texto de 1921, e não somente através da referência ao líder soberano. A questão é conhecida e relevante, mas não julgamos necessário nos alongarmos aqui.

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culpabilidade – o que foi colocado desde Totem e Tabu – e que também sustentam a religião. Esta condição social permite a Safatle elaborar que vivemos em uma modernidade bloqueada, exatamente porque campos como o da política, família, dos processos de constituição subjetiva e da reprodução da vida material se organizam vinculados a estas ideias de cunho religioso (Safatle, 2009). E, antecipando uma discussão que trazemos no capítulo seguinte, é possível se pensar que a ‘pós -modernidade’ possibilita esta ruptura com estes valores de viés constitutivo?

Em Mal-estar na civilização (1930), Freud aborda os avanços do homem na cultura, desde o domínio do fogo até a construção de ‘próteses’ que auxiliam a atingir o que parecia ser somente possível aos ‘deuses’: “O homem, por assim dizer, tornou-se uma espécie de ‘Deus de prótese’” (Freud, 1930/2006, p.98). Ele também descreve que o avanço tecnológico que aproxima o homem de deus não o faz mais feliz. Poderíamos prolongar esta afirmativa e dissertarmos a este respeito, pois sabemos da relevância desta premissa, mas prosseguiremos. Este ainda será um assunto que aparecerá seja nas entrelinhas, seja diretamente nos capítulos desta tese.

A impossibilidade de plena satisfação pode ser considerada um motor para as transformações e ‘revoluções’. Por exemplo, ao voltarmos aos acontecimentos da revolução Francesa ou ao fim da segunda guerra mundial e às décadas que a sucedem, encontraremos em evidencia um movimento de contestação – ou uma ‘onda revolucionária’.

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pergunta que pode se encaixar para os acontecimentos sociais que ocorrem em vários países do mundo, inclusive no Brasil.

Para Anthony Giddens (1991), estamos desorientados, com a sensação de não termos o controle e de não compreendermos exatamente o que se passa ao nosso redor (e quando é que tivemos pleno domínio?). O momento que sucede os movimentos de 1968, não seria exatamente outro momento social, ao contrário, “estamos alcançando um período em que as consequências da modernidade estão se tornando mais radicalizadas e universalizadas do que antes” (Giddens, 1991, p.9). A modernidade se transformou tanto em sua extensionalidade – no sentido de estabelecer interconexão social de forma global – quanto em sua intensionalidade – na medida em que estas mudanças são percebidas também no íntimo e pessoal da existência. Ressaltamos a afirmação de Giddens, que precede ao advento da internet, para concordarmos que enquanto modernos, é fato que mudanças extensivas e intensivas ocorrem de maneira efusiva em neste nosso tempo.

Se para Berman a ‘pós-modernidade’ tenta promover uma ruptura definitiva com o moderno, Giddens é ainda mais ‘otimista’ e considera que ainda há resquícios de continuidade do tradicional no moderno, sendo um equívoco querer separá-los de forma abrupta. O que mostra também a impossibilidade de se ignorar o contexto histórico das consequências do social, como se um rompimento de ordem deixasse tudo para trás, fazendo emergir uma tela em branco para que se recomeçasse de outra forma. Mesmo quando as mudanças são radicais, dramáticas e extensivas, é impossível negar a história, falar do “fim da história”. A historicidade é necessária para que se possa romper com o passado: “A historicidade, na verdade, nos orienta primeiramente para o futuro” (Giddens, 1991, p.49).

1.1. E depois, a pós-modernidade?

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que dizia de uma vanguarda da poesia, que pontuava o ‘fim da grande narrativa’. Entretanto, nesta ocasião a palavra não caiu em uso e somente décadas depois teve seu significado atribuído muito mais a uma questão de época, com temos agora.

O economista britânico Arnold Toynbee, no oitavo volume (1954) de seu Study of History – que começou a ser escrito em 1934 –, afetado pelos efeitos da Segunda Guerra Mundial, coloca que a época que se inicia com a guerra franco-prussiana6, no final do século XIX, seria a ‘idade pós-moderna’. Esta nova era marcaria a ascensão da classe operária industrial, enfraquecendo o poder da burguesia moderna, e “o convite de sucessivas intelligentsias fora do Ocidente a dominar os segredos da modernidade e voltá-los contra o mundo ocidental”, como o Japão de Meiji, a Rússia bolchevique, a Turquia de Mustafá Kemal e a China maoísta (Anderson, 1998/1999, p.11).

Também na década de 1950, o poeta Charles Oslon referiu-se a um mundo ‘pós -moderno’, ou ‘pós-Ocidente’, posterior a Revolução Industrial, datado pela primeira metade do século XX. Para Anderson, em Oslon, a concepção de ‘pós-moderno’ seria afirmativa: “com Oslon, uma teoria estética ligou-se a uma história profética, com uma agenda que aliava a inovação poética à revolução política na tradição clássica das vanguardas europeias do período anterior à guerra” (ibid., p.18).

Já em 1959, o sociólogo Charles Wright Mills e o crítico Irving Howe, retomam o termo, utilizando-o em outro contexto. Para Mills, o pós-moderno diz respeito a uma época de falência de ideais modernos, como o liberalismo e o socialismo, sendo substituída por uma era de conformidade vazia. Howe refere-se ao pós-modernismo para descrever a deficiência literária, incapaz de traduzir os conflitos do moderno. Na década de 1960, o caráter despolitizado do ‘pós-moderno’ é enfatizado pelo crítico Leslie Fiedler que como proposta de ruptura fazia um “apelo à emancipação do vulgar e à liberação dos instintos” (ibid., p.19).

Este passeio histórico pelo ‘pós-moderno’ não o define, mas se faz necessário ao indicar a origem e o caminho do termo, antes que nos dediquemos às definições mais disseminadas, que por vezes nos induzem a pensar que a origem do ‘pós-moderno’ teria sido dada a partir das elaborações de Jean-François Lyotard. Não por caso, abrimos esta

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parte do trabalho indicando a impossibilidade do ‘pós-moderno’ ser entendido como um movimento da ordem de um corte epistemológico, tal como se propõe.

O trabalho de Lyotard, publicado em La Condition Postmodern7 (1979/1988), certamente é o mais difundido sobre o tema, do qual derivam inúmeros estudos. É neste texto que encontramos uma discussão mais direta sobre a pós-modernidade, que aparece como sendo um espelho do alicerce sobre o qual se fundam as ideias pós-modernas – que discutiremos adiante –que vimos surgir desde a década de 1930. Para Slavoj Žižek (2009/2011), Lyotard eleva o termo que vinha sendo utilizado às tendências artísticas novas da literatura e arquitetura, para denominação de uma época. Este ato teria efetivamente colocado o ‘pós-modernismo’ como “um novo Significante-Mestre que introduzia uma nova ordem de inteligibilidade para a multiplicidade confusa da experiência histórica” (p.53).

O livro de Lyotard é um “escrito de circunstância” proposto ao Conselho das Universidades junto ao governo do Quebec (Canadá) e seu objetivo principal era desenvolver um relatório sobre o conhecimento contemporâneo, isto é, sobre o ‘saber8

nas sociedades mais desenvolvidas. A pós-modernidade emerge em Lyotard como um paradigma da sociedade contemporânea, a partir de seu entendimento fundado em transformações efetivas na ideia de ‘verdade’ – na decadência deste conceito – que atingem diretamente todas as esferas sociais, na medida em que, com esta nova condição, as regras do jogo de produção cultural também se modificam. A condição pós-moderna “designa o estado da cultura após as transformações que afetaram as regras dos jogos da ciência, da literatura e das artes a partir do final do século XIX” (Lyotard, 1979/1988, p.xv).

Lyotard coloca que o ‘saber cientifico’ é uma espécie de discurso sobre o qual incidem informações tecnológicas que afetam suas funções:

7 O título original francês é La Condition Postmodern e no Brasil encontramos as duas traduções: A condição pós-moderna e O Pós-moderno. A edição nacional consultada traduz O pós-moderno, mas optamos por manter o título original francês.

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É razoável pensar que a multiplicação de máquinas informacionais afeta e afetará a circulação dos conhecimentos, do mesmo modo que o desenvolvimento dos meios de circulação dos homens (transportes), dos sons e, em seguida, das imagens (media) o fez. (Lyotard, 1979/1988, p.4)

A condição pós-moderna, diretamente associada à ascensão tecnológica (especialmente a cibernética), seria a deslegitimização do saber, onde o temos como produzido para ser comercializado, consumido para ser valorizado: trata-se de sua mercantilização. E isso faz com que a ‘verdade’ seja concebida enquanto produto de um discurso bem-sucedido, ou seja, a verdade científica associa-se muito mais ao critério de eficácia.

A verdade (entendemos que Lyotard a compreende enquanto um ‘saber absoluto’) marca uma diferença entre o moderno e o pós. Na modernidade as ‘verdades’ e as ‘leis’ seriam cunhadas pela ciência – a partir de um conhecimento atrelado a elaborações metafísicas – e na pós-modernidade não haveria um regulador de verdade, o que acarretaria construções atreladas à dúvida ou a interpretação. Vale destacar que só depois do Iluminismo o ser humano banca seu conhecimento. Antes disso, o saber era legitimado pela igreja católica, que proferia qual era ‘a verdade’.

Como ressalta Berman (1982/1986), tanto para Nietzsche quanto para Marx “as correntes da história moderna eram irônicas e dialéticas: os ideais cristãos da integridade da alma e a aspiração à verdade levaram a implodir o próprio Cristianismo” (p.20). Para Nietzsche isto resultou na ‘morte de Deus’ e no ‘advento do niilismo’ e, por consequência, condenou a humanidade ao vazio. Esta falta de ‘valores’ que regularizam faz com que o ser humano busque formular suas próprias regras, já que se encontram numa espécie de caos. O passado histórico é apenas um referencial para as fantasias que já não servem mais no ‘homem moderno’. Nietzsche acreditava no ‘homem do amanhã’ como o próprio arquiteto de seus valores. Seriam estas ideias as condutoras do pensamento que permite o desenrolar de dezenas de teorias do sujeito pós-moderno?

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tentam dar sentido ao mundo, aproximando a ciência pós-moderna à formulações ideológicas. Este movimento é claramente percebido nas universidades:

As delimitações clássicas dos diversos campos científicos passam ao mesmo tempo por um requestionamento: disciplinas desaparecem, invasões se produzem nas fronteiras das ciências, de onde nascem novos campos. A hierarquia especulativa dos conhecimentos dá lugar a uma rede imanente e, por assim dizer, ‘rasa’, de investigações cujas respectivas fronteiras não cessam de se deslocar. As antigas ‘faculdades’ desmembram-se em institutos e fundações de todo tipo, as universidades perdem sua função de legitimação especulativa. (...) elas se limitam a transmitir os saberes julgados estabelecidos e asseguram, pela didática, mais a reprodução dos professores que a dos cientistas. (Lyotard, 1979/1988, p.71/72)

Podemos ponderar que este também era um dos sentidos do que Lacan (1968-1969/2008) descreveu como “jeito de feira” das universidades, ao menos uma década antes de Lyotard, na ocasião em que elaborava o conceito de mais-de-gozar, atrelado ao de mais-valia em Marx.

Recorrendo a Colette Soler (2010), corroboramos que no discurso da universidade o significante mestre perdeu sua função de princípio de ordem e de legitibilidade. Nosso tempo teria se tornado ilegível, com uma multidão de autores que não convencem suficientemente e, assim, vivemos na “Babel das leituras” (Soler, 2010, p.258). As teorias agora se sustentam em sua eficácia social, isto é, em sua funcionalidade. Ora, no sentido althusseriano é como se houvessem várias ideologias, num conjunto de leituras hipotéticas diferenciadas por sua eficiência, o que não coloca fim na concepção de verdade. Agora temos ‘verdades’ ideológicas tentando dar conta do mundo.

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Figura 4 - Um par de sapatos, Van Gogh, 1886
Figura 5 - Um par de sapatos, Van Gogh, 1886
Figura 6 - Diamond dust shoes, Andy Warhol, 1980
Figura 8 - Esquema do buquê invertido
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Referências

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