RESPONSABILIDADE CONTRATUAL OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR COMPRA E VENDA DE COISA ALHEIA DECLARAÇÃO NULIDADE

Texto

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Tribunal da Relação de Guimarães Processo nº 16/19.3T8GRD.G1 Relator: ALEXANDRA VIANA LOPES Sessão: 01 Julho 2021

Número: RG

Votação: UNANIMIDADE Meio Processual: APELAÇÃO

Decisão: PARCIALMENTE PROCEDENTE

RESPONSABILIDADE CONTRATUAL OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR

COMPRA E VENDA DE COISA ALHEIA DECLARAÇÃO NULIDADE

REGIMES DE RESPONSABILIDADE PRÉ-CONTRATUAL E CONTRATUAL

DOLO DANOS EMERGENTES LUCROS CESSANTES

INTERESSE CONTRATUAL NEGATIVO

INTERESSE CONTRATUAL POSITIVO

Sumário

Sumário da Relatora (art.663º/7 do C. P. Civil):

1. Não é nula a sentença, por omissão da apreciação de questão que devesse conhecer, nos termos do art.615º/1-d) do C- P. Civil, em referência ao art.608º do C. P. Civil, quando a questão foi conhecida no despacho saneador, que não sofreu recurso e encontra-se transitado em julgado (art.619º ss do C. P. Civil).

2. A responsabilidade contratual pela obrigação de indemnizar danos

decorrentes de celebração de contrato de compra e venda de coisa alheia, que tenha sido declarada nulo nos termos do art.892º do C. Civil, encontra-se regulada nos arts.898º e 899º do C. Civil e integra regimes de

responsabilidade pré-contratual e contratual.

3. No regime da previsão indemnizatória em caso de “dolo”, previsto no art.898º do C. Civil:

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3.1. O “dolo” do vendedor, usado em contraposição à boa-fé do comprador, deve entender-se, em harmonia com o sistema, como má-fé, tida como o

conhecimento que a coisa era alheia ou como devendo ter conhecimento que a coisa era alheia, face às circunstâncias do caso, presumindo-se a culpa e a má- fé do vendedor na venda de coisa alheia, termos do art.799º do C. Civil,

cabendo a este ilidir a presunção.

O Banco X, a quem foi transferido património do Banco X, nos termos da deliberação de 3 de agosto de 2014 do Banco de Portugal, não ilide a

presunção de culpa do art.799º do C. Civil, por ter vendido bem alheio (por integrar prédio expropriado), apesar da propriedade do bem estar inscrito em seu nome e de ser entidade distinta do Banco X (que interveio no processo de expropriação e nomeou à penhora o prédio expropriado): por ter deveres de averiguação da situação jurídica e física do prédio a vender junto do Banco X, sobretudo quando constatou e foi alertado sobre a discrepância entre a

descrição do mesmo no anúncio da venda e no registo e matriz predial; por ter prestado informações confirmatórias da identificação e composição do prédio a vender, que foi julgado alheio por sentença transitada em julgado, e não alegou e provou que procedeu a diligências junto do Banco X para confirmar as dúvidas sobre o prédio, que não teve elementos para aceder ao

conhecimento da sua alienidade e prestar informações distintas das prestadas.

3.2. A indemnização pela venda de coisa alheia em caso de contrato nulo, sem que a nulidade seja sanada, refere-se, de acordo com o direito constituído do art.898º do C. Civil, aos danos emergentes e aos lucros cessantes que não teriam sido causados ao comprador se este não tivesse celebrado o contrato nulo (o que integra a interesse contratual negativo), lucros estes que não integram as expectativas de ganho com o negócio, a sua validade e

cumprimento (próprias do interesse contratual positivo).

Texto Integral

ACORDAM NO TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE GUIMARÃES

I. Relatório:

Na presente ação declarativa com processo comum, movida por P. M. contra Banco X S.A. e Imóvel X – Mediação Imobiliária, Ld.ª:

1. O autor:

1.1. Pediu a condenação dos réus, conjunta ou solidariamente:

a) A restituir o montante de € 37 500,00, em virtude da declaração de

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nulidade da compra a venda do prédio descrito no artigo 1º da petição inicial, acrescido de respetivos juros, contados à taxa legal comercial desde a outorga da escritura pública.

b) A restituir o montante de € 2 585,00 pagos pelo autor a título de impostos, encargos e despesas com a escritura pública de compra e venda, acrescido de respetivos juros contados à taxa legal comercial desde a outorga da escritura pública.

c) A pagar os prejuízos patrimoniais sofridos pelo autor com as obras

efetuadas no prédio identificado no art.º 1º da petição inicial, descritas nos artigos 15º e 16º do mesmo articulado, no valor de € 46 129,54, acrescido de respetivos juros contados à taxa legal comercial desde a outorga da escritura pública.

d) A pagar indemnização por danos não patrimoniais, descritos nos artigos 75º a 90º da p. i., em valor não inferior a € 10 000,00.

e) A relegar para liquidação de sentença indemnização pela frustração das expectativas de lucro com a venda para sucata do pavilhão e exploração e venda das 3 captações de água existentes no prédio objeto da compra e venda.

1.2. Alegou, para o efeito:

a) Que comprou ao 1º réu, com intervenção da 2ª ré na qualidade de mediadora imobiliária, por escritura pública, o imóvel descrito no número .../...30 da C. R. Predial ... e inscrito na matriz sob o nº ..., negócio que, todavia, foi declarado nulo por sentença, transitada em julgado, proferida no processo comum n.º 800/16.0T8BRG do Juízo Central Cível de Guimarães – Juiz 4 (intentada pela “Infraestruturas ..., S.A.”, que reivindicou a propriedade do prédio e invocou a invalidade do negócio), por incidir sobre bem alheio, sentença em relação à qual reproduziu os factos aí provados em 18 e 21 a 51.

b) Que, face à nulidade da venda, lhe deve ser restituído o preço e deve ser indemnizado de danos, ainda que não haja dolo do vendedor (pelo interesse contratual negativo ou de confiança, por nos preliminares e na formação do negócio as partes estarem obrigadas a boa-fé, nos termos do art.227º do C.

Civil, não observada), nos seguintes termos:

b1) O preço que pagou ao 1º réu, nos termos dos arts.289º e 894º do C. Civil ou 473º do C. Civil, e as despesas inerentes à outorga da escritura e impostos.

b2) As despesas de limpeza de terreno e de obras de aberturas de valas e de construção e manutenção de muros de suporte, que efetuou no prédio de boa fé, nos valores parciais de discrimina a integram o valor global de € 46 129, 54, obras que que beneficiaram as Infraestruturas ... e aumentaram o valor do prédio e que empobreceram o autor.

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b3) O valor comercial do pavilhão que, se não conseguisse legalizar, iria

vender como ferro velho, e o valor da exploração ou venda das 3 captações de água existentes no prédio, por se terem frustrado as suas legítimas

expectativas de lucro, nos termos do art.564º do C. Civil.

b4) Os danos do incómodo e do profundo desgosto sofridos com o

compromisso deste projeto de vida, nos termos do art.496º do C. Civil, não excluído da responsabilidade contratual dos arts.798º e 804º do C. Civil.

2. A Ré “Imóvel X” contestou a ação (fls. 91 e ss.), na qual:

2.1. Defendeu-se:

a) Por impugnação da sua responsabilidade na formação da vontade negocial do autor, invocando o desconhecimento das circunstâncias subjacentes à declaração de nulidade do negócio e mantendo que cumpriu todas as obrigações inerentes à sua função de mediadora.

b) Por exceção, defendendo que beneficia da autoridade do caso julgado da decisão proferida no âmbito do processo comum n.º 800/16.0T8BRG do Juízo Central Cível de Guimarães – Juiz 4, intentada pela “Infraestruturas ..., S.A.”

contra P. M. (aqui autor) e “Banco X S.A.” (aqui 1º réu), na qual intervieram a título acessório as sociedades “Imóvel X” (aqui 2ª Ré) e “Y – Gestão e

Exploração de Franquias e Representações, S.A.” (ação na qual: a autora reivindicou a propriedade do prédio descrito no número .../...16 da C. R.

Predial ..., pedindo a declaração de nulidade do negócio titulado por escritura de compra e venda que teve por objeto o imóvel descrito no número .../...30 da C. R. Predial ..., por incidir sobre bem alheio, e reclamando a indemnização por prejuízos sofridos; o aí Réu P. M., aqui Autor, deduziu reconvenção,

pedindo a condenação da aí Autora “Infraestruturas ..., S.A.” a pagar-lhe a quantia de € 50 129,54 correspondente a benfeitorias realizadas no prédio objeto do negócio impugnado; foi proferida sentença transitada em julgado proferida nos aludidos autos, em que o pedido foi julgado procedente na parte referente à reivindicação e à declaração da nulidade da venda, improcedente na parte da indemnização, e o pedido reconvencional foi julgado integralmente improcedente), por entender: que a realidade fática já julgada e transitada em julgado não pode ser objeto de nova decisão; que há contradição entre factos provados nessa decisão e os factos alegados nesta ação como causa de pedir, que não podem ser objeto de nova prova; que não havendo nova causa de pedir, deve a ré ser absolvida da instância.

2.2. Suscitou incidente de intervenção acessória provocada da W – Companhia de Seguros, S.A., fundado em contrato de seguro de responsabilidade civil decorrente do exercício da sua atividade de mediação imobiliária.

3. O Banco X, S.A. contestou a ação (fls. 108 e ss.), na qual:

3.1. Invocou a inadmissibilidade do pedido de condenação simultânea dos

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réus de forma solidária e também de forma conjunta, defendendo ocorrer uma exceção e dever ser absolvido da instância, nos termos dos arts.577º e 578º do C. Civil.

3.2. Defendeu a falta de cumprimento do ónus de alegação de factos quanto ao pedido e) de liquidação em execução de sentença, entendendo não haver elementos para o disposto no art.609º/2 do C. P. Civil, devendo o pedido ser julgado improcedente.

3.3. Declarou aceitar toda a factualidade da petição inicial julgada provada no processo n.º 800/16.0T8BRG, por força do caso julgado (indicado no art.580º do C.P. Civil) e do valor extraprocessual das provas (sustentado no indicado art.421º do C. P. Civil), julgando reproduzidos os factos provados nesse processo nos nº8, 18 a 22 e 33, factualidade que defendeu integrar uma situação culpa do comprador: por saber que o prédio examinado tinha área superior àquele que iria adquirir, que haveria um erro e uma impossibilidade do prédio que iria comprar ser aquele que visionou (9 479 m2 e não os 4 160 m2); que fez obras em área correspondente ao triplo da área comprada, dando causa exclusiva aos danos sofridos ou, pelo menos, contribuindo

decisivamente para esses danos (triplicando o valor que seria o do alegado prejuízo se se tivesse confinado à área correspondente à do prédio que declarou comprar), devendo a indemnização ser totalmente excluída ou reduzida a valor não superior a 1/3 do valor.

3.4. Defendeu ocorrência de uma exceção de caso julgado ou, caso assim não se entendesse, de uma exceção de autoridade de caso julgado, por nessa

sentença referida em 3.3. se ter afirmado (em termos que reproduz) que nessa ação o Banco X não poderia ser condenado nos prejuízos sofridos pelo autor sob pena de violação do art.609º/1 do C. P. Civil, nem poderia determinar-se a medida da “conculpa” do réu, nos termos do art.570º do C. Civil, por saber que o prédio onde andou a fazer os trabalhos tinha uma área correspondente a mais do triplo daquela declarada comprar no contrato de compra e venda.

3.5. Declarou defender-se por impugnação.

3.6. Pediu a improcedência dos pedidos, com exceção do constante da alínea a), exclusivamente quanto ao capital de € 37 500,00.

4. Admitida a intervenção acessória provocada da “W” (fls. 121), esta apresentou contestação (fls. 126 e ss.), na qual:

4.1. Deduziu as exceções: dos efeitos do caso julgado da decisão transitada do processo n.º 800/16.0T8BRG, que decidiu apenas, como efeitos da nulidade, restituir o preço e indeferir a indemnização; o erro na forma do processo quanto ao primeiro pedido, uma vez que, tendo o mesmo já sido decidido no referido processo, cabia apenas instaurar ação executiva.

4.2. Impugnou factos, defendendo que o Banco X é que colocou o bem à

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venda, que antes de si o Banco X teve conhecimento que o bem fora expropriado (pois interveio e recebeu indemnização no processo de

expropriação, apesar disso instaurou uma execução em que nomeou o bem expropriado à penhora e teve conhecimento dos embargos de terceiro que foram no mesmo foram deduzidos pela expropriante), que a ré cumpriu as suas obrigações na mediação do negócio da 1ª ré, que não foram alegados factos integrativos da sua responsabilidade, maxime, do conhecimento que a 1ª ré não tinha legitimidade para vender.

4.3. Caracterizou o contrato de seguro celebrado com a 2ª ré, defendeu o limite da responsabilidade contratual da interveniente aos danos

exclusivamente patrimoniais e ao valor máximo de cobertura de € 150 000,00.

5. A 2ª ré juntou articulado (fls. 147 e ss) respondendo à contestação da interveniente, o que mereceu desta contraditório (fls. 152 ss).

6. O autor, notificado para o efeito, tomou posição sobre as exceções suscitadas nas contestações (fls. 156 e ss), defendendo:

a) Que o pedido em relação aos réus deve entender-se feito em relação a uma condenação conjunta e, subsidiariamente, em relação a uma condenação solidária, de que pede retificação.

b) Que os danos foram alegados, para além de toda a petição inicial, nos arts.66º a 68º.

c) Que, quanto à exceção de caso julgado e quanto à autoridade do caso julgado: não existe identidade de pedido e de causa de pedir para a exceção de caso julgado e não pode haver autoridade de caso julgado com o que não foi discutido, dirimido e definido; o pedido indemnizatório formulado pelo réu na 1ª ação com base no interesse contratual negativo, com base na validade do contrato, não preclude a possibilidade de apreciar pretensão sustentada na mesma factualidade mas com fundamento em violação do interesse contratual positivo, com base na invalidade do contrato, e, também, não foi deduzido pedido reconvencional contra o Banco X nessa ação (nem seria admissível a dedução de pedido contra co-réu); a presente ação pede a condenação dos réus com base em factos assentes em parte na ação anterior mas que em nada contende com a causa de pedir e o pedido da ação anterior.

d) Que não existe erro na forma de processo.

7. Foi proferido despacho na fase de saneamento (fls. 160 e ss), o qual:

7.1. Admitiu a retificação da petição inicial referida em I- 6-a) supra, admitiu o requerimento de resposta junto pela 2ª ré a 17.06.2019.

7.2. Dispensou a realização da audiência prévia.

7.3. Declarou prejudicada a questão da inadmissibilidade da condenação solidária e conjunta dos réus.

7.4. Declarou julgar parcialmente procedente a exceção suscitada pela 2ª ré e

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pela interveniente: declarando “verificado o caso julgado relativamente” ao pedido da alínea a) e em relação ao 1º réu Banco X, que absolveu da instância em relação a esse pedido; declarando “não preenchidos os pressupostos do caso julgado” quanto à al.a) no que se refere à segunda ré e quanto aos demais pedidos, entendendo que quanto ao pedido c) havia identidade de pedido (entre o pedido de pagamento de obras de € 46 129, 54 desta ação e o pedido de condenação da reconvinda na 1ª ação no pagamento de € 50 129, 54 de benfeitorias), mas já não havia identidade clara quanto à causa de pedir (por, apesar de haver coincidência de factos quanto à construção,

incorporação de materiais e de mão de obra, a sentença limitou-se a apreciar a obrigação de restituição do preço e não tomou posição sobre a titularidade do direito ao reembolso com os custos que o réu suportara com obras e trabalhos, considerando que apesar de não haver dúvida que o Banco X deu causa às despesas do réu, não pode ser condenado sob pena de violação do art.609º do C. P. Civil ou à determinação da medida de culpa concorrente do réu), nem identidade entre sujeitos (uma vez que na ação pretérita o pedido reconvencional foi dirigido contra a autora/reconvinda Infraestruturas ..., SA e nesta ação foi dirigido contra o Banco X, SA e contra o Imóvel X- Mediação Imobiliária, SA) e sintetizando em relação aos demais pedidos que excedem a alínea a)- «Não há caso julgado, por falta de repetição de partes, e também de pronúncia quanto à respetiva causa de pedir, entre os demais pedidos da presente acção e a decisão do processo n.º800/16.0T8BRG».

7.5. Julgou improcedente a exceção de erro na forma do processo.

7.6. Fixou o objeto do litígio, identificou a matéria assente por acordo e documento, definiu os temas da prova e apreciou os requerimentos probatórios das partes.

8. A interveniente W, por requerimento de 12.12.2019, reclamou do despacho- saneador, na parte em que deu como assente o teor do contrato de seguro celebrado entre a 2ª Ré e a Interveniente (fls. 182 e ss.).

9. O Banco X, no mesmo dia 12.12.2019, apresentou articulado superveniente, no qual: alegou ter ocorrido, depois de proferido o despacho-saneador, facto extintivo do direito arrogado pelo autor na alínea a) do pedido, que consistiu no pagamento, pelo 1º réu ao autor, do valor de € 37 500,00 em que foi

condenado por sentença proferida no processo n.º 800/16.0T8BRG; concluiu, pedindo a absolvição do 1º réu do pedido vertido na alínea a) da inicial (fls.

185 e ss.).

10. Em face do articulado superveniente do Banco X, a W pediu também a sua absolvição do pedido constante da alínea a) (fls. 198).

11. Por requerimento de 16.01.2020 (fls. 202 e ss.), o autor requereu a ampliação do pedido nos valores de € 6 885,00 e de € 1 920,00, referentes,

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respetivamente, a custas de parte e taxas de justiça que pagou no processo n.º 800/16.0T8BRG, bem com dos valores que vierem a ser apurados na conta final a elaborar no mesmo processo.

12. Realizou-se a audiência de discussão e julgamento na data designada para o efeito, com observância do legal formalismo, tendo, no início da primeira sessão (cfr. ata de 17.01.2020 – fls. 223 e ss.), sido:

a) Julgada procedente a reclamação ao saneador apresentada pela W,

determinando-se a eliminação da referência às cláusulas gerais do contrato de seguro, feita na alínea iii. da matéria assente.

b) Declarada supervenientemente inútil a lide quanto ao pedido de pagamento da quantia de € 37 500,00 formulado na alínea a), mantendo-se, todavia, a parte referente ao pagamento pela “Imóvel X” dos respetivos juros

contabilizados à taxa comercial desde a outorga da escritura pública.

c) Foi admitida a ampliação do pedido requerida pelo Autor no dia 16.01.2020, atenta a superveniência dos factos que lhe servem de fundamento.

d) Foi admitida a tomada de declarações de parte à pessoa do autor.

13. A 23 de setembro de 2020 foi proferida sentença, na qual:

13.1. Foram definidas as seguintes questões a decidir:

«1. Se os Réus são contratual / extracontratualmente responsáveis perante o Autor pela reparação dos danos emergentes e / ou lucros cessantes e por danos não patrimoniais que este haja sofrido em resultado da declaração de nulidade do negócio de compra e venda descrito em 1º da p.i.;

2. Em caso de resposta afirmativa à questão anterior se, e em que medida, se verifica responsabilidade conjunta ou solidária dos Réus perante o Autor.».

13.2. Foi proferida a seguinte decisão:

«Pelo exposto, julgo:

A.

Parcialmente procedente o pedido da acção, condenando o Réu Banco X, S.A. a pagar ao Autor as quantias:

- de € 22.889,90 (vinte e dois mil, oitocentos e oitenta e nove euros e noventa cêntimos), acrescida de juros calculados à taxa legal, desde a data da citação até efectivo e integral pagamento;

- de € 6.885,00 (seis mil, oitocentos e oitenta e cinco euros);

- de € 1.000,00 (mil euros), acrescida de juros calculados à taxa legal desde a presente data, até efectivo e integral pagamento;

- a liquidar em execução de sentença referente às custas processuais a

suportar pelo Autor no processo n.º 800/16.0T8BRG, a determinar de acordo com a conta a elaborar no final daqueles autos;

- a liquidar em execução de sentença, correspondente ao valor de venda do pavilhão como ferro velho e das três captações de água.

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B.

Parcialmente improcedente a presente acção, absolvendo:

- o Réu Banco X S.A., da parte restante dos pedidos formulados pelo Autor;

- A Ré Imóvel X – Mediação Imobiliária, Ld.ª, dos pedidos formulados pelo Autor.

*

Custas por Autor e 1º Réu, na proporção do decaimento (art.º 527º do CPC).».

14. O Banco X interpôs recurso da sentença referida em I- 13, no qual apresentou as seguintes conclusões:

«I - O Réu Banco X S.A., ora Recorrente, não pode conformar-se quer com a decisão sobre a matéria de facto tida como provada e não provada, quer do sentido da aplicação do direito ao caso sub judice, afigurando-se-lhe esta Decisão, com o devido respeito e salvo entendimento em contrário, como sendo ilegal, pois que entende que não terá sido feita uma correta

interpretação e aplicação das normas jurídicas pertinentes.

II - Em primeiro lugar, cumpre referir que, aquando da sua contestação, o Réu Banco X, S.A. – ora Recorrente –, a Ré Imóvel X – Mediação Imobiliária, Lda. e a Interveniente W – Companhia de Seguros, S.A., defenderam-se por exceção, invocando, designadamente e entre o mais, o caso julgado e a autoridade do caso julgado.

III - Em sede de Despacho Saneador, o Tribunal a quo analisou expressamente

“Do caso julgado” (sic. com destaque do Recorrente), julgando o mesmo procedente quanto ao Recorrente e improcedente quanto à Ré Imóvel X – Mediação Imobiliária, Lda. e à Interveniente W – Companhia de Seguros, S.A., não fazendo qualquer referência e efetivamente não tendo por objeto a

invocada exceção da autoridade do caso julgado.

IV - Por outro lado, a autoridade do caso julgado que foi suscitada pelos Réus, designadamente pelo ora Recorrente, não foi apreciada nem no Despacho Saneador – que conheceu da exceção do caso julgado – nem na Sentença a quo.

V - Nestes termos, entende o Recorrente, sempre com o devido respeito por diversa opinião, que a falta de pronúncia do Mm.º Juiz do Tribunal a quo relativamente à invocada autoridade do caso julgado, configura

nulidade nos termos do disposto na 1.ª parte da al. d), do nº 1 do artigo 615.º do Código de Processo Civil, o que expressamente se invoca e se requer seja deferido, julgando-se nula a Sentença a quo, com todas as consequências legais.

Sem prescindir,

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VI - Não se conforma o R. com a matéria de facto dada como provada, por entender que a conjugação das declarações de parte do A., aqui Recorrido, com os depoimentos prestados pelas testemunhas em sede de julgamento levaria a conclusão diversa da proferida.

VII - Nesta senda, e salvo o devido respeito por douto e diverso entendimento, está o Recorrente em crer que, da prova produzida nos presentes autos,

encontram-se incorretamente julgados, por um lado, o ponto 2 dos Factos Provados e, por outro lado, 2 dos Factos Não Provados na Sentença (e, bem assim, artigos 25º, 26º, 45º, 46º e 47º da Contestação do Réu que não integraram, também, os Factos Provados).

VIII - Relativamente a estes pontos, os meios probatórios que impunham decisão diversa são as declarações de parte do Autor, aqui Recorrido,

(gravado no sistema de gravação Digital Habilus Media Studio, a 17 de janeiro de 2020, supra transcrito do ficheiro de áudio

20200117110430_5648920_2870529), bem como o depoimento das

testemunhas (gravado no sistema de gravação Digital Habilus Media Studio) M. C. (supra transcrito do ficheiro de áudio

20200117142503_5648920_2870529, gravado a 17 de janeiro de 2020), A. J.

(supra transcrito do ficheiro de áudio 0200306105531_5648920_2870529, gravado a 06 de março de 2020) e M. L. (supra transcrito do ficheiro de áudio 20200630145715_5648920_2870529, gravado a 30 de junho de 2020).

IX - Na procedência da peticionada modificação do julgamento da matéria de facto entende o Recorrente que deve ser alterada a redacção do Ponto 2 dos Factos Provados, acrescendo como provado, também, o seguinte: “ Previamente à conclusão do negócio referido em 18), o réu P. M.

deslocou-se ao local físico do prédio que constituía o objeto desse negócio com um representante da imobiliária ... (Fafe), ambos tendo visionado quais as confrontações indicadas pelo Banco X/X”.

X - E, ainda, entende o Recorrente que deve ser julgado provada a

factualidade julgada não provada, enunciada na Sentença recorrida sob o ponto 2 dos Factos Não Provados.

XI - Assim, deve ser alterado o julgamento da matéria de facto, julgando-se provado que “O Autor sabia, na ocasião da celebração do negócio descrito no facto provado número 1 que a área real do prédio rústico mencionado no facto provado número 1 com o pavilhão, era de 9.479 m2 (artigos 46º a 48º da contestação do 1º Réu);”, com decisivas

consequências jurídicas atento o disposto no art.º 570º do Código Civil.

Sempre sem prescindir,

XII - No que concerne à autoridade do caso julgado – distinta da exceção de

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caso julgado supra mencionada e decidida em sede de Despacho Saneador – pese embora não tenha sido a mesma apreciada, não pode o Recorrente aquiescer com a hipótese da inexistência da autoridade de caso julgado, porquanto, havendo caso julgado, não se concebe como possa não haver autoridade de caso julgado.

XIII - Como forma sumária de distinguir a autoridade do caso julgado da exceção de caso julgado, refira-se o doutamente exarado no supra citado Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 11-07-2019, que assevera “O caso julgado não tem por que valer apenas como excepção impeditiva da apreciação da mesma questão entre as mesmas partes (efeito negativo do caso julgado); vale também como autoridade (efeito

positivo do caso julgado), de forma que o já decidido não pode mais ser contraditado ou afrontado por alguma das partes em acção posterior.”

(destaque nosso).

XIV - Atenta a matéria dada como provada na ação que precede o presente pleito (proc. n.º 800/16.0T8BRG), cuja transcrição parcial foi efetuada supra, há que atentar em duas questões já decididas que, portanto, consubstanciam autoridade do caso julgado, obstando à prolação de Decisão em sentido

diverso: (i) a não qualificação dos trabalhos efetuados pelo Recorrido como benfeitorias úteis ou necessárias, não sendo indemnizáveis, e, caso assim não se entenda, (ii) a concorrência de culpa do lesado – Recorrido – nos termos do art.º 570.º do Cód. Civil, não podendo ser assacada ao Recorrente a

responsabilidade pelo valor total.

Ademais,

XV - No proc. n.º 800/16.0T8BRG, foi proferido douto Acórdão por este Venerando Tribunal que, além do mais, decide “mantém-se a sentença na parte em que declarou a nulidade e desta retirou as consequências

previstas no artigo 289º do Código Civil, por força do qual, na parte que ora nos interessa deve ser restituído tudo que tiver sido prestado (o bem vendido e o preço), não havendo mais qualquer montante a despender, visto que o imóvel não sofreu qualquer obra que visasse evitar a sua perda, destruição ou deterioração ou que lhe aumentasse o valor (artigos 216º nº 3, 289º nº 3, 1273º e 1275º do Código Civil). (sic. douto Acórdão proferido no proc. n.º 800/16.0T8BRG).

XVI - Ora, tendo o Recorrente procedido à restituição do preço pago pelo Recorrido, por nada mais é responsável no que respeita a qualquer uma das ações, encontrando-se totalmente cumprida a sua obrigação, porquanto os efeitos da nulidade se limitam à restituição do preço, em virtude de não serem as benfeitorias indemnizáveis por não serem úteis nem necessárias.

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XVII - Por conseguinte, deve ser dado provimento ao recurso, por verificação da autoridade de caso julgado, sendo revogada a Sentença a quo com as legais consequências.

Além disso,

XVIII - Na Decisão proferida por este Venerando Tribunal no proc. n.º 800/16.0T8BRG, julga ainda – sendo também subsumível à exceção da autoridade do caso julgado – que “não poderá nesta ação proceder-se à condenação deste réu no ressarcimento dos prejuízos sofridos, sob pena de violação do disposto no nº 1 do art. 609º do CPC, ou à determinação da medida da conculpa do próprio réu P. M., nos termos do art. 570º do CC que, por seu turno, sabia também que o prédio onde andou a efectuar obras e trabalhos tinha uma área correspondente a mais do triplo daquela que declarou comprar aquando do contrato de compra e venda.”.

XIX - Ora, e caso se entenda que o Recorrente está obrigado ao ressarcimento das benfeitorias efetuadas pelo Recorrido – o que não se concede e por mera cautela de patrocínio se concebe –, nunca poderá ser o Recorrente

inteiramente responsável pelo pagamento de quaisquer pretensos danos.

XX - Isto porque ficou provado, e impõe igualmente a sua autoridade de caso julgado, no processo n.º 800/16.0T8BRG que, não obstante a mesma não ter sido determinável naquele processo, existe “conculpa do próprio réu P. M., nos termos do art. 570º do CC que, por seu turno, sabia também que o prédio onde andou a efectuar obras e trabalhos tinha uma área

correspondente a mais do triplo daquela que declarou comprar aquando do contrato de compra e venda.”.

XXI - Pelo que, estando já decidido por Acórdão transitado em julgado que há concurso de culpas no que concerne aos gastos em que incorreu o Recorrido com as obras no terreno, não pode ser o Recorrente inteiramente condenado no pagamento de tais quantias.

XXII - Por conseguinte, tendo a douta Sentença a quo decidido condenar o Recorrente no pagamento integral das quantias peticionadas pelo Recorrido a este título, contrariou a autoridade do caso julgado e em violação do disposto no art.º 570.º do Cód. Civil, sendo ilegal tal Decisão, devendo ser dado

provimento ao recurso e revogada a Sentença a quo com as legais consequências.

Sempre sem prescindir,

XXIII - Seguindo jurisprudência uniformizada nesse sentido, é de afirmar que a responsabilidade do Recorrente, enquanto vendedor, limita-se à

restituição do preço pago pelo Recorrido, enquanto comprador – facto que

(13)

já ocorreu –, “visto que o imóvel não sofreu qualquer obra que visasse evitar a sua perda, destruição ou deterioração ou que lhe aumentasse o valor (artigos 216º nº 3, 289º nº 3, 1273º e 1275º do Código Civil).” (sic.

douto Acórdão proferido no proc. n.º 800/16.0T8BRG).

XXIV - Refere ainda aquele douto Acórdão, tendo autoridade de caso julgado no presente pleito, que “não se provou que os trabalhos que realizou e despesas que suportou tiveram algum proveito para o prédio ou para o seu titular, porquanto não permitiram a sua conservação, nem aumentaram o seu valor. (…) Ora, não sendo as despesas efetuada pelo Recorrente

benfeitorias necessárias, nem benfeitorias úteis, por não se destinarem à conservação, nem aumentarem o valor do prédio, há que lhe aplicar o

regime das despesas voluptuárias, afastando-se qualquer obrigação de pagamento do seu valor, visto que não podem ser levantadas por natureza.”

(sic. douto Acórdão proferido no proc. n.º 800/16.0T8BRG).

XXV - Ora, nesse seguimento, e tendo ficado decidido que as benfeitorias efetuadas pelo Recorrido não se poderiam qualificar como úteis ou necessárias, inexiste, por conseguinte, qualquer direito do Recorrido de ser indemnizado nos termos que peticiona e em que a douta Sentença a quo condenou – erroneamente – o Recorrente.

XXVI - Salvo o devido respeito por douto e diverso entendimento, não se vislumbra que outro caminho se possa palmilhar, porquanto a hipotética indemnização a que o Recorrido poderia ter direito apenas poderá ter como supedâneo o supra exposto, não podendo provir de qualquer tipo de

responsabilidade extracontratual, dado que esta se funda na violação ilícita do direito de outrem ou de qualquer disposição legal destinada a proteger

interesses alheios (cfr. art.º 483.º do Cód. Civil).

XXVII - Por conseguinte, não podendo ser as benfeitorias consideradas úteis ou necessárias, na medida em que tal ficou já definido e decidido em anterior Decisão transitada em julgado, não tem o Recorrido direito a ser indemnizado nos termos em que peticiona, violando a douta Sentença a quo, ao decidir em sentido oposto, quer a autoridade de caso julgado, quer as supra mencionadas normas (arts.º 216.º, 1273.º e 1275.º do Cód. Civil), devendo portanto ser dado provimento ao presente recurso, revogando-se a Sentença recorrida com todas as consequências legais.

Sem prescindir,

XXVIII - A haver lugar a alguma indemnização, não poderia a mesma ter o alcance vertido na douta Sentença a quo, em virtude de não poder ser

arbitrada pelo interesse contratual positivo – que apenas tem cabimento caso haja dolo do vendedor –, mas apenas pelo interesse contratual negativo, como

(14)

supra se demonstrou.

XXIX - Na verdade, não pode o Recorrente aquiescer com o entendimento vertido na douta Sentença a quo – que assevera haver dolo do vendedor –, pois que o mesmo padece de um erro de raciocínio em que incorreu o Insigne

Tribunal, conquanto encara o Banco X – enquanto exequente na ação mencionada em que foi a Infraestruturas ... reconhecida como titular do direito de propriedade – como sendo o aqui Recorrente, quando, de facto, o Banco X (Banco X, S.A.) e o Banco X, S.A. (Recorrente) são pessoas jurídicas totalmente distintas e autónomas.

XXX - Assim, sendo Recorrente e Banco X – que é a entidade que poderia ter conhecimento do reconhecimento daquele direito de propriedade –, entidades diferentes e independentes, e nunca tendo o Banco X procedido a qualquer tipo de informação ao Recorrente no que respeita àquele litígio e/ou ao imóvel em causa nos autos, o Recorrente não sabia de qualquer litígio nem sequer omitiu nada deliberadamente e dolosamente ao Recorrido.

XXXI - Por conseguinte, só se tivesse havido – que não houve – dolo do Recorrente na venda do imóvel em crise nos presentes autos, é que haveria lugar à indemnização pelo interesse contratual positivo, abrangendo o dano emergente e os lucros cessantes.

XXXII - Nesta senda, inexistindo dolo do Recorrente, apenas restaria – concebendo-se sem se conceder – uma responsabilidade objetiva do

Recorrente enquanto vendedor, nos termos do disposto no art.º 899.º do Cód.

Civil, que apenas abrange o interesse contratual negativo.

XXXIII - Todavia, tal responsabilidade é ainda limitada pela própria Lei, que refere que “a indemnização compreende apenas os danos emergentes que não resultem de despesas voluptuárias” (cfr. art.º 899.º do Cód. Civil).

XXXIV - Ora, como já vimos, no Acórdão proferido por este Venerando Tribunal no proc. n.º 800/16.0T8BRG, que constitui autoridade de caso julgado, ficou decidido que “não sendo as despesas efetuada pelo

Recorrente [ora Recorrido] benfeitorias necessárias, nem benfeitorias úteis, por não se destinarem à conservação, nem aumentarem o valor do prédio, há que lhe aplicar o regime das despesas voluptuárias” (sic.

douto Acórdão proferido por este Venerando Tribunal no proc. n.º 800/16.0T8BRG).

XXXV - Destarte, as despesas efetuadas pelo Recorrido encontram-se excluídas do âmbito da indemnização por responsabilidade objetiva, não podendo haver lugar à condenação do ora Recorrente no

pagamento de qualquer indemnização ao Recorrido.

XXXVI - Assim, andou mal a Sentença a quo ao ter condenado o Recorrente no pagamento de quantias atinentes à indemnização pelo interesse contratual

(15)

positivo, abrangendo o dano emergente e o lucro cessante – por entender que estava em causa uma conduta dolosa por parte do Recorrente, o que não se concede –, e não apenas pelo interesse contratual negativo – com exclusão das despesas voluptuárias –, violou o disposto nos arts.º 253.º, 898.º e 899.º do Cód. Civil.

Ainda sem prescindir,

XXXVII - Concebendo-se por mera cautela de patrocínio que possa haver lugar ao ressarcimento do Recorrido pelos trabalhos efetuados no imóvel, nunca o pagamento de tal indemnização poderia ser da total responsabilidade do Recorrente, na medida em que ficou já decidido no Proc. n.º

800/16.0T8BRG, por Acórdão deste Venerando Tribunal, transitado em julgado, que existe “conculpa do próprio réu P. M., nos termos do art.

570º do CC que, por seu turno, sabia também que o prédio onde andou a efectuar obras e trabalhos tinha uma área correspondente a mais do triplo daquela que declarou comprar aquando do contrato de compra e venda.”, não estando a sua medida determinada.

XXXVIII - Por conseguinte, havendo concorrência de culpas para a produção dos alegados danos nos termos do citado normativo legal – designadamente porque o Recorrido sabia que a área real do prédio rústico mencionado no facto provado número 1 com o pavilhão, era de 9.479 m2, e isso não obstou a que tivesse executado os trabalhos julgados provados em toda essa extensão, acarretando, por isso, maiores custos –, e concebendo-se sem se conceder, deve o Tribunal determinar a redução da indemnização a conceder ao Recorrido.

XXXIX - Face a tudo que vem de se expender, e caso se entenda que a obrigação de indemnizar existe – o que apenas se concebe por cautela de patrocínio – não pode ser o Recorrente integralmente responsável pelo pagamento de qualquer montante indemnizatório ao Recorrido, atenta a norma ínsita no art.º 570.º do Cód. Civil, pelo que, tendo decidido

diversamente, a Sentença a quo violou quer a autoridade do caso julgado – por não atender à conclupa do Recorrido –, quer a norma invocada, devendo ser revogada com as legais consequências.

Assim,

XL - A douta Sentença recorrida violou, salvo o devido respeito, os preceitos supra identificados, devendo, poo isso, na procedência da Apelação ser revogada, com as legais consequências.

Nestes termos, e nos que V. Ex.as muito doutamente suprirão,

Deve ser concedido provimento ao presente recurso, revogando-se a douta Sentença, com as legais consequências.

(16)

Assim se fazendo JUSTIÇA».

15. O autor/recorrido respondeu ao recurso, no qual apresentou as seguintes conclusões:

«I - O instituto do caso julgado exerce duas funções: - uma função positiva e uma função negativa.

II-A função positiva manifesta-se através de autoridade do caso julgado,

visando impor os efeitos de uma primeira decisão, já transitada (fazendo valer a sua força e autoridade);

III - a função negativa manifesta-se através de excepção de caso julgado, visando impedir que uma causa já julgada, e transitada, seja novamente apreciada por outro tribunal, por forma a evitar a contradição ou a repetição de decisões assumindo-se, assim, ambos como efeitos diversos da mesma realidade jurídica.

IV - Enquanto na excepção de caso julgado se exige a identidade dos sujeitos, do pedido e da causa de pedir em ambas as acções em confronto, já na

autoridade do caso julgado a coexistência dessa tríade de identidades não constitui pressuposto necessário da sua actuação.

V - A causa de pedir que estriba o pedido na acção, que agora nos ocupa, como aliás, bem entendeu e julgou o tribunal a quo, tem por base a indemnização pelo interesse contratual e os danos daí advenientes, na vertente patrimonial e não patrimonial, tudo conforme regem as normas dos artigos 894.º, 898.º e 899.º do Código Civil.

VI - O efeito prático-jurídico pretendido (pretensão associada à causa de pedir) pelo Autor nesta acção é substancialmente diferente do pretendido, enquanto Réu/Reconvinte na outra acção, em que alegou que adquiriu validamente o prédio em questão por escritura pública outorgada com o Banco X, e pediu a intervenção provocada da Sociedade imobiliária … – Fafe Imóvel X – Mediação Imobiliária, Lda., e ainda a condenação das INFRAESTRUTURAS, nas

benfeitorias realizadas. (cfr. Sentença junta à p.i. sob doc. 21).

VII - No presente processo, o Autor procura ser indemnizado pelo interesse contratual defraudado decorrente da declaração de nulidade do negócio jurídico objecto da acção anterior.

VIII - O Despacho Saneador proferido nestes autos em 05-11-2019, o qual já transitou em julgado e não mereceu qualquer censura, no tocante às questões jurídicas agora levantadas pela Recorrida não podem ser objecto de censura, porquanto já se solidificaram na ordem jurídica.

IX – Decorre da sentença no processo 800/16.0T8BRG (fls. 45 v.º e 46) – que estas se limitou expressamente a apreciar os fundamentos à questão da obrigação de restituição ao Réu/Reconvinte (aqui Autor) do preço pago, não

(17)

tomando posição sobre a titularidade do direito ao reembolso dos custos que este suportou com obras e trabalhos que lhe interessou efectuar.

X – É facto assente que no processo 800/16.0T8BRG a Ré Banco X deu “causa às despesas efectuadas pelo réu P. M., não poderá nesta acção proceder-se à condenação deste réu no ressarcimento dos prejuízos sofridos, sob pena de violação do disposto no n.º 1 do art.º 609º do CPC, (…)

XI - A decisão proferida nestes autos em nada contraria (excepção de caso julgado e autoridade de caso julgado) a decisão tomada na

acção800/16.0T8BRG, bastando atentar à prova produzida, concretamente, aos depoimentos prestados em sede de audiência e julgamento, e aos factos não provados na Sentença ora recorrida.

XII - Continua a Ré Banco X a insistir em benfeitorias, quando o que está em causa nos presente autos é a indemnização derivada e devida pelo interesse contratual do negócio jurídico declarado nulo no processo 800/16.0T8BRG, de acordo com o pedido e causa de pedir, talqualmente, configurado pelo Autor.

XIII - Quanto à conculpa do Autor, em nenhum dos processos foi dado como provado que antes da conclusão do negócio declarado nulo, este tenha tinha efectivo conhecimento da área real do prédio na altura da celebração do negócio.

XIV – A celebração e conclusão do negócio ficou expressamente condicionado ao facto de o prédio objecto ter lá implantado um Pavilhão, o que nas reais expectivas do aqui Autor/Recorrido lhe permitiria alcançar um acréscimo patrimonial e não um decréscimo patrimonial, talqualmente veio a ocorrer por causa de todo o imbróglio criado pela Ré/Recorrente.

XV – Não é objecto do presente litígio quem era o proprietário e/ou a que título proveio o terreno à esfera jurídica da Ré/Recorrente (situação

amplamente verificada no processo anterior) que foi vendido ao Autor P. M., mas, sim quem procedeu à negociação e venda!

XVI – A própria testemunha e funcionária da recorrente M. L. refere: “ (…) aquilo era uma zona de confusão (…),”

XVII – Este mesmo funcionário já era funcionário do resolvido Banco X, tendo, por isso, conhecimento privilegiado sobre o bem objecto do negócio declarado nulo e, consequentemente, também a entidade patronal ora recorrente a

tinha.

XVIII -Não fora a garantia dada pela Recorrente de que o pavilhão fazia parte integrante do prédio objecto da compra e venda declarada nula por Sentença transitada em julgado, não teria existido negócio, porquanto, a condição imposta pelo Autor na Ficha de Reserva da Imovél X, foi a de aquisição do terreno com o pavilhão!

Nestes termos e nos mais de direito que Vossas Excelências suprirão, deve ser

(18)

acordado negar provimento ao recurso apresentado, confirmando a douta sentença recorrida.».

16. Foi recebido o recurso, foi julgada inexistente a nulidade da sentença arguida por falta de conhecimento da autoridade do caso julgado com o

fundamento «Salvo melhor opinião, foram apreciadas, no despacho-saneador, as questões suscitadas a título de excepção dilatória, por omissão de

pronúncia (art.º615.º, n.º1, al.d) do Cód. Proc. Civil)», e, após, em novo

despacho a pedido desta Relação, foi fixada à causa do valor de € 96 214, 54.

17. Subiu o processo a esta Relação, foi mantido o despacho de recebimento do recurso e foram colhidos os vistos.

II. Questões a decidir:

As conclusões das alegações do recurso delimitam o seu objeto, sem prejuízo das questões de conhecimento oficioso não decididas por decisão transitada em julgado e da livre qualificação jurídica dos factos pelo Tribunal, conforme decorre das disposições conjugadas dos artigos 608º/ 2, ex vi do art. 663º/2, 635º/4, 639º/1 e 2, 641º/2- b) e 5º/ 3 do Código de Processo Civil.

Definem-se, como questões a decidir:

1. A arguição de nulidade da sentença, por preterição do conhecimento da autoridade de caso julgado invocada na contestação do recorrente, nos termos do art.615º/1-d) do C. P. Civil.

2. A impugnação da matéria de facto, em que foi pedido:

2.1. O aditamento do seguinte facto ao facto provado em 2:

«Previamente à conclusão do negócio referido em 18), o réu P. M. deslocou-se ao local físico do prédio que constituía o objeto desse negócio com um

representante da imobiliária ... (Fafe), ambos tendo visionado quais as confrontações indicadas pelo Banco X/X”».

2.2. A alteração do facto não provado em 2 para facto provado:

«O Autor sabia, na ocasião da celebração do negócio descrito no facto provado número 1 que a área real do prédio rústico mencionado no facto provado

número 1 com o pavilhão, era de 9.479 m2 (artigos 46º a 48º da contestação do 1º Réu».

3. A reapreciação de direito:

3.1. Quanto à defendida autoridade de caso julgado (em relação à matéria das benfeitorias e do concurso de culpa do autor e as consequências da mesma na indemnização).

3.2. Quanto à reapreciação de direito do conteúdo da indemnização pelas

(19)

obras realizadas e pelos lucros cessantes das expectativas de ganho (por

invocada falta de dolo do vendedor, por ser entidade diferente do Banco X; por entender não ter responsabilidade, nos termos do art.899º do C. Civil, de

indemnizar as benfeitorias voluptuárias e os lucros cessantes pelo dano contratual positivo).

III – Fundamentação:

1. Matéria de facto:

1.1. Matéria de facto declarada provada e não provada na sentença recorrida:

1.1.1. Factos provados:

«1. Por escritura pública de “compra e venda” outorgada a 19.02.2015, no Cartório da Sr.ª Notária S. M., na cidade de …, exarada de fls. 66 a fls. 67 v.º do Livro de Notas para Escrituras Diversas número .. – A, o Banco X S.A.

declarou vender a P. M., pelo preço de € 37.500,00 já pago, e este declarou aceitar, o prédio rústico denominado “Coutada ...”, situado no lugar de …, da freguesia de ..., concelho de Fafe, descrito na Conservatória do Registo Predial ... sob o número …-..., definitivamente registado a favor do Banco vendedor pela inscrição Ap. …./…..09, inscrito na respectiva matriz sob o artigo ... (cfr.

cópia de escritura junta como documento número 1 da p.i. - fls. 14 e ss. dos autos);

2. Por sentença, transitada em julgado, proferida nos autos de acção de processo comum n.º 800/16.0T8BRG da 2ª Vara Mista de Guimarães,

intentada pela “Infraestruturas ..., S.A.” reivindicando a propriedade do prédio descrito no número .../...16 da C. R. Predial ..., pedindo a declaração de nulidade, por incidir sobre bem alheio, do negócio titulado por escritura de compra e venda identificada no facto provado anterior, e reclamando

indemnização por prejuízos sofridos, contra P. M. (aqui Autor) e “Banco X S.A.”

(aqui 1º Réu), na qual intervieram a título acessório as sociedades “Imóvel X”

(aqui 2ª Ré) e “Y – Gestão e Exploração de Franquias e Representações, S.A.”, foram julgados procedentes os pedidos de reivindicação e de declaração da nulidade da venda, improcedente o pedido de indemnização, e foi julgado integralmente improcedente o pedido reconvencional formulado pelo aí Réu P.

M. (aqui Autor), de condenação da aí Autora “Infraestruturas ..., S.A.” a pagar- lhe a quantia de € 50.129,54 correspondente a benfeitorias realizadas no

prédio objecto do negócio impugnado.

(20)

Consta, entre outros factos provados do aludido processo, que:

16. Conhecendo embora os autos de expropriação, onde se apresentou a requerer a transferência do valor depositado por conta da indemnização, o Banco X promoveu acção executiva contra K S.A., entidade na qual se transformou a expropriada Sociedade de Águas da …, Ld.ª, a qual foi

registada sob o n.º 1601/1.7TBFAF, do 2º Juízo do Tribunal Judicial de Fafe e, nessa acção, apresentou à penhora um prédio que integrava a parcela

expropriada e, designadamente, o pavilhão que estava implantado na parcela sobrante entretanto expropriada.

17. No âmbito dessa execução, a autora apresentou embargos de terceiro em 25 de Julho de 2014, aduzindo que o prédio onde se mostra implantado o pavilhão fora objecto de expropriação. (cfr. certidão junta como documento número 21 da p.i. - fls. 60 e ss. dos autos);

3. A 2ª Ré, no âmbito da actividade que desenvolve sob a marca Imobiliária …, cuja rede de franchising é gerida pela sociedade Y, Gestão e Exploração de Franquias e Representações, S.A., foi mediadora imobiliária no negócio a que se reporta o facto provado número 1 (artigos 37º e 38º da p.i.);

4. A sociedade “Y” celebrou com o 1º Réu, em 7 de Outubro de 2014, contrato escrito intitulado “Acordo e Contrato de Mediação Imobiliária Para Compra / Arrendamento em Regime de Não Exclusividade”, cujo teor se reproduz no documento número 5 junto com a p.i., fls. 19 e ss. dos autos, do qual, entre outras coisas, consta:

(…)

A) O Banco X é proprietário de bens imóveis (…) destinados a diversos fins, designadamente, a habitação, comércio, serviços, armazéns, instalações industriais, terrenos urbanos e terenos rústicos (…);

H) A parceria que se pretende desenvolver deverá assentar em princípios de boa fé, transparência, lealdade e lisura, não só na relação entre si, mas também e sobretudo para com os futuros potenciais compradores e arrendatários dos imóveis; (…)

J) O Banco X, por seu turno, assume o compromisso de prestar toda a

informação às mediadoras, através da Y, sobre o estado físico e documental dos imóveis, pagar atempadamente as comissões pelos serviços prestados e permitir o acesso aos imóveis para os fins previstos no presente contrato; (…) Cláusula 4ª (Ónus e encargos)

O Banco X desde já declara que os imóveis encontram-se em condições legais de serem vendidos, bem como livres de quaisquer ónus e encargos, não

ficando no entanto as Mediadoras, pela presente declaração, dispensadas de confirmar, consultar e/ou solicitar toda a informação sobre o estado físico e

(21)

jurídico dos imóveis. (artigos 39º da p.i. e 15º a 19º da contestação da 2º Ré);

5. A sociedade imobiliária … procedeu à negociação, promoção e publicitação através de meios de publicidade que utiliza normalmente: a plataforma do programa Y, onde o 1º Réu coloca os seus imóveis para venda, para a loja de cada zona geográfica proceder à comercialização (artigo 40º da p.i.);

6. O 1º Réu autorizou, publicitou e promoveu a venda do prédio aludido no facto provado número 1 (artigo 41º da p.i.);

7. O imóvel foi colocado na plataforma da Y através de processo informático previsto no acordo aludido no facto provado número 4, pelos colaboradores do 1º Réu no dia 17.12.2014, que o identificaram através da localização em ..., concelho de Fafe, distrito de Braga, com área de 4.160 m2, preço de venda de

€ 41.000,00, uma fotografia de parte do terreno na qual surgia o pavilhão, havendo no ficheiro enviado pelo 1º Réu um link, do qual constavam 5 fotografias do terreno, onde era visível um pavilhão construído no prédio rústico em causa (artigos 22º, 57º e 58º da contestação da 2ª Ré);

8. Face à manifestação de interesse pelo Autor, a 2ª Ré solicitou ao 1º Réu toda a documentação relativa ao imóvel, nomeadamente caderneta predial, certidão predial e outra eventualmente existente (artigo 25º da contestação da 2ª Ré);

9. Após recepção da documentação enviada pelo 1º Réu, a 2ª Ré detectou que na caderneta predial e no registo predial não constava o pavilhão que se visualizava nas fotografias colocadas pelo 1º Réu na plataforma Y (artigo 26º da contestação da 2ª Ré);

10. O facto mencionado no número anterior foi imediatamente comunicado ao Autor, a pedido de quem a 2ª Ré entrou em contacto com o gestor de imóveis do 1º Réu, M. L. (artigos 27º e 29º da contestação da 2ª Ré);

11. M. L. informou o colaborador da 2ª Ré que o terreno estava delimitado por um muro (artigo 32º da contestação da 2ª Ré);

12. M. L. disse ao Autor e à 2ª Ré que o pavilhão fazia parte do terreno e que não constava da descrição predial e da caderneta predial por ter sido

construído ilegalmente (artigos 30º e 31º da contestação da 2ª Ré);

13. A 2ª Ré comunicou ao Autor as informações a que se reportam os factos provados números 11 e 12 (artigo 32º da contestação da 2ª Ré);

14. A 2ª Ré apresentou ao Autor o imóvel descrito no facto provado número 1, não obstante este ter já conhecimento da intenção de venda pelo 1º Réu, e coadjuvou o 1º Réu na marcação e concretização da escritura de compra e venda (artigo 21º da contestação da 2ª Ré);

15. Preliminarmente à conclusão do negócio mencionado no facto provado número 1, um representante da 2ª Ré deslocou-se, juntamente com o Autor, ao local físico onde se situava o prédio, indicando a sua localização, bem como as

(22)

suas confrontações, de acordo com as informações que obteve junto do 1º Réu (artigos 8º da p.i., 47º e 48º da contestação da 2ª Ré);

16. Na sequência das informações e diligências a que se reportam os

anteriores factos provados, o Autor decidiu adquirir o terreno (artigo 39º da contestação da 2ª Ré);

17. O Autor e representante da 2ª Ré assinaram o documento intitulado

“reserva”, datado de 23.01.2015, cujo teor se reproduz no documento número 6 junto com a p.i. (fls. 23 e ss. dos autos) do qual, entre outras coisas, consta manuscrito: “9º Se for o terreno com o pavilhão.” (artigo 9º da p.i.);

18. O representante da 2ª Ré informou o Autor que o prédio aludido no facto provado número 1 estava livre de ónus ou encargos (artigo 10º da p.i.);

19. Após a celebração da escritura aludida no facto provado número 1, o Autor procedeu à limpeza do terreno, à abertura de valas e à construção e

manutenção de muros de suporte (artigo 11º da p.i.);

20. Para executar os trabalhos mencionados no facto provado anterior, o Autor utilizou maquinaria pesada, mão-de-obra e materiais de construção: granito e serviços de transporte de materiais, numa área de terreno superior à indicada na escritura (artigos 13º da p.i. e 50º da contestação do Banco X);

21. O Autor trabalhou durante dois meses no prédio na realização de parte das obras referidas no facto provado número 20 (artigo 14º da p.i.);

22. Para realização dos trabalhos aludidos no facto provado número 20, o Autor despendeu:

- € 14.304,90 em limpeza do terreno, abertura de valas, muro de suporte em alvenaria de granito, perpianho em pedra azul;

- € 3.500,00 em movimentações de terras; e

- € 2.500,00 em muro de suporte de granito amarelo (artigo 15º da p.i.);

23. O Autor pagou as quantias de:

- € 410,00 no Cartório Notarial pela celebração da escritura pública;

- € 1.875,00 de Imposto Municipal sobre Transmissões Onerosas;

- € 300,00 de Imposto de Selo (artigos 19º a 21º da p.i.);

24. A declaração de nulidade da compra e venda aludida no facto provado número 1, causou a frustração do projecto que o Autor tinha para o imóvel, gerando neste incómodos e desgosto e sentimento de que foi enganado pelo 1º Réu (artigo 88º da p.i.);

25. O Autor pretendia vender o pavilhão como ferro velho e vender as suas capações de água (artigos 23º e 67º da p.i.);

26. Existem no prédio aludido no facto provado número 1, três captações de água (artigo 24º da p.i.);

27. O Autor terá de suportar no processo n.º 800/16.0T8BRG, o valor de €

(23)

6.885,00 a título de custas de parte (requerimento de fls. 202 e ss.)».

1.1.2. Factos não provados:

«1. Quando o Autor comprou o pavilhão mencionado no facto provado número 1, pretendia legalizá-lo como Centro de Abate Automóvel (artigo 65º da p.i.);

2. O Autor sabia, na ocasião da celebração do negócio descrito no facto provado número 1 que a área real do prédio rústico mencionado no facto provado número 1 com o pavilhão, era de 9.479 m2 (artigos 46º a 48º da contestação do 1º Réu);

3. Para realização dos trabalhos aludidos no facto provado número 20, o Autor despendeu:

- € 2.000,00 em granito azul rachado;

- € 8.000,00 em serviços de giratória e camião;

- € 1.180,00 em manilhas de 1,00 por 1,20 metros;

- € 500,00 em serviço de camião;

- € 3.000,00 em serviço de giratória;

- € 5.000,00 em serviço de limpeza e serviço de camião;

- € 1.144,64 em varas de pinho tratado e transporte;

- € 5.000,00 em serviço de retro; (artigo 15º da p.i.);

4. Os trabalhos mencionados nos factos provados números 19 a 22 aumentaram o valor do prédio (artigo 11º da p.i.).».

1.2. Matéria de facto provada, oficiosamente aditada nesta Relação (art.607º/4 do C. P. Civil, ex vi do art.663º/2 do C. P. Civil):

1.2.1. O prédio rústico denominado Coutada ..., descrito na Conservatória de Registo Predial ... sob o nº.../...30, com artigo matricial ..., com área indicada de 4160 m2, tem as seguintes inscrição de propriedade anteriores o ato

referido em 1 da sentença de III-1-1.1. supra:

a) Uma inscrição de propriedade em favor do Banco X, SA, por adjudicação em venda judicial a K- Unipessoal, Lda., pela Ap. 2631 24/04/2013.

b) Uma inscrição de propriedade em favor do Banco X, SA, pela Ap. 1531 de 2015/02/09, por transferência de património do Banco X, SA, com a menção

«Transferência de património por medida de resolução deliberada pelo

Conselho de Administração do Banco de Portugal em reuniões de 03 de Agosto e de 28 de Outubro de 2014» (documento de fls.16 ss).

1.2.2. Na sentença e no acórdão do processo nº800/16.0T8BRG:

a) Foi julgado provado, nomeadamente:

“1. A autora, na qualidade de representante do Estado (… ) procedeu à

expropriação (…) de uma parcela de terreno com área de 9 479 m2, designada parcela 112 (…), sem qualquer menção à descrição predial no local destinado

(24)

à referida indicação.

2. (…) tendo sido proferido, em 13 de Fevereiro de 2004, o despacho de adjudicação da “parcela de terreno, assinalada na planta sob o nº112, com área de 9 479 m2, a destacar do prédio sito no lugar de …, freguesia de ..., deste concelho, omisso na respetiva matriz predial e omisso na respetiva Conservatória de Registo Predial (…)

4. Aquando da VARPM era ainda desconhecido, pela expropriante, que ao prédio relativamente ao qual a área expropriada, com a dimensão total de 9 479 m2, seria a destacar, havia registo matricial e artigo descritivo. (…) 6. (…) a expropriada requereu a expropriação total do prédio (…)

7. Para tanto, (…) alegou que, em face da expropriação parcial, “ficou

inviabilizada a construção do pavilhão industrial previsto de 5.050 m2 de área coberta, devido ao mesmo se situar no meio das duas vias de comunicação (…

). Esta parte já construída corresponde ao pavilhão que está em causa nestes autos (…).

8. A 12 de Fevereiro de 2007 foi proferida sentença que conheceu

favoravelmente do pedido de expropriação total, na qual se consignou, entre o demais, o seguinte: “Compulsados os autos, e das diligências realizadas,

verifica-se que: 1. Do prédio sito no Lugar da …, ..., descrito na Conservatória do Registo Predial sob o n.º … com a área de 14.989m2, foi destacada a

parcela expropriada com o n.º 112, com a área de 9.479 m2 4. Na parte sobrante do prédio encontra-se um pavilhão, tipo industrial, com cerca de 2.100m2, e na envolvente da fachada nascente de tal pavilhão, situa-se na proximidade da estaca n.º 315, um poço de captação de água (…). Pelo exposto, defere-se o pedido de expropriação total do prédio em questão”.

9. A decisão proferida foi confirmada pelo Tribunal da Relação de Guimarães, em Ac. proferido a 5 de Junho de 2008. (…)

18. Por meio de escritura pública de compra e venda celebrada em

19.02.2015, P. M. declarou comprar ao X, que declarou vender, pelo preço de € 37.500,00, o prédio ali identificado como estando descrito sob o artigo 426 da CRP, com o artigo matricial ..., da qual consta uma área total de 4.160 m 2.

19. O prédio referido em 18) corresponde à área onde está implantado o pavilhão tipo industrial, integrando a parcela nº 112 expropriada pela Infraestruturas ...».

b) Na apreciação jurídica foi considerada a nulidade da venda realizada pelo Banco X a P. M., por ter sido vendido bem alheio, nos termos do art.892º do C.

Civil:

«Da factualidade apurada (…) não restam dúvidas de que o prédio adquirido pelo réu P. M. integra o prédio expropriado, mais concretamente a parcela sobrante que a autora foi forçada a expropriar.

(25)

Sendo esta uma forma de aquisição originária da propriedade, constitutiva e não translativa, (…) impõe-se a procedência dos pedidos atinentes ao

reconhecimento do direito de propriedade da autora e, bem assim, da

declaração da nulidade da venda do prédio que integra aquele que a si ficou a pertencer por via da expropriação, nos termos dos arts.1º do CE, 1316º, 892º (já que a ora autora não surge como vendedora no âmbito do contrato de compra e venda referido em 18) (…).»

c) Na parte da decisão, consta:

«(…) Mais vai declarada nula a escritura de compra e venda do prédio inscrito na matriz ..., descrito na CRP com a descrição .../...30, declarando-se que nessa venda foi abarcado o prédio físico correspondente à parcela sobrante da parcela 112, determinando-se a imediata desocupação do mesmo.»

1.2.3. No presente processo foram praticados os atos processuais relatados em I supra, dos quais se destaca a prolação do despacho de 25.11.2019, proferido em fase de saneamento, relatado em I-7 supra, no qual:

a) Foi decidido, sob a epígrafe «Do caso julgado» e depois de ser enunciado que a segunda ré e a interveniente invocaram a «excepção de caso julgado com base na decisão proferida no âmbito do processo nº800/160T8BRG do Juízo Central Cível de Guimarães»:

«Nos termos do disposto no art.º 580º, n.º 1, do Código de Processo Civil quando há uma repetição da causa depois da primeira ter sido decidida por sentença que já não admite recurso ordinário, há uma situação de caso julgado que, de acordo com o disposto nos artºs. 576º, n.º 2, 577º, al.ª i) e 578º, do CPC, constitui uma excepção dilatória de conhecimento oficioso e obsta a que o tribunal conheça do mérito dos pedidos, dando lugar à

absolvição da instância.

A repetição da causa verifica-se quando se propõe uma acção idêntica a outra quanto aos sujeitos, pedido e causa de pedir (cfr. art.º 581º, do CPC).

Compulsados os autos e o teor da decisão judicial transitada em julgado proferida no processo comum n.º 800/16.0T8BRG do Juiz 4 do Juízo Central Cível de Guimarães (cfr. certidão / documento 21 junto com a p.i. – fls. 31 e ss.) verifica-se que:

I.

Há identidade entre os pedidos formulados: (…) b)

Na alínea c) da presente acção por P. M. – de pagamento dos prejuízos patrimoniais sofridos com as obras efectuadas no prédio melhor descrito no artigo 1º da p.i., no valor de € 46.129,54 – e o pedido reconvencional que

(26)

deduziu no processo 800/16.0T8BRG reclamando a condenação da aí

Reconvinda “Infraestruturas ..., S.A.” a pagar-lhe a quantia de € 50.129,54 correspondente a benfeitorias realizadas no prédio;

II.

Quanto às causas de pedir: (…) b)

Já quanto aos …prejuízos patrimoniais sofridos com as obras efectuadas no prédio melhor descrito no artigo 1º da p.i. - alínea c) do pedido da presente acção -, se afigura menos evidente a conclusão, na medida em que, embora haja coincidência de factos, nomeadamente referentes à realização dos trabalhos de construção, com incorporação de materiais e de mão-de-obra – cfr. artigos 12º a 17º da p.i. dos presentes autos e os factos provados números 49 e 50 e não provado alínea e) da sentença do processo 800/16.0T8BRG (fls.

45 v.º e 46) – a sentença proferida limitou expressamente a apreciação dos fundamentos à questão da obrigação de restituição ao Reconvinte do preço pago, não tomando posição sobre a titularidade do direito ao reembolso dos custos que este suportou com obras e trabalhos que lhe interessou efectuar.

Atente-se, a propósito, na seguinte passagem da fundamentação da douta sentença proferida pela Juiz 4 deste Juízo Central Cível: …considerando que o pedido reconvencional vai dirigido à autora, apesar de não haver dúvidas de que o réu X sabia que o prédio que vendeu (…) integrava uma área –

designadamente o pavilhão – que a autora arrogava ser sua (…) tendo dado causa às despesas efectuadas pelo réu P. M., não poderá nesta acção proceder- se à condenação deste réu no ressarcimento dos prejuízos sofridos, sob pena de violação do disposto no n.º 1 do art.º 609º do CPC, ou à determinação da medida da conculpa do próprio réu P. M. nos termos do artigo 570º do CC que, por seu turno, sabia também que o prédio onde andou a efectuar obras e

trabalhos tinha uma área correspondente a mais do triplo daquela que declarou comprar aquando do contrato de compra e venda (fls. 55 v.º dos autos – sublinhado meu).

III.

Por fim, no que concerne aos sujeitos: (…) b)

Não há identidade entre as demandadas na alínea c) do pedido da presente acção - o “Banco X, S.A.” e a “Imóvel X – Mediação Imobiliária, Ld.ª” - e a demandada do pedido reconvencional formulado na acção n.º 800/16.0T8BRG apenas contra a “Infraestruturas ..., S.A.”, sendo ainda certo que o “Banco X”

e a “Imóvel X” não podiam ter sido sujeitos passivos do pedido reconvencional deduzido por P. M. no processo 800/16.0T8BRG, pois o primeiro (X) ali

ocupava, tal como P. M., a posição de co-Réu (cfr. artigo 266º, nºs. 1 e 4 do

(27)

CPC) e a “Imóvel X” era mera interveniente acessória (cfr. artigos 321º, n.º 2 e 322º, n.º 2, ambos do CPC).

*

Sintetizando as conclusões decorrentes da precedente exposição, temos que:

(…) b)

Não há caso julgado, por falta de repetição das partes, e também de pronúncia quanto à respectiva causa de pedir, entre os demais pedidos da presente acção e a decisão proferida no processo n.º 800/16.0T8BRG

*

Termos em que, julgo:

- parcialmente procedente a excepção suscitada, declarando verificado o caso julgado relativamente à alínea a) do pedido da presente acção e à pessoa do 1º Réu Banco X, que se absolve da instância.

- parcialmente improcedente a excepção em apreço, declarando não preenchidos os pressupostos do caso julgado da mesma alínea a) do pedido relativamente à 2ª Ré “Imóvel X” e à Interveniente “W”, bem como das demais alíneas do pedido relativamente a ambos os Réus e à Interveniente.» (sublinhados nossos).

b) Foi explicado, antes de ser identificado o objeto do litígio a julgar: «O estado dos autos não permite que se conheça, desde já, do mérito da causa, pois tal depende da prova a produzir, pelo que se passará a identificar o objecto do litígio e a enunciar os temas de prova.».

2. Apreciação do mérito do recurso:

2.1. A arguição de nulidade da sentença:

O recorrente arguiu a nulidade da sentença, nos termos do art.615º/1-d) do C.

P. Civil, com fundamento na omissão de conhecimento da autoridade do caso julgado, alegando: que as rés e a interveniente defenderam-se por exceção nas suas contestações, invocando «o caso julgado e a autoridade do caso julgado»;

que no despacho saneador apenas foi conhecida a exceção de caso julgado;

que nem no despacho saneador, nem na sentença, foi conhecida a autoridade do caso julgado (conclusões II a V do recurso).

O recorrido defendeu que a questão suscitada já foi apreciada no despacho saneador, que não foi objeto de censura e transitou em julgado (conclusão VIII da resposta ao recurso).

O Tribunal a quo, pronunciando-se sobre a nulidade arguida de falta de

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