HISTÓRIAS QUE SE REPETEM:
O abuso sexual incestuoso atravessando gerações
Mestrado em Serviço Social
PUC/SP
São Paulo
Banca Examinadora
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Dedicatória
Aos meus pais – Lurdes e Luiz – que são um exemplo de dedicação à família, respeito ao próximo e amor à vida;
Às minhas irmãs, Nice, Rosana e Cida que me tratam com muito carinho e estão sempre próximas de mim, ajudando a amenizar meus medos e inseguranças diante dos obstáculos da vida;
Ao amado Théo, companheiro incrível, que suportou minhas “crises” durante o processo de elaboração dessa dissertação e, que, não me deixou desistir diante das dificuldades. Você tem feito meus dias mais felizes e repletos de sentido.
À minha adorada e tão esperada filha Lia, que nasceu em meio a esse processo: seu sorriso renova minhas forças a cada dia.
Aos melhores amigos que alguém poderia ter: Silvio Porto e Edilene Moretti.
À minha avó Avelina, às tias Lúcia e Lázara e aos sobrinhos Charles, Paulinho e Ricardo.
AGRADECIMENTOS
À profª. Drª. Ada Pellegrini Lemos que com sua competência, dedicação e paixão ensinou-me muito mais do que teorias....ensinou-me sobre a vida.
À profª. Maria Lúcia Carvalho que já na entrevista para seleção do Mestrado foi muito acolhedora, apresentando interesse pelo tema em questão.
Às profªs. Maria Lúcia Martinelli e Maria Rita D’Ângelo Seixas, por compartilharem comigo seus conhecimentos.
À profª. Laisa Toledo que me acompanha desde a graduação, demonstrando ser uma grande companheira e profissional competente.
À Claudia, sujeito da pesquisa. Sem ela não seria possível a realização deste trabalho.
À equipe do PAVAS, que vem construindo, ao longo de nove anos, um sério e dedicado trabalho de intervenção frente ao problema do abuso sexual – Ana Helena, Andréa Machado, Carlos Diêgoli, Maria Joana, Sueli Setin, Tereza Vecina e Théo Lerner.
Aos profissionais do Centro de Saúde Escola “Geraldo de Paula Souza”, em especial do Dr. Cláudio Gastão e Drª. Cristina Tanaka, que assumiram o PAVAS naquele espaço.
À Vera Vacari que, com grande profissionalismo e competência técnica colaborou na organização deste trabalho.
RESUMO
Abstract
The purpose of this study is to understand the family in which the intrafamily sexual abuse or incestuous abuse occurs, signalizing ways for the intervention in this kind of abuse that happens in different generations.
As a way to approach to this subject, was used the author professional experience as social worker at PAVAS (Attention Program for Sexual Violence) at the Public Health School in USP (University of São Paulo). Starting with a survey of the medical registers from the cases that involved sexual abuse of children and teenagers of the female gender and hers respective fathers and stepfathers, the author focused the cases wherein also occurred sexual abuse in the previous generation, it means involving the mothers of the children and teenagers attended in the Program as victims themselves. After, was utilized a study of a particular case, being this case analyzed using the systemic theory, in order to understand the dynamic of a family in which the relations are involved by incest.
The author began from the hypothesis that the incestuous relation experienced by the woman in her childhood created for her a reference and a model of family and this fact makes she unconsciously try to establish affective relations inside the patterns that was socially apprehended for her. That implies to reproduce the abusive patterns that was historically construct by the familiar relations and these can be transmitted as a legacy.
Sumário
I – Introdução... 8
Da aproximação com o tema de pesquisa à busca da compreensão da transgeracionalidade...11
A escolha do método de pesquisa...16
Abuso sexual e saúde pública...19
Capítulo Primeiro: A escolha da terminologia: caracterização do fenômeno de conduta
1.1. Abuso ou violência sexual?...23
1.2. Compreendendo a proibição do incesto...29
1.3. Dados que revelam o triste universo do abuso sexual incestuoso...39
Capítulo Segundo: De que família falamos?
2.1. A família e suas configurações...51
2.2. A família na qual ocorre o abuso sexual incestuoso...57
Capítulo Terceiro: A família de Rita
3.1. Rita como sujeito da pesquisa...63
3.2. Rita e Cláudia: Uma história que se repete...65
Capítulo Quarto: O PAVAS
4.1. O Programa de Atenção à Violência Sexual – PAVAS...89
Conclusões...98
I - Introdução
Gostaria, nesta introdução, de destacar os motivos que me levaram a refletir sobre o problema do abuso sexual intrafamiliar, com enfoque na questão da transgeracionalidade, ou seja, a análise da dinâmica de famílias em que as mulheres – mães e filhas – vivenciaram, ao longo de sua infância e/ou adolescência, a complexa experiência de uma relação incestuosa abusiva com seu pai ou padrasto.
Para tanto, acredito ser necessário traçar, em linhas gerais, como foi se desenhando o processo de aproximação com o tema abuso sexual, inicialmente localizado nos casos contra crianças, até o despertar da compreensão do seu significado nas relações familiares geradoras ou facilitadoras deste, com ênfase nas famílias em que o abuso sexual atravessa gerações.
Meu percurso no que se refere à questão dos maus-tratos contra crianças e adolescentes, em especial, à violência sexual, é bastante longo. Em meados de 1986, com 16 anos, fui convidada a dar aulas de recreação em um Centro de Juventude (CJ), atualmente conhecido como Espaço Gente Jovem, o qual atendia crianças carentes do bairro de Vila Míriam, na Freguesia do Ó, em São Paulo.
Tive a oportunidade de conhecer várias crianças e aprender muito com elas, mas, uma família específica chamou minha atenção. Tratavam-se de cinco irmãs, a mais velha com quatorze anos e a mais nova com seis anos de idade, todas freqüentando assiduamente a unidade. Certo dia, estas meninas me contaram que seu tio materno fazia “coisas feias” com elas. Falaram isto dando muitas risadas; inclusive, naquele dia, estavam brigando para ver “de quem era a vez de ficar com o tio”. Disseram-me que “quando ele colocava seu negócio na boca delas saia um caldinho branco”. Lembro-me destas palavras como se fosse hoje.
“ousadia” da parte delas, que afinal contaram-se coisas pertinentes à sexualidade que eu, naquele momento, não estava preparada para ouvir e nem desejaria conversar com alguém a respeito. Além disso, tinha dúvida se tal história, de verdade, poderia ter acontecido...
Paralelo a isto, via que algumas crianças costumavam chegar machucadas e algumas explicavam ter sido em decorrência de surras. O que me parecia estranho era que, para aquelas crianças, tudo parecia muito comum, como se não existisse outra forma de relacionamento familiar além daquele vivenciado por elas. Os maus-tratos faziam parte não só do dia a dia delas, mas também da história de vida das pessoas que com elas conviviam. Para aquele sistema, a história estava calcada na violência como uma espécie de herança.
Num primeiro momento, fiquei paralisada e perplexa diante de tal realidade. Não a suportando, pedi demissão do local após oito meses de trabalho. Meu desejo era esquecer tudo aquilo e apagar parte da minha vivência no CJ. Comparava as histórias ouvidas e as marcas físicas presenciadas no corpo das crianças com a minha história pessoal e não conseguia compreender um “modelo de família” diverso do meu, em que os adultos, ao invés de proteger e educar, cometiam tamanhas atrocidades. Por outro lado, a relação de carinho e afeto que eu havia estabelecido com algumas monitoras e com algumas crianças e adolescentes não me permitiu tal “fuga”.
Alguns anos depois, ainda com as imagens daquelas crianças registradas em minha mente, resolvi procurar um curso universitário que me ajudasse a dar conta de “compreender e trabalhar” com tais questões e, principalmente, com as pessoas que “praticavam” os atos abusivos contra crianças.
Assim, escolhi o curso de Serviço Social e, não casualmente, todos os meus trabalhos da graduação giraram em torno do problema da violência. Pesquisei, ao longo de minha formação, questões pertinentes à violência contra a mulher, contra o migrante e, no Trabalho de Conclusão de Curso – TCC – a violência doméstica física cometida contra crianças, com o título “Do mundo do faz de conta ao mundo da violência doméstica – Uma passagem para a anulação do indivíduo”.
Já naquela ocasião foi-me possível perceber (hoje vejo com maior clareza) que as questões da violência doméstica perpassavam as gerações, sendo apenas protagonizadas por novos personagens, numa espécie de continuidade sem fim, como se as relações familiares só pudessem ocorrer de acordo com uma pauta que há muito escrita.
Já graduada, busquei aprimorar minha atuação na referida área, fazendo o Curso de Especialização em Prevenção e Profilaxia da Violência Doméstica (pelo Instituto Sedes Sapientiae) e os cursos de Psicodinâmica de Adultos (Instituto Sedes Sapientiae), Teoria Psicanalítica (PUC/Cogeae), o mestrado em Serviço Social e o curso de Intervenções Sistêmicas para Mediação de Conflitos (PUC/Cogeae).
A teoria e a prática me aproximaram, portanto, das questões referentes às heranças familiares, à cultura que permeia e remonta o universo da família e que ultrapassa gerações e que se estabelecem como um marco difícil de ser acessado e, de certa forma, de ser “decifrado”, já que se trata de relações únicas e com marcos próprios de quem faz parte daquele núcleo, ou sistema familiar.
Da aproximação com o tema de pesquisa à busca da compreensão da transgeracionalidade
Desde 1996, venho atuando em uma equipe multidisciplinar no Programa de Atenção à Violência Sexual – PAVAS1 – do Centro de Saúde Escola “Geraldo de Paula Souza”, da Faculdade de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP), local em que, além dos atendimentos às famílias, desenvolvemos pesquisas e ministramos cursos de atualização, capacitações, palestras e demais atividades inerentes às funções da saúde pública.
Realizo, no Programa, atendimentos individuais e trabalhos grupais com as genitoras das crianças e adolescentes que sofreram abuso sexual. A proximidade dessas mães possibilitou-me o reconhecimento de um universo diverso daquele que ora me propunha a trabalhar, qual seja, entender como se estabelecia a relação familiar das crianças/adolescentes que procuravam por atendimento no PAVAS, no sentido de compreender o abuso sexual naquele núcleo familiar.
O que foi percebido, a partir dos relatos de algumas mães, é que o abuso sexual intrafamiliar não era algo desconhecido para elas, ao contrário, tratava-se de uma “reatualização / repetição” de uma história já conhecida por elas, que também haviam feito parte de uma história incestuosa, a qual posteriormente, reviveriam por meio de suas filhas.
1
Tal reconhecimento me causou um certo fascínio e me levou a direcionar meu trabalho para a situação vivida por essas mulheres e a procurar entender mais profundamente essa herança.
Meu interesse culminou em meu projeto de pesquisa, cujo objetivo principal é
compreender a questão da transgeracionalidade do abuso sexual no universo familiar. Essa triste, porém marcante herança, repetia-se na história de algumas
mulheres que compareciam ao Programa para acompanhar suas filhas, filhas estas que poderiam, por sua vez, tornar-se mães de filhas abusadas. Deriva daí a inquietação: O que fazer para evitar essa repetição? Como compreender tal fenômeno?
Não tenho a pretensão de responder a todas as indagações que um tema como este suscita. Mas, o estudo do tema da repetição, buscando um sentido para ela, e a realização de uma análise mais aprofundada de como se forma uma família que tem como herança o incesto contribuirá para a construção gradativa de outras concepções acerca do abuso sexual intrafamiliar. Portanto, espero que os resultados desta pesquisa possam ser aplicados ou utilizados na mediação de problemas que ocorrem na realidade, de modo a subsidiar as intervenções dos profissionais que lidam diretamente com o tema do abuso sexual incestuoso.
Frente a estas preocupações, julguei útil me aproximar, para análise deste trabalho, da teoria geral dos sistemas, pois ela permite conceber a família como um organismo vivo e interativo, não meramente como uma somatória ou um aglomerado de partes independentes, além de facilitar a compreensão dos padrões familiares, que mantêm a repetição das formas de relações já conhecidas e introjetadas e que acabam por manter o sistema em um (im) perfeito equilíbrio.
Podemos dizer que um macrosistema (o social) interage com o microsistema (o familiar). Essa interação, por sua vez, acaba sendo um elemento que facilita a manutenção do modelo de família calcado em relações incestuosas.
Logo, não é possível uma investigação realizada meramente com os personagens isolados – “vítima”, “abusador” e mãe (“conivente”, “ausente” ou tantas outras denominações com que nos deparamos no dia a dia) –, como se fossem seres estáticos e desconectados entre si e com o contexto social maior. A proposta aqui se dá na busca da compreensão do sistema total.
Segundo Vasconcellos (2003, p.199),
“A existência de interação ou de relações entre os componentes é então um aspecto central que identifica a existência do sistema como entidade. (...) É a interação que, constituindo o sistema, torna os elementos mutuamente interdependentes: cada parte estará de tal forma relacionada com as demais, que uma mudança numa delas acarretará mudanças nas outras. Desse modo, para compreender o comportamento das partes, torna-se indispensável levar em consideração as relações.
(...) A concepção do sistema e o reconhecimento das interações vêm limitar a aplicação dos procedimentos analíticos na ciência, uma vez que os sistemas não são inteligíveis por meio da investigação de suas partes isoladamente.
As relações são o que dá coesão ao sistema todo, conferindo-lhe um caráter de totalidade ou globalidade, uma das características definidoras do sistema.”
mitos que são transmitidos para as gerações seguintes, construindo um legado familiar que lhe será conferido, quer o sujeito aceite ou não, será transmitido.
Kaës e Faimberg (2001,p.13) abordam a questão das heranças de uma forma ampla:
“O grupo precede o sujeito do grupo: isso significa que, de certa maneira, não nos é dado escolher não ser incluído no agrupamento, assim como não nos é dado escolher ter ou não ter um corpo: é assim que vimos ao mundo, pelo corpo e pelo grupo, e o mundo é corpo e grupo. A subordinação ao grupo funda-se na inelutável rocha da realidade intersubjetiva como condição de existência do sujeito humano. O que é inelutável é que somos postos no mundo por mais de um outro, por mais de um sexo, e que nossa pré-história faz de cada um de nós, bem antes de nascermos, o sujeito de um conjunto intersubjetivo, cujos sujeitos nos têm e nos mantêm como servidores e herdeiros de seus ‘sonhos de desejos insatisfeitos’, de seus recalcamentos e de suas renúncias, na malha de seus discursos, de suas fantasias e de suas histórias. De nossa pré-história tramada antes de nascermos, o inconsciente nos tornará contemporâneos, mas só passaremos a ser seus pensadores pelos efeitos a posteriori. Essa pré-história em que se constitui o originário, a de um começo do sujeito antes de seu advento, se escreve na intersubjetividade. Arrisquei formular que o sujeito é primeiro um ‘intersujeito “.
Certamente, o que esta mulher contou no atendimento, de fato, deveria estar lhe causando muita dor, por acreditar que havia falhado nos cuidados para com a sua filha. Ao mesmo tempo, teve de se deparar novamente com sua própria história de vida, relembrando seu desamparo, seus medos e sua impotência. Desta vez, porém, num papel diferenciado, embora de tanta fragilidade quanto antes.
Segundo Cromberg (1994, p. 97),
“O ato incestuoso se dá numa situação incestuosa preexistente, onde as posições e lugares familiares estavam permeados por fantasias de realidades que muitas vezes dizem respeito a mais de uma geração. Essa situação funciona como o murmúrio, o ruído que prepara, à revelia consciente dos protagonistas, a ocasião do ato sexual incestuoso. O que não foi elaborado psiquicamente pela geração anterior, e as vezes por mais de uma geração, repete-se como ato e não mais como fantasia ou outra representação simbólica, na geração seguinte”.
Ao ter um espaço para refletir sobre este fato, materializando a herança por meio da elaboração da fala, esta mulher poderá atribuir novos significados a esta história. Quanto à filha, que hoje ocupa o lugar um dia ocupado pela mãe, esperamos, a partir do interdito externo, ou seja, da intervenção do público no privado, que seja capaz de romper com a herança familiar e vir a constituir uma família livre dos laços da repetição.
Isto posto, partimos do princípio de que questões da ordem da família podem ser discutidas em seu universo desde que não acarretem danos, sejam estes físicos, psicológicos ou sociais, a nenhum de seus membros.
partir de políticas públicas, intervir no espaço familiar, de modo a contribuir para o estabelecimento de relações mais saudáveis, sejam estas imediatas ou futuras.
A escolha do método de pesquisa
O “desabafo” acima apresentado contribuiu para renovar meu interesse pelo tema da transgeracionalidade do abuso sexual intrafamiliar, que culminou no tema central da pesquisa.
O desejo de compreender como são constituídas as relações incestuosas e porque tais relações se repetem ajudou-me a escolher o tipo de pesquisa a ser adotado.
Por se tratar de um fenômeno de discussão contemporânea e, pelo fato da minha experiência profissional permitir-me um contato direto com pessoas que vivem história de repetição, optei pelo estudo de caso como diretriz metodológica mais indicada, uma vez que ele permite o estudo aprofundado de determinadas características presentes no indivíduo, que versam sobre a temática a ser abordada e, proporciona a compreensão dos fenômenos sociais mais complexos.
Segundo Chizzotti (2001, p. 102),
“O estudo de caso é uma caracterização abrangente para designar uma diversidade de pesquisas que coletam e registram dados de um caso particular ou de vários casos a fim de organizar um relatório ordenado e crítico de uma experiência, ou avaliá-la analiticamente, objetivando tomar decisões a seu respeito ou propor uma ação transformadora.
retrata uma realidade quanto revela a multiplicidade de aspectos globais, presentes em uma dada situação “.
Escolhido o método, as etapas seguintes foram:
a) a seleção e delimitação do caso: análise acerca dos critérios que nortearam o caso a ser estudado nesta pesquisa, tendo por base a relevância deste em relação ao tema e algumas características muito peculiares2. Ainda segundo Chizzotti (2001, p. 103), “o caso deve ser uma referência significativa para merecer a investigação e, por comparações aproximativas, apto para fazer generalizações similares ou autorizar inferências em relação ao contexto da situação analisada”;
b) a preocupação em apresentar dados quantitativos que justificassem o estudo da problemática, dados estes que foram levantados a partir do contato e experiência prática. Ainda neste tópico ressalta-se a importância da definição da forma de registro e documentação das informações. Escolhi a entrevista oral, registrada em relatório próprio do caso. Para tanto, vários encontros foram necessários, muitas vezes, abordando a mesma questão; e,
c) A escolha da forma de apresentação do material levantado. Optei pelo estilo narrativo, em que poderia expressar com maior riqueza detalhes do momento da entrevista.
Cabe sinalizar que a “entrevista” não ocorreu somente num caráter de pesquisa, mas, sim, como parte de um trabalho de intervenção realizado pelo Serviço Social, com um Termo de Consentimento Informado devidamente assinado.
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Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas de modo a incentivar o sujeito da pesquisa a falar sobre o assunto, desobrigando-o da responsabilidade de responder um questionário. Cabe apontar que tive a máxima cautela para não forçar uma entrevista tendo em vista apenas o objetivo da pesquisa, pois se tratava também de um atendimento de saúde. Esta junção foi observada no processo de construção deste trabalho.
Vale lembrar que o tema em questão diz respeito a um tema tabu, que há cerca de duas décadas era visto como algo do campo privado, chegando muito timidamente para a área do público, já que assuntos de família eram tratados no interior desta.
A escolha do estudo de caso proporcionou ainda uma melhor aproximação com a pessoa central da pesquisa, permitindo uma relação mais interativa, sem, entretanto, acrescentar elementos que pudessem ser prejudiciais à coleta de dados.
Há autores que pontuam que o estudo de caso é questionável, pois fornece pouca base para fazer uma generalização científica. Entretanto, ao optar por este método, tive a clareza de que ele seria o mais adequado por permitir acesso a uma experiência empírica, respaldado por dados obtidos por meio de um levantamento quantitativo que demonstravam que o fenômeno em estudo (a repetição do abuso sexual intrafamiliar ou incestuoso) apresenta-se em grande escala, além disso, num estudo aprofundado de um único caso, algumas respostas para os “comos e os porquês” poderiam surgir.
Para Yin (2005: 32)
“Um estudo de caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos.
como resultado, baseia-se em várias fontes de evidências, com os dados precisando convergir em um formato de triângulo, e, como outro resultado, beneficia-se do desenvolvimento prévio de proposições teóricas para conduzir a coleta e a análise de dados “.
Assim, definido o método de pesquisa, a segunda escolha necessária relacionou-se ao referencial teórico de análise que, como já mencionado pauta-se na visão sistêmica, a qual permite a interação do observador com o fenômeno em estudo.
Abuso sexual e saúde pública
Há muito, questões familiares deixaram de ser meramente da ordem do privado, tornando-se de interesse público a resolução de conflitos que envolvam questões de gênero, ou seja, a construção social de papéis atribuídos segundo o sexo e de violência doméstica, especialmente, contra a mulher e contra crianças e adolescentes, incluindo-se, naturalmente, o abuso sexual.
Desde o princípio da década de 80, em razão da pressão exercida por movimentos organizados – feministas, meninos e meninas de rua, dentre outros, esses problemas vêm ganhando destaque enquanto questão de saúde pública.
• “Obtenção de tantos conhecimentos básicos quantos possíveis acerca de todos os aspectos da violência, mediante o levantamento sistemático de dados sobre a magnitude, o alcance, as características e as conseqüências da violência nos níveis local, nacional e internacional;
• Investigação de o porquê se produz a violência; ou seja, levar a fundo estudos para determinar:
• as causas e fatores correlativos da violência;
• os fatores que aumentam ou diminuem o risco da violência;
• os fatores que poderiam se modificar mediante intervenções.
• Busca de possíveis formas de prevenir a violência, usando a informação descrita em um passo anterior, mediante o desenho, a execução, a vigilância e a avaliação de intervenções;
• Execução de ações que em diversas circunstâncias resultem efetivas, acompanhadas de uma difusão ampla de informação e de uma avaliação da eficácia em relação aos custos dos programas.”(OMS, 2003, p.5).
Com vistas a responder às preocupações apontadas pela Organização Mundial de Saúde no que tange à questão da violência e, mais precisamente, à violência sexual, programas surgiram baseados numa concepção mais completa de responsabilização, proteção dos direitos das crianças e adolescentes e atenção/ promoção da saúde dos envolvidos.
Este último tópico (atenção/promoção da saúde dos envolvidos) compreende o abuso sexual como um tema de saúde pública.
Segundo Domingues (1998, p.72),
distribuição das doenças e problemas de saúde, suas causas-risco e utiliza seus resultados para propor medidas de controle e prevenção] da situação de saúde, das pesquisas dos serviços de atenção à saúde, assim como das respostas da sociedade para solucionar os problemas e necessidades de saúde identificadas. Sua essência é a saúde do povo. Pode-se assegurar que a Saúde Pública tem três campos fundamentais: a investigação, a educação e a prática dos serviços de atenção preventivo-curativos para os indivíduos, grupos de família e comunidade, e inclui os conhecimentos do ambiente natural e social.” (O grifo é meu.)
Entendendo então o abuso sexual enquanto uma questão de saúde pública, o esforço desta pesquisa é o de contribuir para a instrumentalização dos profissionais que tratam, no cotidiano, demandas oriundas da família, principalmente daquela em que ocorrem as relações incestuosas.
Trabalhar no dia-a-dia com esta demanda implica num grande desafio, o mesmo vale para a construção do entendimento teórico das relações familiares em que o incesto atravessa gerações.
Para que o leitor se aproprie da temática em questão, organizei este trabalho da seguinte forma:
A introdução, em linhas gerais buscará problematizar a questão do abuso sexual como um problema de saúde pública e apresentará a escolha do método de pesquisa utilizado, bem como, elementos que justificam meu interesse pelo tema.
O primeiro capítulo abordará:
brasileiros, destacando, dentre eles, Mello (2002), que discute a construção do conceito de abuso sexual ao longo de duas décadas.
• o enfoque para o conceito de incesto, na visão da antropologia, da psicanálise e da ciência social. Autores como Lévi-Strauss (1982), Freud (1969, 1989, 1993, 1999), Firenczi (1992), Kaës e Faimberg (2001), dentre outros, servirão como base teórica de sustentação;
• a prática profissional e os dados quantitativos acerca do levantamento para caracterização das famílias atendidas no Programa de Atenção à Violência Sexual – PAVAS;
No segundo capítulo, discuto o conceito de família e apresento, em linhas gerais, as mudanças ao longo dos tempos, da família monogâmica às diferentes composições familiares. Apresentarei também uma leitura das famílias nas quais ocorre o abuso sexual incestuoso.
No terceiro capítulo, apresento o estudo de caso de uma família em que o abuso sexual ocorreu em gerações diferentes (mãe abusada pelo pai na infância e filha abusada pelo pai no presente) e a análise desse funcionamento familiar sob a ótica sistêmica.
No quarto capítulo, abordo o local em que foi desenvolvida a pesquisa – o PAVAS – destacando seu histórico e metodologia de trabalho.
Capítulo Primeiro
A escolha da terminologia: caracterização do fenômeno de conduta
1.1. Abuso ou violência sexual?
A expressão “abuso sexual”, vem sendo apresentada com maior freqüência na última década, principalmente quando se trata do ato cometido em relação a criança e ao adolescente.
Segundo Aurélio (1992), “abuso significa” mau uso de; uso excessivo, injusto; irregularidade; atropelo; ultraje ao pudor “.
Na pesquisa denominada “Repensando os conceitos de violência, abuso e exploração sexual de crianças e de adolescentes”, concluída no ano de 2000, a pesquisadora Eva Faleiros identifica a imprecisão acerca do uso de termos para expressar, de maneira mais fidedigna as situações de abuso. Ela aponta que na literatura são encontrados diferentes termos para expressar o problema, muitas vezes de maneira confusa e incorreta.
Segundo Eva Faleiros:
como exploração sexual comercial. Por outro lado um mesmo termo pode designar distintas realidades, como por exemplo, o termo exploração sexual
é utilizado pela OMS para designar situações de abuso sexual intra e extrafamiliar e prostituição, enquanto que muitos autores o utilizam referindo-se apenas à exploração sexual comercial.
A utilização de diferentes termos como sinônimos e como se correspondem a um mesmo conceito não é apenas uma questão de terminologia, mas uma questão epistemológica, ou seja, revela a falta de uma rigorosa e clara conceituação da problemática “. (2000, p.4)
O que foi constatado pela referida pesquisadora é identificado na prática cotidiana. Consultei fontes (livros, teses, sites em Internet e artigos) e,conversei com profissionais envolvidos com o tema, deparando-me com uma infinidade de terminologias. Reconheço que tal fato me causou grande inquietação. Afinal, qual seria a terminologia mais adequada para retratar o meu objeto de pesquisa?
As discussões referentes ao uso da terminologia já vinham ocorrendo junto à equipe de trabalho do PAVAS3, no sentido de encontrarmos o termo mais
apropriado. Entendemos que a expressão “violência sexual” é mais abrangente, que abarca todas as situações, inclusive as cometidas contra crianças e/ou adolescentes, ou adultos. Além disso, pode ser dividida em “categorias” como, por exemplo, abuso sexual, exploração sexual, prostituição infantil, etc.
Assim, o abuso sexual entendido como uma categoria da violência sexual, pode ser definido, segundo a ABRAPIA – Associação Brasileira de Proteção a Infância e a Adolescência, como:
“uma situação em que uma criança ou adolescente é usado para gratificação sexual de um adulto ou mesmo de um adolescente mais velho, baseado em uma relação de poder que pode incluir desde carícias, manipulação da genitália, mama ou ânus,” voyeurismo “, pornografia e
3
exibicionismo, até o ato sexual com ou sem penetração, com ou sem violência.” (1997, p.14)
O que marca o abuso sexual contra a criança e/ou adolescente não é necessariamente o emprego da violência física, mas, ao contrário a relação de poder entre abusador e abusado, no intuito da satisfação e gratificação sexual do perpetrador, já que a criança e/ ou adolescente exposto ao abuso sexual vivenciam uma relação que não é compatível com seu desenvolvimento psicossocial ou idade biológica.
Para Mello (2002, p.23), o abuso:
“Pode ser compreendido como uma categorização, ou seja, como organização e seleção de aspectos de um acontecimento que, inevitavelmente, se constitui em prática discursivas, que se fundam a partir de vivências diversas tais como, interação face a face, mediadas pelos meios de comunicação e pelos processos históricos que cada pessoa vivencia e pela humanidade”.
Ou seja, a construção do conceito de abuso sexual dá-se também no cotidiano, de forma coletiva e pelo uso consecutivo da linguagem. Os documentos históricos também são fontes que “demarcam” determinados conceitos, sendo a palavra abuso notoriamente identificada em textos, artigos, jornais, etc. nas últimas décadas, ocorrendo assim sua institucionalização.
Desta forma, o tempo histórico em que a palavra ganha força é importante para a escolha da terminologia, já que torna a palavra corriqueira na linguagem cotidiana.
“VIOLÊNCIA é a categoria explicativa da vitimização sexual; refere-se ao
processo, ou seja, à natureza da relação (de poder) estabelecida quando do abuso sexual.
ABUSO SEXUAL é a situação de uso excessivo, de ultrapassagem de limites: dos direitos humanos, legais, de poder, de papéis, de regras sociais e familiares e de tabus, do nível de desenvolvimento da vítima, do que esta sabe, compreende, pode consentir e fazer “.(2000, p. 10)
A prática no atendimento de casos de abuso sexual comprova e atualiza a teoria, demonstrando que as relações de poder, impostas seja por papéis hierárquicos socialmente construídos, classe social, idade, desenvolvimento físico, etc. constituem-se no marco maior desta categoria da violência. Cabe ressaltar que o uso de violência física é relativamente menos freqüente como recurso no caso de abuso sexual contra crianças ou adolescentes, principalmente naquele que ocorre no interior da família. Ao contrário, a ameaça da perda do amor e da desestruturação familiar, a obrigação de responder aos mandos das pessoas mais velhas, a sedução e os privilégios que algumas vezes advêm destas relações formam o complexo emaranhado que circunda o abuso sexual e suas nuances, permeadas pelo jogo de poder.
A OMS utiliza a terminologia violência sexual. Esta é entendida como um problema de saúde pública freqüente e grave, que afeta milhares de pessoas em todo o mundo. Os fatores que desencadeiam a violência sexual são diversos e dependem do contexto social, cultural e econômico. Define a violência sexual como:
“Todo ato sexual, tentativa de consumar um ato sexual, os comentários e insinuações sexuais não desejados, as ações para comercializar ou utilizar de qualquer outro modo a sexualidade de uma pessoa, independentemente da relação desta com a vítima, em qualquer ambiente, incluindo o lar e o lugar de trabalho”. (2003, p. 161)
“A violência sexual inclui a violação, definida como a penetração forçada fisicamente ou empregando outros meios de coação, por mais leves que sejam, da vulva ao anus, usando um pênis, outras partes corporais ou um objeto. O intento de realizar algumas das ações mencionadas se conhece como intento de violação.
(...) A violência sexual pode incluir outras formas de agressão que afetam um órgão sexual, incluindo o contato forçado entre a boca e o pênis, a vulva ou o anus “.(2003, p. 161)
No que se refere às formas de violência, no mesmo documento é enfatizado que os atos de violência sexual podem ser variados e produzir-se em circunstâncias e âmbitos distintos. Dentre eles destacam-se:
• “a violação no matrimônio ou nos relacionamentos amorosos;
• a violação por parte de desconhecidos;
• a violação sistemática durante os conflitos armados;
• as insinuações ou investidas não desejadas de caráter sexual, com a exigência de manter relações sexuais em troca de favores;
• o abuso sexual de pessoas física ou mentalmente incapacitadas 4;
• o abuso sexual de menores5;
• o matrimônio ou co-habitação forçada, incluindo o matrimônio de menores;
4
Utilizei o negrito para destacar a utilização da palavra abuso, a qual surge no texto para sinalizar uma relação entre um abusador e uma pessoa “incapacitada”, seja física ou mentalmente (similar à uma criança).
5
• a negação do direito de fazer uso da anticoncepção ou de adotar outras medidas de proteção contra as enfermidades de transmissão sexual;
• o aborto forçado;
• os atos de violência que afetam a integridade sexual das mulheres, incluindo a mutilação genital feminina e as inspeções obrigatórias para comprovar a virgindade;
• a prostituição forçada e o trato de pessoas com fins de exploração sexual “. (OMS, 2003, p. 163)
Neste trabalho utilizo a terminologia abuso sexual, para me referir às ações sexuais de um adulto em relação a uma criança/adolescente, ainda em desenvolvimento físico, psicológico, social, emocional. Constituindo-se portanto num ser imaturo, ela não tem a compreensão total das situações abusivas da qual faz parte.
No que tange ao abuso sexual que ocorre no universo da família, utilizarei as terminologias abuso sexual incestuoso ou intrafamiliar, pois ambas explicitam
tanto a forma de poder estabelecida neste tipo de relação, quanto o fato de que se trata de uma relação envolvendo membros de uma mesma família, ou seja, com algum grau de parentesco.
Abuso sexual intrafamiliar é aquele que ocorre no universo da família nuclear (pai, mãe, filhos, irmãos) ou extensa (avôs, tios, primos e outros parentes próximos, consangüíneos ou por afinidade).
e tio/tia e sobrinha/sobrinho. Na maioria das sociedades são aceitas relações entre primos, não sendo consideradas necessariamente incestuosas. Podem, porém, ser consideradas como abuso sexual intrafamiliar incestuoso, caso mantidas pelo uso do poder.
Como neste trabalho discorrerei sobre as relações abusivas entre pai e filha, em diferentes gerações, cabe um maior destaque para aclarar a questão da proibição do incesto e seus reflexos na sociedade.
1.2. Compreendendo a proibição do incesto
Segundo o Aurélio, a palavra "incesto" deriva do latim incestum, que quer dizer estritamente "sacrilégio". Incestum, por sua vez, deriva de incestus, que significa "impuro e sujo". A palavra também nos remete a incesto como algo imoral, proibido, uma mancha que marca aqueles que ultrapassam suas barreiras.
Um dos que estudaram o incesto de forma aprofundada foi o antropólogo Lévi-Strauss (1982, p. 62), que trouxe enormes contribuições teóricas para a compreensão do fenômeno. Para ele,
social do homem, e logo verificamos que a proibição não depende exatamente nem de uma nem de outra, a proibição do incesto constitui justamente o vínculo que as une uma à outra.”
O incesto é da ordem do desejo primitivo, algo que precisa ser contido pela cultura, por meio de normatizações que regulamentam formas de convívio em grupo, para que a sociedade possa se constituir como tal.
A partir do momento que os homens aprenderam a lidar e conviver com leis e regras e abdicar” de seus desejos e instintos sexuais mais primitivos, foi possível a estes conviverem enquanto uma sociedade organizada, logo, respondendo às normas civilizatórias ou culturais, destacando-se dentre elas a proibição do incesto”.
A proibição do incesto consolida-se numa lei que permeia as relações humanas e, por sua vez, esta lei tem uma dimensão cultural, social, moral, psicológica, espiritual, enfim, perpassa toda a condição humana.
Mitterauer, em seu artigo intitulado “Os costumes dos magos: o problema do incesto nas sociedades históricas”, datado de 1998, fala das várias tentativas de diferentes correntes teóricas para explicar o tabu do incesto. Cita como o primeiro enfoque o biológico, o qual denomina de “teoria da abstenção endógama”. Por esta ótica uma das possíveis proibições para o tabu do incesto baseia-se nas conseqüências genéticas negativas para a descendência. Afirma que “em humanos, os filhos de parentes próximos mostram incidência nitidamente maior de doenças e deformidades. Isto é muitas vezes denominado ‘degeneração endógama”. (Mitterauer, 1998, p. 272).
nasceram sem nenhum tipo de seqüela genética. Isto posto, há que estar para além desta a explicação da existência do tabu do incesto.
Mitterauer apresenta uma outra abordagem na tentativa de explicar o fenômeno, qual seja, a “teoria da indiferença”. Segundo ele, esta teoria “supõe uma aversão inata ao intercurso sexual entre pessoas que viveram juntas desde a mais tenra infância”. Justifica esta visão por meio da apresentação de pesquisas sociológicas, trazendo como exemplo o caso de crianças que cresceram em Kibutz, as quais jamais estabeleceram entre si uma relação amorosa ou de casamento na vida adulta. Diz ainda que “o que é notável na teoria da indiferença é que o fator decisivo na aversão ao incesto não é a relação biológica, mas a proximidade social – embora esta última pudesse seguir padrões comportamentais baseados na natureza humana”. (Mitterauer, 1998, p. 272).
Chama a atenção o aparecimento da justificativa social, não enquanto uma condição que remeta aos aspectos genéticos/biológicos, mas sim, como algo apreendido e assimilado pelos indivíduos e que, de certa forma, tem um peso agregado à condição moral, entendida como um conjunto de regras e condutas. Desta forma, o tabu do incesto ocorre enquanto uma proibição inerente ao grupo em questão.
A proibição do incesto permite que o indivíduo estabeleça a passagem para o universo das relações sociais, a partir do momento que seu meio já não é suficiente para responder às suas necessidades fisiológicas, como a do exercício da sexualidade e da própria procriação. O incesto, nesta visão da antropologia cultural, seria um meio pelo qual o homem não estaria de fato inserido na cultura, mas sim, preso a seus próprios instintos.
Uma quarta teoria estaria pautada no “desejo de estabilidade em papéis e relações familiares. Supõe-se que a principal função do tabu do incesto seja evitar tensões que poderiam ser criadas pela incerteza sobre os papéis dentro da família”. (Mitterauer, 1998, p. 273). O autor aponta, a partir da visão dos sociólogos, que o tabu do incesto tem uma função importante na prevenção da rivalidade em família, evitando, desta forma, a tensão que poderia advir das brigas internas pelo estabelecimento de relações sexuais no âmbito da família. Chama a atenção para a proibição do tabu do incesto como algo ligado mais diretamente à família nuclear e não à família extensa.
Finalizando, o autor apresenta a ótica dos historiadores sociais, os quais, segundo ele, “vêem o tabu do incesto principalmente como uma regra social”, que deve considerar igualmente os papéis respectivos da natureza e da cultura em sua produção.
Esta explanação demonstra o quanto complexo é o tema e que, para compreendê-lo é necessário ter uma noção das forças que o movimentam, forças estas ligadas ao instinto, à cultura, à moral, aos valores sociais e à psique humana, enfim, que não podem ser explicadas separadas umas das outras. Impõe, portanto, um conhecimento interdisciplinar harmonicamente combinado pela teoria geral dos sistemas, a qual prega a necessidade da composição do saber para a compreensão dos fenômenos.
“As proibições de incesto dentro de uma cultura não só são socialmente determinadas; as pré-condições para a aversão ao incesto também parecem depender de fatores sociais, ainda que se restrinjam a um número menor de pessoas, o que nos leva a sugerir que os dois domínios podem estar casualmente interligados. Podemos perguntar se as proibições de incesto tão diversas vinculam-se originalmente à predominância de estruturas familiares, em maior ou menor medida, complexas nas sociedades específicas. Por várias razões, porém, esse argumento precisa ser apresentado com reservas. Em primeiro lugar, é difícil determinar que relações proibidas dentro dos lares realmente devem ser explicadas pelo fenômeno da indiferença. Existem outros motivos para proibir relações sexuais com membros da casa, como é mostrado pelas proibições de ‘incesto’ com parentes por afinidade. Tais motivos poderiam ter se aplicado igualmente a sobrinhas ou primos. Além disso, pode-se mostrar que houve uma série de fatores culturais operando contra a construção de regras do incesto com base na aversão natural, como preservação do ‘sangue puro’; em alguns casos, a superação da aversão era interpretada até como um ato mágico ou religioso. Enfim, podemos supor que as regras do incesto, como as regras para casamentos preferenciais, podem sobreviver em muito às condições sociais que as produziram”.
(...) Como normas culturais, as proibições de incesto não parecem nunca ter uma explicação simples. Estruturas familiares distintas são apenas um fato entre muitos. No entanto, a conexão entre estrutura familiar e incesto merece ser buscada não só a fim de se alcançar uma melhor compreensão das regras de abstinência e de comportamento entre parentes próximos; é igualmente importante em relação à família como forma social histórica. A concepção clássica do tabu do incesto encoraja a idéia de que a família nuclear é universal e natural. Ao confrontar essa concepção com a variabilidade do ato de evitar o incesto e sua proibição, podemos libertar o conceito de família do determinismo biológico”.
A proibição do incesto, principalmente no que tange à relação de primeiro grau (pai/mãe/filhos), tem uma amplitude que perpassa várias linhas de pensamentos, o que suscitou pesquisas e investimentos teóricos destas correntes.
Freud, no início de seus estudos sobre a histeria, ao escrever a teoria da sedução, partiu do princípio de que as histéricas haviam sido abusadas sexualmente por seus pais ou cuidadores, já que todas apresentavam um conteúdo de origem sexual e isto era a fonte geradora de seus traumas. Após vários estudos, agregou novo valor à sua conclusão, associando as questões apresentadas pelas histéricas a algo da ordem da fantasia, ou seja, havia sim uma fantasia incestuosa na história destas mulheres, que operava enquanto uma realidade psíquica e não como realidade vivida.
Diante disto, ele abandonou a teoria da sedução e deu um passo significativo na descoberta da sexualidade infantil. Ora, se estas mulheres adultas traziam consigo “lembranças” (ou desejos) de uma relação incestuosa, isso significava que havia um componente sexual pré-existente desde a infância. Para ele, os primeiros desejos sexuais humanos são sempre de natureza incestuosa e estes desejos reprimidos desempenham um papel muito importante como causa de neuroses posteriores.
É importante destacar que um forte aspecto da teoria freudiana diz respeito então à dissolução do complexo do Édipo (tanto no menino quanto na menina), pois seria a partir dele que a lei poderia ser internalizada no indivíduo e este passaria a se estruturar enquanto um ser social apto a seguir regras de convívio coletivo, destacando-se entre elas a própria proibição do incesto, e controlador de suas pulsões e desejos mais primitivos.
Para Segre (2004, p. 22)
“A interdição do incesto é entendida como o paradigma de limite, o que diferencia a ordem do caos, o que representa a possibilidade de que, entre um impulso e sua satisfação, se interponha algo, abrindo espaço para o desenvolvimento de um aparelho mental que opere com representações”
Somado a visão da psicanálise com as teorias acima apresentadas podemos fazer uma junção que facilitará a análise da passagem do homem para a cultura. É por meio da proibição do incesto que o ser humano poderá alcançar sua “identidade social” , uma vez que a repressão de seus desejos edípicos é um fator de estruturação psíquica e social, já que o indivíduo passa a fazer parte da cultura e, conseqüentemente, de uma sociedade com leis gerais de comportamento.
Assim, a proibição do incesto não é uma “invenção” religiosa, biológica, cultural, social ou psíquica; ao contrário, ela é uma realidade que agrega estes vários elementos na busca de um limite para a construção social do ser humano. Para Cohen (1993), a proibição do incesto atua para que o indivíduo e, posteriormente, a família possam ter a possibilidade de limitar suas pulsões mais primárias, de modo que possam entrar no mundo da cultura humana.
Bollas em seu texto intitulado “O trauma do incesto”, enfatiza que é necessário compreender a família em que ocorre o abuso sexual, sendo os personagens envolvidos não somente a criança e o abusador, mas também a mãe, figura de suma importância nesta relação.
Para ele, a falha da mãe em relação às necessidades infantis primitivas da criança propicia a aproximação da relação entre pai e filha. O pai que atua (comete o incesto), por sua vez, “des-estrutura” a relação da criança com ele como pai por duas razões, sendo uma por “vestir a pele da mãe” no que tange ao seu papel simbólico e outra, pelo fato de remeter a criança, vítima da relação incestuosa, aos seus primeiros anos de vida, o que lhe ocasiona um trauma temporal (distorção do tempo). O ato de deitar-se com o pai – de fantasia psíquica à realidade – causa confusões à criança e, conseqüentemente, uma cena traumática.
“Quando o pai comete o incesto, ele penetra na pele psíquica da mãe. Deitar com o bebê, amamentá-lo, niná-lo contra o seu corpo, ser o primeiro travesseiro no qual ele dorme, tem sido a atribuição dela. Sob esse aspecto, então, a mãe é inconscientemente vista como uma parceira criminosa na violação, porque o pai penetrou em seu corpo e explorou essa relação mãe-criança a fim de ter acesso à filha. E a mãe-criança se sente muito confusa e culpada, porque permite o pai em sua cama por meio da autorização da mãe, o que, na verdade, é um certo crime contra a mãe, uma ofensa ao seu conduzir produtivamente refreado das relações corpo-a-corpo”. (Bollas, 1991: p. 193)
Para complementar o que foi acima mencionado, cabe citar neste capítulo o pensamento de Firenczi, em seu texto “Confusão de língua entre os adultos e a criança – a linguagem da ternura e da paixão”, datado de 1992. Para ele, a criança busca uma relação de afeto, enquanto o adulto retribui com uma resposta sexualizada, o que gera uma grande confusão, tanto no que diz respeito aos papéis desempenhados, quanto na resposta para o pedido da criança. Enfatiza que o medo, ocasionado por esta relação em que o adulto detém o poder, faz com que a criança fique emudecida e siga as exigências e instruções deste adulto.
“Mas esse medo, quando atinge seu ponto culminante, obriga-as a submeter-se automaticamente à vontade do agressor, a adivinhar o menor de seus desejos, a obedecer esquecendo-se de si mesmas, e a identificar-se totalmente com o agressor. Por identificação, digamos, por introjeção do agressor, este desaparece enquanto realidade exterior, e torna-se instrapsíquico; mas o que é intrapsíquico vai ser submetido, num estado próximo do sonho – como é o transe traumático – , ao processo primário, ou seja, o que é intrapsíquico pode, segundo o princípio de prazer, ser modelado e transformado de maneira alucinatória, positiva ou negativa. Seja como for, a agressão deixa de existir enquanto realidade exterior e estereotipada e, no decorrer do transe traumático, a criança consegue manter a situação da ternura anterior”. (Firenczi, 1992: p. 102)
Firenczi defende que a mudança significativa provocada no espírito da criança pela identificação com o parceiro adulto é a introjeção do sentimento de culpa do adulto, já que este nega o ocorrido, comportando-se como se nada tivera acontecido, ficando para a criança a responsabilidade pelo ato ocorrido.
Um exemplo de um caso de abuso sexual de um pai contra uma adolescente, que ocorreu por cerca de oito anos (dos 7 aos 15 anos de idade da adolescente). A menina relatou que, quando seu pai chegava em casa e lhe dizia “boa noite”, era um sinal de que naquele dia ela teria de manter relação sexual com ele. Logo, ela se “arrumava” e ficava à espera do pai à noite em seu quarto. Este entrava, praticava com ela a relação sexual e saía sem lhe dizer sequer uma palavra. A adolescente sentia-se culpada por, de certa forma, “entender” os sinais do pai e obedecer, sem um pedido efetivo ou o uso de força que justificasse sua falta reação. A culpa que era do abusador passou a ser internalizada pela adolescente.
Há uma relação direta entre o “não dito” e alguns axiomas da Pragmática da Comunicação, de Watzlawick. Segundo esta teoria, é impossível não se comunicar. O ser humano é um ser da comunicação, seja esta analógica – verbalizada – ou digital – por expressões corporais, gestos ou ritos. Assim, as mensagens transmitidas pelo pai por meio do gestual e de como usava a expressão “boa noite” trazia para a filha a mensagem implícita de que seria realizada, naquele dia, uma relação incestuosa. Provavelmente, o próprio corpo incumbia-se de traduzir o que não era possível dizer por meio das palavras, originando uma compreensão tácita.
Retomando a questão da psique, a compreensão das seqüelas do abuso sexual incestuoso para o aparelho psíquico humano demonstra que o trauma psíquico provocado por ele, em alguns casos, penetra no indivíduo, pondo em cheque seu pleno desenvolvimento.
Finalizando, a proibição do incesto não é meramente da ordem social, cultural ou religiosa, mas sim uma condição para que o ser humano possa se estruturar em suas várias dimensões e, suas conseqüências ditam pautas para o indivíduo ao longo de sua vida.
1.3. Dados que revelam o triste universo do abuso sexual incestuoso
A proibição do incesto e as suas seqüelas são temas de interesse de diferentes linhas teóricas há muito. O ser humano vem buscando respostas na antropologia, na sociologia, na biologia, na psicologia, enfim, em várias disciplinas no sentido de encontrar respostas efetivas para um tema tão complexo como este.
O atendimento a casos de abuso sexual, desenvolvido no PAVAS, apresentou um dado relevante para a compreensão do abuso sexual incestuoso. Trata-se do universo familiar como uma forma de institucionalizar o incesto como uma construção da família. Ou seja, as relações incestuosas, em sua grande maioria, não são estabelecidas somente a partir de determinada geração; assim elas não ocorrem sem existir antes um contexto que propicie sua efetividade, seja por meio da pré-existência de relações incestuosas no histórico familiar do casal que se forma como um novo núcleo familiar, seja por meio de relações de maus-tratos e outros tipos de violência que acompanham a cultura da família por meio de algum de seus membros.
Um dado significativo é que 25% das mães que acompanham ao PAVAS filhas, cuja queixa principal é o abuso sexual incestuoso, também sofreram o mesmo tipo de abuso na sua infância.
que de 300 casos 6 atendidos, 188 casos eram de agressores conhecidos das
“vítimas”.
Ao me referir às crianças e aos adolescentes atendidos no Programa, coloco entre parênteses a palavra vítima por entender que o termo responde mais diretamente às instâncias jurídicas encarregadas de buscar responsabilização e possíveis medidas legais a serem aplicadas contra aqueles que cometeram algum delito, de modo a preservar o direito e a proteção daqueles que o sofreram – “vítimas”. Entretanto, no atendimento de saúde estes papéis não devem ser cristalizados e, costumeiramente utilizamos o termo “situação de abuso sexual”, já que este permite conceber o indivíduo como um sujeito envolvido numa relação abusiva, a qual agrega outros componentes na trama o que nos leva a entender que há uma dinâmica familiar e não meramente personagens estagnados de vítima de abusador.
Isto não significa que não aceito a relação de poder no abuso sexual; ao contrário, compreendo suas nuances e não busco diminuir a responsabilidade daquele que comete o ato. Procuro apenas ampliar o entendimento das circunstâncias em que ocorre.
Conforme apontado pela literatura a maioria dos casos de abuso sexual é cometido por pessoas do convívio das crianças/adolescentes. Cabe ressaltar que por conhecido temos vizinhos, amigos da família, tios, primos, irmãos, avós, pais, padrastos, etc.
Minha experiência profissional no trato com estas questões permite-me identificar diferentes formas de expressão/dinâmica do abuso sexual, de acordo com o tipo de relação mantida entre aquele que abusou e aquele que sofreu o abuso.
6
Quando o abuso sexual é extrafamiliar e quem abusa é conhecido, tende a ocorrer mais de uma vez. A evolução costuma ser gradual quanto ao tipo de abuso praticado, podendo iniciar-se por meio de conversas abertas sobre sexo, exposição a algum tipo de pornografia, ligeiras passadas de mãos pelo corpo da criança, beijos no rosto, na boca ou outras partes do corpo, solicitação de masturbação do adulto; masturbação da criança e, finalmente, relação sexual, seja oral, anal ou vaginal. Em geral há ameaças verbais ou sedução e a criança/adolescente, na grande maioria dos casos, mantém silêncio por medo, vergonha ou para proteger a si mesmo ou à família. Na maioria dos casos, não há relação afetiva e de família que justifique a proteção do abusador, o que se configura num fator importante para a quebra do silêncio.
Fazendo um recorte no universo destes 188 casos em que os agressores eram conhecidos, destacamos que, 51 casos eram de relações entre pais (29 casos), padrastos (21 casos) e crianças e/ou adolescentes e 01 era da madrasta em relação à criança. Estes dados quantitativos apontam para a incidência de um número significativo de relações sexuais incestuosas, onde crianças e adolescentes são submetidas a abusos dentro do universo familiar.
Cabe destacar que na pesquisa realizada aparece apenas 01 caso de abuso sexual intrafamiliar cometido por mulher. A construção social do papel da mulher-mãe delega a esta a responsabilidade pelos cuidados de higiene e demais rotinas do dia a dia da criança, além de ser comum cenas de grande afetividade, expressa, na maioria das vezes, por meio de beijos e carinhos. Isto dificulta, de certa forma, a identificação de atos abusivos, uma vez que estes podem ser introduzidos na rotina das relações entre mães / madrastas e filhos.
conhecido. Não se dá numa relação dual – todos os familiares estão direta ou indiretamente envolvidos. Talvez por isso há maior resistência para quebra do silêncio, seja por medo, seja pelos laços afetivos ou culpa em relação à situação abusiva.
Um fato que me chamou a atenção foi o de que, dos 186 casos de abuso sexual extrafamiliar, cometidos por conhecidos ou desconhecidos, 162 (87%) tinham boletim de ocorrência e somente 24 casos (12%) não apresentou queixa. Isto parece estar de acordo com a hipótese de que quando não há uma relação familiar afetiva entre o abusador e o abusado a tendência de romper com o pacto do silêncio é maior. As próprias famílias apóiam a denúncia, pedindo apuração dos fatos e, se possível, responsabilização judicial daquele que cometeu o ato, pois não existem laços familiares a serem preservados.
O abuso sexual cometido por desconhecido costuma ocorrer uma única vez e de forma violenta, com uso da força física e, em alguns casos, de objetos. No PAVAS, este tipo de abuso é denominado como agudo. A abordagem destes casos é diferente daqueles extrafamiliares por conhecidos e intrafamiliares, uma vez que as resistências, tanto de quem sofreu o abuso, quanto da família são menores e não há proteção daquele que vitimizou, não se estabelecendo, portanto, o pacto do silêncio. Neste sentido, a busca é por justiça e de resoluções pontuais, quais sejam, na prevenção de uma gravidez indesejada, de doenças sexualmente transmissíveis, para se assegurar da “virgindade” do vitimizado ou, no caso de meninos, para esclarecer dúvidas acerca da “masculinidade” da criança.
No que tange às relações incestuosas de primeiro grau (pai/padrasto contra criança/adolescente), dos 51 casos identificados, 31 (61%) não apresentaram denúncia, ou seja, chegaram ao Programa por encaminhamento de escolas, creches, unidades de saúde ou até mesmo por procura espontânea das genitoras ou das adolescentes. Novamente isso parece indicar que a família, enquanto sistema, procura respostas que não ponham em risco sua organização, mas que possam contribuir para uma nova forma de relações no espaço doméstico.
De acordo com a literatura7, o abuso sexual incestuoso ou intrafamiliar nem sempre pode ser mensurado – são sub-notificados, já que não há interligação entre os dados da saúde e os do judiciário, o que faz com que os órgãos públicos e não-governamentais atuem e elaborem políticas de intervenção a partir de estimativas.
Um outro dado importante refere-se à repetição do histórico de abuso sexual em algumas famílias. A angústia de mães de crianças que sofreram abuso sexual (tendo elas também sofrido na infância) foi, muitas vezes, algo de “saltar aos olhos”. A pergunta que pairava no ar era: Onde será que eu errei?
Comumente vimos que pessoas que sofreram violência na infância, ao longo da vida tendem a reproduzi-las em outras relações, pois, de certa forma, “adotam” os modelos de identificação conhecidos. Tal afirmação, na maioria das vezes, é citada para falar sobre a posição do homem enquanto abusador, justificando a mulher numa posição de conivente.
É importante ressaltar os cuidados necessários com relação a estes estereótipos prontos para a compreensão e o enquadre de todas as situações de abuso sexual intrafamiliar. Há que se buscar respostas além do aparente, visível e conhecido, no sentido de construir embasamentos teóricos consistentes e que facilitem o desvelar da complexidade que tais situações suscitam.
7
Morgado (2001,p.12) aponta para uma visão importante acerca do papel da mulher no espaço familiar, de modo a romper com o estigma da conivência, recontextualizando histórica e culturalmente a relação da figura feminina no âmbito da família:
“A sociedade brasileira imputa imenso valor à função materna. A mãe é considerada o pilar, emocional e afetivo, de sustentação da família. Todavia, o valor social da função materna não pode ser analisado isoladamente, insere-se em um contexto sócio-político-cultural, determinado por um feixe de relações sociais em que se hierarquizam posições e funções.
O desempenho da função materna, ao estar determinado estruturalmente – o que propicia também espaços de autonomia – imbrica-se diretamente no valor social atribuído à família.
Na medida em que a inserção social mais ampla da mulher se dá de forma subordinada, sua inserção na família não poderia fugir a este modelo. Embora a mãe figure como a “rainha do lar”, a magnitude de seu reinado tem, por limite, o poder exercido pelo homem (marido e pai).”
Isto aponta para a influência do macro-sistema (sistema social em que são construídas as definições de gênero, as quais, por sua vez, estão relacionadas ao sexo – feminino e masculino). Não reconhecer que os sistemas interagem – macro e micro-sistema – é negar a possibilidade de compreensão dos modelos familiares que atualizam e, ao mesmo tempo, mantêm certos padrões, os quais são apreendidos e construídos socialmente, ao longo da história. Acrescentaria a esta visão o fator das heranças familiares, psíquicas e culturais, das quais o ser humano não pode estar isento. Isto se aplica a homens e mulheres.
em outros, continua desenvolvendo as funções pertinentes a seu papel, papel este culturalmente construído e instituído.
Lembro-me de uma adolescente de 12 anos que me solicitava durante os atendimentos “por favor, não deixe aquele homem fazer mais aquilo comigo... ele não é meu pai... meu pai é legal”. Quando indagada de quem era aquele homem, ela respondia que não era o seu pai, que aquele homem “era uma pessoa má e o pai dela não era”. Neste caso, a adolescente apresentava de forma cindida, a figura paterna, evitando ver o pai, de que ela gostava, como um abusador. Para ela, nesses momentos, ele se tornava “aquele homem”, alguém que ela desconhecia para manter a imagem de pai idealizada e esperada por ela, criada nos cuidados que recebeu e nas informações da cultura, do pai cuidador e protetor.
Autores como Cohen discorrem sobre outras facetas ao analisar a questão do abusador. Ele avalia o “autor do ato incestuoso ou como um doente mental, ou como portador de um distúrbio da personalidade”. Apresenta ainda, com base em Klimberg, autor sueco, dois modelos de família incestuosa, estabelecidos em duas categorias:
“a) o incesto despótico, ou seja, aquele cometido pelo pai que chega em casa alcoolizado e violenta sexualmente sua filha, aproveitando-se da submissão e da fraqueza da mulher, a qual encontra uma forma de se livrar do marido; b) incesto marital que é aquele no qual o pai toma a filha mais velha como esposa, após a morte, doença ou ausência de sua legítima esposa. “A filha passa a ter o controle da família, educando os irmãos, administrando o orçamento familiar e ocupando o leito conjugal. Nestes casos pode instaurar-se uma relação afetiva. O pai não consegue superar a morte da esposa, identificando-a na imagem da filha”. (Cohen, 2000, p. 219)
composição de outros elementos que levam a esta situação. Aponta também para os riscos do enquadramento das causas da relação incestuosa abusiva pautadas no uso de substâncias que alteram a consciência, tais como álcool ou outro tipo de drogas. Do levantamento feito no programa, menos de 2% apresentaram tal perfil.
Ao compreender o abusador dentro do sistema familiar, minha visão aproxima-se com a do autor Tilmann Furniss (1993), o qual acredita que o pai que comete abuso sexual contra seu filho, na verdade, apresenta uma imaturidade emocional. Defende a tese de que o abusador sexual tem a “síndrome da adição” (semelhante aos drogadictos) a qual acaba sendo, de certa forma, alimentada pela “síndrome do segredo” que a criança e a própria família apresentam em situações de abuso sexual incestuoso. Agindo desta forma, a família acaba produzindo sua própria vítima e, regulando o funcionamento do sistema.
Para melhor ilustrar, o mesmo autor esclarece que as duas condições estão interligadas. Para ele, o abuso sexual da criança como síndrome do segredo e da adição são determinados por alguns fatores, quais sejam:
Fatores externos:
a) falta de provas forenses – físicas;
b) em decorrência disto, pauta-se em acusações verbais – criança x adulto;
c) descrédito na comunicação da criança – tenta contar, porém, é escutada;