Superior Tribunal de Justiça
RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 30.847 - RJ (2011/0174706-6)
RECORRENTE : DÉCIO MARCÍLIO FILHO RECORRENTE : IZEQUIEL VALENTE NEVES ADVOGADO : GILSON FÁBIO SOLANO VASCO
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS RELATÓRIO
O EXMO. SR. MINISTRO JORGE MUSSI (Relator): Trata-se de recurso ordinário em habeas corpus interposto por DÉCIO MARCÍLIO FILHO e IZEQUIEL VALENTE NEVES contra acórdão da Quinta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que denegou a ordem pleiteada no HC n. 0043978-76.2010.8.19.0000.
Noticiam os autos que os recorrentes foram acusados de praticar os delitos previstos no artigo 155, §§ 3º e 4º, combinado com o artigo 14, inciso II, e artigo 180, todos do Código Penal.
Irresignada, a defesa impetrou habeas corpus na origem buscando o trancamento da ação penal, tendo a ordem sido denegada por maioria.
Sustenta o patrono dos recorrentes que estes seriam alvo de constrangimento ilegal, sob o argumento de que a captação irregular de sinal de televisão a cabo não caracterizaria crime.
Afirma que o sinal de televisão a cabo não se enquadraria no conceito de coisa móvel, não podendo ser equiparado à energia elétrica.
Alega que a Lei 8.977/1995 tipificaria como crime a interceptação ou a recepção não autorizada dos sinais de televisão a cabo sem, contudo, cominar qualquer sanção para a conduta, motivo pelo qual os recorrentes não poderiam responder criminalmente pelos fatos que lhe foram imputados na denúncia.
Requer o provimento do recurso para que seja reformado o acórdão objurgado, trancando-se o processo instaurado contra os recorrentes.
Dispensadas as contrarrazões (e-STJ fl. 61), o Ministério Público Federal, em parecer de fls. 71/76, manifestou-se pelo desprovimento do recurso.
É o relatório.
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RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 30.847 - RJ (2011/0174706-6)
VOTO
O EXMO. SR. MINISTRO JORGE MUSSI (Relator): Conforme relatado, com este recurso ordinário constitucional pretende-se, em síntese, o trancamento da ação penal deflagrada contra os recorrentes.
Segundo consta dos autos, os recorrentes foram acusados de praticar os delitos previstos no artigo 155, §§ 3º e 4º, inciso IV, combinado com o artigo 14, inciso II, e artigo 180, todos do Código Penal.
Irresignada, a defesa impetrou habeas corpus na origem buscando o trancamento da ação penal, tendo a ordem sido denegada, por maioria de votos, em aresto que restou assim ementado:
"Cidadãos denunciados por prática de furto de sinais eletrônicos, emitidos pela empresa "Sky", na intenção de distribui-los a determinadas pessoas, mediante remuneração; ainda por outro delito de menor relevo.
Hábeas Corpus interposto pelo nobre Advogado, sob alegações de falta de justa causa e violação do principio da legalidade; e também increpando falta de fundamentos e cerceio de defesa. Informações prestadas. Opinar contrário do órgão do MP. Razão manifesta.
Irregularidades que, ou não existiram, ou já foram sanadas, consoante informado. Instituto da absolvição sumária, antes restrito, no diploma regencial pátrio, aos delitos da competência do tribunal do júri, e hoje, abrangendo todos, com espeque na atual redação do artigo 397 do CPP; aqui, de especifico, seu inciso III.
Eventual dúvida na aplicação de tal instituto, de ser interpretada a favor do prosseguimento do feito, por se tratar de exceção à regra; isto, sob pena de estorvo à tarefa persecutória do "parquet", jungida ao interesse da defesa social, cujo repute descabe ser como assaz diminuto no cotejo dos direitos atinentes ao acusado.
Conduta mencionada acima, prevista induvidosamente
como crime, pelo § 3
odo artigo 155 do Código Penal, cuja
redação, embora originária, da década de 1940, quando
só se conhecia a energia elétrica, abrange a energia
gerada eletronicamente. Sinais pertinentes, que têm valor
econômico, e que tem sido amiúde subtraídos, aqui e
alhures, também no prejuízo dos que pagam
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honestamente para tê-los cm casa, e, geralmente, tendo, tais furtos, junção a criminosos que dominam comunidades carentes. Rigor, portanto, no aguardo da sentença, em termos comuns, ao depois da produção probatória. Ordem que se denega. Voto vencido do Relator originário." (e-STJ fl. 31).
Pois bem. Inicialmente, é imperioso consignar que o patrono dos recorrentes deixou de anexar ao reclamo a cópia da denúncia contra eles ofertada, documentação indispensável para a analise da alegada atipicidade da conduta.
Como se sabe, o rito do habeas corpus pressupõe prova pré-constituída do direito alegado, devendo a parte demonstrar, de maneira inequívoca, por meio documentos que evidenciem a pretensão aduzida, a existência do aventado constrangimento ilegal suportado pelo paciente.
Nessa esteira:
RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. PENAL E PROCESSUAL PENAL. ARTS. 288 E 332, PARÁGRAFO ÚNICO, AMBOS DO CÓDIGO PENAL, E ART. 92, PARÁGRAFO ÚNICO, DA LEI N.º 8.666/93. TESE DE INÉPCIA DA DENÚNCIA. PLEITO DE TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. AUSÊNCIA DE PROVA PRÉ-CONSTITUÍDA. NÃO CONHECIMENTO DA IMPETRAÇÃO ORIGINÁRIA. ACERTO DA DECISÃO.
1. O rito da ação constitucional do habeas corpus demanda prova pré-constituída, apta a comprovar a ilegalidade aduzida, descabendo conhecer de impetração instruída deficitariamente, em que não tenha sido juntada peça essencial para o deslinde da controvérsia, de modo a inviabilizar a adequada análise do pedido. Precedentes.
2. Na hipótese, embora tenha o Impetrante arguido a inépcia da inicial, não fez prova do alegado, pois não colacionou aos autos sequer a cópia da inicial acusatória. Ademais, as cópias juntadas aos autos não faziam qualquer referência à ação penal em comento ou mesmo à Paciente. Ressalte-se que a Paciente está assistida por advogado constituído, o qual deveria ter providenciado a instrução adequada do writ.
3. Recurso desprovido.
(RHC 26.541/SC, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 01/03/2011, DJe 21/03/2011)
PENAL. HABEAS CORPUS. ART. 288, PARÁGRAFO ÚNICO, DO
CÓDIGO PENAL. DOSIMETRIA DA PENA. MAUS
ANTECEDENTES. AUSÊNCIA DE PROVA PRÉ-CONSTITUÍDA. (...) I - O habeas corpus, em sua estreita via, deve vir instruído com todas as provas pré-constituídas já que o seu procedimento não admite dilação probatória (Precedentes). In casu, não há qualquer documento que comprove que os maus antecedentes levados em
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consideração pelo órgão julgador para fixar a pena-base acima do mínimo legal seriam de fato inquéritos ou processos em andamento, razão pela qual deve ser preservada, neste ponto, a r. sentença condenatória.
(...)
Ordem denegada.
(HC 160.286/PE, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 15/06/2010, DJe 09/08/2010)
Ainda que assim não fosse, tomando-se por base apenas os fatos relatados na inicial do mandamus impetrado na origem e no aresto objurgado, não se constata qualquer ilegalidade passível de ser remediada por este Sodalício.
Isso porque, de acordo com a doutrina e jurisprudência dos Tribunais pátrios, o sinal de televisão a cabo pode ser equiparado à energia elétrica para fins de incidência do artigo 155, § 3º, do Código Penal.
Nesse sentido é a lição de Guilherme de Souza Nucci:
"Furto de sinal de TV a cabo: é válido para encaixar-se na figura prevista neste parágrafo, pois é uma forma de energia." (Código Penal Comentado, 13ª ed. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2013, p. 703).
Na mesma esteira são os julgados desta Corte Superior de Justiça:
PENAL. RECURSO ESPECIAL. FURTO DE SINAL DE TV A CABO.
TIPICIDADE DA CONDUTA. FORMA DE ENERGIA ENQUADRÁVEL NO TIPO PENAL. RECURSO PROVIDO.
I. O sinal de televisão propaga-se através de ondas, o que na definição técnica se enquadra como energia radiante, que é uma forma de energia associada à radiação eletromagnética.
II. Ampliação do rol do item 56 da Exposição de Motivos do Código Penal para abranger formas de energia ali não dispostas, considerando a revolução tecnológica a que o mundo vem sendo submetido nas últimas décadas.
III. Tipicidade da conduta do furto de sinal de TV a cabo.
IV. Recurso provido, nos termos do voto do Relator.
(REsp 1123747/RS, Rel. Ministro GILSON DIPP, QUINTA TURMA, julgado em 16/12/2010, DJe 01/02/2011)
PENAL. RECURSO ESPECIAL. CAPTAÇÃO DE SINAL DE TV A CABO. CONFIGURAÇÃO DE DELITO DE FURTO. ART. 155, § 3º, DO CP. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.
1. Segundo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça a captação irregular de sinal de TV a cabo configura delito previsto no art. 155, § 3º, do CP.
2. Recurso conhecido e provido para determinar o recebimento da
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denúncia.
(REsp 1076287/RN, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, QUINTA TURMA, julgado em 02/06/2009, DJe 29/06/2009)