| Revista Eletrônica
Ano 68 | v. 222 | julho a dezembro de 2017
Órgão Oficial do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
Repositório autorizado de jurisprudência do SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, Registro nº 16, Portaria nº 12/90.
Os acórdãos selecionados para esta Revista correspondem, na íntegra, às cópias dos originais obtidas na Secretaria do STJ.
Repositório autorizado de jurisprudência do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, a partir do dia 17.02.2000, conforme Inscrição nº 27/00, no Livro de Publicações Autorizadas daquela Corte.
Os acórdãos selecionados para esta Revista correspondem, na íntegra, às cópias obtidas na Secretaria de Documentação do STF.
Jurisprudência Mineira Belo Horizonte a. 68 v. 222 p.1-760 jul./dez. 2017
| Revista Eletrônica
Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes
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ISSN 0447-1768 JURISPRUDÊNCIA MINEIRA, Ano 1 n° 1 1950-2017
Belo Horizonte, Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais Semestral.
ISSN 0447-1768
1. Direito - Jurisprudência. 2. Tribunal de Justiça. Periódico. I.
Minas Gerais. Tribunal de Justiça.
CDU 340.142 (815.1)
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
Presidente
Desembargador HERBERT JOSé ALMEIDA CARNEIRO Primeiro Vice-Presidente
Desembargador GERALDO AUGUSTO DE ALMEIDA Segundo Vice-Presidente
Desembargador WAGNER WILSON FERREIRA Terceiro Vice-Presidente
Desembargador SAULO VERSIANI PENNA Corregedor-Geral de Justiça Desembargador ANDRé LEITE PRAÇA
Tribunal Pleno
Desembargadores
(por ordem de antiguidade, em 18.10.2017)
Kildare Gonçalves Carvalho Márcia Maria Milanez Antônio Carlos Cruvinel Wander Paulo Marotta Moreira Geraldo Augusto de Almeida Caetano Levi Lopes
Luiz Audebert Delage Filho Belizário Antônio de Lacerda José Edgard Penna Amorim Pereira José Carlos Moreira Diniz
Paulo Cézar Dias
Edilson Olímpio Fernandes
Maria Beatriz Madureira Pinheiro Costa Caires Armando Freire
Dárcio Lopardi Mendes Valdez Leite Machado Alexandre Victor de Carvalho Teresa Cristina da Cunha Peixoto Alberto Vilas Boas Vieira de Sousa José Geraldo Saldanha da Fonseca Geraldo Domingos Coelho Eduardo Brum Vieira Chaves
Maria das Graças Silva Albergaria dos Santos Costa
Elias Camilo Sobrinho Pedro Bernardes de Oliveira José Flávio de Almeida Evangelina Castilho Duarte Otávio de Abreu Portes Luciano Pinto
Fernando Caldeira Brant
Hilda Maria Pôrto de Paula Teixeira da Costa José de Anchieta da Mota e Silva
José Afrânio Vilela Renato Martins Jacob Maurílio Gabriel Diniz Wagner Wilson Ferreira
Pedro Carlos Bitencourt Marcondes Pedro Coelho Vergara
Marcelo Guimarães Rodrigues Adilson Lamounier
Cláudia Regina Guedes Maia Judimar Martins Biber Sampaio Álvares Cabral da Silva
Alberto Henrique Costa de Oliveira Marcos Lincoln dos Santos
Rogério Medeiros Garcia de Lima Carlos Augusto de Barros Levenhagen Eduardo César Fortuna Grion Tiago Pinto
Antônio Carlos de Oliveira Bispo Luiz Carlos Gomes da Mata Júlio Cezar Guttierrez Vieira Baptista Doorgal Gustavo Borges de Andrada José Marcos Rodrigues Vieira Herbert José Almeida Carneiro Arnaldo Maciel Pinto
Sandra Alves de Santana e Fonseca Alberto Deodato Maia Barreto Neto Eduardo Machado Costa
André Leite Praça Flávio Batista Leite Nelson Missias de Morais Matheus Chaves Jardim Júlio César Lorens Rubens Gabriel Soares Marcílio Eustáquio Santos Cássio de Souza Salomé Evandro Lopes da Costa Teixeira
José Osvaldo Corrêa Furtado de Mendonça Wanderley Salgado de Paiva
Agostinho Gomes de Azevedo Vítor Inácio Peixoto Parreiras Henriques José Mauro Catta Preta Leal
Estevão Lucchesi de Carvalho Áurea Maria Brasil Santos Perez Osvaldo Oliveira Araújo Firmo
Maria Luíza de Marilac Alvarenga Araújo Saulo Versiani Penna
José Washington Ferreira da Silva João Cancio de Mello Junior Jaubert Carneiro Jaques Jayme Silvestre Corrêa Camargo Luiz Artur Rocha Hilário
Denise Pinho da Costa Val Mariangela Meyer Pires Faleiro Raimundo Messias Júnior Márcio Idalmo Santos Miranda José de Carvalho Barbosa
Jair José Varão Pinto Júnior Moacyr Lobato de Campos Filho André Luiz Amorim Siqueira Newton Teixeira Carvalho Ana Paula Nannetti Caixeta
Luiz Carlos de Azevedo Corrêa Junior Alexandre Quintino Santiago
Kárin Liliane de Lima Emmerich e Mendonça Luís Carlos Balbino Gambogi
Sálvio Chaves
Marco Aurelio Ferenzini Paulo de Carvalho Balbino Edison Feital Leite
Paulo Calmon Nogueira da Gama Octavio Augusto De Nigris Boccalini Maria Aparecida de Oliveira Grossi Andrade Vicente de Oliveira Silva
Roberto Soares de Vasconcellos Paes Alberto Diniz Júnior
Manoel dos Reis Morais Renato Luís Dresch
Sérgio André da Fonseca Xavier José Arthur de Carvalho Pereira Filho Pedro Aleixo Neto
Yeda Monteiro Athias Ângela de Lourdes Rodrigues Mônica Libânio Rocha Bretas Wilson Almeida Benevides José Augusto Lourenço dos Santos Juliana Campos Horta de Andrade Shirley Fenzi Bertão
Maurício Torres Soares Alice de Souza Birchal Carlos Roberto de Faria Carlos Henrique Perpétuo Braga Gilson Soares Lemes
Fernando Vasconcelos Lins José Américo Martins da Costa Ramom Tácio de Oliveira Amauri Pinto Ferreira Ronaldo Claret de Moraes Marcos Henrique Caldeira Brant
Sétima Câmara Cível
Terças-feiras Oitava Câmara Cível
Quintas-feiras
Composição de Câmaras em 18.10.2017 - Dias de Sessão
Primeira Câmara Cível
Terças-feiras Segunda Câmara Cível
Terças-feiras Terceira Câmara Cível
Quintas-feiras
Quarta Câmara Cível
Quintas-feiras Quinta Câmara Cível
Quintas-feiras Sexta Câmara Cível
Terças-feiras
* Presidente da Câmara
* Presidente da Câmara
* Presidente da Câmara
Desembargadores José Edgard Penna Amorim Pereira
Armando Freire Alberto Vilas Boas*
Pedro Carlos Bitencourt Marcondes José Washington Ferreira da Silva
Desembargadores Maria das Graças Silva Albergaria
dos Santos Costa Elias Camilo Sobrinho*
Judimar Martins Biber Sampaio Jair José Varão Pinto Júnior Adriano de Mesquita Carneiro (Juiz convocado)
Desembargadores Wander Paulo Marotta Moreira Áurea Maria Brasil Santos Perez*
Carlos Augusto de Barros Levenhagen Moacyr Lobato de Campos Filho
Luís Carlos Balbino Gambogi
Desembargadores Belizário Antônio de Lacerda*
Vítor Inácio Peixoto Parreiras Henriques Osvaldo Oliveira Araújo Firmo
Wilson Almeida Benevides Alice Birchal
Desembargadores Caetano Levi Lopes
Hilda Maria Pôrto de Paula Teixeira da Costa*
José Afrânio Vilela Marcelo Guimarães Rodrigues
Raimundo Messias Júnior
Desembargadores Kildare Gonçalves Carvalho
José Carlos Moreira Diniz Dárcio Lopardi Mendes Ana Paula Nannetti Caixeta*
Renato Luís Dresch
Desembargadores Luiz Audebert Delage Filho Edilson Olímpio Fernandes Sandra Alves de Santana e Fonseca Luís Carlos de Azevedo Corrêa Júnor*
Yeda Monteiro Athias
Desembargadores Teresa Cristina da Cunha Peixoto*
Paulo de Carvalho Balbino Ângela de Lourdes Rodrigues
Carlos Roberto de Faria Gilson Soares Lemes
Nona Câmara Cível
Terças-feiras Décima Câmara Cível
Terças-feiras Décima Primeira Câmara Cível
Quartas-feiras
Décima Oitava Câmara Cível Terças-feiras Décima Segunda Câmara Cível
Quartas-feiras Décima Terceira Câmara Cível
Quintas-feiras Décima Quarta Câmara Cível
Quintas-feiras Desembargadores
Pedro Bernardes de Oliveira Luiz Artur Rocha Hilário Márcio Idalmo Santos Miranda*
André Luiz Amorim Siqueira José Arthur de Carvalho Pereira Filho
Desembargadores Luciano Pinto
Evandro Lopes da Costa Teixeira*
Maria Aparecida de Oliveira Grossi Andrade Roberto Soares de Vasconcellos Paes
Amauri Pinto Ferreira Desembargadores Marcos Lincoln dos Santos Alexandre Quintino Santiago*
Alberto Diniz Júnior Mônica Libânio Rocha Bretas
Shirley Fenzi Bertão
Desembargadores Alberto Henrique Costa de Oliveira
Rogério Medeiros Garcia de Lima Luiz Carlos Gomes da Mata*
José de Carvalho Barbosa Newton Teixeira Carvalho
Desembargadores Álvares Cabral da Silva Mariangela Meyer Pires Faleiro
Vicente de Oliveira Silva*
Manoel dos Reis Morais Ronaldo Claret de Morais
Desembargadores José de Anchieta da Mota e Silva
Arnaldo Maciel Pinto João Cancio de Mello Junior*
Sérgio André da Fonseca Xavier Fernando Vasconcelos Lins
Desembargadores José Geraldo Saldanha da Fonseca*
Geraldo Domingos Coelho José Flávio de Almeida José Augusto Lourenço dos Santos Juliana Campos Horta de Andrade
Desembargadores Valdez Leite Machado Evangelina Castilho Duarte Cláudia Regina Guedes Maia*
Estevão Lucchesi de Carvalho Marco Aurelio Ferenzini
Décima Quinta Câmara Cível
Quintas-feiras Décima Sexta Câmara Cível
Quartas-feiras Décima Sétima Câmara Cível
Quintas-feiras Desembargadores
Maurílio Gabriel Diniz*
Tiago Pinto
Antônio Carlos de Oliveira Bispo José Américo Martins da Costa Octávio de Almeida Neves (Juiz convocado)
Desembargadores Otávio de Abreu Portes José Marcos Rodrigues Vieira*
Pedro Aleixo Neto Ramom Tácio de Oliveira Marcos Henrique Caldeira Brant
* Presidente da Câmara
* Presidente da Câmara
* Presidente da Câmara
* Presidente da Câmara
Quarta Câmara Criminal
Quartas-feiras Quinta Câmara Criminal
Terças-feiras
Sexta Câmara Criminal
Quartas-feiras Sétima Câmara Criminal
Quintas-feiras Primeira Câmara Criminal
Terças-feiras Segunda Câmara Criminal
Quintas-feiras Terceira Câmara Criminal
Terças-feiras
* Presidente da Câmara
Desembargadores Eduardo Brum Vieira Chaves
Fernando Caldeira Brant Júlio Cezar Guttierrez Vieira Baptista*
Doorgal Gustavo Borges de Andrada Jayme Silvestre Corrêa Camargo
Desembargadores Márcia Maria Milanez Rubens Gabriel Soares
José Osvaldo Corrêa Furtado de Mendonça*
Jaubert Carneiro Jaques Denise Pinho da Costa Val
Desembargadores Alberto Deodato Maia Barreto Neto
Flávio Batista Leite Wanderley Salgado Paiva Kárin Liliane de Lima Emmerich e
Mendonça*
Edison Feital Leite
Desembargadores Alexandre Victor de Carvalho
Pedro Coelho Vergara Adilson Lamounier Eduardo Machado Costa*
Júlio César Lorens
Desembargadores Marcílio Eustáquio Santos
Cássio Souza Salomé Agostinho Gomes de Azevedo*
Sálvio Chaves
Paulo Calmon Nogueira da Gama Desembargadores
Maria Beatriz Madureira Pinheiro Costa Caires
Renato Martins Jacob Nelson Missias de Morais*
Matheus Chaves Jardim José Mauro Catta Preta Leal
Desembargadores Antônio Carlos Cruvinel*
Paulo Cézar Dias Eduardo César Fortuna Grion Maria Luíza de Marilac Alvarenga Araújo
Octavio Augusto De Nigris Boccalini
Conselho da Magistratura (Sessão na primeira segunda-feira do mês - Horário: 14 horas)
Órgão Especial (Sessões na segunda e na quarta quartas-feiras do mês - Horário: 13 horas)
Desembargadores
Desembargadores
Herbert José Almeida Carneiro
Presidente
Geraldo Augusto de Almeida
Primeiro Vice-Presidente
Wagner Wilson Ferreira
Segundo Vice-Presidente
Saulo Versiani Penna
Terceiro Vice-Presidente
Pedro Coelho Vergara
Herbert José Almeida Carneiro
Presidente
Kildare Gonçalves Carvalho Wagner Wilson Ferreira
Segundo Vice-Presidente
Márcia Maria Milanez Antônio Carlos Cruvinel Wander Paulo Marotta Moreira
Saulo Versiani Penna
Terceiro Vice-Presidente
Geraldo Augusto de Almeida
Primeiro Vice-Presidente
Caetano Levi Lopes Luiz Audebert Delage Filho Belizário Antônio de Lacerda José Edgard Penna Amorim Pereira
Eduardo Machado Costa
André Leite Praça
Corregedor-Geral de Justiça
Júlio César Lorens
Luiz Carlos de Azevedo Corrêa Junior
Eduardo Brum Vieira Chaves
José Carlos Moreira Diniz Paulo Cézar Dias Edilson Olímpio Fernandes
Armando Freire Dárcio Lopardi Mendes
André Leite Praça
Corregedor-Geral de Justiça
Luiz Carlos Gomes da Mata Sandra Alves de Santana e Fonseca
Estevão Lucchesi de Carvalho Áurea Maria Brasil Santos Perez
Wanderley Salgado de Paiva Luiz Artur Rocha Hilário Alberto Vilas Boas Vieira de Sousa
Comitê Técnico da Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes
Desembargadores Wagner Wilson Ferreira Manoel dos Reis Morais Paulo Calmon Nogueira da Gama
Ângela de Lourdes Rodrigues Maria Aparecida de Oliveira Grossi Andrade
Juíza de Direito
Lisandre Borges Fortes da Costa Figueira
Diretora Executiva de Desenvolvimento de Pessoas Ana Paula Andrade Prosdocimi da Silva
Diretor Executivo de Gestão da Informação Documental André Borges Ribeiro
Comissão de Divulgação da Jurisprudência
Desembargadores
Wagner Wilson Ferreira - Segundo Vice-Presidente Maria Beatriz Madureira Pinheiro Costa Caires
Armando Freire José Flávio de Almeida Rogério Medeiros Garcia de Lima
Áurea Maria Brasil Santos Perez Júlio César Lorens José Washington Ferreira da Silva
Fernando de Vasconcelos Lins
SUMÁRIO
730 734
MEMÓRIA DO JUDICIÁRIO MINEIRO
Desembargador José Brandão de Resende Filho (1931-2002) -
Nota biográfica ...
Memória institucional: evolução histórica da estrutura do
Poder Judiciário no Brasil - Nota histórica ...
DOUTRINA
A possibilidade de utilização de normas infraconstitucionais materialmente constitucionais como parâmetro no controle de constitucionalidade
Diego Morais Carvalho ...
O incidente de resolução de demandas repetitivas e a possível solução das crises jurídicas contemporâneas
Pedro Augusto Silveira Freitas
Renato Luís Dresch ...
Readaptação e aposentadoria de professor no serviço público: divergência de entendimentos no TJMG pós-julgamento da ADI nº 3.772
Fernando Ferreira Calazans ...
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Órgão Especial ...
Súmulas ...
Jurisprudência Cível ...
Jurisprudência Criminal ...
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA ...
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ...
ÍNDICE NUMÉRICO ...
ÍNDICE ALFABÉTICO E REMISSIVO ...
12
59 43 30 19
78 82 491
721 720 15
Memória
Desembargador José BrAnDão De resenDe Filho
MeMória
MEMÓRIA DO JUDICIÁRIO MINEIRO
noTA BioGrÁFiCA*
Desembargador José Brandão de Resende Filho (1931-2002)
o Desembargador José Brandão de resende Filho nasceu em Muriaé, cidade localizada na Zona da Mata Mineira, em 20 de fevereiro de 1931. era filho de José Brandão de resende e Maria José de Medeiros resende.
Bacharelou-se em Direito em 1958 e advogou de 1959 a 1964.
ingressou na Magistratura em 15 de agosto de 1964, nomeado Juiz de Direito da comarca de Palma. Tomou posse em 19 de agosto e assumiu o exercício em 20 de agosto. em 28 de abril de 1967, foi promovido, por antiguidade, para a comarca de Tombos, assumindo as funções em 1º de maio. em 1º de dezembro de 1972, recebeu a promoção, por antiguidade, para a 2ª Vara de itajubá. entrou em exercício na mesma data. Foi designado Diretor do Foro em 3 de abril de 1973. A pedido, foi removido para a 1ª Vara da mesma comarca em 10 de fevereiro de 1978. em 5 de junho de 1979, foi designado para exercer as funções de Juiz de Menores da Comarca de itajubá.
sua promoção para o cargo de 3º Juiz substituto em Belo horizonte ocorreu em 26 de setembro de 1979.
Assumiu as funções em 8 de outubro. em 30 de dezembro de 1981, foi promovido para a 1ª Vara de regis- tros Públicos, Falências e Concordatas de Belo horizonte, com início do exercício na mesma data.
em 20 de abril de 1988, o magistrado foi promovido, por merecimento, ao cargo de Juiz do Tribunal de Alçada do estado de Minas Gerais (TAMG). Assumiu as funções em 28 de abril. Também por merecimento,
*Autoria: Andréa Vanessa da Costa Val e Reinaldo de Morais Gomes, sob a supervisão do Desembargador Lúcio Urbano, Superinten- dente da Memória do Judiciário Mineiro.
Memória
em 27 de maio de 1994, recebeu a promoção para o cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça do estado de Minas Gerais (TJMG). A posse e o exercício na 2ª Câmara Cível foram no dia 1º de junho. em 30 de junho de 1995, foi efetivada a permuta do magistrado para a 1ª Câmara Cível.
o Desembargador José Brandão de resende Filho aposentou-se, a pedido, em 20 de fevereiro de 2001.
Faleceu em 4 de março de 2002, aos 71 anos.
referências
TriBUnAl De JUsTiÇA Do esTADo De MinAs GerAis. Gerência da Magistratura (Germag). Belo horizonte, 2019.
TriBUnAl De JUsTiÇA Do esTADo De MinAs GerAis – Portal TJMG – institucional/Magistratura/
Desembargadores Falecidos – Disponível em: http://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/institucional/magistra- tura/jose-brandao-de-resende-filho-20-02-1931-a-04-03-2002.htm. Acesso em: 29/04/2019.
. . .
Memória noTA hisTÓriCA*
Memória institucional:
Evolução histórica da estrutura do Poder Judiciário no Brasil
Trazer à memória as origens das instituições judiciárias que existiram no Brasil, desde suas matrizes portu- guesas, é de suma importância para se compreender as formas de organização que se consolidaram na atua- lidade. o recurso histórico de conhecimento de fragmentos do passado se mantém essencial para o enten- dimento do presente, e esse é o serviço que a história presta ao seu interlocutor.
Para que o Poder Judiciário brasileiro alcançasse as características que possui na atualidade, foi preciso percorrer um longo caminho de mudanças e reformas. essas alterações em sua organização e funciona- mento proporcionaram o fortalecimento dessa instituição, tão relevante para as garantias democráticas da atualidade.
no período colonial e joanino não havia a distinção entre os Poderes da forma como concebemos na contem- poraneidade. o estado e a igreja eram entidades indissociáveis, e suas atribuições, por vezes, se confundiam.
sem essa separação, os órgãos judiciários atuavam tanto em sua esfera específica, quanto na administrativa.
inicialmente, os donatários das capitanias hereditárias foram as primeiras autoridades jurídicas do Brasil Colônia e, quando necessário, recebiam auxílio por delegação do rei e dos ouvidores. Posteriormente, com a instituição do Governo Geral, tem-se um primeiro esboço de uma estrutura jurídica a partir da chegada do ouvidor Geral, Pero Borges. Foi o cargo da ouvidoria Geral a autoridade judiciária suprema no Brasil Colônia, até a instituição do primeiro tribunal: a relação da Bahia.
Criado em 1587, devido a algumas vicissitudes, o Órgão foi extinto durante um período, sendo restaurado em 1652. A relação, como era conhecida, exercia, ao lado das funções judiciárias, variadas atribuições legis- lativas e executivas. eram Cortes de segunda instância compostas por desembargadores. em 1734 foi criado o Tribunal da relação do rio de Janeiro, que só teve sua efetiva instalação em 13 de outubro de 1751.
em âmbitos regionais, a administração da justiça dava-se nas comarcas e em concelhos, estruturas basilares da malha urbana, herdadas do modelo de organização local português.
os concelhos eram constituídos por uma câmara, que desempenhava funções administrativas, judiciárias, fazendárias e de polícia, através dos oficiais camarários. Também eram chamados de termo da vila, ou
* Nota histórica elaborada por: Andréa Vanêssa da Costa Val, e Josiane Gabrielle Gonçalves de Freitas, sob supervisão do Desembar- gador Lúcio Urbano Silva Martins, Superintendente da Memória do Judiciário Mineiro.
Memória
cidade, e compreendiam a área territorial dentro da qual se exercia o poder. Portanto, era o local onde se administrava a justiça em sua primeira instância.
Por sua vez, as comarcas eram territórios especialmente delimitados que se encontravam sob a jurisdição de um ouvidor, nomeado pelo rei por três anos, sendo um para cada comarca. nas regiões que ficavam a longa distância da sede de jurisdição, nos arraiais, estabeleceu-se uma justiça de primeira instância, os julgados. Caracterizavam-se por ser uma circunscrição judiciária com autonomia parcial, subordinados a uma Câmara e sem autonomia administrativa. Desta forma, as populações dos arraiais mais distantes não sofriam prejuízos de onerosidade dos processos e atos notariais.
no tocante aos julgadores, poucos eram qualificados para o exercício da função. As instituições de ensino superior no Brasil só surgiriam na década de 1800, e, por esse motivo, percebeu-se a participação de cida- dãos no encargo de julgar. havia, portanto, juízes leigos ao lado de togados, nomeados pelo rei, e assesso- rados pelo órgão máximo da Justiça em Portugal, o Desembargo do Paço. os juízes leigos eram eleitos ou escolhidos por um complexo e restrito processo eleitoral.
Com a vinda de D. João Vi e sua Corte, em 1808, o Brasil tornou-se reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves. nesse momento, foi elevada sua condição de colônia à de sede do império português. Desta feita, o Tribunal da relação do rio de Janeiro foi transformado em Casa de suplicação, um tribunal de última instância, apto a examinar todos os recursos, independente dos valores envolvidos, e com a jurisdição em todo o território. Criaram-se, ainda, o supremo Conselho Militar e de Justiça e o Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço e da Consciência e ordens. o Desembargo do Paço era responsável por funções admi- nistrativas e de supervisão da Justiça, além de selecionar os candidatos a ingresso na magistratura e indicar os Desembargadores dos tribunais. era um órgão de assessoria para assuntos jurídicos e administrativos, segundo Antônio Carlos Wolkmer.
Ainda nesse período, criam-se mais dois Tribunais da relação, sendo um no Maranhão e outro em Pernam- buco.
essa complexa estrutura jurídica construída no Brasil permaneceu após o retorno da Corte para Portugal, e serviu como núcleo para as instituições pós-independência.
A Constituição Política do império do Brasil, outorgada em 25 de março de 1824, estabeleceu a separação dos poderes políticos em: Poder legislativo, Poder executivo, Poder Judiciário e Poder Moderador, uma espécie de poder privativo do imperador. Portanto, a partir da nova organização judiciária do império, a administração da justiça ficou somente a cargo do Poder Judicial, nomenclatura adotada no período.
o Judiciário, igualmente, experimentou mudanças significativas em sua estrutura, com a elaboração do Código Criminal, executado pela lei de 16 de novembro de 1830, bem como do Código de Processo Criminal de primeira instância, executado pela lei de 29 de novembro de 1832.
segundo o artigo 8° do Código do Processo Criminal de 1832, foi consolidada uma nova estrutura judi- cial, com a instituição dos cargos de juiz de direito, juiz municipal e juiz de paz, todos na justiça de primeira instância. nas comarcas, a jurisdição era exercida pelo juiz de direito; no termo das vilas ou cidades e nos julgados, pelo juiz municipal; no distrito de paz, pelo juiz de paz. Previu-se, ademais, a criação do supremo Tribunal de Justiça.
Memória
Decretos e leis posteriores avançaram na estruturação e definição de funções dos órgãos da justiça. Assim, no final do período imperial brasileiro, estavam consolidadas as competências dos vários atores da justiça, além da criação, prevista pela Constituição de 1824, de novas relações. Dentre elas, a de Minas Gerais, insta- lada em 1874 em ouro Preto, composta inicialmente por sete Desembargadores.
Proclamada a república, a Constituição de 1891 introduziu uma inovação, ao apresentar a dualidade da justiça, expressa no convívio dos órgãos da justiça federal ao lado dos órgãos de justiça estaduais. A Justiça Federal, órgão inexistente no período imperial, surgiu a partir de um decreto, ainda em 1890, e se conso- lidou após anos de legislação que objetivaram sua formatação e regulamentação.
A estrutura do Judiciário foi mantida na era republicana, recebendo, ao longo dos anos, novas atribuições.
na cúpula desse Poder, passou a figurar o supremo Tribunal Federal (sTF), órgão nacional que detinha o poder de revisar os julgados dos tribunais de segunda instância, unificar a jurisprudência, processar autori- dades e declarar a inconstitucionalidade das leis. em seguida, na hierarquia judiciária, foram instituídos os juízes da União, ou seja, os juízes das questões federais.
sobre as bases da divisão judiciária das províncias, o governo decidiu deixar as atribuições para os estados.
isto é, as justiças estaduais herdaram, em linhas gerais, a organização da época provincial. Cabia aos estados a organização de sua justiça, cada um com seu Tribunal de Apelação, Desembargadores, juízes de comarcas, municípios e distritos.
Ao longo dos anos da república Brasileira, uma série de leis, decretos e novas Constituições alteraram a organização e a divisão judiciária do país em face dos acontecimentos sociais que a envolveram.
A última Carta Magna, promulgada em 1988, garantiu o fortalecimento do Poder Judiciário, em especial pelas prerrogativas institucionais de autonomia administrativa, financeira e orçamentária. sobre a estrutura, houve ampla reorganização e redefinição de atribuições nos vários órgãos que compõem este Poder. o sTF permaneceu como órgão de cúpula, passando a ter atribuições predominantemente constitucionais. Criou- se o superior Tribunal de Justiça, que anexou parte das atribuições do sTF e assumiu uma posição acima dos tribunais federais e estaduais, com o objetivo de salvaguardar a legislação federal e julgar recursos especiais.
Foram instituídos, ainda, o Juizado especial de Pequenas Causas e a Justiça de Paz remunerada, no âmbito das justiças estaduais. outrossim, surgiu o Conselho da Justiça Federal.
A composição do Poder Judiciário alargou-se com as justiças especiais: do trabalho, eleitoral e militar. As justiças estaduais, formadas por órgãos de primeira e segunda instâncias, mantiveram o ordenamento de sua organização e divisão, a partir do regramento contido nas respectivas constituições estaduais.
Referências
CArVAlho, José Murilo de. A construção da ordem. Teatro das sombras. rio de Janeiro: relume-Dumará, 1996.
DolhniKoFF, Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil do século XiX. são Paulo:
Globo, 2005.
FUrTADo, Celso. Formação econômica do Brasil. 22. ed. são Paulo: editora nacional. 1987.
Memória
Koerner, Andrei. O Poder Judiciário na Constituição da República. são Paulo. Dissertação de mestrado em história, UsP, 1992.
MinAs GerAis. Tribunal de Justiça. Memória do Judiciário Mineiro. Comarcas de Minas. organizadores:
Desembargador lúcio Urbano silva Martins e rosane Vianna soares. Coordenação: Andréa Vanêssa da Costa Val. Belo horizonte: imprensa oficial de Minas Gerais, 2016.
MeDinA, Paulo roberto de Gouvêa. A organização judiciária no Brasil colônia. Revista Brasileira de Direito Comparado, rio de Janeiro, v. 40/41, p. 209-224, jul./dez. 2012.
sADeK, M.T. A organização do Poder Judiciário no Brasil. são Paulo: sumaré, 1995.
soDré, elaine leonara de Vargas. A disputa do monopólio de uma força (i)legítima: estado e administração judiciária no Brasil imperial (rio Grande do sul, 1833-1871). Porto Alegre. Tese de Doutorado em história, PUCrs, 2009.
WolKMer, Antônio Carlos. Fundamentos da história do direito. Belo horizonte: Del rey, 2002.
. . .
A possibilidade de utilização de normas infraconstitucionais materialmente constitucionais como parâmetro
no controle de constitucionalidade
*Diego Morais Carvalho**
Resumo
este trabalho visa a rediscutir o controle de constitucionalidade sob o prisma do neoconstitucionalismo.
Considerando a ampliação da força normativa da Constituição, busca-se debater também a possibilidade de alargamento do bloco de constitucionalidade. Além disso, são apresentados caminhos que viabilizam a inserção de normas infraconstitucionais materialmente constitucionais no referido bloco. o objetivo prin- cipal não é esgotar o tema ou criar argumentos definitivos, mas elaborar uma agenda conceitual para o cons- titucionalismo do futuro. Para isso, a pesquisa passeia por teorias da Constituição e conclui que a concepção ampliativa, embora tímida na doutrina, pode ser alcançada, principalmente por estar em consonância com o sentido culturalista da Constituição.
Palavras-chave: Controle de constitucionalidade. Bloco de constitucionalidade. Parâmetro de controle.
1 Introdução
o Brasil consolida-se como um estado Constitucional Democrático, e, assim, a Constituição de 1988 possui a força normativa decantada por hesse (1991). Mas, para compreender a influência das normas irradiadas da Carta Magna, é preciso conhecer a extensão do bloco de constitucionalidade. Dessa forma, serão utili- zadas teorias da Constituição para estudar a (im)possibilidade de utilização de normas materialmente cons- titucionais, mesmo que não sejam formalmente constitucionais, como paradigma de confronto no controle de constitucionalidade. Todavia, para elaborar a agenda conceitual a que se propõe o presente ensaio, é preciso compreender o contexto histórico em que está inserido o constitucionalismo contemporâneo.
1Artigo apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso de especialização em Direito Processual pela PUC-MG, como requisito parcial à obtenção do título de especialista. orientador: Fabrício Veiga Costa.
2 Analista executivo de Defesa social - Direito na secretaria de estado de Defesa social do Governo de Minas Gerais. especialista em Direito Processual pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC-MG. Bacharel em Direito e Comunicação so- cial/Jornalismo pelo Centro Universitário do leste de Minas Gerais - Unileste.
Do u t r i n a
Doutrina
2 Uma nova abordagem para o controle de constitucionalidade 2.1 O momento histórico da Constituição da República de 1988
o direito constitucional tem revelado profundas transformações ao longo das últimas décadas. A transição para o estado Constitucional Democrático, catalisada no segundo pós-guerra, é um marco da expansão acerca da aplicabilidade e da normatividade da Constituição nos estados democráticos. é nessa dimensão que se insere a Carta Magna de 1988, qual seja no desenvolvimento substancial da democracia, em que a finalidade principal é assegurar direitos fundamentais.
novelino (2013) leciona que o estado Constitucional Democrático tem como fulcro a colocação da Consti- tuição em um patamar mais elevado, sob os pontos de vista formal e material, gerando maior preocupação com a efetividade da dimensão substancial dos direitos fundamentais, bem como o reconhecimento defini- tivo da força normativa da Carta Maior.
ora, tratando como sinônimos, ora como institutos diferentes, a doutrina publicista costuma denominar esse conjunto de transformações como pós-positivismo, neopositivismo ou neoconstitucionalismo. optou- se, neste ensaio, pelo termo neoconstitucionalismo em sua acepção ideológica. Tal abordagem “não se limita a descrever características fundamentais dos sistemas jurídicos contemporâneos, mas as valora posi- tivamente, propugnando sua defesa e ampliação” (noVelino, 2013, p. 195).
A discussão está, portanto, no plano do direito material constitucional, mas inegavelmente também na esfera do direito processual constitucional. Uma leitura culturalista e metadisciplinar da Constituição, que será exposta adiante, está em consonância com a visão neoinstitucionalista do processo, proposta pelo prof.
rosemiro Pereira leal, pela qual somente há falar em processo quando presentes princípios próprios que visam a garantir o contraditório, a ampla defesa e a isonomia.
no tocante ao papel hodierno da Constituição, leal (2012, p. 30) leciona que “a legitimidade fundante e a vali- dade das instituições jurídicas emergem da estrutura normativa constitucional, quando esta é garantidora da atuação permanente da cidadania na transformação ou preservação do estado e das demais instituições”.
o estudo da Constituição possibilita questionamentos não apenas sobre os pilares para a interpretação de normas na chamada hermenêutica jurídica. ele traz, também, mais indagações, pois permite que a lei Maior seja içada a patamar de normatividade, haja vista que ela propaga, vertical e horizontalmente, efeitos na coletividade e na própria estrutura do estado. é por meio de mecanismos constitucionais, jurispruden- ciais ou doutrinários estabelecidos que se garante a eficácia de direitos fundamentais. esse é o caso, por exemplo, do fenômeno da mutação constitucional, que evita a fossilização da Carta Magna.
2.2 O controle de constitucionalidade
As ideias de supremacia e normatividade da Constituição fizeram surgir uma prevalência das normas cons- titucionais sobre as demais, tendo em vista uma estrutura hierárquica proposta, por exemplo, por hans Kelsen, cuja teoria será retomada adiante. Por ora, cabe dizer, conforme leciona o jurista Kildare Gonçalves Carvalho, que “as normas constitucionais são normas primárias do ordenamento jurídico, ou seja, consti- tuem a fonte primária, o alicerce, a base de qualquer ordenamento jurídico” (CArVAlho, 2011, p. 265).
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logo, as normas infraconstitucionais, para serem válidas, precisam ser produzidas de acordo com o seu fundamento de validade, que, por sua vez, está enraizado nas normas constitucionais, sob pena de aquelas estarem eivadas do vício de inconstitucionalidade.
A supremacia constitucional desdobra-se em duas dimensões: material e formal. esta é atributo das Consti- tuições rígidas, por caracterizar superioridade hierárquica sobre as outras normas de um ordenamento jurí- dico específico. Já aquela, mais genérica, está vinculada à existência de uma base substancial para a garantia da própria existência dos fundamentos do estado de Direito. ou seja, a supremacia material está relacionada ao conteúdo da Constituição, cujas normas tratam de direitos fundamentais, estrutura do estado e organi- zação dos Poderes. Conclui-se que toda Constituição tem supremacia material, mas nem toda Constituição possui supremacia formal.
Quanto ao controle de constitucionalidade, entende o juspublicista Barroso (2012) que se trata, provavel- mente, do mecanismo mais importante para assegurar uma relação de harmonia no ordenamento jurídico.
o instituto consiste na verificação da compatibilidade entre uma norma infraconstitucional e a Consti- tuição, a fim de restaurar a unidade ameaçada.
em linhas gerais, quanto à norma constitucional ofendida, a inconstitucionalidade pode ser formal/nomo- dinâmica (quando ocorre violação das normas que estabelecem o processo de elaboração de um deter- minado ato) ou material/nomoestática (quando o conteúdo da lei ou do ato emanado do Poder Público contraria substancialmente uma norma constitucional).
Toda essa discussão teórica apresenta implicações práticas imediatas para os operadores do direito e mediatas para os destinatários das normas jurídicas. não é demais lembrar que a soberania popular está na base da própria Constituição. sabe-se, ainda, que o povo, elemento integrante do estado, é, simultaneamente, autor e destinatário de todas as normas existentes, sejam elas morais, religiosas, éticas ou jurídicas. em especial, no que se refere a princípios e regras jurídicos, é natural que seja feita uma apropriação pelos indivíduos, por meio das instituições judiciárias, das melhores ferramentas para a garantia de direitos.
Tendo em vista que este artigo aborda predominantemente o controle da (in)constitucionalidade material, haverá um direcionamento nesse sentido, em que pese, de maneira reflexa, ser possível pensar na incidência do tema em questão também no controle da (in)constitucionalidade formal.
Carvalho (2011) leciona que a inconstitucionalidade material ou nomodinâmica caracteriza-se por um excesso do Poder legislativo, tendo em vista que a norma é produzida com incompatibilidade em relação aos fins constitucionalmente previstos.
Verificada a existência de discrepância entre leis e/ou atos emanados do Poder Público e o disposto na Cons- tituição, caberá a utilização dos mecanismos de controle constitucional, a fim de restaurar a ordem. Ponto importante é discorrer sobre os modelos jurisdicionais de controle de constitucionalidade.
inicialmente, insta salientar que o controle jurisdicional é aquele exercido pelo Poder Judiciário, seja por meio de órgãos vinculados ao referido poder ou então por uma Corte Constitucional. nesse ínterim, o controle de constitucionalidade pode ser difuso (modelo americano), concentrado (modelo austríaco ou europeu) ou misto.
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o controle difuso é atribuído a todos os órgãos do Poder Judiciário. Conforme Barroso (2012), a origem remete ao caso Marbury vs. Madison, julgado pela suprema Corte estadunidense, em 1803. em linhas gerais, nesse modelo de controle, qualquer órgão judiciário, seja superior ou inferior, federal ou estadual, tem o poder-dever de deixar de aplicar as leis inconstitucionais levadas a seu julgamento.
Já o controle concentrado é aquele exercido por órgãos constitucionais com competência específica, geral- mente uma Corte Constitucional. o modelo foi introduzido na Constituição austríaca de 1920, por obra de hans Kelsen, através da emenda Constitucional de 7 dezembro de 1929. Conforme Mendes e Branco (2013), não existe regra única no mundo para a composição das Cortes, podendo, por exemplo, haver membros vitalícios ou detentores de mandatos.
existe ainda o modelo de controle misto, que congrega características dos modelos europeu e americano supramencionados. no modelo misto, todos os órgãos do Poder Judiciário ficam autorizados a fazer o controle difuso, porém, via de regra, sem efeito erga omnes. Todavia, também há uma Corte Constitucional que tem o papel de fazer o controle concentrado de constitucionalidade, com efeitos erga omnes.
A Constituição Brasileira de 1988 adotou o controle misto, consolidando experiências anteriores já incorpo- radas no ordenamento jurídico. Desde a primeira Constituição republicana (1891) já havia sido consagrado o controle difuso, realizado, no direito brasileiro, sempre de forma incidental/concreta. Já a Constituição de 1946, por meio da emenda nº 16/65, adotou o controle concentrado no sistema constitucional pátrio, em regra exercido de forma abstrata. nota-se que o controle misto também é adotado em Portugal.
Feita essa digressão acerca dos modelos de controle jurisdicional de constitucionalidade, é preciso discorrer agora sobre o exercício desse instrumento. e a discussão caminha para os aspectos do objeto e do parâmetro do controle de constitucionalidade. em linhas genéricas, o parâmetro é a norma constitucional a ser invocada como ofendida no ordenamento jurídico. lado outro, o objeto é a norma que ofende a norma constitucional.
novelino (2012, p. 246) leciona o que pode ser considerado objeto para fins de controle:
Como objeto, admite-se qualquer ato dos poderes públicos. não existe restrição quanto à natureza do ato questionado (primário ou secundário); normativo ou não normativo; ou quanto ao âmbito de sua emanação (federal, estadual ou municipal). não importa, ainda, se o ato impugnado foi revogado, exauriu os seus efeitos ou se é anterior à Constituição em vigor. relevante é verificar se houve ou não a violação de um direito subjetivo decorrente da incompatibilidade entre um ato do poder público e a Constituição vigente no momento em que o fato ocorreu.
Quanto ao parâmetro, será feito um destaque, tendo em vista que é exatamente esse ponto que se pretende debater.
2.3 Uma forma sofisticada de pensar o parâmetro no controle de constitucionalidade
A doutrina tradicional defende que, para fins de controle de constitucionalidade, a supremacia da Consti- tuição que realmente importa é a formal. Dessa forma, podem ser invocadas (como parâmetro de confronto) todas as normas formalmente constitucionais.
novelino (2013, p. 246) reafirma o entendimento majoritário ao explicitar que, no controle difuso, “o parâ- metro poderá ser qualquer norma formalmente constitucional, mesmo quando já revogada, desde que
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vigente ao tempo da ocorrência do fato”. De igual modo, no controle concentrado, “a norma de referência deve ser formalmente constitucional” (noVelino, 2013, p. 267), desde que vigente.
na mesma linha de raciocínio, Barroso (2012) defende que a rigidez constitucional é pressuposto do controle de constitucionalidade. salienta ainda o jurista que, para ser invocada como parâmetro (ou paradigma de validade de atos normativos), a norma constitucional necessariamente deve ter passado por um processo de elaboração mais complexo do que aquele utilizado para a elaboração de normas infraconstitucionais.
não obstante a força doutrinária da posição supra, bem como a sua encampação na jurisprudência brasi- leira, aqui é proposto um debate sobre a possibilidade de ampliar o conjunto de normas aptas a serem invo- cadas como parâmetro no controle de constitucionalidade, principalmente com base nas tendências trazidas pelo neoconstitucionalismo e já projetando o constitucionalismo do futuro.
nesse sentido, é elementar debater a extensão do bloco de constitucionalidade, conceito desenvolvido no constitucionalismo francês por louis Favoreu. Trata-se de uma referência a normas que integram o ordena- mento jurídico na França, com status constitucional.
De acordo com lenza (2011, p. 280), existem duas posições que podem ser encontradas no que tange ao paradigma de confronto. A primeira delas é ampliativa e engloba, além das normas formalmente cons- titucionais, os princípios da “ordem constitucional global” e até mesmo valores suprapositivos. A outra concepção é restritiva e abrange apenas normas e princípios expressos na Constituição, que deve ser neces- sariamente escrita e positivada. o doutrinador ainda adverte que a tendência ampliativa é tímida na juris- prudência brasileira.
novelino (2013), citando heras (1957), complementa o raciocínio, ressaltando que, para quem é adepto ao sentido amplo, o bloco de constitucionalidade engloba normas infraconstitucionais somente quando elas possuem a vocação de desenvolver, plenamente, a eficácia dos postulados e dos preceitos insertos na Constituição.
Corrobora essa visão o constitucionalista mineiro Carvalho (2011), ao ressaltar que o bloco de constitucio- nalidade revela a ideia de unidade e solidez, mesmo de princípios e regras não inseridos na Constituição, quando estiverem situados no mesmo nível da Carta:
nessa perspectiva, os direitos humanos reconhecidos em tratados internacionais de que o Brasil seja parte, consoante o § 2º do art. 5º da Constituição de 1988, caracterizado como cláusula constitucional aberta, integrariam o bloco de constitucionalidade, mesmo diante do que dispõe o art. 3º, acrescentado ao art. 5º pela eC n. 45/2004, ao prever que apenas os tratados e convenções sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso nacional, em dois turnos, por três quintos dos respectivos membros, Pe que seriam equivalentes às emendas constitucionais. e isto porque a emenda apenas acrescentou o lastro formal aos tratados de direitos humanos, não retirando a sua característica material, ou seja, pelo § 2º do art. 5º, aqueles tratados são materialmente constitucionais, integrando, portanto, o bloco de constitucionalidade (CArVAlho, 2011, p. 265).
Carvalho (2011) aponta ainda a existência de países como a Alemanha, que adotam como parâmetro não somente a Constituição, mas também as normas de direito supralegal reconhecido pelo Tribunal Consti- tucional, tomando forma de bloco de constitucionalidade. nesse caso, sendo cabível até mesmo a tese de inconstitucionalidade de normas constitucionais (reformadoras), por violação do direito supralegal.
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nesse ponto, um aparte há de ser feito: o direito não é algo pronto e nunca será. Todo o dinamismo que cerca as normas jurídicas possibilita a transformação de institutos que tenderiam a se tornar obsoletos com o passar do tempo. As adaptações também são necessárias para arejar o próprio direito. em um juízo de valor, seria possível afirmar que tais mudanças servem para melhorar os meios de obtenção da justiça. Permitir- se-ia dizer, não obstante, em leitura mais legalista, que os referidos ajustes existem a fim de minimizar os desníveis entre a realidade social e o direito positivo.
Tal emaranhado de fios cognitivos leva à conclusão de que o direito interno deve, necessariamente (com o perdão do pleonasmo), beber na fonte de outros ordenamentos jurídicos. o direito comparado presta-se a aprofundar discussões e aplicações práticas (de institutos já adotados em outros estados) ou teóricas (de técnicas a serem testadas) a fim de reduzir as distorções e lacunas jurídicas.
em Portugal, ao dissertar sobre o parâmetro de controle de constitucionalidade, o jurista Canotilho (2003, p. 919) enfrenta a discussão acerca da determinação do bloco de constitucionalidade. há um aceso debate em terras lusitanas sobre o escalão normativo, variando em duas posições, tal qual no embate brasileiro:
parte entende que o parâmetro corresponde às normas formalmente constitucionais e parte defende que o parâmetro constitucional é a “ordem constitucional global”.
o catedrático apresenta a definição do instituto: “A ordem constitucional global seria mais vasta do que a constituição escrita, pois abrangeria não apenas os princípios jurídicos fundamentais informadores de qual- quer estado de Direito, mas também os princípios escritos nas leis constitucionais escritas” (CAnoTilho, 2003, p. 920).
Ainda sobre o conceito de bloco de constitucionalidade, é importante transcrever trecho do voto do Ministro Celso de Mello no julgamento da Ação Direta de inconstitucionalidade (ADi) 595-es (informativo 258/
sTF), em que ele explora a definição do instituto:
é por tal motivo que os tratadistas - consoante observa Jorge Xifra heras (Curso de derecho constitucional, p. 43) -, em vez de formularem um conceito único de Constituição, costumam referir-se a uma pluralidade de acepções, dando ensejo à elaboração teórica do conceito de bloco de constitucionalidade (ou de parâmetro constitucional), cujo significado - revestido de maior ou de menor abrangência material - projeta-se, tal seja o sentido que se lhe dê, para além da totalidade das regras constitucionais meramente escritas e dos princípios contemplados, explicita ou implicitamente, no corpo normativo da própria Constituição formal, chegando, até mesmo, a compreender normas de caráter infraconstitucional, desde que vocacionadas a desenvolver, em toda a sua plenitude, a eficácia dos postulados e dos preceitos inscritos na lei Fundamental, viabilizando, desse modo, e em função de perspectivas conceituais mais amplas, a concretização da idéia (sic) de ordem constitucional global (BrAsil, sTF. ADi 595-es. rel. Ministro Celso de Mello, 2002).
Quanto ao direito brasileiro, é plenamente possível afirmar que existem normas (formalmente) infraconstitu- cionais materialmente constitucionais. é o caso dos tratados internacionais de direitos humanos que não foram formalmente incorporados à Constituição, conforme exemplificado anteriormente por Carvalho (2011).
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Mas o exemplo citado no parágrafo anterior não é ímpar. há outros tipos de normas que também podem ser arrolados nesse patamar. é o caso, v.g., dos princípios constitucionais implícitos, tais como o da razoabili- dade e o da proporcionalidade. ora, se o neoconstitucionalismo pacificou o entendimento de que os princí- pios jurídicos possuem força normativa, fica claro que um princípio implícito, em que pese não seja formal- mente constitucional, o será materialmente.
nesse mesmo conjunto, podem-se incluir normas infraconstitucionais que visam a desenvolver preceitos da constituição, como é o caso da lei que estabelece o salário mínimo e da lei de diretrizes e bases da educação.
esse raciocínio pode ser aduzido do fato de que tais normas revelam uma forma de regular direitos e garan- tias fundamentais. Vale lembrar que o rol do art. 5º da Constituição é exemplificativo. Já o inciso iV do art. 7º da Constituição, que garante o salário mínimo como direito do trabalhador é norma de eficácia limi- tada, pois, como explica novelino (2013), possui aplicabilidade indireta, mediata e reduzida, carecendo de norma ulterior infraconstitucional que lhe desenvolva a eficácia.
A intenção não é esgotar as hipóteses de normas formalmente infraconstitucionais, mas materialmente constitucionais existentes no Brasil. Todavia, tais normas estão presentes no ordenamento jurídico pátrio.
Parte-se agora para uma análise aprofundada para compreender o porquê de elas estarem aptas a funcionar como parâmetro no controle de constitucionalidade.
2.4 O transbordamento da Constituição
Ao longo dos séculos XiX e XX, surgiram diversas teorias da Constituição. lassalle (2011), em sua concepção sociológica, defendia a distinção entre Constituições reais e Constituições escritas. ele argumentava que a Constituição escrita somente será boa quando “corresponder à Constituição real e tiver suas raízes nos fatores que regem o país” (lAssAlle, 2001, apud noVelino, 2013, p. 84).
Já Carl schmitt era adepto da concepção política. lenza (2011, p. 69) esclarece que, na visão de schmitt, “em razão de ser a Constituição produto de uma certa decisão política, ela seria, nesse sentido, a decisão política do poder constituinte”.
Adiante, em uma concepção jurídica, hans Kelsen concebia o Direito como um patamar normativo no campo do dever ser. o jurista austríaco, parafraseado por Carvalho (2011, p. 48), dizia que “há uma estru- tura hierárquica de diferentes graus no processo de criação do Direito, que desemboca numa norma funda- mental, que, no sentido positivo, é representada pela Constituição”.
Até a metade do século XX, predominava na europa a visão de que a Constituição era um documento mormente político. na década de 1950, hesse (1991) deu o passo inicial para a superação dessa visão, com a elaboração da concepção normativa. em contraponto à teoria de lassalle (2011), elaborada um século antes, hesse (1991, p. 19) afirmou que:
embora a Constituição não possa, por si só, realizar nada, ela pode impor tarefas. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas, se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida, se, a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência, se puder identificar a vontade de concretizar essa ordem.