AO JUÍZO DE DIREITO DA 1ª VARA CRIMINAL DA COMARCA DE AMARGOSA/BA.
Triagem n. [NÚMERO]
URGENTE
Autos n° [NÚMERO]
A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DA BAHIA, instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, neste ato presentada pela Defensora Pública signatária, vem, nos termos do art. 5º, LXXIV, e art. 134, caput, ambos da Constituição Federal; art. 4º, X, da Lei Complementar nº 80/94; art. 7º, VII, da Lei Complementar Estadual nº 26/06; art.
554, §1º, do Código de Processo Civil; vem, perante Vossa Excelência, requerer a sua admissão na qualidade de CUSTOS VULNERABILIS no presente processo, a fim de requerer a REVOGAÇÃO DA PRISÃO PREVENTIVA ou, subsidiariamente, a sua SUBSTITUIÇÃO POR PRISÃO DOMICILIAR, em favor de [NOME COMPLETO DO(A) ASSISTIDO(A)], com fundamento nas razões de fato e de direito a seguir expostas.
I - DOS FATOS
O acusado [NOME] se encontra custodiado provisoriamente desde 08/03/2020, quando foi preso em flagrante por suposta prática do delito previsto no art. 33, da Lei nº 11.343/06.
O flagrante foi convertido em prisão preventiva pelo Juízo Plantonista na mesma data (f. 29/35 do APF nº [NÚMERO], em apenso), o que foi referendado por este Juízo em decisão proferida em audiência de custódia (f. 49/50, do APF nº [NÚMERO], em apenso).
O acusado foi representado por advogados constituídos no APF, os quais, porém, informaram que não foram contratados para atuar na ação penal (petição de f. 79/85).
Defensoria Pública do Estado da Bahia
requereu a intimação pessoal do réu, para tomar ciência das informações prestadas pelos causídicos e, querendo, constituir defensor à sua escolha, em atenção à garantia da ampla defesa (f. 83).
À f. 86, consta comunicação da Delegacia de Polícia de Itaberaba que o réu testou positivo para Covid-19.
Em decisão de f. 87/90, este Juízo manteve a custódia preventiva, sob o fundamento da garantia da ordem pública, bem como determinou fosse “oficiada a autoridade policial, para que informe o atual quadro de saúde do acusado, bem como se vem recebendo assistência médica”, e para que “efetive a transferência do acusado a unidade prisional compatível com o estado de saúde do acusado e em atenção aos provimentos do PJBA sobre o assunto”.
O ofício foi expedido em 31/07/2020 (f. 94 e 96); porém, cerca de uma semana depois, ainda não houve resposta, apesar da urgência do caso.
Até o presente momento, não houve intimação do réu para oportunização de constituição de novo defensor.
É o que importa relatar.
II – DA MISSÃO CONSTITUCIONAL DA DEFENSORIA PÚBLICA. DO DEVER DE PROMOVER A DEFESA DE TODOS OS GRUPOS EM SOCIAIS VULNERÁVEIS. DA HABILITAÇÃO NA QUALIDADE DE CUSTOS VULNERABILIS. ART. 554, §1º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - APLICAÇÃO SUPLETIVA AO PROCESSO PENAL.
Dispõe o art. 4º, X, da Lei Complementar nº 80/94 que:
Art. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre outras:
(...)
X – promover a mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos necessitados, abrangendo seus direitos individuais, coletivos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sendo admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela;
Especificamente em matéria penal, à Defensoria Pública foi outorgado o dever de atuar nos estabelecimentos penitenciários, visando assegurar às pessoas presas, sob quaisquer circunstâncias, o exercício pleno de seus direitos e garantias fundamentais (art. 4º, X e XVII, da LC 80/94), sendo certo, ainda, que foi eleita pelo legislador como órgão de execução penal (art. 61, XVIII, da Lei nº 7.210/84), que deverá velar pela regular execução da pena, da medida de segurança (art. 81-A, da Lei 7.210/84) e da prisão provisória (art. 2º, parágrafo único, da Lei 7.210/84).
A intervenção defensorial como fiscal dos direitos e interesses dos mais vulneráveis está prevista no art. 554, §1º, do Código de Processo Civil (aplicado supletiva e subsidiariamente ao Código de Processo Penal, na forma do seu art. 3º1):
Art. 554. [...]
§ 1o No caso de ação possessória em que figure no polo passivo grande número de pessoas, serão feitas a citação pessoal dos ocupantes que forem encontrados no local e a citação por edital dos demais, determinando-se, ainda, a intimação do Ministério Público e, se envolver pessoas em situação de hipossuficiência econômica, da Defensoria Pública.
O dispositivo, todavia, não é indene de críticas, sobretudo no que tange ao cabimento da intervenção, mormente após a sedimentação em definitivo de um entendimento jurisprudencial que admite a possibilidade de que a Defensoria Pública venha em socorro de todo e qualquer vulnerável, por reconhecer que há diversos tipos de vulnerabilidade, e não apenas a econômica.
Assim é que, à luz dos ditames constitucionais, doutrina e jurisprudência já vêm admitindo a possibilidade de que a intervenção como custos vulnerabilis se dê não apenas em casos de hipossuficiência econômica, mas também e sempre que for constatada a existência de qualquer tipo de vulnerabilidade, seja ela socioeconômica, técnica, jurídica, informacional, organizacional etc.
Outrossim, admite-se, ainda, a admissão da intervenção defensorial em outros tipos de ação que não a possessória, reconhecendo-se a ampla aplicabilidade do art. 554, §1º, do Código de Processo Civil, acima transcrito.
1 “Art. 3º. A lei processual penal admitirá interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos princípios gerais de direito.”
Defensoria Pública do Estado da Bahia
No caso em exame, é nítida a situação de vulnerabilidade do Sr. [NOME], que se encontra preso provisoriamente em local inadequado - carceragem policial -, tendo sido diagnosticado com Covid-19, e, no momento, não tem assistência de defesa técnica, haja vista que se encontra pendente sua intimação pessoal para que lhe seja oportunizada a constituição de defensor.
Por fim, elucida-se que a habilitação da Defensoria Pública como custos vulnerabilis não substitui, impede ou dispensa a atuação de advogado que venha a ser, eventualmente, constituído pelo Acusado, uma vez que a intervenção busca resguardar seus direitos fundamentais ante uma situação de gravidade e urgência.
III - DA REVOGAÇÃO DA PRISÃO PREVENTIVA. DOS FATOS NOVOS:
DECLARAÇÃO DE PANDEMIA PELA OMS E DIAGNÓSTICO DE COVID-19.
DA RECOMENDAÇÃO Nº 62/2020 DO CNJ.
Conforme relatado, a prisão preventiva do Acusado foi decretada em 08/03/2020;
portanto, antes da declaração de pandemia pela Organização Mundial da Saúde, diante da propagação da doença causada pelo novo coronavírus, em 11/03/2020.
Desse modo, desde a data da prisão, houve modificação da situação fática, o que se agravou com o fato de haver sido o Réu diagnosticado com a Covid-19 - o que merece ser considerado por este Juízo quando da verificação da necessidade de manutenção da custódia provisória.
Nesse sentido, a Recomendação n. 62/2020 do CNJ dispõe que deve ser observada a máxima excepcionalidade de novas ordens de prisão preventiva (art. 4º, III), bem como elenca algumas diretrizes, a exemplo daquela no inciso I, alínea “b” do §1º do art. 8º, que afirma deva estar sujeita à análise judicial a “necessidade de controle dos fatores de risco de propagação da pandemia”.
Na mesma linha, contrario sensu ao disposto na alínea “c” do dispositivo acima mencionado, recomenda o CNJ tomar como certa a desnecessidade da cautela prisional quando a imputação não envolver violência ou grave ameaça à pessoa, o que se fez inserir também no art. 4º, I, “c”, in fine, da normativa.
Ressalta-se que o presente caso trata EXATAMENTE de um suposto crime cometido sem violência ou grave ameaça à pessoa (tráfico de drogas).
O quadro absolutamente excepcional que estamos atravessando recomenda fortemente que todos os esforços sejam envidados para que haja o menor número de prisões cautelares possível. Isso porque a incapacidade do sistema prisional de dar conta da crise de saúde que sobrevirá com a provável entrada do coronavírus nas cadeias do Estado da Bahia é indiscutível.
O cenário preocupa a todos.
Por oportuno, cumpre destacar, também, que, conforme consulta ao E-SAJ, o Requerente é primário e sequer responde a outras ações penais, de modo que não há nenhum elemento que indique que a sua soltura irá acarretar qualquer tipo de afronta à garantia da ordem pública ou da ordem econômica. Além disso, tampouco há elementos que indiquem que possa interferir na instrução criminal ou na aplicação da lei penal.
Portanto, diante de todo o exposto, é plenamente cabível a revogação da prisão preventiva cumulada, se necessário, com medidas cautelares diversas da prisão.
IV - SUBSIDIARIAMENTE: DA SUBSTITUIÇÃO POR PRISÃO DOMICILIAR
A prisão domiciliar prevista no art. 318 do CPP e no art. 117 da LEP se apresenta como uma alternativa ao cárcere (nas hipóteses em que este seria cabível e necessário), que se harmoniza com o dever de todos, e principalmente do Estado, de proteção dos direitos humanos dos cidadãos.
Nesse sentido, já se posicionou o TJ-RJ, nos autos do HC n. 0015143- 29.2020.8.19.0000, com absoluta propriedade:
Cediço que a prisão domiciliar pode ser deferida em casos onde estão presentes os requisitos para a segregação cautelar, mas em decorrência de circunstâncias específicas, pode haver modificação da prisão preventiva em estabelecimento estatal pelo recolhimento domiciliar.
Defensoria Pública do Estado da Bahia
representando restrição ao “status libertatis” do indivíduo, sujeitando ao preso provisório a penalidades em caso de descumprimento das determinações impostas.
Dessa forma, estando em jogo, a necessidade de se resguardar a ordem pública em contrapartida com o tratamento digno as pessoas segregadas cautelarmente, ao Magistrado cabe sopesá-los com base no princípio da proporcionalidade. Com efeito, o princípio da dignidade da pessoa humana assume primazia no sopesamento com questões de segurança pública, até porque, trata-se de uma solução excepcional.
Assim, relevo que a decisão deve ser tomada em face das circunstâncias concretas do caso, prestando jurisdição equilibrada e sufragada nos princípios da legalidade, da dignidade da pessoa humana, da humanidade e da proporcionalidade.
Dessa forma, ao se considerar a potencial ameaça de contaminação da pessoa privada de liberdade pelo novo coronavírus (COVID19) entendo que excepcionalmente impõem-se a concessão de prisão domiciliar, por questão humanitária, destacando-se a entrada em vigor da Lei nº 13.257/2016, que possibilitou a prisão domiciliar para presos provisórios, e ainda o art. 117 da LEP, que prevê tal modalidade de prisão, para os reeducandos em cumprimento de pena, independente do regime, dada a excepcionalidade da medida. (grifo nosso)
Como sabido, no que diz respeito ao sistema penitenciário brasileiro, enfrentamos, conforme já declarado pelo Supremo Tribunal Federal, um Estado de Coisas Inconstitucional.
Além disso, sabe-se que as instalações prisionais brasileiras constituem condição favorável à proliferação de doenças infectocontagiosas.
Não fosse o bastante, constata-se o reduzido número de médicos, leitos, enfermarias e unidades de terapia intensiva disponíveis - o que se agrava quando se tem em conta que o Acusado se encontra preso em local inadequado, qual seja, carceragem policial.
Tal gravidade já foi destacada, inclusive, pelo Ministério Público da Bahia, que adotou medida judicial para que o Estado da Bahia especifique “local, administrado pela secretaria, para transferência imediata de presos sintomáticos ou diagnosticados com coronavírus
custodiados nas carceragens policiais de todo o Estado das Bahia”2. Evidente, assim, que o Parquet considera inadmissível a permanência de presos diagnosticados com Covid- 19 em Delegacias de Polícia.
É necessário frisar que estamos diante de um fato que redefine toda a estrutura do sistema prisional, devendo todas as prisões serem reavaliadas quanto a sua real necessidade e manutenção, tendo como base o risco de contágio e morte.
Saliente-se que, no caso concreto destes autos, o risco em questão existe para os demais custodiados na Delegacia de Polícia de Itaberaba e para todos os policiais e demais funcionários, além de familiares destes e demais pessoais de convívio próximo, uma vez que PARA O VÍRUS NÃO EXISTEM GRADES.
Desse modo, caso não se vislumbre a revogação da prisão preventiva, ainda que com incidência de medida cautelar, requer-se a sua substituição por prisão domiciliar por motivo humanitário.
V - DOS PEDIDOS
Ante o exposto, a Defensoria Pública do Estado da Bahia requer:
a) A admissão da intervenção da Defensoria Pública como custos vulnerabilis, com fundamento no art. 554, §1º, do CPC com aplicação subsidiária ao CPP (art. 3º); art. 5º, LXXIV, e art. 134, caput, ambos da Constituição Federal; art. 4º, X, da Lei Complementar nº 80/94; art. 7º, VII, da Lei Complementar Estadual nº 26/06; art. 61, XVIII;
b) A revogação da prisão preventiva de [NOME], tendo em vista a alteração da situação fática, bem como o disposto na Recomendação nº 62/2020 do CNJ;
c) Subsidiariamente, a substituição por prisão domiciliar por motivo humanitário.
2 Coronavírus: MP recorre à Justiça para que SEAP complemente o Plano de Contingência das unidades prisionais do Estado. Disponível em <https://www.mpba.mp.br/noticia/52629>. Acesso em 06/08/2020, às 23:45h.
Defensoria Pública do Estado da Bahia
Pede deferimento.
Amargosa/BA, 06 de agosto de 2020.
JÚLIA ARAÚJO DE ABREU Defensora Pública do Estado da Bahia