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O PMDB E OS DESAFIOS DA ELEIÇÃO DE 2010

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O PMDB E OS DESAFIOS DA ELEIÇÃO DE 2010

The Brazilian Democratic Movement Party (PMDB) and the challenges of the elections of 2010

Eliseu Padilha

Deputado Federal (PMDB – RS) e Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e da Fundação Ulysses Guimarães

[email protected]

No dia 09 de Junho, a Professora Doutora Silvana Krause, da Universidade Federal de Goiás, entrevistou o Deputado Federal e Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e da Fundação Ulysses Guimarães. Ele falou a respeito da construção de uma bandeira nacional e unificadora por parte do PMDB, sobre democracia no Brasil, as eleições 2010 e os desafios do PMDB frente o governo.

Em Debate: Deputado, o PMDB é o maior partido brasileiro em termos de filiados e representação política, no entanto o partido na nova democracia brasileira tem tido dificuldade de ação política coesa. Nas seis eleições presidenciais, o partido apresentou candidatura própria apenas duas vezes e se coligou formalmente em apenas uma eleição, em 2002, na candidatura de Serra. Na sua avaliação, quais os principais elementos que dificultam uma ação coesa do partido, tanto na construção de uma candidatura nacional própria como uma ação coesa no Congresso Nacional?

Deputado Eliseu Padilha: O PMDB, por incrível que possa parecer, sendo o maior partido do Brasil, na verdade, é uma confederação de partidos estaduais. Nós ainda vivemos sobre determinados aspectos como a influência pessoal de lideranças estaduais. Outra parte dessa deficiência é que não temos

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um projeto nacional de poder. Não temos um programa de governo do PMDB para oferecer à sociedade. Uma segunda razão pela qual não temos uma candidatura própria à Presidência da República é o fato de não termos um projeto nacional de poder. O PMDB não tinha uma proposta do próprio partido para governar o Brasil. Estamos trabalhando nisso agora, a partir de abril do ano passado, quando promovemos uma consulta nos municípios e mandamos para todos os municípios do Brasil onde o PMDB está organizado, o que praticamente corresponde a quase todos. Então mandamos um questionário-consulta sobre prioridades para um plano de governo estadual e para um plano de governo nacional. Com estes questionários promovemos um congresso estadual em todos os estados e com a súmula desses congressos estaduais promovemos, então, um estudo com uma comissão de personalidades ilustres e técnicas do cenário político nacional e com essas personalidades, sob a coordenação da Presidência da Fundação Ulysses Guimarães, que, no caso, é exercida por mim. Com isso, nós finalmente temos uma proposta do PMDB para governar o Brasil. Então, este, em minha opinião, é o elemento basilar, é o alicerce para a construção do discurso nacional e, a partir do discurso nacional, a unidade. E, com a unidade, aí sim existe a possibilidade de uma candidatura própria com reais perspectivas de vitória para o maior partido do Brasil. Então o que nos falta na verdade é uma

“bússola”, alguns confundem que o que falta é uma liderança nacional, o que é um equívoco. Antes da liderança nacional temos que saber afinal o que defende este partido e o que ele propõe para o país e depois, havendo a unidade partidária no território nacional, uma liderança que em tese não fosse aquela que ninguém imaginasse, mas que pudesse ser um bom executor desse programa e que ganharia uma eleição presidencial. Então estamos construindo isso e o que não tivemos até agora foi a unidade e uma “bússola”, ou seja, uma proposta para governar o Brasil.

ED: O grande problema que vemos no PMDB é que, se queremos unificar, temos que ter clareza do que queremos e esse é o grande problema. A bandeira central e unificadora do PMDB foi a conquista da democracia do país, o partido cumpriu essa missão e a democracia foi conquistada no país...

EP: Relativamente...

ED: Certamente essa missão cumprida deixou um vazio e um novo desafio ao partido. Há uma dificuldade do partido em construir uma nova bandeira nacional e unificadora. Na sua perspectiva, qual seria o caminho e os desafios para encontrar e construir uma nova identidade? A questão é que só

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conseguimos construir uma unidade a partir de uma identidade e qual a identidade que poderia construir essa unidade e essa “bússola”, que foi muito bem colocada?

EP: A intenção da nossa proposta para o PMDB governar o Brasil é para nós radicalizarmos a democracia política, inventarmos duas facetas da democracia na qual o Brasil é absolutamente carente. São elas: a democracia econômica e democracia social. Os grandes problemas do Brasil dizem respeito à falta de democratização econômica e, como conseqüência, a social. Caso formos ver o acesso ao conhecimento, não temos democratizado a universalização do primeiro grau enquanto as sociedades desenvolvidas estão universalizando o terceiro grau. Não temos a universalização do primeiro, portanto, não há democracia com conhecimento no Brasil. Segundo, temos carências materiais e objetivas que não correspondem ao Produto Interno Bruto criado no país.

Portanto, temos concentração demasiada de riquezas e falta de democratização econômica e temos que criar oportunidade para que o PIB ou então o capital produzido internamente seja mais bem distribuído e ai passarmos por um longo processo legislativo em que o nível de cidadania e democracia política tenha que ter tamanho para sustentar e eu tenho dúvida se nós já temos esse tamanho. Temos uma democracia política sim e temos os partidos funcionando, as nossas eleições, em princípio, são livres. Temos um sistema judiciário que funciona e a justiça eleitoral funciona. Em tese, temos uma democracia política em consolidação. Mas, sob o ponto de vista da democracia econômica e social nós estamos muito longe de pensar em democracia e é ai que reside a insegurança nos nossos núcleos urbanos, aí que reside a incapacidade de enfrentarmos as ocupações e as profissões que exigem o conhecimento. Enfim, as nossas grandes diferenças em relação ao mundo desenvolvido residem na inexistência da democracia econômica e social.

ED: O PMDB é peça central para a sustentação do Executivo Nacional. O partido tem sido essencial para a governabilidade do país, apesar de ter uma opção coesa frágil na arena nacional. Na eleição de 2010 o partido tende a estar na chapa da candidatura petista e, avaliando a experiência do partido nas eleições presidenciais, percebe-se que a legenda teve maiores ganhos e espaço de negociação quando não apresentou candidato próprio ou quando não esteve coligado. Apresentar uma candidatura na chapa petista será uma decisão acertada? O partido não corre um risco com essa estratégia? Não seria

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mais acertável o partido manter-se fora de uma campanha nacional para presidente?

EP: Como Presidente da Fundação Ulysses Guimarães defendo integralmente e unicamente a candidatura própria. Eu, pessoalmente, sou contra a aliança e penso que o PMDB tem que ter candidatura própria. Trabalhei e vou trabalhar até o dia da convenção para que isso aconteça. Não acontecendo, sou um democrata e vou seguir o partido. Não significando dizer que eu vá votar conforme o que o partido nacionalmente defina. O meu voto, como em cerca de 12 ou 13 estados da federação onde tem dissidência e aliança PMDB- PT, será orientado pelo diretório estadual e não temos mais verticalização, é o diretório estadual que orienta os votos neste caso. Agora, o PMDB participou dos governos desde o presidente Sarney até hoje e tem sido periférico e não tem sido participante ativo do governo. Temos visto a ocupação de cargos, o que é muito diferente de participar do governo. O núcleo de poder e o núcleo de governo, o núcleo central do governo, o PMDB teve no governo do PSDB alguns atores que participaram do núcleo central. Como o ex-governador Moreira Franco, que é um dos chamados Ministros da Casa, que tinha ao lado do gabinete do Presidente Fernando Henrique ocupação. Eu, como Ministro dos Transportes, então, e que me ocupava com a articulação política com o Congresso Nacional, participava do chamado núcleo de governo. No governo Lula o PMDB não participou em nada no chamado núcleo de poder e foi periférico de forma absoluta. Ele poderá agora no governo, se por ventura houver a vitória, primeiro se houver a aliança, e depois se houver vitória nas eleições, o PMDB poderá se impor. Mas não por que haja nesse momento a negociação que inclua o PMDB no núcleo estratégico de campanha e no núcleo de governo. Até esse momento isso não acontece, tendo que não venha acontecer até o inicio do governo propriamente dito, repito, se houver a vitória da candidata do governo com o vice-presidente sendo do PMDB.

Resta ao PMDB exercitar a maioria que terá no Congresso Nacional para que se possa incluir com firmeza, responsabilidade e determinação, sendo o caso, do chamado núcleo de governo. O PMDB, em minha opinião sendo o maior partido do país, não tem o direito de colocar-se em uma posição subalterna e deveria ter sim uma posição de núcleo dentro do poder e esta que ela vai buscar. Mas quero voltar ao início que, ao meu juízo, penso que o PMDB deveria ter - para vencer ou ser derrotado - candidatura própria à Presidência da República para, no caso de vencer, governar ou, sendo derrotado, fazer oposição. Esta história de que o PMDB é fundamental para a governabilidade, isto é o novo nome para o novo fisiologismo político que fazemos, mas há

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vezes em que o PMDB não participa do núcleo de governo e busca simplesmente cargos que beneficiam alguns núcleos ou algumas pessoas.

ED: Em caso de uma aliança com a candidata petista, quais os principais pontos para a “costura” dessa chapa?

EP: A “costura” da chapa foi conduzida de forma muito competente em que, repito, sou contrário a aliança. Mas tenho que reconhecer que os dois grandes artífices dessa aliança são o Presidente Michel Temer e o ex-presidente da Fundação Ulysses Guimarães, o Deputado Moreira Franco. Ambos levaram a arte da política ao extremo e construíram esta possível aliança. Seja internamente ou externamente, muitos foram os obstáculos superados e, na medida em que esses obstáculos tenham sido superados a partir da construção competente de ambos, tenho que dar a eles, em primeiro lugar, a distinção.

Mas tenho que reconhecer que o líder da Câmara e o Líder do Senado, os vice-líderes da Câmara e os vice-líderes do Senado ajudaram em muito para que pudesse acontecer esse processo de costura que teve alguns episódios muito importantes para serem citados. É o caso, por exemplo, de Minas Gerais, onde o diretório do PMDB estava disposto a romper com a idéia da aliança e coligação e o Presidente Michael Temer, juntamente com esse grupo de companheiros que com ele trabalham, conseguiu impor uma derrota ao PT e fizeram com que o PT apoiasse o candidato do PMDB. Se eleitoralmente isso dará todos os frutos veremos adiante, o certo é que do ponto de vista da luta política propriamente dita o PMDB foi o vencedor.

ED: O PT tem crescido eleitoralmente, ele tem penetrado no eleitorado tradicional do PMDB em algumas regiões do país?

EP: Eu discordo da premissa de que o PT tenha crescido. O PT hoje é competitivo em apenas cinco estados da federação, ou seja, dos 27 ele é competitivo em apenas em cinco. E, nas eleições municipais, o PT já começou a ser batido nos grandes centros e está sendo conduzido rumo ao “grotão”.

Isto normalmente é o sinal do declínio e me parece que não é essa a tradução que se lê nas eleições, seja na previsão da eleição de 2010, seja da realidade da eleição de 2008. Na verdade o PT “apequenou-se”, a chegada do PT ao poder tirou-lhe aquele brilho, aquele magnetismo que conduzia massas. Tanto é assim que não vemos mais movimentos nos grandes núcleos urbanos. Não se vê mais movimentos de rua que sejam ostensivos de apoio ao PT. O PT caiu na vala comum dos demais partidos políticos, vala esta da qual estamos querendo tirar o PMDB com todo esse processo de formação política e

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programa ao qual nos referimos no começo. Assim, hoje o PT habita o mesmo local que todos os demais partidos políticos e realmente ele teve em tempos passados um magnetismo que não mais tem.

ED: Em sua opinião, enquanto uma liderança do PMDB, o partido perde ou ganha se unindo com o PT? Por quê?

EP: Sob o ponto de vista partidário-ideológico de formação de cultura partidária, formação de sentimento unitário de partido, o PMDB perde. Perde por que não participa da eleição com o número 15, ainda mais na eleição mais importante, ele perde nesse aspecto. O PMDB é o partido que tende a perder ainda na aliança na formação do governo e no exercício do governo. Em que pese o PMDB tenha mais que o dobro que o tamanho do PT em termos de Brasil e seja muito maior aqui no Congresso Nacional, certamente não terá maior participação no governo. A participação do PMDB no governo dependerá muito da forma com que as lideranças do PMDB irão negociar essa composição após a eleição. Caso for à busca do enternecimento do partido e não transigindo em algumas questões que são fundamentais, como, por exemplo, ter Ministérios dos chamados Ministérios de ponta, como Planejamento, Fazenda, Casa Civil, são todos importantes. Mas, obviamente tendo uma divisão igualitária com o PT, se quiser ser partido que tenha participação. Não pode ser partido periférico que não limite o Palácio.

Portanto, o PMDB vai depender da competência da negociação para estabelecer depois. Se os negociadores tiverem sentimentos coletivos de partido o PMDB pode ganhar muito. Se os negociadores tiverem o sentimento fisiologista que tem caracterizado, em algumas vezes, as negociações é obvio que o partido vai fazer a aliança.

ED: Qual será o grande desafio do PMDB nessa eleição? Como ele deve se diferenciar dos outros partidos?

EP: O PMDB na medida em que, primeiro, não tenha uma candidatura própria e parta para a aliança em uma posição que não venha a ser de destaque, não habitará o lugar comum dos partidos e estará na mesma posição do PT, estará na mesma posição dos demais partidos. Penso que nesta eleição, o PMDB terá de se destacar nas eleições estaduais onde os candidatos a governadores do PMDB poderão adotar já o nosso programa de governo e aquilo que for mais consistente, já no sentido de criar uma unidade nacional.

E aí o PMDB poderia ganhar muito esquecendo a eleição nacional e indo para as eleições estaduais, onde o PMDB terá uma grande participação e

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possivelmente seja o partido que vai eleger o maior número de governadores.

Se adotasse já o programa do partido, poderia lançar o alicerce para a construção da unidade que pretendemos construir, talvez já para a eleição de 2014. Essa questão de conhecimento, ensino e informação nunca se podem trabalhar no horizonte de uma eleição ou apenas de um mandato. Precisamos trabalhar com o horizonte de dois ou três mandatos para que se possa consolidar alguma coisa que seja sustentada.

Roteiro: Silvana Krause, Leonardo da Silveira Ev1 e Paulo Victor Melo² Entrevista: Silvana Krause

Transcrição: Josimar Gonçalves da Silva³

1 Bolsista do Conselho nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq – vinculado ao projeto “Opinião Pública: Partidos Políticos e Comportamento Eleitoral” do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais – DCP/UFMG.

² Bolsista de Extensão do Curso de Marketing Político do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais DCP/UFMG.

³ Graduando em Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

Referências

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