Statistical Mechanics:
Lecture Notes
Raimundo Rocha dos Santos Instituto de F´ısica
Universidade Federal do Rio de Janeiro Brazil
8 de Abril de 2013 – 19:08
Cap´ıtulo 1
Elements of Ensemble Theory
Refs.: Balescu, Pathria, Huang
1.1 Introduction
Ao investigarmos as propriedades f´ısicas de um corpo macrosc´opico, em termos de seus constituintes microsc´opicos, devemos redirecionar o enfoque utilizado na descri¸c˜ao dinˆamica de um sistema de part´ıculas. Com efeito, mesmo que pud´essemos resolver as equa¸c˜oes de movimento (sejam elas cl´assicas ou quˆanticas) para um grande n´umero de part´ıculas, isto n˜ao nos ajudaria a responder `as quest˜oes formuladas a respeito do corpo macrosc´opico, tais como a dependˆencia da resistividade de um metal com a temperatura.
Desta forma, necessitamos um formalismo capaz de estabelecer uma ponte entre a descri¸c˜ao microsc´opica e as leis, j´a estabelecidas, do mundo macrosc´opico. Este forma- lismo ´e a Mecˆanica Estat´ıstica.
Apesar de ter iniciado como uma teoria cin´etica de gases, a Mecˆanica Estat´ıstica
´
e aplic´avel `a mat´eria em qualquer estado. De fato, gra¸cas a este formalismo foram elucidados muitos aspectos da mat´eria nas fases s´olida, l´ıquida ou gasosa, bem como mat´eria composta de v´arias fases e de v´arios componentes; de mat´eria em condi¸c˜oes extremas de densidade e temperatura; de mat´eria em equil´ıbrio com radia¸c˜ao, como em estrelas, etc. Mais ainda, o formalismo pode ser utilizado na descri¸c˜ao de estados de equil´ıbrio, bem como de n˜ao-equil´ıbrio, o que contribui para a compreens˜ao de como um dado sistema se aproxima do equil´ıbrio.
Para se compreender como funciona o formalismo da Mecˆanica Estat´ıstica, imagine- mos uma experiˆencia macrosc´opica simples. Tomemos uma barra de metal, preparada em t = 0 de modo que sua temperatura varie linearmente de um extremo a outro.
Deixando-a evoluir livremente, podemos medir a temperatura em um dado ponto como fun¸c˜ao do tempo. ´E claro que se esta experiˆencia fˆor repetida um grande n´umero de vezes, dadas as mesmas condi¸c˜oes iniciais, os resultados ser˜ao reproduzidos. Isto quer dizer que a especifica¸c˜ao da distribui¸c˜ao inicial de temperaturas ´e suficiente para uma completa especifica¸c˜ao macrosc´opicado problema.
Por outro lado, se pensarmos nesta barra como um conjunto de ´atomos, ´e claro que a especifica¸c˜ao de ummacroestadoinicial (a distribui¸c˜ao de temperaturas) n˜ao corres- ponde a uma ´unica condi¸c˜ao inicial microsc´opica (microestado inicial). Na realidade,
3
´e muito prov´avel que, cada vez que a experiˆencia seja repetida, estejamos partindo de microestados diferentes. Mesmo assim, os fenˆomenos macrosc´opicos s˜ao insens´ıveis a estas diferen¸cas (como veremos posteriormente, o que importa ´e on´umerode microes- tados equivalentes). Todas as condi¸c˜oes microsc´opicas iniciais compat´ıveis com um dado macroestado s˜ao, de um certo modo, equivalentes e devem ser tratadas no mesmo p´e de igualdade. Matematicamente, pode-se atribuir umpeso a cada microestado inicial, de modo que os estados compat´ıveis com um dado macroestado tem mesmo peso, enquanto que os incompat´ıveis tˆem peso nulo. Desta forma, certas quantidades macrosc´opicas (tais como a energia) s˜ao definidas como m´edias sobretodosos estados dinˆamicos, com pesos apropriados. Isto explica como os resultados de experiˆencias macrosc´opicas idˆenticas s˜ao reproduzidos.
Assim, um sistema cl´assico deN part´ıculas1pode ser representado por um ponto, no chamadoespa¸co de fase, definido pelas 3N coordenadas q≡q1, q2, . . . q3N e pelos 3N momentos conjugadosp≡p1, p2, . . . , p3N. `A medida em que o sistema evolui no tempo, seu ponto representativo descreve uma trajet´oria no espa¸co de fase: esta ´e a trajet´oria do microestado. A grande quantidade de microestados compat´ıveis com um dado ma- croestado sugere, ent˜ao, que consideremos, simultaneamente, v´arios pontos no espa¸co de fase, sujeitos a um certo peso. Com isto, o valor observado de uma dada vari´avel dinˆamica ´e identificada como a m´edia nesteensemblede microestados compat´ıveis com o macroestado.
Claramente, n˜ao se deve esperar desta teoria uma previs˜ao detalhada do resultado de uma dada experiˆencia. Ao contr´ario, espera-se que este formalismo preveja um re- sultado m´edio de um grande n´umero de experiˆencias feitas sob idˆenticas condi¸c˜oes macrosc´opicas. N˜ao devemos excluir a possibilidade de flutua¸c˜oes em torno destes re- sultados m´edios, apesar de serem, em geral, pequenas para sistemas suficientemente grandes.
Nas se¸c˜oes seguintes discutiremos a teoria de ensembles cl´assicos e quˆanticos em termos de uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao e da matriz densidade, respectivamente. Veremos que estas satisfazem uma equa¸c˜ao b´asica.
1.2 Classical Ensembles
Antes de discutirmos os ensembles propriamente ditos, ´e conveniente fazermos uma re- vis˜ao de Dinˆamica Hamiltoniana cl´assica.
1.2.1 Review of Classical Hamiltonian Dynamics.
Em Mecˆanica Cl´assica, o estado de um sistema de N part´ıculas, num dado instante de tempo, ´e caracterizado por um conjunto de 6N n´umerosq1, q2, . . . q3N, p1, p2, . . . p3N. Os qi’ s˜ao chamados de coordenadas generalizadas e ospi’s s˜ao os momentos generalizados conjugados aqi. Como exemplo, qi epi podem ser, respectivamente: posi¸c˜ao e momento
1O equivalente quˆantico ser´a discutido na se¸c˜ao 1.3.
1.2. CLASSICAL ENSEMBLES 5 linear; posi¸c˜ao angular e momento angular, etc. O n´umero 3N de pares (qi, pi) ´e chamado o n´umero de graus de liberdade do sistema. De agora em diante usaremos a nota¸c˜ao
(q, p)≡(q1, q2, q3, . . . , q3N, p1, p2, . . . , p3N) (1.2.1) sempre que n˜ao houver possibilidade de confus˜ao.
Em geral, estaremos interessados no valor de certas quantidades que caracterizam o sistema e que possam, em princ´ıpio, ser medidas, como, por exemplo, energia, momento e momento angular. Estas quantidades tˆem um valor definido para cada estado do sistema caracterizado por (q, p) e ser˜ao chamadas de fun¸c˜oes dinˆamicas do sistema, denotadas por b(q, p). Estaremos interessados em fun¸c˜oes dinˆamicas anal´ıticas, que possam ser escritas sob a forma
b(q, p) =
∞
X
n1=0
· · ·
∞
X
n2=0
· · ·
∞
X
n3N=0
· · ·
∞
X
m1=0
· · ·
∞
X
m1N=0
Cn1,...,m3N qn11q2n2. . . pm3N3N (1.2.2) onde osCn1,...,m3N s˜ao constantes reais arbitr´arias.
A descri¸c˜ao acima especifica completamente o estado do sistema num dado instante, como t= 0. O principal objetivo da dinˆamica, por outro lado, ´e o estudo da evolu¸c˜ao do sistema no tempo. Na formula¸c˜ao Hamiltoniana o movimento ´e completamente espe- cificado se uma fun¸c˜ao dinˆamicaH(q, p) (Hamiltoniana) fˆor conhecida. Na maioria dos casos, a Hamiltoniana ´e a energia total do sistema.
A partir da Hamiltoniana, a evolu¸c˜ao temporal do sistema ´e obtida resolvendo-se as 6N equa¸c˜oes de movimento
˙
qi = ∂H
∂pi p˙i =−∂H
∂qi, (1.2.3)
dadas as condi¸c˜oes iniciais. A solu¸c˜ao de (1.2.3) fornece a evolu¸c˜ao de um sistema f´ısico, representada por uma trajet´oria no espa¸co de fase.
Para uma fun¸c˜ao arbitr´aria de (q, p) como em (1.2.2), sua taxa de varia¸c˜ao ´e dada por
db dt =
3N
X
n=1
∂b
∂qn
˙
qn+ ∂b
∂pn
˙ pn
=
3N
X
n=1
∂b
∂qn
∂H
∂pn
− ∂b
∂pn
∂H
∂qn
(1.2.4) onde a segunda igualdade foi obtida usando-se (1.2.3).
A express˜ao no lado direito da Eq. (1.2.4) tem papel t˜ao importante, e aparece t˜ao frequentemente que ´e chamada de parˆenteses de Poisson, denotada por
[b, c]P =
3N
X
i=1
∂b
∂qi
∂c
∂pi
− ∂b
∂pi
∂c
∂qi
(1.2.5) Assim, a equa¸c˜ao de movimento parab(q, p) pode ser escrita como
b˙= [b, H]P ≡[H]b, (1.2.6)
onde a ´ultima igualdade acima define uma nota¸c˜ao compacta para os parˆenteses de Poisson.
Podemos escrever uma solu¸c˜ao de (1.2.6) usando um operador de evolu¸c˜ao temporal.
Para isto, suponhamos queb(t) possa ser expandido como uma s´erie de potˆencias b(t) =b+tb˙+1
2 t2¨b+. . . , (1.2.7) onde os argumentos (q, p) foram omitidos eb,b,˙ ¨b, etc., s˜ao calculados emt= 0. Notando que
b˙= [H]b , ¨b= [H]2b , etc., (1.2.8) a Eq. (1.2.7) pode ser escrita na forma desejada,
b(t) =U(t)b, (1.2.9)
onde o ‘propagador’ ´e dado por
U(t)≡et[H]. (1.2.10)
E interessante notar que, a cada instante, podemos expandir´ b(t) como em (1.2.2), de duas maneiras distintas, por´em equivalentes. Podemos pensar que, em cada instante, b´e a mesmafun¸c˜ao dasvari´aveis transformadas, isto ´e,
b(q, p;t) = X
{n}{m}
C{n}{m} q1n1(t) q2n2(t). . . qn3N3N(t) pm11(t). . . pm3N3N(t) (1.2.11) ondeC{n}{m}s˜ao constantes no tempo. Alternativamente, podemos resolver as equa¸c˜oes de Hamilton para qi(t) e pi(t) como fun¸c˜oes do tempo e das condi¸c˜oes iniciaisqi e bi, e substitu´ı-las em (1.2.2), fornecendo
b(q, p;t) = X
{n}{m}
C{n}{m}(t) qn11 qn22. . . pm11 pm22. . . pm3N3N (1.2.12) comC{n}{m}(t)6=C{n}{m}.
Em Mecˆanica Estat´ıstica, a segunda vis˜ao ´e a mais natural, j´a que (q, p) define o espa¸co de fase de uma vez por todas, n˜ao havendo necessidade de considerar (q, p) como objetos que mudam no tempo.
1.2.2 Classical Ensembles
Do ponto de vista macrosc´opico, podemos pensar na mat´eria como um cont´ınuo embe- bido numa regi˜ao do espa¸co-tempo. Assim, algumas propriedades macrosc´opicas de um dado material podem estar associadas a um ponto x (por exemplo, a varia¸c˜ao com a altura da press˜ao de um g´as em presen¸ca do campo gravitacional), ou, em particular, podem ser a mesma em todo o corpo.
Podemos classificar as grandezas macroscopicamente mensur´aveis em dois grupos:
quantidades mecˆanicas, que s˜ao aquelas associadas a operadores microsc´opicos (por
1.2. CLASSICAL ENSEMBLES 7 exemplo, press˜ao, energia interna); e quantidades t´ermicas, que est˜ao associadas a pro- priedades coletivas, inerentes ao fato de lidarmos com muitas part´ıculas e que n˜ao tˆem um operador microsc´opico correspondente (por exemplo, temperatura, entropia).
O objetivo da Mecˆanica Estat´ıstica ´e estabelecer uma ponte entre os n´ıveis de des- cri¸c˜ao microsc´opico e macrosc´opico. Assim, a cada grandeza microsc´opica b(q, p;x, t) est´a associada uma ´unica grandeza macrosc´opica B(x, t), atrav´es de uma opera¸c˜ao li- near
B(x, t)≡
b(q, p;x, t)
, (1.2.13)
definida como uma m´edia ponderada no ensemble. Os pesos de cada ponto do espa¸co de fase, isto ´e, de cada membro do ensemble, s˜ao dados por uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao ρ(q, p), no instante t= 0.
O postulado b´asico da Mecˆanica Estat´ıstica pode, ent˜ao, ser formulado da seguinte forma:
• O estado de um sistema ´e completamente especificado num dado instante de tempo por uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao ρ(q, p), que satisfaz
Z
dq dp ρ(q, p) = 1. (1.2.14) Postula-se que o valor observado de uma fun¸c˜ao dinˆamica b(q, p;x, t) para este sistema ´e dado por
hbi= Z
dq dp b(q, p;x, t) ρ(q, p). (1.2.15)
Impondo a condi¸c˜ao ρ(q, p)≥0, podemos interpretar ρ como a densidade de proba- bilidade de encontrar o sistema no ponto (q, p) do espa¸co de fases. Isto ´e, ρ dq dp ´e a fra¸c˜ao de pontos representativos do sistema no volume dq dpcentrado em (q, p). Assim, ρ define o peso de cada ponto do espa¸co de fases e, por conseguinte, o ensemble.
1.2.3 Time Evolution of ρ(q, p): Liouville’s Theorem.
Suponha conhecida a distribui¸c˜aoρ(q, p) que descreve o (macro)estado inicial do sistema.
Para este estado temos, emt= 0, B(x,0) =
Z
dq dp b(q, p;x) ρ(q, p). (1.2.16) Usando a Eq. (1.2.10), B(x,0) se transforma em
B(x, t) = Z
dq dp[et[H]b]ρ(q, p). (1.2.17) Isto ´e an´alogo `a ‘vis˜ao’ de Heisenberg da Mecˆanica Quˆantica, na qual estacion´arios s˜ao os estados e n˜ao os operadores. O incoveniente desta vis˜ao ´e que deve-se resolver um problema de evolu¸c˜ao temporal para cada fun¸c˜ao dinˆamica b(q, p;x, t) de interesse.
Seria conveniente, portanto, usarmos um cen´ario an´alogo ao da vis˜ao de Schr¨odin- ger, onde n˜ao s˜ao as fun¸c˜oes dinˆamicas que evoluem temporalmente, mas a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao ρ(q, p;t). Pode-se mostrar (veja Balescu para detalhes) que esta descri¸c˜ao ´e de fato equivalente `a anterior, e fornece
B(x, t) = Z
dq dp b(q, p;x) ρ(q, p;t), (1.2.18) onde
ρ(q, p;t) =e−t[H] ρ(q, p) (1.2.19) [Note o sinal dos expoentes nas Eqs. (1.2.17) e (1.2.19)].
A Eq. (1.2.19), quando escrita em forma diferencial,
∂ρ
∂t + [ρ(q, p;t), H(q, p)]P = 0, (1.2.20) expressa o Teorema de Liouville (1838). A analogia com a equa¸c˜ao de continuidade para um fluido fica aparente ao definirmos o divergente
∇ ·ρv≡
3N
X
i=1
∂
∂qi (ρq˙i) + ∂
∂pi (ρp˙i)
, (1.2.21)
de modo que a Eq. (1.2.20) fica
∂ρ
∂t +∇ ·(ρv) = 0. (1.2.22)
Ou seja, a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao move-se como um fluido incompress´ıvel no espa¸co de fases.
Podemos tamb´em definir o operador Liouvilliano,L,
Lρ≡[H, ρ]P , (1.2.23)
de modo que
∂ρ
∂t =Lρ(t). (1.2.24)
Assim, enquantoH determina a evolu¸c˜ao deum pontono espa¸co de fases,Ldetermina a evolu¸c˜ao da fun¸c˜ao de distribui¸c˜aono mesmo espa¸co; isto ´e,L rege a evolu¸c˜ao do ensemble. Nos casos que abordaremos aqui, o Liouvilliano fica determinado seH´e dado.
Todavia, num contexto mais geral, pode-se tomar a Eq. (1.2.24) como b´asica na teoria, mesmo nos casos em que H n˜ao pode ser definida, o que tornaria a Eq. (1.2.23) sem sentido.
1.3. QUANTUM ENSEMBLES 9
1.3 Quantum Ensembles
1.3.1 Review of Quantum Dynamics
O estado quˆantico de um sistema ´e especificado atrav´es de uma fun¸c˜ao de onda complexa Ψ(x)≡Ψ(x1, x2, . . . , x3N), das coordenadasxi das part´ıculas – a ‘metade’ do espa¸co de fases. Quando o sistema possui graus de liberdade internos (por exemplo, os spins das part´ıculas), a fun¸c˜ao de onda tamb´em depende de um conjunto de n´umeros quˆanticos que especifiquem estas vari´aveis (Ψ{σ}(x)). A fun¸c˜ao de onda fornece o m´aximo de informa¸c˜oes que podemos ter sobre o sistema.
As vezes pode-se afirmar que o sistema est´` a num estado Ψ mas, frequentemente, a informa¸c˜ao ´e apenas parcial, pois o sistema pode estar em um dentre v´arios estados. No primeiro caso, diz-se que o sistema est´a numestado puro e, no segundo, num estado de mistura. Como exemplo, considere um feixe n˜ao-polarizado de el´etrons incidindo em um
‘polarizador’. Inicialmente o estado do sistema ´e uma mistura, tornando-se um estado puro ao sair do polarizador. Voltaremos a este ponto quando discutirmos os ensembles quˆanticos.
Os observ´aveis quˆanticos (p.ex., energia, momento,etc.) s˜ao descritos por operadores ˆb, que s˜ao hermitianos: ˆb† = ˆb. Um destes observ´aveis ´e a Hamiltoniana do sistema, H, que ´ˆ e o gerador da evolu¸c˜ao temporal, como no caso cl´assico. Assim, a dependˆencia temporal de qualquer operador obedece `a equa¸c˜ao de movimento de Heisenberg,
i~b˙ˆ= [ˆb, H]ˆ , (1.3.1)
onde o comutador [ˆa, ˆb]≡ˆaˆb−ˆbˆa. A solu¸c˜ao da equa¸c˜ao pode ser escrita formalmente como
ˆb(t) =eitH/ˆ ~ ˆb e−itH/ˆ ~ ≡U†ˆb U. (1.3.2) O operador de evolu¸c˜ao temporal,U(t), ´e unit´ario: U†=U−1.
O valor num´erico de ˆb, observado em alguma experiˆencia, em geral n˜ao ´e bem defi- nido, mesmo que o sistema esteja em um estado puro (que ser´a a situa¸c˜ao considerada salvo men¸c˜ao expl´ıcita). O que podemos especificar ´e o valor m´edio de ˆb no estado Ψ:
¯b= Z
dx Ψ∗(x) ˆbΨ(x) =hΨ|ˆb|Ψi, (1.3.3) onde supusemos que Ψ fosse normalizada (R
dxΨ∗Ψ = 1); a ´ultima igualdade introduz a nota¸c˜ao de Dirac para estados abstratos. Expandindo |Ψi em termos de uma base ortonormal |mi,
|Ψi=X
m
cm |mi, (1.3.4)
temos
¯b=X
m,n
c∗mcn bmn, (1.3.5)
onde
bmn ≡ hm|ˆb|ni= Z
dx ϕ∗m(x) ˆb ϕn(x), (1.3.6)
comϕm(x)≡ hx|mi.
Como veremos a seguir, a este car´ater estat´ıstico da Mecˆanica Quˆantica ser˜ao sobre- postas as m´edias no ensemble.
1.3.2 Quantum Ensembles
Analogamente ao caso cl´assico, ensembles s˜ao introduzidos imaginando-se n˜ao um, mas um conjunto de sistemas idˆenticos – mesma Hamiltoniana – que, no instante inicial, se encontravam em diferentes estados Ψ(i). Como sempre, em se tratando de sistemas de muitos corpos, o m´aximo de informa¸c˜oes que se pode ter ´e especificar uma probabilidade γi do sistema se encontrar no estado Ψ(i). Claramente devemos ter
γi≥0 ; X
i
γi= 1. (1.3.7)
Note que um sistema descrito por uma mistura estat´ıstica de estados como esta n˜ao deve ser confundido com um descrito por uma superposi¸c˜ao linear de estados Ψ = P
iα(i)Ψ(i). Neste ´ultimo caso h´a termos de interferˆencia quando se toma |Ψ|2, que est˜ao ausentes no primeiro.
Para obtermos uma express˜ao para o valor m´edio no ensemble de um observ´avel ˆb, inicialmente expandimos cada um dos estados poss´ıveis em termos de uma mesma base ortonormal:
Ψ(i)(x) =X
r
c(i)r ϕr(x). (1.3.8)
O valor m´edio de ˆb no estado Ψ(i)´e ent˜ao dado por
¯b(i) =X
r,s
c(i)∗r c(i)s brs, (1.3.9) ondebrs ´e dado por (1.3.6).
Agora fazemos uma segundam´edia, desta vez no ensemble:
hbi=X
i
γi ¯b(i)=X
i
γiX
r,s
c(i)∗r c(i)s brs. (1.3.10) Estes s˜ao os resultados que devem ser comparados com a experiˆencia.
Definamos uma matrizρsr atrav´es de ρsr≡X
i
γi c(i)s c(i)∗r , (1.3.11) (note a ordem dos ´ındices!). Podemos agora chamar de ˆρ o operador – matriz densi- dade– cujos elementos s˜ao dados por
ρsr= Z
dx ϕ∗s ρ ϕˆ r ≡ hs|ˆρ|ri. (1.3.12)
1.3. QUANTUM ENSEMBLES 11 O valor m´edio (1.3.10) pode ent˜ao ser escrito como
hbi=X
r,s
brsρsr=X
r,s
hs|ˆρ|rihr|ˆb|si=X
r
hr|ˆρˆb|ri. (1.3.13) O fato da ´ultima soma acima ser sobre elementos de matriz diagonais nos permite escrever a m´edia do observ´avel ˆbcomo o tra¸co do operador. O tra¸co, por sua vez, independe da base utilizada para representar o operador, e podemos escrever, finalmente,
B =hbi= Tr ˆρˆb= Tr ˆbˆρ, (1.3.14) onde na segunda igualdade usamos a propriedade de invariˆancia do tra¸co por per- muta¸c˜oes c´ıclicas dos operadores.
Consideremos, em particular, ˆb= 1; temos ent˜ao Tr ˆρ=X
i,r
γi c(i)r c(i)∗r =X
i
γi = 1. (1.3.15)
Conv´em lembrar que se Tr ˆρ6= 1, os valores m´edios s˜ao definidos como hbi= Tr ˆρˆb
Tr ˆρ . (1.3.16)
As Eqs. (1.3.14) e (1.3.15) s˜ao an´alogas a (1.2.13) e (1.2.14), de modo que a vers˜ao quˆantica do postulado b´asico se torna
• O estado de um sistema em Mecˆanica Estat´ıstica ´e completamente especificado num dado instante de tempo pelo operador densidade ρ, que satisfaz a Eq. (1.3.15). Oˆ valor observado de uma fun¸c˜ao dinˆamicaˆb ´e dado por (1.3.14).
Para interpretar ˆρ, ´e conveniente separar as contribui¸c˜oes diagonais e n˜ao-diagonais:
hbi=X
r
brr ρrr+X
r6=s
brsρrs. (1.3.17)
A parcela diagonal pode ser associada a probabilidades, pois ρrr =X
i
γi|c(i)r |2, (1.3.18) que, usando as Eqs. (1.3.7) e (1.3.15), fica
ρrr≥0; X
r
ρrr = 1. (1.3.19)
Logo, ρrr pode ser interpretado como a probabilidade de se encontrar o sistema no estado r. Caso ˆρ fosse diagonal na base escolhida, {ϕr}, ter´ıamos ρrs = 0 para r 6=s, e a defini¸c˜ao do valor observado B seria an´aloga `a do caso cl´assico. Claramente esta situa¸c˜ao ´e especial pois depende fortemente da base escolhida, n˜ao sendo uma propriedade intr´ınseca da matriz densidade. Os termos fora da diagonal n˜ao tˆem sinais bem-definidos e, portanto, n˜ao podem ter interpreta¸c˜ao probabil´ıstica; est˜ao associados a efeitos de interferˆencia, sem an´alogo cl´assico.
1.3.3 Time Evolution of ρ: the von Neumann Equation.ˆ
Para determinar a dependˆencia temporal do observ´avel macrosc´opico B(x, t), valor m´edio do operador ˆb(x, t), sujeito `a condi¸c˜ao inicial ˆb(x, t= 0) = ˆb(x), o procedimento ´e an´alogo ao do caso cl´assico, inclusive no que diz respeito `a conveniˆencia de uma ‘vis˜ao’
de Schr¨odinger em Mecˆanica Estat´ıstica (veja Balescu para detalhes). Chega-se a B(x, t) = Tr ˆbρ(t),ˆ (1.3.20) onde
ˆ
ρ(t) =e−iHt/ˆ ~ ρ eˆ iHt/ˆ ~. (1.3.21) Derivando, vem
i~ ∂
∂t ρ(t) = [ ˆˆ H,ρ(t)],ˆ (1.3.22) que ´e a equa¸c˜ao b´asica da Mecˆanica Estat´ıstica Quˆantica, conhecida como equa¸c˜ao de von Neumann; ela ´e an´aloga `a equa¸c˜ao de Liouville para o caso cl´assico. Note que a equa¸c˜ao de movimento satisfeita pela matriz densidade n˜ao ´e a de Heisenberg, como ilustra a diferen¸ca de sinal [compare com (1.3.1)].
Assim, a Mecˆanica Estat´ıstica consiste, essencialmente, no estudo das solu¸c˜oes das equa¸c˜oes de Liouville ou de von Neumann.
1.4 The Approach to Equilibrium
Admitindo que as equa¸c˜oes de movimento para a distribui¸c˜ao de probabilidades (ou para a matriz densidade, no caso quˆantico) tenham sido resolvidas, podemos nos perguntar se as solu¸c˜oes apresentam a tendˆencia de decair para o equil´ıbrio.
Dois aspectos mostram que isto n˜ao ´e verdade. Em primeiro lugar, o fato dos autova- lores deLserem reais indica que as solu¸c˜oes da Equa¸c˜ao de Liouville s˜ao oscilat´orias no tempo, n˜ao tendendo, portanto, a uma solu¸c˜ao estacion´aria quandot→ ∞. Em segundo lugar, a Equa¸c˜ao de Liouville ´e invariante por invers˜ao temporal, o que ´e incompat´ıvel com fenˆomenos irrevers´ıveis como o decaimento para o equil´ıbrio.
A descri¸c˜ao de irreversibilidade e decaimento para o equil´ıbrio faz parte de um ramo da Mecˆanica Estat´ıstica chamado de Teoria Erg´odica, cujo objetivo ´e entender a origem da irreversibilidade a partir dos fluxos da fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao no espa¸co de fases. Neste curso n˜ao discutiremos estas quest˜oes em detalhe; nos restringiremos a uma abordagem introdut´oria a sistemas fora do equil´ıbrio na parte final. Todavia, podemos mencionar, rapidamente (veja Reichl, Cap. 8, para detalhes), que dois tipos de fluxo no espa¸co de fases s˜ao importantes para se entender o decaimento para o equil´ıbrio: fluxo erg´odico e fluxo com mistura. Para se compreender fluxo erg´odigo, imagine um sistema isolado, com energia E. A este sistema, portanto, corresponder´a uma superf´ıcie de (6N −1) dimens˜oes no espa¸co de fases; `a medida em que o tempo evolui, cada ponto representativo se move nesta superf´ıcie. Diz-se que o fluxo destes pontos ´e erg´odico se quase todos eles passam por qualquer vizinha¸ca arbitr´aria finita nesta superf´ıcie. A Fig. 1.1 ilustra esquematicamente esta superf´ıcie, e algumas trajet´orias.
1.4. THE APPROACH TO EQUILIBRIUM 13
Figura 1.1: Schematic constant energy surface in phase space for an ergodic system.
Um crit´erio para determinar se um sistema ´e erg´odico ou n˜ao ´e dado pelo Teorema Erg´odico. Considere uma fun¸c˜ao f(q, p), integr´avel no espa¸co de fases. Um sistema ´e erg´odico se, para todas as fun¸c˜oesf, a m´edia temporal
hfiT = lim
T→∞
1 T
Z t0+T t0
f(q(t), p(t))dt (1.4.1) existe para quase todos (q, p) e, quando existir, fˆor igual `a m´edia no ensemble
hfiS= 1 P(E)
Z
SE
f(q, p) dSE = 1 P(E)
Z
dqdp δ(H(q, p)−E) f(q, p), (1.4.2) onde dSE ´e um elemento da superf´ıcie de energia E, invariante durante a evolu¸c˜ao do sistema e P
(E) ´e a ´area desta superf´ıcie. Assim, fluxo erg´odico corresponde ao conjunto de pontos representativos visitar quase toda a superf´ıcie SE, ap´os um tempo suficientemente longo, permanecendo em ´areas iguais por tempos iguais.
Sistemas com fluxo erg´odico n˜ao atingem equil´ıbrio a n˜ao ser que j´a tenham partido de um estado de equil´ıbrio. Para que o equil´ıbrio seja atingido, o fluxo deve ter tamb´em a propriedade de mistura. Neste tipo de fluxo, a distribui¸c˜ao de probabilidades se espalha pelo espa¸co de fases `a medida em que o tempo evolui. Note que sistemas com fluxos de mistura s˜ao erg´odicos mas a rec´ıproca n˜ao ´e verdadeira.
No pr´oximo cap´ıtulo estudaremos os ensembles de equil´ıbrio, sem nos preocuparmos com os mecanismos que levam um determinado sistema a esta situa¸c˜ao.
Cap´ıtulo 2
Equilibrium Ensembles and Thermodynamics
Refs.: Balescu, Pathria, Huang, Reichl
2.1 Equilibrium Solutions
Discutiremos aqui algumas solu¸c˜oes de equil´ıbrio – isto ´e, independentes do tempo – das equa¸c˜oes de Liouville e de von Neumann.
No caso cl´assico, a equa¸c˜ao de Liouville se reduz a
[H, ρ]P = 0. (2.1.1)
Se a dependˆencia de ρcom q e pse d´a atrav´es de H – isto ´e,ρ=ρ(H(q, p)) – ent˜ao [H, ρ]P = 0, eρ ´e uma solu¸c˜ao aceit´avel, desde que R
dq dp ρ= 1 e ρ≥0.
Analogamente, no caso quˆantico, se ˆρ= ˆR( ˆH) com Tr ˆρ= 1 eρrr≥0, ent˜ao
[ ˆH,ρ] = 0,ˆ (2.1.2)
representando uma solu¸c˜ao de equil´ıbrio.
Mais ainda, qualquer constante de movimento ´e solu¸c˜ao da respectiva equa¸c˜ao (Li- ouville ou von Neumann), mas discutiremos ρ como fun¸c˜ao de H apenas. A inclus˜ao de outras constantes de movimento e o subsequente estudo das trajet´orias de sistemas dinˆamicos ´e discutida em maiores detalhes no contexto da Teoria Erg´odica.
Pode-se determinar v´arias solu¸c˜oesρ(e ˆρ) que satisfa¸cam as Eqs. (2.1.1) e (2.1.2). A mais simples atribui o mesmo peso aos estados compat´ıveis com as condi¸c˜oes macrosc´o- picas e peso zero aos demais; isto ´e conhecido como o ‘postulado das probabilidades iguais a priori’.
2.2 The Microcanonical Ensemble
Nosso objetivo agora ´e construir uma fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao representando um tipo de estado de equil´ıbrio. Come¸caremos pela descri¸c˜ao quˆantica, que ´e mais clara e funda- mental em muitos aspectos.
15
O caso mais simples que podemos considerar ´e o de um sistema isolado: ele n˜ao inte- rage com o mundo exterior, sendo caracterizado por ter energia constante. Claramente, isto ´e uma idealiza¸c˜ao, pois ´e imposs´ıvel desligar completamente a intera¸c˜ao com o mundo exterior. Por outro lado, o n´umero de estados por intervalo de energia ´e muito grande (∼aN, ondea´e um tamanho linear t´ıpico do sistema), de modo que uma pequena – mas macrosc´opica – incerteza na energia total equivale a incorporar ou retirar da discuss˜ao um grande n´umero de estados compat´ıveis. Assim, definiremos um ‘sistema isolado’
como tendo energia entreE eE+ ∆E, com ∆EE. Al´em disto, suporemos o sistema contido em um volume V muito maior que volumes t´ıpicos da escala molecular (i.e., V 10−30m3), e comN (∼1023) part´ıculas.
Para obter a matriz densidade neste caso, usemos uma representa¸c˜ao em que a Ha- miltoniana seja diagonal, de modo que ˆρ tamb´em o seja devido `a sua dependˆencia com H:ˆ
ρmn = 1
Ω am δmn, (2.2.1)
ondemrepresenta um conjunto de n´umeros quˆanticos que caracterizam completamente um autoestado do sistema,ame Ω ser˜ao definidos abaixo. Os n´umerospm ≡am/Ω devem ser positivos pois representam a probabilidade de se encontrar o sistema no estado m (e n˜ao comenergia Em).
De acordo com a discuss˜ao anterior, introduzimos agora o postulado das probabili- dades iguaisa priori:
am =
(1 seE≤Em≤E+ ∆E
0 outros casos. (2.2.2)
J´a Ω ´e determinado pela normaliza¸c˜ao de ˆρ:
Tr ˆρ= 1 Ω
X
m
am= 1 = 1 Ω
X
m
01, (2.2.3)
ondeP0
restringe a soma apenas aos estados compat´ıveis com energia total E. Logo, Ω =X
m
01 (2.2.4)
´e on´umero de estados acess´ıveis com energia entreE eE+ ∆E.
Devemos notar aqui que Ω ´e uma fun¸c˜ao da energiaE, do intervalo ∆E, e depende parametricamente (i.e.,via Em) do volume V e do n´umero de part´ıculas N:
Ω≡Ω(E; ∆E;N, V). (2.2.5)
A an´alise do caso cl´assico segue as mesmas linhas do caso quˆantico. O postulado das probabilidades iguais a priori´e imposto `a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao cl´assica para microes- tados com energiaE0:
ρ(q, p) =
(1/Ω seE ≤E0 ≤E+ ∆E
0 em outros casos. (2.2.6)
2.3. CONNECTION WITH THERMODYNAMICS 17 Analogamente ao caso quˆantico, a normaliza¸c˜ao de ρ nos permite interpretar Ω como o n´umero de pontos acess´ıveis no espa¸co de fase, dado por
Ω = Ω0
Z 0
dq Z 0
dp, (2.2.7)
onde as linhas nas integrais restringem ao volume no espa¸co de fase correspondente `a energia no intervalo entre E e E+ ∆E.
No caso cl´assico, necessitamos de uma constante Ω0 para que Ω seja adimensional.
Al´em disto, levando em conta a indistinguibilidade das part´ıculas, obtemos Ω0 = 1
h3N0 N!, (2.2.8)
ondeh0 ´e uma constante com dimens˜ao de momento angular (h0 →hna passagem para a Mecˆanica Quˆantica) e N! ´e o fator de corre¸c˜ao introduzido por Gibbs que leva em conta, de maneira aproximada, o fato das part´ıculas serem indistingu´ıveis.
Em muitos casos ´e mais simples calcular o n´umero de estados com energia menor que E,
Σ(E) = Ω0
Z
H<E
dq dp, (2.2.9)
em fun¸c˜ao do qual podemos escrever
Ω(E) = Σ(E+ ∆E)−Σ(E)≈D(E) ∆E, (2.2.10) j´a que ∆EE, e
D(E) = ∂Σ
∂E (2.2.11)
´
e a densidade de estados acess´ıveis com energia E. Uma discuss˜ao an´aloga se aplica ao caso quˆantico.
Para umapart´ıcula livre em uma caixa c´ubica de volumeV, temos (veja Exerc´ıcios 2.1 e 2.2) Σ1 ∼ E3/2V; para N part´ıculas, ΣN ∼ E3N/2VN. Assim, como N 1, a densidade de estados cresce muito rapidamente comE. Na Fig. 2.1 ilustramos esquema- ticamente a dependˆencia de Dcom E, e identificamos tamb´em Σ(E), eD(E)dE.
2.3 Connection with Thermodynamics
A Termodinˆamica (TD) Cl´assica parte de algumas poucas observa¸c˜oes experimentais que d˜ao origem, essencialmente, a trˆes leis, que podem ser resumidas a seguir:
1a Lei (Conserva¸c˜ao da Energia): A varia¸c˜ao na energia interna de um sistema ´e dada por
dE=d−Q−d−W, (2.3.1)
onded−Q´e a quantidade de calorabsorvida pelo sistema ed−W ´e o trabalho executado pelo sistema, num processo infinitesimal. Estas duas ´ultimas grandezas dependem do
D ( )
E ( )
Figura 2.1: Schematic density of states for N free particles in a cubic box of volume V as a function of the total energy.
processo, enquanto que a energia ´e uma fun¸c˜ao de estado; veja, por exemplo, Reif, para discuss˜oes e aplica¸c˜oes da 1a lei.
2a Lei (Crescimento da entropia): Em um sistema fechado e fora do equil´ıbrio, os processos ocorrem de modo que uma fun¸c˜ao de estado, denominada entropia (S) cres¸ca continuamente, at´e atingir o valor m´aximo, correspondente ao estado de equil´ıbrio. A entropia ´e definida termodinamicante pela sua varia¸c˜ao,
dS≥ d−Q
T (2.3.2)
onde T ´e a temperatura absoluta do sistema e a igualdade ´e v´alida num processo in- finitesimal quase-est´atico, i.e., em que o sistema evolui lentamente, numa sucess˜ao de estados de equil´ıbrio sendo, portanto, revers´ıvel.
Como consequˆencia destas duas leis, temos
T dS ≥dE+d−W (2.3.3)
onde, novamente, a igualdade se refere a processos revers´ıveis.
3a Lei (Limite de entropia): A entropia de um sistema ´e tal que lim
T→0+S =S0, (2.3.4)
ondeS0 ´e uma constante independente de todos os parˆametros do sistema.
2.3. CONNECTION WITH THERMODYNAMICS 19 Aqui n˜ao discutiremos aplica¸c˜oes espec´ıficas destas leis, apesar de sua importˆancia, pois espera-se que tenham sido exaustivamente exploradas durante os cursos de gra- dua¸c˜ao, tanto de F´ısica b´asica, quanto de F´ısica Estat´ıstica ao n´ıvel do Reif. Todavia, a partir destas leis ´e poss´ıvel impor v´ınculos `as v´arias grandezas que caracterizam o comportamento t´ermico e mecˆanico da mat´eria, como faremos no decorrer deste curso;
da mesma forma, elas servem como teste de validade dos resultados obtidos em diversas situa¸c˜oes f´ısicas.
Apesar do enorme sucesso, a Termodinˆamica tem limita¸c˜oes intr´ınsecas. Por exem- plo, ela fornecerela¸c˜oes entre as v´arias quantidades, mas n˜ao nos d´a meios para calcul´a- las individualmente. Assim, uma rela¸c˜ao entre os calores espec´ıficos a volume (cV) e a press˜ao (cP) constantes pode ser deduzida por argumentos puramente termodinˆamicos, de modo que o conhecimento de um deles implica no conhecimento do outro, mas n˜ao sabemos como calcular cP ou cV. A Termodinˆamica n˜ao ´e uma teoria microsc´opica.
E a Mecˆ´ anica Estat´ıstica que nos permite efetuar esta transi¸c˜ao, fazendo contato com a TD. No ensemble microcanˆonico, isto ´e feito definindo a entropia estatisticamente, como
S ≡kBln Ω(E, V, N), (2.3.5)
ondekB´e a constante de Boltzmann, e a dependˆencia com ∆Efoi omitida. Isto porque, na maioria dos casos de interesse, o n´umero de estados com energia entre E e E+ ∆E cresce t˜ao rapidamente, que a contribui¸c˜ao para Ω devido `a vizinhan¸ca imediata de E
´
e muito maior do que a contribui¸c˜ao relativa a todas as energias at´e E. Assim, para o c´alculo da entropia atrav´es da Eq. (2.3.5), ´e equivalente utilizar o n´umero de estados com energia entre E e E+ ∆E, Ω(E), ou o n´umero de estados com energia menor que E, Σ(E), ou, ainda, a densidade de estados na energia E,D(E), pois as diferen¸cas s˜ao da ordem de lnN ou menores; veja Huang, Cap. 7, para detalhes.
Fisicamente, a entropia ´e uma medida do grau de desordem do sistema, no sentido de que quanto maior fˆor o n´umero de estados acess´ıveis, maior a aleatoriedade associada ao macroestado. Assim, a segunda lei da termodinˆamica nos diz que o estado de equil´ıbrio
´
e o mais aleat´orio poss´ıvel, ou o mais prov´avel.
Para verificar que a entropia ´e uma grandeza extensiva, suponha que o sistema consista de v´arios subsistemas, cada um dos quais com Ω1,Ω2, . . . estados acess´ıveis.
Ent˜ao, o n´umero de estados do sistema ´e o produto dos Ωi, de modo que a entropia
´
e a soma das entropias dos sub-sistemas. A aditividade de uma grandeza significa que quando a quantidade de mat´eria (e, por conseguinte o n´umeroN de part´ıculas) ´e alterada por um fator, ela ´e alterada pelo mesmo fator. Em outras palavras, uma grandeza termodinˆamica aditiva deve ser uma fun¸c˜ao homogˆenea de primeiro grau nas respectivas vari´aveis aditivas, isto ´e
S=N s(E/N, V /N), (2.3.6)
onde s ´e a entropia por part´ıcula, que ´e fun¸c˜ao somente de duas vari´aveis intensivas, E/N e V /N.
Considere agora o sistema S como composto de apenas duas partes, S1e S2(Fig. 2.2), cujos macroestados sejam caracterizados pelos parˆametros (E1, V1 eN1) e (E2, V2 eN2),
S1
(E1, V N1, 1) (E2, V N2, 2) S2
Figura 2.2: Two subsystems, S1 and S2 separated by a partition.
respectivamente; a estes parˆametros correspondem Ω1 e Ω2 estados. Suponhamos que S1 e S2 estejam em contato t´ermico atrav´es de uma parede, permitindo apenas troca de energia entre eles.
Com a parede im´ovel e impenetr´avel, V1, V2, N1 e N2 s˜ao mantidos separadamente fixos, mas as energiasE1 e E2 s˜ao vari´aveis e sujeitas `a condi¸c˜ao
E =E1+E2 = cte. (2.3.7)
O n´umero de estados acess´ıveis a S ´e, portanto,
Ω(E1, E2) = Ω1(E1) Ω2(E2) = Ω1(E1) Ω2(E−E1) = Ω(E, E1). (2.3.8) Como vimos, o estado de equil´ıbrio corresponde ao m´aximo de Ω. Chamando de ¯E1
e ¯E2 as energias de S1 e S2 na situa¸c˜ao de equil´ıbrio, a condi¸c˜ao de m´aximo de Ω fica
∂Ω
∂E1
E1= ¯E1
= ∂Ω1
∂E1
E1= ¯E1
Ω2( ¯E2) + Ω1( ¯E1)∂Ω2
∂E2
E2= ¯E2
∂E2
∂E1
= 0 (2.3.9)
Devido a (2.3.7),∂E2/∂E1 =−1, e a condi¸c˜ao de equil´ıbrio t´ermico fica ∂ln Ω1(E1)
∂E1
E1= ¯E1
=
∂ln Ω2(E2)
∂E2
E2= ¯E2
(2.3.10) Definindo
βi =
∂ln Ωi(Ei)
∂Ei
Ei= ¯E
, (2.3.11)
temos
β1 =β2, (2.3.12)
ou, identificandoβi = 1/kBTi, com T sendo a temperatura absoluta,
T1 =T2. (2.3.13)
2.3. CONNECTION WITH THERMODYNAMICS 21 Suponhamos agora que a parti¸c˜ao da Fig. 2.2 seja m´ovel e perme´avel; procedendo de modo an´alogo, obtemos a condi¸c˜ao de equil´ıbrio mecˆanico,
P1=P2 (2.3.14)
onde a press˜ao de cada subsistema ´e definida como Pi = 1
βi
∂ln Ωi
∂Vi
Ei,Ni
. (2.3.15)
De modo an´alogo, a condi¸c˜ao de equil´ıbrio qu´ımico ´e
µ1 =µ2, (2.3.16)
onde o potencial qu´ımico de cada sub-sistema ´e definido como µi =−1
βi
∂ln Ωi
∂Ni
Ei,Vi
. (2.3.17)
Alternativamente, a Eq. (2.3.5) pode ser invertida para expressar a energia como fun¸c˜ao deS, V e de N. A extensividade de E, S e V implica em queE(S, V, N) seja da forma
E=N e(S/N, V /N), (2.3.18)
onde a energia interna por part´ıcula, e, ´e fun¸c˜ao de apenas duas vari´aveis.
A energia interna ´e um potencial termodinˆamico,1 isto ´e, todas as grandezas termo- dinˆamicas podem ser calculadas a partir dela por opera¸c˜oes alg´ebricas simples ou por diferencia¸c˜oes; neste ´ultimo caso, surgem as quantidades termodinamicamente conjuga- das, como se segue (veja, p.ex., Reif, para detalhes):
Temperatura:
T = ∂E
∂S
V,N
(T conjugada aS) (2.3.19)
Press˜ao:
P =− ∂E
∂V
S,N
(−P conjugada aV) (2.3.20) Potencial Qu´ımico:
µ= ∂E
∂N
S,V
(µconjugada aN) (2.3.21) No ensemble microcanˆonico, portanto, as vari´aveis independentes s˜ao (E, V, N) ou (S, V, N), das quais podemos extrair (T, P, µ). Todavia, a escolha das vari´aveis inde- pendentes ´e ditada por diferentes condi¸c˜oes experimentais. Em princ´ıpio, se conhecˆes- semos as trˆes fun¸c˜oes (2.3.19)-(2.3.21), poder´ıamos expressar qualquer conjunto de trˆes vari´aveis em termos das restantes. Claramente, esta situa¸c˜ao ´e rara na pr´atica, mas pode ser remediada usando outros ensembles ou, equivalentemente, fazendo transforma¸c˜oes de Legendre nos diferentes potenciais termodinˆamicos (veja Reif para detalhes).
1Uma apresenta¸c˜ao mais detalhada dos potenciais termodinˆamicos ser´a feita da Se¸c˜ao 2.6.
U S
W R
R
0S
Figura 2.3: Schematic representation: The system S has typical dimensions RS, and is a subsystem of the microcanonical Universe, U. The external world, W, is much larger than its complement S.R0 is the length scale of the interactions between the particles.
2.4 The Canonical Ensemble
Na se¸c˜ao anterior, supusemos que o sistema estivesse isolado. Esta hip´otese, al´em de irreal, ´e restritiva, pois n˜ao permite o estudo de sistemas que interajam com suas vizi- nhan¸cas atrav´es de trocas de energia de v´arias formas. Para estudar estes casos, consi- deremos primeiramente um sistema muito grande e isolado – chamˆemo-lo de ‘universo’, U – , com energia EU; este ´e descrito por um ensemble microcanˆonico. O sistema S, objeto de nosso estudo, com NS part´ıculas num volume VS, ´e um subsistema de U, que interage com o mundo exterior,W, complemento deS, comNW part´ıculas num volume VW; veja a Fig. 2.3.
Fa¸camos as seguintes hip´oteses: (1) 1 NS NW, de modo que a Mecˆanica Estat´ıstica seja aplic´avel a S; (2) U esteja em equil´ıbrio, de modo que a densidade de part´ıculas e todas as outras propriedades locais sejam uniformes, a menos de flutua¸c˜oes;
(3)S n˜ao corresponde a regi˜oes com grandes flutua¸c˜oes, de modo que as densidades em S e W s˜ao aproximadamente iguais:
NS VS
≈ NW VW
. (2.4.1)
Os resultados que deduziremos a seguir ser˜ao v´alidos no chamado limite termodinˆa- mico:
NS, NW → ∞ NW
NS
→ ∞ VS, VW → ∞,
com NS
VS
= NW
VW
=n. (2.4.2)
2.4. THE CANONICAL ENSEMBLE 23
E
WE
W+ E
UE +
UE
mFigura 2.4: S is in a state of energyEm, the energy of U lies in the rangeEU andEU+∆, and the energy of W lies in the range EW andEW + ∆.
A energia do Universo pode ser escrita como
EU =ES+EW +HSW0 , (2.4.3)
ondeES ´e a energia de S que, sendo uma grandeza extensiva (i.e.,aditiva), ´e da ordem de VS; EW ´e a energia de W que, analogamente, ´e da ordem deVW; HSW0 ´e a energia de intera¸c˜ao entre S e W, que ´e da ordem de VC, onde VC ´e o volume da regi˜ao de intera¸c˜ao entreS e W (VC ∼RS2R0, ondeRS ´e a dimens˜ao t´ıpica de S eR0 ´e o alcance do potencial de intera¸c˜ao entre as part´ıculas; veja a Fig. 2.3). Logo,
|HSW0 |
|ES| ∼ VC VS
∼ R2SR0
R3S ∼VS−1/3. (2.4.4) Assim, escolhendo S como um sistema de grandes dimens˜oes, podemos desprezar HSW0 em presen¸ca deES. Note queHSW0 ´e fisicamente importante como um mecanismo de troca de energia entreS e W, por´em contribui com uma parcela numericamente pe- quena `a energia total. Desta forma,S eW podem ser considerados comopraticamente desacoplados:
EU ≈ES+EW , comES EW. (2.4.5) Chegamos agora `a quest˜ao crucial no Ensemble Canˆonico: Sabendo que o Universo
´
e descrito por um ensemble microcanˆonico, qual a probabilidade, pm, de encontrar S num dado estadoquˆantico, caracterizado pelo conjunto de n´umeros quˆanticosm, e pela energia Em?
Dado queU tem energia entreEU eEU+ ∆E, ent˜ao W tem energia entre EU−Em
e (EU −Em) + ∆E, quando S tem energia Em; veja a Fig. 2.4. O n´umero de estados de W que satisfazem esta condi¸c˜ao ´e ΩW(EU−Em; ∆E), que tamb´em ´e o n´umero de configura¸c˜oes do Universo em que S est´a no estado m, com energia Em e, conjunta- mente, W tem energia neste intervalo. Em outras palavras, a cada estado deW, com EU−EW =Em, corresponde um estado de S poss´ıvel, com energia Em.
Devido ao postulado de probabilidades iguais a priori, todas as configura¸c˜oes pos- s´ıveis contadas em ΩW tˆem mesma probabilidade. Assim, a probabilidade pm de que S esteja no estado m ´e dada pela raz˜ao entre o n´umero de configura¸c˜oes do Universo nas quaisS est´a no estadom, ΩW(EU−Em; ∆E), e o n´umero total de configura¸c˜oes do Universo, ΩU(EU,∆E):
pm= ΩW(EU −Em; ∆E)
ΩU(EU; ∆E) . (2.4.6)
Expandindo ln ΩW na vizinhan¸ca de EU, obtemos ln ΩW(EU−Em)'ln ΩW(EU)−
∂ln ΩW
∂E
E=EU
Em. (2.4.7) Chamandoβ ≡(∂ln ΩW/∂E)E=E
U, e levando (2.4.7) em (2.4.6), vem pm= 1
Z e−βEm. (2.4.8)
O parˆametroβ ser´a interpretado (a menos de uma constante; veja a Se¸c˜ao 2.5) como o inverso da temperatura do Universo. Como supusemos o Universo e, por conseguinte,S e W, em equil´ıbrio, T ≡1/βkB ´e tamb´em a temperatura de S. Note que, desta forma, a temperatura aparece como um parˆametro, independente de Em.
O outro parˆametro, Z, tamb´em independe de Em, e pode ser determinado em ter- mos de quantidades dependentes de S atrav´es da normaliza¸c˜ao P
mpm = 1 (a soma ´e entendida como sobreos estados m). Temos, ent˜ao,
Z =X
m
e−βEm, (2.4.9)
que ´e a fun¸c˜ao de parti¸c˜ao do sistema. E uma das grandezas mais importantes em´ Mecˆanica Estat´ıstica de Equil´ıbrio porque dela decorrem v´arias grandezas termodinˆami- cas. Z depende explicitamente da temperatura e parametricamente (atrav´es de Em) do n´umero de part´ıculasN e do volumeV.
Para construir a matriz densidade no ensemble canˆonico, primeiro notemos que ela deve ser fun¸c˜ao do operador Hamiltoniano, ˆH, apenas. Assim, este ensemble ser´a uma solu¸c˜ao estacion´aria da equa¸c˜ao de von Neumann.
Na base de autoestados de ˆH podemos escrever
ρmn=pm δmn, (2.4.10)
j´a que os elementos diagonais de ˆρ representam a probabilidade de se encontrar um membro do ensemble no estadom. Usando a Eq. (2.4.8), vem
ρmn= 1
Z e−βEm δmn. (2.4.11)
E conveniente expressarmos ˆ´ ρ em termos de operadores, de modo a independer da base. Para isto, notemos que
ˆ ρ= 1
Z X
n
|ni e−βEnhn|, (2.4.12)
onde a soma ´e sobre todos os estados do sistema, satisfaz a Eq. (2.4.11). Comoe−βEn|ni= e−βHˆ|ni, se ˆH|n
=En|n
, temos ˆ ρ= 1
Z e−βHˆ, (2.4.13)
2.5. THERMODYNAMICS IN THE CANONICAL ENSEMBLE 25 com
Z = Tr e−βHˆ. (2.4.14)
Como o tra¸co independe da base utilizada para escrever o operador, fica claro que a defini¸c˜ao (2.4.14) permite calcular Z em qualquer base. Este fato ´e crucial para o desenvolvimento de aproxima¸c˜oes sistem´aticas no c´alculo deZ.
Uma vez obtida a matriz densidade, o postulado b´asico da Mecˆanica Estat´ıstica determina que os valores m´edios de observ´aveis s˜ao dados por
hAi= Tr ˆρ A.ˆ (2.4.15)
Ensemble Canˆonico no Caso Cl´assico.
Por analogia com o caso quˆantico [c.f. Eq. (2.4.12)], a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao no En- semble Canˆonico Cl´assico ´e definida como
ρ(q, p) = 1
Z e−βH(q,p), (2.4.16)
onde a fun¸c˜ao de parti¸c˜ao ´e
Z = 1
hsN0 N! Z
dq dp e−βH(q,p), (2.4.17) e inclui a ‘regra de contagem’ 1/N! para evitar o paradoxo de Gibbs (veja, p.ex., Pathria), e s´e o n´umero de graus de liberdade por part´ıcula.
Da mesma forma, as m´edias termodinˆamicas de vari´aveis dinˆamicasb(q, p) s˜ao dadas por
hbi= Z
dq dp ρ(q, p) b(q, p). (2.4.18)
2.5 Connection with Thermodynamics in the Canonical Ensemble
As grandezas termodinˆamicas podem ser divididas essencialmente em trˆes grupos:
(1) Parˆametros externos – s˜ao aqueles fixos pelas condi¸c˜oes externas, de um modo preciso, sem referˆencia ao estado interno do sistema. Ex.: Volume, n´umero de part´ıculas, campos externos, etc.
(2) Grandezas Mecˆanicas – s˜ao definidas como m´edias de grandezas microsc´opicas. Ex.:
Energia Interna, press˜ao, etc.
(3) Grandezas T´ermicas – s˜ao associadas a propriedades coletivas e, portanto, n˜ao po- dem ser definidas como m´edias de grandezas microsc´opicas. Ex.: Temperatura, Entropia, Energia Livre.
U
W S
1S
2Figura 2.5: The system S of Fig. 2.3 is made up of two subsystems S1 and S2. Os parˆametros externos s˜ao conhecidos de modo preciso; logo, n˜ao necessitam de tratamento estat´ıstico. J´a as grandezas mecˆanicas, sendo definidas como m´edias de vari´aveis dinˆamicas, podem ser obtidas diretamente [c.f. Eqs. (2.4.15) ou (2.4.18)].
Para definir as grandezas t´ermicas, imaginemos dois sub-sistemasS1eS2do Universo, que interajam fracamente entre si, trocando energia, como esquematizado na Fig. 2.5. O mesmo argumento usado para desprezar a energia de intera¸c˜ao entre S e W na Se¸c˜ao 2.4 pode ser aplicado aqui para desprezar a energia de intera¸c˜ao entreS1 eS2. Assim, a probabilidadeconjunta de encontrarS1 no estado n(com energia E1n) e S2 no estado m (com energiaE2m) ´e dada por
pnm= 1
Z1
e−β1E1n 1 Z2
eβ2E2m
, (2.5.1)
com
Zi =X
r
e−βiEir , i= 1,2. (2.5.2) Impondo que S1 e S2 estejam em equil´ıbrio m´utuo, a situa¸c˜ao ´e idˆentica `a de um sistemaS, com energiaEnm=E1n+E2m, imersos no mundo exterior W. Neste caso, a distribui¸c˜ao de probabilidades no ensemble canˆonico ´e dada por
pnm= 1
Z e−β(E1n+E2m), (2.5.3)
com
Z =X
m,n
e−β(E1n+E2m). (2.5.4)
A condi¸c˜ao de equil´ıbrio t´ermico nos permite igualar (2.5.1) e (2.5.3), o que fornece os resultados, j´a esperados,
β1 =β2 =β, (2.5.5)
isto ´e, mesma temperatura,βi= 1/kBTi, e
Z=Z1Z2 ⇒ lnZ = lnZ1+ lnZ2, (2.5.6)
2.5. THERMODYNAMICS IN THE CANONICAL ENSEMBLE 27 j´a queS1 e S2 (praticamente) n˜ao interagem.
O fato de lnZ ser uma quantidade aditiva sugere que seja extensiva, isto ´e, propor- cional ao n´umero de part´ıculas do sistema, N. Para melhor explorar esta propriedade, podemos definir uma grandeza
A(T, V, N) =−kBTlnZ(T, V, N), (2.5.7) tal que, usando a prescri¸c˜ao de c´alculo de m´edias de ensemble, Eqs. (2.4.15) ou (2.4.18),
∂(βA)
∂β
N,V
=hEi. (2.5.8)
Ou seja,
A(T, V, N) =E−T S (2.5.9)
´
e identificada com a conhecida energia livre de Helmholtz, a partir da qual a energia interna ´e calculada como na Eq. (2.5.8). Mais ainda, a energia livre de Helmholtz, sendo expressa como fun¸c˜ao de T, V e N ´e um potencial termodinˆamico; como V e N s˜ao extensivas eT ´e intensiva, a energia livre de Helmohltz sendo aditiva deve ser da forma
A=N a(T, V /N), (2.5.10)
onde a (a energia livre de Helmholtz por part´ıcula) ´e uma fun¸c˜ao de apenas duas vari´aveis.
Usando a conhecida rela¸c˜ao da termodinˆamica (veja, p.ex., Reif),
dA=−SdT −P dV +µdN, (2.5.11)
chegamos `as identifica¸c˜oes (i) Entropia:
S=− ∂A
∂T
N,V
=kB
∂
∂T(TlnZ); (2.5.12)
(ii) Press˜ao
P =− ∂A
∂V
T,N
=kBT ∂
∂V lnZ; (2.5.13)
(iii) Potencial Qu´ımico
µ= ∂A
∂N
T ,V
=−kBT ∂
∂N lnZ. (2.5.14)
Consideremos agora um processo infinitesimal em que, por simplicidade, o n´umero de part´ıculas seja mantido fixo. Ent˜ao, de (2.5.9) temos
dA=dE−d(T S)
=d−Q−d−W −T dS−SdT , (2.5.15)
onde usamos a 1a lei, Eq. (2.3.1). O trabalho executado pelo sistema ´e, ent˜ao,
d−W = (d−Q−T dS)−SdT −dA. (2.5.16) Num processo isot´ermico irrevers´ıvel, o termo entre parˆenteses ´e negativo [2a Lei, Eq. (2.3.2)], de modo que
(d−W)irrev ≤ −dA , (2.5.17)
mostrando que−dA´e o m´aximo trabalho que pode ser realizado pelo sistema a tempe- ratura constante. Mais ainda, se o volume for fixo, d−W = 0 e um processo espontˆaneo s´o ocorre se houver uma diminui¸c˜ao na energia livre de Helmholtz. Em outras palavras, o estado de equil´ıbrio de um sistema comT,V e N fixos, corresponde a um m´ınimo da energia livre de Helmholtz.
2.6 Thermodynamic Potentials
Em sistemas mecˆanicos conservativos, como uma mola, ou uma massa suspensa em um campo gravitacional, trabalho pode ser armazenado sob a forma de energia potencial e posteriormente recuperado. Em algumas circunstˆancias (processos revers´ıveis) isto tamb´em ´e verdade para sistemas termodinˆamicos. Podemos armazenar energia em um sistema termodinˆamico realizando trabalho sobre ele em um processo revers´ıvel e pode- mos, eventualmente, recuperar esta energia sob a forma de trabalho. A energia que ´e armazenada e recuper´avel sob a forma de trabalho ´e chamada deenergia livre. Existem tantas formas de energia livre em um sistema termodinˆamico quanto o n´umero de dife- rentes combina¸c˜oes de v´ınculos. Devido ao papel an´alogo `a energia potencial em sistemas mecˆanicos, estas grandezas s˜ao tamb´em chamadas depotenciais termodinˆamicos.
Na se¸c˜ao anterior introduzimos a energia livre de HelmholtzA(T, V, N) que ´e ´util na descri¸c˜ao de sistemas fechados (N constante), mecanicamente isolados (V constante) e acoplados termicamente ao mundo exterior. Isto ´e,T, V eN s˜ao as vari´aveis control´aveis.
Antes de apresentarmos outros potenciais termodinˆamicos, ´e conveniente generalizar as vari´aveis de estado para fluidos (V, P), usadas at´e aqui, de modo a discutir quaisquer sistemas termodinˆamicos.
O estado termodinˆamico de um sistema pode ser especificado completamente em termos de uns poucos parˆametros, chamados de vari´aveis de estado. Apesar da pos- sibilidade de usarmos muitas destas vari´aveis, apenas algumas (em geral duas ou trˆes) s˜ao independentes. Na pr´atica escolhe-se aquelas vari´aveis que s˜ao acess´ıveis aos expe- rimentos relativos ao sistema em quest˜ao.
As vari´aveis de estado podem serextensivas(que mudam de valor quando o ‘tama- nho’ do sistema ´e mudado) e intensivas (que n˜ao mudam). Frequentemente, vari´aveis de estado extensivas e intensivas aparecem aos pares por corresponderem a for¸cas e deslocamentos generalizados que entram nas rela¸c˜oes de trabalho termodinˆamico, como mostra a Tabela 2.1.
Outras vari´aveis de estado usadas para descrever o comportamento termodinˆamico de um sistema s˜ao as v´arias fun¸c˜oes-resposta, como o calor espec´ıficoC, a compressibilidade K, a suscetibilidade magn´eticaχ, etc, que ser˜ao discutidas na pr´oxima se¸c˜ao.
2.6. THERMODYNAMIC POTENTIALS 29 Tabela 2.1: Pares de vari´aveis de estado conjugadas. As vari´aveis extensivas, X, cor- respondem a deslocamentos generalizados e as vari´aveis intensivas, Y, a for¸cas genera- lizadas. Apesar de n˜ao corresponderem a um trabalho, a temperatura (T) e a entropia (S) s˜ao inclu´ıdas na tabela para real¸car seus pap´eis de vari´aveis conjugadas; idem para o potencial qu´ımico (µ) e o n´umero de part´ıculas (N).
X volume (V)
magneti- sation (M)
length (L)
area (A) electric polari- zation (P)
particle number (N)
entropy (S)
Y pressure (−P)
magnetic field (B)
tension (−J)
surface tension (−σ)
electric fi- eld (E)
chemical potential (µ)
tempera- ture (T)
Podemos agora discutir outros potenciais termodinˆamicos em termos de for¸cas e deslocamentos generalizados.
(1) Energia Interna: E(S, X, N)
Este potencial ´e ´util quando o controle ´e feito sobre o n´umero de part´ıculas, o deslocamento generalizado e sobre a entropia (p.ex.: num processo adiab´atico).
A Eq. (2.5.11) fornece
dA=−SdT +Y dX+µdN =−d(T S) +T dS+Y dX+µdN, (2.6.1) ou, definindo a energia interna como [veja a Eq. (2.5.9)]
E =A+T S, (2.6.2)
podemos escrever
dE=T dS+Y dX+µdN, (2.6.3)
ondeT,Y eµ s˜ao considerados como fun¸c˜oes deS, X eN.
A Eq. (2.6.3) nos permite obter T, Y e µ como derivadas de E com rela¸c˜ao `as vari´aveis conjugadasS, X e N, respectivamente. Assim,
T = ∂E
∂S
X,N
, Y =
∂E
∂X
S,N
, e µ= ∂E
∂N
X,S
. (2.6.4)
E interessante notar que a energia interna pode ser obtida diretamente atrav´´ es da m´edia termodinˆamica de ˆH, isto ´e, E=hHi.
(2) Energia Livre de Gibbs: G(T, Y, N)
Em processos nos quais se pode controlar a temperatura, a for¸ca generalizada e o n´umero de part´ıculas, a energia livre de Gibbs ´e o potencial termodinˆamico mais