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Academic year: 2021

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Inconsciente e responsabilidade

Desde o momento em que o aprofundamento das teses freudianas sobre o inconsciente estipulou que a consciência deveria ser considerada não mais do que um palco para suas manifestações, a questão da ética passou a constituir-se em uma das questões mais espinhosas para a psicanálise.

Como que suavizando essa afirmação, mas sem resolvê-la, de outro lado Freud nunca deixou de assinalar que o processo psicanalítico se fundamenta na suposição de que a tomada de consciência das determinações inconscientes é a condição para a superação ou a

atenuação dos conflitos.1

Essa seria a finalidade do método psicanalítico, composto por associação livre e interpretação (atenção flutuante). A tomada de consciência das determinações inconscientes seria feita através de uma operação de linguagem.

A reflexão sobre o método psicanalítico — em que medida seria apto a alcançar sua finalidade — poderia partir de uma das teses centrais subjacentes à “A Interpretação dos Sonhos”, em que o sonho aparece como produção na qual a consciência não tem qualquer participação mas cujo sentido, compensatoriamente, é acessível à tomada de consciência graças à interpretação.

Esse modelo, que faria supor uma tranquila transformação do conteúdo inconsciente em consciente, é questionado posteriormente pelo seu autor. Efetivamente, no mesmo livro Freud já havia assinalado que o “umbigo do sonho”, enfim, sua origem, núcleo ou

nascimento, está ligado ao desconhecido2, o que colocaria um limite à

interpretação como instrumento da tomada de consciência. Além disso, em um de seus últimos escritos, ele menciona o “rochedo da castração” como o impedimento insuperável com que se defronta

todo processo analítico3.

Por essa expressão, e não sem recorrer à precisão conferida por Lacan, entende-se a impossibilidade do sujeito renunciar ao objeto incestuoso, que por sua vez poderia ser redefinido como relação dual ou persistência da tendência à completude.

1

Antes da tomada de consciência, atribuía-se a cura à recordação do trauma. Mas isso aconteceu durante o breve período que corresponde à teoria do trauma.

2

Em A Interpretação dos Sonhos” (1900).

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O que certamente está em jogo é a questão da relação entre inconsciente e consciência, que não poderia ser resolvida mediante a tentação das suposições simplistas — como a determinação completa exercida pelo inconsciente ou a sua igualmente completa tradução, via interpretação, para a esfera da consciência.

Nesse ponto, abrem-se algumas questões tão difíceis como importantes.

Todas estão relacionadas com as quase sempre evitadas questões de origem, mais especificamente as perguntas referentes à origem da divisão consciência - inconsciente e à origem da linguagem.

O inatismo tem abordado o tema com as habituais petições de princípio. A partir da perspectiva inatista o inconsciente costuma ser considerado um dado inerente à existência humana, enquanto a consciência decorreria do processo de identificação, concebida a partir de uma ótica ambientalista — ou seja, a influência dos modelos parentais.

Quanto à linguagem, sua aquisição seria vista como consequente à situação ambiental (quer por aprendizagem, segundo Skinner, quer por atualização de uma potencialidade inata mediante o input do entorno, segundo Chomsky).

A elaboração da segunda tópica levou Freud a questionar as soluções fáceis. Partindo do auto-erotismo (ou seja, à ausência da relação com o outro, portanto ausência de desejo), ele postula sua transformação em narcisismo, ou seja, à formação do eu (ego). O processo seria regido pelo mesmo processo (identificação), que se divide em dois momentos, o surgimento do ego e o surgimento do superego, seguindo uma cronologia não muito especificada mas em todo caso sequencial.

Quando Freud teorizou a segunda tópica e abordou a questão da origem das suas instâncias não se tinha conhecimento de duas condições infantis que poderiam problematizar a passagem obrigatória do auto-erotismo ao narcisismo primário e deste ao secundário.

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disso, coloca a questão da origem do id (isso), da qual Freud não tratou, talvez por considerar que as noções de processo primário e princípio do prazer (o princípio da realidade derivaria da emergência do eu) dariam conta de suas características. Dessa maneira, o id (isso) se ancora em uma suposição inatista, ainda que não explícita, apoiada em raciocínios biologizantes (descarga imediata da tensão provocada por processos fisiológicos).

Por outro lado, não há em Freud uma teoria da aquisição da linguagem. O tema será introduzido na psicanálise graças a Lacan, que formulou o conceito de infans (não falante), para distinguir os períodos anterior e posterior à aquisição, bem como o postulado de que o inconsciente está estruturado como linguagem.

Essa asserção desautoriza a noção de uma linguagem/inconsciente inata(o), a menos que se concorde com a suposição chomskyana, não demonstrada e sequer examinada através de alguma pesquisa no âmbito das neurociências.

O autismo e a esquizofrenia infantil demonstram que a aquisição de linguagem não é um processo obrigatório, o que torna ainda mais implausível a hipótese chomskyana (salvo que se recorra a outra petição de princípio, segundo a qual essas duas condições derivariam de doenças ou deficiências inatas).

Se o inconsciente está estruturado como linguagem, se a aquisição da linguagem não é garantida, torna-se plausível colocar a questão da origem do inconsciente (bem como da origem do id), incluindo nessa démarche estudos sobre a aquisição da linguagem.

Todas essas questões podem ser abordadas através da perspectiva do processo de constituição do sujeito, que toma por base o legado

freudiano (auto-erotismo, narcisismo primário, narcisismo

secundário), com o acréscimo do estádio do espelho (Lacan).

A descrição correspondente seria: auto-erotismo (indiferenciação), estádio do espelho (identidade de objeto, correspondente ao surgimento da comunicação em terceira pessoa), construção do ego (emergência do desejo próprio, simultânea á aquisição da linguagem) e construção do superego (admissão do desejo do outro).

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a recíproca não é verdadeira, porque a aquisição da linguagem abrange a comunicação.

O id corresponderia às duas primeiras manifestações da identidade humana (indiferenciação e posição de objeto), o ego é concomitante à pronúncia ou gestualização do pronome eu (que presume igualmente a colocação do interlocutor na segunda pessoa) e o superego está relacionado à aceitação do terceiro (cuja existência questiona a relação dual — ou completude — e conduz ao reconhecimento do respectivo desejo).

Freud utilizou a segunda tópica para pensar a neurose, a psicose e a neurose narcísica (mania-depressão). Esquematicamente, ele propôs que a neurose correspondesse ao conflito entre o ego e o id, a neurose narcísica ao conflito entre o ego e o superego e a psicose ao conflito entre o ego e a realidade e não deixou de se perguntar, com auto ironia, se essa descrição era pertinente ou apenas um acréscimo ao estoque de fórmulas pré-existente.

É possível, tomando com base o esquema freudiano, aplicar-lhe os conceitos subjacentes à teoria da constituição do sujeito, acima descritos. Nesse caso, o id seria definido pela indiferenciação e posição de objeto (estádio do espelho), o ego como emergência da posição de sujeito e o superego como constatação do desejo do outro.

O termo “realidade”, presente de maneira residual no pensamento

freudiano4, difere do significado que lhe é dado pelo senso comum;

poderia ser traduzido como reconhecimento do outro (do objeto) enquanto sujeito (ou seja, portador de desejo próprio).

A partir dessas considerações, a neurose aparece como uma defesa contra o retorno das posições anteriores ao surgimento do ego (indiferenciação e objeto). Já a neurose narcísica (mania-depressão) e a psicose (esquizofrenia e paranoia) requerem outras descrições. A neurose narcísica corresponderia a um comprometimento do ideal de ego, uma das principais características do superego, expressando-se pelos extremos da valorização (euforia maníaca) e da desvalorização (disforia depressiva).

A paranoia corresponderia a uma fuga em relação ao objeto de desejo, o que significa renunciar ao mesmo, movimento que se vale

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do delírio persecutório. O objeto ameaçador impele o delírio paranoico a transformar-se em delírio de grandeza (ou megalomaníaco), típico da esquizofrenia (ruptura com o outro — isto é, com a “realidade” — mediante a perda da própria identidade). Daí a eventual tendência à alternância entre essas duas condições, o que levou algumas correntes psiquiátricas a propor o conceito de esquizoparanóia.

A esquizofrenia implica no abandono da posição de sujeito, que tanto pode expressar-se pela identificação à posição de objeto (manifestação delirante correspondente ao retorno da terceira pessoa no âmbito do processo de constituição do sujeito), como o retorno à indiferenciação precedente (demência).

A neurose, na medida em que está presente, revela as dificuldades nas relações objetais, enquanto a sublimação (manifestação por excelência da pulsão de vida), corresponderia à relação não conflitiva com o objeto de desejo.

Em seu esquema Freud não se referiu à estrutura perversa, cuja compreensão se beneficiaria de uma referência à neurose. (Freud já havia comentado um aspecto dessa relação mediante a conhecida metáfora relativa à fotografia revelada e ao seu negativo). Na neurose a relação com o objeto se apresenta como tendência à fuga, enquanto que a característica da perversão seria a dependência. Neurose, perversão e sublimação retratam (de acordo com as peculiaridades da passagem à posição de sujeito tal como se deu em cada um) de que maneira se estruturou a relação com o objeto — com graus variados de fuga, dependência e predomínio do prazer não conflitivo.

Tanto as instâncias da primeira tópica (inconsciente/consciência) como da segunda tópica (id/ego, ego/superego), surgem em consequência do recalque.

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A consciência, então, representaria o grau de liberdade possível ao ser humano. Seria, por excelência, consciência do que é inconsciente, embora isso se manifeste na relação com o objeto de desejo, portanto através de metáforas.

O que é recalcado no surgimento das instâncias id/ego corresponderia à indiferenciação e à posição de objeto, esta última caracterizada pelo id, para que a posição de sujeito (desejo próprio) possa emergir. O superego deriva do processo que Freud chamou de recalque secundário, entendendo por esse conceito o recalque do complexo de Édipo. A relação dual (ego ainda sem superego) é substituída pela constatação do desejo do outro (ou seja, reconhecimento do terceiro, que exige o abandono da relação dual). Neurose (fuga do objeto) e perversão (dependência do objeto) seriam estratégias diferentes e conflitivas para lidar com a existência do terceiro mas, diferentemente da psicose, não se caracterizam pela ruptura com o outro (ou seja, pela perda da realidade).

---

A responsabilidade que se tem pelos próprios atos exige como pré-condição que se esteja na posição de sujeito. Se a divisão consciência/inconsciente está ausente nos quadros de autismo e de esquizofrenia infantil, visto que os mesmos são incompatíveis com a aquisição de linguagem, é difícil não concluir que nessa situação o ser humano seria regido pelo desejo do Outro. (Conceito lacaniano que diferencia a causa da existência humana, enquanto desejo inconsciente subjacente ao nascimento, da relação com o objeto do desejo, dependente de que se aceda à posição de sujeito. A relação com o objeto, consequência da posição de sujeito, pode ser entendida como relação com o outro, grafado com o minúsculo).

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A questão da responsabilidade envolveria o que está em jogo quando existe a possibilidade de aumentar o grau de consciência, mantê-la ou diminuí-la, mediante o recalque.

A possibilidade da conscientização estaria ligada a um ato de vontade, logo à própria consciência? Desde que as manifestações da consciência sempre são metafóricas, caberia perguntar se a decisão não seria ‘tomada’ com anterioridade, ou seja, no plano do inconsciente.

Trata-se de uma questão que já foi abordada na perspectiva religiosa. A doutrina cristã se deparou com essa dúvida primordial, expressa na pergunta: as ações humanas correspondem apenas à execução dos desígnios divinos (“não cai uma folha da árvore sem que a vontade

de Deus esteja presente”5) ou há espaço para o livre arbítrio, a

escolha? O arrependimento pelos pecados — que é uma possibilidade não obrigatória — poderia trazer água para o moinho da última afirmação (arrepender-se, de certa forma, parece referir-se à tomada

de consciência), mas adotar essa perspectiva diminui

consideravelmente o poder da divindade sobre o ser humano.

No terreno da psicanálise a pergunta incide sobre como emerge a atitude de enfrentar o conflito, isto é, a aceitação do lema socrático

(“conhece-te a ti mesmo”)6, que Freud descrevia como "Wo es war

soll ich werden": onde era o id (isso) deve advir o ego (eu). Mas

quem toma essa decisão, quem é responsável por essa atitude? Ela é elaborada através da vontade ou deriva da “outra cena”?

Posta nesses termos, tratar-se-ia talvez de uma questão indecidível, que só poderia ser encaminhada mediante uma petição de princípio. A teoria das pulsões permite outra abordagem. As pulsões, tanto na primeira como na segunda teoria, são consideradas por Freud como inconscientes — e, cabe lembrar, sua denominação (trieb), por parte de Freud, permite evitar qualquer conotação biológica (instinkt) que se quisesse apor ao termo. O papel da teoria das pulsões em psicanálise é o de alcançar a compreensão do fundamento das ações humanas.

A segunda teoria das pulsões opõe as pulsões de morte às pulsões de vida, e é concomitante à transformação correspondente na teoria dos

5

Atribuída a Santo Agostinho.

6

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princípios, que complementa a teoria das pulsões, aplicando-a à motivação que rege o comportamento.

A primeira teoria dos princípios refere a oposição entre princípio do prazer e princípio da realidade, que correspondem respectivamente às alternativas da sexualidade e do ego, ou dos processos primário e secundário (descarga imediata visando o prazer ou adiamento da redução das tensões, visando a auto-preservação).

A primeira teoria dos princípios procura retratar a tendência à perversão (sexualidade ligada à predominância da libido infantil, cujo ápice é representado pelo complexo de Édipo) ou à neurose (predominância do recalque do complexo de Édipo).

A transformação pela qual passou a teoria dos princípios é concomitante à que resultou na segunda teoria das pulsões. O princípio da realidade desaparece, dando lugar ao princípio do prazer/desprazer, enquanto o princípio do prazer da primeira teoria se transforma no princípio do nirvana.

A segunda teoria das pulsões abrange a psicose e a sublimação, que estavam ausentes na primeira (dedicada à compreensão da neurose e da perversão). Na segunda teoria dos princípios o ‘nirvana’ corresponderia à ruptura com o outro (ou seja, renúncia ao desejo), que se manifesta na psicose, enquanto a relação com o outro obedeceria ao prazer/desprazer. O predomínio do desprazer se expressa pelos conflitos neuróticos e perversos, o prazer pela sublimação.

O enfrentamento do conflito pertenceria à jurisdição da pulsão de vida; a manutenção do mesmo ou o aumento do recalque, à pulsão de morte. A pulsão de vida estabeleceria a condição em que a tomada de consciência prevalece.

Essa hipótese vincula inconsciente e tomada de consciência enquanto manifestações consubstanciais; igualmente estabelece o mesmo tipo de relação entre inconsciente e repetição e/ou aumento do recalque, que resultam quer no predomínio na manutenção das manifestações edipianas (perversão) quer no predomínio dos mecanismos de defesa (neurose), descritos por Freud.

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conflitiva com a falta (combinação entre as duas pulsões, em graus diferentes e sob aspectos diversos).

Essa descrição presume que a relação inconsciente/consciência seja absolutamente necessária, e inclui a possibilidade da passagem de representações de um sistema para o outro, qualquer seja a direção. Descarta-se assim a idéia de que a consciência seria equivalente a um títere do inconsciente, na medida em que ambos são consubstanciais. Retomando uma hipótese anterior, pode-se dizer que a consciência é, fundamentalmente, consciência do que é inconsciente, acrescentando que o inconsciente representa uma lógica que não pode ‘funcionar’ sem a contrapartida da consciência, quer na forma do conflito (sintomas, ansiedade, culpa, insegurança, inibição), quer na forma da criatividade (sublimação).

A implicação é que, na posição de sujeito, em que a divisão inconsciente/consciência está presente, e independentemente do peso do conflito, a possibilidade da escolha tem por implicação a responsabilidade.

Dito de outra forma, não há como pensar a pulsão de morte sem a pulsão de vida. Freud apontava o perigo que haveria na desfusão das pulsões (domínio exclusivo da pulsão de morte) que poderia ser ilustrada através da esquizofrenia chamada “negativa”, isto é, sem delírio. Nesse caso limite, tudo se passa como se a pulsão de vida houvesse sido reduzida ao mínimo.

Transpondo esses raciocínios para a esfera do sujeito, tanto os conflitos neuróticos e perversos como o não conflito sublimatório são inerentes à relação com a falta, que não seria apenas vivenciada como sofrimento (na medida em que estão presentes as formas de relação neuróticas e perversas), mas também como prazerosa (sublimação).

A suposição de que a posição de sujeito tem por implicação a responsabilidade pelos próprios atos repousa na importância adquirida pela consciência em relação ao inconsciente.

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outro, com a ‘realidade’, por ocasião do surgimento do superego), diminuindo o espaço (a probabilidade) da conscientização?

Mais uma vez, e apesar das reflexões e encaminhamentos, o espectro do insondável, do indecidível, permanece.

Franklin

Referências

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