CONFERÊNCIA OS SEGUROS EM PORTUGAL - 8.ª EDIÇÃO

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CONFERÊNCIA “OS SEGUROS EM PORTUGAL” - 8.ª EDIÇÃO

Intervenção da Senhora Presidente da ASF, Dra. Margarida Corrêa de Aguiar, na sessão de encerramento da 8ª edição da conferência final “Os Seguros em Portugal”,

organizada pelo Jornal de Negócios

Lisboa, 17 de março de 2022 Sheraton Lisboa Hotel

Boa tarde a todos.

Gostaria de agradecer ao Jornal de Negócios o convite para estar hoje aqui.

É com muito gosto que participo nesta iniciativa e que encerro a 8ª Edição da Conferência “Os Seguros em Portugal”.

▪ Vou falar na minha intervenção de alguns dos desafios que se colocam aos seguros.

A atividade seguradora sempre esteve e está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento dos países, assumindo um papel relevante, não só para o crescimento económico, mas também para o desenvolvimento do modelo social das nossas sociedades.

A sua real importância nem sempre é completamente percecionada pelos agentes económicos:

desempenha um papel fundamental, já que muitas das transações comerciais ou investimentos apenas se realizam por se encontrarem cobertos por um seguro, cujo benefício direto se concretiza quando os riscos associados se materializam.

Com efeito, os seguros garantem mecanismos de proteção e compensação de perdas face a uma multiplicidade de riscos aos quais as famílias e as empresas estão expostas, permitindo ainda a formação e canalização de poupança para investimento de médio e longo prazo.

O setor segurador adaptou-se muito bem e rapidamente à nova e excecional realidade imposta pela pandemia de COVID-19, já lá vão dois anos.

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Este verdadeiro stress test ao setor segurador deixa antever uma capacidade de resposta positiva aos desafios com que estamos confrontados, num contexto de recuperação económica e social, embora com um nível de incerteza agravado pelos acontecimentos que o mundo está atualmente a viver.

A crise pandémica provou que precisamos de ter empresas de seguros com elevada solidez financeira, com uma forte cultura de gestão baseada nos riscos e com bons sistemas de governação e boas práticas de conduta de mercado. São condições intrínsecas ao bom funcionamento da atividade seguradora.

E provou os benefícios das políticas de regulação e supervisão prosseguidas pelas Autoridades nacionais e europeias, em particular pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF).

Entramos, pois, em 2022 com um setor segurador mais preparado para responder aos muitos desafios que temos pela frente, dos quais falarei um pouco adiante.

O setor segurador tem uma oportunidade para mostrar o seu melhor e a capacidade de se reinventar, quer enquanto grande investidor institucional de longo prazo, quer enquanto gestor profissional dos riscos associados.

Espera-se da ASF uma atuação que - integrada naturalmente num quadro mais vasto de políticas regulatórias nacionais e europeias - propicie o desenvolvimento de respostas inovadoras sem disrupções por parte da indústria e que garanta o justo equilíbrio entre a proteção dos consumidores, o desenvolvimento do mercado dos seguros e a estabilidade financeira.

▪ Vamos, então, aos desafios.

1º Desafio – o financiamento sustentável

As alterações climáticas e a transição para uma economia sustentável e de baixo carbono encerram riscos de governação, reputacionais, legais e tecnológicos, com importantes desafios ao nível da alocação de capital e gestão de riscos conexos com o clima.

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Saliento que os desafios que se colocam ao setor segurador deverão acentuar-se nos próximos anos, em resultado da progressiva incorporação de fatores de valoração climática no preço dos ativos, exigindo a adaptação de modelos de negócio e de gestão de risco, onde as decisões de investimento e a criação de produtos estejam alinhadas com as preocupações ambientais, sociais e de governação.

A ASF, em articulação com os atores políticos e as suas congéneres europeias, assumirá um papel de relevo na sensibilização e monitorização do processo de adaptação e aculturação do setor segurador a estas matérias.

Em termos comportamentais, a ASF vai colocar especial atenção à regulamentação e supervisão do risco de greenwashing, que se pode materializar pela apropriação indevida, por parte das empresas de seguros, de atributos ambientais, utilizados em estratégias de venda de seguros, bem como pela incorporação, no âmbito dos deveres de informação aos consumidores, de elementos que permitam avaliar a predisposição dos operadores para adotarem uma política de investimentos com ativos mais sustentáveis.

Em termos prudenciais, a incorporação das alterações climáticas na avaliação dos riscos e na adequação dos capitais será uma realidade, seja do lado das responsabilidades assumidas – através das políticas de subscrição, provisionamento e tarifação – seja do lado das políticas de investimento.

A ASF, num quadro mais alargado de preocupações de solvência, irá fazer a necessária monitorização.

2º Desafio – a redução do protection gap

A crise pandémica e o aumento da frequência de catástrofes e fenómenos atmosféricos extremos, associados às alterações climáticas, vêm suscitando uma preocupação crescente sobre o papel que a atividade seguradora pode assumir na proteção dos agentes económicos e das famílias.

Os fenómenos climáticos vieram expor, ou acentuar, uma realidade que deve ser percecionada com preocupação e reponderação futura: a ausência de cobertura de seguros para determinados eventos e riscos sobre a vida humana, bem como sobre o património de valor económico considerável, ou a desadequação entre os capitais seguros e o património seguro.

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Neste contexto, o protection gap, ou seja, a existência de um conjunto de riscos e fenómenos adversos para os quais poderá não existir uma implantação adequada e suficiente de coberturas de seguros, vem assumindo maior relevância.

Em particular, a penetração de seguros em Portugal com coberturas de riscos catastróficos é reconhecidamente baixa, amplificando a vulnerabilidade social e da atividade económica para riscos desta natureza.

No caso nacional, a exposição do território ao risco sísmico e ao efeito agravado das alterações climáticas impõe um escrutínio mais cuidado deste tema, a fim de fomentar a busca de soluções de cobertura seguradora para fazer face aos riscos potencialmente sistémicos para a economia e para sociedade, em articulação com políticas de natureza pública.

A ASF terá um papel ativo nesta frente, designadamente pelo know how de que dispõe para estudar e propor instrumentos que exigem a incorporação de recursos públicos.

É o caso de um fundo sísmico. Estima-se que menos de 20% do parque imobiliário residencial não tenha cobertura de risco sísmico.

Ainda no contexto do protection gap, saliento riscos de outra natureza que podem não dispor de cobertura seguradora suficiente, como sejam pandemias, ciberataques, continuidade do negócio e envelhecimento da população (e.g. pensões, saúde), e para os quais importa identificar as eventuais barreiras existentes, tanto do lado da oferta como da procura, delinear estímulos ao crescimento do mercado e articulação com políticas públicas.

3º Desafio - a digitalização da economia

A transformação digital no setor segurador tem tido reflexos nas áreas de gestão, operacionais, de avaliação do risco e de comercialização, com impactos positivos em termos de ganhos de escala e de eficiência, agilização e flexibilização e redução de custos.

A forma como as empresas de seguros se relacionam com os consumidores e os investidores, seja na contratação dos seguros, seja na gestão dos sinistros ou na captação e aplicação da poupança, está a mudar rapidamente, impactando toda as etapas da cadeia de valor.

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Neste ambiente de inovação, os operadores do setor segurador – no qual é relevante o papel dos mediadores – têm de ser capazes de assegurar no relacionamento comercial maior transparência, mais qualidade no serviço pós-venda, maior redução da conflitualidade e tarifas que partilhem com o consumidor as economias obtidas com soluções permitidas pela inovação, enquanto investem em acessibilidade, diversidade e experiência com o cliente.

A este propósito, realço que com a entrada em vigor no 2º trimestre de 2022 da nova Norma Regulamentar relativa à Conduta de Mercado e ao Tratamento de Reclamações e da nova Norma Regulamentar relativa ao Sistema de Governação, a ASF reforça a proteção do consumidor e fortalece a atividade seguradora.

A ASF irá manter a monitorização das medidas que tenham ou possam ter impacto na cadeia de valor, incluindo formas inovadoras de interação com os consumidores, o uso de dados de grande volume (big data), a inteligência artificial na oferta e no pricing dos produtos, a inclusão financeira e a segurança e proteção de dados.

A ASF prosseguirá a sua estratégia de investimento no apoio ao consumidor, com vários eixos de intervenção dos quais destaco a Academia do Consumidor, iniciativa lançada no passado dia 7 de março.

No âmbito desta estratégia, insere-se a formação na área da literacia digital, apoiando o consumidor de seguros na compreensão dos novos produtos que emergem da inovação tecnológica e alertando- o para as principais características e riscos associados.

Uma das consequências associadas à aceleração do processo de digitalização é o crescimento dos riscos cibernéticos.

Com efeito, os riscos cibernéticos constituem uma das principais fontes de riscos operacionais a que as empresas estão expostas, com potenciais impactos a nível financeiro e reputacional, e que se têm vindo a adensar com a aceleração do processo de digitalização e maior dependência em soluções remotas e digitais nas operações diárias e na relação entre as empresas e os consumidores.

É fundamental recordar que as empresas de seguros podem ser impactadas numa dupla vertente – por um lado, enquanto operadores do mercado e, por outro lado, enquanto entidades que assumem

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A este propósito, realço que a entrada em vigor no 2º trimestre de 2022 da nova Norma Regulamentar relativa à Segurança e Governação das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) e à Subcontratação a Prestadores de Serviços de Computação em Nuvem, traduz a preocupação da ASF em reforçar a gestão dos riscos associados às tecnologias da informação e comunicação e a respetiva segurança.

4º Desafio - a demografia

Os desafios da transição climática e da transição digital têm nos países do mundo ocidental os seus principais protagonistas, os quais enfrentam, por sua vez, o fenómeno do envelhecimento da população.

O aumento da longevidade, sendo uma boa notícia, implica gerar mais rendimento e/ou acumular mais poupança durante a vida ativa.

A correção na redistribuição do consumo e do rendimento ao longo do ciclo de vida é, portanto, inevitável.

Neste domínio é também visível a existência de um protection gap. Também aqui o setor segurador pode desempenhar um papel mais dinâmico.

Deve inovar no desenho de produtos capazes de mobilizar poupança de longo prazo e de oferecer fluxos de rendimento na reforma, de geometria variável, incluindo a proteção dos riscos de despesas médicas e de outras provenientes de problemas de saúde e de assistência que decorrem do aumento da idade e da dependência.

Em termos históricos, Portugal apresenta um perfil de poupança dos particulares relativamente baixo e a comparação da realidade nacional com a de outros países da OCDE evidencia a existência de diferenças significativas no papel desempenhado pelos regimes complementares de pensões, seja de poupança das empresas (2º pilar), seja de poupança individual (3º pilar).

Mas não podemos dissociar a redução do gap existente do papel atribuído às políticas públicas na criação de adequados incentivos à acumulação de poupança de longo prazo para a reforma.

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▪ Gostaria ainda de mencionar três projetos relevantes para o setor segurador que irão decorrer durante o ano de 2022.

1º Projeto - a implementação da IFRS 17

A ASF prosseguirá com o plano de implementação da IFRS 17, iniciado em 2020, estando previstas diversas iniciativas: a condução de um primeiro exercício de estudo de impacto quantitativo do novo normativo contabilístico, a consulta ao mercado das versões revistas dos mapas de reporte de informação contabilística e estatística à ASF.

Em 2022 será finalizada a norma regulamentar que aprova o Plano de Contas para as Empresas de Seguros (PCES) adaptado à IFRS 17, o qual entrará em vigor em 1 de janeiro de 2023.

2º Projeto - a revisão do Regime de Solvência II

A ASF antecipa para 2022 a continuidade das intensas negociações entre os colegisladores com vista à chegada a acordo sobre a proposta legislativa da Comissão Europeia para a revisão do Regime de Solvência II.

A ASF tem vindo a assumir um papel central em todo este processo, participando nas negociações, articulando os temas em discussão com os representantes políticos nacionais e integrando grupos de trabalho da EIOPA.

Neste pacote, inclui-se a nova diretiva em matéria de recuperação e resolução de empresas de seguros e de resseguros, o qual representará um marco essencial no reforço da convergência europeia nesta área e da estabilidade financeira.

3º Projeto - o lançamento de Orientações relativas à avaliação e registo prévio para o exercício de funções reguladas

A ASF irá tornar públicas as Orientações relativas à avaliação e registo prévio para o exercício de funções reguladas.

Estas Orientações de fit and proper revestem-se de grande importância na promoção de maior exigência nos processos internos de seleção e avaliação dos membros dos órgãos de administração e

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Realço, também, a entrada em vigor este ano de uma nova Norma Regulamentar relativa ao registo para o exercício de funções reguladas.

▪ Termino com uma chamada de atenção para a questão dos riscos.

Com efeito, é fundamental ter presente que todos este desafios se desenvolvem num contexto de elevada incerteza que comporta riscos que importa monitorizar: a materialização dos riscos geopolíticos e a imposição de sanções económicas em larga escala deverá ter um impacto significativo na revisão das perspetivas de crescimento das economias e na evolução da inflação.

Este agravamento do cenário macroeconómico, num contexto de políticas monetárias com reduzido espaço de manobra, comporta riscos significativos para as empresas de seguros, quer por via de variações abruptas do valor das carteiras de investimentos, quer pelo agravamento da sinistralidade em algumas linhas de negócio, a que se juntam ainda riscos de aumento de ciberataques.

É neste contexto de desafios e riscos que a ASF prosseguirá com a implementação do seu Plano Estratégico 2020 - 2024 que expressa a vontade de servir adequadamente o interesse público e de responder às exigentes e legítimas expectativas do mercado e da sociedade civil.

E agora sim, termino, muito obrigada pela atenção.

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