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S. JOÃO DO MONTE. S. João do Monte

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Academic year: 2021

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S. JOÃO DO MONTE

S. João do Monte

Em observância de uma carta que me foi patente do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Júlio Francisco de Oliveira, meu Prelado, entrei a fazer quantas diligências pude para averiguação das notícias que se pedem e contêm nos interrogatórios, que se me remetem; e deitadas as redes, que lancei, recolhendo-as se seguiu, o que agora e suponho que tenho por certo compatibilidade que pode haver em semelhantes matérias; pois que não satisfiz só com uma informação, mas aproveitei-me de todas as ocasiões recorrentes, que podiam servir para instruir-me.

Notícias desta freguesia de S. João do Monte

Esta freguesia do concelho de S. João do Monte é da Comarca e Bispado de Viseu, Arciprestado de Lafões e fica na Província da Beira.

É fama constante que o Senhor Dom Afonso Henriques primeiro Rei de Portugal fizera doação do território desta freguesia e concelho ao Mestre Garino; e por morte deste ao Real Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que é ao presente Donatário da Igreja, terra, e se pagam os dízimos, foros e mais pendências ao dito Real Mosteiro, sem que entre neste outro senhorio.

Tem esta Freguesia ao presente duzentos vinte e quatro vizinhos, setecentos e dezasseis pessoas de Sacramento , além dos menores que se contam cento vinte e um e trezentos setenta e oito.

Na célebre Serra do Caramulo, bem conhecida neste Reino, é que está situada a Igreja desta freguesia, não no maior alto dela, mas em um alto na descida da dita serra para a parte do poente, e à vista da Igreja, se não descobrem se não montes de todas as partes. Só dentro do referido e pequeno vale, se avista a vila de S. João do Monte, o lugar de Vale do Lobo, o lugar de Abóbada:

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com seus passais, em roda da Igreja, de sorte que fica também no meio deles, e no maior alto desta Serra do Caramulo, junto do lugar de Almofala, está um penhasco de desmarcada altura, a que chamam o bico do Caramulo, a que se sobe com muita dificuldade, e no seu cume se acha uma pedra quadrada ao modo de mesa, que parece feita artificialmente. Deste alto, estando o tempo claro, se vêem muitas terras de Portugal, como são pela parte do nascente, junto à mesma Serra, o delicioso e famigerado Vale de Besteiros, a que se pode apropriar o nome de Jardim da Beira, pelo mimoso de seu país, e excelentes frutas, que produz, e adiantando mais a vista para a mesma parte do nascente se divisa a cidade de Viseu, e toda a Serra da Estrela, e pelo sul os campos de Coimbra, e continuando em roda para poente, tudo à beira mar, desde a barra da Figueira até os ares da cidade do Porto

É esta terra de S. João do Monte concelho sobre si, que compreende dezassete lugares, convém a saber: a Vila, com vinte e dois vizinhos = o lugar de Vale do Lobo com vinte e oito vizinhos = o lugar de Abóbada, com onze vizinhos = o lugar de Valdasna com nove vizinhos = o lugar de Almofala com sete vizinhos = o lugar de Teixo com treze vizinhos = o lugar de Dornas com dezassete vizinhos = o lugar de Valeiroso com quatro vizinhos = o lugar de Braçal com doze vizinhos = o lugar de Matadegas com onze vizinhos = o lugar de Belazeima com trinta e três vizinhos = o lugar de Mançores com seis vizinhos = o lugar de Almijofa com dois vizinhos = o lugar de Castelo com dois vizinhos = o lugar de Souto com onze vizinhos = o lugar de Adaires com vinte e dois vizinhos = o lugar de Caselho com seis vizinhos. Além destes, a Póvoa da Foz com um vizinho, e a Póvoa de Demenderes com outro vizinho, que todos fazem a soma que acima digo de duzentos vinte e quatro vizinhos e compreende mais este Concelho a freguesia de Mosteirinho, anexa a esta Igreja de S. João do Monte, que consta de sete lugares, a saber: Mosteirinho, Boi, Frágua, Malhapão de Cima, Malhapão de Baixo, Corte e Freimoninho. Do número de seus vizinhos dará conta o Padre Cura, que actualmente paroquia a dita Igreja, e somente a estas duas freguesias é que se estende a jurisdição deste Concelho de S. João do Monte. Investigando a sua demarcação, achei que principia pela parte do nascente no marco que está no Couto à mão direita do caminho, que vai para as lavouras de Paranho; daí pela

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estrada junto ao Vale de Carros as lajes do Vale Longo, cabeço Junqueira, Vultrágua em Matadegas, e pela Corga vai ter ao Rio, e pelo rio baixo chega à lenteira do Carvalhal e daí a cabeça Cortelho aonde dizem os naturais estivera no tempo dos Mouros uma cidade que se chamava Cortelha; daqui passa-se o rio e pela costa fora até Vale de Figueira, vem entre Freimoninho e Aljas até detrás de Mosteirinho; daí passa o rio entre o povo, ao Boi vai por fora até o cabeço, [4] vai ao Malhapão de Cima e daí pelo cimo de Jueus, chega ao alto penhasco do Caramulo e depois por cima do [5] chega à Cancela da Bezerreira e neste sítio parte com dois concelhos que são Guardão e Lafões; daqui vai ter às jeiras fora da Bezerreira e daí até ao cimo vai ter à corga e daí vai ter a pedra da Solheira, e daí pelo Rio vai ter e acabar no mesmo marco do Couto acima referido.

A Igreja desta freguesia existe fora da Vila aquém do Rio para a parte do Sul; porque a Vila fica além do Rio para a parte do norte; e junto à mesma Igreja estão somente as casas das residências dos Reitores com um pátio entre a Igreja e casas murado, e sorte que, estando fechadas as portas do pátio, ainda se servem os Párocos para a Igreja, pela porta da sacristia, que fica para dentro do pátio; os lugares de que a mesma freguesia se compõe são os que acima ficam mencionados.

O Orago ou Santo Padroeiro desta Igreja é o glorioso S. João Baptista. Tem três altares a Igreja e vêm a ser o Altar mor em que está colocado o tabernáculo, em que se adora e venera o Santíssimo Sacramento, e no lado do Evangelho está a dita imagem de S. João Baptista, esculpida em vulto de pedra, muito bem estufada, cuja imagem é tradição que aqui existe desde o tempo em que os Mouros ocupavam a Espanha, e ao lado da Epístola está toscamente pintada a óleo a imagem de Santo António Português. Tem mais dois colaterais no corpo da Igreja, a saber, da parte da Epístola, o de Nossa Senhora do Rosário, que também é imagem de pedra em vulto, com o Menino Deus no braço esquerdo, e tem uma flor no direito como oferecendo-a ao Menino, estufada de novo com cabelos dourados, e coroa mesmo de pedra prateada, e no retábulo do mesmo altar estão pintadas a óleo as imagens de S. Frutuoso,

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S.ta Apolónia, Santa Bárbara e Santa Luzia, cujo altar faz costas ao nascente. E da parte do Evangelho está o altar do Glorioso Mártir S. Sebastião, com a imagem do mesmo Santo em vulto também de pedra, cujo altar faz costas ao norte, e ambos estão embutidos na parede com arcos de pedra lavrada, pintados a óleo e dourados, como está o da Capela Mor. Tem esta Igreja uma nave para a parte do Sul, com cinco arcos de pedra; e em todo o vão pela parte de dentro tem a Igreja de comprimento desde a porta principal até à parede posterior ao retábulo da Capela Mor cento e quatro palmos, em que entram dezanove de que consta a Capela Mor e de largura com a nave trinta e seis palmos. Era esta Igreja muito baixa; porém, na era de mil setecentos quarenta e nove, foi levantada de pé direito, e com frontispício e campanário para a parte do sul, com uma escada de pedra, tudo de novo, e com grande asseio.

O dia mais alegre e a festividade que com maior solenidade se celebra nesta Igreja é a do glorioso Padroeiro dela, S. João Baptista, a vinte e quatro de Junho com Missa Solene e sermão, a que concorre muito povo das vizinhanças, e no último dia do seu oitavário, se soleniza também a festa do mesmo Santo, que lhe dedicam os Irmãos da sua irmandade que passam de duzentos.

E é a única que há nesta Igreja, a que concorrem os ditos irmãos, a utilizar-se do santo júbilo daquele dia.

Os Párocos desta Igreja intitulam-se Reitores, de apresentação do Real Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Rende para o Reitor cento e setenta mil reis pouco mais ou menos, porque os seus rendimentos são incertos, por não ter mais que a côngrua de quarenta mil reis e as benesses de pé de altar, pois os dízimos pertencem ao dito Mosteiro; e apresentam os Reitores desta Igreja duas Igrejas anexas que são a de S. Pedro de Varzielas, que fica para a parte do nascente e a de Nossa Senhora da Natividade de Mosteirinho, que está situada para a parte do Sul

Não houve em tempo algum nem de presente há nesta Igreja, Beneficiados.

Não tem convento de Religiosos nem Religiosas. Não tem Hospital

Não tem Casa de Misericórdia.

Tem esta freguesia três capelas ou ermidas, convém a saber: uma no lugar de Dornas acima referido, na entrada do lugar pela

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parte do norte, com a porta principal para o sul, e a transversa para o nascente com o título de Capela de S. Miguel Arcanjo. É a imagem deste glorioso Arcanjo de pedra e está colocada no altar único que nela há, e ao seu lado para o do Evangelho está uma pequenina imagem da Senhora do Remédio, também de pedra, ambas estufadas de ferro, embutido o retábulo na parede com arco de pedra. Costuma o Pároco desta Igreja ir dizer Missa pelo povo à dita Capela em louvor do santo no seu dia, vinte e nove de Setembro. Há outra Capela a que os naturais chamam da Senhora do Chão, por estar situada ao pé de uma serra a que chamam o sítio do Chão; porém propriamente é de Nossa Senhora da Visitação; está à vista desta Igreja, à distância dos passos da Via Sacra, que nela acaba, principiando nesta Igreja com cruzes de pedra. Tem esta Capela a porta principal para o poente e a transversa para o sul; tem Capela Mor de abóbada de pedra pintada e retábulo dourado com um só altar e no meio dele está colocada a milagrosa imagem desta Soberana Senhora, com um pomo na mão direita como oferecendo-o ao Menino Deus, que tem com o seu braço esquerdo, com um passarinho em ambas as mãos como brincando, e rindo-se para a Senhora. Ao lado do Evangelho está uma antiga imagem de Santo Antão e ao da Epístola a de Santo António, todas de pedra. Tem arco cruzeiro que divide a Capela Mor do corpo da mesma Capela, tem cabido, ou alpendre, ou Galilé, como lhe queiram chamar. Estas duas capelas referidas são próprias dos fregueses desta Igreja, que as fabricaram à sua custa e lhes servem para delas se administrarem os sacramentos aos enfermos. Desta Igreja, distancia de quase meia légua para a parte do norte existe outra Capela que fundou haverá trinta e tantos anos um Ermitão chamado Plácido Francisco sobre um penhasco, donde se descobre o Oceano, desde a barra da Figueira até à vista de Ovar na terra da Feira com a invocação de Nossa Senhora do Bom Despacho. Tem esta Capela a porta principal para poente, a Capela Mor com porta para o norte: está admiravelmente ornada por dentro com três altares. No Altar Mor que tem retábulo dourado ao moderno com todo o primor, está no meio colocada a milagrosa imagem da mesma Senhora sustentando dois Anjos uma coroa que está pendente sobre sua sagrada cabeça, ao lado do Evangelho está S. Plácido, e ao da Epístola, S. Frutuoso; o tecto da Capela Mor todo é de painéis pintado, com suas flores douradas nos cantos dos painéis; te m sacristia para o sul com arco cruzeiro também pintado

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de novo a óleo e frisos dourados. O colateral da parte do Evangelho também é de talha dourada e nele está a formosa imagem de Nossa Senhora do Livramento e no da parte da Epístola está a imagem do glorioso Santo António, todas de vulto e esculpidas em pau muito bem estufadas de novo ; todo este colateral de Santo António é lavrado em pedra e pintado a óleo, de pedras fingidas ao madeiro com frisos de ouro, tem coro e púlpito, para fora à mão direita da porta principal aberto com um cabido que está sobre a mesma praça, a repará-la das uvas [6] e grandes tempestades que da parte do mar acometem àquele sítio, que está em um alto desamparado e pegado na mesma Capela pela parte do sul estão casas para habitação do referido Ermitão, que há dois anos faleceu e é hoje Senhor e Administrador da Capela seu herdeiro o Padre Serafim Duarte Lourenço do lugar e freguesia de Destriz, deste Bispado. Logo abaixo da Capela pela parte do sul, está um fraco vale que não consta senão de um pinheiral e continuam na sua endireitura para o nascente uns tojais que tudo o Ermitão tinha comprado para a sustentação da Capela: tem mais esta os requerimentos necessários e cálice para se celebrar.

Celebra-se a festa da Senhora do Chão, de que acima faço menção no dia da Visitação a dois de Julho na sua Capela, com Missa Solene e sermão, a que concorre muita gente das vizinhanças. Em romaria da Senhora do Bom Despacho na sua Capela se celebra a oito de Setembro, dia da Natividade da mesma Senhora, com grande concurso de povo, que com devoção a esta Senhora pelos seus milagres, acode de várias partes.

Os frutos que produz o território desta freguesia de S. João do Monte em maior abundância é centeio e milho grosso, suficiente para o sustento dos habitadores e algum vinho, pouco e muito verde.

Tem este Concelho um Juiz ordinário que conhece do Cível, Crime e Órfãos, dois vereadores, um procurador do Concelho, que se elegem em Câmara de três em três anos a votos do povo, e com confirmação do Corregedor da Comarca, servem seus ofícios e cargos e há também um escrivão que serve de público policial e nesta Câmara faz sisas e almotaçaria, de que é proprietário Paulo

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Ferreira, da freguesia de Vila Pouca, freguesia de Pala, Bispado de Coimbra, e actual serventuário a exercitar o ofício por provimento de Sua Majestade, que Deus guarde.

Algum dia dizem que era Couto esta terra: porém hoje denomina-se cabeça do concelho sem que seja honra nem behetria. É tradição que os povos deste território estavam sujeitos às Justiças da vila de Vouzela, concelho de Lafões; e por ficar distante desta vila três léguas, levantaram neste lugar de S. João do Monte pelourinho e se conserva até ao presente como título de vila e seu concelho e termo.

Não descobri notícia alguma de que desta terra saíssem homens que se laureassem em letras, armas ou virtudes.

Não se faz nesta freguesia feira alguma, senão um arraial no dia de S. João Baptista fora dos passais da Igreja para a parte do sul debaixo de uns frondosos carvalhos em que se vendem algumas coisas comestíveis, louças de barro, ferramentas, e alhos por novidade, que vêm de Mealhada, freguesia de Vacariça, Bispado de Coimbra, distante daqui seis léguas, o que tudo se vende livre de qualquer tributo.

Não teve em tempo algum nem tem correio: mas serve-se ou do correio de Tondela que fica daqui em distância de três léguas para nascente, ou do de Águeda também três léguas para poente.

Desta freguesia de S. João do Monte à cidade de Viseu, capital do Bispado, são cinco léguas e à cidade de Lisboa, capital do Reino, são quarenta e três.

Não sei que esta terra tenha alguns privilégios, ou outras coisas, de antiguidades e dignas de memória.

Não há neste concelho fonte ou lagoa célebre e memorável.

Não é porto de mar, nem é murada esta terra, nem Praça de armas, nem tem castelo, ou torre alguma antiga nem moderna.

No terramoto do primeiro dia do mês de Novembro do ano de mil setecentos cinquenta e cinco que a todos estes habitadores causou tribulação, não houve pela misericórdia de Deus ruína alguma, que necessite situação de reparo.

Nem há mais coisa alguma digna de memória que possa noticiar-se desta terra.

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Notícias desta serra

A serra em que está situada esta Igreja e seus lugares e as duas anexas de S. Pedro de Varzielas e Mosteirinho se chama a serra do Caramulo, porém não posso descobrir a verdadeira etimologia do seu nome.

Corre esta serra de norte a sul. Pela parte do norte, principia no monte Lapão junto ao lugar de Fataunços, concelho de Lafões, e acaba na minha estimação, no alto penhasco do Caramulo, ou algum pouco na direita dele, aonde está um lugar que chamam Jueus, que é da freguesia do Guardão, tendo em todo este comprimento quatro léguas. Não sei em que se fundam os que afirmam que a dita serra acaba no deserto do Bussaco, aonde existe Religiosos no Convento dos Marianos; porquanto, depois de acabar como digo esta Serra no Jueus; se mete entremeio um vale aonde está a Póvoa de Marruje, e depois subindo à parte Má de Estaca principia outra serra que se intitula a serra do Boi, que com seus altos e baixos, continua até ao Bussaco.

Esta serra do Caramulo, em umas partes é mais alta que outras, sem que tenha braços ou propriedades naturais. Dos rios que nela nascem e correm pelo distrito desta freguesia, falarei abaixo.

Não tem vilas, nem mais lugares do que os que já referi no distrito desta freguesia.

Também não tem fontes de nome com propriedades raras, só ser abundante de águas de boa qualidade, muito frescas, claras e salutíferas.

Não se sabe que nesta serra hajam minas de metais, ou canteiros de pedras, ou de outros materiais de estimação.

Não consta que nela haja plantas ou ervas medicinais.

Não há também Mosteiros, nem Igrejas ou Ermidas de romagem, ou imagens milagrosas, além das que acima refiro.

O temperamento desta serra é muito frio, tanto dos ares como do lastro, abundante de neves e geadas no inverno; e não é pequeno favor do Céu durarem tantos anos os naturais neste Caramulo com tanto caramelo.

Os gados que se criam nesta terra são bois, vacas, cabras, e ovelhas, as quais deverão também ter pastos de ervas, mas no Inverno padecem por se cobrirem de neve os montes; e se passam muitas vezes três e quatro dias e mais que os gados não podem sair para o pasto; e é preciso sustentá-los nos currais: mas nem por isso

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deixa de ser abundante de lacticínios e queijos frescos, tudo são no mais de verão que de inverno. Muitas perdizes e coelhos: a cada passo se encontram por esta serra lobos e em alguns sítios, porcos monteses.

Não tem esta serra lagoa ou fojos notáveis nem mais coisa alguma digna de memória.

Notícias dos rios desta terra

Dois são os rios desta terra e suavizam aos naturais o desabrido do seu clima. O primeiro chama-se de S. João do Monte. O segundo denomina-se de Almofala. O de S. João do Monte nasce em três partes a saber: no cimo da Misarela, onde chamam as Cabecinhas, em Portela do Guardão e no alto da fonte da Bezerreira. O de Almofala nasce em uma fonte junto ao pé do penhasco alto, ou bico do Caramulo, em os lameirões do quadraço.

Assim um como outro rio não nascem caudalosos e só o são no tempo do inverno; e de verão, se diminuem muito suas águas que apenas chegam para os moinhos; mas nunca secam de todo; todo o ano mais ou menos correm.

Não entram neles outros rios, senão alguns ribeiros, a que os moradores chamam Corgas, e são pequenas que não são dignas de que delas se faça especial menção.

Nenhum deles é navegável nem capaz de embarcações.

Ambos são de curso arrebatado em toda sua distância, por correram por fragas e penhas.

O rio de S. João do Monte corre pela parte do norte de nascente a poente; o de Almofala corre pela parte do sul, também de nascente para poente.

A qualidade e espécie de peixes que cria o rio de S. João do Monte são trutas e bordalos, estes em pouca quantidade, aquelas em abundância. O de Almofala cria barbos, trutas, bogas e bordalos: porém, mais natural e abundante de barbos, que de outros peixes.

Em ambos os rios se pesca só de verão, que é desde o mês de Junho até o de Setembro.

As pescarias destes dois rios são livres, nem há senhor algum particular.

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Em algumas partes destes dois rios se cultivam as suas margens; e abundância de suas árvores, assim pelas margens dos rios como por toda a terra, são carvalhos, sobreiros, e poucos castanheiros. Algumas árvores há de frutas: mas pelo desabrido do clima, as não produzem, e quando algum ano vingam, são pouco saborosas; há sim muita cereja em alguns lugares, mas a maior parte delas são bravias.

Não consta que tenham virtude alguma as águas destes rios, só serem muito claras e frias.

Não têm outros nomes estes rios e só os moradores os chamam como querem, dando-lhes a etimologia dos lugares por onde passam, v.g. passam pelo lugar de Mançores e chamam-lhe o rio de Mançores, e assim nos mais lugares, etc.

Juntam-se estes dois rios no sítio do lugar da Talhada, freguesia de Castanheira do Vouga, Bispado de Coimbra.

Nenhum deles, como já disse, é navegável, porém ambos têm represas, levadas ou açudes para moinhos e pisões.

Ambos têm pontes de pedra e de pau, em baixo direi quantas e em que sítios.

Têm estes dois rios pisões e moinhos particulares dos moradores, e não há moleiros nesta freguesia, por terem por desprezo semelhante ofício, e não tem lagares de azeite, noras ou outro algum engenho.

Em tempo algum consta que destes rios se tirou ouro; pois são mais abundantes de pedras que de areias.

Os povos usam livremente sem pensão alguma de suas águas, para a cultura dos campos em algumas partes; porque em outras o não permite o arrebatado de seu curso.

Qualquer destes dois rios terá duas léguas e meia desde onde nascem até onde fenecem. E o de S. João do Monte principia aonde acima apontei e chegando de ser sítio do seu nascimento a fonte por baixo da ponte vão do lugar de Varzielas, corre pela parte do norte ao lugar de Valedasna, que é o primeiro desta freguesia, daí vindo arrimado ao passal desta Igreja e chega a uma ponte de cantaria de pedra que faz passagem para a vila de S. João do Monte que está da parte do norte, defronte desta Igreja. Consta esta ponte de cinco arcos, tem de comprimento quatrocentos e oito palmos, e de largura dezoito, com duas guardas de pedra forte de cinco palmos de alto, haverá quinze anos que foi feita.

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Daqui vai continuando o rio no seu curso, e passa pelo lugar de Belazeima, em que há uma ponte de pau, daí pelo lugar de Matadegas, passa a póvoa da Foz, e depois o lugar de Carvalhal, em que há ponte de pau, daí finalmente ao lugar e sítio da Talhada, como acima disse. Deixemos nesta entretalhada este rio e vamos buscar o segundo seu companheiro. O rio de Almofala tem seu princípio nos sítios onde já acima referi e daí pela parte do sul corre perto do lugar de Dornas, onde tem ponte de pau, passa logo à vista do lugar de Teixo, e na endireitura deste sítio tem uma ponte de pau, chamada a ponte da Corte; daí passa os pisões do Souto, onde há outra ponte de pau para passagem do lugar de Castelo, que está junto ao mesmo rio, e defronte do lugar do Souto, que para a parte do norte fica na meia ladeira de um monte, e correndo pela Póvoa de Demenderes, com ponte de pau e daí por Almijofa chega ao lugar de Mançores, onde também há uma ponte de pau para este lugar, que fica ao poente; é esta ponte bem medonha pela sua altura e ser muito estreita. Continua o rio pelo lugar de Alcafaz e finalmente pelo Bertufo chega ao mencionado lugar e sítio da Talhada, e incorporando-se aqui estes dois rios, correm ainda arrebatados por detrás dos passais da sobredita Igreja de Castanheira, e chegando a avistar o lugar de Bolfiar, morrem e fenecem no bem nomeado Rio Alfusqueiro queziloso de todo de sua fúria, vão murmurando todos por Águeda até chegarem à ponte de Almear e aí se reforçam com o famoso Rio Vouga, que despedindo-se ultimamente do deliciosa campo de Angeja, por onde passam, acham a sua sepultura no mar oceano pela Barra de Aveiro, que agora a acharam bem desimpedida para seu descanso.

E não se oferece de presente mais coisa alguma digna de memória e notável, de que se possa dar notícia desta terra, serra e rios dela.

Residência de S. João do Monte, 3 de Junho de 1758. O Reitor, Fernando Gomes Leitão

[4] Trecho ilegível [5] Palavra ilegível [6] Transcrição duvidosa

Referências

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