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PROCESSO: AC Nº 30354 - Ação Cautelar UF: RS JUDICIÁRIA
Nº ÚNICO: 30354.2013.600.0000
MUNICÍPIO: CRISSIUMAL - RS N.° Origem:
PROTOCOLO: 116102013 - 22/05/2013 11:04 AUTORES: WALTER LUIZ HECK
AUTORES: IVANO ADELAR GRESS ZORZO ADVOGADO: VANIR DE MATTOS
ADVOGADO: LUCIANO MANINI NEUMANN RÉU: MINISTÉRIO PÚBLICO ELEITORAL
RELATOR(A): MINISTRA LUCIANA CHRISTINA GUIMARÃES LÓSSIO ASSUNTO:
AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL - ABUSO - DE PODER ECONÔMICO - CARGO - PREFEITO - VICE-PREFEITO - PEDIDO DE CONCESSÃO DE LIMINAR - PEDIDO DE EFEITO SUSPENSIVO A RECURSO
LOCALIZAÇÃO
: GAB-LL-GABINETE DA MINISTRA LUCIANA LÓSSIO
FASE ATUAL: 27/05/2013 14:53-Retificado registro de efetuado em 27/05/2013 para: Registrado Decisão Monocrática de 24/05/2013. Com decisão .
Andamento Distribuição Despachos Decisão Petições Todos Visualizar Despacho
Decisão Monocrática em 24/05/2013 - AC Nº 30354 Ministra LUCIANA LÓSSIO
DECISÃO
Walter Luiz Heck e Ivano Adelar Gress Zorzo ajuizaram ação cautelar com pedido liminar, a fim de atribuir efeito suspensivo a recurso especial, interposto contra acórdão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE/RS) que, dando parcial provimento ao Recurso Eleitoral nº 198-47, julgou procedente a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) proposta contra os autores, cassando-lhes o diploma e, ainda, declarando-lhes inelegíveis pelo prazo de oito anos, pela prática de abuso do poder econômico.
Recursos. Ação de Investigação Judicial Eleitoral. Abuso de poder econômico. Eleições 2012. Improcedência da ação no juízo originário.
Afastada a matéria preliminar. Não há perda de objeto em face de diplomação já realizada, pois a procedência da ação de investigação judicial eleitoral, ainda que após a proclamação dos eleitos, poderá levar à inelegibilidade do candidato, bem como a cassação do seu registro ou diploma. Rejeição da prefacial de ilicitude de prova. É lícita a prova consistente em gravação ambiental realizada por um dos interlocutores sem o conhecimento do outro.
A conduta perpetrada pelos recorrentes, consistente em oferecer dinheiro e prometer cargos públicos a dois candidatos à vereança da coligação adversária para que estes desistissem da disputa eleitoral em apoio à candidatura dos recorridos, configura, modo inequívoco, abuso de poder econômico.
Negociações político-partidárias são comuns e ínsitas ao regime democrático quando precedem às convenções. Fatos que ocorreram em pleno período eleitoral, no ápice da campanha política. A tentativa de desistência de uma candidatura por compra ou promessa de benesses possui maior poder lesivo do que a compra de alguns votos. A ilicitude está estampada nas verbas oferecidas a cada candidato, que sequer poderiam ser registradas na prestação de contas, sob pena de desaprovação. Reconhecida a gravidade das circunstâncias a que alude a nova redação do inc. XVI do art. 22 da Lei Complementar n. 64/90, apta a engendrar o comprometimento da normalidade e da legitimidade do pleito, seja pela conduta praticada próxima ao pleito, seja pelo amplo contingente de votos
potencialmente corrompidos, haja vista a oferta ter sido direcionada a candidatos à vereança, maiores cabos eleitorais dos postulantes a cargo majoritário.
A procedência de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral não implica, necessariamente, duplo sancionamento do representado. A sanção de inelegibilidade exige prova da responsabilidade subjetiva do sujeito passivo, através de uma conduta comissiva ou omissiva, ao passo que para a aplicação da pena de cassação do registro ou de diploma basta a mera condição de beneficiário do ato de abuso, sem necessidade da prova do elemento subjetivo.
Inequívoca a responsabilidade e o agir do candidato a prefeito, o que faz incidir a sanção de
inelegibilidade por 8 (oito) anos subsequentes ao pleito de 2012. Afastada a sanção de inelegibilidade ao vice-prefeito, porquanto não demonstrada a sua participação na perpetração do ilícito.
Diploma cassado do prefeito e seu vice. Realização de novas eleições majoritárias no município, nos termos do art. 224 do Código Eleitoral, visto tratar-se de nulidade que atinge mais de metade dos votos do município.
Provimento parcial. (Fls. 351-351v)
Sustentam os autores que o fumus boni júris está demonstrado, conforme argumentações aduzidas no recurso especial manejado contra o acórdão regional, a saber:
a) a prova em que fundada a condenação na AIJE foi obtida por meio semelhante a flagrante preparado, mediante gravação ambiental com o conhecimento de um dos interlocutores, em conluio prévio dos denunciantes, adversários políticos dos então recorrentes;
b) a conduta levada a exame não possui conteúdo material gravoso capaz de gerar o desequilíbrio da disputa eleitoral, o que afasta a caracterização do abuso de poder econômico;
c) conforme as provas juntadas aos autos, houve suposta oferta de dinheiro a um candidato a vereador da coligação adversária, para que ele desistisse de sua candidatura e apoiasse o então candidato recorrente;
d) o acórdão recorrido não tratou de todas as questões reputadas omissas e contraditórias pelos recorrentes, violando o disposto no art. 535, I, do CPC e 275, I, do CE;
e) a Corte Regional divergiu do entendimento de outros tribunais regionais eleitorais e, ainda, do Tribunal Superior Eleitoral, quanto à ilicitude da prova, obtida clandestinamente por gravação ambiental, mediante flagrante preparado; e
f) inexiste qualquer potencialidade lesiva ao equilíbrio do pleito, pois as condutas supostamente ilícitas sequer chegaram a se consumar.
Em relação ao perigo da demora, afirmam que o TRE/RS já determinou a realização de novas eleições e a assunção ao cargo de prefeito pelo presidente da Câmara Municipal. Ressaltam, ainda, o prejuízo causado pela interrupção do exercício do cargo dos representantes eleitos, bem como pelas consequentes alternâncias no poder.
Por fim, requerem a concessão de efeito suspensivo ao recurso especial interposto nos autos do Recurso Eleitoral nº 198-47.
É o relatório.
Decido.
Em juízo preliminar, tenho que assiste razão aos autores.
Na espécie, entendeu o Tribunal de origem que a conduta imputada - consistente na oferta de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) e a promessa de cargos públicos a dois candidatos à vereança da coligação adversária, a fim de que desistissem da disputa eleitoral em apoio à candidatura dos autores - configurou abuso de poder econômico.
O juízo de primeira instância, por outro lado, entendeu que a conduta em tela consistiu em ato meramente reprovável na seara ética, não caracterizando, todavia, ilícito eleitoral, conforme consta do acórdão atacado.
Quanto à prova obtida mediante gravação ambiental, a qual fundamentou a condenação dos autores, assentou-se a sua licitude, porquanto realizada por um dos interlocutores, na linha da orientação adotada pela Suprema Corte.
Não obstante, da rápida leitura dos autos, tenho que a fundamentação adotada dissente da linha jurisprudencial deste Tribunal Superior Eleitoral.
prometida por um candidato a outro, visando obter-lhe a desistência do pleito, conquanto reprovável, não configura o ilícito eleitoral (REspe nº 19399/TO, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de 1.4.2002).
Em que pese no caso dos autos se tenha discutido a prática de abuso do poder econômico, e não de captação ilícita propriamente, a base fática é similar ao precedente ora mencionado, razão por que merece exame mais aprofundado pelo colegiado desta Casa.
Em segundo plano, a licitude da prova colhida também é questionável, haja vista que este Tribunal vem sinalizando no sentido de que, para que a gravação ambiental seja considerada prova lícita e possa ser utilizada em processos judiciais, deve-se verificar a existência de justa causa para a gravação (1).
Tal justa causa não se verifica, em princípio, quando ausente a necessidade de defesa em processo criminal pelo interlocutor que procede à gravação, realizada de maneira premeditada, a fim de ser utilizada em processo eleitoral.
Nessas circunstâncias, entendeu-se pela violação ao direito da intimidade, não se devendo admitir a prova como lícita, posicionamento ao qual me filio.
Dessa forma, evidencia-se a plausibilidade jurídica do direito invocado, revelando-se mais prudente aguardar-se, para a execução do decisum, o julgamento do recurso especial.
Por outro lado, este Tribunal Superior tem destacado a necessidade de se privilegiar o candidato eleito nas urnas, e não aquele que assume, em caráter transitório, a chefia do Poder Executivo local, evitando-se, ainda, sucessivas alternâncias na titularidade do cargo, sobretudo quando já determinada a realização de pleito suplementar.
Pelo exposto, defiro o pedido liminar para suspender os efeitos do acórdão proferido nos autos do Recurso Eleitoral nº 198-47, garantindo-se aos autores a permanência no exercício da prefeitura de Crissiumal/RS, ou o retorno ao cargo, caso tenha havido o afastamento, até o julgamento, por este Tribunal, do recurso especial interposto.
Comunique-se, com urgência, o teor da presente decisão ao TRE/RS, para que adote as medidas necessárias ao seu imediato cumprimento.
Cite-se o Órgão Ministerial para, querendo, contestar a presente ação cautelar, no prazo legal.
Publique-se. Intime-se.
Ministra Luciana Lóssio Relatora
(1) ¿A regra é a proteção à privacidade. Viabiliza-se a gravação quando, em investigação criminal ou processo penal, há a ordem judicial" (REspe nº 344-26, Rel. Min. Marco Aurélio, em sessão de 16.8.2012).