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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.494.394 - SP (2014/0290411-3)

RELATOR

: MINISTRO MARCO AURÉLIO BELLIZZE

RECORRENTE

: PLATINA ADMINISTRACAO E PARTICIPACOES LTDA

ADVOGADO

: MARCOS ROLIM F. FONTES E OUTRO(S)

RECORRIDO

: BRUNO RISO

RECORRIDO

: ANGELINA BITAR RISO

ADVOGADO

: DENISE DE FREITAS VIEIRA E OUTRO(S)

EMENTA

RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. IMPENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA. PROTEÇÃO AO ÚNICO IMÓVEL DOS DEVEDORES. ABUSO DE DIREITO. AFASTAMENTO DA PROTEÇÃO. NECESSIDADE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.

DECISÃO

Cuida-se, na origem, de agravo de instrumento interposto por Bruno Riso e

outra contra decisão que, afastando a impenhorabilidade sobre o imóvel que lhes serve de

moradia, admitiu a penhora sobre o referido bem.

A Vigésima Primeira Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de

São Paulo, por maioria de votos, deu provimento à insurgência para determinar o

afastamento da constrição judicial que recaíra sobre imóvel que serve de residência para

os então agravantes.

O acórdão está assim ementado:

Agravo de instrumento – Execução de título extrajudicial – Alegação de impenhorabilidade de bem de família – Imóvel que serve de residência aos devedores – Cessão dos demais bens destes a terceiros – Revogação buscada pelos meios judiciais próprios – Agravada que deve primeiramente se valer da alienação dos bens que retornarão ao patrimônio dos devedores, a fim de saldar seu crédito – Penhora afastada – Recurso provido – Decisão reformada.

Inconformada, Platina Administração e Participações Ltda. interpõe recurso

especial, fundamentado nas alíneas a e c do permissivo constitucional, apontando, além

de dissídio jurisprudencial, violação ao art. 1º da Lei 8.009/1990, sustentando, em síntese,

a necessidade de se afastar a impenhorabilidade do imóvel objeto da constrição ante a

flagrante fraude à execução, pois os devedores doaram todos os seus bens aos seus

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filhos e netos, reduzindo seu patrimônio somente ao imóvel no qual residem.

Contrarrazões às fls. 680-684 (e-STJ).

É o relatório.

A irresignação merece prosperar.

Com efeito, a impenhorabilidade do bem de família é uma garantia dada

objetivando resguardar o patrimônio mínimo do devedor em detrimento à satisfação

executiva do credor, e sua finalidade última é a despatrimonialização do Direito Civil, que

impõe uma releitura dos institutos à luz do fundamento constitucional da dignidade da

pessoa humana.

Nesse contexto, a jurisprudência desta Corte Superior tem conferido a mais

ampla proteção ao bem de família, promovendo, sempre que possível, a interpretação do

art. 3º da Lei 8.009/90 mais favorável à entidade familiar, inclusive entendendo que a

questão é matéria de ordem pública, suscetível de análise a qualquer tempo e grau de

jurisdição (c.f. RMS 32.166/SP, Relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, DJe

de 10/04/2012).

Todavia, essa proteção não pode ser utilizada para abarcar atos diversos

daqueles visados pela Lei 8.009/1990, tornando imperioso o afastamento da proteção

quando verificada a existência de atos fraudulentos ou constatado o abuso de direito pelo

devedor que se furta ao adimplemento da sua dívida, sendo inviável a interpretação da

norma sem a observância do princípio da boa-fé.

Dessa forma, o Juiz deverá fazer uma ponderação entre o mínimo

existencial do devedor, referente à proteção do bem de família, e o direito à tutela executiva

do credor, frente a existência de fraude à execução.

Nesse sentido:

PROCESSO CIVIL. LEI N. 8.009/1990. RECURSO ESPECIAL. DOAÇÃO DO IMÓVEL À FILHA. NÃO CONFIGURAÇÃO DE FRAUDE À EXECUÇÃO. IMPENHORABILIDADE DO BEM DE FAMÍLIA. BEM INCINDÍVEL. IMPENHORABILIDADE DA TOTALIDADE DO BEM.

1. A impenhorabilidade do bem de família, via de regra, sobrepõe-se à satisfação dos direitos do credor, ressalvadas as situações previstas nos arts. 3º e 4º da Lei n. 8.009/1990, os quais devem ser interpretados restritivamente. Precedentes.

2. O reconhecimento da ocorrência de fraude à execução e sua influência na disciplina do bem de família deve ser aferida

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casuisticamente, de modo a evitar a perpetração de injustiças - deixando famílias ao desabrigo - ou a chancelar a conduta ardilosa do executado em desfavor do legítimo direito do credor, observados os parâmetros dos arts. 593, II, do CPC ou 4º da Lei n. 8.009/1990. 3. Quando se trata da alienação ou oneração do próprio bem impenhorável, nos termos da Lei n. 8.009/90, entende-se pela inviabilidade - ressalvada a hipótese prevista no art. 4º da referida Lei - de caracterização da fraude à execução, haja vista que, consubstanciando imóvel absolutamente insuscetível de constrição, não há falar em sua vinculação à satisfação da execução, razão pela qual carece ao exequente interesse jurídico na declaração de ineficácia do negócio jurídico. Precedentes.

4. O parâmetro crucial para discernir se há ou não fraude contra credores ou à execução é verificar a ocorrência de alteração na destinação primitiva do imóvel - qual seja, a morada da família - ou de desvio do proveito econômico da alienação (se existente) em prejuízo do credor. Inexistentes tais requisitos, não há falar em alienação fraudulenta.

5. No caso, é fato incontroverso que o imóvel litigioso, desde o momento de sua compra - em 31/5/1995 -, tem servido de moradia à família mesmo após a separação de fato do casal, quando o imóvel foi doado à filha, em 2/10/1998, continuando a nele residir, até os dias atuais, a mãe, os filhos e o neto; de forma que inexiste alteração material apta a justificar a declaração de ineficácia da doação e a penhora do bem.

6. A proteção instituída pela Lei n. 8.009/1990, quando reconhecida sobre metade de imóvel relativa à meação, deve ser estendida à totalidade do bem, porquanto o escopo precípuo da lei é a tutela não apenas da pessoa do devedor, mas da entidade familiar como um todo, de modo a impedir o seu desabrigo, ressalvada a possibilidade de divisão do bem sem prejuízo do direito à moradia. Precedentes. 7. Recurso especial provido. (REsp 1227366/RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, DJe 17/11/2014)

CIVIL E PROCESSO CIVIL. AÇÃO DE COBRANÇA DE ALUGUÉIS. DOAÇÃO DE IMÓVEL EM FRAUDE DE EXECUÇÃO. BEM DE FAMÍLIA. AFASTAMENTO DA PROTEÇÃO. POSSIBILIDADE. FRAUDE QUE INDICA ABUSO DE DIREITO. ART. ANALISADO: 1º, LEI 8.009/90. 1. Embargos de terceiro distribuídos em 12/04/2010, do qual foi extraído o presente recurso especial, concluso ao Gabinete em 22/04/2013.

2. Discute-se se a doação realizada ao menor impúbere, do único imóvel onde reside a família, dias depois de intimados os devedores para pagar quantia certa, em cumprimento de sentença, configura fraude de execução e afasta a natureza impenhorável do bem transferido.

3. A exegese sistemática da Lei nº 8.009/90 evidencia nítida preocupação do legislador no sentido de impedir a deturpação do benefício legal, vindo a ser utilizado como artifício para viabilizar a aquisição, melhoramento, uso, gozo e/ou disposição do bem de família sem nenhuma contrapartida, à custa de terceiros.

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4. Sob essa ótica, é preciso considerar que, em regra, o devedor que aliena, gratuita ou onerosamente, o único imóvel, onde reside com a família, está, ao mesmo tempo, dispondo daquela proteção legal, na medida em que seu comportamento evidencia que o bem não lhe serve mais à moradia ou subsistência.

5. Na espécie, as circunstâncias em que realizada a doação do imóvel estão a revelar que os devedores, a todo custo, tentam ocultar o bem e proteger o seu patrimônio, sacrificando o direito do credor, assim, portanto, obrando, não apenas em fraude de execução, mas também - e sobretudo - com fraude aos dispositivos da própria Lei 8.009/90. 6. Nessas hipóteses, é possível, com fundamento em abuso de direito, reconhecer a fraude de execução e afastar a proteção conferida pela Lei 8.009/90.

7. Recurso especial conhecido e desprovido. (REsp 1364509/RS, Relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJe 17/06/2014) TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. BEM DE FAMÍLIA. ART. 1º DA LEI 8.009/90. IMPENHORABILIDADE. ABUSO DO DIREITO DE PROPRIEDADE E MÁ-FÉ DO PROPRIETÁRIO, QUE OFERTOU O BEM EM GARANTIA PARA INGRESSO NO REFIS. INADIMPLÊNCIA DO PARCELAMENTO. EXCLUSÃO. EXECUÇÃO DA GARANTIA. PENHORA. INAPLICABILIDADE DA REGRA PROTETIVA.

1. Resume-se a controvérsia em definir se o bem de família, ofertado como garantia para ingresso no REFIS, pode ser penhorado quando o contribuinte é excluído do parcelamento fiscal por inadimplência. 2. A jurisprudência desta Corte reconhece que a proteção legal conferida ao bem de família pela Lei 8.009/90 não pode ser afastada por renúncia do devedor ao privilégio, pois é princípio de ordem pública, prevalente sobre a vontade manifestada.

3. Trata-se, todavia, de situação peculiar, que não se amolda à jurisprudência pacificada. Os proprietários do bem de família, de maneira fraudulenta e com abuso do direito de propriedade e manifesta violação da boa-fé objetiva, obtiveram autorização para ingresso no REFIS ao ofertar, em garantia, bem sabidamente impenhorável, conduta agravada pelo fato de serem reincidentes, pois o bem, em momento anterior, já havia sido dado em hipoteca como garantia de empréstimo bancário.

4. A regra de impenhorabilidade aplica-se às situações de uso regular do direito. O abuso do direito de propriedade, a fraude e a má-fé do proprietário conduzem à ineficácia da norma protetiva, que não pode conviver, tolerar e premiar a atuação do agente em desconformidade com o ordenamento jurídico.

5. A boa-fé do devedor é determinante para que se possa socorrer da regra protetiva do art. 1º da Lei 8.009/90, devendo ser reprimidos quaisquer atos praticados no intuito de fraudar credores, de obter benefício indevido ou de retardar o trâmite do processo de cobrança. 6. Recurso especial não provido. (REsp 1200112/RJ, Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma, DJe 21/08/2012)

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notadamente no voto vencido no acórdão recorrido, os devedores doaram às filhas e aos

netos a totalidade dos seus bens imóveis, reduzindo seu patrimônio ao imóvel em que

residiam há mais de trinta anos.

Assim sendo, essa atitude assentou-se em fraude, pois houve transferência

ardilosa do patrimônio dos devedores em detrimento do direito do credor, o que se

evidencia com as transferências não onerosas de vários imóveis no período de 2003 a

2004 aos seus descendentes.

Dessa forma, ponderando os direitos envolvidos e analisando as

circunstâncias delineadas pela Corte a quo, verifica-se o abuso de direito perpetrado pelos

devedores no desfazimento de seu patrimônio de forma a violar o princípio da boa-fé, o que

acarreta, portanto, no afastamento da impenhorabilidade do bem de família e na

possibilidade de constrição do referido imóvel.

Ante o exposto, nos termos do art. 557, caput , do CPC, dou provimento ao

recurso especial para afastar o benefício da impenhorabilidade do bem de família sobre o

imóvel objeto da constrição, ante a constatação da fraude cometida pelos devedores.

Publique-se.

Brasília (DF), 13 de agosto de 2015.

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