Corpus Territorial do Sul
Fontes documentais sobre o território do Algarve e do Sul dePor-tugal
Edição digital fac-simile
Memórias Eclesiásticas
do Reino do Algarve
Fr. Vicente Salgado
1786
Régia Oficina Tipográfica
Lisboa
Tomo I (Único publicado)
Exemplar original cedido por
Emanuel Andrade Sancho
Digitalização de 300 dpi, com 256 níveis de cinzento Imagem retocada
Edição
2003
Associação Campo Arqueológico de Tavira
Pedidos de CDs
Associação Campo Arqueológico de Tavira Rua Alexandre Herculano, 18
8800-394 Tavira
I
As Memórias Eclesiásticas
A obra de Vicente Salgado é única na historiografia do Algarve, por constituir a primeira análise erudita e moderna das fontes clássicas greco-romanas relativas a esta província. Combina estas fontes, em que se desta-cam Pompónio Mela, Plínio, Estrabão, Avieno e o Itine-rário de Antonino, com fontes medievais e renascentis-tas, como a Crónica do Mouro Rasi, a Crónica da Con-quista do Algarve e, sobretudo, a obra de Garcia de Resende. Nos extensos comentários bibliográficos cita abundantemente aos principais estudos existentes na época, recorrendo sempre que possível a transcrições dos originais latinos.
O tema mais destacado da obra é a corografia histórica do Algarve, que estuda a localização geográfica moder-na dos povoados, povos, vias de comunicação e aciden-tes naturais descritos nas fonaciden-tes antigas.
Esta parte corográfica das Memórias é sobretudo relevante na sua análise da localização dos principais centros urbanos referidos na Antiguidade ou famosos desde o domínio islâmico. O quadro seguinte resume os locais abordados no texto e as suas localizações por Vicente Salgado e as que são aceites na actualidade. Algumas destas, em itálico, são ainda objecto de discussão:
Localização Povoação
romana Vicente Salgado Actual
Ossonoba Estoi Faro
Cartaia Quarteira Carteia (Baía de Algeciras) Lacóbriga Lagos Lagos
II
Localização Povoação
romana Vicente Salgado Actual
Portus Hannibalis
Alvor Sagres/Belixe (Terçanabal)
Portus
Magnus Portimão, Mexilhoeira da Carregação ou Ilhéu do Rosá-rio
Balsa Tavira Torre de Aires-Antas (Luz) Baesuris Aiamonte Castro Marim
Aranni Monchique Santa Bárbara de Padrões ou
Garvão
À historiografia, o autor associa as impressões pessoais relativas a diversos vestígios arqueológicos, constituin-do neste campo uma das primeiras fontes modernas digna de crédito.
Apesar da maioria das suas localizações urbanas se terem revelado erradas, a obra continua a ser uma fonte primária insubstituível sobre a arqueologia romana do Algarve pois contém descrições em primeira mão de achados e estruturas posteriormente desaparecidos, que ainda hoje fazem ou deviam fazer parte das actuais car-tas arqueológicas. Destacamos nomeadamente:
• As estruturas de alvenaria, na praia de Quarteira
• As moedas de Carteia, em Quarteira
• A fonte romana, em Estoi
• As lápides epigráficas, em Faro, Beja e Silves
• O busto romano, em Tavira
• Os achados em Beja
As suas observações e opiniões tiveram uma profunda influência nas gerações posteriores de historiadores,
III
antiquários e arqueólogos, levantando polémicas que ainda hoje se não extinguiram completamente.
Destacam-se os investigadores da “geração de ouro”, de finais do século XIX, de Estácio da Veiga a Leite de Vasconcelos, período em que a obra de Vicente Salgado foi amplamente divulgada e discutida. O jornalista e historiador local Ataíde de Oliveira foi o principal divulgador das teses defendidas nas Memórias
Eclesiásticas, aceites ainda hoje por certos meios
ultramontanos da elite provinciana algarvia.
A temática tem sido retomado até à actualidade por um extenso conjunto de autores, que, de uma maneira ou outra reutilizam a informação da obra de Vicente Salgado e actualizam os seus pressupostos e conclusões. Entre eles destacam-se, por ordem alfabética dos seus nomes: Amílcar Guerra 1995 Plínio-o-Velho e a Lusitânia Estácio da Veiga 1866 Povos balsenses Jorge de Alarcão
1985 Sobre a romanização do Alentejo e do Algarve 1988 Roman Portugal
1988 Identificação das cidades da Lusitânia portuguesa e dos seus territórios
1990 Portugal das origens à romanização
José d’Encarnação
1984 Inscrições romanas do conventus pacensis 1987 A população romana do litoral algarvio
IV
1991 Religiões antigas de Portugal Julián de Francisco Martín
1989 Conquista y romanización de Lusitania Leite Vasconcelos
1897/
1913 Religiões da Lusitânia
Luciano Pérez Vilatela
2000 Lusitania: História y etnologia
Luís Fraga da Silva
2002 A região de São Brás de Alportel na Antiguidade
Manuel Maia
1985 Celtici e os turduli nas fontes clássicas
1987 Romanização do território hoje português a Sul do Tejo
Maria Luísa Affonso dos Santos
1971/2 Arqueologia romana do Algarve
Mário Sáa
1967 As grandes vias da Lusitânia
A. Schulten
1959/63 Geografia y etnologia de la Península Ibérica
Teresa Júdice Gamito
1983 Breves apontamentos sobre o povoamento do Algarve desde a Pré-História até à Época Romana e o seu con-dicionalismo geográfico
Vasco Gil Mantas
1990 As cidades marítimas da Lusitânia
1997 As civitates: Esboço da geografia política e económica
do Algarve romano
V
A 2ª parte da obra, relativa à história eclesiástica pro-priamente dita, descreve a origem do cristianismo na região e os primeiros bispos de Ossonoba. O seu valor actual é sobretudo historiográfico, devido ao carácter essencialmente apologético dos estudos sobre o cristianismo primitivo, na época do autor. Não deixa porém de expor detalhadamente a história religiosa dos primeiros séculos do cristianismo peninsular e de referir a história e as particularidades da liturgia moçárabe, relativamente ao culto romano.
Destacamos três obras de actualização sobre este tema, que cremos essenciais como sínteses actuais do estado do conhecimento e fontes de bibliografia complementar: Ana C. M. Jorge
2002 L’épiscopat de Lusitanie pendant l’Antiquité tardive
Justino Maciel
1996 Antiguidade Tardia e Paleocristianismo em Portugal
Manuel Diaz y Diaz
1992 Vie chrétienne et culture dans l’Espagne du VIIe au Xe
siécles
A obra termina com uma curta resenha, igualmente interessante, sobre a história da “reconquista” e as principais personalidades culturais do período islâmico no Algarve.
VII
O Corpus territorial do Sul
O Corpus territorial do Sul é um arquivo virtual de recursos de história territorial do Algarve e do Sul de Portugal.
Pretende reunir num único referencial espacial um con-junto de recursos de informação territorial, considerados essenciais para a descrição, análise e interpretação histó-ricas do território e seu relacionamento com a realidade actual.
Os recursos abordam a descrição topográfica e corográ-fica do território e a descrição dos elementos que os constituem: físicos, paisagísticos e antrópicos, realçan-do-se nestes últimos os vestígios materiais de ocupação, as sobrevivências léxicas na toponímia e as sobrevivên-cias culturais e religiosas.
Para além da divulgação de documentos pouco conheci-dos ou muito pouco acessíveis - o que já representa uma mais-valia muito considerável do projecto, deve subli-nhar-se ainda o factor da sua integração e combinação num único dispositivo referencial e descritivo que utili-za o território como factor comum de relação. Esta inte-gração permitirá criar um sistema de exploração e inves-tigação extraordinariamente rico, que relacionará – atra-vés do local – temas especializados muito diversos, permitindo visões associativas e muito detalhadas, até agora inacessíveis aos especialistas e portadoras dum enorme potencial gerador de conhecimento.
VIII
Finalmente, pretende-se disponibilizar os resultados como produtos digitais normalizados que tornem possí-vel a sua ampla circulação e divulgação, utilizando a Internet, computadores pessoais modernos, suportes digitais de grandes volumes e sistemas de impressão digital de pequenas tiragens e de grande qualidade gráfica. Deste modo integrar-se-á o projecto e os seus conteúdos nos dispositivos regionais da chamada “Sociedade da Informação”.
Uma das características mais inovadoras e enriquecedo-ras do projecto é a sua multidisciplinaridade, reunindo, pela primeira vez em âmbito regional, especialistas nas áreas fundamentais de estudo do território histórico e das novas tecnologias: Arqueologia, Toponímia, Geo-grafia Humana, Geomorfologia, Antropologia, Carto-grafia, Análise de Sistemas de Informação (documental e geográfica) e Grafismo Digital.
A Associação Campo Arqueológico de Tavira é a instituição responsável pelo projecto e o seu site
www.arqueotavira.com mantém informação
actualiza-da sobre as publicações e recursos já disponíveis.
Todos os pedidos de informações e colaborações são bem vindos e deverão dirigir-se a: