Chapada Agroecológica
CAMPOS, Juliana1; SANTANA, Geovanna2; CAIRES, Sabrynny3; ALMEIDA, Patrik4 1 Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS); 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA); 3 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA);
4 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA).
Eixo Temático: Soluções criativas e agricultura familiar Resumo
O processo de ocupação na Chapada Diamantina foi marcado pelo colonialismo, coronelismo e patriarcado. Este modelo vem invisibilizando saberes, transformando bens comuns em mercadoria e, destruindo a natureza. Com a pandemia, este cenário se complexificou e evidenciou problemas econômicos, sociais e ambientais. Partindo do conceito de tecnociência solidária, dos princípios da economia social e solidária e das práticas da educomunicação, voltada para a educação ambiental, o projeto intitulado Chapada Agroecológica visa incentivar a agroecologia, fortalecer a agricultura familiar, valorizar a cultura local, integrar as principais instituições de ensino público da região e promover a educação ambiental. Trata-se de um portal de informações, integrado à TV UNEB Seabra, voltado para a juventude rural. O conteúdo textual e audiovisual é produzido, em colaboração, pela aluna do mestrado profissional em ensino das ciências ambientais da UEFS, os alunos do curso técnico do IFBA e os agricultores familiares, com a orientação dos professores do Núcleo de Comunicação do Departamento de Ciências Humanas e Tecnológicas (DCHT) da UNEB, campus XXIII. Palavras-Chave: economia social e solidária; tecnociência solidária; educomunicação; educação ambiental; desenvolvimento rural.
Contexto
A região da Chapada Diamantina, localizada na porção central do estado, região semiárida da Bahia, é essencialmente rural. Este território foi configurado por diferentes ciclos econômicos e pelo rastro do colonialismo, coronelismo e patriarcado, que persistem até hoje, porém com novas configurações (BAHIA, 2016). A ocupação socioeconômica iniciou com a expansão da pecuária do Vale do São Francisco e, posteriormente, com o garimpo, com a descoberta do ouro e do diamante. Após o declínio das minas, o cultivo do café ganhou expressividade, porém com a crise de 1930, houve um longo período de estagnação econômica. Hoje, o turismo se configura como vocação e potencial desta região (BAHIA, 2016).
Neste território, a cultura indígena, quilombola e sertaneja se misturam e se entrelaçam num grande mosaico cultural, refletido nas esferas econômicas, sociais e ambientais. A agricultura, desde as populações originárias, é símbolo da fixação e enraizamento dos povos neste território. Isto pode ser observado nas pinturas rupestres encontradas na região, nas representações da folha da mandioca. Além disso, pesquisas arqueológicas localizaram uma série de assadores, em Morro do Chapéu, o que indicaria que os povos originários eram artesãos ceramistas e possuíam técnicas e tecnologias para domesticar a mandioca brava para a alimentação, possivelmente, produzindo a farinha. Esta, era uma solução para conservação do alimento, o que permitia se fixarem no território por um longo período.
Além da relevância econômica e cultural, esta região é muito rica em diversidade geológica e biológica. Este território possui uma unidade de conservação (UC) de proteção integral, intitulada Parque Nacional da Chapada Diamantina (PNCD), e quatro unidades de conservação (UC) de uso sustentável, a saber, o Parque Estadual do Morro do Chapéu, a Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Nascentes do Rio de Contas, a Área de Preservação Ambiental (APA) Marimbus/Iraquara e a Área de Preservação Ambiental (APA) Serra do Barbado. Estas UC’s compõem o patrimônio natural deste território e objetivam preservar os ecossistemas naturais, importantes para a qualidade de vida e bem-estar das populações humanas.
Embora no sertão, esta região é conhecida como “caixa d’água” da Bahia, pois abriga nascentes de importantes rios, afluentes das maiores fontes hídricas que abastecem o estado: Bacia Hidrográfica do Paraguaçu, Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e Bacia Hidrográfica do Rio de Contas (BAHIA, 2016). A maior parte do território está inserida na Bacia Hidrográfica do Rio Paraguaçu, no entanto atualmente vem enfrentando uma grave crise hídrica, devido à agricultura irrigada e a falta de saneamento ao longo da bacia (LAMAS, SANTA RITA, MIRANDA, 2016).
Atualmente, as principais atividades econômicas desta região são a agricultura, a mineração e o turismo, que se configurou principalmente após a criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina (PNCD), em 1985. A agricultura familiar, essencialmente de subsistência, vem resistindo ao longo do tempo, após vários ciclos econômicos. Como símbolo de resistência, as pequenas unidades produtivas guardam saberes, fazeres e nosso patrimônio genético. Estas epistemologias vem sendo invisibilizadas e apagadas durante o processo civilizatório e, principalmente, com o suporte cognitivo da “tecnociência capitalista” (DAGNINO, 2020).
Os territórios rurais vêm perdendo consideravelmente a biodiversidade. Bens comuns como as florestas, as águas, as sementes e a terra passaram a ser mercantilizados por grandes empresas e usufruídos por uma pequena parcela privilegiada da sociedade. Por outro lado, boa parte da população segue marginalizada e excluída dos bens essenciais para a produção e a reprodução de suas vidas. Concomitante, a produção midiática promove valores hedonistas e individualistas, pautados na sociedade de consumo, nada responsáveis com o coletivo. Desta forma, vem transformando abundância em escassez, bens comuns em mercadorias de luxo e, provocando o rompimento tanto dos vínculos comunitários, como dos vínculos com a natureza.
Neste contexto, a economia solidária emerge como uma alternativa de organização da vida produtiva. Além disso, ela procura constituir novas relações sociais, baseadas nos valores de solidariedade e cooperação. Tais iniciativas pressupõem um olhar integral sobre o ser humano e suas necessidades básicas. Fortalece a organização sociocomunitária, as cooperativas, associações comunitárias e os pequenos empreendimentos familiares. Por isso a importância da “tecnociência solidária” como base cognitiva para construção de um modelo alternativo de sociedade (DAGNINO, 2020)
Neste sentido, surge a “educomunicação de raiz, como um fazer educomunicativo que valoriza os vínculos com a terra e as matrizes sertanejas na geração de espaços e
produtos comunicativos críticos e contextualizados” (MOREIRA, 2020, p.9). Esta autora menciona a perspectiva decolonial como forma de superação do colonialismo, o racismo e o patriarcado. Portanto, “o diálogo com a terra e a realidade local” (MOREIRA, 2020, p.9) são essenciais. É preciso “estar atenta à história, aos valores e aos discursos dos agricultores familiares, das mulheres, dos grupos indígenas e quilombolas e, em particular, de sua relação com a terra e com o ambiente sertanejo” (MOREIRA, 2020, p.9).
Na Agenda 2030 (ONU, 2015), os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) estabelecem práticas a serem adotadas para fomentar o desenvolvimento sustentável. Dentre eles, cabe destacar: a erradicação da pobreza; fome zero e agricultura sustentável; saúde e bem-estar; cidades e comunidades sustentáveis e; consumo e produção sustentáveis. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, 2018), os agricultores familiares são atores-chave para alcançar a segurança alimentar e nutricional, redução da pobreza e preservação ambiental.
Cinco anos após a criação da Agenda 2030, o mundo foi surpreendido pela pandemia. A COVID-19 complexificou o cenário econômico e vem modificando as relações sociais. No interior, principalmente na zona rural, vem provocando intensas transformações. Neste contexto, surge o projeto intitulado Chapada Agroecológica, a fim de promover a agroecologia como meio de produção e reprodução da vida, valorizando os agricultores familiares, mestres da cultura, dos saberes e fazeres local. Trata-se de um portal integrado à TV UNEB, com um website e um programa no Youtube, voltados para agricultura familiar, em especial a juventude rural. Esta iniciativa visa incentivar a agroecologia enquanto “tecnociência solidária” (DAGNINO, 2020), fortalecendo a agricultura familiar, integrando as principais instituições de ensino público da região e promovendo a educação ambiental.
Descrição da experiência
Em dezembro de 2019, a sociedade civil se reuniu no campus XXIII, da UNEB, em Seabra, Chapada Diamantina, e iniciou um planejamento para a implementação da Feira Agroecológica territorial. Estavam reunidas instituições sociais e educacionais, prefeituras, Sebrae, agricultores familiares e pequenos produtores locais. O objetivo principal era criar um circuito curto de comercialização para os produtos agroecológicos da agricultura familiar. Além disso, valorizar a cultura local, promover a tecnologia social e oferecer cursos e oficinas de capacitação. Foram três meses de encontros mensais para a articulação, o planejamento e a organização. Finalmente, no dia 10 e 11 de março de 2020 ocorreu a primeira edição da Feira Agroecológica da Chapada Diamantina, com o tema principal agroecologia e o feminino, devido à proximidade do dia internacional da mulher.
Duas semanas depois da primeira e única edição presencial, surge a pandemia da COVID-19, que até hoje vem atravessando a vida da população mundial; urbana e rural. Este contexto gerou mudanças drásticas e vem provocando diversas transformações no modo de vida e nas relações sociais. A internet passou a ocupar um lugar de destaque e, vem se configurando, como um recurso essencial. Diante disso, seis meses após a primeira edição, surge a ideia de transformar o projeto presencial, Feira Agroecológica territorial, em projeto digital, “Chapada
Agroecológica”, iniciativa da aluna do mestrado profissional da UEFS, com a colaboração dos alunos do IFBA e orientação dos professores da UNEB, do Núcleo de Comunicação do Departamento de Ciências Humanas e Tecnológicas (DCHT) do campus XXIII, em Seabra.
Este projeto propõe a produção e divulgação de um portal de notícias, informações e conteúdos sobre a agroecologia, na Chapada Diamantina. Por meio dos recursos midiáticos, o projeto pretende produzir conteúdo para promover, fomentar, articular, mobilizar e formar indivíduos, para a valorização dos conhecimentos relacionados à agroecologia, entendida como atividade que carrega o conjunto dos saberes e fazeres relativos à agricultura tradicional e todo o patrimônio cultural que o segmento resguardou.
Para tanto, a iniciativa conta com o apoio do principal veículo de comunicação do território da Chapada Diamantina, o canal da TV UNEB Seabra, criado pelo Núcleo de Comunicação do DCHT-XXIII, durante a pandemia. Trata-se de um canal de diálogo e formação, disponível na plataforma do YouTube, com perfis nas principais redes sociais. Isso possibilitará que os conteúdos audiovisuais produzidos em parceria com a TV Uneb Seabra possam ser divulgados na TVE Bahia. Esta solução criativa está voltada para a formação cultural dos jovens, nossos futuros Mestres, pois com o modelo socioeconômico vigente, a memória dos saberes e dos fazeres vem se perdendo nesta região.
Este projeto é realizado por meio da pesquisa-ação, uma vez que visa desenvolver investigações com foco na reflexão coletiva de um grupo social e na busca de soluções práticas possíveis para os problemas locais. Com a intenção de fortalecer vínculos, os métodos participativos e a pesquisa-ação podem gerar uma transformação social e promover o desenvolvimento local. Assim, estimular os indivíduos a serem sujeitos de seu desenvolvimento, saindo da posição de objeto de intervenções.
Além disso, através da educomunicação, utilizar as mídias digitais voltadas para a educação ambiental. A partir da descentralização da comunicação, objetiva promover epistemologias, co-criar e facilitar o intercâmbio de saberes entre instituições de educação e a sociedade, por meio da colaboração entre alunos e agricultores. A educomunicação surge como um campo teórico/prático onde a ação é base constitutiva. Portanto, “entrecruzar saberes, promovendo a interlocução ou a conversa entre os que constroem e/ou se utilizam desses saberes” (SOARES, 2006, p.3).
Resultados
Estamos passando por uma fase complexa, que requer o fortalecimento da sociedade civil. Este modelo de sociedade vem apresentando incoerências e a pandemia comprovou que uma mudança é necessária. Embora trágico, este momento vem proporcionando reflexões e profundas alterações no modo de vida.
O formato presencial da Feira Agroecológica foi uma importante iniciativa do território, pois estimulou a agroecologia enquanto modelo social e solidário de atividade produtiva que integra questões sociais, econômicas e ambientais. Este modelo de organização da vida em sociedade fortalece o desenvolvimento socioprodutivo,
resgatando e valorizando os saberes e fazeres do território. Por meio de circuitos curtos de comercialização foi possível promover uma maior conexão do produtor com o consumidor, oferecer alimentos frescos e saudáveis, proporcionar a autonomia do agricultor familiar e fortalecer a identidade e a rastreabilidade dos produtos locais. Neste novo formato, agora digital, o projeto “Chapada Agroecológica” vem integrando, por meio da internet, a Universidade Estadual da Bahia (UNEB), a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), principais instituições de ensino público da região da Chapada Diamantina. Além disso, oportuniza o estreitamento da relação da educação ambiental com a comunidade, em especial com os agricultores familiares e a juventude rural.
Ao estimular a agroecologia como meio de produção e reprodução da vida, objetivamos incentivar a economia social e solidária, desenvolver uma tecnociência solidária, valorizar a cultura local, promover a segurança alimentar e nutricional, melhorar a subsistência, gerir de forma sustentável os recursos naturais, proteger o meio ambiente e promover o desenvolvimento rural sustentável.
Link do projeto: https://chapadaagroecologica.wordpress.com Referências bibliográficas
BAHIA (Estado). Secretaria de Planejamento do Estado da Bahia. Plano territorial de desenvolvimento rural sustentável e solidário do território Chapada Diamantina. Chapada Diamantina, BA: CAR/IFBA/NEDET/SDR/SEPLAN, 2016 DAGNINO, R. Tecnociência Solidária: um manual estratégico. Marília: Lutas Anticapital, 2019
FAO. Fao's Work on Family Farming: Preparing for the Decade of Family Farming (2019–2028) to achieve the SDGs. Disponível em: < http://www.fao.org/3/CA1465EN/ca1465en.pdf>. Acesso em: agosto 2020.
LAMAS, I; SANTA RITA, Luciana; MIRANDA, Rogério (orgs.). Semeando Águas no Paraguaçu. Rio de Janeiro: Conservação Internacional, Brasil, 2016.
MOREIRA, G. A Educomunicação e os Sertões do século XXI. Educ. Soc., Campinas, v. 41, 2020.
ONU. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2015/10/agenda2030-pt-br.pdf>. Acesso em: agosto 2020
SOARES, D. Educomunicação – O que é isto? Gens – Instituto de Educação e
Cultura, 2006. Disponível em:<
http://portalgens.com.br/baixararquivos/textos/educomunicacao_o_que_e_isto.pdf>. Acesso em: set. 2020.