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Queridos alunos, amigos e professores da UFMG,

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Academic year: 2021

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Queridos alunos, amigos e professores da UFMG,

Fiquei muito feliz quando a professora Carmela Maria Polito Braga me convidou para participar da Recepção aos Calouros 2010/2 da UFMG, com o objetivo de falar para os que foram aprovados no vestibular e estão iniciando a vida acadêmica nesta Universidade de tanto prestígio.

Mais feliz ainda, quando ela disse que pensou no meu nome considerando o respeito que tem pelo meu trabalho e pelos temas que estudo e, ainda, que ficaria muito feliz se eu pudesse aceitar o convite, o que para ela seria uma grande honra.

Na verdade a grande honra e felicidade foram minhas ao receber o convite. Adoraria participar, mas, infelizmente, não posso estar presente em função de um compromisso de viagem para o exterior, já assumido há muitos meses.

Com essa mistura de felicidade pelo convite e de tristeza por não poder estar presente, pensei em escrever uma carta para os calouros da UFMG.

Então, em primeiro lugar quero desejar que vocês tenham uma excelente recepção na UFMG e aproveitem a oportunidade para refletir sobre os caminhos que podem ser construídos e reforçados em suas trajetórias individuais e na trajetória de nossa vida universitária.

Para contribuir um pouco para esta reflexão, trarei algumas ideias que estão no meu livro “Noites de insônia: cartas de uma antropóloga a um jovem pesquisador”. Escrevi este livro pensando nas angústias de cada aluno, e também nas minhas próprias angústias, vividas no meio acadêmico.

Em uma noite de insônia, fiquei pensando no que iria falar para os meus alunos que me convidaram para abrir uma Jornada Científica na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois de pensar em vários caminhos para a minha palestra, lembrei-me de uma ideia que sempre transmito para os meus alunos, ideia que me acompanha e me consola nas minhas dificuldades no mundo acadêmico. Imaginei-me, então, escrevendo uma carta a um jovem pesquisador que estivesse experimentando as angústias naturais do momento de escrever um trabalho científico.

Pensei em contar, nesta carta, uma experiência importante da época em que fazia o meu doutoramento, muitos anos atrás. Estava sofrendo e enfrentando dificuldades para escrever a minha tese sobre a trajetória de Leila Diniz quando, por acaso, li a autobiografia de Norbert Elias.

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Norbert Elias, durante décadas, foi um verdadeiro outsider no mundo acadêmico. Somente aos 57 anos conseguiu sua primeira posição estável como professor de sociologia. Seu livro “O processo civilizador”, um clássico das Ciências Sociais, foi publicado em alemão em 1939, mas só foi descoberto tardiamente, na década de 1970, na França e na Inglaterra.

Em “Norbert Elias por ele mesmo”, o sociólogo escreveu o que considero ser um verdadeiro consolo para os jovens pesquisadores, pelo menos, um grande consolo para mim.

“Sabia que era um bom professor – já tinha a reputação entre meus companheiros de estudos de possuir o dom de explicar coisas complicadas com simplicidade. Gostava de ensinar. No que diz respeito à pesquisa, dispunha apenas de minha tese de doutorado para provar minha capacidade. E ela representava um trabalho duro. Tinha confiança em minhas capacidades intelectuais, e ideias não me faltavam. Mas o imenso trabalho intelectual que minha tese exigiu me parecera dificílimo. Só bem mais tarde fui pouco a pouco compreendendo que noventa por cento dos jovens encontram dificuldade ao redigir seu primeiro trabalho importante de pesquisa; e, às vezes, acontece o mesmo com o segundo, o terceiro ou o décimo, quando se consegue chegar aí. Teria agradecido se alguém me dissesse isso na época. Evidentemente pensamos: „Sou o único a ter tais dificuldades para escrever uma tese (ou outra coisa); para todos os outros, isso se dá mais facilmente‟. Mas ninguém disse nada. É por isso que digo isso aqui. Essas dificuldades são absolutamente normais.”

Então este é o meu primeiro recado para vocês: se vocês souberem, quando estiverem escrevendo seus trabalhos científicos, que todo mundo sofre ou sofreu o que estão sofrendo, talvez consigam sofrer um pouco menos. Se reconhecerem que “essas dificuldades são absolutamente normais” e que acontecem com todos os pesquisadores em seus primeiros, segundos, décimos trabalhos científicos, que aconteceu inclusive com Norbert Elias, que também acontece comigo e com tantos outros professores e cientistas, talvez consigam rir um pouco de seus dramas e de seus sentimentos de inadequação no mundo acadêmico.

Deixo aqui esta ideia para que, mais tarde, não possam dizer, como Norbert Elias, que nunca ninguém disse esta verdade para vocês.

Meu segundo recado vem de Roland Barthes, uma ideia que coloquei como epígrafe do meu livro “A arte de Pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais”. Barthes disse que:

“Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos... Nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível”.

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O ponto que acho importante discutir aqui, a partir destes dois pensadores, é que, para os futuros cientistas ou profissionais, o principal problema não está no currículo ou na falta de mercado de trabalho, mas no reconhecimento e no prazer que se tem com o ensino e a pesquisa.

A competição no campo acadêmico exige inúmeras atividades que obrigam o professor, mesmo aquele que gosta de dar aulas, a dedicar um enorme tempo para concretizá-las. Não é um desejo individual, mas uma obrigação dentro de um coletivo que precisa de sua alta produtividade em um nível de excelência. Pode-se argumentar que os professores da graduação são também da pós-graduação e existe um grande investimento para que o programa seja bem avaliado pela Capes. O que exige publicação em revistas científicas e livros, participação em eventos nacionais e internacionais, a realização de pós-doutorados no exterior, orientação de alunos, participação em inúmeras reuniões e comissões. O tempo do professor em sala de aula e a qualidade da sua aula conta muito pouco, se é que conta, nesta avaliação.

Acho importante então pensar, ao falar do ensino e da pesquisa, nesta desvalorização do espaço da sala de aula, do ensino e da relação com os alunos. O que deveria ser o espaço privilegiado do professor se tornou algo que atrapalha a sua pontuação como pesquisador. A sala de aula deixou de ser um espaço de prestígio, de prazer e de troca. A carreira passou a ser orientada para as regras de reconhecimento, poder e prestígio dentro do campo que, atualmente, encontram-se fora das salas de aula.

Por outro lado, em um recente concurso para o meu departamento, tivemos dezenas de excelentes candidatos para uma única vaga, o que mostra que ingressar na Universidade, e ser um professor, ainda é uma carreira extremamente desejada e disputada no campo.

O sociólogo Anthony Giddens, ao contar porque nunca pensou em abandonar a vida acadêmica apesar de seus problemas, disse:

“Apesar de minhas dificuldades em Cambridge, sempre me senti satisfeito na vida acadêmica estando em contato regular com os estudantes. Perguntaram ao célebre teórico social francês Michel Foucault, pouco antes de sua morte, como ele definiria a si mesmo, e ele respondeu simplesmente: „como um professor‟. Também é assim que me vejo. Lecionar, especialmente para um público estudantil tão diverso, tem sido um dos grandes prazeres de minha vida”.

Gostaria de discutir com vocês porque este prazer parece estar desaparecendo em nossa vida acadêmica. Nós professores, extremamente pressionados e preocupados com as avaliações da Capes e do Cnpq, não podemos deixar em segundo plano o ofício de professor. Como cientistas e pensadores, deveríamos reverter esta situação de

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desvalorização do ensino, encontrando meios para que a sala de aula volte a ser um espaço de reconhecimento, investimento, e, principalmente, de prazer.

Para terminar, queria pensar com vocês porque vale a pena investir no ensino e na pesquisa.

Acredito que vale a pena porque as diferentes áreas de conhecimento nos dão um instrumental teórico e prático para pensar o mundo de forma criativa. Vale a pena porque a universidade ensina a pensar, a ler, a escrever, de uma forma consistente e científica. Vale a pena porque os professores têm a preocupação em formar não apenas outros professores, mas, também, pesquisadores da realidade brasileira. Vale a pena porque a universidade não está voltada apenas para a formação do profissional, mas, também, de um ser humano mais pleno, consciente de seu papel social, mais lúcido e crítico, com valores mais sólidos, um cidadão preocupado com a ética e a solidariedade. A universidade ensina a não ter preconceito, a enxergar a realidade atrás da aparência das coisas e provoca uma verdadeira transformação (às vezes uma revolução) na visão de mundo, no estilo de vida, nos valores e comportamentos não só dos alunos, mas também dos professores. Vale a pena porque ensinar e aprender exige paixão, crescimento permanente, mudanças constantes.

Uma pesquisa recente revelou que 94% dos brasileiros estão insatisfeitos com seus trabalhos. Vale a pena porque temos a possibilidade de estar entre os 6% que têm o trabalho como fonte de prazer, paixão e realização.

Vale a pena porque existem os alunos, e com eles e por eles, precisamos estar sempre nos renovando, nos testando, inventando novas maneiras de ensinar e de aprender. Para responder as perguntas dos mais curiosos, para motivar os mais ariscos, para controlar os mais falantes, para fazer falar os mais tímidos. Para manter na faculdade os mais desmotivados e para seduzir os que não descobriram o sabor da pesquisa e do ensino. Vale a pena porque os alunos existem.

O que posso concluir depois de 20 anos como professora e pesquisadora, é que o professor mais do que ensinar está, até o fim da vida, aprendendo: aprendendo com seus alunos, com seus pesquisados, com os livros, com os filmes, os programas de televisão, os jornais e revistas, com tudo. Acho que não pode existir uma profissão melhor do que esta, mesmo com condições de ensino e pesquisa cada vez mais precárias. Enquanto existirem professores e alunos apaixonados pelo ensino e pesquisa, nossa profissão continuará sendo o nosso maior prazer.

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Gosto de ainda me sentir muito feliz, realizada e orgulhosa de ser professora da UFRJ, espero não perder este sentimento nunca, e espero que vocês sintam o mesmo por serem alunos da UFMG.

Um abraço carinhoso em cada um de vocês e sucesso na vida acadêmica. Vale a pena!

MIRIAN GOLDENBERG

Professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da

Universidade Federal do Rio de Janeiro. Um a

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