A PRIMEIRA CRUZADA: UMA ANÁLISE CONJUNTURAL 1

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A PRIMEIRA CRUZADA: UMA ANÁLISE CONJUNTURAL1

Paulo Christian Martins Marques da Cruz (Autor) 2 Cyro de Barros Rezende Filho (Orientador) 3

O Movimento Cruzadista, como demonstra o estudo de Jean Flori [2006, p. 14-17], é apresentado como a máxima aventura do Homem Medieval, subproduto de uma Europa que passa de cidadela atacada para uma Europa atacante, capaz de prover em sua mentalidade a salvação através da busca de uma guerra civilizada e pura contra o infiel em ultramar. Tal movimento, que por assim dizer, demonstra-se constante após sua inauguração por Urbano II em fins do século XI, perdura, entretanto, de maneira mais política até fins do século XIII – perdendo seu caráter original.

A Primeira Cruzada, que foi capaz de retirar da Europa um contingente significativo de nobres sem terras e seus exércitos em uma jornada de milhares de quilômetros, necessita uma imprescindível análise das conjunturas tanto da Alta Idade Média como sob aspectos relevantes de princípios da Baixa Idade Média.

No século IX e X a Europa é invadida e cercada, como sugere Marc Bloch [1982, p. 20-29], o que contribuiu para o surgimento de feudalismos bastardos na Europa, uma vez que sua expansão é severamente interrompida na Península Ibérica e no Leste da Europa. A expansão do sistema feudal então só é retomada em meados do século X, com o fim das invasões ou alocação dos novos povos invasores em terras europeias, como é o caso do Ducado da Normandia4 e da formação do Reino da Hungria5.

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XXI Encontro Estadual de História – ANPUH-SP

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Graduando em História pela Universidade de Taubaté (UNITAU). paulo_christian_1@hotmail.com

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Prof. Dr. da Universidade de Taubaté (UNITAU). profcyro@yahoo.com.br

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Após sucessivas invasões Vikings as costas francesas, um líder viking de nome Rollo assina com o Rei da França, Carlos o Simples o tratado de Saint-Clair-sur-Ept, em que Rollo se tornava vassalo do Rei da França e convertia-se ao cristianismo, em contrapartida, o rei cederia a Rollo a região da Normandia.

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Vindos das estepes da Ásia Central, os cavaleiros magiares rumaram em direção a Europa Central no século IX, encontrando forte resistência do Sacro Império Romano Germânico, estabelecendo-se na região da panônia, fundando ali um reino, a precursora da atual Hungria.

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Primeiramente, apesar da ausência que comprove uma expansão demográfica, mas que pode ser claramente percebido através dos movimentos de migração dentro da Europa, como é o caso dos errantes, clérigos sem domicilio fixo e a expulsão dos mouros para o sul da Península Ibérica [Franco Júnior, 2001, p.25]. Apesar da recuperação demográfica sentida nos tempos do Império Carolíngio [séc. VIII a X], a expansão populacional do século X foi uma conjuntura que transformou a sociedade feudal e possibilitou o Renascimento Urbano.

Jacques Le Goff [2007, p. 67] cita o relevante debate sobre o ano 1000 a partir de uma visão de “ponto de partida” para diversos feitos e fatores. Fixando a ideia da expansão demográfica, o autor trabalha o fato de substituição, no período, das ferramentas de madeira pela de ferro de maneira sistemática, além da rotação trienal, que possibilitava o plantio de duas culturas; a multiplicação dos moinhos, o emprego do cavalo como animal de tração, a melhora do clima e uma série de outros fatores que perfizeram uma conjuntura denominada Evolução Agrícola.

O crescimento demográfico não somente se abateu sobre os camponeses multiplicando assim os servos, mas igualmente os senhores, onde muitos não sendo os primogênitos passaram a não possuir terras e a migrar na Europa em busca de novos domínios ou da expansão dos já existentes, como é o caso das Invasões Normandas da Inglaterra (1066) e da Sicília (1060).

A superpopulação de senhores na Europa multiplicou os combates internos, o que levou a Igreja de Roma a empreender uma busca por uma “civilização” da Guerra, temendo o enfraquecimento da Europa frente uma grande invasão como a ocorrida na Península Ibérica do século VIII. A antítese proposta pela Igreja foi a Paz Deus e Trégua de Deus [Rezende Filho, 1989, p. 71], que no caso da primeira, buscava a proteção dos religiosos, pastores, crianças e demais indivíduos que pudessem ser vitimas dos embates. A Trégua de Deus foi uma tentativa da Igreja de limitar os combates a determinados dias da semana e sua proibição no natal e na quaresma, o que acabava por ser ignorado.

Gregório VII, que havia instituído uma série de reformas que passaram a História com o nome de Reformas Gregoriana (1049-1119), esforçou-se para teologicamente legitimar a prática da guerra, como uma “válvula de escape” para as querelas internas europeias. Segundo Dominique Barthélemy [2012, p.290-293], a

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Igreja buscou a sacralização da figura do cavaleiro, em tempos da formação de uma Cristandade Européia – já legitimado como instrumento por excelência da guerra.

Tendo a França como eixo central da expansão do feudalismo, a partir da conjuntura do excedente de senhores sem terras, o feudalismo então se expandiu ao norte em direção à Inglaterra, ao Sul em direção a Sicilia e ao Sul da Itália, ao Oeste, em direção a Península Ibérica no processo da Reconquista, e ao Leste, em direção ao Rio Vistula, já em combate aos eslavos pagãos – como uma forma de guerra justa. Entretanto, apesar do grande fluxo migratório de senhores no interior da Europa. Um número significativo de senhores normandos, franceses e italianos continuavam sem terras, como a famosa família de mercenários normandos Hauteville [MATTHEW, 1996, p.87].

No Oriente próximo, a Terra Santa encontrava-se neste momento na posse de árabes islamizados. Conquista essa que deu em 636, após a Batalha de Iarmuk, onde o Império Bizantino perdeu sua hegemonia na região da Síria. [BARTLETT, 1999, p. 38-39], a perda da Terra Santa e, consequentemente de Jerusalém, fechou aos cristãos o comércio mediterrânico, tão importante aos promissores mercadores italianos. Exemplo disso é o caso dos mercadores de Amalfi, que buscaram uma aliança com Bizâncio à procura de proteção militar e de um comércio mais rentável e que através de uma cordial relação mantiveram rotas comerciais com o mundo árabe [LE GOFF, 1958, p.58]. Tirando proveito das intenções internas de uma Europa em expansão, mostrou-se comum durante a História das Cruzadas o financiamento de tais expedições por parte das cidades italianas6, buscando sempre despojos comerciais relativos a seus interesses.

Ao Leste da Europa encontrava-se o Império Bizantino, sobrevivente Oriental do Império Romano que se esfacelara politicamente de maneira final em 476. De cultura e língua grega, os bizantinos professavam o rito ortodoxo do cristianismo e, logo entraram em conflitos diplomáticos que culminaram na Cisma do Oriente em 1054, o que separou finalmente as duas Igrejas. Funcionando como um “portão” do Mundo Cristão, o Império Bizantino sofria com sucessivos ataques de povos árabes e islamizados que penetravam em seu território e eram empurrados novamente fora deste [DIELH, 1961, p.102-104]. Em 1071 na Batalha de Manzikert, o Império Bizantino

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Amalfi, Veneza, Gênova, entre outras cidades, contribuíram para tais expedições militares. No caso da Primeira Cruzada, a ajuda de tais mercadores fora utilizada por Hugo de Vermandois e Roberto de Caurteheuse.

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sofreu uma importante derrota frente os turcos seljúcidas que a partir desta vitória fixaram-se permanentemente na Anatólia e pressionaram assim Constantinopla.

Alexius I Comneno, Imperador Bizantino de 1081 a 1118, sofrendo com as constantes pressões dos seljúcidas pede ajuda ao Ocidente e a seu maior representante, o Papa. Tratava-se então de um pedido de ajuda direto entre as duas Igrejas e seus representantes, uma vez que Alexius I, através da prática do cesaropapismo, era o representante temporal de deus na terra, para a Igreja Ortodoxa. Segundo Fátima Fernandes [2006, p.113], Alexius solicitou ao Papa Urbano II o envio de mercenários que ficassem sob o comando direto do Imperador de Constantinopla. O que foi visto por Urbano como uma oportunidade de reaproximar as duas Igrejas e atestar sua legitimidade frente ao Sacro Império Romano Germânico7, uma potência medieval que não reconhecia sua autoridade.

Religiosamente falando, os esforços da Igreja para que a teologia agostiniana que buscava uma homogeneidade do cristianismo na Europa fosse espalhada pela então nascente cristandade, foi ainda acompanhada das famosas interpretações escatológicas da Alta Idade Média. Cyro Rezende [2005, p. 55-57] trabalha as diversas datas que povoaram a mentalidade religiosa do homem medieval europeu, que acreditava piamente na eminência do apocalipse. Em especial com a proximidade do ano 1033 [o aniversário da morte de Cristo].

Como já foi demonstrado por Jacques Le Goff, o Ano Mil é para o Homem Medieval um marco não apenas econômico e político, mas também religioso. E os primeiros anos do século XI são marcados por um crescente fluxo de peregrinações à Jerusalém, a cidade mais importante para o cristianismo. Estando a mercê das políticas ora cordiais, ora hostis por parte dos muçulmanos, a cristandade passou a identificar tais peregrinos como mártires de uma cidade que deveria ser liberta, na eminência do retorno do profeta cristão e da inauguração de um reino sagrado com duração de mil anos [LINS, 1958, p. 232-234].

Em 1095, tais conjunturas culminaram no apelo à cristandade por parte de Urbano II, o Papa a época para que nobres e camponeses tomassem a cruz e libertassem

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Os Imperadores Alemães, historicamente caracterizados pelo pleno envolvimento nas “Querelas das Investiduras”, como uma forma de exercerem igualmente uma forma de poder temporal e religioso, se opuseram durante praticamente toda a História das Cruzadas ao Papado com sede em Roma.

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Jerusalém do domínio do infiel. Cruz esta que foi tomada graças à oferta de riquezas e salvação para nobres, camponeses, devedores, etc. [BARTLETT, 1996, p. 63-66].

RESULTADOS

A análise da Europa feudal do século IX evidenciou campo propício para tal movimento militar-religioso. Demonstrado por Marc Bloch, a Europa feudal recupera-se demograficamente do período de estagnação carolíngia para sofrer uma rápida expansão econômica, igualmente, demonstrada por Jacques Le Goff no Renascimento Urbano e do comércio – terrestre e mediterrânico. O crescente sentido escatológico e milenarista do homem medieval na passagem do primeiro milênio evidencia a presença de um sentimento de jornada mística, peregrinação e penitência frente a um fim eminente. O Império Bizantino, que dava acesso a Europa Oriental mostrava-se em decadência frente às pressões seljúcidas, o que passou a colocar a Europa em uma posição defensiva. O que fora tomado por Urbano II mostrou-se a fundação de um movimento religioso-militar contínuo de luta com o infiel na busca da igual legitimação de sua autoridade em uma Europa fragilizada por combates internos.

CONCLUSÕES

Concluí-se que o Movimento Cruzadista, inaugurado em 1095 tornou-se, graças a soma das conjunturas trabalhas e com atenção especial a conjuntura mental-religiosa, a maior aventura do Homem Medieval. O advento das Cruzadas como movimento constante e sistemático no interior da cristandade, mostrou-se como uma conjuntura de longa duração, tendo mesmo após a Conquista de Jerusalém [1099] e sua subsequente perda [1187], reverberada na sociedade feudal até a modernidade; de nobres a camponeses, alcançando, posteriormente a Conquista da América iniciada por Colombo [1492] que fora, em análise mais ampla, inspirada no Movimento Cruzadista, em busca de riquezas a fim de libertar a Terra Santa.

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A pesquisa baseou-me na análise bibliográfica relativa as conjunturas políticas, sociais, mentais e econômicas, partindo da Alta Idade Média até o clímax da inauguração do Movimento. Buscou-se orientar-se pelas obras de Jacques Le Goff e Marc Bloch em relação aos aspectos econômicos e mentais e nas obras de Bartlett e Barthélemy no que tange às conjunturas de legitimação de uma sociedade que buscava no ano mil uma homogeneidade e a inversão de seu caráter defensivo para atacante.

BIBLIOGRAFIA

BARTHÉLEMY, Dominique. A Cavalaria: Da Germânia antiga à França do século XII. Campinas-SP: Unicamp, 2007.

BARTLETT, W. B.. História Ilustrada das Cruzadas. São Paulo: Ediouro, 1999. BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. São Paulo: Edições 70, 1982.

DIEHL, Charles. Grandes problemas da História Bizantina. São Paulo: Editora das Américas, 1961.

FERNANDES, Fátima Regina. Cruzadas na Idade Média. In: MAGNOLI, Demétrio, História das Guerras. São Paulo: Contexto, 2006: 105-135.

FLORI, Jean. Jerusalém e as Cruzadas. In: LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, v. 02. São Paulo: EDUSC, 2002: p. 7-23.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: O Nascimento do Ocidente. 2a Ed. São Paulo: Brasiliense, 2001.

LE GOFF, Jacques. Mercadores e Banqueiros na Idade Média. Lisboa: Gradiva, 1958.

________________. Raízes da Europa Medieval. Petrópolis-RJ: Vozes, 2007.

LINS, Ivan. A Idade Média: A Cavalaria e as Cruzadas. 3a Ed. Rio de Janeiro: São José, 1958.

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MATTHEW, Donald. A Europa Medieval: Raízes da Cultura Moderna. In: Grandes Impérios e Civilizações. Madri: Del Prado, 1996.

REZENDE FILHO, Cyro de Barros. A redescoberta do paraíso terrestre: o milenarismo messiânico medieval. Revista de Ciências Humanas (Taubaté), Taubaté-SP, v. 1, n. 11, p. 57-64, 2005.

______________________________. Guerra e Guerreiros na Idade Média. São Paulo: Ática, 1989.

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Referências

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