1 SUMÁRIO EXECUTIVO
Este primeiro relatório de análise da reforma universitária, com base na reunião de 29 e 30 de março, ocorrida em Brasília, procura construir um mapa qualitativo dos argumentos levantados nesse primeiro colóquio das entidades representativas do meio universitário brasileiro. A iniciativa construída pelo Ministério da Educação permitiu aos representantes dos diversos segmentos se posicionar a respeito de três eixos temáticos: papel da universidade, autonomia, acesso e permanência no ensino superior. Deve-se ressaltar que este levantamento inicial busca posicionar os atores em termos de proximidade de concepções, e identificar alguns pontos de consenso e divergência de forma mais sistematizada. De forma sintética, apresentada em sua íntegra, abaixo, pode-se dizer que o sistema universitário brasileiro necessita de regulamentação orgânica, aberta e fundada em princípios contemporâneos, apta a contemplar nas suas diversas especificidades todos os integrantes do sistema de ensino superior.
2 A DISCUSSÃO SOBRE O PAPEL DA UNIVERSIDADE
Com relação ao papel da Universidade, a discussão no colóquio aponta para uma idéia de construção de um sistema universitário que permita superar uma concepção construída a partir do conjunto das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). Nesse sentido, os atores caminham em direção a um modelo marcado pela pluralidade e pela diversidade regional. Assim, a idéia de um sistema de ensino superior surge como o marco inicial para um processo de regulação caracterizado por grande legitimação social.
Por outro lado, a clivagem público/privado aparece na discussão dos atores como um elemento central na distribuição dos recursos públicos e capacidade de inserção no meio acadêmico. Esse divisor é exemplificado na tabela abaixo1, levando-se em conta um eixo de grandeza fundado na intervenção estatal (−) menor ou (+) maior. Assim:
(-) (+)
Menos Intervenção Intervenção Equilibrada Maior Intervenção
ANUP CONSEB FASUBRA
CRUB CONCEFET ANACEU ABRUEM ANAFISO UNE ABRUC SINASEFE SBPC CONTEE FNCE UNDIME ANDES
Embora os participantes tenham chegado a uma compreensão mútua de que a expressão “universitário” não deve se limitar àqueles inseridos no sistema público federal, a perspectiva de manutenção do modelo atual é defendida com maior veemência pela FASUBRA, CONCEFET, ABRUEM, UNE, SINASEFE, CONTEE, UNDIME e ANDES.
Outras instituições têm uma perspectiva do sistema centrada no ensino superior de natureza pública, porém organizado de maneira mais flexível. As instituições situadas nessa posição são as seguintes: CONSEB, CRUB, ANACEU, ANAFISO, ABRUC, SBPC e FNCE.
Em outro extremo, isolada, encontra-se a ANUP, que apenas sugere o controle das atividades da iniciativa privada dentro do marco regulatório já existente. A distinção entre público e privado é reafirmada na colocação a respeito da criação de secretarias distintas para estas instituições no âmbito da SESU.
3 A DISCUSSÃO SOBRE O PROJETO DE DESENVOLVIMENTO
A idéia de universidade como instituição central no projeto de desenvolvimento nacional é outro elemento que surge nas discussões a respeito do sistema de ensino superior no Brasil. Essa dimensão da universidade como parte de um projeto nacional é descrita no quadro abaixo, a partir de maior ou menor ênfase:
(-) (+) Menor ênfase Ênfase mediana Maior ênfase
ANACEU CRUB UNE
ANAFISO CONCEFET SINASEFE CONSED FASUBRA CONTEE
ANUP ABRUC ABL
FNCE ABRUEM UNDIME
SBPC
4 A DISCUSSÃO SOBRE AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA
O tema da autonomia universitária envolve a polêmica sobre a natureza da autonomia e as formas de se assegurar seu exercício. Nesse ponto, verifica-se por parte de alguns setores, a sobreposição entre autonomia e financiamento estatal, sendo o último um vetor imprescindível para a realização do primeiro. Dentro deste eixo temático, pode-se organizar a disposição dos argumentos a partir de maior ou menor ênfase:
(-) (+) Menor Responsabilização do Estado Autonomia Acadêmica Maior Responsabilização do Estado
ANUP ABRUC UNE
ANAFISO ABRUEM ANET FASUBRA CRUB CONCEFET FNCE CONSED SBPC ANDIFES ABC ANDES 5 ACESSO E PERMANÊNCIA
O tema do acesso e permanência comporta duas vertentes importantes: pedagógica e sócio-econômica. No tocante à primeira questão, os argumentos dos diversos atores ressaltam a necessidade de modificação dos ensinos fundamental e médio, assim como na estrutura curricular do ensino de nível superior. Com relação ao segundo problema, as posições tratam de políticas sociais destinadas a possibilitar condições efetivas de estudo aos setores mais carentes da sociedade. Parcela considerável das instituições ressaltou a necessidade de ampliação das vagas no sistema público. Uma das propostas levantada nos debates sugere a utilização dos recursos do CONFAT para o custeio de programas destinados à permanência do aluno carente na universidade e nos demais órgãos do sistema de ensino superior. O seguinte quadro ilustra algumas posições:
Ênfase no Sistema Público Mudanças Curriculares e Políticas de Manutenção Ênfase no Profissional ANDIFES ABC SBPC ANDES CONSED ANAFI UNDIME
6 PERSPECTIVAS DE ORGANIZAÇÃO JURÍDICA DO SISTEMA DE ENSINO SUPERIOR
No desiderato do Ministério da Educação e Cultura de elaboração final de um Anteprojeto de Lei Orgânica do Ensino Superior, assume relevo a comparação com outras legislações universitárias estrangeiras.
Nesse particular destaca-se a Ley Orgánica 6/2001 da Espanha, que dispôs sobre as Universidades daquele país. Essa lei estabelece em sua Exposição de Motivos as diretivas básicas do sistema universitário espanhol: papel central no desenvolvimento cultural, econômico e social do país; ampla mobilidade de estudantes e professores no sistema; princípio da eficiência e da responsabilidade; articulação dos diferentes níveis de
competência do sistema; princípio da fexibilidade: autonomia para contratação, criação de centros e estruturas, estabelecimento de procedimentos para admissão de estudantes e constituição em diversas formas societárias; criação de uma Agência Nacional de Avaliação da Qualidade e de Acreditação das Universidades; avaliação do ensino, da atividade de pesquisa, docente e de gestão, assim como dos serviços e programas das Universidades; distinção dos âmbitos de pesquisa dos diversos entes do sistema de ensino superior; igualdade nas condições de acesso ao ensino universitário; princípio da igualdade, mérito e capacidade na seleção do professorado e dos funcionários técnico-administrativos; carreira acadêmica equilibrada e coerente.
A partir de legislações correlatas, pode-se apontar como importantes para uma Lei Orgânica do Ensino Superior os seguintes aspectos:
1. definição dos princípios gerais e diretrizes do sistema de ensino superior; 2. fixação das pautas diretivas que determinam as funções da Universidade;
3. definição exaustiva do que consiste a autonomia universitária e os diferentes graus de determinação desta de acordo com a natureza de cada ente do sistema de ensino superior;
4. definição da natureza e regime jurídico das Universidades Públicas;
5. estabelecimento do marco regulatório para criação de universidades privadas e centros universitários privados, bem como seus diversos regimes jurídicos;
6. diferenciação entre Universidades públicas e Institutos Universitários de Investigação;
7. definição precisa dos mecanismos de governo e de representação paritária nas Universidades públicas e privadas;
8. definição em cláusulas gerais da garantia de qualidade dos diversos entes do sistema de ensino superior;
9. estabelecimento das diretrizes gerais dos planos de desenvolvimento institucional dos diversos entes do sistema de ensino superior;
11. determinação dos mecanismos de fomento da investigação para o desenvolvimento científico e tecnológico;
12. mecanismos de acesso à Universidade;
13. normas gerais da carreira docente das universidades públicas e privadas; e 14. regime econômico e financeiro das universidades públicas.
O Anteprojeto da Lei Orgânica do Ensino Superior, em larga medida, deverá definir: 1. os princípios básicos do sistema de ensino superior;
2. as particularidades dos entes integrantes; e
3. as normas gerais da atividade universitária, particularizando aspectos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação e dando unidade a todo o conjunto.
7 CONCLUSÕES
O I Colóquio de Entidades da Educação teve um resultado bastante auspicioso, na medida que tornou claro o mapeamento dos diversos interesses orgânicos dos principais atores envolvidos no processo de discussão dos rumos da educação universitária brasileira. Definiu-se a necessidade de uma legislação que contemple o sistema de ensino superior como um todo, e não apenas voltado para o setor público federal. Também se estabeleceu um razoável consenso em torno da idéia da universidade como central no desenvolvimento cultural, econômico e social do País, com maior ou menor ênfase, segundo o posicionamento estratégico de cada entidade.
No que concerne à autonomia, os diversos representantes de entidades propugnaram por uma ampla definição de contornos de tal autonomia, em seus múltiplos aspectos, observada a conexão efetuada por algumas entidades entre essa questão e a perspectiva do financiamento estatal. No tópico Acesso e Permanência, há uma convergência de idéias no sentido de que entidades públicas e privadas têm interesse na
ampliação da base dos integrantes do sistema, concentrando-se as divergências na questão dos diversos mecanismos para efetivação dessa desejada incorporação.
Em suma, de todo esse debate, parece-nos que a futura Lei Orgânica do Ensino Superior deverá contemplar esses diversos aspectos, de maneira orgânica e em detalhes, não só definindo os princípios do sistema, as diretivas básicas do ensino superior, mas também especificando, de forma mais exaustiva, temas como autonomia universitária, marco regulatório de universidades e centros universitários privados, representação universitária, planos de desenvolvimento institucional, etc.
O Anteprojeto da Lei Orgânica do Ensino Superior definirá portanto as normas gerais da atividade universitária e do ensino superior, dando organicidade e operacionalização a todo o sistema.
8 EQUIPE TÉCNICA
- Prof. Dr. Marco Aurélio Ruediger - Prof. Dr. Mauricio Motta
SIGLAS UTILIZADAS
ABC Academia Brasileira de Ciência
ABRUC Associação Brasileira das Universidades Comunitárias
ABRUEM Associação Brasileira dos Reitores de Universidade Estaduais e Municípios
ANACEU Associação Nacional dos Centros Universitários
ANAFI Associação Nacional das Faculdades Isoladas
ANAFIS0 Associação Nacional das Faculdades e Instituições Superiores
ANDES Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior
ANDIFES
Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior
ANET Associação Nacional das Escolas Técnicas e Tecnológicas
ANUP Associação Nacional de Universidade Particulares
CNE Conselho Nacional de Educação
CNTE Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação
CONCEFET
Conselho Nacional dos Dirigentes do Centros Federais de Educação Tecnológica
CONSED Conselho Nacional de Secretários de Educação
CONTEE Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino
CRUB Conselho de Reitores das Universidades Brasileira
FASUBRA Federação de Sindicatos de Trabalhadores da Universidades Brasileiras
FNCE Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação
SBPC Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
SINASEFE
Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica e Profissional
UNDIME União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação