A Nova Caracterização da Sucessão Trabalhista
Adriana Goulart de Sena*
A Nova Caracterização da Sucessão Trabalhista1
Em direito, certo é que a realidade atua de forma decisiva, quer na interpretação doutrinária, quer na evolução jurisprudencial, quer na produção científica a propósito. E no Direito do Trabalho tal não se afigura diferente.
Dessa feita, imprescindível o exercício interpretativo confor-me, magistralmente, consignado pelo Prof. Aroldo Plínio Gonçalves:
“Longe, também, de sugerir postura conservadora, a tarefa que se constitui não apenas no ‘repensar o que já uma vez foi pensado’, mas principalmente ‘em pensar até ao fim o já pensado uma vez, - ex-pressão utilizada por RADBRUCH para definir o próprio labor interpretativo - é, ainda, a alternativa de se projetar alguma luz sobre a própria realidade do Direito que tem vínculos direitos com o fator hu-mano. Assim, embora não seja certo, porque intrincados fatores não autorizam tal previsão, sempre será possível que o resultado dessa tare-fa contribua para que as transformações sociais possam se tare-fazer não de
* Juíza do Trabalho, Titular da Ia Vara do Trabalho de C ontagem - MG
P rofessora A ssistente do D epartam ento de D ireito do Trabalho e Introdução ao Estudo do Direito M estre em Direito Com ercial pela U niversidade Federal de M inas G erais
1 Im possível não d eclinar o meu sincero agradecim ento ao sem pre P rofessor M aurício G odinho D elgado, orien tad o r na d isse rtaç ão apresentado ju n to ao m estrado da Faculdade de D ireito da UFMG, D outor por essa C asa, estudioso do direito, inteligência cativadora, sendo um d os m ais brilhantes Juizes m ineiros e especial “ m estre” do D ireito do T raba-lho pátrio.
modo caótico, mas com o mínimo de sofrimento possível, com a racionalidade que a época alcança.”2
Realmente de suma importância o labor interpretativo e, especialmente, em um instituto exponencial no Direito como a “suces-são”. Sabe-se que a palavra sucessão no Direito Civil possui várias acepções. Em sentido amplo é o ato pelo qual uma pessoa toma o lugar da outra, investindo-se, no todo ou em parte, nos direitos que lhe com-petiam. E, no seu sentido civilista restrito é “trasferência de herança”.
Já no ramo especializado laborai, a sucessão trabalhista, tam-bém denominada de “sucessão de empregadores” consiste, segundo o estim ado P rofessor M aurício Godinho D elgado, “no instituto justrabalhista em virtude do qual se opera, no contexto da transferência
de titularidade de empresa ou estabelecimento, uma completa transmis-são de créditos e assunção de dívidas trabalhistas entre alienante e adquirente envolvidos.”3
Do conceito supra, pode-se pontuar duas questões singula-res: o instituto que se está tratando é justrabalhista e o contexto é o de transferência de titularidade. Vale pontuar que a completa transmissão de créditos e assunção de dívidas não é especificidade do instituto tra-balhista, uma vez que a sucessão civil a titulo universal (aquela do Direito Civil), também possui este efeito.
Preceitua o art. 10 da CLT que “qualquer alteração na estru-tura jurídica da empresa não afetará os direitos adquiridos por seus empregados”. E o art. 448 da CLT assevera que “a mudança na proprie-dade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados”.
2 G ONÇALVES, Aroldo Plínio . Técnica processual e teoria do processo Rio de Janeiro: Aide, 1992 p 14 3 D ELG A D O , M aurício G odinho Introdução ao direito do trabalho. 2. ed. Sào Paulo: LTr, 1999 p.344.
Importa salientar que, apesar do diminuto rigor técnico da Consolidação na utilização da expressão “alteração na estrutura jurídi-ca da empresa”, do texto legal exsurge um jurídi-caráter funcional que é o de realçar a despersonalização do empregador e vinculação do obreiro pe-los laços empregatícios ao empreendimento empresarial, independente-mente do seu titular.
As alterações que tendem a acontecer não se verificam nes-ta estrutura jurídica da empresa, mas sim na estrutura jurídica do titular da empresa que detém o controle da empresa e seus estabelecimentos, podendo este titular ser pessoa física, pessoa ju ríd ic a ou ente despersonificado.
Do teor dos dispositivos legais afere-se uma certa impreci-são e generalidade. As palavras e os verbos utilizados como: “qualquer alteração”, “qualquer dessas alterações ou mudanças não afetará os con-tratos de trabalho” expressam este conteúdo general. Ademais, as pró-prias expressões que lei emprega possuem intenso conteúdo genérico como “qualquer” e “afetar os contratos...”.
Essa imprecisão é detectada por Maurício Godinho Del-gado, que, todavia, consigna que a abertura celetista é que tem permi-tido novas interpretações:
“Tal imprecisão e generalidade é que têm permitido à juris-prudência, hoje, alargar o sentido original do instituto da sucessão tra-balhista, de modo a abarcar situações anteriormente tidas como estra-nhas à regência dos arts. 10 e 448 da CLT. Tais novas situações (toma-das comuns, no último lustro do milênio, pela política oficial de restruturação do sistema financeiro e pela política oficial de privatizações, por exemplo) conduziram a jurisprudência a reler os dois preceitos celetistas, encontrando neles um tipo legal mais amplo do que o origi-nalmente concebido pela doutrina e jurisprudência dominantes.”4
A sucessão trabalhista opera-se por diversas fórmulas de modificações empresariais, ou seja, diversas “situações-tipo”5. As fór-mulas societárias e empresariais não são o ponto primordial do instituto do transpasse. O cerne da questão sucessória é a não afetação dos contratos empregatícios dos obreiros pelas modificações intra ou interempresariais, ou seja, que não haja alteração das garantias relativas aos contratos laborais.
As chamadas “situações-tipo tradicionais”6, são as que correspondem à interpretação majoritária que tradicionalmente se fazia do instituto sucessório. São situações clássicas.
A primeira situação-tipo tradicional é aquela que diz respei-to à “alteração na estrutura form al da pessoa jurídica” que contrata sob a forma de emprego a força de trabalho. São modificações na moda-lidade societária (sociedade por cotas de responsabimoda-lidade limitada para
Sociedade Anônima ou o inverso, por exemplo), processos de fusão, incorporação, cisão e outros correlatos ou, ainda, mudança de uma fir-ma individual em direção ao modelo societário ou o inverso. É verdade que tais situações podem se desdobrar em inúmeras situações concretas emergidas da realidade prática do mercado empresarial.
Por exemplo, a alienação a qualquer título (aquisição de controle, incorporação, fusão, etc.) da titularidade de pessoa jurídica pode dar origem a uma nova pessoa jurídica titular do empreendimento e respectivos contratos de trabalho ou alcançar novo controlador para a antiga pessoa jurídica mantida. Em qualquer dos casos, a sucessão pre-serva com os novos empregadores os antigos contratos de trabalho, com todos os seus efeitos passados, presentes e futuros.
5 D ELG A D O , M aurício G odinho Introdução ao direito do trabalho 2. ed. São Paulo: LTr, 1999 p.346 6 D ELG A D O , M aurício Godinho Introdução ao direito do trabalho. 2. ed. São Paulo: LTr, 1999. p.346.
A segunda situação-tipo tradicional toca à "substituição do antigo empregador por outra pessoa física ou jurídica”. Esta substi-tuição pode ocorrer por aquisição de estabelecimentos isolados ou em conjunto, ou aquisições da própria empresa em sua integralidade.
Da mesma forma como acima consignado, esta segunda si-tuação-tipo pode se desdobrar em outras possibilidades concretas, como, por exemplo, a situação de alienação a qualquer título (compra e venda, arrendamento, etc.) de estabelecimento financeiro, industrial, comerci-al ou agroeconômico em que laboram empregados (ou conjunto de esta-belecimentos), fixando novo titular para esses estabelecimentos aliena-dos (agências, filiais, armazéns, unidades rurais, etc.). Preservaaliena-dos os contratos de trabalho em face dos novos empregadores, com todos os seus efeitos atuais, passados e futuros.
As situações-tipo tradicionais são predominantes e tendem a se acompanhar da “continuidade prestação de labor pelo emprega-do Em outras palavras, o contrato permanece íntegro com o novo empregador, mantida a prestação laborativa pelo antigo empregado.
Mas, tal característica, ou seja, a “continuidade da presta-ção laborativa pelo obreiro ” nem sempre vai ocorrer nas situações-tipo da sucessão trabalhista conforme percebido pela jurisprudência traba-lhista dos últimos anos do presente século. Essa releitura jurisprudencial do velho texto da Consolidação das Leis do Trabalho deu origem a situ- ações-tipo novas de sucessão trabalhista.
As chamadas situações-tipo novas de sucessão multiplica-ram-se no fim do século em decorrência da profunda reestruturação empresarial ocorrida no mercado brasileiro (especialmente, o mercado financeiro, de privatizações). São situações-tipo novas quaisquer mu-danças intra ou interempresarial significativas que possam afetar os contratos de emprego.
Tais novas situações tiveram o condão de m otivar um a nova leitura dos artigos 10 e 448, da CLT e o tipo legal encontrado foi mais extenso do que aquele originalm ente concebido pela doutrina e ju ris-prudências m ajoritárias.
O que importa, ou seja, o sentido e os objetivos da sucessão trabalhista, nesse olhar contem porâneo, “residem na garantia de que qualquer m udança intra ou interempresarial não poderá afetar os con-tratos de trabalho (arts. 10 e 448, da CLT).“7 A m udança na em presa que afete a garantia original dos contratos em pregatícios provoca a inci-dência dos dispositivos legais pertinentes à hipótese sucessória, não sendo im prescindível a continuidade da prestação de serviço pelo obreiro ao sucessor.
Assim , tem -se que a “sucessão trabalhista” com porta dois modelos, um tradicional e o outro extensivo. Em posição relevante está o “m odelo tradicional” , um a vez que acolhe, mesmo hodiem am ente, a m aioria das situações fático-jurídicas oferecidas pela realidade em pre-sarial e trabalhista. O “m odelo extensivo”, em posição não menos rele-vante, acolhe um número restrito de situações fático-jurídicas, mas de grande importância no mercado em presarial pátrio.
A idéia central e da qual não se afasta nenhum dos dois m odelos, é que haja a transferência de um a universalidade; em outras p a la v ra s, que h aja a “tra n s fe rê n c ia de p a r te s ig n ific a tiv a do(s)
estabelecimento(s) ou da empresa de modo a afetar significativam ente os contratos de trabalho.” (grifos no original)8
A passagem para outro titular de um a parte substancial de um com plexo em presarial (bens m ateriais e im ateriais), envolvendo de modo com prom etedor o antigo com plexo, pode sim ensejar a sucessão
7 D E L G A D O , M a u ríc io G o d in h o In tro d u ç ã o a o d ireito d o tra b a lh o 2 ed S ão P aulo: LTr, 1999. p 348 8 D E L G A D O , M a u ric io G o d in h o In tro d u ç ã o a o d ire ito d o tra b a lh o 2 .ed S ão P aulo: LTr, 1999 p .350.
de em pregadores, haja vista a afetação de modo significativo os antigos contratos laborais.
A continuidade da prestação de serviço é requisito assim ila-do à noção de sucessão trabalhista pela vertente tradicional. Para tal, adere ao instituto sucessório a necessária continuidade da prestação laborativa pelo obreiro ao novo titular9. Fundem -se as em presas e os empregados passam a laborar para a nova organização societária ou, em outro exemplo, transferese um estabelecim ento, m antendose os em -pregados nos antigos postos de trabalho.
Não se trata, é claro, de abolir este requisito, um a vez que em inúmeras situações fático-jurídicas ele estará presente e será de todo pertinente. O que se pretende distinguir, exatamente, como um novo m odelo jurídico de pensam ento, é que este requisito não é mais im pres-cindível à existência do instituto sucessório trabalhista.
A presença deste requisito ao lado do prim eiro já m enciona-do (este sim im prescindível) tom a inequívoca a incidência enciona-do tipo legal celetista sucessório. Ao se deparar o aplicador do direito com a conti-n u id a d e la b o r a tiv a e t r a conti-n s f e r ê conti-n c ia iconti-n te r e m p r e s a r ia l, h a v e rá , inquestionavelm ente, sucessão de em pregadores com respeito ao novo titular da em presa ou estabelecim ento.
Todavia, ausente o requisito da continuidade do trabalho sob a form a de emprego, a hipótese em exame, m erecerá por parte do operador do direito um a análise mais acurada do tipo de transferência
9 J u ris p ru d ê n c ia o riu n d a d o C o le n d o T rib u n a l S u p e rio r d o T rab alh o , d e n o ta a c o lh id a d e sta v erte n te , a sa b er: B rasil. D istrito F ed era l T rib u n al S u p e rio r d o T ra b alh o . In o c o rre s u c e ssã o tra b a lh ista q u a n d o o e m p re g a d o não p re sta s e rv iç o s ao su c esso r, se n d o e s te p arte ile g ítim a p a ra a tu a r n o p ó lo p a ssiv o da ação. R e c u rso d e revista, n. 1 52 .1 7 3 /9 4 .5 . R e la to r M m G a lb a V elloso. E , tam bém : B rasil. D istrito F ed e ral. T rib u n al R eg io n a l d o T ra b a lh o d a 10a R eg ião A su c e ssã o de e m p re g a d o re s se o p e ra q u a n d o v erific a d a e fe tiv a su c e s s ã o n a s o b rig a ç õ e s rela tiv a s a o c o n tra to de tra b a lh o , sen d o req u isito e sse n cia l à su a c a ra c te riz a ç ão a n ã o -so lu ç ã o d e c o n tin u id a d e n a p re s ta ç ã o de se rv iço s. R e c u rso O rd in ário n
1.4 6 4 /9 5 R e la to r J u iz F ranklin de O liv eira . A c ó rd ã o d e 23 .0 6 .9 5 . D JU , pág 873 3 A m b a s ju ris p ru d ê n c ia s foram c ita d a s p o r F O N S E C A , R o d rig o D ia s d a S u c e ssã o d e e m p re sa s no d ire ito d o tra b a lh o Jo rn a l T ra b alh ista. B rasília, a n o X V n .7 4 0 , p 1384, 14 d e z 1998
empresarial ocorrida. É claro que não será toda e qualquer transferên-cia intraempresarial que ocasionará a sucessão de empregador , mas tão-somente aquela transferência que afetar de modo relevante (signi-ficativo) as garantias anteriores do contrato de emprego. Esta é a lição
do Prof. Maurício Godinho Delgado.10
Mas, por outro lado, transferências interempresariais que não tenham afetado, relevantemente, o contrato de trabalho poderão configurar a hipótese sucessória se acompanhadas da continuidade da prestação laborativa para o novo titular. A atuação do intérprete será imperativa, portanto.
Em nenhum a das duas vertentes se propugna pela irresponsabilidade do sucessor. A responsabilidade do novo titular está presente, mesmo que o contrato de trabalho não esteja mais em vigor. E assim se diz porque, uma vez operada sucessão, presente a assunção, em decorrência da lei, de todos os direitos e obrigações decorrentes do contrato de trabalho. Ora, valores devidos pelo antigo empregador são de responsabilidade daquele que assumiu o complexo empresarial ou o estabelecimento. Tal efeito responsabilizatório, inclusive, é aquele oriun-do oriun-do direito civil, em nada diferinoriun-do quanoriun-do aplicaoriun-do no instituto justrabalhista. Seria um verdadeiro contra senso pretender que em um instituto oriundo do direito do trabalho, a responsabilidade do sucessor fosse mais acanhada do que aquela garantida pelo próprio direito civil.
Cláusulas contratuais excludentes de responsabilidade, fir-madas entre o alienante e o adquirente, não tem valia na esfera traba-lhista, uma vez que a assunção dos contratos pelo novo titular decorre de normas imperativas oriundas da legislação heterônoma. A valia de tais cláusulas se restringe à esfera comum
A doutrina tradicional costumava afirmar que o direito não mantém qualquer responsabilidade ao alienante pelos créditos traba-lhistas referentes ao período anterior à transferência. A responsabilida-de responsabilida-de tais créditos seria tão-somente do sucessor empresarial. Entretan-to, essa questão não é pacífica em sede doutrinária, muito menos jurisprudencial. Desta feita, uns compreendem que a lei trabalhista não
exclui a responsabilidade do sucedido. Outros, comungando com o en-tendimento clássico de imprescindibilidade da continuidade da presta-ção de serviço pelo obreiro, aduzem que, a princípio, inexiste a solida-riedade de empresas na sucessão, todavia admitem a possibilidade de sua fixação para acrescer garantia ao trabalhador.
Na presença de fraude (art. 9°, da CLT), tanto a vertente clássica como a nova, admitem a responsabilização solidária do alienante. Alguns aduzem que a sanção para tal procedimento seria a nulidade do ato sucessório, com responsabilidade ilimitada para os en-volvidos no trespasse.
Outros doutrinadores defendem uma idéia intermediária, sustentando a possibilidade de responsabilização do sucedido de corte subsidiário, quando o sucessor não puder garantir aos empregados a totalidade dos direitos. Essa responsabilização subsidiária se apresenta-ria quando ausente fraude ou simulação, uma vez que havendo mácula a responsabilidade seria de corte solidário, como se viu acima.
Na “Nova Caracterização da Sucessão Trabalhista”, a juris-prudência tem procedido leitura no sentido de inferir a presença da res-ponsabilidade de corte subsidiário do antigo empregador pelos valores resultantes dos respectivos contratos de trabalho. Verifica-se uma am-pliação das possibilidades de responsabilização subsidiária do antigo titular do empreendimento. Tal responsabilização é admitida porque e quando comprometidas as garantias empresariais deferidas aos contra-tos de emprego e não apenas na presença de fraude (conforme
pensa-mento clássico). Assim, nesta vertente atual, a responsabilização do sucedido extrapola o campo da fraude, indo além daquela anterior e comumente aceita.
De outra forma, quando não houver alienação, a responsa-bilidade do empregador anterior subsiste, de corte subsidiário. É que nessas hipóteses de transferências precárias mais e mais são necessárias garantias ao crédito do obreiro, como por exemplo, no caso do arrenda-mento.
Considerando que os efeitos sucessórios que decorrem da lei, os vínculos sobrevivem automaticamente em face do fenômeno, não carecendo da concordância do trabalhador, nem do empregador, o que inadmitiria a denominada rescisão indireta (art. 483, da CLT)
Não se admite a inserção de cláusula contratual estabele-cendo a dissolução contratual em caso de “cessão da empresa”. Seria como admitir que o empregado pudesse renunciar a direitos futuros, ainda não integrados em seu patrimônio. Situação em confronto aos princípios do Direito do Trabalho e aos preceitos que regem a matéria (arts. 9o , 10, 448 e 468, da CLT).
Infelizmente, a realidade atual é de uma política oficial de prevalência do capital em detrimento do ser humano e até mesmo do próprio Estado, de reestruturação do sistem a financeiro e das privatizações e de ausência de labor do obreiro para o novo adquirente, com o surgimento de partes “nobres” e partes “podres” .
Em épocas não tão distantes, instituições financeiras mal administradas (por negligência, ou até má-fé), sofriam a intervenção do Banco Central, eram liquidadas, faliam ou se tomavam bancos estatais ".
11 B EB B ER , Júlio César. Intervenção e liquidação extrajudicial de instituições financeiras - sucessão trabalhista - o caso da venda dos bancos sob intervenção R evista LTr São Paulo, v. 62, n.4, p.475, abr 1998. O referido autor elenca como exem plos da hipótese aludida com o os casos do B anco Habitasul, do Banco Sulbrasileiro (hoje Banco M eridional), do B anco A ndrade A m eux, do Banco H alles, do Banco Residência.
Hodiemamente, diante da política governamental econômi-ca e a buseconômi-ca da manutenção de estabilidade monetária, o procedimento é diverso, tendo surgido a intervenção e a liquidação “sui generis”, além do regime de “administração especial temporária”.
A primeira disposição legal a propósito desta inovação nos procedimentos da Lei 6024/74 foi a Medida Provisória no. 1182 de 17 de novembro de 1995. Tal medida dispunha “sobre a responsabilidade solidária de controladores de instituições submetidas aos regimes de que tratam a Lei n. 6024, de 13 de março de 1974, e o Decreto-Lei n. 2321, de 25 de fevereiro de 1987; sobre a indisponibilidade de seus bens; sobre privatização de instituições cujas ações sejam desapropriadas, na forma do Decreto-Lei n. 2321, de 1987, e dá outras providências”.
No art. 4o desta Medida Provisória ficou preceituado que: l
“No resguardo da economia pública e dos interesses dos depositantes e investidores, o interventor, o liquidante ou o conselho diretor da instituição submetida aos regimes de intervenção, liquidação extrajudicial ou administração especial temporária, quando prévia e ex-pressamente autorizado pelo Banco Central do Brasil, poderá:
I - transferir para outra ou outras sociedades, isoladamente ou em conjunto, bens, direitos e obrigações de empresa ou de seus esta-belecimentos;
II - alienar ou ceder bens e direitos a terceiros e acordar a assunção de obrigações por outra sociedade;
III - proceder à constituição ou reorganização de sociedade ou sociedades para as quais sejam transferidos, no todo ou em parte, bens, direitos e obrigações da instituição sob intervenção, liquidação ou administração especial temporária, objetivando a continuação geral ou parcial de seu negócio ou atividade.”
Depois foram sendo editadas pelo Poder Executivo várias medidas provisórias com a mesma ementa “Dispõe sobre medidas de
fortalecim ento do Sistem a Financeiro Nacional e dá outras providênci-as”, quais sejam: 1214, 1250, 1288, 1327, 1369, 1412, 1460, 1507,
1507-9 a 1507-26, 1604-27 a 1604-38. Esta últim a M edida Provisória (1604-38) é 22 de outubro de 1998 e foi publicada no Diário Oficial da União em 23 de outubro de 1998, tendo sido convertida na Lei n. 9.710, de 19 de novem bro de 1998.
N a últim a disposição provisória e no texto convertido em lei, a referência introdutória feita era sobre disposições sobre “m edidas de fortalecim ento do Sistem a Financeiro N acional”. No seus artigos I o a saliência era ao PROER - Program a de Estím ulo à Restruturação e ao Fortalecim ento do Sistem a Financeiro N acional, sendo que a sutileza foi a tônica.
O texto da M edida Provisória inicial era enfático relativa-m ente às forrelativa-m as de atuação do interventor corelativa-m a autorização do Banco Central. O texto atual é o seguinte:
“O Programa de Estím ulo à Restruturação e ao Fortaleci-mento do Sistem a Financeiro Nacional instituído pelo Conselho M one-tário Nacional com vistas a assegurar liquidez e solvência ao referido Sistem a e a resguardar os interesses de depositantes e investidores, será implementado por meio de reorganizações adm inistrativas, operacionais e societárias, previamente autorizadas pelo Banco Central do B rasil.” Art. I o da M edida Provisória 1604-31 de 02/04/98.
Os procedim entos “sui generis” instituídos por essas m edi-das provisórias e realizados pelo Banco C entral, podem ser assim exem plificados:
separa-se o ativo (fundo de com ércio com todo o patrim ônio principal, destituído das dívidas) do passivo não relativo aos depósitos bancários. A quele é entregue - alienado - para outra insti-tuição financeira (no caso do Banco Econôm ico, ao Banco Excel; no
caso do Banco Bamerindus ao Banco HSBC), a qual continua a desen-volver norm alm ente as atividades bancárias; este, destituído de todo o seu ativo principal, fica sob intervenção.” 12
Efetivamente, não se está diante da intervenção preconiza-da pela lei 6024/74. A nova realipreconiza-dade econôm ica e a política governa-mental atual, induzem o surgimento de um a intervenção distinta, “sui generis” . Assim, aos aplicadores do direito incum be o desafio de reali-zar um a interpretação distinta, tam bém “sui generis” para as situações dela decorrentes.
Os contratos denom inados de “contrato particulares de com -pra e venda de ativos, assunção de direitos e obrigações e outras avenças”, costum am prever que a assunção deva ser realizada através de aquisi-ção apenas de determ inados ativos e passivos, o que nos levaria a um a alienação parcial. Entretanto, a análise global do instrumento dem ons-tra, na realidade, a alienação de toda organização produtiva. 13 Ora, alienada a “unidade econôm ico-jurídica”, presente a hipótese sucessória trabalhista por sua nova caracterização.
Assim, pode ser dito que onde se verifique a ocorrência de transferência da carta patente, estar-se-á diante de hipótese sucessória na esfera trabalhista. N a realidade, ao ser transferida a carta patente, transferiu-se a atividade produtiva (fundo de com ércio), sobre a qual pendia toda a atividade econôm ica que, perm aneceu sendo desem pe-nhada pelo comprador. 14
12 B E B B E R , Jú lio C ésar. In te rv e n ção e liq u id a ç ã o e x tra ju d ic ia l de in stitu iç õ e s fin a n c e ira s - s u c e s s ã o tra b a lh ista - o ca so d a v e n d a d o s b a n c o s so b interv en ç ão . R e v ista LTr. S ão P aulo, v. 62, n.4 , p .4 7 5 , abr. 1998.
13 B E B B E R , Jú lio C é s a r In te rv e n ção e liq u id a ç ã o e x tra ju d ic ia l de in stitu iç õ es fin a n c e ira s - s u c e s s ã o tra b a lh ista - o c a s o d a v e n d a d o s b a n c o s so b in terv en ç ão . R e v ista LTr. S ão P aulo, v. 62, n.4, p .4 7 6 , abr. 1998
14 A p ro p ó s ito d o s e fe ito s d o ftindo d e c o m é rc io e m in stitu iç ã o banc ária : B rasil. B ra sília T rib u n al S u p e rio r do T ra b a lh o A T U A Ç À O D O S F U N D O S D E C O M É R C IO E M IN S T IT U IÇ Ã O B A N C Á R IA . E F E IT O S PA R A A S U C E S S Ã O T R A B A L H IS T A C o n sid e ra d o inic ialm en te, em se u se n tid o lato, o fundo de c o m é rc io te m d e sa fia d o a a rg ú c ia d o s ju r is ta s p a ra e n q u a d rá -lo nas c a te g o ria s ju ríd ic a s tra d ic io n a is R e n o m ad o s ju ris ta s b ra sile iro s, italian o s, fra n c e se s, a le m ã e s, b e lg a s d e se n v o lv e ra m , a o lo n g o d o tem p o , d iv e rsa s te o ria s a c e rc a de su a v e rd a d e ira n a tu re z a ju ríd ic a , c h e -g a n d o al-g u n s, c o m o Je a n E sc a rra , a e n sin a r q u e a real n a tu re z a ju ríd ic a d o fundo d e c o m é rcio n ã o s e e n c o n tra ain d a e s c la re c id a A d e sp e ito , to d av ia, d e s ta co n tro v é rsia d o u trin ária , p o d e -se afirm a r q u e , b a sic a m e n te , o fu n d o d e c o m é
r-Entretanto, mesmo que não houvesse a transferência total da atividade produtiva, mas ocorresse transform ação que pudesse afetar os contratos de trabalho e suas garantias, restaria operada a sucessão trabalhista pela sua nova caracterização.
Hoje a preocupação dos aplicadores do direito não reside apenas em fraudes tendentes à irresponsabilidade (art. 9o, da CLT), mas, especialm ente, em situações legais excludentes de responsabilidades.
O Professor M árcio Túlio Viana, a propósito, cunhou a sugestiva expressão "fraude através da lei ” e não apenas contra a lei. Esta assertiva surgiu a partir de situação distinta, entretanto, plenam en-te assim ilável. M isen-ter a transcrição dos seus judiciosos dizeres:
“ Mas é especialm ente no direito que as artimanhas aconte-cem, pois o interesse individual - constrangido pela lei - aspira a ser livre de novo; e violar, atacando de frente, é sem pre m ais arriscado do que fraudar, dissim ulando o ataque. (....)
De certo modo, o caso das cooperativas é mais do que um a fraude à lei: é fraude através da lei, contra o direito. O pretexto é o desem prego; a razão é o lucro; o resultado é o subem prego.” 15
O tem a sucessório perm itiu à doutrina e jurisprudência tra-balhista construírem um dos exemplos mais ricos de adequação da or-dem jurídica à inovação dos fatos sociais. Situações NOVAS, desafiam a nossa INTELIGÊNCIA e merecem interpretações NOVAS. Felizm en-te, esse processo de adequação - em bora ocorrido na fase de crise do
c io é o in stru m e n to d a a tiv id a d e d o e m p re sá rio N o se u sen tid o estrito , p o is - aqui e sp e c ific a m e n te em re la ç ã o a in s titu iç ã o b a n c á ria - o fu n d o d e c o m é rc io n ã o só re p re s e n ta u m a u n id a d e ec o n ô m ic a -p ro d u tiv a , c o m o a p ró p ria ra z ã o de ex istir d o b a n c o , p ertin e n te as o p e ra ç õ e s b a n c á ria s d ia ta s a c e ssó ria s (c o b ra n ç a , c a ix a d e seg u ra n ç a , e tc) e , p rin c ip a l-m e n te , a s fu n d a l-m e n ta is (d e p ó sito , d e s c o n to , el-m p ré stil-m o , c o n ta -c o rre n te ), o u sa n d o -se a in d a incluir, l-m e sl-m o col-m a d is c u s s ã o d o u trin á ria a re sp e ito , a c lie n te la d o b a n c o F re n te a tais ra z õ e s é de s e re c o n h e c e r a o co rrê n c ia d a s u c e ssã o tra b a lh is ta n a h ip ó te s e s o b e x am e. R e c u rso d e re v ista co n h e c id o , m as n ã o p ro v id o (sic ) R e c u rso d e R e v ista n. 4 9 4 2 7 / 9 2 .5 . A c. n 1 3 50/94 5a T u rm a R ei M in A rm a n d o d e B ritto A c ó rd ã o d e 10 0 6 9 4 D iá rio d a Ju stiç a , B ra silia , p
14 9 8 6 . B a n c o d e D a d o s d o S e rv iç o d e L e g isla ç ã o e J u risp ru d ê n c ia d o B. T rib u n al R eg io n al d o T rab a lh o d a 3 a R e g ião . 15 V IA N A , M á rc io T ulio. F rau d e á L ei em te m p o s d e c rise in Tem as de D ire ito e P ro c e sso d o T ra b a lh o C o o rd e n a ç ã o :
Direito do Trabalho - ainda se m ostrou preponderantem ente influencia-do pelos princípios centrais desse ramo jurídico de assegurar tutela es-pecial à pessoa hum ana que trabalha na relação laborativa.
Resumo
O presente trabalho tem por escopo o estudo da sucessão na esfera juslaboral. A partir da norm atização celetista do instituto que nos é fornecida pelo art. 10 e 448, será dem onstrado que , apesar do dim inu-to rigor técnico da Consolidação na utilização da expressão “alteração na estrutura jurídica da em presa”, do texto legal exsurge um caráter funcional que é o de realçar a despersonalização do em pregador e vinculação do obreiro pelos laços em pregatícios ao em preendim ento empresarial, independentem ente do seu titular.
A sucessão trabalhista opera-se por diversas fórm ulas de modificações em presariais, ou seja, diversas “situações-tipo” 16 que po-dem ser tradicionais ou novas. As situações tradicionais são predom i-nantes e, geralmente, possuem a característica da continuidade da pres-tação de serviços pelos em pregados: “alteração na estrutura fo rm a l da
p essoa ju r íd ic a " ou “substituição do antigo em pregador p o r outra pessoa fís ic a ou ju ríd ica ” .
As chamadas situações-tipo novas de sucessão trabalhista m u ltip lic a ra m -se no fim do sé cu lo em d e c o rrê n c ia da p ro fu n d a reestruturação empresarial ocorrida no mercado brasileiro (especialmen-te, o m ercado financeiro, de privatizações). São situações-tipo novas quaisquer mudanças intra ou interempresarial significativas que pos-sam afetar os contratos de emprego. A mudança na em presa que afete a garantia original dos contratos em pregatícios provoca a incidência dos dispositivos legais pertinentes à hipótese sucessória, não sendo im
cindível a continuidade da prestação de serviço pelo obreiro ao suces-sor. N ão se trata, é claro, de abolir o requisito da continuidade da p res-tação de trabalho pelo em pregado, um a vez que em inúm eras situações fático-jurídicas ele estará presente e será de todo pertinente. O que se p retende distinguir, exatam ente, com o um novo m odelo ju ríd ico de pen-sam ento, é que este requisito não é m ais im prescindível à existência do instituto sucessório trabalhista.