Tradução, ética e pós-colonialismo: nós versus eles
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(2) 32. Tradução, ética e pós-colonialismo: nós versus eles. 1.. CONCEITUAÇÃO DO TERMO Este trabalho tem como objetivo discutir algumas idéias sobre o pós-colonialismo, especificamente em suas relações com a teoria e a prática da tradução. Num primeiro momento, e sem grandes aprofundamentos, poderíamos dizer que “pós-colonial” se refere ao que vem após um período de dominação, em que a parte dominada foi “colonizada” por uma outra parte. O dicionário Houaiss (2008) já registra o termo “póscolonial” e diz que, na área dos estudos literários, “pós-colonial” significa “concernente a uma corrente de crítica de inspiração pós-estruturalista que se especializa em buscar traços de dominação colonial no pensamento e no texto literário”. Existem também os que ligam o pós-colonialismo mais estritamente à produção cultural de ex-colônias do império britânico, atribuição que provavelmente se vincula à extensão que o Império Britânico atingiu no passado. Rajagopalan (2007, p. 107) propõe uma diferenciação interessante entre “póscolonialismo” e “pós-colonialidade”, sendo esta última um fenômeno historicamente condicionado, e o primeiro o conjunto de tentativas de teorizar esse fenômeno. Esse autor também insiste na idéia de que existem muitos pontos em comum entre o póscolonialismo e a tradução. Nos estudos da tradução, Douglas Robinson (1997, p. 13-14) discute a fluidez do termo, indicando algumas acepções que ele pode ter: a) O estudo das antigas colônias européias desde a sua independência. Póscolonial aqui se refere à vida das colônias após o final do colonialismo. b) O estudo das antigas colônias européias desde que elas foram colonizadas: o sentido aqui é de estudar as culturas após o início do colonialismo. c) O estudo de culturas/sociedades, países/nações em termos de suas relações de poder com outras culturas/etc. Aqui o termo refere-se a nossa perspectiva no final do século 20 (e início do 21) a respeito das relações de poder cultural e político. O próprio Robinson, sem deixar de observar a amplitude do conceito e, citando Russel Jacoby, acaba apontando que a grande maioria do mundo é, num sentido ou noutro, pós-colonial (1997, p. 16), e propondo uma renomeação das três abordagens: O estudo das antigas colônias poderia ser rebatizado de “estudos pós-independência”, o estudo das colônias a partir do início da colonização seria chamado de “estudos da póscolonização européia”, e o terceiro grupo seria denominado “estudos de relações de poder” (1997, p. 15). Robinson ainda aponta certos problemas na conceitualização do póscolonialismo, principalmente no que se refere às colônias de “colonos brancos”: Nova Zelândia, Austrália, Canadá e, especialmente, os EUA. Nas palavras do autor, para um. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(3) Lenita Maria Rimoli Esteves. 33. estudioso pós-colonialista da América Latina ou do Caribe, dizer que os EUA formam uma cultura pós-colonial seria obsceno (1997, p. 17).. 2.. UM OLHAR DIFERENCIADO Divergências de opiniões à parte, eu gostaria aqui de comentar um ensaio em especial, intitulado “Translation as co-optation: getting past post-colonialism”, quinto capítulo do livro “Borrowed Plummage”: Polemical Essays on Translation, escrito por Eugene Chen Eoyang, professor da cadeira de Humanidades da Lingnan University, de Hong Kong. Eoyang estudou em instituições americanas de prestígio como o Harvard College, a Columbia University e a Indiana University. Provavelmente não deve passar sem comentário o fato de eu ter apresentado um minicurrículo de Eoyang. Posso estar enganada sobre a necessidade de fazer isso, mas seu nome era até pouco tempo desconhecido para mim. Achei que a informação profissional do autor aqui enfocado poderia ajudar o leitor a situar-se melhor. Numa análise menos inocente, poderíamos dizer que eu, no ato de apresentar um mini CV de Eoyang, estou reforçando um pedido de que os ouvintes se dignem a ouvi-lo por meu intermédio. Não me proponho aqui a defender o posicionamento dele, com o qual não concordo plenamente, mas sim a apresentar algumas de suas idéias e a partir delas levantar alguns questionamentos sobre a produção classificada como “pós-colonial” sobre a prática e a teoria da tradução. Eoyang tem uma postura claramente provocadora, o que fica evidente já a partir do título de seu livro “ensaios polêmicos sobre tradução”. A “plumagem emprestada” que abre o título, e que vem entre aspas, refere-se a um estudioso da Bíblia que, no século XIX, teria dito que a King James´ Bible era “so often and strangely admired, like ... the bird in the fable, for borrowed plumage, and praised, as if an independent translation, for virtues not its own” (EOYANG, 2003, p. 106)1. A fábula mencionada é de Esopo, e conta que Zeus decide escolher um rei entre os pássaros, tendo como parâmetro a beleza da plumagem. Um pássaro feioso – que em algumas traduções aparece como gralha, em outras como corvo, e em outras ainda como coruja –, percebendo-se pouco atraente, cobre o corpo com penas que todas as outras aves deixaram cair, compondo um conjunto rico e colorido. Quando Zeus está prestes a aclamar essa ave rei dos pássaros, o embuste é desmascarado, e o pássaro feioso nada consegue. A moral da história é que não devemos nos vangloriar das qualidades ou. 1 ...freqüente e estranhamente admirada, como... o pássaro da fábula, por uma plumagem emprestada, e elogiada, como se fosse uma tradução independente, por virtudes que não são suas.. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(4) 34. Tradução, ética e pós-colonialismo: nós versus eles. posses dos outros como se fossem nossas. No contexto da tradução, é óbvia a referência a uma suposta pretensão ao status de autor. Mas talvez não seja só isso. O cerne da discussão de Eoyang é o que ele chama de “imperialismos da mente”, ou seja, uma sobredeterminação do imperialismo da qual não conseguimos escapar, não importa o quanto tentemos ou julguemos estar escapando dela. Ao mesmo tempo, os teóricos pós-colonialistas parecem cientes dessa sobredeterminação e empenhados em escapar dela. Segundo Eoyang, existe entre esses teóricos um receio de estarem assumindo atualmente o papel do colonizador, ou, nas palavras dele, o papel “dos hegemonistas anti-hegemônicos do pensamento contemporâneo” (EOYANG, 2003, p. 67). Em outras palavras, esses teóricos são obrigados a aceitar que as fronteiras entre dois supostos pólos não são assim tão definidas. Eoyang identifica aí certa nostalgia por parte deles, como se fosse mais fácil ou confortável atacar um inimigo claramente definido. Como exemplos de “imperialismos da mente”, o autor apresenta várias situações, começando por apontar primeiro uma questão lingüística: para Eoyang, talvez a maior ironia das teorias pós-colonialistas seja o fato de elas terem sido articuladas em línguas hegemônicas. Frantz Fanon, Raymon Schwab, Fredric Jameson e Gayatri Spivak são exemplos vivos disso. Eoyang se pergunta: qual teria sido a repercussão se esses autores tivessem articulado suas idéias em línguas “subalternas” (EOYANG, 2003, p. 68)? E ele vai ainda mais longe, afirmando que não deveríamos apressadamente supor que essas articulações não tenham efetivamente sido escritas nas línguas “subalternas”. Mas, como saber? Portanto, juntamente com as línguas hegemônicas, existe a hegemonia da língua. E o movimento pós-colonialista precisa fazer a seguinte concessão: “veicular na língua que não é a sua o espírito que é o seu” (EOYANG, 2003, p. 69)2. Num prefácio ao clássico Os condenados da terra, de Frantz Fanon, Sartre afirmava que “o Terceiro Mundo se encontra e fala consigo mesmo através da voz dele [de Fanon]”. Ao que Eoyang acrescenta: o que Sartre se esqueceu de dizer é que a voz de Fanon falava francês, e que a mensagem não seria transmitida ao Terceiro Mundo a não ser que seus integrantes pudessem ler em francês, ou nas línguas para as quais o original francês fosse traduzido (idem, p. 70). Para Eoyang, até o serviço que a tradução presta ao pós-colonialismo é irônico: dá voz a membros do Terceiro Mundo, e também acesso a um público do Terceiro Mundo, mas exige que as preocupações terceiro-mundistas sejam expressas em uma. 2. Nas palavras de Raja Rao, citado por Ashcroft, apud Eoyang.. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(5) Lenita Maria Rimoli Esteves. 35. língua do primeiro mundo. Muitas vezes, os porta-vozes ocidentais (leia-se, do Primeiro Mundo) dos interesses pós-coloniais são expropriadores e desvirtuadores do que não lhes pertence, ou apologistas envergonhados dos pecados cometidos pelo ocidente no passado (idem). Nesse ponto pode-se identificar de forma mais clara qual é o objetivo de Eoyang no ensaio e, portanto, ficará mais fácil questionar alguns de seus posicionamentos. Um de seus argumentos é que o pós-colonialismo, para se manter forte, precisa de um forte opositor, o imperialismo. As redes discursivas são tecidas e muitos fatos são ignorados ou esquecidos: as dicotomias muito bem-definidas, geralmente atribuídas ao poder imperialista, também alimentam o movimento pós-colonial. Se as dicotomias são postas em xeque, como propalam os pós-colonialistas que deve ser feito, o próprio movimento pós-colonial acaba perdendo um tanto de sua força. Exemplos das fronteiras incertas e de invasões de “um lado pelo outro” são citados; entre eles, o fato de Fanon ter repudiado o poder opressor francês sobre a Argélia, mas não a língua que o veiculava. Para a Argélia independente, seria prejudicial banir o francês, uma vez que esse banimento levaria a uma paralisia no desenvolvimento científico, técnico e cultural (2003, p. 71). Ou seja, o maniqueísmo atacado por Fanon não funciona exatamente do modo como ele afirmava. Libertar um povo da opressão do outro implica, ao mesmo tempo, proporcionar o acesso desse povo aos bens culturais e científicos que são desejáveis — na concepção do antigo opressor. E mostra-se aí a iminência de uma opressão maior ainda, que sub-repticiamente se instala. Os valores continuam sendo os do opressor (ou ex-opressor), e o discurso pós-colonialista pode de repente assumir uma inflexão perigosamente condescendente. Segundo Eoyang, após uma breve estada na China, o crítico literário Fredric Jameson escreveu um artigo em que afirma “all third-world texts are necessarily... allegorical, and in a very specific way: they are to be read as what I will call national allegories”3; e em outro trecho: “Third-world texts... necessarily project a political dimension in the form of a national allegory”4. Na opinião de Eoyang, a presunção de Jameson fica patente nesse ponto, na generalização sem medidas, reduzindo a literatura do Terceiro Mundo a um enquadramento que segue a ótica do Primeiro Mundo. Nas palavras do autor, What strikes me in these passages is the arrogance of his attitude toward the Third World, the condescension toward backward peoples, the unchallenged assumption of. Todos os textos do Terceiro Mundo são necessariamente alegóricos ... e de uma forma muito específica; eles devem ser lidos como o que chamarei de alegorias nacionais. 4 Os textos do Terceiro Mundo projetam necessariamente uma dimensão política na forma de uma alegoria nacional... 3. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(6) 36. Tradução, ética e pós-colonialismo: nós versus eles. Western superiority and the use of Western criteria in judging non-Western material. (EOYANG, 2003, p. 72)5.. Dessa forma, Jameson estaria caindo na perigosa armadilha já indicada: assumindo a atitude que acusa em seus opositores. A partir desse ponto, Eoyang vai se concentrar especificamente na cultura chinesa e em seus contatos com o mundo ocidental/Primeiro Mundo. Nota-se que ele utiliza o termo “oriental” como praticamente um sinônimo de “terceiro-mundista”, e é importante não perder isso de vista. Segundo Eoyang, os parâmetros para analisar as produções poéticas orientais são baseados em Aristóteles e, portanto, inadequados. Por exemplo, a clássica divisão entre narrativo, dramático e lírico não se aplica necessariamente à produção oriental. Da mesma forma, a tradição ocidental valoriza um conceito estético de unidade e totalidade que tem em sua forma mais acabada o texto escrito. Em contrapartida, a estética dos textos “terceiro-mundistas” tende a ser mais oral, episódica e fragmentada (idem, p. 73). Mas, nesse ponto, é inevitável perguntarmos: “terceiro-mundista” não é também por demais generalizante? Seguindo então os parâmetros críticos ocidentais, os teóricos do pós-colonialismo se interessam pelo texto oriental, mas não pela teoria que a ele subjaz. Eles agem como se os seus próprios parâmetros fossem universais, mesmo quando estão dando a conhecer ao (primeiro) mundo uma literatura exótica, diferente, mas, que “merece ser conhecida”. Eoyang dá vários outros exemplos dessa ingenuidade ou hipocrisia ocidental, passando pelo prêmio Nobel de literatura, que é outorgado a obras de culturas exóticas, mas, na grande maioria dos casos, as tais obras não foram lidas no original, e existem vários testemunhos atestando como as traduções as alteraram para satisfazer o gosto ocidental. Eoyang chega a ponto de dizer que a divisão topográfica feita nas colônias após o Iluminismo segue a mentalidade cartesiana e, portanto, as divisões entre regiões geográficas são praticamente feitas de linhas retas (cartesianas), sem levar em conta acidentes naturais, diferenças étnicas, culturais, etc. Foi o que aconteceu nos EUA, na Austrália e no Canadá e em regiões africanas. Segundo o autor: “there can be nothing more arbitrary, less situational, more impersonal, less historical than to divide people according to the straight line calculations of a surveyor.” (2003, p. 75).6 A análise aguda de Eoyang com certeza revela pontos interessantes que são dignos de discussão. Como conhecedor de uma literatura oriental e “terceiro-mundista”,. 5 O que me surpreende nessas passagens é a arrogância da atitude de Jameson em relação ao Terceiro Mundo, a condescendência para com povos atrasados, a incontestada suposição da superioridade ocidental e a utilização de critérios ocidentais para julgar textos não ocidentais. 6 Não existe nada mais arbitrário, menos situacional, mais impessoal, menos histórico do que dividir povos de acordo com os cálculos em linha reta de um agrimensor.. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(7) Lenita Maria Rimoli Esteves. 37. na classificação dele, ele talvez tenha mais propriedade para falar das críticas que foram feitas desses textos. Por outro lado, é preciso não esquecer que ele escreve em inglês, e também vem de universidades “de Primeiro Mundo”. O que ele parece alegar é que tem mais condições de falar de uma cultura de Terceiro Mundo, já que vem dessa cultura, embora tenha vivido por longo tempo em uma outra e hegemônica cultura. Mas se as dicotomias não são mesmo tão claras, será que essa influência da cultura hegemônica não teria plantado algum imperialismo em sua mente? Se nos lembrarmos do título do livro, quem é que Eoyang estaria acusando de usar uma plumagem emprestada? Quem seria a feiosa coruja que, coberta com coloridas e exóticas plumas terceiro-mundistas, estaria tentando assumi-las como suas quando, na realidade, o que faz é deturpar e desvirtuar o valor e significado dessas plumas? Seriam provavelmente esses filhos do imperialismo que, enquanto aparentemente se voltam contra seu pai, acabam reforçando os princípios deste, numa posição hipócrita ou ingênua. E isso nos faz pensar em uma questão: teriam alguns mais direito de ser póscolonialistas que outros? O pertencimento a determinada etnia, religião, minoria, etc. garantiria uma autenticidade discursiva mínima para que a crítica ou a teoria da pessoa pertencente a esses grupos fosse mais confiável, ou mais verdadeira? Deixarei propositalmente essas questões em aberto, para analisar o segundo “caso” aqui proposto, o da figura de Haroldo de Campos no cenário internacional dos Estudos da Tradução7.. 3.. BRASIL PÓS-COLONIAL? No caso do Brasil, poderíamos falar em pós-colonialismo? Em certo sentido, claro que sim, pois fomos colônia de um império europeu. Mas nossa história parece se diferenciar das outras histórias paralelas da América Latina. Nós tivemos a corte aqui, o que causou ao Brasil uma série de impactos que configuram uma relação diferente com a metrópole. Não houve, entre nós, uma insurreição do “primeiro colonizado”. Não circula no Brasil uma literatura que se caracterize pelo hibridismo da língua do colonizador (português) e do colonizado (povos indígenas). As questões de hibridismo e os embates sociais que travamos parecem ser de ordem diferente. Ou será que é essa visão interna o que principalmente nos diferencia em relação aos outros? Em outras palavras: será que existe em nós uma tendência a não aceitar uma classificação feita por alguém “de fora”, do. 7 Essa questão está sendo discutida mais detidamente por minha orientanda Célia Luíza Prado, que já apresentou comunicações a esse respeito no IV CIATI – Congresso Ibero-Americano de Tradução e Interpretação, São Paulo. 14-17 de maio de 2007 (trabalho intitulado Tradução e pós-colonialismo no contexto brasileiro) e no. 55º Seminário do Grupo de Estudos Lingüísticos, UNIP / UNESP, Franca. 26-28 de julho de 2007 (trabalho intitulado Haroldo de Campos, tradutor Pós-Colonial?).. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(8) 38. Tradução, ética e pós-colonialismo: nós versus eles. grupo “deles”? Parece ser o caso de Eoyang, e fica fácil observar essa reação quando ela parte de um “deles”. E o que acontece quando a classificação é atribuída a nós? Pode parecer estranho, mas os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, talvez com mais evidência o segundo, são assimilados ao movimento pós-colonialista no cenário internacional dos Estudos da Tradução. A estranheza que essa associação pode causar tem uma causa simples: historicamente, os irmãos Campos não têm sido associados a lutas políticas, sejam elas de classe ou pela quebra do jugo de um país em relação a seu dominador. Eles lideraram um movimento de vanguarda, mas não parecem ter lutado contra nenhum poder hegemônico. Vale a pena examinar rapidamente como os irmãos Campos, em especial Haroldo de Campos, são recebidos e classificados “lá fora”, pelo grupo “deles”. Como este trabalho se situa no âmbito dos Estudos da Tradução, é nessa área que serão buscados subsídios para esse exame. Comecemos por Else Ribeiro Pires Vieira que, ao que tudo indica, foi uma das principais divulgadoras das idéias de Campos perante a comunidade dos Translation Studies, disciplina que despontou no circuito acadêmico na década de 1970 com pretensões de autonomia. Tomarei como exemplo o artigo “Liberating Calibans”, que Vieira publicou no volume Post-colonial translation, organizado por Bassnett e Trivedi (1999). Nesse artigo, Vieira faz uma exposição sucinta e muito bem-articulada da tradição da Antropofagia, que teve início com Oswald de Andrade na semana de 1922 e depois foi nutrida e desenvolvida por Haroldo de Campos décadas mais tarde. Afirmando que a “metáfora digestiva” (VIEIRA, 1999, p. 99), lançada por Oswald de Andrade, foi retomada em movimentos como o Cinema Novo e a Tropicália, a autora chega ao ponto principal do artigo, as idéias de Haroldo de Campos sobre a Antropofagia. Sobressaem aí as já bastante conhecidas idéias de Campos sobre a tradução como transcriação, a adoção do make it new poundiano e a inserção de trechos da literatura brasileira em traduções de clássicos da literatura mundial, como é explicado na seguinte passagem: The Shakespearean intertext is not translated by the insertion of existing translations of Shakespeare, but by appropriating the Brazilian literary tradition. It is João Cabral de Melo Neto, specifically in Morte e Vida Severina (Death and Life of Severino), who provides the diction for the intertext in the translation. (VIEIRA, 1999, p. 107)8.. 8 O intertexto shakespeariano não é traduzido pela inserção de traduções já existentes de Shakespeare, mas pela apropriação da tradição literária brasileira. É João Cabral de Melo Neto, especificamente em Morte e Vida Severina, quem oferece a dicção para o intertexto na tradução.. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(9) Lenita Maria Rimoli Esteves. 39. Essa mistura de línguas e dicções, talvez o traço mais conhecido da proposta teórica de Campos — talvez pudéssemos arriscar dizer sua “marca registrada” — é, como já se poderia esperar, ressaltada várias vezes no trabalho de Vieira, ligada ou não explicitamente à idéia da Antropofagia, como se pode ser nos trechos a seguir: [...] Haroldo de Campos aportuguesa the Hebrew language and hebraíza the Portuguese language. These bilateral movements in his translation of the Hebrew Bible point to the double dialectics that informs Antropofagia inasmuch as they highlight the nationalism he had advanced… (VIEIRA, 1999, p. 105)9. Another example he provides is the use of Sousândrade to translate the German compound words that are alien to Portuguese and are conventionally given analytical translations. At the same time, the use of neologisms after Sousândrade brings de Campos close to Panwitz (a debt he acknowledges) when the Germanizes the Portuguese language to broaden its creativity potential (id. ibid., p. 110)10.. Como já se poderia esperar, Vieira cita a filiação teórica de Campos a Walter Benjamin e suas teorias, entre elas suas afirmações sobre tradução, contidas no célebre “A tarefa-renúncia do tradutor” (2001), ensaio publicado como prefácio às traduções que o próprio Benjamin fez de poemas de Baudelaire. De fato, a idéia de “esticar as fronteiras da língua” e trazer para o seu seio influências de outras línguas é reiterada no ensaio de Benjamin. Não seria o caso de esmiuçar o texto de Benjamin sobre tradução, mas basta que se aponte que ele tem um marcante tom messiânico, que há nele menções a uma “língua pura” que seria vislumbrada quando as línguas são postas em contato pela tradução. Há, portanto, uma proposta de “mistura de línguas”, mas os objetivos dessa mistura estão longe da proposta pós-colonialista de uma “revanche” ou de um movimento contra a dominação, proposta essa que se explicita em expressões como “The empire writes back”, livro de Aschcroft, Griffiths e Tiffin (1989), que joga com o significado de um clássico da ficção científica, “The empire strikes back”, da série Guerra nas Estrelas. No texto de Benjamin não há nenhuma “revolta” contra uma dominação exercida sobre uma nação. Benjamin trilha outros caminhos, que passam pela idéia de um parentesco entre as línguas que não é histórico, mas vem de sua incompletude. Em resumo, para o que nos concerne aqui, basta ressaltar que esse ensaio de Walter Benjamin não é propriamente um texto politizado. Entretanto, não se pode negar que em Campos exista um pouco dessa revolta contra uma dominação e desse caráter politizado. Talvez não de forma tão explícita como em escritos pós-coloniais, mas não se pode negar que ela exista. Por exemplo, em um. 9 Haroldo de Campos aportuguesa o hebraico e hebraíza o português. Esses movimentos bilaterais em sua tradução da Bíblia hebraica apontam para a dupla dialética que informa a Antropofagia, já que enfatizam o nacionalismo que ele defendera... 10 Outro exemplo que ele oferece é o uso de Sousândrade para traduzir as palavras compostas alemãs que são estranhas em português e em convencionalmente traduzidas de forma analítica. Ao mesmo tempo, o uso de neologismos à la. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(10) 40. Tradução, ética e pós-colonialismo: nós versus eles. trecho citado por Vieira, Campos diz: “Any past which is an “other” for us deserves to be negated. We could say that it deserves to be eaten, devoured” (CAMPOS, apud VIEIRA, 1999, p. 103)11. E, de fato, Vieira enfatiza esse tom em Campos, chamando-nos a atenção para o caráter “político” de sua proposta. Em determinado trecho, a autora diz que In the section “A Escritura Mefistofélica”, de Campos also presents a long and detailed interpretation of Faust, and the emphasis is quite political, even though he does not make it explicit. (VIEIRA, 1999, p. 108)12.. E logo mais adiante: “in the second section… he takes up the non-explicit political tone of his analysis of Faust13. (idem). Parece mesmo que Vieira quer ressaltar esse tom politizado em vários pontos de seu texto. Será que essa insistência viria de uma necessidade de seu texto se “conformar” com os outros textos do livro? (Não nos esqueçamos de que o título do livro em que aparece o artigo de Vieira é Post-colonial translation) Talvez, mas é importante entendermos que as idéias de Campos têm uma orientação política, embora se possa dizer que é uma política estética. O mesmo se pode dizer dos primórdios da Antropofagia. O posicionamento dos artistas da Semana de 22 também tinha uma orientação política, embora eles não falassem sobre tipos de regime político e orientações partidárias. A própria defesa de um português brasileiro, não mais submisso às regras lusitanas, não deixa de ser um movimento contra uma dominação cultural. E Campos é muito “revolucionário” nesse sentido, não só porque se manifesta contra a idéia de uma verdade monológica, mas também porque confere ao tradutor uma posição que em geral ele não ocupa em nossa cultura. Como Vieira aponta, Campos diz que a tradução tenta apagar a origem, obliterar o original, mas que ao mesmo tempo o próprio gesto de traduzir implica um reconhecimento (VIEIRA, 1999, p. 109). Pensando por esse prisma, talvez não seja tão estranho pensar em Haroldo de Campos como um autor pós-colonial. Se entendermos o termo no sentido proposto por Robinson, de uma perspectiva no final do século 20 (e início do 21) a respeito das relações de poder cultural e político, fica mais fácil aceitar essa classificação. Na verdade, talvez o mais interessante seja ampliar o máximo possível o conceito de pós-colonialismo, em vez de atacar alguns de seus representantes, como faz Eoyang.. Sousândrade aproxima Campos de Panwitz (uma dívida que ele reconhece) quando ele germaniza o português para ampliar seu potencial criativo. 11 Qualquer passado que para nós é um “outro” merece ser negado. Poderíamos dizer que ele merece ser comido, devorado. 12 Na seção “A Escritura Mefistofélica”, de Campos também apresenta uma longa e detalhada interpretação de Fausto, e a ênfase é bastante política, apesar de ele não explicitar isso. 13 Na segunda seção... ele assume o tom político não explícito de sua análise de Fausto. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(11) Lenita Maria Rimoli Esteves. 41. Uma das ironias do pós-colonialismo apontadas por Eoyang, como já vimos, é o fato de as mensagens dos excluídos ou dominados precisarem ser veiculadas em línguas hegemônicas. A esse respeito, Rajagopalan faz uma observação muito precisa: a subversão se faz de dentro para fora, usando as armas do próprio colonizador: The postcolonial subject is one who, having come to understand the workings of the logic that underwrote the terms of his/her subjugation (or hegemony, depending on which side of the divide you happen to look at it from) consciously seeks to subvert that logic from within 14 (RAJAGOPALAN, 2007, p. 173).. Nessa proposta, tem-se uma forma mais ampla de definição, em que não há contornos claros e estáveis, e que por isso mesmo pode ensejar discussões mais produtivas. Ainda nas palavras de Rajagopalan: Postcoloniality is by no means a straightforward or an outright rejection of everything that colonialism stood for. If it were, it would only buy into the very logic of colonialism which it is concerned to disrupt (RAJAGOPALAN, 2007, p. 172)15.. Seguindo essa proposta, ficaria mais longe a possibilidade de o pós-colonialista se transformar no “hegemonista anti-hegemônico” identificado por Eoyang. Dentro desse movimento de desestabilização e de “empires writing back”, seria uma contradição em termos querer ter uma nova visão das relações sociais e humanas e continuar com o mesmo arsenal teórico que os antigos impérios construíram, e que os sustentaram. No que diz respeito ao “nosso rótulo”, à possibilidade de Haroldo de Campos ser classificado como pós-colonial, se adotarmos essa visão mais ampla e menos maniqueísta do movimento pós-colonial, a idéia não parece tão absurda. Afinal de contas, ingredientes como o hibridismo, a irreverência e a criatividade têm presença garantida nos projetos de Campos. E o fato de seus projetos quase invariavelmente incluírem a tradução nos faz pensar em mais uma semelhança. Não é novidade alguma dizer que a tradução é, como se diz hoje em dia, “a cara do pós-colonialismo”, e não só porque a dominação/colonização, na maioria dos casos, impõe o contato de diferentes línguas/culturas. A semelhança tem um caráter mais profundo, pois a tradução e os estudos pós-coloniais evidenciam as diferenças, flagram os pontos cegos, os nós impossíveis de desatar. Portanto, na qualidade de “teorias”, essas duas áreas só podem propor idéias e posicionamentos provisórios, ao mesmo tempo em que lhes é praticamente impossibilitada a generalização. Nos dois campos, continua valendo a regra do “cada caso é um caso”.. 14 O sujeito pós-colonial é aquele que, tendo entendido o funcionamento da lógica que subscreveu sua subjugação (ou hegemonia, dependendo de que lado da divisão você ocupe para observar a situação) conscientemente busca subverter essa lógica a partir de dentro. 15 A pós-colonialidade não é de forma alguma uma rejeição direta e total de tudo o que o colonialismo defendeu. Se fosse, adotaria a mesma lógica de colonização que se preocupa em romper.. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
(12) 42. Tradução, ética e pós-colonialismo: nós versus eles. REFERÊNCIAS ASHCROFT; Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen. The empire writes back. London, UK and New York, US: Routledge, 1989. BENJAMIN, W. A tarefa-renúncia do tradutor. (trad. Susana K. Lages). In: HEIDERMANN, Werner (Org.). Clássicos da teoria da tradução. v. 1, Alemão-Português. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2001. EOYANG, Eugene Chen. Borrowed plumage: polemical essays on translation. Amsterdam – New York, US: Rodopi, 2003. HOUAISS, A. I. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Disponível em: <http://houaiss.uol.com.br/busca.jhtm>. Acesso em: 26 mar. 2008. RAJAGOPALAN, Kanavillil. Postcoloniality as translation in action. Revista do GEL (Araraquara), v. 4, p. 169-186, 2007. ROBINSON, Douglas. Translation and empire. Manchester, UK: St. Jerome, 1997. VIEIRA, Else Ribeiro Pires. Liberating Calibans: Readings of Antropofagia and Haroldo de Campos’ poetics of transcreation. In: BASSNETT, Susan; TRIVEDI, Harish (Ed.). Postcolonial translation: theory and practice. London, UK: Routledge, 1999. Lenita Maria Rimoli Esteves Doutora em Linguística (área de concentração tradução) pela Universidade Estadual de Campinas. Professora da FFLCH - Universidade de São Paulo. Pesquisa de pós-doutorado (agosto a dezembro de 2008) University of Massachusetts at Amherst. Tradutora profissional. Website: http://lenitaesteves.pro.br/. Tradução e Comunicação - Revista Brasileira de Tradutores • Nº. 18, Ano 2009 • p. 31-42.
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