• Nenhum resultado encontrado

Reflexão sobre a prática profissional em serviço social, no CLDS do Bairro de Santa Filomena, Amadora

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Reflexão sobre a prática profissional em serviço social, no CLDS do Bairro de Santa Filomena, Amadora"

Copied!
139
0
0

Texto

(1)

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

REFLEXÃO SOBRE A PRÁTICA PROFISSIONAL EM

SERVIÇO SOCIAL, NO CLDS DO BAIRRO DE SANTA

FILOMENA, AMADORA

Relatório da Prática Profissional

Relatório entregue à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro para a Obtenção do grau de Mestre em Serviço Social – Território e Desenvolvimento.

Autor: Manuel Galego

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

(2)

II

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

REFLEXÃO SOBRE A PRÁTICA PROFISSIONAL EM

SERVIÇO SOCIAL, NO CLDS DO BAIRRO DE SANTA

FILOMENA, AMADORA

Relatório da Prática Profissional

Relatório entregue à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro para a Obtenção do grau de Mestre em Serviço Social – Território e Desenvolvimento.

Autor: Manuel Galego

Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

(3)

III

RESUMO

A teorização da prática do Serviço Social não é um tema recente, mas as constantes e vertiginosas mudanças sociais, num mundo economicamente globalizado, remetem-nos para o reequacionamento, dos modelos políticos e económicos vigentes, da prática profissional e, consequentemente, da teoria subjacente a essa prática. A problemática da pobreza e da exclusão social, subjacente ao modelo de politico e económico amplamente reflexionada ao longo deste relatório.

Refletiu-se a prática de serviço social realizada no Bairro de Santa Filomena, fundamentando essa prática à luz da teoria existente, em torno do conceito de pobreza e dos modelos teóricos de intervenção social. Este trabalho surge metodologicamente de forma inversa à normalmente realizada, ou seja, seguindo uma lógica de ação-investigação e de investigação etnográfica, utiliza a ação e o trabalho de campo no Contrato Local de Desenvolvimento Social, para apoiar a reflexão da prática, dos objetos e, dos modelos de intervenção social, à luz dos quadros teóricos. Neste sentido, no âmbito do presente relatório, desenvolve-se a oportunidade de descoberta de novos modelos de intervenção social e novos modelos teóricos de explicação dos problemas, decorrentes da prática profissional.

Palavras-Chave: Serviço Social, Teorias do Serviço Social, Modelos de Intervenção, Pobreza, Exclusão Social, Estado Social, Globalização, Crise.

(4)

IV

ABSTRACT

The theorization of the practice of social work is not a new theme, but the constant and dizzying social change in a globalized world economically, refer us to refocus, models of political and economic force, professional practice and, consequently, the underlying theory this practice. The problem of poverty and social exclusion, the underlying political and economical model thought extensively throughout this report.

The practice of social work carried out in the neighbourhood of Santa Filomena has been reflected, basing this practice in the light of existing theory around the concept of poverty and theoretical models of social intervention. This work appears methodologically inversely to normally held, that is to say, following a logic of action-research and ethnographic research, uses the action and the fieldwork on Local Development Social Contract, to support the reflection of the practice, objects, and models of social intervention in the light of theoretical frameworks. In this sense, in the scope of this report, the opportunity to find new models of social intervention and new theoretical models has been developed in order to explain the problems arising from professional practice.

Keywords: Social Work, Social Work Theories, Models of intervention, Poverty, Social Exclusion, Social State, Globalization, Crisis.

(5)

V

AGRADECIMENTOS

Agradecemos, em primeiro lugar, à população do Bairro de Santa Filomena, o acolhimento caloroso e colaboração que nos deram e sem a qual não seria possível a realização deste trabalho e o nosso enriquecimento profissional. O projeto terminou, mas ficam as saudades da população pela interação que nos marcou positivamente. Expressamos ainda a nossa solidariedade para com as famílias pela situação critica que estão a viver, pelas demolições que estão em curso, sem que se perspetivem alternativas habitacionais adequadas à situação.

A seguir vamos enunciar todas as pessoas/instituições a que estamos agradecidos pela colaboração e apoio que nos prestaram:

À Maria Santos, Ana Carvalho, Rui Santos e Helena Marques, Gestora, Psicóloga, Animador e Administrativa, respetivamente do Projeto, pela colaboração, amizade e apoio indispensável para ultrapassar as adversidades que surgiram.

Ao Corsino Furtado, pela colaboração que nos prestou no desenvolvimentos de algumas das atividades.

A todos os colaboradores da Associação Amigos da Encosta Nascente, pela colaboração estreita que se estabeleceu como o nosso projeto, nomeadamente a Maria dos Anjos, presidente da Associação.

À UTAD, em especial à Prof. Hermínia Gonçalves, pela disponibilidade dedicada à orientação e pelos conhecimentos transmitidos em torno desta reflexividade da prática profissional.

À Fundação Agir Hoje, pelo apoio na dinamização dos grupos de entreajuda, nomeadamente à Katerine, Margarida e Marta Reis.

À Santa Casa da Misericórdia da Amadora, pela oportunidade que nos deu em trabalhar neste projeto.

(6)

VI À Associação de Socorros Médicos, o Vigilante, pela realização de 2 ações de formação de competências parentais e pela articulação frequente no apoio à mães carenciadas.

Ao Movimento de Defesa da Vida, pela dinamização de uma formação de competências parentais.

A Unidade de Cuidados na Comunidade, do ACES VII da Amadora, em especial à Enfermeira Adelaide Verde pela deslocação da Unidade Móvel ao Bairro.

À Escola Cardoso Lopes e Escola Intercultural do Desporto e das Profissões, pela integração de utentes nos seus cursos.

Aos Agentes Pedro Mendes e Ricardo Mendes, do Policiamento de Proximidade pela colaboração e participação em algumas atividades de animação sociocultural.

Agradecemos ainda a todos os que diretamente ou indiretamente colaboraram connosco, nomeadamente aos seguintes parceiros, Instituto da Segurança Social, Instituto de Emprego e Formação Profissional, Câmara Municipal da Amadora, Junta de Freguesia da Mina, Junta de Freguesia da Venteira, ACIDI, Associação Espaço Jovem, A Associação Cais, Escola Seomara Da Costa Primo e Associação de Jovens Promotores da Amadora Saudável.

A Todos aqueles que me são próximos, agradeço presencialmente por tudo o que me proporcionam.

(7)

VII

ÍNDICE

LISTA DE IMAGENS ... VIII LISTA DE QUADROS ... VIII LISTA DE SIGLAS... IX

INTRODUÇÃO... 1

CAPÍTULO I ... 3

Marcos Teóricos presentes na Prática Profissional do Serviço Social ... 3

CAPÍTULO II... 10

Do agravamento da pobreza no contexto da globalização às novas exigências de intervenção num paradigma de Estado Social ... 10

Globalização ... 10

Crise do Estado Providência... 13

Pobreza e exclusão social ... 18

Desenvolvimento ... 21

CAPÍTULO III ... 23

Intervenção realizada no Bairro de Santa Filomena ... 23

Teorização da prática profissional ... 26

CAPÍTULO IV ... 72

Considerações Finais ... 72

BIBLIOGRAFIA ... 80

ANEXOS ... 86

Anexo A – Ficha de Processo Familiar ... 1

Anexo B – Tabela estatistica ... 7

Anexo C – Ficha de processo familiar... 11

Anexo D- Estatísticas dos Processos Familiares ... 16

Anexo E - Registo de Atendimento Manual... 18

Anexo F – Exemplo de um programa de actividades... 19

Anexo G - Exemplo de Informação Social... 22

Anexo H – Exemplo de Folheto de Publicitação das Actividades ... 23

(8)

VIII

Anexo J – Clic Consulta ... 25

Anexo K – Técnicas de Procura de Casa... 31

Anexo L –Folheto acerca de programas habitacionais ... 41

Anexo M –Folheto de Prevenção da Toxicodependência ... 43

LISTA DE IMAGENS

1: PIRÂMIDE DAS NECESSIDADES DE MASLOW ... 27

LISTA DE QUADROS

TABELA 1: ESTRUTURA DO TRABALHO ... 3

TABELA 2: COMPARAÇÃO MONTANTES DOS ABONOS DE FAMÍLIA ... 14

TABELA 3: COMPARAÇÃO MONTANTES DE RSI... 15

TABELA 4: COMPARAÇÃO MONTANTES DAS PRESTAÇÕES DE DESEMPREGO ... 16

TABELA 5: PONTO 1 DA FICHA DE PROCESSO FAMILIAR – IDENTIFICAÇÃO DO TITULAR DO PROCESSO ... 28

TABELA 6: PONTO 2 DA FICHA DE PROCESSO FAMILIAR – IDENTIFICAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO AGREGADO FAMILIAR. ... 30

TABELA 7: PONTO 3 DA FICHA DE PROCESSO FAMILIAR – BREVE SÍNTESE DA HISTÓRIA DE VIDA DO AGREGADO. ... 32

TABELA 8: PONTO 4 DA FICHA DE PROCESSO FAMILIAR – SÍNTESE DE DIAGNÓSTICO ... 35

TABELA 9: PONTO 5 DA FICHA DE PROCESSO FAMILIAR – PROTEÇÃO SOCIAL... 36

TABELA 10: ANÁLISE SWOT DO BAIRRO DE SANTA FILOMENA... 39

TABELA 11: PONTO 6 DA FICHA DE PROCESSO FAMILIAR - PLANO DE INTERVENÇÃO FAMILIAR... 45

TABELA 12: PONTO 7 DA FICHA DE PROCESSO FAMILIAR – ATENDIMENTOS E OUTRAS DILIGÊNCIAS... 49

TABELA 13: TEORIAS SUBJACENTES À PRATICA PROFISSIONAL... 73

(9)

IX GRÁFICO 15: RESULTADOS ALCANÇADOS ... 75

LISTA DE SIGLAS

AAEN- Associação Amigos Da Encosta Nascente

ACES – Agrupamento de Centros de Saúde

ACIDI – Alto Comissariado para a Imigração e Dialogo Intercultural ACMJ – Associação Cultural Moinho da Juventude

AJPAS - Associação de Jovens Promotores da Amadora Saudável BSF – Bairro de Santa Filomena

CLAS – Conselho Local de Ação Social CNAI- Centro Nacional de Apoio ao Imigrante CMA – Câmara Municipal da Amadora

CLDS – Contrato Local de Desenvolvimento Social IEFP - Instituto do Emprego e Formação Profissional INE – Instituto Nacional de Estatística

IPSS – Instituição Particular de Solidariedade Social ISS – Instituto da Segurança Social

NISS - Numero de Identificação de Segurança Social OIM - Organização Internacional das Migrações PER – Programa Especial de Realojamento

(10)

X RSI- Rendimento Social da Inserção

SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras SCMA- Santa Casa da Misericórdia da Amadora

(11)

1

INTRODUÇÃO

O presente relatório profissional foi realizado no âmbito do Mestrado em Serviço Social, no ramo Território e Desenvolvimento, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Tem como finalidade a realização de uma reflexão critica acerca da prática profissional de Serviço Social realizada em contexto de trabalho no CLDS, Contrato Local de Desenvolvimento Social, do Bairro de Santa Filomena na Amadora.

Antes de contextualizar a prática profissional vamos proceder inicialmente ao enquadramento legal dos CLDS. Este programa foi criado pela Portaria Nº 396/2007, de 02 de Abril, alterado através da Portaria Nº 285/2008 de 10 de Abril, e, surgiu da necessidade de dotar os territórios mais vulneráveis de uma maior coesão social, atribuindo aos municípios a responsabilidade de intervir. As despesas de funcionamento dos projetos são asseguradas pelo Fundo Social Europeu e pelo Estado Português através da receita dos Jogos Sociais. Os territórios a intervencionar são selecionados pelo membro do governo responsável pela Segurança Social, priorizando os territórios mais deprimidos. A avaliação do território é monitorizada e acompanhada pela segurança social e pela autarquia.

Os CLDS tem como objetivo: “promover a inclusão social dos cidadãos, de forma

multissetorial e integrada, através de acções a executar em parceria, por forma a combater a pobreza persistente e a exclusão social em territórios deprimidos” (Instituto da

Segurança Social, 2011a:1). As atividades dos projetos tem de ir ao encontro das necessidades diagnosticadas, podendo existir projetos/territórios cujas vulnerabilidades não justifiquem uma intervenção em todos os eixos previstos.

Contudo, no CLDS de Santa Filomena todos os eixos de intervenção são obrigatórios e em todos os eixos existe uma grande variedade de atividades para responder às necessidades verificadas A intervenção enquadra-se em 4 grandes eixos de intervenção: a) Emprego, formação e qualificação; b) Intervenção familiar e parental; c) Capacitação da comunidade e das instituições; e d)Informação e acessibilidade.

A intervenção do CLDS do BSF enquadra-se, nas necessidades identificadas no Diagnóstico Social da Amadora, elaborado em Novembro de 2008 e no Plano de Desenvolvimento Social do Município para os anos de 2009-2011, designadamente, no

(12)

2 Eixo III - Territórios e Grupos Vulneráveis, cujo principal objetivo visa promover a inclusão de grupos vulneráveis da população através da criação, reestruturação e dinamização de equipamentos sociais e da realização de atividades de sensibilização, informação, investigação e formação que envolvam diretamente as Instituições Locais. Procede-se a uma breve síntese do Diagnóstico Social para facilitar a compreensão da intervenção efetuada. Este diagnóstico foi realizado antes de estar constituída a equipa técnica e serviu de fundamento para a escolha deste território, todavia na nossa opinião este diagnóstico está incompleto, como se explica mais adiante.1 No BSF, situado na freguesia da Mina, Concelho da Amadora, foi elaborado o diagnóstico tendo por base fontes secundárias diversificadas (dados do Centro de Saúde da Amadora, Recenseamento do Departamento da Habitação da CMA, IEFP e da Segurança Social da Amadora, além do INE). Os censos do INE não eram suficientes porque apenas dispunham de dados referentes à freguesia da Mina. O BSF é caracterizado pela existência de uma população maioritariamente emigrante e proveniente de Cabo Verde, que reside num Bairro de construção ilegal, em habitações muito precárias, onde se verificam as seguintes problemáticas: baixa escolaridade e qualificação profissional, desemprego, empregos pouco qualificados e precários, absentismo, insucesso escolar e desvalorização do percurso escolar, habitações degradadas, deficientemente equipadas e mobiladas, falta de saneamento e de higienização do espaço publico, maternidade precoce, infeções sexualmente transmissíveis, HIV, tuberculose, toxicodependência, doenças crónicas na população idosa, violência doméstica, imigração ilegal, delinquência juvenil, criminalidade e existência de fragilidades nas competências pessoais, sociais, laborais e parentais.

A metodologia utilizada para a elaboração deste trabalho foi suportada numa extensa observação participante decorrente da prática profissional aplicada no contexto de trabalho, refletindo-a a partir, da análise da mutação e da complexidade dos objetos de intervenção (pobreza e risco) e, da análise da aplicação de alguns modelos teóricos.

A tabela que apresentaremos a seguir mostra-nos a estrutura do trabalho que nos propusemos a realizar:

1

(13)

3 Tabela 1: Estrutura do trabalho

Estrutura do trabalho

Introdução

Capítulo I Marcos Teóricos na Prática Profissional de Serviço Social

Capítulo II Do agravamento da pobreza no contexto da globalização às novas exigências de intervenção num paradigma de estado Social:

- Globalização

- Crise do Estado Providência

- Pobreza e Exclusão social

Capítulo III - Intervenção realizada no Bairro de

Santa Filomena

- Teorização da prática profissional

Capítulo IV Considerações Finais

CAPÍTULO I

Marcos Teóricos presentes na Prática Profissional do Serviço

Social

Embora a preocupação de enquadrar a intervenção social nos modelos teóricos existentes, que fundamentem e reflitam cientificamente a prática profissional de Serviço Social, seja uma preocupação desde o inicio da profissionalização do Serviço Social (Ander-Egg, 1995), atualmente, ganha uma ênfase acrescida, não só por questões relacionadas com a afirmação disciplinar do Serviço Social, como também pela procura de maior eficácia das intervenções realizadas, esta última motivada pelas exigências das

(14)

4 diminuições orçamentais advindas da crise do atual Estado Social, no atual contexto de Capitalismo Globalizado e Neoliberal, caracterizado pelo aumento de problemas socais e de situações de vulnerabilidade social.

A existência de utentes2 em situação de dependência de prestações sociais e a construção social do papel do assistente social percecionada, quer por parte dos beneficiários das prestações, quer por parte da sociedade faz com que a perceção do que o assistente social faz tenha que ser (re)construída de forma a criar uma nova perceção da suas funções. É frequente os utentes procurarem os serviços de apoio no sentido de pedirem respostas aos seus problemas. As expectativas que os utentes têm, sugere que o assistente social3, é responsável por resolver a situação-problema. Porém o objetivo final da intervenção do Serviço Social, passa também por capacitar as pessoas, empoderando-as, para que elas próprias possam participar na resolução dos seus problemas.

A perceção enviesada do papel do assistente social resulta das práticas profissionais tradicionais meramente assistencialistas4 que ainda estão na memória do utente e da aplicação de políticas redistributivas passivas, que na linha de Gonçalves, 2011 e Giddens, 1997, não eram generativas5 . Estes dois fatores contribuem para que os utilizadores das políticas sociais façam, ainda hoje, uma construção do Serviço Social como prática meramente assistencialista. Torna-se necessário criar uma nova construção do papel do assistente social através da promoção e da aplicação de intervenções generativas que capacitem os utentes. Para que tal se concretize defendemos tal como Branco (2009) a adoção por parte do estado social de medidas sociais ativas, aplicadas de forma descentralizada, flexíveis e não hierarquizadas com as restantes instituições e atores, numa lógica de concertação institucional e de trabalho em rede. Procura-se uma harmonia e articulação entre as políticas sociais e económicas onde se privilegie a inserção. Assim

2

Neste contexto utilizaremos o termo utente em detrimento do termo cliente para referir-nos aos beneficiários da intervenção social, porque o termo cliente é meramente comercial e não tem nada a ver com a relação e situação que se estabelece entre os que beneficiam dos serviços sociais e as instituições ou profissionais que prestam esses mesmos serviços.

3

Designamos assistente social e serviço social para referir-nos ao trabalhador social e ao trabalho social respectivamente, embora sejam termos com as suas semelhanças e diferenças, não é intuito deste trabalho abordar esta questão.

4

Este assistencialismo tem a sua origem na escola diagnóstica, no qual o assistente social é o elemento que soluciona o problema (Mouro, 2004).

5

Aplicaremos o termo generativo, tal como Giddens o utiliza e com pressupostos idênticos aos da escola funcional que defende uma intervenção que tem como objectivo motivar e capacitar os utentes para a mudança (Mouro, 2004).

(15)

5 existe espaço para a inovação social e a criação de novos instrumentos como a contratualização com os utentes para promoção da inserção, bem como para o compromisso com o estado e com a sociedade. Na contratualização definem-se planos de ação/inserção no qual os utentes tentam ganhar autoria na condução da própria vida, sendo estas medidas mais do que uma ajuda económica, dado que contemplam a aquisição de competências. É assente numa lógica de intervenção proativa, individualizada, personalizada, autêntica, de proximidade com o contexto do utente que promove sua liberdade e responsabilidade. São estas medidas que tem vindo a surgir ultimamente, no qual o estado ativo, promove a autoria dos utentes que se tornam agentes na resolução dos seus problemas para se integrarem na sociedade. Esta forma de intervenção social promove a construção do papel do assistente social mais correta .

Neste sentido e de acordo com Payne (2002:17)“...os profissionais e clientes constroem o trabalho social...” Pode então afirmar-se que a profissão de serviço social é resultado do processo de construção social aceite e partilhado por uma dada sociedade, que pode ser diferente consoante o contexto social em questão. Pode mesmo afirmar-se que, o serviço social é o que os assistentes sociais fazem. A importância da profissão na efetivação e concretização da justiça e da equidade deu-lhe reconhecimento político. A perceção sobre o papel do assistente social e o ato de ajudar constitui-se como uma identidade profissional e de legitimação social do exercício da sua atividade.

Os assistentes sociais, criam, administram/gerem, executam/implementam e avaliam os serviços sociais. Efetivam os direitos sociais e gerem os conflitos sociais e por isso são alvo de avaliação por parte dos seus utentes, dos superiores hierárquicos das instituições que representam, de outros profissionais com quem colaboram e ainda pelo estado e sociedade, ainda que de forma indireta (Granja, 2008).

Esta profissão exerce-se tendo por base uma ética muito forte, nomeadamente no respeito pelos direitos humanos e sociais, pelos valores, cultura e crenças da população-alvo. Pois defendemos tal como Branco (1996), que a cidadania é constituída por direitos e deveres, civis, políticos e sociais e neste âmbito face aos constrangimentos de integração no atual contexto de desemprego elevado, importa mais do que nunca a aplicação da ética do serviço social de forma a evitar a estigmatização dos utentes e a promover a sua

(16)

6 inclusão através da valorização das suas capacidades. Embora se torne imprescindível o respeito de todos os princípios éticos, passamos a destacar dois que ganham maior relevo na atualidade: “ – a flexibilização e humanização dos procedimentos institucionais - a participação do utente no diagnóstico e projecto de ajuda evitando a prescrição e pedagogia institucional” (Branco, 1996:50). Para a valorização do ser humano é imperioso a aplicação dos princípios da relação de ajuda de ajuda preconizados por Rogers na abordagem centrada na pessoa de que falaremos mais adiante.6

O objetivo deste trabalho surge em sentido inverso ao que é feito na epistemologia de todas as ciências, ou seja, em vez de intervir para testar os modelos teóricos, numa lógica de investigação-ação, vamos refletir acerca das intervenções realizadas para as enquadrar nos modelos teóricos existentes ou para criar novos modelos através da ação-investigação. De acordo com Guerra (2002) existe sempre uma contradição entre o conhecimento cientifico e sua aplicação prática, surgindo daí a necessidade de refletir acerca da forma como as teorias podem contribuir para a melhoria da prática profissional.

A eficácia reduzida na aplicação de alguns modelos teóricos, a dificuldade de aplicação, ou ainda, os problemas que resultam da aplicação de alguns modelos, criaram a necessidade de produzir conhecimentos através da prática profissional, de forma a melhorar os modelos teóricos existentes ou a criar novos modelos, construindo assim, teorias da prática na linha de Guerra (2002). Partilhamos ainda a visão de Guerra (2002) da necessidade de se evitar uma sobrevalorização de alguns modelos, como o sistémico, em detrimento de outros modelos, como os antropocêntricos e etnometodológicos, que têm impedido a utilização de práticas profissionais mais promotoras da mudança social, uma vez que a valorização excessiva da abordagem sistémica traduz-se em generalizações que impedem a perceção de particularidades da realidade, aumentado incoerências na análise da realidade e consequentemente na prática profissional .

Na sua prática o assistente social necessita de ter um grande controle emocional, uma vez que as situações sociais são complexas e, muitas vezes, de resposta controversa. Frequentemente, o Assistente Social toma decisões sobre a vida dos utentes que não se configuram em respostas eficazes. Neste sentido a legitimidade da intervenção do

6

(17)

7 assistente social resulta do respeito por direitos fundamentais que estão contidos na vontade e opinião dos utentes expressos através do seus discursos e garantidos no consenso alcançado com o assistente social através da sua livre participação, observando-se assim os princípios democráticos que constroem os direitos e todo o ordenamento jurídico. (Magalhães, s.d. cit. Habermas, 1997). Com o atual racionamento que estão a aplicar no Estado Social e nas Instituições Sociais, vêm-se ameaçados os direitos dos utentes e é nesta linha de pensamento que o assistente social e utentes vão ter de co-construir novas linhas de atuação para ultrapassar estes constrangimentos.

O Assistente Social tem de estabelecer uma relação de confiança para conseguir a continuidade da relação e intervenção (Granja 2008). No desempenho da nossa atividade, de forma rotineira utilizamos alguns dos princípios das teorias que melhor se aplicam à situação concreta. No âmbito deste relatório daremos muito importância à reflexão da prática partindo das teorias que a orientaram, explorando a compreensão das teorias que podem ser utilizadas na prática e reforçando e identificando possíveis adaptações e ecletismos.

Parafraseando Payne (2002), as teorias da prática do serviço social têm três objetivos:

1 Permitem a compreensão da sua utilização e as diferenças entre elas.

2 Servem de guia de conhecimentos, aos estudantes e profissionais, na sua aplicação prática.

3 Contribuem para a compreensão de como as teorias podem ser utilizadas na prática profissional.

As teorias permitem explicar e justificar o que os assistentes sociais fazem e como tal devem ter uma aplicabilidade coerente e compreensível. A existência de ampla variedade de teorias faz com que se aceitem aquelas que têm maior impacto na profissão. A prática de Serviço Social, como vimos anteriormente, é construída impreterivelmente a partir de 3 elementos: o assistente social, o utente e o contexto, ambos influenciam e são influenciados, podendo mudar a prática profissional e consequentemente as suas teorias. Muitas forças sociais que nada tem a ver com o desenvolvimento académico e prático da

(18)

8 profissão influenciam a prática e a”teoria” do serviço social. Necessidades sociais em mudança, necessidades de ocupações, mudanças políticas e legislativas são apenas alguns exemplos de fatores que podem influenciar a prática profissional. A teoria é mais um conhecimento criado por académicos enquanto profissão académica em si, do que um conhecimento criado para responder às reais necessidades dos utentes, enquanto que o conhecimento da prática do serviço social é reflexivo e inovador, porque responde às necessidades dos utentes e nesta prática por vezes rejeitámos ou reformulámos as teorias existentes para atingir o objetivo (Payne, 2002). Concordamos com Guerra (2002), no que diz respeito à necessidade de aproximação entre a teoria e a prática. Assim sendo “A ciência é a interpretação do real, dito de outra forma, o objecto e a função teórica é a sua confrontação com a realidade de forma a, comprovando-a ou infirmando-a, produzir conhecimentos que avançam sobre o estado de explicação que a humanidade detém sobre ela própria” (Guerra, 2002:73).

Também Mouro (2004) refere que o serviço social tende hoje a constituir-se como uma prática teórica, nesta linha verifica-se que a prática do Serviço Social aplica conhecimentos produzidos por outros ramos das ciências sociais ou de outras ciências e também produtora de novos conhecimentos, utilizando a prática como trabalho de campo.

De seguida abordam-se três grupos de visões teóricas importantes acerca da prática do serviço social: as reflexivo-terapêuticas, as socialistas-coletivistas e finalmente as visões individualistas-reformativas. As abordagens reflexivo-terapêuticas, aplicam uma intervenção individualizada e defendem que o serviço social deve promover o crescimento e a realização pessoal dos utentes aumentado o seu bem estar social. A interação dos utentes com os assistentes sociais promove a reflexão não só para utentes, mas também para os profissionais. É neste processo que se originam os efeitos terapêuticos, dado que utentes conseguem lidar melhor com a sua vida ganhando poder, auto-estima e autoconfiança. Exemplos desta visão são as teorias existencialistas/humanista, das quais se destacam as teorias de Maslow e de Rogers7. As visões socialistas-coletivistas, utilizam uma intervenção mais coletiva e aplicam princípios de cooperação, participação e apoio mútuo na sociedade para que os mais oprimidos e desfavorecidos consigam sair desta situação e conquistem o poder, transferindo-o da elite para si. Defendem uma relação

7

(19)

9 equitativa de poder e de direitos, pretendem também a realização pessoal e o bem-estar como na visão reflexivo-terapêutica. Ambas as visões procuram a mudança social e o desenvolvimento, mas aqui defende-se que tal é impossível concretizar-se sem uma mudança significativa na estrutura da sociedade. Exemplos desta visão são as teorias de desenvolvimento social, da capacitação8, as radicais e anti-opressivas, das quais destacámos os seguintes autores, Marx, Croft, Beresford e Bateman. Finalmente encontram-se as visões individualistas-reformistas que possuem um enfoque mais individual do que social, no qual se defende a criação serviços que vão ao encontro das necessidades da população. Tenta também alcançar uma mudança através da organização de uma sociedade mais equitativa, todavia este objetivo é difícil de alcançar, pois a mudança individual dificilmente pode produzir mudanças numa escala mais alargada como a da sociedade, não procurando uma mudança, mas antes uma adaptação dos oprimidos à sociedade. Alguns exemplos destas teorias sãos as sistémicas de Von Bertalanffy e as teorias centradas em tarefas de Reid e Epstein9 (Payne,2002).

Muitas das teorias que orientam a prática do serviço social utilizam as três visões, tal como na nossa prática, que existe uma abordagem eclética10 que utiliza premissas das três visões. Pois todas têm a sua importância, porque as múltiplas situações sociais obrigam à sua utilização. Como é sabido nas Ciências Sociais um modelo de intervenção pode resultar numa série de situações e não resultar noutras, daí a necessidade de se recorrer a modelos de outras visões. Todavia na intervenção por vezes dá-se mais ênfase a uma visão em detrimento de outras. Muitas vezes o assistente social na sua atividade, tem de se adaptar não só ao contexto institucional e aos utentes, mas também às pressões da sociedade e consequentemente por vezes tem de utilizar visões menos desejadas, mas que são igualmente úteis, embora não sejam as que considera ideais. Por exemplo quando o assistente social pretende utilizar uma teoria de uma visão mais socialista-coletivista, mais precisamente de capacitação de um grupo, que faz com que tenha de investir mais tempo para estas abordagens, devido ao elevado volume de trabalho que possui, opta pela utilização de uma visão individualistas-reformistas, tal como a teoria sistémica, que por vezes exige menos tempo na sua aplicação.

8

Para aceder às informações sobre a teoria da capacitação consultar a partir da página 57.

9

Consultar páginas 37 e 43 para obter mais informações acerca dos modelos referidos.

10

(20)

10 Esta reflexão teórica pretende contribuir para explicar o que fazemos e para criar um guia que oriente o profissional na sua intervenção. A globalização em mudança constante, que interfere com o agravamento da questão social e com a sustentabilidade do paradigma de Estado Social convencional, que implica reformulações do paradigma da intervenção de modo a responder às novas exigências, será abordada no próximo capítulo. Com base no entendimento de que a “teoria deve explicar de forma plausível por que é que algo acontece, e não simplesmente descreve-lo de uma forma organizada ou fornecer uma forma de pensamento sobre o mundo” (Payne, 2002:60), reforça-se o interesse deste relatório, que parte da prática profissional para a compreensão das teorias utilizadas nessa prática profissional e dos fatores que a influenciaram.

CAPÍTULO II

Do agravamento da pobreza no contexto da globalização às

novas exigências de intervenção num paradigma de Estado

Social

Globalização

Até há bem pouco tempo uma pessoa conseguia prever e planear qual a profissão que iria desempenhar, qual a cidade em que iria viver, se iria casar e ter filhos. Hoje não sabe se terá trabalho estável, onde terá de viver, dados os condicionamentos laborais, se terá de residir longe da família e amigos, se terá reforma, se conseguirá estabilidade para casar e ter filhos, etc. É neste contexto, de incerteza, de instabilidade e de mudança estrutural na vida das pessoas, que os modelos teóricos de Serviço Social devem ser reequacionados, compreendendo estas mudanças bem como, desenvolver uma alternativa a esta alienação humana, não se deixando corromper por teorias de globalização económica que nada tem que ver com o Serviço Social, mas que determinam a sua prática. Aqui a ética tem um papel fulcral, pois é ela que poderá impedir o racionamento de recursos para o combate à pobreza e à exclusão social que os estados sociais dos Países Ocidentais têm vindo a adotar.

(21)

11 Esta mudança acelerada que provoca incoerências nos modelos económicos e políticos utilizados também cria problemas sociais, que embora não sejam novos, têm origens diferente dos problemas no passado, criando também novos utentes, com perfil diferente dos do passado e, paralelamente, os problemas dos utentes “antigos/tradicionais” agravam-se pela situação da atual estrutura económica. Partilha-se da visão de Gonçalves (2011) e Hespanha, Caleiras, Pessoa & Pacheco (2007) na qual os Estados e suas regiões possuem cada vez menos poder e recursos para poder intervir dado que a globalização neoliberal tem retirado poder aos Estados e reforçado o poder de grandes grupos económicos. Esta não intervenção do estado tem retirado a racionalidade da aplicação das políticas publicas quer sejam económicas, fiscais ou sociais. Assiste-se à utilização de políticas sociais desfasadas da realidade atual e que são insuficientes para devolver às pessoas as oportunidades que necessitam. Assim e de acordo com Branco (2009) mesmo as novas políticas sociais ativas poderão ser insuficientes para garantir a inserção social, dado que está a torna-se cada mais difícil integração de todos no mercado de trabalho, devido ao desemprego estrutural, tendo então de se equacionar novas medidas. Neste sentido os programas de inserção teriam de ser reformulados ou pelo menos flexibilizados, dado que se partiria do principio que a integração profissional de todos é muito difícil de concretizar-se, a não ser que haja uma reforma estrutural no mercado de trabalho.

A globalização económica não correspondeu a globalização de Direitos Humanos e esta ausência de regras neoliberal deu espaço ao agravamento de assimetrias e colocou a maior parte dos recursos, na mão de uma minoria elitista que controla o poder , enquanto que a maioria da população vê a sua situação agravada. “O fenómeno da globalização está amplamente relacionado com o conceito de externalidade e tem contribuído para o agravamento das assimetrias regionais a nível mundial.” (Gonçalves, 2011:14).

Isso acontece especialmente quando grandes grupos económicos implementam ou deslocalizam a sua atividade para Países “em vias de desenvolvimento” recrutando para o trabalho crianças, bem como outras pessoas numa situação de grande precariedade laboral, para obter a redução dos custos de produção, deixando também um rasto de desemprego nos Países donde se deslocalizaram. Paralelamente, esses Países tem de pagar subsídios de desemprego, enfrentando ainda serias dificuldades para os integrar de novo no mercado de trabalho pela desindustrialização crescente. Como grande parte da população dos países em

(22)

12 Vias de Desenvolvimento não possui poder de compra para adquirir muitos desses produtos produzidos pelas grandes multinacionais globalizadas, a comercialização desses produtos faz-se, sobretudo, nos Países com maior poder de compra, donde se deslocalizaram. Muitas das vezes é esta a responsabilidade social invertida11 que está a ser implementada pelos grandes grupos económicos. Neste âmbito era necessário criar regras laborais e salários idênticos em todos os Países do Mundo, ou seja, para uma economia globalizada, regras laborais globalizadas.

De acordo com a teoria Marxista, no período antecedido pela globalização a luta de classes era feita dentro de um País para que a redistribuição dos recursos fosse feita de forma mais equitativa entre as diferentes classes. Todavia na era da globalização a luta já não pode ser efetuada somente nível nacional, mas também a um nível global, neste sentido deveria ser a luta de Países menos desenvolvidos contra os Países desenvolvidos e os grandes grupos económicos que poderia tornar a redistribuição mais equitativa. Podemos falar da luta de classes de Marx na época da industrialização, mas na era da globalização assistimos à supressão de classes (apenas 2 classes: pobres e ricos) e consequente desaparecimento da classe média, surgindo assim novos pobres decorrente do capitalismo globalizado.

Neste contexto, com a fundamentação de reforço da competitividade adota-se a flexibilização do trabalho que se traduz no aumento do desemprego e no emprego precário, bem como na redução da proteção social e na adoção de legislação de precariedade laboral. Retomamos então a questão da inclusão social, sabendo da importância inegável do trabalho para a integração das pessoas e quase sempre consubstanciado nos projetos de vidas das pessoas, isto traz como consequencia a impossibilidade de alcançar o objetivo de inclusão social, a implementação parcial dos projetos de vida e a incerteza relativamente ao futuro. O trabalho para além da obtenção de rendimentos permite custear as despesas com bem essenciais e de outros bens, que não sendo essenciais mantêm o nosso nível de vida, facilitam a inclusão social, permitem obter status, alcançar a auto-realização, entre outros (Hespanha et al., 2007). A falta de emprego de forma inversa traz consequencias negativas para as pessoas, famílias e sociedade. Tal como a exclusão social e pobreza de que

11

Defino-a como sendo aquela que utiliza uma prática não redistributiva e que defende apenas os interesses dessas mesmas empresas e mesmo quando utilizam alguma responsabilidade social serve apenas para realizar um marketing de promoção da empresa.

(23)

13 falaremos mais à frente, a situação de desemprego é também uma realidade multifacetada dadas as diferentes experiencias vivenciadas pelos desempregados (Hespanha et al., 2007). Por exemplo, o desemprego quando afeta pessoas de meia idade, entre os 40 50 anos, tem um impacto diferente das pessoas mais jovens, não só pela atitude e motivação para a adaptação, mas também pela exclusão que o mercado de trabalho efetua ás pessoas de maior idade.

Crise do Estado Providência

Neste contexto de manipulação especulativa dos mercados12 que desregula todo o tecido económico e financeiro e consequentemente o social, nos países desenvolvidos assiste-se ao declínio das políticas sociais decorrente da incapacidade dos Estados em controlarem o tecido produtivo e o capital que não tem fronteiras (Gonçalves, 2011), contudo os custos sociais estão localizados e são suportados pelos Países assistindo-se ao défice nas balanças comerciais e aumento da divida pública. É imprescindível num mundo globalizado que os Estados lutem por uma maior coesão e igualdade social ou, assistir-se-á de forma mais visível a fenómenos migratórios de países menos desenvolvidos para países mais desenvolvidos, criando problemas de integração de difícil resolução. Neste contexto “O novo trabalhador pretendido pelas empresas flexíveis deve agora ser polivalente e autónomo, ter a capacidade de trabalhar em equipa, de aceitar novos riscos, deve saber lidar com a fragmentação do tempo e viver sob a égide dos «laços fracos»” (Hespanha, 2007: 26 cit. Sennett, 2001). Com a globalização os trabalhadores deixam a condição de assalariado e passam a assumir funções de trabalhadores independentes que prestam serviços às empresas, assumindo todos os encargos e riscos inerentes de quem tem o seu próprio emprego, repartindo o seu trabalho/negócio com várias empresas clientes (Hespanha, 2007). Esta ultima condição em si até é boa, mas o facto de existirem muitos trabalhadores independentes, faz com que as empresas contratem os que praticam o preço mais baixo e que realizam maior quantidade e qualidade de trabalho. Para além disso, o excesso de mão

12

Utilizaremos o termo de crise manipulada, para nos referirmos à actual crise advinda da especulação financeira. Pensámos que denominar os fenómenos tal como eles são na realidade, facilita a sua compreensão e consequentemente a adopção de estratégias para a sua resolução. Para obter mais informações acerca da especulação financeira ver: http://vida-afirmativa.blogspot.pt/2012/08/crise-financeira-ou-especulacao.html e http://jornal.publico.pt/noticia/25-06-2011/as-agencias-de-rating-ampliaram--a-crise-de-hoje-e-preparam--a-crise-de-amanha-22069813.htm

(24)

14 de obra é fundamento para as empresas baixarem os salários, uma vez que existem muitas pessoas a aceitarem qualquer tipo de trabalho como acontece no BSF.

Todavia no contexto do BSF para além dos fatores relacionados com o trabalho ou com a falta dele, os cidadãos têm de lidar com facto de residirem num bairro estigmatizado, de pertencerem a uma minoria étnica e de terem baixas qualificações escolares e profissionais. A associação destes fatores dificulta ainda mais, o trabalho dos assistentes sociais, quando se trata de integrarem este grupo social no mercado de trabalho. No nosso trabalho assistimos à perceção por parte de alguns segmentos da sociedade de que o emprego é tão raro que parece um privilégio e não um direito (Hespanha, 2007 cit. Gorz, 1997; Castel, 1997). As consequências da globalização são de uma grandeza impressionante tanto para sociedade, pelo desemprego, a crise do estado social e o aumento da divida publica, etc., como para os indivíduos pela dificuldade em conseguirem materializar o que planearam. A partir deste momento já não se pode falar de problemas conjunturais, mas sim estruturais e permanentes. A crise do Estado Social afetou fortemente os utentes do BSF, pois uma parte significativa da população é carenciada e beneficia de prestações sociais. Quando iniciámos este trabalho no BSF as prestações eram de montante mais elevado, tendo sido reduzidas significativamente o que expôs as pessoas a situações de maior risco social. A seguir apresentaremos tabelas de algumas das prestações sociais por entendermos que facilita a leitura da redução dos montantes na data em que elas sucederam.

Tabela 2: Comparação montantes dos abonos de família

Fonte: Instituto da Segurança Social I.P. (2012b); Autarnet (2011); Associação Comercial e Industrial de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca (2009);

Montantes do Abono de Família 1º Escalão

2009 2011 2012

Por criança com mais de 3 anos

(25)

15 Como se pode verificar na tabela anterior, o montante dos abonos de família diminuíram durante o período em que decorreu a intervenção no CLDS. A tabela apresenta apenas dados do primeiro escalão de abono de família para crianças com mais de 3 anos de idade, tendo-se verificado uma diminuição de 43,68€ para 35,19€ entre os anos de 2009 e 2011.

Tabela 3: Comparação montantes de RSI

Fonte: Instituto da Segurança Social I.P. (2012a); Instituto da Segurança Social I.P. (2011b); Instituto da Segurança Social I.P. (2009a). Montantes de RSI 2009 2011 2012 Titular 187,18 € (titular e cônjuge/companheiro) 189,52 € 189,52 € Por elemento do AF adulto

(>18 anos)

131,03 € - a partir do terceiro

132,66€ 94,76€ Por Criança (<18 anos) 93, 59€

112,30 a partir do terceiro

94,76 56,86 €

Gravidez 56,15 € 0 0

Recém-nascidos até 1 ano de idade

93,59€ 0 0

Necessidades especiais 56,15€ – 1º grau 93,59€ – 2º grau

Apoios á habitação Recebe no máximo o valor do subsídio de renda de casa13

0 0

A tabela anterior demonstra a diminuição que ocorreu nos montantes de RSI. Verificou-se que entre o ano 2009 e 2011 foram retirados os complementos monetários do

13

Para despesas com habitação superiores a 25% do valor de RSI, para mais informações sobre o cálculo consulte o seguinte link: http://www2.seg-social.pt/preview_documentos.asp?r=22727&m=PDF

(26)

16 RSI para as grávidas, para recém-nascidos, para portadores de necessidades especiais e os apoios para comparticipar as despesas habitacionais. Entre os anos de 2011 e 2012 diminuíram também os montantes de RSI para os adultos, excetuando o titular, de 132,66€ para 94,76€. Para o mesmo período, também houve uma diminuição dos montantes do RSI das crianças de 94,76€ para 56,86€. O RSI é principal medida de politica social que o nosso País tem para atenuar a pobreza, mas esse objetivo fica mais comprometido com estes cortes.

Tabela 4: Comparação montantes das prestações de desemprego

Fonte: Instituto da Segurança Social I.P. (2012c);Online 24 (2011); Instituto da Segurança Social I.P. (2009b).

Subsídio de Desemprego 2009 2011 2012 Desempregado 65% remuneração referência Mínimo – 419,22 Máximo-1257,66 € 65% remuneração referencia mínimo – 419,22 Limite máximo Máximo-1257,66 € 65% remuneração referencia mínimo – 419,22 Limite máximo-1048,05

A tabela anterior faz referência aos valores do subsídio de desemprego. Embora à primeira vista pareça não existirem alterações significativas entre os anos de 2009 a 2012, durante o ano de 2011 a 2012 diminuiu o limite máximo do montante de subsidio de desemprego de 1257,66€ para 1048,05€.

Como podemos verificar nos exemplos das tabelas anteriores, a opção do nossos governantes tem sido a de reduzir os montantes das prestações sociais aos mais necessitados, bem como têm criado critérios de acesso mais rígidos e seletivos, tornando

(27)

17 mais difícil o acesso às prestações. Esta situação está a expor mais famílias a mais riscos e a desvirtuar o papel do estado social.

No nosso entender é inegável o papel do estado social no desenvolvimento das sociedades. Embora se reconheça a crise do paradigma tradicional de estado social/estado providência no Ocidente, como resultado da incapacidade de controlar os efeitos adversos do capitalismo (Hespanha et al., 2007), as suas implicações, nomeadamente no Subsistema da Ação Social e consequentemente na garantia de direitos sociais às população alvo de intervenção como vimos anteriormente, exigem que se acautelem os princípios de redistribuição subjacentes. De acordo com Silva (s.d.) o direito da acumulação de capital serve de pretexto para efetuar cortes no estado social, fazendo com que se caminhe para uma “politica social sem direitos sociais”. No atual contexto, de desemprego estrutural, de envelhecimento demográfico, de diminuição da população em idade ativa, de aumento do numero de beneficiários de pensões, prestações de desemprego e de RSI , sobressai a pressão financeira sobre a sustentabilidade do estado social.

Em Portugal, subscrevendo alguns autores (Hespanha, 2007, cit. Santos, 1990) “...Estado-Providência fraco e que, ao contrário, é a sociedade-providência, enquanto conjunto de redes de relações de interconhecimento, de reconhecimento mutuo e de entreajuda assente em laços de parentesco e de vizinhança, que se substitui, muitas vezes, a essa fraqueza”... “...ao contrário, de outras sociedades europeias, a sociedade portuguesa e constitui como uma sociedade salarial inacabada, na qual, o estatuto de emprego é débil, a economia informal está muito presente...” (Hespanha, 2007:23). Desemprego é muitas vezes sinónimo de degradação do

nível de vida e um entrave ao alcance dos projetos de vida das pessoas. De acordo com Hespanha (2007), os desempregados correm mais risco de pobreza, todavia esse risco varia de País para País não só pela cobertura das eventualidades que o estado social promove, mas também pela política salarial. Para falar da crise do estado social poderíamos apresentar dados estatísticos acerca da evolução da população ativa e de beneficiários da segurança social, mas o objetivo deste trabalho não passa por esta análise e, por outro lado, já existem estudos que demonstram o caráter mais limitado do nosso estado providencia quando comparado com outros países da Europa.

Para explicitarmos os fatores que interferem com o exercício da prática, em termos de quadro de referência, além das teorias de trabalho social, da globalização e do Estado

(28)

18 Social, consideramos fundamental a compreensão da pobreza e da exclusão social, que se apresenta no ponto seguinte.

Pobreza e exclusão social

É consensual que a Globalização Neoliberal aumentou e agravou significativamente a pobreza e a exclusão social. As situações de pobreza e exclusão social embora tenham as suas similitudes entre as pessoas afetadas contem também diferenças importantes e neste sentido importa clarificar o conceito de pobreza e de exclusão social, que têm um caráter multi-dimensional, que torna estes processos mais complexos. A pobreza está relacionada não só com a carência de bens e serviços que asseguram a subsistência do individuo (Hespanha et al., 2007) bem como com a privação de participação em vários segmentos sociais, que se traduz ou acarreta um défice de competências pessoais e sociais que dificultam a saída desta situação, que se denomina exclusão social, onde as pessoas perdem o poder de representação (Gonçalves,2011).

Como vimos, a pobreza pode ser originada por uma variedade de situações e de acordo com Gonçalves (2011) cit. Sen (1992), Hespanha et al. (2007) as dimensões da pobreza podem ser agrupadas em três domínios: 1- Domínio de subsistência que está ligada à sobrevivência biológica/física do ser humano, a qual tem correspondência com a quantidade necessária á subsistência. 2- Domínio material que se associa à desigualdade de rendimentos dos indivíduos de uma estrutura social, onde se origina a pobreza. 3- Domínio do modelo económico vigente que agrava as desigualdades sociais e aumenta as situações de pobreza.

Podemos também definir vários tipos de pobreza, porém existem duas definições que tem uma larga aplicação em contexto da trabalho, o de pobreza absoluta e relativa. Nestes dois conceitos a intensidade é o que marca a diferença entre eles, todavia enquanto na pobreza absoluta o contexto não é importante, na pobreza relativa difere muito de contexto para contexto. A pobreza absoluta ocorre quando uma pessoa não tem os recursos para garantir a sobrevivência. Na pobreza relativa a pessoa tem rendimentos para garantir a sua subsistência, mas não tem os recursos que lhe permitam viver de acordo com o modo de vida donde está inserido, este conceito varia de sociedade para sociedade e de País para País. Pode assim assumir diversas facetas consoante se esteja num contexto rural ou

(29)

19 urbano, bem como da situação que a origina, assim como os limites temporais em que assola um individuo.

Nesta análise pode afirmar-se que “...pobreza relativa em Portugal, não seria sequer pobreza num contexto africano”(Gonçalves, 2011:22), esta afirmação é corroborada pela

maioria dos residentes do BSF que afirmam que mesmo estando numa situação muito difícil em Portugal, como o caso de desempregados e mesmo dos indocumentados, que têm apenas como forma de sobrevivência, as prestações sociais, a ajuda de amigos, de instituições de solidariedade e de “biscates” que realizam de algum modo, lhes permitem garantir a subsistência, verbalizam, que “estão muito melhor aqui que no seus País” e, por esse motivo, raramente tem intenção de regressar. Afirmam que no seu País “é muito mais difícil encontrar emprego e que a inflação é elevada …têm muitas dificuldades em comprar alimentos.” Referem que “um emprego mesmo que precário em Portugal garante melhores condições de vida”. Grande parte dos que decidem imigrar para Portugal têm aqui familiares e decidem vir estudar ou trabalhar para Portugal por ansiarem uma vida melhor. Importa referir que de entre as razões da imigração, não estão só as razões relacionadas com o emprego, as oportunidades de trabalho e de um trabalho melhor remunerado, o sistema de saúde é melhor, a educação também, bem como a proteção social. Por conseguinte nas justificações estão perceções relacionadas com o sistema de proteção social. As noticias que lhes chegam, acerca dos Países mais desenvolvidos, são muito apelativas, daí que resolvam imigrar em massa de imigração para Países mais desenvolvidos, apesar das dificuldades de integração que já se vivenciam em todos esses países, mais concretamente de Portugal. Ultimamente não existem mudanças legislativas significativas mas, os procedimentos para a regularização estão a efetuar-se de forma mais rigorosa.

Defendemos, tal como Gonçalves (2011:33), que ... “Os quadros teóricos, socioeconómicos, da pobreza e exclusão social encontram explicação para o agravamento da questão social nos factores externos que resultam do modelo socioeconómico dominante. Nesta linha, o processo de reestruturação produtiva mundial e a globalização, determinados pelo modelo económico dominante, são factores que, ameaçam alguns sistemas produtivos locais e certos grupos sociais provocando subdesenvolvimento, graves assimetrias regionais e desigualdades.”

(30)

20 De acordo com Gonçalves (2011) cit. Castel (1998), a exclusão social está associada a um défice de cidadania do excluído pela sua não participação nos direitos da sociedade, este afastamento pode chegar a uma fase de marginalização extrema, na qual a pessoa se afasta sucessivamente de todos os setores da sociedade. Tal como a pobreza, a exclusão é multidimensional, pois para alem da privação material, existe também a privação social, que se traduz na dificuldade em aceder aos sistemas sociais básicos. Podemos concluir que a pobreza é uma forma de exclusão, porque a ausência de recursos afasta as pessoas de alguns dos sistemas sociais básicos. Todavia existem pessoas pobres que não são afetadas pela exclusão, devido às redes de suporte informal em que estão inseridas. Existem também certas pessoas que não são pobres, mas são excluídas e estigmatizadas pela sociedade Gonçalves (2011), por exemplo habitantes de um bairro estigmatizado, imigrantes e pertencente a minorias éticas como no BSF, prostitutas, etc.

Pobreza e exclusão social são originadas por este contexto económico de capitalismo globalizado e neoliberal que protege a elite dominante, em detrimento da população mais vulnerável. Neste sentido podemos afirmar que, este modelo poderá resultar numa fonte de oportunidade para as elites que controlam e detêm o poder, de forma injusta, imoral, sem ética e por vezes nada legal, sendo uma fonte de produção de pobreza (Gonçalves, 2011).

O termo exclusão social comporta uma diversidade de fenómenos e de dimensões, que dificulta a operacionalização do conceito, neste sentido limita a sua compreensão, dificultando também a intervenção. Dois indivíduos excluídos podem ser certamente atingidos por fenómenos diferentes, de causas diferentes, existindo ainda setores onde não se encontram excluídos. Outro fator complexo é a análise dos sistemas do sujeito excluído, pois é desta relação entre o individuo e sociedade que se origina exclusão e é em ambos que se deve encontrar a explicação do fenómeno (Guerra, 2002). Ainda em Guerra (2002: 66) sublinhamos o entendimento de que o assistente social deve... “reconhecer aos utentes os seus direitos, a sua capacidade de participação e responsabilização. Considera-se hoje que os excluídos são capazes de passar de vitimas a actores e que só os utentes responsáveis poderão ser actores da mudança do seu quadro de vida:”

Sintetizando o que dissemos anteriormente,... “Pode, com razão falar-se em diversos tipos de exclusão...De tipo económico. Trata-se, fundamentalmente de pobreza, entendida como

(31)

21 se disse, como uma situação de privação múltipla, por falta de recursos... caracterizada por más condições de vida, baixos níveis de instrução e qualificação profissional, emprego precário”... “De tipo social... Privação de tipo relacional, caracterizada pelo isolamento, por vezes associada à falta de auto-suficiência e autonomia pessoal. Exemplos típicos ...dos deficientes que não têm quem os apoie, dos doentes crónicos ou acamados, que precisam de cuidados que lhe são negados”.“De tipo cultural... O racismo, a xenofobia...“da origem à exclusão social de minorias étnico-culturais...“De origem patológica... factores patológicos, designadamente de natureza psicológica ou mental. Por vezes, as rupturas familiares são originadas por problemas psicológicos ou mentais”...“Por comportamentos destrutivos....exclusão social ou de auto-exclusão, em consequência de comportamentos auto-destrutivos... toxicodependência, o alcoolismo, a prostituição, etc... estas causas imediatas têm por detrás problemas de pobreza. “ (Costa. A, 1988:21-23).

Abordaremos de seguida o tema do desenvolvimento local, comunitário e social, porque entendemos, na linha de Gonçalves (2011), que está inteiramente relacionado com a pobreza e com a exclusão social. Com o efeito, como a autora destaca, o nível de coesão social e territorial é determinante nos fenómenos de pobreza e exclusão. Territórios mais dotados de infra-estruturas sociais e económicas têm mais recursos para desencadear processos de inclusão.

Desenvolvimento

No desenvolvimento local, a ênfase vai para a intervenção que é a realizada pelas instituições locais que realizam um diagnóstico mais adequado, bem como utilizam metodologias mais eficazes, conseguindo obter parcerias e o envolvimento da população para fazer face às necessidades e são elas também que pressionam o Estado a adotar políticas definidas de baixo para cima (Hespanha et al., 2007). Para se alcançar o desenvolvimento do território alvo de intervenção, deve ser feita uma análise das suas potencialidades e dos constrangimentos .

De acordo com Payne (2002), Desenvolvimento social e comunitário está intimamente relacionado com o desenvolvimento industrial e económico. O desenvolvimento e a sua redistribuição justa e equitativa permitiria combater a pobreza de forma mais eficaz. O desenvolvimento local deve respeitar a cultura e os valores locais e devem essencialmente beneficiar a comunidade que ali vive. No desenvolvimento local, os

(32)

22 lideres locais investem consideravelmente nas Organizações Não Governamentais (ONG) que tem independência relativamente ao Governo Central que por vezes impõem um modelo de desenvolvimento Ocidentalizado que nem sempre serve para defender os interesses e necessidades locais. Mas, é inquestionável o desenvolvimento das áreas do emprego, da educação e da assistência. Esta forma de desenvolvimento permite uma descentralização e desburocratização na tomada de decisões e preocupa-se com o bem-estar do ser humano e da comunidade local que participa neste processo e que acaba por promover o desenvolvimento das capacidades individuais, assim como a mudança estrutural e a integração socioeconómica, o desenvolvimento institucional e a renovação (Payne, 2002). Concordamos com Jones (1981), cit. Payne (2002:285), que “... o propósito ultimo do desenvolvimento é fornecer oportunidades crescentes a todas as pessoas para uma vida melhor, torna-se essencial criar uma distribuição mais equitativa dos rendimentos e da riqueza para promover tanto a justiça social como eficácia da produção....Logo as mudanças qualitativas e estruturais na sociedade devem ir de mãos dadas com um crescimento económico rápido e as disparidades existentes...devem ser substancialmente reduzidas.”

O desenvolvimento é um meio, para atingir um fim, o bem-estar da sociedade, sustentável, tanto economicamente como ecologicamente, corresponde ao seu fim último. Este tipo de desenvolvimento denomina-se desenvolvimento humano. A base do desenvolvimento comunitário apela à participação e integração das pessoas de um dado território (Gonçalves, 2011;Payne, 2002) e está relacionado com o desenvolvimento local ou endógeno e com o empoderamento. O objetivo central passa por envolver as pessoas locais e organiza-las de forma a coordenar os recursos de que dispõem para responder aos problemas locais.

Embora o desenvolvimento local e comunitário possa produzir resultados de mudança para a comunidade, será tanta mais coeso e duradoiro quanto mais abrangente for, ou seja a comunicação com o nível regional, nacional e transnacional para agendar compromissos é essencial. Prova disso, é o atual contexto de interdependência económica das diferentes regiões e Países que acaba por afetar todos os estados, nacionais regionais e localidades. De acordo com Gonçalves (2011), o Desenvolvimento Social pressupõe o direito ao emprego, a integração social e a erradicação da pobreza, utilizando para tal três pilares bases onde dever existir um equilíbrio e harmonia na esfera social, económica e

(33)

23 ambiental. Neste sentido, tal como Gonçalves (2011), defendemos que o modelo de desenvolvimento humano, de base local, dá garantias de um desenvolvimento adequado, dado que associa ao crescimento económico o Índice de Desenvolvimento Humano que mede a distribuição da riqueza, o nível educacional, a esperança de vida, natalidade, etc. No BSF o índice de desenvolvimento humano foi determinante para desenvolver o território, foi assim que ao criarmos cursos de formação profissional, ações de sensibilização, de apoio no requerimento de prestações que, contribuímos para o bem-estar social. Mas, ainda na linha da mesma autora, importa ter uma atitude eclética e de contextualização na aplicação local de modelos de desenvolvimento, destaca-se a preocupação com o eco-desenvolvimento ou desenvolvimento sustentável, que defende um desenvolvimento que proteja o ambiente, que seja sustentável e defenda também a distribuição da riqueza.

No que diz respeito ao nível de coesão social e territorial encontra-se mencionado nas páginas 39 a 41, pelo que não vamos fazer referencia sobre o mesmo, importa apenas salientar que a coesão social e territorial foi condicionada pela falta de investimento publico em infra-estruturas sociais e económicas e na tomada de decisão da demolição do BSF, que agravou os processos de exclusão.

CAPÍTULO III

Intervenção realizada no Bairro de Santa Filomena

No CLDS as funções desempenhadas vão muito para além das realizadas por um assistente social “tradicional”, atuando em áreas muito diversificadas para conseguir responder às necessidades detetadas no diagnóstico social, assim vamos dividir a intervenção em cinco áreas distintas, embora correlacionadas entre si e, nas quais se intervêm com maior incidência: 1- Atendimento e Acompanhamento Social14, 2- Tratamento da documentação pessoal, 3- Sistema de Saúde, 4- Nível Habitacional e finalmente na Animação Sociocultural e fazer corresponder a prática realizada, ou seja as tarefas efetuadas aos modelos teóricos com maior significância para o serviço social.

14

Denominámos atendimento e acompanhamento social todas as acções que estão contidas no Eixo II do CLDS – Intervenção Familiar e Parental, porque entendemos que é o termo que melhor corresponde ao que se realizou, atender e acompanhar indivíduos e famílias de para a concretização dos seus projectos de vida.

(34)

24 Como facilmente se pode deduzir o assistente social aqui tem de ter conhecimentos bastante aprofundados nas áreas que referimos anteriormente, para poder alcançar os objetivos definidos e responder às necessidades da população.

Apesar do CLDS ter iniciado em 07/05/2009, fomos contratados apenas no dia 26/10/2009. A Psicóloga e Gestora do Projeto foram apenas contratadas em Janeiro de 2010 e em Novembro, o Animador. Em 2009 não tínhamos instalações no BSF, intervínhamos a partir de um espaço da equipa RSI da SCMA, íamos colaborando nas atividades da equipa RSI com utentes do BSF, nomeadamente nas visitas domiciliarias, o que permitiu a divulgação do nosso projeto. Como o BSF é um Bairro de construção ilegal, as questões legais de construção de instalações dificultaram a nossa ida para o BSF. Assim, começámos a intervir em dois módulos (contentores) que nos foram cedidos gratuitamente por uma das IPSS do BSF, duas tardes por semana começamos a atender as pessoas, e publicitando o projeto. Este era um espaço central relativamente ao BSF que facilitou muito o contacto com os residentes, dada a significativa aglomeração de pessoas que ali se encontravam. Todavia neste espaço não existiam computadores nem acesso á internet. Posteriormente a CMA cedeu-nos gratuitamente umas instalações que vagaram, a qual utilizamos a partir de Maio de 2010 e se tornou a sede do CLDS, dado ter as condições necessárias para ter vários gabinetes, embora ficasse numa extremidade do BSF, onde não se aglomerava população. Contudo antes do final do ano de 2010 conseguimos que a população frequenta-se este espaço. Os contentores facilitaram o contacto inicial com população, era onde com frequência divulgamos as atividades que íamos realizar. Na fase inicial, realizamos algumas visitas ao BSF para publicitar o projeto, bem como as atividades em curso e desta forma conseguíamos utentes para as atividades, bem como para atendimento.

O processo de trabalho utilizado foi o seguinte: agendávamos atendimento com as pessoas que nos solicitavam apoio diretamente, ou eram atendidas no momento se estivéssemos perante uma situação de urgência/emergência15. Outras vezes os utentes eram

15

Quando as pessoas pediam para ser atendidas era realizado um “pré-diagnostico” através de uma breve conversa, se a situação indiciasse que não tinham comida, se estavam crianças, idosos ou pessoas com necessidades especiais em risco ou em situação de significativa instabilidade emocional eram atendidas no momento por qualquer elemento da equipa de modo a responder à situação que depois seria reportada ao assistente social.

(35)

25 nos encaminhados por outras instituições, alguns dos atendimentos foram agendados quando divulgávamos o projeto nas visitas que fazíamos ao BSF ou nas atividades que desenvolvíamos. Outras vezes, quando frequentavam atividades de informação sensibilização ou formação, eram encaminhados por outro elemento da equipa para os ajudarmos numa dada questão.

A intervenção inicia-se com um atendimento, onde se realiza o diagnóstico social (fragilidades e potencialidades) que é aprofundado em visita domiciliária. As famílias são acompanhadas na definição e execução de projetos de vida (que muitas vezes passa pelo encaminhamento para formação/educação e/ou para o mercado de trabalho). Quando detetámos pessoas em situação de insuficiência de recursos são apoiadas na obtenção de prestações sociais, enquanto não conseguem a autonomia económica. Para além do atendimento/acompanhamento individual, são efetuadas ações sensibilização/formação destinadas a melhorar as competências das pessoas ou para reduzir ou eliminar as situações de risco. Algumas ações realizadas através das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) complementam a intervenção holística que realizámos, nomeadamente os agendamentos no SEF para a obtenção dos títulos de residência, a marcação de consultas médicas no centro de saúde e o requerimento de prestações sociais, sendo este CLDS “a ponte” com os demais serviços que os utentes necessitam. Importa realçar que neste projeto as pessoas participam de livre e espontânea vontade, não estando obrigados a frequentar os nossos serviços por qualquer imposição legal ou por beneficiarem de qualquer prestação, daí a importância da publicitação das atividades e sensibilização da população para sua importância, bem como, para a utilização na intervenção dos princípios básicos de uma relação de ajuda, tal como a aceitação positiva e incondicional, a empatia e a congruência, conforme são preconizados pela abordagem centrada na pessoa, que faz com que exista uma relação de grande proximidade e confiança entre técnico e utente.

Sintetizando o processo, iniciávamos a intervenção, atendendo a pessoa no sentido de realizar um diagnóstico inicial da situação, o registo de todas as diligencias e avaliação dos resultados era feito na ficha de processo familiar num ficheiro de excel (ver anexo A), influenciado pelo modelos teóricos dos quais falaremos mais à frente. Em casos que

(36)

26 julgamos necessário realizamos visita domiciliária16 tinha como objetivo a obtenção de um diagnóstico mais aprofundado da situação, algumas vezes as visitas foram feitas quando tínhamos dificuldade em contactar as pessoas ou quando era necessário um acompanhamento mais próximo. Depois do primeiro atendimento, planeávamos a intervenção (ponto 6 da ficha processo) e através do acompanhamento sistemático e sistémico verificávamos se tínhamos alcançado os resultados. Quando encaminhávamos pessoas para o banco alimentar da Encosta Nascente, ou quando esta nos pedia para avaliar a necessidade do banco alimentar era feita informação social (ver anexo G), bem como nos pedido de integração em respostas sociais e outros pedidos. Nas informações sociais apresentava-se a informação relevante que tinha sido recolhida, a partir do contacto com os públicos nos atendimentos, visitas domiciliárias e no acompanhamento social sobre as seguintes variáveis; sócio-demográficas e de identificação dos elementos do agregado familiar, habilitações escolares e profissionais, situação face ao emprego, estado de saúde, situação económica e de redes de apoio social formal e informal, situação habitacional e identificação do pedido de apoio e respetiva fundamentação.

Teorização da prática profissional

No atendimento e acompanhamento social, para a elaboração/atualização de diagnósticos sociais nos níveis: individual, familiar, baseamo-nos na Teoria das Necessidades de Maslow (Serrano, 2011). De acordo com esta teoria as pessoas motivam-se para agir no motivam-sentido de satisfazerem necessidades, ou motivam-seja, agem para obter algo que lhe faz falta (Payne, 2002). Neste sentido, categorizaram-se hierarquicamente as necessidades de acordo com a seguinte pirâmide:

16

As visitas domiciliárias eram realizadas essencialmente para confirmar a necessidade de apoio do banco alimentar, de bens do banco de bens doados e no acompanhamento de crianças e jovens , idosos e portadores de necessidades especiais que se encontrem em risco.

Imagem

Tabela 2: Comparação montantes dos abonos de família
Tabela 3: Comparação montantes de RSI
Tabela 4: Comparação montantes das prestações de desemprego
Tabela 5: Ponto 1 da ficha de processo familiar – Identificação do titular do processo
+7

Referências

Documentos relacionados

Porta de jusante Stop-log Porta de montante Stop-log CÂMARA PERFIL Stop-log Garagem de jusante Muro guia Stop-log Garagem de montante CÂMARA Muro de guarda PLANTA Portas Muro

As resistências desses grupos se encontram não apenas na performatividade de seus corpos ao ocuparem as ruas e se manifestarem, mas na articulação micropolítica com outros

O princípio de igualdade entre os seres humanos não é uma descrição de uma suposta igualdade concreta entre os humanos: é uma prescrição de como deveríamos tratar os

José Dutra de Oliveira Neto - Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto - SP, Brasil Prof.. José Gilberto Jaloretto - Universidade de Brasília, Brasília -

O uso do vácuo foi influente para o aumento da transferência de massa e calor, causando maior redução do tempo de secagem, como também para uma menor mudança de cor e

Sumariamente, os objetivos deste estágio parcelar foram: desenvolver conhecimentos e capacidade de diagnóstico e intervenção clínica em Psiquiatria e Saúde Mental;

Desta forma, pode-se concluir que a bacia do Rio Moxotó sofreu muitas alterações ao longo desse tempo, evidenciando claramente a vulnerabilidade da sua área as mudanças

The present study evaluated the potential effects on nutrient intake, when non- complying food products were replaced by Choices-compliant ones, in typical Daily Menus, based on