EDUARDO FIGUEIRA FLORENTINO DE ABREU
O registro e informação como identidade social
Niterói 2013
EDUARDO FIGUEIRA FLORENTINO DE ABREU
O REGISTRO DE INFORMAÇÃO COMO IDENTIDADE SOCIAL
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Arquivologia.
ORIENTADOR: Prof. MSC Antonio Victor Botão
Niterói 2013
O REGISTRO DE INFORMAÇÃO COMO IDENTIDADE SOCIAL
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Arquivologia.
Aprovada em ___________ de _____.
BANCA EXAMINADORA
Prof. MSC Antonio Victor Botão (orientador) UFF – Universidade Federal Fluminense
___________________________________________________________________
Prof.ª DRª Marcia Heloisa Tavares de Figueredo Lima UFF – Universidade Federal Fluminense
___________________________________________________________________ Prof.ª MSC Renata Regina Gouvêa Barbatho
Não há evocação sem uma inteligência do presente, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais (BOSI, 1994).
Esta pesquisa objetivou estudar e analisar as características que impulsionam as iniciativas de registro de informação em diferentes condições e ângulos de observação. Com a consciência de que esta é uma prática antiga, muito se pode aprender sobre a natureza dos registros, desde sua origem na percepção humana do mundo, até a diversidade de interesse político alcançado nos dias atuais. Desta maneira, este trabalho tem um perfil reflexivo sobre as questões culturais relacionadas às retenções de conhecimento através do tempo.
1. INTRODUÇÃO ...,...07
2. CONCEITOS INICIAIS...10
2.1 REGISTRO E INFORMAÇÃO...11
2.2 ESCRITA...14
2.3 IDENTIDADE E SOCIEDADE...22
3. O PAPEL DA MEMÓRIA E DA HISTÓRIA ...,...27
4. REGISTROS DE INFORMAÇÃO E A IDENTIDADE NA ERA DIGITAL...34
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...39
INTRODUÇÃO
É de conhecimento geral que o ser humano difere-se de todos os outros seres vivos com que convive. O homem é visto, a partir do amadurecimento dos olhares que pesquisam e tratam da investigação desta faceta humana, como um ser que cresce intelectualmente.
A racionalidade transforma por completo o ciclo de vida humana. Os limites anatômicos perante uma inteligência (racional e não instintivamente natural) passam a ser menores e menos relevantes para determinar o destino da espécie. O Homem tornou-se dominante não por adquirir garras, força além do que já lhe cabia, sentidos mais aguçados, ou qualquer outra característica dada pela natureza física a seu redor. É possível dizer até que o processo de evolução humano se mostra subjetivo; proveniente da mesma subjetividade que encarrilha à consciência – o pensamento, o raciocínio: capacidade exclusiva do Homo Sapiens.
A principal característica da mente consciente é a produção criativa desenvolvida no cotidiano, na percepção do que existe o do que precisa ser inventado. Os modos de organização social, a administração de posses e direitos, até a produção artística, surgem em meio a um grupo racional presente conscientemente. Alem de seu principal produto, fruto de anos de crescimento especial tão diferenciado: a cultura. E este “produto” da consciência somada à convivência social nada mais é do que o reflexo da própria desenvoltura de cada povo em relacionamento interno.
Todavia, fatores como o envelhecimento e o próprio progresso contínuo de produção de intelecto, exacerbam a capacidade natural de preservar informação. Portanto, o Homem precisa de uma forma de seguir adiante em sua produção racional, sem correr o risco de perder o que já tem conquistado em esquecimento; precisa do Registro que, neste trabalho, é objeto de pesquisa a fim de refletir sobre as motivações sociais especiais que levam até o mesmo. Afinal, muito do que se produz e perpetua desde o início até os tempos atuais são mais do que meros
suportes para informações, são retratos do próprio perfil cultural específico de cada época e povo, visto através do que se releva à guarda permanente; muitas das atividades que são registradas ao decorrer das eras mudaram suas necessidades de registro, ou ao menos suas relevâncias.
Dados e informações são levantados pela História, e montam o autorretrato humano; esta proposta de trabalho de conclusão de curso teve seu principio na percepção do sentido ancestral de todas as atividades exercidas contemporaneamente pelas áreas que se encontram no campo da Informação.
De forma simultânea, não se pode adquirir informação sem armazená-la em memória física ou subjetiva, pois, sem a capacidade de recuperação, qualquer informação recentemente adquirida desapareceria de imediato, e, se desaparece, não pode ser chamado de aquisição. Não faria sentido aprender a ler para depois esquecer todo o processo da leitura. Baseado na quantidade de conhecimento acumulado desde o começo de sua produção e retenção, pode-se afirmar que o registro de informação existe, de maneira mais ínfima, desde os primórdios da criação dela mesma, seja ela qual for.
Portanto, a importância dos Registros justifica-se no armazenamento do produto da capacidade de aprendizado para uso permanente ou a longo e médio prazo. As tentativas de imortalizar as lições aprendidas deixam marcas inexoráveis, afinal esta foi e é a intenção desde o inicio, mesmo que o foco consciente, no momento do manuseio do novo conhecimento, não veja desta maneira. Tudo em contexto se justifica e isso se aplica as informações presentes nos Registros também.
Este Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo principal abordar as teorias a respeito dos registros de informação e a importância destes na formação da Identidade Cultural e Social. Isto será feito, em primeiro lugar, com a identificação dos motivos que levaram ao registro de informação; em segundo lugar, com a análise dos conceitos da literatura clássica sobre registros do conhecimento; e, por fim, com a demonstração do processo de evolução dos registros informacionais.
Com base na literatura existente no campo de registro de informação, este trabalho tem como método subsequente o levantamento teórico do assunto seguido
da interdisciplinaridade das visões da História, Arquivologia e Ciência da Informação, a pesquisa bibliográfica nestas áreas. A busca de tais informações será feita através de pesquisa bibliográfica e pela internet.
Enfim, consultado o ponto de vista dos teóricos das áreas que tratam a informação como objeto de estudo das mais diversas formas de disciplina e de prática, esta pesquisa toma como meta os critérios de registro e apreensão de informação em determinada sociedade.
Esta pesquisa começará com um capítulo voltado apenas à conceituação dos termos chave que a compõem. A começar com o registro e a informação, seus significados como palavras separadas e como expressão. Em seguida o foco será voltado para as características da escrita, o quanto esta técnica é significativa para o tema. Terminado este estabelecimento de conceitos, os de identidade e sociedade serão revistos individual e coletivamente. Os capítulos subsequentes entrarão na questão da memória, da história e da contemporaneidade da era digital.
2 CONCEITOS INICIAIS
Para obtenção do foco do objetivo principal deste trabalho, primeiramente faz-se necessário o estabelecimento claro dos conceitos existentes e que permeiam esta pesquisa.
A partir de uma análise e reflexão quanto ao que se refere à proposta do tema desta pesquisa, notar-se-á que, desde o título exposto que dá nome ao trabalho, dois grandes conceitos já são traçados e estabelecem as palavras-chaves para a discussão que já pode ser prevista através destes, são eles: registro de informação, que nada mais é do que o objeto central de todo o texto discorrido do começo ao fim do TCC em questão, e identidade social, sendo este ultimo apresentado como a qualidade propulsora do primeiro, pois os registros serão formados, de acordo com os princípios de visão do produtor desta pesquisa (obviamente baseado nos autores já conceituados da área de estudo relativa ao que se está tratando neste tema), em harmonia com o modo de vida e pensamento de cada “Identidade”, ou seja, cultura, formadora de um grupo social capaz de gerar conhecimento.
Apresentados os dois pontos que, juntos, formam o cerne de todas as questões que serão trabalhadas no decorrer do trabalho, mas ainda não devidamente expostos e detalhados, outros aspectos do tema precisam ser exteriorizados e bem especificados inicialmente.
Ao seguir de início a leitura cuidadosa dos dois itens formadores deste trabalho citados até então, será possível ter a percepção de que ambos, tanto o registro de informação quanto a identidade social, são expressões formadas por mais de uma palavra que, combinadas, mantêm o conceito das duas ideias.
Após estes dois conceitos serem devidamente expostos, o próximo passo dirigirá o assunto em direção à evolução daquele que, a partir da constatação de seu volume de produção através do tempo e valor de uso e armazenamento de conhecimento da antiguidade que a gerou até a atualidade que a mantém, se mostra
como o maior representante do registro de informação da história da humanidade que é a escrita. Uma breve linha de desenvolvimento desta técnica será exposta como ilustração de seu valor.
Em seguida, o termo identidade, de maneira única e individual, será melhor esclarecido para que, em seguida, entenda-se o resultado da sua coletividade em uma sociedade – outra conceituação cuja pretensão será de mais bem trabalhada possível.
Por fim, no mesmo subitem, o assunto tomará o foco para o segundo e último termo (expressão) que antes não poderia ter sido mencionado da forma composta em que originalmente se apresenta. Este é o conceito de identidade social, já dito no começo deste capítulo.
Uma vez traçado o caminho de discussão, as próximas linhas seguem subdivididas em conformidade com o descrito até aqui.
2.1 REGISTRO E INFORMAÇÃO
A humanidade de hoje, muito orgulhosa de sua condição de racionalidade, resultou, de acordo com os especialistas, de um acidente de percurso da evolução das espécies. Chegou-se, portanto, por mecanismos naturais, à formação de uma espécie animal especial, a única capaz de atribuir, por exemplo, um conteúdo informacional aos fosseis (LOPES, 1998 p.19).
Como deixado em destaque nas palavras de Lopes (1998), já na primeira citação deste capítulo, começa a se formar a imagem do perfil humano contrastado com o resto dos seres vivos cujo ambiente compartilha a sua existência e ocupação.
A humanidade, por ser complexa em sua constituição orgânica e subjetiva, convive e tem o reflexo de si para o mundo de forma diferenciada. Enquanto qualquer outro animal passa o seu tempo de vida instintivamente, à procura de alimento e reprodução da maneira e no momento que lhe cabe, o Homo Sapiens
a pouco se tornaram a maior e mais exótica rotina em relação aos outros seres viventes na Terra, de acordo com que ia acertando nos novos intentos. Caçar e se reproduzir, em termos de semelhanças de práticas, passou a serem os únicos dois exercícios que assemelhava a raça humana com as outras.
Nos tempos atuais, com o compartilhamento das noticias e produtos comercializados, o contato entre os povos da espécie humana passou a ser globalizado. Esta é uma façanha que merece ser destacada. O quanto não se sabe das diferenças cultivadas entre esta mesma raça... Uma linhagem dispersa por todo o planeta que, de acordo com o ecossistema específico de cada ponto geográfico que teve de se adaptar, desenvolveu-se de maneira única e sem o menor contato prévio com outras civilizações de mesma raça. Eis uma questão que deve ser frisada no decorrer dos itens deste trabalho.
Não há dúvida de que o volume de conhecimento produzido pela humanidade durante o percurso que seguiu e segue de evolução é imensurável. Hoje, por exemplo, quando se pensa que tudo já fora criado, constantemente nossa sociedade é surpreendida com algum novo invento que facilita e agiliza a própria produção de informação humana. A internet é o grande exemplo deste fenômeno.
Outra atualidade que pode ser aqui mencionada a respeito dos registros é a criação do espaço virtual de armazenamento de dados. Os mesmos presentes em computadores e em rede, sendo objetos de outra nova especialidade do homem, não apenas a gerencia de informação comum, mas eletrônica.
Ao que tange o âmbito de informação gerada e registrada nas ocasiões já ditas acima, em trabalho produzido em 2010, no XXXIII Encontro Nacional de Estudantes de Biblioteconomia, Documentação, Gestão e Ciência da Informação, na Paraíba, quatro graduandos do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal da Paraíba apontaram de forma certeira a informação como sendo “um elemento essencial no contexto da história dos registros”. Tendo um ser com o intelecto em pleno desenvolvimento, interagindo com os mais diversos ambientes, conhecendo-os e a si mesmo, a produção de conhecimento tinha apenas uma tendência, a de aumentar.
É perceptível que ao longo da história da humanidade, o homem sentiu a necessidade de representar algo referente ao seu cotidiano, como forma de manter “viva” a sua memória, sua história e tal necessidade pode ser vislumbrada a partir dos inúmeros suportes e formas que foram utilizados por estes para transmitir sua ações, desejos, preferências, poder e escolhas (FARIAS, BARROS, PEREIRA, NOGUEIRA, 2010, p. 03).
Este trabalho tem o registro de informação como um dos conceitos chaves de elaboração de raciocínio. Portanto, ao que se refere às suas características, é pertinente a necessidade de definição dos termos inerentes e implícitos neste conceito. Para inicio de conhecimento e pesquisa talvez caiba ao Dicionário de Terminologia Arquivística uma das proveniências básicas de conceituação, devido à área de estudo para qual este trabalho é redigido: a Arquivologia. Logo, é desta fonte que o termo expresso em dois será separado e conceituado individualmente.
Em outras palavras, ao nível da terminologia, existem dois termos dentro da expressão registro de informação, presente no título deste trabalho: registro e informação. E estes termos são descritos no Dicionário de Terminologia Arquivística como, respectivamente:
Registro – 1. Anotação sistemática em livro próprio; 2. Unidade de informação logicamente indivisível;
Informação – Elemento referencial, noção, idéia ou imagem contidos num documento.
A partir destas duas conceituações pode-se vislumbrar a definição do objeto principal de estudo e trabalho da própria Arquivologia: o documento. O dicionário terminológico o aponta como “unidade de registro de informações, qualquer que seja o suporte ou formato”.
É interessante notar que, o conceito de documento já é chamado de registro informacional pelo dicionário. Sendo assim, o que este trabalho arquivístico trata desde seu início a partir do próximo item, a Escrita, nada mais é do que
documentação da historia humana. Uma documentação reunida e produzida por muitos indivíduos e povos.
Chega a ser curiosa a imagem que se tem em mente, de um grande arquivo composto de um acervo dos mais variados suportes e proveniências. Onde o papel, ao contrário do comum nos dias atuais, simplesmente não existe. Teria, este arquivo, ao invés disto, amostras de paredes de cavernas, de cascas de árvores e ossos utilizadas há muitos anos atrás pelos produtores da informação de cada época e em cada ocasião. Este seria o Arquivo da História Humana.
É verdade que o arquivo aqui proposto para imaginação não teria o aspecto de um arquivo propriamente dito e como conhecemos os hoje. Teria a aparência de um grande museu. A única justificativa para que realmente denominassem este arquivo de tal forma seria a análise exposta acima: a de que as “unidades de registro de informações, quaisquer que sejam os suportes ou formatos” seriam os documentos presentes neste arquivo.
Entretanto, correto ou não o conceito de um arquivo composto de itens dos mais variados tipos de materiais e das mais absurdas dimensões físicas, o que importa para este trabalho de conclusão de curso é a conceituação do registro e da informação. Tendo feito isto, o que se tem para próximo passo de análise, é a escrita. Esta se encontra na próxima subseção do texto aqui discorrido.
2.2 ESCRITA
Inevitavelmente, seguindo os estudos dos pioneiros em tais pesquisas, a escrita aparece quase que unanimemente como protagonista do ato de se guardar informação. Não em tempo de uso perfeito em sua plenitude que se tem nos tempos atuais, pois a escrita passou por um longa período de evolução. Mas o que tal prática importante no relato sobre os registros de informação é a qualidade com que representa e reproduz o conhecimento de tempos em tempos.
Pensamos que não é apenas por intermédio de símbolos formados em paredes ou em papiros, papeis ou outros suportes do gênero, encontra-se em Martins um sinal da escrita como sendo uma noção mais geral e, justamente por isso, mais abrangente e pertinente, portanto sendo, ao que parece, mais correta de um conceito de informação registrada. Mesmo que atualmente, para a capacidade investigatória e de compreensão científica amadora seja impossível a compreensão de um “rabisco” como sendo um documento, prova, atestado ou elemento crucial para exame de civilizações e culturas passadas. É aí que Martins (1998), munido de seus estudos e inspirado por escritores antecedentes, aparece com a seguinte citação fortalecedora sobre as chamadas pictografias:
[...] nesses desenhos ou nessas marcas já existe o germe de alguma coisa parecida com um rudimento de escrita, mas sempre com a condição de não encará-los neles mesmo como um sistema de escrita, e muito menos para afirmar que foram o ponto de partida histórico da escrita propriamente dita. E isso porque, antes de mais nada, os ‘petróglifos’ (desenhos gravados na pedra) jamais chegariam a constituir um sistema regular de notação da linguagem (Martins,1998, p.38).
E mais:
A escrita é apenas um – provavelmente o mais perfeito e menos obscuro – entre inúmeros outros sistemas de linguagem visual: a essa mesma categoria pertencem os desenhos, a mímica, os códigos de sinais marinhos e terrestres, luminosos ou não, os gestos, em particular a linguagem por gestos dos surdos-mudos, etc (Martins, p.33).
Realmente, classificar a escrita como sendo um “sistema regular” de registro parece ser adequado. Talvez ao recorrer para Freitas e Gomes, por exemplo, em seu texto que bem analisa a questão do que se decide registrar. Num esquema social da época das cavernas não se imagina um ponto especifico de produção de informação, ou seja, entre um grupo de seres que ainda iniciavam na pratica mental da “abstração” – assimilação de Martins (1998) em relação ao inicio da escrita como seu acontecimento psicológico que fez a diferença para a sua criação – pode-se se
presumir que não havia um controle de produção da informação. Muito menos se imagina uma preocupação metódica com o registro administrado.
Le Goff (2010) descreve a transição das sociedades sem escrita para sociedades praticantes de tais registros externos à mente. De acordo com os estudos antes feitos nessa temática, Le Goff escreve que tais povos faziam, até então, uso integral da memória coletiva em forma de cantigas e versos que facilitavam a memorização – assim mantendo a identidade necessária que dava sentido ao existir de suas respectivas etnias no mundo em que vivem. Tal prática, para propósito de ilustração, se mostra tão significativa para esses grupos, que através de citação do “Commentarii De Bello Gallico” (Comentário sobre a Guerra Gálica), Le Goff mostra como grupos usuários da memória coletiva viam a transcrição de seus dogmas, vendo a “ajuda dos textos” como uma espécie de negligência, “um menor zelo em aprender de cor e uma diminuição da memória”. E continuando, tem a “transmissão de conhecimentos considerados secretos, vontade de manter em boa forma uma memória mais criadora que repetitiva” (LE GOFF, 2010, p 426), como duas boas razões para que se tenha mantido a memória coletiva nestes povos; completando com outros três interesses consideráveis que são: “a identidade coletiva do grupo, que se funda em certos mitos, mais precisamente nos mitos de origem; o prestígio das famílias dominantes, que se exprimem nas genealogias; e o saber técnico , que se transmite por fórmulas práticas fortemente ligadas à magia religiosa”. (LE GOFF, 2010, p 427).
O aparecimento da escrita está ligado a uma profunda transformação da memória coletiva. Desde o ‘Paleolítico Médio’, aparecem figuras nas quais se propôs ver “mitogramas”, paralelo à ‘mitologia’ que se desenvolve na ordem verbal. A escrita permite à memória coletiva um duplo progresso, o desenvolvimento de duas formas de memória. A primeira é a comemoração, a celebração através de um monumento comemorativo de um acontecimento memorável. A memória assume, então, a forma de inscrição e suscitou na época moderna uma ciência auxiliar da história, a epigrafia. Certamente que o mundo das inscrições é muito diverso (LE GOFF, 2010, p.427).
Aparentemente, a escrita vem marcar, como principal representante da memória externada.
Partindo das exigências da socialização mencionadas por Bosi (1994), Fischer (2009) traça o processo evolucionário do registro de informação dando a mesma ênfase quanto à importância da questão social que a escrita, em sua criação, vem revolucionar.
Relembrando a obra de Laraia (2006), que discursa sobre a gênese da identidade humana (a cultura), ele se apóia – assim como todos os outros estudiosos que vieram posteriormente – na teoria do antropólogo Edward Burnet Tylor para fazer a ressalva da cultura “como sendo todo o comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de uma transmissão genética” (2006, p.28); sendo assim, sabe-se – ou pelo menos se cogita – que a escrita não fora o primeiro nem o último invento humano. Armas e outras ferramentas físicas para auto-proteção e caça vieram antes, permitindo assim que o homem pudesse ter a tranqüilidade de cessar momentaneamente o foco de sua preocupação em sua própria preservação no dia-a-dia árduo em que estava inserido, convivendo com animais mais fortes e melhor munidos pela natureza para a guerra cotidiana pela sobrevivência.
Antes ainda da necessidade de esboçar qualquer coisa nas paredes das cavernas, o homem aos poucos dominou o território que até então o dominava. Passou a ver ao redor, de maneira mais prática e inteligente, o seu alimento e como poderia servir-se dele. De acordo com a linha lógica em desenvolvimento de uma razão ascendente, o homem se tornaria pastor, passaria a produzir, plantar e administrar suas necessidades mais básicas, como a alimentação, até sistemas mais complexos como o de contas, afinal, precisava saber o quanto lhe pertencia e o quanto estava a produzir. E quão bons exemplos de ralação social são as contas e o comércio. Fischer esclarece:
Só a necessidade social poderia produzir uma ferramenta eminente e tão completa como a escrita. No Oriente Médio antigo, cerca de seis mil anos atrás, a sociedade sumérica em expansão tinha de administrar suas riquezas naturais, trabalhadores, impostos, plantações, taxas, estoques da coroa e do templo, salários e gastos. As formas mnemônicas que tinham existido por tanto tempo não bastavam mais, algo radicalmente novo seria necessário (FISCHER, 2009, p.23).
Entretanto Fischer separa o seu objeto de estudo em dois: Diz que, no procedimento de desenvolvimento da escrita, o homem passou antes pela “escrita incompleta” antes de chegar à escrita como usamos hoje.
Antes da escrita completa, a humanidade usou uma riqueza de símbolos gráficos e mnemônicos (ferramentas de memória) de vários tipos para acumular informações. A arte na pedra sempre possuiu um repertório de símbolos universais: antropomorfos (imagens humanizadas), flora, fauna, o sol, estrelas, cometas e muito mais, incluindo incontáveis desenhos geométricos. Na maior parte, eram reproduções gráficas de fenômenos comuns do mundo físico. Ao mesmo tempo, elementos mnemônicos eram usados em contextos lingüísticos também, como registros com nós, pictográficos, ossos ou paus entalhados, bastões ou tábuas com mensagens, jogos de cordas para cantos, seixos coloridos, etc. ligando objetos específicos com a fala. Por milhares de anos, a arte gráfica e esses elementos mnemônicos se desenvolveram em certos contextos sociais (FISCHER, 2009, p.15).
Fischer tenta ainda definir o conceito de escrita articulando que esta se trataria de uma “sequência de símbolos padronizados (caracteres, sinais ou componentes de sinais) destinados a reproduzir a fala, o pensamento humano e outras coisas em parte ou integralmente”. Mas admite logo em seguida que esta seria uma definição aproximada, e não exata, presente e não transcendente, pois “o quanto cada sistema, no passado, conseguiu realizar isso, foi determinado pela necessidade relativa de cada sociedade à medida que se tornou mais complexa”. De acordo com a diversidade de identidade sócio-cultural humana, a razão objetiva de se praticar a escrita será sempre plural e não singular, ou seja, será “coisas distintas para inúmeros povos distintos em incontáveis épocas diferentes” (FISCHER, 2009, p. 14).
Voltado para o que considera mais relevante no estudo da escrita, Fischer adapta a ideia que caracteriza a completude da escrita a partir de três características, sendo assim: a escrita completa tem “como objetivo a comunicação”; consiste “marcações gráficas artificiais feitas numa superfície durável ou eletrônica”; e “deve usar marcas que se relacionem convencionalmente para articular a fala (o arranjo sistemático de sons vocais significativos) ou uma programação eletrônica, de uma maneira que a comunicação seja alcançada” (FISCHER, 2009, p. 14).
O que caracteriza a constante mudança no processo de evolução da escrita no decorrer do tempo, segundo o autor, é a necessidade contínua de adequá-la ao sistema verbal, ou seja, oral, de determinado dialeto. Tal característica leva então a desqualificar sistemas de registros e reprodução de informações muito primitivas que usavam imagens e desenhos como símbolos de uma ideia qualquer presentes na gênese da criação de tal técnica. O que qualifica um sistema de escrita, ou ao menos de “pré-escrita”, é a capacidade de reproduzir o objeto representado em voz alta, na fala.
Cabe nesta parte da discussão um breve traço temporal de desenvolvimento das técnicas que precederam a pré-escrita. Antes da escrita completa, uma grande variedade de símbolos gráficos e mnemônicos foi usada para acumular e passar informações:
O primeiro citado por Fischer é o “quipu”, ou, “registros com nós”. Esta técnica provém do neolítico e parte da prática, desde simples nós feitos numa corda, até nós coloridos seriados em cores diferentes e ligados a diferentes categorias. O povo Inca possuía a versão mais desenvolvida do quipu, tomando-a como uma forma relativamente sofisticada de contabilidade. “Nós diferentes em várias posições representavam quantidades numéricas, e os nós coloridos representavam, supõe-se, diferentes mercadorias” (FISCHER, 2009, p.16). O “zero” podia ser lido no local da corda onde houvesse ausência de um nó em meio a outros. Dezenas e centenas também tinham suas devidas representações.
Os Entalhes tomam o lugar da segunda prática de registro e reprodução de informações no relato do autor. Estes nada mais eram do que talhos feitos em cascas de árvores, caminhos rearranjados por galhos, sinais em argila e até pedras em tumbas serviam, no caso desta técnica, a transmissão da ideia que no momento não poderia ser transmitida oralmente. As marcas produzidas por meio dos entalhes, embora não sejam muito claras, sem dúvida transmitem algum informe que hoje não se pode imaginar. Eram como lembretes e remontam um hábito muito antigo que talvez antecedam as pinturas rupestres.
Diferenças sutis, mas consistentes em marcas em pedra e osso no artesanato do Homo sapiens sapiens, tendo início por volta de cem mil anos
atrás, indicam entalhe proposital. Descobertos na famosa caverna Blombos da África do Sul, dois traços cruzados em ocra foram entendidos pelos descobridores como evidência de pensamento simbólico. Outros artefatos antigos, como o osso de Ishango do Zaire, apresentam marcas parecidas feitas durante um curto período; quando contadas, as marcas em alguns desses artefatos parecem corresponder a ciclos lunares. No entanto, outras explicações são possíveis. O que é importante é que dezenas de milhares de anos atrás, as marcas gráficas, ainda que primitivas, provavelmente registravam algum tipo de percepção humana, por alguma razão. Isso era armazenamento de informação (FSCHER, 2009, p.18).
O maior avanço em peculiaridades de transmissão de ideias veio no seguinte tipo de registro de informação, a Pictografia. Esta prática surgiu da necessidade de maior complexidade e velocidade na técnica, e veio unir marcas a elementos mnemônicos. A própria arte rupestre pode ser entendida como comunicação pictórica. São marcas entalhadas ou pintadas em paredes e a vantagem do uso deste exercício e registro e reprodução está na capacidade de transmitir mensagens complicadas sem recorrer ao “discurso articulado”.
Diferente dos nós e dos entalhes, a pictografia tem a capacidade de transmitir “valores fonéticos” a partir da representação e especificação de objetos e elaborando a correlação com a fala. Para fins de exemplificação: um homem poderia sair de seu abrigo e deixar na entrada um rolo de casca de árvore com as imagens desenhadas do que estaria indo fazer, numa sequência, aproximadamente, de três imagens para dar o sentido completo da ação que partiu para executar e não teve ninguém de imediato para passar a mensagem. Ou seja, comunicação por meio da “arte gráfica”, uma prática que podia também, além de dar recados, comunicar de maneira permanente um provérbio, por exemplo.
O autor termina dando a informação talvez mais relevante em relação a esta técnica:
A pictografia são também os “caracteres-padrão” da tecnologia moderna, como nos diagramas dos circuitos eletrônicos. Nesse contexto, as ambiguidades culturais são evitadas intencionalmente, padronizando os símbolos para maximizar a compreensão internacional. Dentro de seus domínios restritos, entre especialistas formados em arte, a pictografia pode ser extremamente útil, em certas circunstâncias superando a eficácia da escrita completa (FISCHER, 2009, p.20).
O próximo marco na história do desenvolvimento da escrita destacado pelo autor é o Registro de Contas. Provavelmente, assim como foi capaz de atingir a abstração de marcar os ciclos da lua através de marcas e entalhes, o homem antigo teve da mesma maneira, a ideia de fazer e registrar contas com números utilizando o mesmo mecanismo. O primeiro e mais adequado exemplo desta técnica pode ser o bastão de contas: “marcas sobre osso para representar pessoas diferentes, passagem de tempo (mais do que eventos testemunhados), uma caçada de sucesso” (FISCHER, 2009, p.21).
Tais registros de contas existem há muito tempo junto com a escrita dita, completa. São facilmente usados por analfabetos, mais rápidos, menos incômodos e menos caros em comparação com a escrita. Tem como objetivo a comunicação e usam sinais artificiais, mas não passam de “entalhes e furos padronizados significando unidades, e não fala articulada” (FISCHER, 2009, p.21).
A criatividade humana continuou o processo de invenção de meios de utilizar a capacidade mnemônica de comunicação. Muito da memória e da fala à distância provocou avanços tecnológicos até a chegada da “escrita completa”. Dos vários nascimentos provenientes desta engenhosidade do homem podem-se citar como exemplos rápidos como “brincadeiras com barbante”, “desenhos trançados nas mãos com laçadas”, “genealogias codificadas”, “histórias”, “canções”, “recitações” e “escritas no ar”. Todas comunicam, porém carecem de marcações gráficas em suporte durável.
Ao chegar aos Símbolos Gráficos, Fischer faz a volta completa da linha do tempo que traça e retorna ao que aqui já foi escrito, que a contabilidade teve papel bastante importante para o desenvolvimento da escrita completa.
O estudo da escrita denomina de rébus a contribuição suméria do princípio de pronunciar sons que não mais somente remetiam a imagens gráficas. Em resumo, o conceito de “escrita completa” vem a ser o estágio em que esta mais se aproxima da fala, ou seja, do processo de criação comunicativa característico em forma oral de expressão. Isto ocorreu quando meras imagens fixas foram transformadas em signos mais maleáveis como os fonemas da fala por si só já se mostravam em funcionamento.
Desenhos e figuras toscamente postos em sequência não atingem o cerne da elaboração de uma ferramenta realmente perfeita para uma comunicação completa, sem espaço para interpretações paralelas e errôneas. A pictografia, por exemplo, apesar de suas qualidades, está por demasiado ligada a eventos específicos, o que inevitavelmente pode acarretar uma complexidade expressiva insatisfatória e limitada. A representação ilustrada de uma ovelha, só pode guiar a uma interpretação: ovelha(s); um homem sobre uma canoa apenas tem utilidade para mencionar algum tipo de viagem qualquer.
A criação dos símbolos que hoje chamamos de letras e com elas, em diversos idiomas diferentes, podemos montar palavras diretamente relacionadas com a maneira com que as reproduzimos oralmente, muda drástica e completamente o padrão de eficácia na comunicação escrita..
Todavia, em um sentido ainda mais profundo, este último estágio da representação escrita continua imperfeito, pois ainda não tem a capacidade de expressar “tudo”. Ainda há ocasiões de que, para transmitir algo, até mesmo sem palavras orais o homem se encontra; para descrever certas surpresas com a qual a sensibilidade, subjetividade e consciência (todas extremamente complexas) humana pode se deparar, ou ainda determinadas sutilezas, intensidades e complexidades da qual tem para apregoar.
A complexidade humana é intangível e possui mistérios para própria humanidade até hoje. Não será incompreensível nem inadmissível a afirmativa de que nem a escrita, com suas inúmeras qualidades revolucionárias de utilidades expressivas e de registro, é capaz de abranger tudo o que o homem produz consciente e inconscientemente; seja visando alguma administração social qualquer ou simplesmente externar o que no âmago de si próprio possui.
2.3 IDENTIDADE E SOCIEDADE
A palavra “Identidade” remete, a princípio, às reflexões direcionadas ao conceito de “identificação”. Contudo, não uma identificação única e individual, pois o
termo também está ligado à qualidade de ser “idêntico”. Qualquer objeto apenas pode ser idêntico em comparação com outro. A semelhança e a coletividade estão presentes no conceito de identidade. Por isso, neste subitem de “Conceituação Básica” será tratada tanto a ideia de Identidade quanto a de Sociedade, mesmo que talvez não no exato momento. Todavia ao separadas elas nunca estarão de verdade.
Inclusive, ao trazer o conceito de identidade à discussão sobre os registros de informação, as ideias de Memória (e consequentemente de História) também não poderão ser deixadas de lado, pois ambas se complementam e ajudam formarem-se umas às outras. E este processo de construção aparece tanto singular quanto coletivamente. O problema de individualizar ou singularizar será uma questão de interpretação de contexto.
Pollak menciona a característica “flutuante, mutável, da memória tanto individual quanto coletiva” para lembrar que, mesmo variando de acordo com a capacidade mnemônica – seja por idade ou peculiaridades menores ou maiores que levam grupos ou indivíduos a darem mais ênfase a certos acontecimentos específicos do que outros – de cada unidade que irá gerar a memória, “na maioria das memórias existem marcos ou pontos relativamente invariantes, imutáveis”. Esses pontos (acontecimentos, personagens e lugares), não se encontram de forma única na lembrança de cada individuo componente, por exemplo, numa amostra de pessoas entrevistadas a respeito de algum evento marcante e instintivamente memorável – seja por motivos positivos ou negativos. Mas, para melhor esclarecimento desta memória que constrói o indivíduo, especifiquemos usando as próprias palavras do autor:
Quais são, portanto, os elementos constitutivos da memória, individual ou coletiva? Em primeiro lugar, são os acontecimentos vividos pessoalmente. Em segundo lugar, são os acontecimentos que eu chamaria de “vividos por tabela”, ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente pertencer. São acontecimentos dos quais a pessoa nem participou mas que, no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas é quase impossível que ela consiga saber se participou ou não. [...] É perfeitamente possível que, por meio da socialização política, ou da socialização histórica, ocorra um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que podemos falar numa memória quase que herdada. [...] Além desses acontecimentos, a memória
é constituída por pessoas, personagens. Aqui também podemos aplicar o mesmo esquema, falar de personagens realmente encontradas no decorrer da vida, de personagens frequentadas por tabela, indiretamente, mas que, por assim dizer, se transformaram quase que em conhecidas [...] Além dos acontecimentos e das personagens, podemos finalmente arrolar os lugares [...] lugares particularmente ligados a uma lembrança, que pode ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no tempo cronológico (POLLAK, 1992, p.3).
Quanto ao que se refere a este último componente formador da memória – lugar (es) –, o autor demonstra em ilustrações de exemplificações o quão vasto é o campo de possibilidades do que podem preencher cada um destes componentes. Ele vai desde “férias na infância” até aspectos públicos e políticos que interferem na vida de todo o mundo; “monumentos aos mortos” até locais cuja existência se encontra ou muito longínqua ou simplesmente fora do espaço e do tempo da pessoa ou povo de determinado tempo. E tudo isto, claro, pode-se incluir a exemplos quanto aos acontecimentos e personagens da memória.
A questão apontada por Pollak (1992) é que, em certos casos específicos, as experiências de vida apresentam interferências tão fortes no subjetivo – o mesmo pode acontecer no caso da coletividade de um país, por exemplo – que acabam se solidificando na produção da memória. “Em certo sentido, determinado número de elementos tornam-se realidade, passam a fazer parte da própria essência da pessoa, muito embora outros tantos acontecimentos e fatos possam se modificar em função dos interlocutores, ou em função do movimento da fala”, conclui autor.
Na França, [há] confusão entre os fatos ligados a uma e outra guerra. A Primeira Guerra Mundial deixou marcas muito fortes em certas regiões, por causa do grande número de mortos. Ficou gravada a guerra que foi mais devastadora, e frequentemente os mortos da Segunda Guerra foram assimilados aos da Primeira. Em certas regiões, as duas viram uma só, quase que uma grande guerra.
[...] em relação às datas públicas, observam-se claros fenômenos de transferência que às vezes são até, por, assim dizer, sancionados legalmente. No caso do fim da guerra, analisamos as comemorações pia França, isto é, usamos como indicadores empíricos as práticas de comemoração, em vez de nos apoiarmos nas memórias individuais. Observamos em que dias do ano e de que maneira os habitantes de pequenas aldeias comemoravam o fim da guerra. [...] na maior parte das regiões francesas, que, embora haja datas oficiais relativas ao fim da Primeira Guerra Mundial, dia 11 de novembro, e da Segunda Guerra, dia 8 de maio, na prática, quase que espontânea e automaticamente, as
populações só guardavam uma única data, o 11 de novembro. O 8 de maio era claramente identificado como um feriado qualquer.[...]
Outro fator que atua nessa transferência do 8 de maio para o 11 de novembro é simplesmente a real importância que histórica das respectivas datas para determinada região. Podemos ver que [...] a memória pode “ganhar” da cronologia oficial (POLLAK, 1992, p.3,4).
Ou seja, quer-se dizer aqui que cada pessoa ou povo é composto por aquilo (lugar, pessoa e fatos) que aparece de maneira mais forte na experiência de vida e existência ao longo do tempo e, no caso da coletividade, passando de gerações para gerações como uma lembrança viva, mesmo não tendo sido vivida na contemporaneidade individual de quem irá nascer. Isto é o que se pode chamar de Identidade.
A abordagem deste segundo conceito “Sociedade” entra neste trabalho com o caráter de concatenar a relação entre o que se discorreu como sendo Identidade até então. Isto é, concebido como o todo o que cada indivíduo junto forma. Não existe sociedade de um homem ou animal apenas, pois exatamente o que a caracteriza é o conjunto que a forma vivendo sob leis, regras e condutas compartilhadas.
Através da visão ilustrada de Ecléa Bosi é possível obter o discernimento para a importância de todos os outros conceitos ditos antes (Registro, Informação e Identidade), incluindo como substancialmente inerentes a esta fusão conceitual, a Memória, para a formulação da ideia de “Sociedade”. Para que haja compartilhamento de modos de vida e cotidiano, será preciso, após a formulação destes, o mantimento de tais modos e cotidianos e este mantimento não se dará de outra forma senão através do ato mnemônico em si que surgirá ao se lembrar como proceder no dia-a-dia em determinada sociedade – desde atividades banais até eventos culturais e de caráter governamental:
Nas noites frias de abril os fiéis que assistem às cerimônias da Semana Santa em minha cidade saem para o pátio lateral da igreja onde encontram aceso um grande fogão de lenha. A trinta minutos da metrópole vizinha, contemplando o pátio aquecido e as velhinhas que se aproximam tiritando, não posso deixar de pensar que foi assim no século passado e ainda antes. Como poderia ter sido outra a expressão desses rostos aconchegados sob as mantilhas? Ou o olhar desgarrado com que os velhos às vezes olham, sem ver, as labaredas na noite? (BOSI, 1994, p.75).
A autora destaca a relação entre jovens e velhos no processo de passagem dos hábitos; aponta os cidadãos mais antigos da sociedade como sendo os principais hospedeiros da informação formadora de uma estabilidade cultural e social. Logo, não apenas de livros, constituições, objetos e feitos históricos são construídos grupos sociais; segundo Bosi, as estórias orais contadas por avós aos netos e as maneiras e visões pessoais de tratarem determinadas situações e trabalhos domiciliares são cruciais para a caracterização de uma sociedade propriamente dita.
O fato de estar em sociedade, sociável, atrelado a algum grupo implica diretamente compartilhar a sua identidade. O que a esta altura já deve estar claro. Sendo assim, eis a questão de como pode o individuo “compartilhar”, ser idêntico a outro se ele é, como já dito, um indivíduo.
Mesmo sendo composto por características e qualidades individuais, o ser humano possui outro componente que o forma a partir do outro graças a sua capacidade de ser consciente ao mundo em que vive. E este processo de formar-se a partir do outro ocorre de maneira mútua e necessariamente em uma condição de sociedade, ou seja, em comum acordo subjetivo entre cada um.
Este fenômeno de mútua formação de personalidade e identidade dá-se através da recuperação de informações (acontecimentos, personagens, lugares), ou seja, eventos que situa o individuo no lugar e no grupo cujas normas e leis de convivência ele se identifica e/ou se enquadra. Esta formação de grupos de indivíduos que se veem como semelhantes geralmente acontece de forma hereditária, conforme um povo se reproduz e obtém novos indivíduos para incluir a sua coletividade.
O processo de olhar para dentro de si, para o passado que reconhece como sendo seu e assimilar com o ambiente e com o grupo de pertencimento é o que se pode dizer que caracteriza a formação de uma Sociedade.
Logo, compreende-se que a memória tem um papel demasiado importante para a formulação de todos estes conceitos descritos até aqui. Não é por menos o fato do próximo capitulo ter como foco justamente a Memória, junto a sua forma política e coletivamente administrada, a História.
3 O PAPEL DA MEMÓRIA E DA HISTÓRIA
[...] a memória permite a relação do corpo presente com o passado e, ao mesmo tempo, interfere no processo ‘atual’ das representações. Pela memória, o passado não só vem à tona, das águas presente, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, ‘desloca’ estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência. A memória aparece como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora (Bosi, 1994, pág. 46).
Tendo a visão da importância da memória para este trabalho, ou seja, considerando que o próprio objeto de pesquisa deste texto é o material que possibilitou a produção dele, é justo que haja um esclarecimento do que seja o ato de lembrar, relacionado à outra ação: a de registrar.
Todos os aspectos ao redor do ser racional e consciente, que é atuante em determinado sítio, é absorvido e produz a percepção do individuo de maneira individual. A percepção esta ainda propensa à interpretação do personagem para definir a reação deste em resposta ao que presencia. Este fenômeno precedente a memória é o que a definirá.
O processo administrativo mnemônico seleciona os fatos memoráveis de acordo com a reação do personagem a qual pertence. A intensidade com que determinado evento se dá é o critério de relevância para que seja armazenado em memória consciente, ou esquecimento inconsciente.
Uma boa representação da preocupação humana para com a sua trajetória poderia ser o que Le Goff aponta logo de início em seu discurso: “[...] para domesticar o tempo natural, as diversas sociedades e culturas inventaram um instrumento fundamental, que é também um dado essencial da história: o calendário [...]” (1924, p. 07).
A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode utilizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas (LE GOFF, 1924, p.419).
Tratando desta maneira, talvez fique claro o peso da memória no processo de registro de conhecimento. Porém a característica abstrata deste fenômeno causa a impressão de as faculdades mnemônicas serem impalpáveis ao ponto de sua consistência e relevância tornarem-se questionáveis. Para esta questão vale lembrar da descrição que Pollak (1992) faz da memória, refutando que, mesmo não estando escrita, a memória possui marcas, pontos que não mudarão numa futura tentativa de recuperação de informação graças àqueles três elementos constituintes e presentes em toda lembrança: Acontecimentos, Personagens e Lugares. E completa elucidando que a organização desta tríade ocorrerá sem “em função das preocupações pessoais e políticas”, provando ser, a memória, um fenômeno construído (POLLAK, 1992, p.4).
Outra sugestão à abordagem do tema memória trazida por Bergson e que é reforçada e retrabalhada por Bosi é o tratamento da memória de maneira heterogênea. Isto é, a divisão da memória em duas: a “memória-hábito” e a “lembrança-pura”.
Tendo seu contexto na socialização da vida humana, a memória-hábito representa na verdade o aprendizado cultural do indivíduo. Este “hábito”, nada mais é, do que o registro mental das lições aprendidas como pré-requisitos para a convivência em certo grupo social.
A memória-hábito está presente na maneira de automática de conduta diária. Está no comportamento, na fala, em cada desenvoltura cotidiana que se foi aprendida para justamente viver uma determinada vida social em uma realidade cultural específica.
A esse conjunto de características-hábito está ligado também o ato de escrever, de manusear um instrumento destinado a determinado serviço; tudo o que se pode aprender para viver de uma forma pré-determinada em um grupo é chamado de memória-hábito.
Por outro lado, a “outra” memória citada por Bergson e Bosi é a original; a “lembrança-pura”.
A lembrança-pura traz à tona a “imagem-lembrança”, ou seja, simplesmente a recordação. É o ato que todos somos capazes de cometer em momentos tanto de prazer quanto de incômodo em relação a alguma situação deparada no convívio social durante a vida. É o resgates de experiências passadas, o retorno da consciência para determinada ocasião ou realidade que se passou, que não existe mais fora do consciente individual de cada um.
Para fim de detalhamento de um dos objetos tratados neste capitulo (Memória) fica esclarecida esta separação de análise.
Podemos analisar os registros como meras extensões da memória, que é falha no consciente humano, afinal, não nos é possível lembrar tudo o que passamos numa vida inteira. Este pensamento tem lógica, embora seja apenas uma das formas de tratarmos o assunto.
Outra maneira de observar os registros de informação praticados do passado até os dias atuais é como resultado de luta social ou alguma espécie de administração feita por uma parcela limitada constituinte da população. É quando, por exemplo, governantes tomam a frente de toda uma população e escolhem, dentro da variedade de acontecimentos presentes na linha do tempo da sociedade que governa, o que julgam ser de valor permanente e relevante oficialmente para ser registrado como História daquele povo.
Entrando na questão da história, outro caso em que os registros de informação podem aparecer de uma forma direta ou indiretamente propícia à edição ocorre no momento em que historiadores, no exercício de seu trabalho remontam uma determinada época ou civilização antiga, baseados no que encontram de registro das mais variadas formas e suportes.
Estes dois exemplos de possíveis tratamentos dos registros de informação mostra a importância da participação dos profissionais da História na reprodução das realidades do passado – seja ela realmente uma realidade ou não. Isto porque, com o passar do tempo, modernização e civilização do homem, cada vez mais pode-se deparar com histórias pode-sendo contadas de maneira pré-concebida, no bom ou no
mau sentido da prática, devido ao aumento da erudição e do desenvolvimento da escrita nas sociedades.
O homem, conforme evolui, aumenta seu poder de percepção para liderar e administrar seus distintos grupos sociais. E esta liderança e administração inclui dominação e censura, a partir do momento em que se percebe que a informação é uma ferramenta poderosa e que, manter a maioria na ignorância pode trazer uma vantagem dominadora.
A História é administração do passado, de seu sentido, interpretação. Não é por acaso que as “sociedades históricas” são sociedades de registro escrito. [...] O que a História constrói, baseada em “registros autorizados”, vem, no pensamento historiográfico conservador, se contrapondo à memória, tratada como suspeita: assistemática, afetiva, subjetiva. A História baseia-se em documentos; “fontes objetivas” [...] (FREITAS, GOMES, 2004, p. 3).
Ilustrando esta ideia, Freitas e Gomes (2004) acentuam a afirmação de Pierre Nora (1992) quando ao que ele se refere às bibliotecas e arquivos como lugares, não de memória, mas de história, devido à dominância do “saber institucionalizado” “do Estado e de seu aparelho, também institucional” (p.4).
E, ainda mais, Nora trata o registro como um ato ou sintoma de perda de memória; lugares de memória teriam apenas um papel simbólico, um vez que a memória propriamente dita esvai-se nas tentativas não naturais de preservação de uma cultura que não se expande e se mantém através dos indivíduos que as vivem e as criam.
Essa concepção de cultura e informação outorgada, de cima para baixo, dos cultos e informados para os sem-cultura e sem-informação, traz um sentido não-dito que a constitui: a maioria dos que buscam os chamados lugares de memória - ontem “leitores”, hoje “usuários” e até “clientes” – não tem o que incluir nos chamados lugares de memória, apenas o que receber (FREITAS, GOMES, 2004, p.7).
O registro de informação, para fins de estudos e pesquisas – como este próprio, por exemplo –, é considerado com mais credibilidade quando estampado
em livros ou até em paredes. Logo, o que não está fisicamente registrado não é contado unanimemente como fato relevantemente memorável. Porém, ao destacar a erudição, como sendo um item crucial para a escrita da História no governo de uma sociedade passada ou contemporânea, é possível perceber o quão maleável pode ser também o meio físico de registro, uma vez que a uma parcela social limitada será permitida a participação deste processo de registro.
Frente às problemáticas desta questão, Freitas e Gomes (2004) chegam a traçar a ênfase de alguns pontos para aprofundamento na formação acadêmica para que este quadro de desigualdade entre produtores (que todos somos) e administradores (a minoria letrada e erudita) informacionais e culturais seja virado.
Discorrendo uma lista de tarefas renovadoras e com um caráter militante, as autoras propõem o seguinte:
Discussão e reconstrução antropológica do conceito de cultura; análise histórica e política di que hoje no ocidente chamamos de cultura erudita, cultura popular e cultura de massas; análise das ênfases culturais hoje dominantes nos chamados lugares de memória; debate ético sobre o compromisso profissional com o saberes de todos os setores sociais; análises dos fluxos informacionais em setores populares; compreensão do papel da linguagem na complexa representação dos setores populares; extensão da noção da história para além da historiografia oficial; análise do direito à informação e à cultura e sua relação com os compromissos do profissional da informação; críticas das representações dominantes dos papéis da informação e da tecnologia na contemporaneidade e suas relações com o direito à informação (FREITAS, GOMES, 2004, p.9).
A ligação entre memória (passado subjetivo) e História (passado escrito) pode ser compreendida através da definição do papel do profissional da História feita pela professora Heloisa Liberalli Bellotto:
[O historiador], quando no exercício correto de sua profissão, sua atitude é acionar os conceitos adquiridos para cumprir sua função de descobrir, aprender, analisar os acontecimentos passados e todo o substrato que jaz entre eles e mais o seu encadeamento para, então, explicá-los à sociedade de seu tempo. Assim, o produto historiográfico é o resultado do esforço criador do historiador, estabelecendo um elo compreensível entre o presente e o passado. Marrou, [...], diz que é sobre um esqueleto événementiel, isto é, sobre os esqueletos dos acontecimentos históricos
concretos que o historiador coloca nervos, carne e pele, isto é, “a epiderme delicada e pulsante de vida”; a complexidade do real do homem é que, afinal, é objeto da história. O historiador necessita dos aportes que lhe proporciona o todo abrangente – a memória. [...] O levantamento da memória pode ser até subjetivo, mas jamais interpretativo (BELLOTTO, 2004, p.275).
Belloto, de certa forma, concorda com o fator fixo e sólido da memória. E, quanto ao que tange o trabalho real do historiador, deixa claro que seu dever é tirar o máximo de verdade que for capaz dos resquícios do passado que tem à frente para desvenda, e não deliberadamente criar a informação que não esteja clara pode descoberta.
O debate sobre a relevância maior entre o que está escrito e é chamado oficialmente de História e a memória contada oralmente perde o sentido quando entendidas as origens dos dois conceitos. Ambos representam o mesmo fenômeno temporal: o passado; tendo como diferença única e básica o suporte (e a importância que é dada uma a outra). Esta diferença se mostra como um problema meramente político e de visão, que pode ser reparada através de novas posturas, como as propostas por Freitas e Gomes (2004).
Primeiramente, sendo “memória” ou “história”, estando escrito ou simplesmente mencionado, no decorrer do tempo, o registro de informação tem como característica principal ser a ferramenta de transmissão para a crescente produção e reprodução de informação proveniente da complexidade emergente entre os homens, no que tange vida social e consciência de existência no mundo.
Já disse Laraia (2006): “a comunicação é um processo cultural”. Assim sendo, a cultura demonstra, neste campo de pesquisa, grande importância por se tratar da expressão de cada grupo social humano, cada exteriorização peculiar existente.
Uma das vantagens da evolução humana fora o domínio desta raça sobre o ambiente em que se encontra. Devido à expansão demográfica e dispersão populacional da espécie (estudada em outras áreas do conhecimento que não convêm serem aqui abordadas), surgiram grupos de pensadores em potencial cujos frutos do raciocínio logo se tornariam fonte de todo o conhecimento – hoje globalizado – que conhecemos hoje. O importante é reconhecer que a contribuição
destes pensadores não foi, ou sé, ou será a única para a humanidade. Cada ser humano é um ser pensante e, portanto, produtor de ideias e visões de mundo. Não cabe nesta situação, tendo este esclarecimento da realidade, a discriminação do que é popular e do que não é; do que é restrito ou não. Todos, numa organização social cultural ideal, têm o direito de produzir e de usufruir, ativa e reflexivamente, do arcabouço cultural e informacional que ajudou a criar.
4 REGISTROS DE INFORMAÇÃO E A IDENTIDADE SOCIAL NA ERA DIGITAL
Há pouco tempo foi criado um novo domínio público por computador que é usado permanentemente. Um lugar sem fronteiras ou atributos físicos. Este espaço é chamado constantemente por Silva (2006) e já conhecido por muitos como ciberespaço onde “tudo se passa, e todas as atividades decorrem, numa matriz preenchida telecomunicações eletrônicas e as redes de computadores – a internet” (SILVA, 2006, p.15).
A fim de assimilar o conhecimento e a forma de classificar as atividades e estruturas da realidade informacional, pode-se destacar que:
As novas tecnologias do digital são, assim, a infraestrutura do ciberespaço, que se transformou num novo espaço de comunicação, sociabilidade, organização, transação e troca. Encontramo-nos, pois, perante um novo mercado de informação e conhecimento. Esta codificação digital condicionou, por sua vez, o caráter plástico, fluído, calculável e tratável em tempo real, hiper-textualmente interativo e virtual da informação. Estas são as características distintivas que marcam a unicidade do ciberespaço (SILVA, 2006, p.15).
Outro termo que surge junto com o ciberespaço é o que Silva (2006) chama de cibercultura. Este conceito é usado para determinar as técnicas, sejam físicas ou intelectuais, as práticas, formas de agir e de pensar e a mudança de valores que emergem paralelamente ao crescimento do ciberespaço. A respeito deste conceito recente, o autor vai ainda mais adiante em sua análise dizendo o quão mais além desenvolve-se esta grande inovação em relação às tecnologias já conhecidas:
A cibercultura implica, com estas técnicas de recolha de informação, ver através da matéria, do espaço e do tempo. As inovações em relação às grandes técnicas de comunicação precedentes estão também elas a tornarem-se corriqueiras. Do quotidiano de grande parte do mundo ocidental, pelo menos, fazem parte, por exemplo, o acesso à distância a
bases de dados mundiais, as transferências de ficheiros, downloading, o correio e as conferências eletrônicas, o acesso a novos media; e toda uma série de novidades na área de serviços, como as compras online, o
homebanking, ou acesso a serviços públicos [...] (SILVA, 2006, p.16).
As novas atividades encontram-se presentes no dia-a-dia não apenas de empresas e instituições governamentais, escolares e administrativas, como também na casa de cada individuo. Ou seja, este novo espaço proporciona ainda a presença ininterrupta, “possibilitada pela banda larga e [...] tarifas planas “ (SILVA, 2006, p.16).
As novas condições trazidas pelo ciberespaço junto à cibercultura podem dividias as opiniões de estudiosos que estejam dispostos a refletir sobre elas. De um ponto de vista negativo pode-se assinalar:
[...] o isolamento e a cobrança cognitiva, devido ao stress da comunicação e do trabalho em frente do ecrã; a dependência relativa à criação de necessidades viciadoras que passam pela navegação contínua e pelo jogo; a dominação exercida pelas potências econômicas sobre importantes funções das redes; de exploração direta ou indireta quando está em campo o tele-trabalho vigiado [...]; e por fim, a idiotice coletiva que amiúde acontece devido ao surgimento de boatos na rede, ao conformismo das comunidades virtuais e ao empilhamento desastroso de dados vazios de comunicação (SILVA, 2006, p.16).
É curioso destacar um dos pontos negativos mencionados pelo autor e perceber que, mesmo sendo o ciberespaço um campo completamente novo de atuação da sociedade, algumas características sociais tendem a permanecerem. É o caso destacado acima da possível “dominação exercida pelas potências econômicas sobre importantes funções da rede”. Podemos ver este fenômeno político presente desde os primórdios do registro com a escrita, e é interessante notar que a princípio nada impede que aconteça no amplo espaço teoricamente democrático da rede virtual.
Continuando no ponto negativo, Silva desta vez utiliza as palavras de Loader (1997) para complementar as aparentes desvantagens da nova realidade digital:
Alguns cegam a observar que longe de encorajar a interação comunicacional no interior das comunidades [as novas tecnologias] “parecem contribuir para aumentar o distanciamento de contacto e a
proliferação das relações indiretas” [...] transformam-se num meio
“socialmente enfraquecido”, onde a própria questão da identidade individual está a tornar-se totalmente mutável e indistinta, não se correlacionando com o Eu moderno que participava na sociedade (SILVA, 2006, p.17).
Entretanto, existem os que Silva chama de “entusiastas da Rede” que chegam a ver no surgimento do ciberespaço “um ressurgimento da comunidade compensando-a até das perdas do passado” (SILVA, 2006, p.17). O autor considera ainda que a cibercultura trata de uma nova realidade “de mediação eletrônica” ao nível não apenas das relações sociais, mas também da experiência pessoal e individual.
Tendo em vista a adesão em massa das gerações mais jovens à nova forma de comunicação, junto ao crescimento das tecnologias cibernéticas na vida pessoal e privada, a cultura não poderia deixar de se reconfigurar. A presença constante de computadores influencia a maneira de comunicar e representar a informação. A exemplo disto, considera-se a evolução do texto que, dentro da nova interatividade, não é mais “fixo e rígido, mas sim fluído, passando pelas representações em 3D” (SILVA, 2006, p.17).
[...] até à concepção da fotografia, que passou de uma reprodução objetiva e instantânea a uma nova imagem, fruto de um trabalho combinatório, de recortes e misturas sugestivas. Os nossos sentidos, mais do que enganados, são substituídos e absorvidos pelo sistema eletrônico. Esta é a revolução digital que permite a chamada interatividade fluída (SILVA, 2006, p.17).
Mais uma característica da nova natureza de trabalho da nova realidade, é a transação de conhecimento que não cessa. O ciberespaço parece articular, amplificar, exteriorizar e até modificar as funções cognitivas humanas onde a memória é representada em base de dados, hiper-documentos, ficheiros digitais; a imaginação está nas simulações proporcionadas pelos jogos de entretenimento; a