Passeios aleat´
orios excitados sobre os
inteiros
Rafael Souza dos Santos
Orientador: Prof. Glauco Valle
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de Matem´
atica
Departamento de M´etodos Estat´ısticos
2015
CIP - Catalogação na Publicação
SS237p
Santos, Rafael
Passeios Aleatórios Excitados Sobre os Inteiros / Rafael Santos. -- Rio de Janeiro, 2015.
84 f.
Orientador: Glauco Valle.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Matemática,
Programa de Pós-Graduação em Estatística, 2015. 1. Passeios Aleatórios Excitados. 2. Processos Estocásticos Não Markovianos. 3. Lei dos Grandes Números. I. Valle, Glauco, orient. II. Título.
`
A minha fam´ılia, meus grandes amigos e, acima de tudo, `
“There are only two days in the year that nothing can be done. One is called yesterday and the other is called tomorrow.” Tenzin Gyatso.
Agradecimentos
Agrade¸co primeiramente e acima de tudo `a minha m˜ae Eneida, pelo amor imensur´avel que sempre me dedicou, pelos muitos sacrif´ıcios feitos para que eu tivesse uma infˆancia farta e boa educa¸c˜ao; por sempre ter investido e acreditado em todos os meus sonhos e objetivos. Tudo que sou e fa¸co hoje ´e reflexo direto dos princ´ıpios e da educa¸c˜ao que me transmitiu.
Agrade¸co a meus irm˜aos Andre e Claudia, pelo muito que fizeram por mim durante a minha infˆancia e que ainda fazem atualmente; al´em de terem sido grandes exemplos de car´ater e sucesso em que eu me espelhei. Definitivamente n˜ao teria chegado at´e aqui sem eles. Agrade¸co tamb´em a meu pai Adailton (in memorian), que infelizmente me deixou precocemente, mas me deu a vida e muito carinho enquanto pˆode.
Agrade¸co a meus demais familiares, que contribu´ıram de modo direto ou indireto para que eu chegasse at´e aqui, com destaque para meus cunhados Eduardo e Telma; e minhas sobrinhas Helena e Marina. Agrade¸co por todo apoio e incentivo que me deram, das mais diferentes formas.
Agrade¸co a meus grandes amigos de infˆancia: Bernardo, Raphael, Leo, ´Alvaro e Nathan, por estarem ao meu lado sempre que precisei, nas mais variadas situa¸c˜oes; e pelos bons momentos de lazer que me proporcionaram quando estava necessitando de um pouco de descanso dos “passeios aleat´orios”.
Agrade¸co a meus companheiros da p´os-gradua¸c˜ao, com grande destaque para Carlos Tadeu, Ingrid e Mariana, que estiveram ao meu lado durante os dois anos de mestrado, compartilhando de todas as dificuldades, bem como das alegrias ap´os ver cada etapa sendo conclu´ıda. Agrade¸co por todas as d´uvidas que me tiraram e pelos muitos bons momentos em que estivemos juntos, tanto para nos ajudar com os estudos das mat´erias pesadas, quanto para nos divertir e recuperar o ˆanimo. Essas companhias contribuiram significativamente para as minhas realiza¸c˜oes durante o mestrado e tornaram esse per´ıodo
bem mais agrad´avel. No mais, um agradecimento extra ao Carlos Tadeu por, mesmo estando muito atarefado, ter encontrado tempo para me auxiliar a revisar o portuguˆes dessa disserta¸c˜ao.
Agrade¸co a todos os bons amigos que fiz durante a gradua¸c˜ao na UFRJ, incluindo tanto os que ingressaram comigo, quanto as amizades que fiz posteriormente atrav´es das monitorias. Agrade¸co pelo expressivo apoio e incentivo que me foi dado, tanto para tomar a decis˜ao de seguir o caminho da p´os gradua¸c˜ao, quanto para superar as dificuldades que apareceram ao longo dele; e por todos os momentos agrad´aveis que j´a passamos juntos. Felizmente a lista de nomes aqui ´e extensa, ent˜ao n˜ao irei cit´a-los apenas para evitar deixar de fora alguns que tamb´em mereceriam estar.
Agrade¸co ao corpo docente do DME - UFRJ, por todo o conhecimento que me trans-mitiram, com bastante empenho, ao longo das diversas disciplinas que fiz, tanto na gradua¸c˜ao quanto na p´os; e assim, terem me tornado capaz de escrever essa disserta¸c˜ao, entre outras realiza¸c˜oes. Gostaria de destacar a professora Fl´avia Landim, pois al´em de ter sido com quem mais cursei disciplinas, foi gra¸cas a insistˆencia dela que me tornei monitor na gradua¸c˜ao, superando minha inseguran¸ca; e assim descobri o quanto gostava de ensinar, fator que influenciou significativamente na minha escolha por fazer mestrado. Agrade¸co tamb´em a CAPES pelo apoio financeiro ao longo desses dois anos de mes-trado; e aos professores Leandro Pimentel e Remy Sanchis, por terem aceitado fazer parte da banca examinadora dessa disserta¸c˜ao.
Por fim, um agradecimento especial ao professor Glauco Valle. Com rela¸c˜ao a gra-dua¸c˜ao, agrade¸co pelo convite e orienta¸c˜ao de inicia¸c˜ao cient´ıfica; e pelos ensinamentos de probabilidades e processos estoc´asticos, que despertaram em mim um interesse dife-renciado por essas ´areas e acabou sendo o pontap´e inicial para minha decis˜ao de seguir pelo mestrado. Com rela¸c˜ao a p´os, agrade¸co por ter aceitado orientar minha disserta¸c˜ao; por estar sempre dispon´ıvel a esclarecer, com dedica¸c˜ao e paciˆencia, todas as minhas in´umeras d´uvidas; e por todo conhecimento que me transmitiu ao longo desse processo. Hoje sei que eu n˜ao poderia ter trabalhado com melhor orientador, quase certamente.
Resumo
Os passeios aleat´orios constituem uma classe de processos estoc´asticos muito impor-tante na literatura, com aplica¸c˜oes em diversas ´areas. Esse trabalho tem por objetivo tratar de um tipo espec´ıfico desses processos, chamado passeio aleat´orio excitado, que possuem como caracter´ıstica o fato da part´ıcula receber um est´ımulo para priorizar mo-vimentos numa determinada dire¸c˜ao, durante as visitas iniciais a cada um dos estados. Esse tipo de passeio aleat´orio n˜ao possui a propriedade de Markov e com isso seu estudo se torna mais delicado.
O trabalho buscou abordar esse tema no contexto unidimensional e com enfoque no caso restrito a ambientes determin´ısticos, detalhando os principais resultados com res-peito a transiˆencia, recorrˆencia e velocidade, bem como suas demonstra¸c˜oes. Al´em disso, foi inclu´ıdo um cap´ıtulo destinado a tratar de modo emp´ırico, via simula¸c˜ao computacio-nal, do caso em que consideramos o passeio aleat´orio excitado com mais de uma part´ıcula evoluindo no mesmo ambiente.
Palavras-Chaves: processos estoc´asticos n˜ao markovianos, passeios aleat´orios excita-dos, Lei dos Grandes N´umeros.
Abstract
Random walks are a very important class of stochastic processes present in the lite-rature with applications in many areas. The objective of this work is to study a specific type of such process, named cookie random walk or excited random walk, characterized by a particle receiving a boost in the probability of moving to a specific direction du-ring the initial visits to each state. This kind of random walk doesn‘t have the Markov property, which complicates its study.
This work is intended to study excited random walks in dimension one, focusing in the restricted case of deterministic environment, detailing the main results about transience, recurrence and speed of the excited random walk as well as their proofs. An empirical study is also presented, using computational simulations, of the case considering excited random walks with more than one particle moving in the same environment.
Keywords: non-markovian stochastic processes, excited random walk (ERW), Law of Large Numbers.
Sum´
ario
1 Introdu¸c˜ao e motiva¸c˜ao 1
2 Passeios aleat´orios 4
2.1 Passeio Aleat´orio Simples . . . 4
2.2 Alguns passeios aleat´orios n˜ao markovianos . . . 7
2.2.1 Passeios Aleat´orios Auto-Evasivos em Z . . . 7
2.2.2 Passeios Aleat´orios de Arestas Refor¸cadas em Z . . . 9
2.2.3 Passeios Aleat´orios de V´ertices Refor¸cados em Z . . . 11
2.2.4 Passeios Aleat´orios Auto-Evasivos em Z com arestas direcionadas 13 3 Passeios Aleat´orios Excitados em Z 15 3.1 Descri¸c˜ao do modelo . . . 15
3.2 Principais resultados . . . 17
4 Recorrˆencia e Transiˆencia 21 4.1 Nota¸c˜oes utilizadas . . . 21
4.2 Crit´erio para recorrˆencia e transiˆencia . . . 22
5 Balisticidade 33 5.1 Lei dos Grandes N´umeros para Passeios Aleat´orios Excitados . . . 34
5.2 Processo de Ramifica¸c˜ao com Migra¸c˜ao e sua rela¸c˜ao com Passeios Aleat´orios Excitados . . . 38
5.2.1 Processo de Ramifica¸c˜ao com Migra¸c˜ao: descri¸c˜ao e resultados . . 38
5.2.2 Associa¸c˜ao dos Passeios Aleat´orios com o Processo de Ramifica¸c˜ao com Migra¸c˜ao . . . 40
6 Caso com 2 part´ıculas no mesmo ambiente: 58
6.1 Descri¸c˜ao do problema . . . 58
6.2 Simula¸c˜oes e resultados emp´ıricos . . . 59
7 Conclus˜ao e trabalhos futuros 68
A Um contra-exemplo importante 70
B C´odigo da simula¸c˜ao no R 76
C Lista das nota¸c˜oes utilizadas 80
Lista de Figuras
2.1 Ilustra¸c˜ao do grafo direto associado ao passeio aleat´orio simples em Z . . 4
2.2 Exemplo de trajet´oria de um passeio aleat´orio em Z. . . . 9
3.1 Ilustra¸c˜ao do Passeio Aleat´orio Excitado em Z. . . . 16
5.1 Exemplo de associa¸c˜ao entre passeio aleat´orio e processo de ramifica¸c˜ao.. 41
5.2 Exemplo da realiza¸c˜ao de uma trajet´oria poss´ıvel para um passeio aleat´orio, at´e t = 30, com ocorrˆencia de 4 renova¸c˜oes . . . 50
5.3 Rela¸c˜ao entre os processos Jk e ˜Vk . . . 53
6.1 Simula¸c˜ao de 2 part´ıculas em ambiente com M (2p − 1) = 1.5. . . 60
6.2 Simula¸c˜ao de 2 part´ıculas em ambiente com M (2p − 1) = 2.5. . . 62
6.3 Simula¸c˜ao de 2 part´ıculas em ambiente com M (2p − 1) = 3.5. . . 63
6.4 Simula¸c˜ao de 2 part´ıculas em ambiente com M (2p − 1) = 3. . . 64
6.5 Velocidades das 2 part´ıculas em ambiente com M = 7 e p = 0.75. . . 65
Cap´ıtulo 1
Introdu¸
c˜
ao e motiva¸
c˜
ao
Um passeio aleat´orio ´e um processo estoc´astico que descreve a evolu¸c˜ao de uma part´ıcula se deslocando de modo aleat´orio sobre os v´ertices de um grafo e tem aplica¸c˜oes nas mais diversas ´areas, como por exemplo: economia, f´ısica, qu´ımica, biologia, com-puta¸c˜ao. Existem in´umeros tipos diferentes de passeios aleat´orios, que v˜ao desde proces-sos markovianos simples at´e alguns bastante complexos.
Ao longo do texto estaremos considerando sempre passeios unidimensionais a tempo discreto e entre vizinhos pr´oximos. Ou seja, o espa¸co de estados desses processos ´e o con-junto de n´umeros inteiros e o deslocamento da part´ıcula ocorre sempre ap´os intervalos de tempo de tamanho um, podendo ser um salto de uma unidade para mais ou para menos. Para o caso do passeio aleat´orio simples em Z, que ´e markoviano, j´a se tem resultados cl´assicos com rela¸c˜ao a 3 importantes caracter´ısticas dos passeios aleat´orios: classifica¸c˜ao entre transiˆencia ou recorrˆencia, velocidade e convergˆencia em escala. No Cap´ıtulo 2 descreveremos esse tipo de processo e apresentaremos seus resultados. Por´em, esse caso simples na maioria das vezes n˜ao retrata bem a realidade, pois ´e raro se deparar com problemas em que o passado n˜ao exerce influˆencia nos acontecimentos futuros. Seguem alguns exemplos:
• Os passeios aleat´orios podem ser utilizados na ´area biol´ogica para descrever o comportamento de bact´erias, que ´e influenciado pelos movimentos anteriores delas (locais onde encontraram nutrientes, melhores condi¸c˜oes para reprodu¸c˜ao, etc...). Ainda nessa ´area, temos aplica¸c˜oes em quimiotaxia, que ´e o nome dado ao movi-mento celular induzido pela presen¸ca de substˆancias qu´ımicas no ambiente. Essa
quest˜ao ´e tratada em [13] utilizando passeios aleat´orios refor¸cados, que s˜ao n˜ao markovianos.
• Os passeios aleat´orios tamb´em tˆem aplica¸c˜oes na ´area da qu´ımica, no estudo da forma¸c˜ao de pol´ımeros, que s˜ao grandes mol´eculas formadas pela aglomera¸c˜ao de mol´eculas menores. Essa quest˜ao ´e tratada em [2] utilizando modelagem via pas-seios aleat´orios simples e via passeios auto-evasivos, que s˜ao n˜ao markovianos. ´
E crescente o interesse te´orico no estudo de passeios aleat´orios mais complexos (n˜ao markovianos). H´a diversos passeios n˜ao markovianos importantes na literatura e tem se buscado estudar as 3 caracter´ısticas mencionadas anteriormente em cada um deles. Ainda no Cap´ıtulo 2 ser´a feita uma apresenta¸c˜ao sucinta de alguns desses passeios.
Nosso objetivo ´e tratar com detalhes de um desses passeios n˜ao markovianos, cha-mado passeio aleat´orio excitado, no caso unidimensional. Eles s˜ao caracterizados por receberem um est´ımulo para se deslocar em uma determinada dire¸c˜ao nas visitais iniciais a cada estado. No Cap´ıtulo 3 temos a descri¸c˜ao formal e detalhada desse processo, bem como a apresenta¸c˜ao dos principais resultados encontrados na literatura.
Uma das motiva¸c˜oes para se estudar espec´ıficamente esse tipo de passeio se deve ao fato deles serem adequados para modelar o movimento de c´elulas ou microorganismos em um determinado ambiente que disp˜oe de uma certa quantidade de nutrientes. ´E razo´avel pensar que essas c´elulas ou microorganismos v˜ao priorizar deslocamentos nas dire¸c˜oes em que estiverem encontrando tais nutrientes e que, caso eles eventualmente se esgotem, n˜ao haver´a mais est´ımulo para priorizar uma dire¸c˜ao. Esses passeios tamb´em parecem ade-quados para modelar o problema da quimiotaxia, uma vez que as substˆancias qu´ımicas podem se esgotar.
Um survey sobre os passeios aleat´orios excitados ´e apresentado em [10], onde podem ser encontrados diversos resultados relevantes com rela¸c˜ao a esses passeios, incluindo os casos de dimens˜ao maior, mas sem as demonstra¸c˜oes formais. No nosso trabalho procu-ramos dar uma abordagem mais acess´ıvel desse tema, de modo a auxiliar a compreens˜ao dos leitores que estejam realizando seu primeiro contato com o assunto. Para isso, nos restring´ımos apenas ao caso unidimensional e em grande parte do texto, consideramos o ambiente sendo determin´ıstico (todos os est´ımulos com igual intesidade e ocorrendo nas primeiras M visitas, para todos os estados). Ent˜ao, foi realizada uma adapta¸c˜ao
dos resultados e demonstra¸c˜oes j´a presentes na literatura em casos mais gerais, para esse contexto de ambiente determin´ıstico, de modo a torn´a-los mais simples. Associado a isso, tamb´em buscou-se detalhar mais essas demonstra¸c˜oes.
Nos Cap´ıtulos 4 e 5 ser˜ao realizadas as adapta¸c˜oes para ambiente determin´ıstico, de modo que o Cap´ıtulo 4 contempla o estudo de recorrˆencia e transiˆencia desses passeios, que foi tratado inicialmente em [19] no caso de ambiente aleat´orio erg´odico; e o Cap´ıtulo 5 abrange o estudo da velocidade, que foi abordado em [9], tamb´em no caso de ambiente aleat´orio erg´odico.
Por fim, no Cap´ıtulo 6, ser´a realizada uma abordagem emp´ırica, utilizando simula¸c˜oes computacionais, para a situa¸c˜ao em que temos mais de uma part´ıcula evoluindo no mesmo ambiente e competindo pelos est´ımulos. Essa extens˜ao ´e razo´avel ao adaptar esses pro-cessos para situa¸c˜oes reais, mas ainda n˜ao foi tratada na literatura. Ent˜ao, procuramos perceber como os resultados conhecidos de recorrˆencia, transiˆencia e velocidade s˜ao alte-rados com a introdu¸c˜ao de mais part´ıculas no ambiente.
Cap´ıtulo 2
Passeios aleat´
orios
2.1
Passeio Aleat´
orio Simples
Um passeio aleat´orio simples (PAS) unidimensional (em Z) ´e uma cadeia de Markov homogˆenea com espa¸co de estados igual ao conjunto dos n´umeros inteiros represen-tando uma part´ıcula transirepresen-tando em Z de acordo com a seguinte regra probabil´ıstica: A part´ıcula salta de um estado para o seguinte com probabilidade p ou para o anterior com probabilidade q = 1 − p, onde p ∈ (0, 1). Ou seja:
p(x, x + 1) = p,
p(x, x − 1) = 1 − p, para ∀x ∈ Z.
Na figura 2.1 podemos ver a representa¸c˜ao em forma de grafo desse processo.
Figura 2.1: Ilustra¸c˜ao do grafo direto associado ao passeio aleat´orio simples em Z Nota: Assim como ocorre com o PAS, estaremos considerado o caso de arestas ligando apenas vizinhos adjacentes para todos os Passeios Aleat´orios tratados nessa disserta¸c˜ao (um estado x ter´a aresta ligando apenas com os estados x − 1 e x + 1).
Vamos revisar algumas defini¸c˜oes essenciais associadas a processos estoc´asticos, que aparecer˜ao nos principais resultados sobre PAS, bem como nas demais se¸c˜oes.
Defini¸c˜ao 1: Propriedade de Markov:
Um processo estoc´astico a tempo discreto satisfaz a propriedade de Markov (ou seja, ´
e markoviano) se a distribui¸c˜ao de probabilidade do processo no instante n + 1, dado que o hist´orico dele no intervalo [0, n] ´e conhecido, depende apenas do valor do processo no instante n, podendo desprezar toda a informa¸c˜ao do passado. Ou seja, (Xn)n≥0 ´e um
processo markoviano se:
P (Xn+1 = y|X0 = x0, X1 = x1, . . . , Xn = xn) = P (Xn+1 = y|Xn = xn), para
quais-quer y, x0, x1, . . . , xn pertencentes ao campo de defini¸c˜ao do processo Xn.
Defini¸c˜ao 2: Irredutibilidade:
Dizemos que um estado i se comunica com j quando h´a probabilidade positiva da part´ıcula atingir o estado j em algum instante futuro, partindo do estado i ou seja: P (Xn = j|X0 = i) = Pn(i, j) > 0 para pelo menos algum n ∈ N. Um processo
es-toc´astico ser´a classificado como irredut´ıvel se todos os seus estados se comunicarem. Defini¸c˜ao 3: Transiˆencia e recorrˆencia:
Um estado ´e dito recorrente se em qualquer instante que a part´ıcula deixe esse estado, ela conseguir retornar a ele em algum momento com probabilidade 1; e ser´a dito transi-ente quando isso n˜ao ocorrer. Uma cadeia irredut´ıvel ´e dita recorrente se todos os seus estados s˜ao recorrentes. Al´em disso, quando temos uma cadeia de markov irredut´ıvel, se algum estado for recorrente, todos os outros tamb´em ser˜ao, bastando ent˜ao analisar apenas um estado para avaliar recorrˆencia ou transiˆencia da cadeia.
Defini¸c˜ao 4: Recorrˆencia nula e recorrˆencia positiva:
Uma cadeia de Markov recorrente ´e classificada como recorrente nula quando o tempo esperado de primeiro retorno a qualquer um de seus estados ´e infinito, ou seja: E[Ti|X0= i]
= ∞, onde Ti = min{n ≥ 1 : Xn = i}. Por outro lado, ela ser´a classificada como
recor-rente positiva quando esse tempo esperado for finito para todos os seus estados. Defini¸c˜ao 5: Velocidade:
em m´edia a cada instante de tempo. Ou seja: v = lim
n→∞
Xn
n .
Agora ser˜ao listados os principais resultados sobre PAS em Z, que podem ser encon-trados em diversos livros de probabilidade e processos estoc´asticos, como por exemplo [4] ou [15].
Para definir formalmente o PAS associado a p ∈ (0, 1), sejam (Xk)k≥1 v.a’s i.i.d’s
as-sumindo os valores +1 com probabilidade p e −1 com probabilidade 1 − p. Elas indicam se no k-´esimo salto a part´ıcula se move para a direita (Xk = +1) ou esquerda (Xk = −1).
O PAS come¸cando em 0 ´e o processo (Yn)n≥0 tal que Y0 = 0 e Yn= n
X
k=1
Xk, ∀n ≥ 1, indica
a posi¸c˜ao da part´ıcula no instante n.
Lema 2.1. Condi¸c˜oes de transiˆencia e recorrˆencia em um PAS em Z: p = 12 ⇒ Recorrˆencia nula, p < 12 ⇒ Transiˆencia, com lim
n→∞Yn = −∞,
p > 12 ⇒ Transiˆencia, com lim
n→∞Yn = ∞.
Lema 2.2. Como consequˆencia da Lei dos Grandes N´umeros, a velocidade v de um PAS em Z, definida como v = lim
n→∞ Yn n ´e dada por: v = 0, se p = 12, v = 2p − 1, se p 6= 12. Lema 2.3. Teorema Central do Limite para PAS em Z:
Yn− E[Yn] pV ar[Yn] = Yn− n(2p − 1) pn(4p(1 − p)) d −−−→ n→∞ N (0, 1).
Lema 2.4. Probabilidade de um PAS partindo de um estado x > 0 visitar o estado y > x antes de visitar o zero, denotada por Pxy. Esse resultado ´e conhecido na literatura como Problema da Ru´ına do Jogador e pode ser encontrado em [15], se¸c˜ao 4.5.1:
Pxy = x y, se p = 1 2, 1 − (1−pp )x 1 − (1−pp )y, se p 6= 1 2.
Lema 2.5. N´umero esperado de visitas a cada estado x ≥ 0 em um PAS com p > 12, denotado por E[Nx]:
E[Nx] =
1 2p − 1.
Para verificar esse lema, primeiro note que, pela propriedade de markov, esse n´umero esperado ser´a igual para todos os estados, bastando ent˜ao analisar o estado 0. A cada vez que a part´ıcula chega ao zero, o n´umero de visitas que ela faz a esse estado antes de chegar no estado 1 tem distribui¸c˜ao geom´etrica de parˆametro p e consequentemente es-peran¸ca 1p. Al´em disso, chegando no s´ıtio 1, a part´ıcula tem probabilidade 2p−1p de nunca mais retornar ao zero, que segue da aplica¸c˜ao do Lema 2.4 com x = 1 e y → ∞. Dessa forma, o n´umero de vezes que, ap´os visitar o s´ıtio 1, a part´ıcula consegue retornar ao zero em algum momento, tem distribui¸c˜ao geom´etrica de parˆametro 2p−1p e consequentemente esperan¸ca 2p−1p . Por fim, como as duas geom´etricas descritas s˜ao independentes devido a propriedade de markov, a esperan¸ca de N0 segue do produto dessas duas esperan¸cas.
2.2
Alguns passeios aleat´
orios n˜
ao markovianos
2.2.1
Passeios Aleat´
orios Auto-Evasivos em Z
Os passeios aleat´orios auto-evasivos (PAAE) em Z s˜ao processos estoc´asticos com espa¸co de estados Z, caracterizados pelo seguinte comportamento: Uma part´ıcula que est´a em um estado x no instante t pode saltar para x − 1 ou x + 1 no instante seguinte e essas probabilidades s˜ao definidas em fun¸c˜ao do n´umero de vezes que a part´ıcula visitou os estados x − 1 ou x + 1 no passado, de modo que realizar uma determinada transi¸c˜ao no instante t reduz a chance de repet´ı-la futuramente. Para formalizar, vamos definir algumas nota¸c˜oes:
Ti(x) := #{j ∈ [0, i)|Xj = x + 1, Xj+1= x},
Si(x) := Fi(x) + Ti(x).
Ou seja, Fi(x) indica o n´umero de vezes at´e o instante i que a part´ıcula saltou do
es-tado x para o eses-tado x+1, Ti(x) o n´umero de vezes que a part´ıcula saltou de x+1 para x; e
Si(x) o total de vezes que a part´ıcula realizou algum movimento entre os estados x e x+1.
Com isso, as probabilidades da part´ıcula saltar para a direita ou esquerda s˜ao defini-das do seguinte modo:
P (Xi+1 = Xi+ 1|X0, ..., Xi) = w(Si(Xi)) w(Si(Xi)) + w(Si(Xi− 1)) ; P (Xi+1 = Xi− 1|X0, ..., Xi) = w(Si(Xi− 1)) w(Si(Xi)) + w(Si(Xi− 1)) .
Onde w ´e uma fun¸c˜ao que decresce conforme Si aumenta, como por exemplo w(n) =
exp(−βn) com β > 0 um parˆametro fixo (decaimento exponencial).
Para ilustrar o processo, considere um PAAE possuindo fun¸c˜ao de decaimento ex-ponencial mencionada anteriormente, com β = 1 e suponha que a part´ıcula iniciou no estado 0, realizando a seguinte sequˆencia de movimentos, ilustrada na figura 2.2: 0, 1, 2, 1, 0, −1, 0, 1, 0, 1. Com isso, a part´ıcula se encontra atualmente (t = 9) no estado 1, havendo percorrido 5 vezes a aresta {0, 1}, 2 vezes a aresta {1, 2} e portanto, podendo saltar para 0 ou 2 com as seguintes probabilidades:
P (X10 = 2|X0 = 0, ..., X9 = 1) = w(S9(1)) w(S9(1)) + w(S9(0)) = e −(1+1) e−(1+1)+ e−(3+2) =≈ 0.9526. P (X10 = 0|X0 = 0, ..., X9 = 1) = w(S9(0)) w(S9(1)) + w(S9(0)) = e −(3+2) e−(1+1)+ e−(3+2) =≈ 0.0474.
Note que independente da ordem com que as arestas s˜ao percorridas na figura 2.2, o estado final ser´a o 1 e as probabilidades descritas acima s˜ao iguais.
Resumindo, essa classe de passeios aleat´orios tem uma tendˆencia a n˜ao visitar esta-dos que j´a foram visitados muitas vezes no passado e pode-se perceber que esses passeios aleat´orios de fato n˜ao s˜ao markovianos, pois as probabilidades de salto P (x, x + 1) e
Figura 2.2: Exemplo de trajet´oria de um passeio aleat´orio em Z.
P (x, x − 1) no instante t dependem do n´umero de vezes que a part´ıcula cruzou essas arestas no passado, ou seja, para especificar uma probabilidade no instante t n˜ao basta conhecer a posi¸c˜ao da part´ıcula no instante t − 1, sendo necess´ario o conhecimento de todo o hist´orico do passeio.
Em [17] verifica-se que a escala necess´aria para termos um Teorema Central do Limite no PAAE depende da fun¸c˜ao w. No caso de decaimento exponencial, por exemplo, essa convergˆencia ocorre na escala (N−23)X[N t], diferindo da escala difusiva (N−
1
2)X[N t], na
qual ocorre a convergˆencia no caso de passeios aleat´orios simples.
Mais informa¸c˜oes sobre sobre PAAE tamb´em podem ser encontradas em [17].
2.2.2
Passeios Aleat´
orios de Arestas Refor¸
cadas em Z
Os passeios aleat´orios de arestas refor¸cadas (PAAR) em Z s˜ao processos estoc´asticos com espa¸co de estados Z, caracterizados pelo seguinte comportamento: Uma part´ıcula que est´a em um estado x no instante t pode saltar para x − 1 ou x + 1 no instante seguinte e essas probabilidades dependem do n´umero de vezes que a part´ıcula realizou essa mesma transi¸c˜ao no passado, de modo que a part´ıcula tenha maior chance de escolher repetir um salto que realizou mais vezes no passado. Para formalizar, vamos definir a seguinte nota¸c˜ao: an(x) := n−1 X k=0 I{Xk,Xk+1}={x,x+1}.
Ou seja, an(x) indica o n´umero total de vezes, at´e o instante n, que o passeio percorre
Wn(x) = W0(x) + an(x)
X
k=1
bk.
Onde W0(x) ´e o peso inicial do estado x, que ´e sempre positivo e ~b = {bk, k ≥ 1} ´e
uma sequˆencia de n´umeros n˜ao negativos chamada de sequˆencia do passeio (por exemplo, podemos pensar no caso mais simples, em que a sequˆencia bk´e constante igual a 1). Com
isso, as probabilidades de transi¸c˜ao s˜ao definidas do seguinte modo: P (Xn+1 = Xn+ 1|X0, X1, ..., Xn) = Wn(x) Wn(x) + Wn(x − 1) ; P (Xn+1 = Xn− 1|X0, X1, ..., Xn) = Wn(x − 1) Wn(x) + Wn(x − 1) .
Para ilustrar esse processo, considere um PAAR com W0(x) = 1 para todo x ∈ Z,
sequˆencia ~b tal que bk = 1k e suponha que a part´ıcula iniciou no estado 0, realizando a
seguinte sequˆencia de movimentos, ilustrada na figura 2.2: 0, 1, 2, 1, 0, −1, 0, 1, 0, 1. Com isso, a part´ıcula se encontra atualmente (t = 9) no estado 1, havendo percorrido 5 vezes a aresta {0, 1}, 2 vezes a aresta {1, 2} e portanto, podendo saltar para 0 ou 2 com as seguintes probabilidades: P (X10= 2|X0 = 0, ..., X9 = 1) = W9(1) W9(1) + W9(0) = 1 + a9(1) X k=1 1 k 1 + a9(1) X k=1 1 k + 1 + a9(0) X k=1 1 k = = 1 + 2 X k=1 1 k 1 + 2 X k=1 1 k + 1 + 5 X k=1 1 k ≈ 2.5 2.5 + 3.283 ≈ 0.4323. P (X10= 0|X0 = 0, ..., X9 = 1) = W9(0) W9(1) + W9(0) = 1 + a9(0) X k=1 1 k 1 + a9(1) X k=1 1 k + 1 + a9(0) X k=1 1 k =
= 1 + 5 X k=1 1 k 1 + 2 X k=1 1 k + 1 + 5 X k=1 1 k ≈ 3.283 2.5 + 3.283 ≈ 0.5677.
Resumindo, essa classe de passeios aleat´orios tem uma tendˆencia a realizar com mais frequˆencia as transi¸c˜oes que foram feitas um maior n´umero de vezes no passado e tamb´em s˜ao claramente n˜ao markovianos, pois para especificar as probabilidades de salto do es-tado x para x + 1 ou x − 1, no instante t, ´e preciso saber quantas vezes no passado do processo as arestas {x, x + 1} e {x, x − 1} foram percorridas.
H´a um importante resultado na literatura sobre comportamento limite desse tipo de passeio, que pode ser encontrado em [3]: Seja Xn um PAAR com W0(x) igual para todo
x e sequˆencia do passeio ~b. Ent˜ao, se
∞
X
k=1
1 bk
= ∞, temos que Xn ser´a recorrente quase
certamente, enquanto que se
∞
X
k=1
1 bk
< ∞, temos Xncom alcance finito quase certamente,
ficando preso entre 2 estados vizinhos a partir de algum momento. Note que nesse se-gundo caso, temos alguns estados recorrentes e outros transientes, diferindo assim do comportamento apresentado pelo PAS.
Mais informa¸c˜oes sobre PAAR podem ser encontradas em [14].
2.2.3
Passeios Aleat´
orios de V´
ertices Refor¸
cados em Z
Os passeios aleat´orios de v´ertices refor¸cados (PAVR) em Z s˜ao processos estoc´asticos, com espa¸co de estados Z, similares ao PAAR. A diferen¸ca ´e que agora o que determinar´a as probabilidades se saltar para x + 1 ou x − 1 ser´a o n´umero total de visitas a esses 2 estados, no passado. Para formalizar, vamos definir a seguinte nota¸c˜ao:
vn(x) := 1 + n
X
k=1
I{Xk=x}.
ins-tante n, acrescido de 1 unidade. Com isso, as probabilidades de transi¸c˜ao s˜ao definidas do seguinte modo: P (Xi+1 = Xi+ 1|X0, X1, ..., Xi) = vn(x + 1) vn(x + 1) + vn(x − 1) ; P (Xi+1 = Xi− 1|X0, X1, ..., Xi) = vn(x − 1) vn(x + 1) + vn(x − 1) .
Para ilustrar esse processo, considere um PAVR em que a part´ıcula iniciou no estado 0 e realizou a seguinte sequˆencia de movimentos, ilustrada na figura2.2: 0, 1, 2, 1, 0, −1, 0, 1, 0, 1. Com isso, a part´ıcula se encontra atualmente (t = 9) no estado 1, havendo visitado quatro vezes o estado 0, uma vez o estado 2 e portanto, podendo saltar para 0 ou 2 com as seguintes probabilidades: P (X10= 2|X0 = 0, ..., X9 = 1) = v9(2) v9(2) + v9(0) = 1 + 1 (1 + 1) + (1 + 4) = 2 7 ≈ 0.2857. P (X10= 0|X0 = 0, ..., X9 = 1) = v9(0) v9(2) + v9(0) = 1 + 4 (1 + 1) + (1 + 4) = 5 7 ≈ 0.7143. Vale observar que o PAVR foi definido de modo mais simples, mas tamb´em ´e poss´ıvel construir um PAVR de forma similar ao PAAE, em que os ”refor¸cos”a cada visita evo-luam de acordo com uma sequˆencia bk qualquer (nesse caso simples temos a sequˆencia bk
constante igual a 1).
Resumindo, essa classe de passeios aleat´orios tem uma tendˆencia a visitar com mais frequˆencia os estados que foram visitados um maior n´umero de vezes no passado. Esses passeios tamb´em s˜ao n˜ao markovianos, pois as probabilidades de salto no instante t de-pendem de quantas vezes cada estado j´a foi visitado no passado.
H´a um importante resultado sobre o comportamento limite desse tipo de passeio, que pode ser encontrado em [16]: Seja Xn um PAVR em Z. Ent˜ao, com probabilidade 1,
existir˜ao um k ∈ Z aleat´orio, α ∈ (0, 1) e C1, C2 > 0 tais que os seguintes fatos ocorrem:
(i) Os v´ertices {k − 2, k − 1, k, k + 1, k + 2} s˜ao os ´unicos visitados infinitas vezes; (ii) Os v´ertices {k − 1, k, k + 1} s˜ao os ´unicos visitados com uma frequˆencia positiva, cujo limite ´e dado respectivamente por α2,12,(1−α)2 ;
(iii) Os v´ertices k − 2 e k + 2 possuem medida de ocupa¸c˜ao respectivamente da ordem de C1nα e C2n(1−α).
Pode-se perceber que nesse tipo de passeio teremos 5 estados recorrentes e os demais transientes, que novamente difere do comportamento apresentado pelo PAS.
Mais informa¸c˜oes sobre PAVR podem ser encontradas em [14].
2.2.4
Passeios Aleat´
orios Auto-Evasivos em Z com arestas
di-recionadas
Os passeios aleat´orios auto-evasivos com arestas direcionadas (PAAEAD) s˜ao pro-cessos estoc´asticos com espa¸co de estados Z, que evoluem de modo bastante similar ao PAAE, com a diferen¸ca apenas que no PAAEAD as probabilidades de saltar do estado x para x + 1 ou x − 1 dependem apenas de quantas vezes no passado a part´ıcula realizou as transi¸c˜oes de x para x + 1 e x para x − 1. Ou seja, apenas do n´umero de vezes que Xn
percorre essas arestas nesses sentidos espec´ıficos. Aproveitando a nota¸c˜ao introduzida na subse¸c˜ao 2.2.1, temos as probabilidades de transi¸c˜ao do PAAEAD dadas por:
P (Xi+1= Xi+ 1|X0, ..., Xi) = w(Fi(Xi)) w(Fi(Xi)) + w(Ti(Xi− 1)) ; P (Xi+1= Xi− 1|X0, ..., Xi) = w(Ti(Xi− 1)) w(Fi(Xi)) + w(Ti(Xi − 1)) ,
lembrando que Fi(x) indica o n´umero de vezes at´e o instante i que a part´ıcula saltou do
estado x para o estado x + 1 e Ti(x) indica o n´umero de vezes que a part´ıcula saltou de
x + 1 para x.
Para ilustrar esse processo, considere um PAAEAD em que a part´ıcula iniciou no estado 0 e realizou a seguinte sequˆencia de movimentos, ilustrada na figura2.2: 0, 1, 2, 1, 0, −1, 0, 1, 0, 1. Com isso, a part´ıcula se encontra atualmente (t = 9) no estado 1, havendo realizado apenas um salto do estado 1 para 2 e dois saltos de 1 para 0. Dessa forma, considerando a fun¸c˜ao de decaimento w(n) = exp(−n), temos que a part´ıcula poder´a saltar para 0 ou 2 com as seguintes probabilidades:
P (X10 = 2|X0 = 0, ..., X9 = 1) = w(F9(1)) w(F9(1)) + w(T9(0)) = e −1 e−1+ e−2 =≈ 0.7311. P (X10 = 0|X0 = 0, ..., X9 = 1) = w(T9(0)) w(F9(1)) + w(T9(0)) = e −2 e−1+ e−2 =≈ 0.2689.
Esses processos s˜ao n˜ao markovianos, pela mesma explica¸c˜ao dada para o PAAE e tamb´em tem uma tendˆencia a evitar visitar estados que j´a foram visitados muitas vezes no passado, visto que novamente a fun¸c˜ao w ser´a decrescente.
H´a um importante resultado na literatura sobre comportamento limite desse tipo de passeio, podendo ser encontrado em [12]: Seja Xn um PAAEAD, ent˜ao esse processo ´e
recorrente e temos um TCL da seguinte forma: X√n
n converge em distribui¸c˜ao para uma
vari´avel uniforme em [−1, 1], quando n → ∞. Note que este comportamento difere do TCL para PAS.
Cap´ıtulo 3
Passeios Aleat´
orios Excitados em Z
3.1
Descri¸
c˜
ao do modelo
Passeios aleat´orios excitados (PAE) podem ser descritos informalmente da seguinte forma: Suponha que cada s´ıtio z ∈ Z seja preenchido com uma determinada quanti-dade de cookies, que s˜ao artif´ıcios capazes de alterar a regra de probabilidade com que a part´ıcula realiza seu movimento seguinte; e considere tal part´ıcula transitando entre vizinhos pr´oximos de acordo com a seguinte regra de probabilidade: A part´ıcula salta para a direita com probabilidade 12 se o s´ıtio em que a part´ıcula se encontra n˜ao possuir cookies, ou caso contr´ario, ela consome 1 cookie e salta para a direita com uma probabi-lidade p determinada por esse cookie.
Pode-se perceber que os passeios aleat´orios excitados n˜ao s˜ao markovianos, pois ao chegar em um determinado s´ıtio z, a probabilidade com que a part´ıcula escolhe saltar para a direita depende da informa¸c˜ao sobre quantos cookies j´a foram consumidos nesse s´ıtio, que por sua vez depende de quantas visitas ao estado z a part´ıcula realizou no passado.
Passemos agora para a descri¸c˜ao formal: Considere um ambiente ω como sendo um elemento de:
Ω = {(ω(z, i))z∈Z,i∈N | ω(z, i) ∈ [0, 1], ∀i ∈ N e ∀z ∈ Z} .
O valor ω(z, i) fornece a probabilidade do PAE realizar a transi¸c˜ao do estado z para z + 1, ao visitar pela i-´esima vez o estado z. Mais precisamente, fixando ω ∈ Ω e x0 ∈ Z,
temos que um PAE (Xn)n≥0 iniciando no estado x0, em um ambiente ω, ´e um processo
estoc´astico bem definido, com medida de probabilidade Px0,ω satisfazendo:
Px0,ω[X0 = x0] = 1,
Px0,ω[Xn+1= Xn+ 1|(Xi)0≤i≤n] = ω(Xn, #{i ≤ n : Xi = Xn}),
Px0,ω[Xn+1 = Xn− 1|(Xi)0≤i≤n] = 1 − ω(Xn, #{i ≤ n : Xi = Xn}).
O ambiente ω pode ser fixado inicialmente ou escolhido de modo aleat´orio de acordo com uma medida de probabilidade em Ω. Quando ω for um elemento aleat´orio de Ω, sua distribui¸c˜ao ser´a denotada por P e a esperan¸ca associada por E.
Na parte superior da figura 3.1 podemos ver um exemplo de ambiente para o PAE, com 4 cookies por s´ıtio (as bolas pretas representam os cookies). J´a na parte inferior da figura, temos a representa¸c˜ao de uma poss´ıvel evolu¸c˜ao da part´ıcula nesse ambiente, par-tindo do estado 0 e com transi¸c˜oes iniciais 0 → 1 → 2 → 1 → 0 → −1 → 0 → −1 → −2. Os c´ırculos pontilhados simbolizam os cookies consumidos at´e o termino das 8 transi¸c˜oes.
Figura 3.1: Ilustra¸c˜ao do Passeio Aleat´orio Excitado em Z.
Ap´os consumir um cookie ω(z, i), a part´ıcula se desloca em m´edia 2ω(z, i) − 1, o que chamaremos de drift obtido pela part´ıcula ap´os consumir o cookie. Se esse deslocamento m´edio for positivo, temos um cookie positivo, se for negativo teremos um cookie negativo e se for nulo n˜ao teremos cookie. Somando o deslocamento m´edio obtido com todos os cookies de um s´ıtio, obtemos o que ser´a chamado de deslocamento total m´edio por s´ıtio e denotado por δz. Quando o ambiente for estacion´ario, δz possuir´a mesmo valor, para
δ = E " X i≥1 (2ω(0, i) − 1) # .
Quando estamos no caso determin´ıstico, em que fixamos o ambiente com M cookies por s´ıtio, todos fornecendo a mesma probabilidade p da part´ıcula saltar para a direita, temos: δ = E " M X i=1 (2ω(0, i) − 1) # = M X i=1 (2p − 1) = M (2p − 1).
O parˆametro δ ´e decisivo para avaliar o comportamento assint´otico de (Xn)n≥0.
3.2
Principais resultados
Agora ser˜ao apresentados os principais resultados encontrados na literatura para pas-seios aleat´orios excitados unidimensionais, contemplando tanto o caso determin´ıstico quanto o de ambiente aleat´orio.
Come¸cando pela quest˜ao de recorrˆencia e transiˆencia, que foi inicialmente discutida para PAE em [19], temos o primeiro teorema enunciado, que fornece condi¸c˜oes necess´arias e suficientes com rela¸c˜ao ao parˆametro δ para que o PAE seja transiente ou recorrente. Para que o teorema seja v´alido ´e preciso que o PAE satisfa¸ca pelo menos um dos seguintes conjuntos de premissas:
(A) A sequˆencia (ω(z, •))z∈Z´e estacion´aria e erg´odica com respeito a P, todos os cookies s˜ao negativos ou positivos e P[ω(0, 1) = +1 ou 0] < 1; ou
(B) A sequˆencia (ω(z, •))z∈Z ´e i.i.d com respeito a P, o n´umero de cookies em cada s´ıtio
´e limitado superiormente por algum M ∈ N e P [∀i ∈ N, ∀z ∈ Z : ω(z, i) > 0] > 0 (elipticidade fraca).
Teorema 3.1. [E. Kosygina and M. P. W. Zerner [9]] Recorrˆencia e transiˆencia: Sob a hip´otese A ou B, se (Xn)n≥0 possuir parˆametro δ ∈ [−1, 1], temos que o passeio
(q.c). Se δ > 1, o passeio ser´a transiente para a direita, ou seja, Xn n→∞
−−−→ ∞ q.c e, de modo analogo, se δ < −1 o passeio ser´a transiente para a esquerda, ou seja, Xn
n→∞
−−−→ −∞ q.c.
O segundo teorema enunciado garante a existˆencia da velocidade para qualquer PAE, al´em de fornecer condi¸c˜oes necess´arias e suficientes, com rela¸c˜ao ao parˆametro δ, para que o PAE tenha velocidade n˜ao nula no caso de ambiente i.i.d.
Teorema 3.2. [E. Kosygina and M. P. W. Zerner [9]] Lei dos Grandes N´umeros e balisticidade:
Existe um valor fixo v ∈ [−1, 1] chamado de velocidade do passeio, tal que o PAE satisfaz a seguinte igualdade:
lim
n→∞
Xn
n = v q.c. Al´em disso, sob a hip´otese B, temos as seguintes rela¸c˜oes:
δ < −2 ⇔ v < 0, δ ∈ [−2, 2] ⇔ v = 0, δ > 2 ⇔ v > 0.
A primeira parte do Teorema 3.2, que garante a existˆencia da velocidade, foi na ver-dade apresentado e demonstrado inicialmente em [19].
Dos Teoremas 3.1 e 3.2 decorrem os seguintes corol´arios, para as situa¸c˜oes em que temos ambiente determin´ıstico, com M cookies por s´ıtio e todos fornecendo igual proba-bilidade p 6= 12 da part´ıcula saltar para a direita.
Corol´ario 3.1. Considere que todos os cookies forne¸cam a mesma probabilidade p 6= 12 de Xn saltar para a direita. Para todo p nessas condi¸c˜oes, temos que o passeio ser´a
recorrente se M ≤ 1 2p−1
, enquanto que ele ser´a transiente se M > 1 2p−1 .
Corol´ario 3.2. Considere que todos os cookies forne¸cam a mesma probabilidade p 6= 12 de Xn saltar para a direita. Para todo p nessas condi¸c˜oes, temos que a velocidade do
passeio ser´a diferente de zero, ou seja, v 6= 0 se tivermos M > 2 2p−1 .
Observa¸c˜ao: Em [11] j´a havia sido demonstrado que, para ambientes determin´ısticos, sempre existe algum M0(p) tal que a velocidade do passeio ser´a n˜ao nula para todo
M > M0. Com o aparecimento do Teorema 3.2, foi descoberto o valor exato desse M0.
Vale observar tamb´em, que o Corol´ario 3.2 n˜ao pode ser generalizado para um ambi-ente inicial aleat´orio erg´odico com n´umero m´edio de cookies por s´ıtio superior a M . Ou seja, ´e poss´ıvel construir um ambiente ω com n´umero aleat´orio Mz de cookies no s´ıtio z
satisfazendo (Mz)z∈Z erg´odico e E(Mz) ≥ M ; onde para qualquer ponto inicial x0 o PAE
tenha velocidade zero.
No Apˆendice A pode ser visto a constru¸c˜ao detalhada de um ambiente erg´odico com n´umero m´edio de cookies por s´ıtio superior a M , de modo que uma part´ıcula transitando nesse ambiente tenha velocidade zero quase certamente, comprovando que de fato n˜ao se pode generalizar o Cor´ol´ario 3.2.
Corol´ario 3.3. [T. Mountford, L. P. R. Pimentel, G. Valle [11]] Considerando que todos os cookies forne¸cam probabilidade p 6= 12 de Xn saltar para a direita e que o n´umero M de
cookies por s´ıtio satisfa¸ca |M (2p − 1)| ∈ (1, 2), ent˜ao o PAE ser´a transiente, mas com velocidade 0.
O terceiro teorema enunciado fornece condi¸c˜oes suficientes com rela¸c˜ao ao parˆametro δ para que o PAE satisfa¸ca ao Teorema Central do Limite no caso de ambiente i.i.d. Teorema 3.3. [E. Kosygina and M. P. W. Zerner [9]] Teorema Central do Limite:
Seja v a velocidade do passeio, como definida anteriormente e Btn dado por: Btn = √1
Se (Xn)n≥0 possuir parˆametro |δ| > 4, ent˜ao (Btn)n≥0 vai convergir para um
movi-mento browniano n˜ao degenerado.
Neste texto, ao longo dos pr´oximos 2 cap´ıtulos, apresentaremos as provas dos Teore-mas 3.1 e 3.2, em suas vers˜oes adaptadas para o caso de ambiente determin´ıstico. Dessa forma, pretendemos dar uma abordagem mais acess´ıvel `as provas desses resultados.
Cap´ıtulo 4
Recorrˆ
encia e Transiˆ
encia
Nesse cap´ıtulo ser´a apresentado e demonstrado um crit´erio geral que permite clas-sificar um passeio aleat´orio excitado, com ambiente determin´ıstico, em recorrente ou transiente. Esse resultado j´a ´e apresentado em [19] para o caso de ambiente aleat´orio erg´odico, ent˜ao esse cap´ıtulo visa simplificar a demonstra¸c˜ao fazendo uso do fato que estamos nos restringindo apenas a ambientes determin´ısticos, com M cookies por s´ıtio e todos fornecendo a mesma probabilidade p da part´ıcula saltar para a direita.
4.1
Nota¸
c˜
oes utilizadas
Primeiramente ser˜ao listadas todas as nota¸c˜oes necess´arias para demonstra¸c˜ao dos lemas enunciados nesse cap´ıtulo e do Teorema 4.1.
• Tk = inf{n > 0|Xn= k}, ou seja, ´e o tempo at´e ocorrer a primeira visita ao s´ıtio k
(ou primeiro retorno, no caso em que k ´e a origem do processo). • Dx n = #{m<n|Xm=x} X i=1 (2ω(x, i) − 1) = m´ın{M,#{m<n|Xm=x}} X i=1 (2p − 1),
denota o total de drift obtido pela part´ıcula em visitas ao s´ıtio x at´e o instante n. Observe que n˜ao ´e contado um poss´ıvel consumo de cookie no tempo n.
• D+ n = X x≥0 Dxn Dn−=X x<0 Dxn,
denotam respectivamente o total de drift obtido pela part´ıcula nos s´ıtios n˜ao nega-tivos e nos s´ıtios neganega-tivos, at´e o instante n.
• Dn = Dn++ D −
n, denota o drift total obtido pela part´ıcula at´e o instante n.
• Rk = {Xn = k i.v.} = lim sup n→∞
{Xn= k}, ou seja, representa o evento em que
o s´ıtio k ´e visitado uma infinidade de vezes. Se P0,M,p[Rx] = 1, diremos que x ´e
(M, p)-recorrente e se P0,M,p[Rx] = 0, diremos que x ´e (M, p)-transiente.
• Defina Tk,0 = −1 e Tk,m = inf{n > Tk,m−1|Xn ≥ k}, ∀m ≥ 1. Essas vari´aveis
representam os tempos em que a part´ıcula est´a transitando na regi˜ao `a direita do s´ıtio k.
Observa¸c˜ao: Para simplificar a nota¸c˜ao, vamos passar a escrever Pk = Pk,M,p e Ek =
Ek,M,p, al´em de chamar (M, p)-recorrente apenas de recorrente e (M, p)-transiente
ape-nas de transiente; suprimindo assim os ´ındices M e p, que s˜ao constantes na defini¸c˜ao do processo. Tamb´em estaremos supondo a partir daqui que p > 12.
4.2
Crit´
erio para recorrˆ
encia e transiˆ
encia
Inicialmente ser´a apresentado e demonstrado um conjunto de lemas que ser˜ao ne-cess´arios ao longo da demonstra¸c˜ao do principal resultado desse cap´ıtulo, o Teorema4.1. Lema 4.1. O processo (Mn)n≥0 = Xn − Dn ´e um martingal com respeito a filtragem
(Fn)n≥0 gerada por (Xn)n≥0, ou seja, Fn := σ(X1, . . . , Xn).
Demonstra¸c˜ao. Para isso ´e preciso mostrar que, ∀n ∈ N, Mn ´e mensur´avel com respeito
a Fn, ´e integr´avel e E(Mn+1|Fn) = Mn.
Vamos come¸car verificando que Mn = Xn− Dn ´e σ(X1, . . . , Xn)-mensur´avel. Temos
que Xn ´e trivialmente mensur´avel com respeito a essa sigma-´algebra. Para o termo Dn,
note que conhecido o ambiente inicial e toda trajet´oria da part´ıcula (X1, . . . , Xn), temos
Dnum valor fixo conhecido. Ou seja, Mn´e uma fun¸c˜ao de (X1, . . . , Xn), que s˜ao vari´aveis
Quanto a integrabilidade, ela ´e imediata, pois |Mn| = |Xn− Dn| ≤ |Xn| + |Dn| ≤ 2n.
Por fim, vamos provar a igualdade da esperan¸ca condicional. Note que demonstrar a igualdade equivale a mostrar que E(Mn+1− Mn|Fn) = 0. Como as vari´aveis Xn+1− Xn
s´o podem assumir os valores −1 ou 1 e as vari´aveis dn = Dn+1− Dn s´o podem assumir
os valores 0 ou 2p − 1 (equivale respectivamente a ω(Xn, #{j ≤ n|Xj = Xn}) = 12 ou p),
temos que: E(Mn+1− Mn|Fn) = E[(Xn+1− Dn+1) − (Xn− Dn)|Fn] = = E[(Xn+1− Xn)|Fn] − E[(Dn+1− Dn)|Fn] = = 1 1 2P (dn = 0|Fn) + pP (dn= 2p − 1|Fn) − −1 1 2P (dn= 0|Fn) + (1 − p)P (dn = 2p − 1|Fn) − − (0P (dn = 0|Fn) + (2p − 1)P (dn= 2p − 1|Fn)) = = P (dn= 0|Fn) 1 2− 1 2 + P (dn = 2p − 1|Fn) (p − (1 − p) − (2p − 1)) = = P (dn= 2p − 1|Fn) (2p − 1 − 2p + 1) = 0.
Portanto, Mn´e de fato um martingal.
Lema 4.2. Considere um ambiente determin´ıstico, ent˜ao para todo x, k ∈ Z com k ≥ x, temos que Ex[DTk] = k − x. Ou seja, o drift total consumido pela part´ıcula para percorrer
uma distˆancia de tamanho k ´e em m´edia igual a k.
Demonstra¸c˜ao. Como inicialmente todos os s´ıtios possuem o mesmo n´umero de cookies; e de mesma intensidade, podemos sem perda de generalidade transladar a origem desse processo em x unidades para esquerda e provar que E0[DTk] = k, para qualquer k ≥ 0.
Pelo Lema4.1, temos que (Mn)n≥0 = Xn−Dn´e um martingal com respeito a filtragem
(Fn)n≥0 gerada por (Xn)n≥0. Com isso, aplicando o Teorema da parada opcional, que
pode ser visto na se¸c˜ao 5.7 de [4], para todo n ≥ 0, temos:
0 = E0[MTk∧n] = E0[XTk∧n] − E0[DTk∧n] =
= E0[XTk∧n, Tk ≤ n] + E0[XTk∧n, Tk > n] − E0[DTk∧n] ⇒
⇒ E0[DTk∧n] = kP0[Tk≤ n] + E0[XTk∧n, Tk > n].
Note que as vari´aveis DTk∧n s˜ao monotonicamente n˜ao decrescentes com rela¸c˜ao a n,
ou seja, DTk∧n≤ DTk∧(n+1) para todo n ∈ N , ent˜ao quando n → ∞, segue do Teorema de
Convergˆencia Mon´otona que o termo E0[DTk∧n] vai convergir para E0[DTk]. Al´em disso,
como os Tk’s s˜ao finitos q.c, temos que P0[Tk ≤ n] converge para 1, logo:
E0[DTk] = k + lim
n→∞E0[Xn, Tk > n]. (4.1)
Com isso resta mostrar apenas que lim
n→∞E0[Xn, Tk > n] = 0.
Para todo n ≥ 0, temos: min
m<Tk
{Xm} ≤ XnI{n<Tk} < k, (4.2)
ou seja, nessas condi¸c˜oes (Xn)n≥0´e dominado inferiormente pela vari´avel min m<Tk
{Xm} e
su-periormente por k. Logo, como lim
n→∞XnI{Tk>n} = 0, segue pelo Teorema da Convergˆencia
Dominada que a afirma¸c˜ao estar´a demonstrada se Yk = − min m<Tk
{Xm} possuir esperan¸ca
finita. Ent˜ao:
E0[Yk] ≤ E0 2DTk 2p − 1 + E0 Yk, Yk > 2DTk 2p − 1 = = 2 2p − 1E0[DTk] + X x≥1 xP0 Yk= x, x(2p − 1) 2 > DTk .
Note que o primeiro termo dessa soma ´e finito, pois combinando a equa¸c˜ao (4.1) com a restri¸c˜ao imposta pela inequa¸c˜ao (4.2), segue que E0[DTk] ≤ 2k.
Para o 2a termo, no evento dentro da probabilidade, observe que, se Yk = x, ent˜ao
T−x < Tk. Da´ı DTk ≥
0
X
j=−x
(2ω(j, 1) − 1) = x(2p − 1), que implica em: P0 Yk = x, DTk < x(2p − 1) 2 ≤ P0 Yk= x, x(2p − 1) < x(2p − 1) 2 = 0, e consequentemente o segundo termo se anula.
Logo, E0 − min m<Tk {Xm} < ∞ e portanto E0[DTk] = k.
Lema 4.3. Considere (M,p) tal que 0 seja transiente, ent˜ao: lim
k→∞
E0[DT+k]
k = 1. Demonstra¸c˜ao. Como E0[DT+k] = E0[DTk] − E0[D
− Tk], segue que: lim k→∞ E0[DT+k] k = limk→∞ E0[DTk] k − limk→∞ E0[D−Tk] k . Pelo Lema 4.2, temos que lim
k→∞
E0[DTk]
k = 1.
Agora, como 0 ´e transiente, temos que ap´os um determinado tempo t finito q.c, a part´ıcula salta do estado 0 para o 1 e nunca mais retorna ao 0. Com isso, ela nunca mais visita estados negativos. Ent˜ao:
lim k→∞ E0[D−Tk] k ≤ limk→∞ E0 −min n<Tk {Xn} M (2p − 1) k = 0, pois E0 −min n<Tk {Xn}
Lema 4.4. Seja x1, x2 ≤ k e ω1, ω2 ∈ Ω+ tal que ω1(x) = ω2(x) para todo x ≥ k. Ent˜ao
(XTk,m)m≥0 tem a mesma distribui¸c˜ao sob Px1,ω1 e Px2,ω2. Al´em disso, Px1,ω1(Rk) =
Px2,ω2(Rk). Ou seja, esse lema nos garante que as excurs˜oes `a direita do s´ıtio k n˜ao
depende do ambiente que fica `a esquerda dele.
Para verificar essa afirma¸c˜ao, basta acoplar os processos Xω1
Tk,m e X
ω2
Tk,m, que estar˜ao
evoluindo sempre juntos, uma vez que o ambiente encontrado na regi˜ao `a direita do s´ıtio k ´e igual para ambos os processos, independente de quantos cookies foram consumidos `a esquerda de k pela part´ıcula em cada um desses ambientes.
Lema 4.5. Seja x, y, k ∈ Z com x < y, ent˜ao Pk[Ry] ≥ Pk[Rx].
Demonstra¸c˜ao. Seja Tx,r(r ≥ 1) o tempo at´e a r-´esima visita ao estado x. Supondo Rx
ocorrendo, temos que todos os tempos Tx,r s˜ao finitos. Agora defina os seguintes eventos:
Ar= {Xn visita y entre Tx,r−1 e Tx,r},
Br= {Zn visita y entre Tx,r−1 e Tx,r},
onde Zn ´e o passeio aleat´orio simples e sim´etrico em Z (P.A.S.S.).
Temos que P (Ar i.v.) ≥ P (Br i.v.), pois a situa¸c˜ao mais desfavor´avel poss´ıvel para
ocorrˆencia de Ar acontece quando n˜ao h´a mais cookies entre x e y, fazendo com que
(Xn)n≥0 se comporte como um P.A.S.S na regi˜ao [x, y] (pode ser verificado formalmente
por acoplamento). Al´em disso, vale observar que o evento Rx tamb´em vai ocorrer no
processo Zn, pois o P.A.S.S ´e recorrente. Avaliando a probabilidade de ocorrˆencia de Br,
temos que:
P (Br) = P (Br|ZTx,r−1+1 = x − 1)P (ZTx,r−1+1 = x − 1) +
+ P (Br|ZTx,r−1+1 = x + 1)P (ZTx,r−1+1 = x + 1).
Se a part´ıcula saltar do estado x para x − 1 (o que ocorre com probabilidade 12), j´a se torna imposs´ıvel que (Xn)n≥0 alcance o estado y antes de retornar ao x. Logo, o primeiro
termo da soma acima tem valor zero. J´a o segundo termo ´e igual a (x+1)−xy−x ×1 2 =
1 2(y−x)
4.5.1). Portanto:
P (Br) = 2(y−x)1 , que independe do ´ındice r.
Al´em disso, como decorre da propriedade de Markov que os eventos Br s˜ao
indepen-dentes, temos pelo 2o Lema de Borel Cantelli que P (Br i.v.) = 1, observe: ∞ X r=1 P (Br) = ∞ X r=1 1 2(y − x) = ∞.
A partir disso, temos que P (Ar i.v.) = 1 tamb´em. Agora, como o evento Aracontecer
infinitas vezes implica na ocorrˆencia de Ry, segue que Rx ⊆ Ry e portanto Pk[Ry] ≥
Pk[Rx].
Lema 4.6. No PAE temos que todo estado x ≥ 0 ser´a recorrente q.c ou todo x ≥ 0 ser´a transiente q.c. Quando todo x ≥ 0 for recorrente q.c, (Xn)n≥0 ser´a dito recorrente e no
outro caso (Xn)n≥0 ser´a dito transiente.
Demonstra¸c˜ao. Seja x, y, k ∈ Z, com y > x. Se Pk(Ry) = 0, segue direto do Lema 4.5
que Pk(Rx) = 0 tamb´em. Se Ry ocorre, temos que Xn = y uma infinidade de vezes e a
cada uma dessas visitas ele tem probabilidade 12 ou 1 − p de saltar para y − 1, ent˜ao:
∞ X n=1 Pk[(Xn, Xn+1) = (y, y − 1)|Ry] ≥ ∞ X n=1 (1 − p) = ∞.
Al´em disso, como a escolha da part´ıcula de saltar para y − 1 a cada visita a y ocorre de forma independente das escolhas anteriores, segue do 2a Lema de Borel Cantelli que
Pk[(Xn, Xn+1) = (y, y − 1) i.v.|Ry] = 1, ou seja, Ry ⊆ Ry−1. Realizando esse argumento
de forma recursiva, temos que Ry ⊆ Rx. Por fim, como pelo Lema 4.5 vale a rela¸c˜ao
Ry ⊇ Rx tamb´em, conclui-se que Pk[Ry] = Pk[Rx].
Da´ı, se tivermos Pk[Ry] = 0 para algum y ∈ Z, segue que Pk[Rz] = 0 para todo z ∈ Z
Agora considere que Pk[Ry] > 0 para algum y ∈ Z. Temos que mostrar que, para qualquer k ∈ Z, Pk[Ry] = 1. Como Ry ∈ σ [ z≥0 FTz !
e F = (FTz)z≥0 ´e uma filtra¸c˜ao,
temos que Px(Ry|FTz) = Ex[IRy|FTz]z≥0 ´e um F -martingal. Com isso, pelo estudo de
convergˆencia para martingais, mais especificamente dos Teoremas 2.6.4 e 2.6.6 de [8], segue quase certamente que:
I{Ry} = lim
z→∞Px[Ry|FTz] = limz→∞Px[Rz|FTz].
Seja ˜ω(xt) o ambiente alterado por uma part´ıcula que percorreu uma determinada
trajet´oria xt, at´e o tempo t. Note que, condicionado a FTz, sabemos exatamente como
est´a o ambiente, pois para a regi˜ao `a esquerda de z, conhecemos a trajet´oria da part´ıcula e consequentemente quantos cookies restaram em cada s´ıtio; e para regi˜ao `a direita de z, o ambiente n˜ao foi alterado. Dessa forma, segue pela propriedade forte de Markov e pelo Lema 4.4, que para qualquer k ∈ Z:
lim
z→∞Px[Rz|FTz] = limz→∞Pz,˜ω(xTz)[Rz] = limz→∞Pk[Rz] = limz→∞Pk[Ry] = Pk[Ry].
Logo, Pk[Ry] = I{Ry}, implicando em Pk[Ry] = 1, pois foi assumido que Pk[Ry] > 0; e
com isso, temos que (Xn)n≥0 ´e recorrente.
Lema 4.7. Temos que (Xn)n≥0 ser´a recorrente em um ambiente com M = 1, qualquer
que seja p ∈ (0, 1).
Demonstra¸c˜ao. Seja k > 0 o primeiro s´ıtio `a direita da origem em que a part´ıcula escolha saltar para esquerda (k − 1), o que ocorre com probabilidade 1 − p > 0. Como M = 1, a part´ıcula necessariamente ter´a esgotado todos os cookies em [0, k] quando chegar em k. Dessa forma, a probabilidade da part´ıcula estando no s´ıtio k − 1 retornar ao 0 antes de k ´e dado por 1k, pela ru´ına do jogador. Agora defina o evento:
Ak= {(Xn)n≥0 ao chegar em k, salta para k − 1 e depois visita 0 antes de k}
Note que os eventos Aks˜ao independentes, pois a escolha de salto ao chegar no s´ıtio k
a [0, k] ´e markoviano, pois se comporta como um passeio aleat´orio simples sim´etrico. Temos ent˜ao pelo 2o Lema de Borel Cantelli que P (X
n = 0 i.v.) = 1, pois: ∞ X n=1 P (Xn = 0) ≥ ∞ X k=1 P (Ak) = ∞ X k=1 1 k(1 − p) = ∞.
Logo, com M = 1 temos que (Xn)n≥0sempre retorna a origem q.c e portanto o estado
0 ´e recorrente. Pelo Lema4.6, segue que (Xn)n≥0 ´e recorrente.
Lema 4.8. Como ωM,p ´e um ambiente erg´odico, ent˜ao:
ξ = (ξk)k≥0 = ω(x + k)x≥0, (XTk,m− k)m≥0
k≥0
´
e estacion´ario e erg´odico. Al´em disso, para qualquer fun¸c˜ao g, temos que a sequˆencia (g(ξk))k≥0 tamb´em ´e estacion´aria e erg´odica.
Demonstra¸c˜ao. A estacionariedade ´e elementar, uma vez que todos os s´ıtios possuem n´umero igual de cookies e que fornecem a mesma probabilidade p da part´ıcula saltar para a direita, ent˜ao o processo ´e invariante por transla¸c˜oes no espa¸co.
Seja β um subconjunto do contradom´ınio de ξ, mensur´avel e invariante por transla¸c˜ao. Ent˜ao para provar ergodicidade ´e preciso mostrar que P0[(ξk)k≥N ∈ β] ∈ {0, 1}.
Lem-brando que TN representa o tempo de primeira visita ao estado N , observe que esses
tempos s˜ao todos finitos quase certamente e com isso, note que:
P0[(ξk)k≥N ∈ β|FTN] = PN[(ξk)k≥0 ∈ β] = P0[(ξk)k≥N ∈ β], (4.3)
pois decorre do Lema 4.4 que tanto o ambiente quanto o processo Xn, `a direita de N ,
independem da trajet´oria feita pela part´ıcula at´e atingir N pela primeira vez, justificando a primeira igualdade. J´a a segunda decorre da estacionariedade de ξk.
Como P0[(ξk)k≥N ∈ β] independe de N pela estacionariedade de ξk e invariˆancia de β
por transla¸c˜ao, segue que essa probabilidade ser´a quase certamente igual a uma constante c, implicando em P0[(ξk)k≥N ∈ β|FTN] = c tamb´em, pela equa¸c˜ao (4.3).
Agora, conhecido o ambiente inicial ω, temos {(ξk)k≥N ∈ β} ∈ σ
S
˜
NFTN˜, ent˜ao
se-gue do Teorema de Convergˆencia para Martingais, que P0[(ξk)k≥N ∈ β|FTN˜] → I{(ξk)k≥N∈ β}
quase certamente, quando N → ∞. Logo, temos que c = 0 ou c = 1 q.c, implicando em P0[(ξk)k≥N ∈ β] ∈ {0, 1}.
Lema 4.9. Para qualquer M ≥ 1 e p ∈ (12, 1), temos E0[D∞x ] ≤ 1 para todo x ≥ 0.
Demonstra¸c˜ao. Seja x ≥ 0 e 0 ≤ h < k, ent˜ao temos q.c que: DTk ≥ D + Tk = k−1 X x=0 DTx k ≥ k−1−h X x=0 DTx k ≥ k−1−h X x=0 DxT x+h,
pois Tx+h < Tk para 0 ≤ x < k − h. Ent˜ao, pelo Lema 4.2, temos que:
k = E0[DTk] ≥
k−1−h
X
x=0
E0[DTxx+h].
Note que a sequˆencia (Dx
Tx+h)x≥0 ´e estacion´aria, que decorre da aplica¸c˜ao do Lema
4.8 na fun¸c˜ao abaixo, para todo h ≥ 0: g((ω(x))x≥0, (xm)m≥0) =
#{m<Th|xm=0}
X
i=1
(2ω(0, i) − 1). Com isso, temos que:
k−1−h X j=0 E0[DTjj+h] = (k − h)E0[D x Tx+h] ⇒ E0[D x Tx+h] ≤ k k − h para todo k > h ≥ 0. Como a sequˆencia de vari´aveis aleat´orias (DTx
x+h)h≥0´e monotonicamente n˜ao decrescente
com respeito a h e Dx
∞= lim h→∞D
x
Tx+h, segue do Teorema de Convergˆencia Mon´otona que:
E0[D∞x ] = lim h→∞E0[D
x
Teorema 4.1. Para M ≥ 1 e p ∈ 12, 1, temos que:
E0[Dx∞] = min{1, M (2p − 1)} para todo x ≥ 0. (4.4)
Em particular,
(Xn)n≥0 ´e recorrente se, e somente se, M (2p − 1) ≤ 1. (4.5)
Vale observar que ´e feita a restri¸c˜ao de p < 1 porque se p assumir valor 1, temos cla-ramente que o processo (Xn)n≥0 ser´a transiente, mesmo com M = 1 e consequentemente
M (2p − 1) = 1, pois a part´ıcula ir´a saltar sempre para a direita de modo determin´ıstico. Utilizando esse teorema, podemos classificar instantaneamente um passeio aleat´orio excitado em ambiente determin´ıstico entre recorrente ou transiente, como por exemplo:
Se M = 3 e p = 0.6, temos M (2p − 1) = 0.6 ≤ 1, logo (Xn)n≥0 seria recorrente.
Se M = 4 e p = 0.7, temos M (2p − 1) = 1.6 > 1, logo (Xn)n≥0 seria transiente.
Antes da prova formal, a intui¸c˜ao por tr´as desse resultado ´e a seguinte: Considerando o passeio aleat´orio simples assim´etrico com probabilidade p > 12 da part´ıcula saltar para a direita, temos um processo transiente em que o n´umero m´edio de visitas a um estado x > 0 ´e dado por 1
2p−1, conforme visto no Resultado 2.5. Logo, se tomarmos
um ambiente ω determin´ıstico com M > 2p−11 , temos que a part´ıcula em m´edia n˜ao vai esgotar os cookies de cada s´ıtio, se comportando de modo similar a um passeio aleat´orio simples assim´etrico com p > 12, que ´e transiente. Analogamente, se M ≤ 2p−11 , em m´edia a part´ıcula esgota os cookies de cada s´ıtio, passando a se comportar como um passeio aleat´orio simples sim´etrico, que ´e recorrente.
Demonstra¸c˜ao. Aplicando o Lema 4.8 em: g((ω(x)x≥0, (Xm)m≥0) = min{M,#{m|Xm=0}} X i=1 (2p − 1), temos que (Dk
∞)k≥0 ´e estacion´ario, logo, podemos assumir x = 0 para demonstrar a
afirma¸c˜ao (4.4).
Pelo Lema 4.6, temos que (Xn)n≥0 ´e recorrente ou transiente, ent˜ao vamos come¸car
s´ıtio 0 q.c, resultando em E0[D∞0 ] = D0∞ = M (2p − 1). Logo, pelo Lema 4.9 segue que
M (2p − 1) ≤ 1.
Agora suponha (Xn)n≥0 transiente. Ent˜ao, pela estacionariedade de (Dk∞)k≥0, temos:
E0[D∞0 ] = 1 k k−1 X j=1 E0[D∞j ] ≥ E0[D+Tk] k .
Pelo Lema4.3temos que E0[D∞0 ] ≥ 1, enquanto que o Lema4.9garante que E0[D∞0 ] ≤ 1.
Logo, conclui-se que E0[D∞0 ] = 1, encerrando a demonstra¸c˜ao da afirma¸c˜ao (4.4).
Agora vamos mostrar a afirma¸c˜ao (4.5).
Para (Xn)n≥0 recorrente j´a foi verificado acima que temos M (2p − 1) ≤ 1. Resta
ent˜ao provar a parte de (Xn)n≥0 transiente.
Considerando (Xn)n≥0 transiente, temos pelo Lema 4.7 que M ≥ 2, ent˜ao nem todo
drift obtido por visitas ao s´ıtio 0 estar´a contido em um ´unico cookie.
Agora note que P0[Xn > 0, para todo n a partir de algum N ] > 0, pois (Xn)n≥0 ´e
transiente. Por´em, para isso ocorrer, ´e preciso que ap´os a part´ıcula deixar o s´ıtio 0 pela primeira vez, essa probabilidade j´a seja positiva, uma vez que a cada retorno ao estado 0 a part´ıcula encontrar´a um ambiente `a direita dela com n´umero de cookies menor ou igual ao que tinha quando ela visitou 0 anteriormente e consequentemente ter´a uma probabilidade maior ou igual de retornar ao 0. Com isso, temos a afirma¸c˜ao v´alida j´a para N = 1, ou seja, P0[Xn> 0; ∀n] > 0 e portanto, segue que:
0 < P0[Xn> 0; ∀n] = P0[D0∞= 2p − 1] ≤ P0[D0∞< M (2p − 1)].
Como D0
∞ ≤ M (2p − 1), segue que E0[D0∞] < M (2p − 1). Al´em disso, E0[D0∞] = 1,
Cap´ıtulo 5
Balisticidade
Nesse cap´ıtulo ser˜ao apresentados e demonstrados dois teoremas associados a veloci-dade de um passeio aleat´orio excitado. O primeiro deles, conhecido como Lei dos Grandes N´umeros para passeios aleat´orios excitados, garante a existˆencia da velocidade para qual-quer ambiente determin´ıstico e j´a foi apresentado em [19] para o caso geral de ambiente aleat´orio erg´odico. J´a o segundo, fornece um crit´erio geral que permite identificar se um passeio aleat´orio excitado, em ambiente determin´ıstico, possui velocidade nula ou posi-tiva e j´a foi apresentado em [9] para o caso geral de ambiente aleat´orio erg´odico. Ent˜ao, esse cap´ıtulo visa simplificar as demonstra¸c˜oes desses teoremas, fazendo uso da restri¸c˜ao para ambiente determin´ıstico, com M cookies por s´ıtio e todos eles fornecendo mesma probabilidade p da part´ıcula saltar para a direita.
Observa¸c˜ao: Como estamos considerando os cookies fornecendo probabilidade p > 0.5 da part´ıcula saltar de x para x + 1, falaremos nesse cap´ıtulo sempre em velocidade nula ou positiva, mas o caso de velocidade negativa ´e an´alogo, sendo poss´ıvel de ocorrer quando p < 0.5.
Para a demonstra¸c˜ao do segundo teorema desse cap´ıtulo, ´e preciso utilizar uma rela¸c˜ao entre passeios aleat´orios excitados e processos de ramifica¸c˜ao com migra¸c˜ao, ent˜ao foi in-troduzida a Se¸c˜ao 5.2 para explicar um pouco sobre esses processos e como funciona essa rela¸c˜ao entre eles.
5.1
Lei dos Grandes N´
umeros para Passeios Aleat´
orios
Excitados
Nessa se¸c˜ao ser´a apresentado o Teorema5.1, que trata da existˆencia do limite de Xn
n ,
denominado velocidade do passeio. Para a demonstra¸c˜ao desse teorema, ser´a necess´ario a utiliza¸c˜ao do Lema 5.1, que ser´a apresentado e provado a seguir.
Lema 5.1. Temos que lim
n→∞ Xn n = v q.c. se e somente se limk→∞ Tk k = 1 v q.c. Demonstra¸c˜ao. Note que XTk = k, ent˜ao podemos reescrever
Tk
k como sendo Tk
XTk (lembre
que Tk ´e finito q.c.).
Vamos come¸car mostrando que lim
n→∞ Xn n = v ⇒ limk→∞ XTk Tk = v. Para isso, basta notar que XTTk
k ´e uma subsequˆencia (aleat´oria) de
Xn
n (composta dos
termos de Xn que s˜ao primeira visita a algum estado). Como lim n→∞
Xn
n = v por hip´otese, segue que toda subsequˆencia de Xn
n convergir´a para esse mesmo valor v.
Agora vamos provar a implica¸c˜ao no outro sentido. Para n fixo, existe k = k(n) tal que Tk ≤ n ≤ Tk+1. Al´em disso, para n → ∞, temos k → ∞ e consequentemente
Tk → ∞. Com isso, nosso objetivo vai ser provar que:
lim n→∞ XTk Tk = v ⇒ lim n→∞ Xn n − v = 0.
Primeiramente, vamos provar para o caso em que v = 0. Nessa situa¸c˜ao temos de mostrar que lim
n→∞ Xn n = 0.
Pelo Lema 4.6 temos que Xn ser´a recorrente ou transiente. No caso de recorrˆencia,
a verifica¸c˜ao ´e imediata, pois ocorrendo lim
n→∞ Xn n 6= 0, ter´ıamos lim n→∞|Xn| = ∞, que
contraria a hip´otese de recorrˆencia. No caso de Xn transiente, temos:
lim n→∞ Xn n ≤ lim n→∞ max j≤n(Xj) + min j≤n(Xj) n ≤ limn→∞ (k + 1) + min j≤n(Xj) Tk ≤ ≤ lim n→∞ k + 1 Tk + lim n→∞ min j (Xj) Tk .
Temos que esse dois limites s˜ao ambos iguais a zero, o primeiro pela hip´otese do lema quando v = 0 e o segundo pela hip´otese de transiˆencia. Logo, o lema est´a provado para o caso v = 0.
Agora vamos provar para o caso em que v > 0. lim n→∞ Xn n − v = lim n→∞ Xn n + XTk Tk −XTk Tk − v ≤ lim n→∞ Xn n − XTk Tk + lim n→∞ XTk Tk − v . Note que o ´ultimo termo da express˜ao anterior ´e igual a zero pela hip´otese do lema, restando ent˜ao mostrar que o pen´ultimo termo tamb´em vale zero. Para isso, vamos somar e subtrair o termo XTk
n dentro do m´odulo. Dessa forma, temos que:
lim n→∞ Xn n − XTk Tk +XTk − XTk n ≤ lim n→∞ Xn− XTk n + lim n→∞ XTk n − XTk Tk .
Para o primeiro termo do lado direito da desigualdade, vamos utilizar o fato que |Xn− XTk| ≤ |Tk+1− Tk|, pois a cada instante de tempo a part´ıcula se movimenta apenas
uma unidade; e com isso, o m´aximo que a part´ıcula consegue se afastar de k at´e o instante n ∈ [Tk, Tk+1) est´a limitado pelo tempo gasto at´e o s´ıtio k + 1 ser visitado, ap´os k ter sido
alcan¸cado. Para o segundo, vamos utilizar que k = XTk ≤ Tk, pois a part´ıcula requer um
tempo de pelo menos k para atingir o s´ıtio k pela primeira vez. Com isso: lim n→∞ Xn− XTk n + lim n→∞ XTk n − XTk Tk ≤ lim n→∞ Tk+1− Tk n + lim n→∞ XTk Tk (Tk− n) n ≤ ≤ lim n→∞ Tk− Tk+1 n + lim n→∞ (Tk− Tk+1) n = lim n→∞ 2 |Tk− Tk+1| n ≤ limn→∞ 2 |Tk− Tk+1| k .
Assim, precisamos agora mostrar que esse ´ultimo limite ´e igual a zero. Para isso vamos fazer uso da seguinte igualdade:
Tk k − Tk+1 k + 1 = (k + 1)Tk− kTk+1 k(k + 1) = (k + 1)(Tk− Tk+1) k(k + 1) − Tk+1 k(k + 1) = = Tk− Tk+1 k − Tk+1 k(k + 1). Devido a essa igualdade, podemos escrever:
lim n→∞ |Tk− Tk+1| k ≤ limn→∞ Tk k − Tk+1 k + 1 + lim n→∞ Tk+1 k(k + 1) .
Note que primeiro limite do lado direito da desigualdade ´e igual a zero pela hip´otese do lema. Al´em disso, o segundo limite tamb´em ´e igual a zero, pois Tk+1
k+1 →
1
v < ∞ por
hip´otese, j´a que estamos no caso v > 0 enquanto que 1k → 0. Com isso, est´a provada a implica¸c˜ao do lema tamb´em para v > 0.
Teorema 5.1. Seja ω(x) um ambiente determin´ıstico, ent˜ao temos q.c. que: lim n→∞ Xn n = v, onde 1 v = X j≥1 P0[Tj+1− Tj ≥ j]
Demonstra¸c˜ao. Pelo Lema5.1, podemos provar o teorema mostrando que Tk
k →
1
v quando
k → ∞. Para isso, note que Tk pode ser escrito como:
Tk= k
X
j=1
(Tj − Tj−1).
Vamos mostrar que tanto o limite inferior quanto o superior, quando k → ∞, da sequˆencia 1 k k X j=1 (Tj − Tj−1) s˜ao iguais a X j≥1 P0[Tj+1− Tj ≥ j].
Come¸cando pelo limite inferior, temos: lim inf k→∞ 1 k k X j=1 (Tj− Tj−1) ≥ sup t≥0 lim inf k→∞ 1 k k X j=t+1 ((Tj− Tj−1) ∧ t).
Aplicando o Lema 4.8, para todo t ≥ 0, na fun¸c˜ao:
g((ω(x))x≥0, (xn)n≥0) = ((Tt+1− Tt)((xn)n≥0) ∧ t),
temos que a sequˆencia ((Ti+1−Ti)∧t)i≥t´e estacion´aria e erg´odica para todo t ≥ 0. Repare
que limitando os valores de Ti+1− Ti por t, garantimos que a part´ıcula s´o transitar´a pela
regi˜ao [i − t, i] (apenas s´ıtios que ela j´a visitou antes) entre os tempos Ti e Ti+1, o que
nos permitiu aplicar o Lema 4.8. Com isso, utilizando o Teorema Erg´odico, que pode ser visto na Se¸c˜ao 7.2 de [4], temos:
sup t≥0 lim inf k→∞ 1 k k X j=t+1 ((Tj−Tj−1)∧t) = sup t≥0 E0[(Tt+1−Tt)∧t] = sup t≥0 t X j=1 P0[(Tt+1−Tt)∧t ≥ j].
Pela estacionariedade de ((Ti+1− Ti) ∧ t)i≥t, para todo t ≥ 0, segue que:
sup t≥0 t X j=1 P0[(Tt+1− Tt) ∧ t ≥ j] = sup t≥0 t X j=1 P0[(Tt+1− Tt) ∧ j ≥ j] = = sup t≥0 t X j=1 P0[(Tj+1− Tj) ∧ j ≥ j] = sup t≥0 t X j=1 P0[(Tj+1− Tj) ≥ j] = X j≥1 P0[Tj+1− Tj ≥ j].
Agora, para o limite superior, temos que: lim inf k→∞ 1 k k X j=1 (Tj − Tj−1) ≤ lim sup k→∞ 1 k k X j=1 (Tj− Tj−1) = = lim sup k→∞ k X j=1 X h≥1 I{Tj−Tj−1≥h}≤ X h≥1 lim sup k→∞ k X j=1 I{Tj−Tj−1≥h}.
Aplicando o Lema 4.8, na fun¸c˜ao:
g((ω(x))x≥0, (xn)n≥0) = I{(Tj+1−Tj)((xn)n≥0)≥j},
temos que a sequˆencia (I{Ti+1−Ti≥j})i≥j ´e estacion´aria e erg´odica para j ≥ 1. Com isso,