UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA HELOISA GUEDES
TRIBUNAL DO JÚRI
:
A (DES)IGUALDADE CÊNICA DAS PARTES NO PLENÁRIO DE JULGAMENTO
Florianópolis 2014
TRIBUNAL DO JÚRI
:
A (DES)IGUALDADE CÊNICA DAS PARTES NO PLENÁRIO DE JULGAMENTO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel.
Orientador Prof. Alexandre Botelho, Msc.
Florianópolis 2014
Aos meus pais, Milton (in memoriam) e Arina, pelo amor absoluto. Aos meus irmãos, Henrique e Junior, pela amizade e companheirismo. Aos meus amados filhos, que nos momentos de minha ausência dedicados ao estudo, sempre fizeram entender que o futuro é feito a partir da constante dedicação no presente. E, em especial, ao Antonio Giovani, pelo incentivo e apoio incondicional, e ainda, por ter disponibilizado parte do material que contribuiu na concretização deste trabalho.
A todos os mestres que fizeram parte diretamente desta minha trajetória acadêmica, especialmente, ao professor Alexandre Botelho pela dedicada orientação e estímulo que tornaram possível a conclusão desta monografia.
Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico e referencial conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Sul de Santa Catarina, a Coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de todo e qualquer reflexo acerca deste Trabalho de Conclusão de Curso.
Estou ciente de que poderei responder administrativa, civil e criminalmente em caso de plágio comprovado do trabalho monográfico.
Florianópolis, 10 de julho de 2014.
____________________________ Heloisa Guedes
O presente trabalho monográfico versa sobre o cenário de julgamento do Tribunal do Júri. O objetivo geral deste trabalho consubstancia-se em controverter sobre a adequação constitucional da disposição das partes no plenário de julgamento. Para tanto, adotou-se no presente trabalho, o método de abordagem dedutivo e bibliográfico no que tange a pesquisa. Denota-se que o cenário da sessão de julgamento do Tribunal do Júri continua utilizando o mesmo modelo autoritário, inquisitorial e inconstitucional, com a distribuição “geopolítica” dos espaços, em desacordo com os comandos principiológicos da CRFB. Para que o Tribunal do Júri não se torne uma instituição ultrapassada e incompatível com o Estado Democrático de Direito é necessária a rediscussão e readequação do cenário de julgamento, possibilitando ao acusado a real garantia a um julgamento imparcial. Portanto, é preciso compatibilizar não só a forma processual, mas também sua disposição geográfica, a fim de alcançar a igualdade material.
RESUMO ... 5
1 INTRODUÇÃO ... 8
2 HISTÓRICO DO TRIBUNAL DO JÚRI ... 10
2.1 A ORIGEM E A CONTEXTUALIZAÇAO HISTÓRICA DO TRIBUNAL DO JÚRI .... 10
2.2 O TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL ... 19
3 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS INERENTES AO TRIBUNAL DO JÚRI ... 28
3.1 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS FUNDAMENTAIS AO TRIBUNAL DO JÚRI ... 29
3.1.1 Devido processo legal ... 300
3.1.2 Contraditório ... 31 3.1.3 Ampla defesa ... 34 3.1.4 Presunção de inocência ... 35 3.1.5 Favor rei ... 36 3.1.6 Igualdade ... 37 3.1.7 Igualdade de armas ... 39 3.1.8 Legalidade ... 400 3.1.9 Proporcionalidade ... 411 3.1.10 Imparcialidade do juiz ... 42 3.2 PRINCÍPIOS INSTITUCIONAIS ... 43 3.2.1 Plenitude da defesa ... 43
3.2.2 Sigilo das votações ... 44
3.2.3 Soberania dos veredictos ... 4545
3.2.4 Competência para os crimes dolosos contra a vida ... 46
4 ATORES DO TRIBUNAL DO JÚRI ... 49
4.1 JUIZ-PRESIDENTE ... 50 4.2 JURADOS ... 511 4.3 MINISTÉRIO PÚBLICO ... 544 4.4 ASSISTENTE DE ACUSAÇÃO ... 566 4.5 DEFENSOR ... 599 4.6 ACUSADO ... 622
5 A DESIGUALDADE CÊNICA DAS PARTES ... 65
5.1 A SIMBOLOGIA DOS LUGARES ... 65
5.2 ANÁLISE JURISPRUDENCIAL ... 70
6 CONCLUSÃO ... 78
REFERÊNCIAS ... 80
ANEXOS...84
ANEXO A - Plenário de julgamento dos EUA...85
ANEXO B - Plenário do Tribunal do Júri da Comarca da Capital/SC...86
ANEXO F - Plenário do Tribunal do Júri da Comarca de Santo Amaro da Imperatriz/SC...90 ANEXO G - Plenário do Tribunal do Júri da Comarca de Santo Amaro da Imperatriz/SC...91 ANEXO H - Plenário do Tribunal do Júri da Comarca de Santo Amaro da Imperatriz/SC...92 ANEXO I - Plenário do Tribunal do Júri da Comarca de São Lourenço da Mata/PE...93
A presente pesquisa tem por objetivo controverter a adequação constitucional da disposição das partes no plenário de julgamento do Tribunal do Júri.
A importância do estudo deste tema reside no fato do Tribunal do Júri ser uma das instituições mais antigas criadas pelo homem, tendo como objetivo o julgamento pelos seus pares. Assim, sempre foi alvo de discussões, não só por tratar-se de um tema de grande relevância para a sociedade, mas também pela necessidade de adequação com o tempo e espaço.
Atualmente o debate centraliza-se na sua compatibilidade com o Estado Democrático de Direito. Pois, com o advento da CRFB, foram inseridos vários princípios constitucionais que deverão ser observados no rito do Júri.
Dessa forma, buscando conformação constitucional, o Código de Processo Penal sofreu alterações insculpidas pela Lei n. 11.689/2008. Porém, esta reforma processual não tratou da readequação do cenário do Tribunal do Júri.
Para que o Tribunal do Júri não se torne uma instituição ultrapassada e incompatível com o Estado Democrático de Direito é necessária a rediscussão do cenário de julgamento, a fim de garantir ao acusado um julgamento imparcial.
Ressalte-se que, além de ser requisito imprescindível à conclusão do curso de Direito na Universidade do Sul de Santa Catarina, o presente relatório monográfico também vem colaborar para o conhecimento de um tema que, apesar de não poder ser tratado como novidade no campo jurídico, na dimensão social-prática ainda pode ser tratado como elemento novo e repleto de nuances a serem destacadas pelos intérpretes jurídicos.
O presente tema, na atualidade, encontra-se em discussão nos tribunais brasileiros, contudo, o posicionamento firmado pelo STF em situação semelhante, que levou à readequação do cenário das salas de julgamento da Justiça Militar, evidencia que o Tribunal do Júri também caminha para uma conformação do seu cenário de julgamento com os ditames constitucionais, demonstrando a pertinência da questão em análise.
A escolha do assunto é fruto do interesse pessoal da pesquisadora, eis que já esteve na posição de jurada, bem como de assistente da Defesa, percebendo de forma particular a importância do posicionamento dos atores no Tribunal do Júri, assim como para instigar novas contribuições para estes direitos na compreensão dos fenômenos jurídicos-políticos, especialmente no âmbito de atuação do Direito Constitucional e Processual Penal.
Em vista do parâmetro delineado, constitui-se como objetivo geral deste trabalho analisar o atual cenário de julgamento do Tribunal do Júri, sob a óptica da CRFB.
Como objetivo específico, pretende-se demonstrar a origem e a evolução histórica do Tribunal do Júri, identificar os princípios constitucionais inerentes ao rito do Tribunal do Júri, distinguir o papel de cada ator do Tribunal do Júri e, ainda, verificar se a (des)igualdade cênica das partes é suscetível de influir no resultado do julgamento.
Para o desenvolvimento da presente pesquisa foi formulado o seguinte questionamento: o atual cenário da sessão de julgamento do Tribunal do Júri é adequado aos ditames constitucionais?
Já as hipóteses consideradas foram as seguintes: a) sim, pois a disposição das partes no plenário de julgamento não representa afronta aos primados constitucionais; e, b) não, o atual cenário de julgamento do Tribunal do Júri é inadequado, pois coloca a Acusação em posição superior à da Defesa, o que implica em ofensa ao devido processo legal, a igualdade, a paridade de armas, ao contraditório, a plenitude de defesa, entre outros.
O relatório final da pesquisa foi estruturado em quatro capítulos teóricos podendo-se, inclusive, delineá-los como quatro molduras distintas, mas conexas: a primeira, atinente ao histórico do Tribunal do Júri; a segunda, aos princípios constitucionais inerentes ao Tribunal do Júri; a terceira, sobre os atores do Tribunal do Júri; e, por derradeiro, a desigualdade cênica das partes.
Quanto à metodologia empregada, registra-se que na fase de investigação foi utilizado o método dedutivo, e o relatório dos resultados expresso na presente monografia é composto na base lógica dedutiva, já que se parte de uma formulação geral do problema, buscando-se posições científicas que os sustentem ou neguem para que, ao final, seja apontada a prevalência, ou não, das hipóteses elencadas.
O presente Relatório de Pesquisa se encerra com a Conclusão, na qual são apresentados pontos conclusivos destacados, seguidos da estimulação à continuidade dos estudos e das reflexões sobre o tema abordado.
Com este itinerário, espera-se alcançar o intuito que ensejou a preferência por este estudo sem, contudo, exaurir as dúvidas existentes sobre o assunto. Por certo não se estabelecerá um ponto final em referida discussão. Pretende-se, tão-somente, oportunizar uma reflexão em busca de um processo dialético e um julgamento mais imparcial.
2 HISTÓRICO DO TRIBUNAL DO JÚRI
O presente trabalho tem por objeto o atual cenário de julgamento do Tribunal do Júri, sob a perspectiva da CRFB.
Para tanto, vê-se a necessidade de apresentar ao leitor alguns aspectos históricos, realizando um breve retrospecto desde a origem do Júri, passando a sua contextualização histórica e, por fim, o seu surgimento no Brasil, para possibilitar uma melhor compreensão da Instituição nos moldes atuais, o que se fará neste capítulo.
O Tribunal do Júri é uma das instituições mais antigas criadas pelo homem, não se tendo por certa a sua origem. A divergência doutrinária acerca de sua origem ocorre em razão de diversos fatores, seja pela falta de registros seguros, seja pelo grau de semelhança com o modelo atual1.
Contudo, o estudo não se restringe somente a origem, mas também buscará demonstrar a sua contextualização histórica, de modo que será possível perceber as transformações que o Júri sofreu para acompanhar o deslocamento da sociedade.
De certo que a condução para uma sociedade democrática imprimiu no Júri características próprias, impondo obediência a princípios fundamentais de um Estado Democrático de Direto, como: devido processo legal, contraditório, ampla defesa, presunção de inocência, entre outros.
2.1 A ORIGEM E A CONTEXTUALIZAÇAO HISTÓRICA DO TRIBUNAL DO JÚRI A origem do Tribunal do Júri não é pacífica na doutrina. Como já mencionado, a falta de registro de informações acerca da Instituição causa insegurança entre autores reconhecidos, como Pontes de Miranda e Sampaio Dória, fazendo com que simplesmente silenciem quanto à sua procedência2. Aos que ousam apontar a origem do Júri, posicionam-se considerando, sobretudo, acerca de graus de similitude que guardam com o modelo presente.
Maximiliano clarifica essa perspectiva ao afirmar que: “as origens do instituto, vagas e indefinidas, perdem-se na noite dos tempos”3.
1 MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri. Revista Jurídica da Unisul/Universidade do Sul de Santa Catarina – v. 1, n. 1 (1995). Tubarão: Ed. Unisul,
1995. p. 146.
2 MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri. Revista Jurídica da Unisul/Universidade do Sul de Santa Catarina – v. 1, n. 1 (1995). Tubarão: Ed. Unisul,
1995. p. 146.
Da mesma forma, Mossin percebe que “é impossível afirmar com segurança imutável o lugar exato em que surgiu o júri, deve-se admitir como possível que tem ele origem no direito inglês, embora com certa influência do direito normando”4.
Em uma análise crítica mais diferenciada e sucinta, Rui Barbosa pontua que “há quem vislumbre, na ceia do Senhor, um conselho de jurados”5.
Nesse contexto, oportuno mencionar as lições de Barros, que ao conceituar o Júri ensina que “é a participação popular nos julgamentos criminais. [...] o júri consiste em um certo número de cidadãos escolhidos pela sorte e revestidos momentaneamente do poder de julgar”6.
Assim, há autores que defendem a origem do Tribunal do Júri nos tempos mosáicos, outros na Grécia, Roma, e Inglaterra. Sendo que os mais liberais creditam a sua origem ao período mosaico entre os judeus do Egito, instrumentada pelas Leis de Moisés, com o grande livro Pentateuco, ou ainda, desde o século IV a. C., na Grécia e Roma. Já os mais tradicionais apontam a Inglaterra como sendo o berço do Júri, com o Concílio de Latrão7.
No entanto, se analisado tão somente o caráter objetivo do Tribunal do Júri em submeter ao julgamento o homem pelo homem, remeterá ao entendimento de que a sua origem remonta a época em que o homem passou a viver em tribos, tese esta defendida por Whitaker: “O júri em sua simplicidade primitiva, remonta às primeiras épocas da humanidade. Qualquer que fosse a dúvida levantada nas tribos errantes, sem Leis positivas e autoridades permanentes, a decisão era proferida pelos pares dos contendores” 8.
Nesse sentido, acrescenta Acosta que:
O júri, como sistema de cometer a representantes do povo atribuição de proferir o veredicto numa contenda, existe desde as primeiras épocas da humanidade. Porém, como instituição com características definidas, nasceu na Inglaterra, feito à semelhança do primitivo júri Greco-romano9.
Aprofundando mais a temática, Rocha descreve que o fundamento e a origem do Tribunal do Júri encontram-se na velha legislação hebraica, e assevera que:
4 MOSSIN, Heráclito Antônio. Júri: crimes e processo. São Paulo: Atlas, 1999. p. 179.
5 BARBOSA, Rui. O Júri sob todos os aspectos. Rio de Janeiro: Editora Nacional de Direito, 1950. p. 50. 6 BARROS, Francisco Dirceu. Direito processual penal. Vol. II. Teoria, Jurisprudência e questões de concurso comentadas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. p. 768.
7 BISINOTTO, Edneia Freitas Gomes. Origem, história, principiologia e competência do Tribunal do Júri. Disponível em: <www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=3851>.
8 Apud MARQUES, Jader. Tribunal do júri: Considerações críticas à Lei 11.689/08 de acordo com as Leis 11.690/08 e 11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 20.
As leis de Moysés, ainda que subordinando o magistrado ao sacerdote, foram, na antiguidade oriental, as primeiras que interessaram os cidadãos nos julgamentos dos tribunais. Na velha legislação hebraica encontramos nós o fundamento e a origem da instituição do Júri, o seu princípio básico. Na tradição oral, como nas leis escritas do povo hebreu, se encontram o princípio fundamental da instituição, os seus característicos e a sua processualística10.
Para Vital de Almeida, considerando precipuamente a função de julgar o homem pelo homem, o Tribunal do Júri tem a sua origem em tempos que antecedem o século XI, quando as partes se submetiam ao conhecimento de Juízes de fato:
Porém, o embrião do Júri, considerada sua força e função de julgar o homem pelos homens, apresentando características (refiramos empíricas e axiológicas) aproximadas com a atualidade, e conforme as informações que, condizentes ao feito, as partes anunciavam e debatiam submissas ao conhecimento mediano dos juízes de fato, à sensibilidade e à expressão da coletividade (quando não manipulada de alguma forma), remonta de tempos muito aquém do século XI, enfatizado pela doutrina de Nádia de Araújo e Ricardo R. de Almeida, retroagindo solidamente ao mundo greco-ateniense, como ancoradouro de pensamento irrequietos e aprimoramento da investigação e realização de tudo quanto possível. Isso, sem omissão a explicativas investidas outras em épocas mais remotas até a vetusta legislação hebraica, com o trabalho de Moisés, como fundamento e origem do Júri, solidamente enfocado por Pinto da Rocha, citando os Livros do Êxodo, do Levítico, dos Números e do Deuteronômio, que aludem ao Tribunal Ordinário, ao Conselho dos Anciãos e ao Grande Conselho11.
Seguindo a legislação hebraica, o Conselho se reunia a sombra de árvores, com regras pré-determinadas, e era garantida a publicidade dos debates, o direito do acusado se defender, ainda que precário, bem como a exigência de no mínimo duas testemunhas para lastrear uma condenação. De se mencionar que já nos julgamentos hebraicos o réu não podia ser interrogado isoladamente. Outra característica marcante nos Conselhos era a hierarquia, havia o Tribunal Ordinário, o Conselho dos Anciãos e o Conselho d’Israel. O primeiro formado por três membros, sendo dois indicados pelas partes e o terceiro escolhido por estes. E já presente um sistema recursal, pelos Conselhos hierarquicamente superiores12.
Há ainda registros de Araújo que informam que ao Tribunal do Povo, nos primórdios do direito germânico, era reservada a atribuição de julgar transgressões legais na Assembleia, cabendo ao Juiz apenas a direção dos trabalhos. Neste era garantida a ampla defesa, mas ausente o direito de recorrer. E ao Tribunal Muçulmano do CADI era reservada a
10 Apud: GOMES, Abelardo da Silva. O Julgamento pelo júri – em face de sua origem, evolução histórica e da formação jurídico política da nação brasileira. Dissertação para concurso à cadeira de Direito Judiciário
Penal - Faculdade de Direito de Santa Catarina. Florianópolis, 1953, p. 82.
11 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 33-34.
12 BISINOTTO, Edneia Freitas Gomes. Origem, história, principiologia e competência do tribunal do júri. Disponível em: <www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=3851>.
capacidade para julgar os infratores da Lei, presente o direito de recorrer das decisões, necessidade de comparecimento das partes, excetuando-se mulheres e incapazes, e com forte carga religiosa, própria do mundo árabe até os dias atuais13.
De acordo com Tucci, qualquer agrupamento humano, com a deliberação de um certo número de membros reunidos, exige o mínimo de estruturação, logo o julgamento de um membro de uma comunidade por seus pares exige regras pré estabelecidas, razão pela qual entende que a origem do Tribunal do Júri está em Roma, quando criou-se órgão colegiado, com a quaestio, formado por cidadãos representantes do povo romano14.
Em uma apreciação mais profunda e exemplificativa, Machado pontua que em Roma, a partir da Lei das XII Tábuas, com o advento da República, restou consolidada a
provocatio ad populum, sendo assegurada aos cidadãos a possibilidade de recurso, quando se
tratasse de crime cominado em pena capital ou multa máxima. Tais recursos eram dirigidos à Assembleia do Povo, ao Senado e aos Magistrados, estes por delegação do Senado, conhecidos por quaestiones, que posteriormente passaram a ser chamadas de quaestiones
perpetuae. Nota-se uma evolução no processo penal romano que passou de inquisitivo, com
forte carga autoritária da cognitio extraordinem dos romanos, para posteriormente se consolidar o sistema acusatório, apenas com a chegada do Século das Luzes, conhecido por período humanitário, na modernidade15.
Aliás, nessa perspectiva, Marques referencia o trabalho de Rui Barbosa intitulado “O júri e a Independência da Magistratura”, no qual este defende as origens mais remotas da Instituição nos judices romanos, nos dicastas gregos e nos centeni comites dos primitivos germanos. Todavia, o autor destaca ser possível encontrar sua prefiguração mais distante junto aos teutões, aos eslavos, aos normandos ou aos dinamarqueses. E conclui, por fim, ter sido na Idade Média inglesa que a instituição se revestiu da imagem adotada pela era moderna16.
Corrobora o sobredito Tourinho Filho, firmando entendimento de que o Júri tem antecedentes bem remotos, nos judices jurati, dos romanos, nos dikastas gregos e nos centeni
comites, dos germanos. Sendo que nos judices jurati a votação se dava por meio de tábuas
contendo a letra “a” representando “absolvo”, e a letra “c” para “condeno”. Ainda entende
13 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 35-36.
14 TUCCI, Rogério Lauria. Tribunal do júri: estudo sobre a mais democrática instituição jurídica brasileira. São Paulo: RT, 1999. p. 13.
15 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 14-22. 16 MARQUES, Jader. Tribunal do júri: Considerações críticas à Lei 11.689/08 de acordo com as Leis 11.690/08 e 11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 19.
possuir raízes no Código do Alarico do ano 506, que previa: “Elíjanse mediante sorteo cinco
nobilísimos varones semejantes al acusado”17.
Sob outro enfoque, Vital de Almeida considera que na Grécia, com o Areópago e a Heliéia, tem-se o berço dos primeiros tempos do Júri que mais se aproximam dos atuais:
O Areópago e a Heliéia se prestam ao berço dos primeiros tempos do Júri, testemunhando semelhanças com o Tribunal do Povo moderno, que a história não quis apagar e o tempo não permitiu esquecer. Registrável, idem, as questiones
perpetuae, cronologicamente mais jovem do que a criação grega, mais instrumento
legal do manuseio romano, que, embora elitistas e tecnicamente mais tímidas, não escondem pontos de reiterada convergência18.
O Areópago servia para o julgamento de crimes sanguinários. Era composto por homens considerados sábios pela comunidade, de cargo vitalício, que julgavam segundo seu senso de Justiça. A Heliéia, por sua vez, era um tribunal popular, composto por centenas de julgadores leigos, que se reuniam em assembleia deliberativa direta, garantindo ao acusado o direito de defesa, valorando as provas de acordo com o que entendiam ser mais oportuno. Características fundantes, a oralidade e a soberania do veredicto. Serviu como conselho reformador de decisões proferidas pelo Areópago, pelos Onze e pelos Juízes dos Demos19.
Em outros termos, Machado esclarece que na Grécia a jurisdição era exercida por órgãos colegiados, sendo atribuído à Assembleia do Povo o julgamento de crimes graves; ao Areópago, os homicídios dolosos e crimes cuja pena fosse de morte; aos Efetas, os homicídios não premeditados; e aos Heliastas a jurisdição plena no âmbito criminal20.
Prossegue Machado pontuando que traços fundamentais do processo penal grego influenciaram de forma determinante a cultura jurídica ocidental, prevalecendo, portanto, o modelo acusatório regido pela publicidade, com acusações definidas, contraditório etc21.
Na Grécia, segundo Nucci, o Júri já se fazia presente desde o século IV a. C.. Sendo jurisdição comum, o Tribunal de Heliastas, composto por representantes do povo, que se reuniam em praça pública. E em Esparta, eram os Éforos que atuavam como juízes do povo, de forma similar ao Tribunal de Heliastas. Em Roma, o Júri atuou sob a forma de juízes
17 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 21.
18 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 34.
19 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 34.
20 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 13. 21 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 13.
em comissão, conhecidos por quoestiones. Quando se tornaram definitivos, passaram a chamar-se de quoestiones perpetuoe, por volta do ano de 155 a.C22.
No que tange as questiones perpetuae, Vital de Almeida conclui:
As questiones perpetuae, para uns (Nádia de Araújo e Ricardo Almeida, p.e.), estão mais díspares ideologicamente do que as criações atenienses em face da modernidade do Júri, institucional e politicamente mantendo maior distância. Criadas no século II d.C., eram a aristocracia julgando determinados crimes, em lugar do Senado Romano e dos chamados comícios populares, vestindo-se numa justiça antipatizada e repulsiva, composta exclusivamente por membros senadores a defenderem seus interesses em detrimento daquilo almejado pelo populacho. Embora tenham sido introduzidas modificações sugestivas a posteriori, as
questiones não se despiram do caráter anti-povo, costumeiramente controladas pela
elite senatorial23.
Tucci, por sua vez, diverge desse entendimento ao afirmar que foram as
questiones perpetuae o verdadeiro embrião do tribunal popular, conhecido atualmente como
Tribunal do Júri, onde o colegiado atuava segundo o sistema acusatório24.
Representando os defensores mais conceitualistas, Noronha ressalta que os tribunais de Grécia e Roma pouco tinham do júri. Dessa forma, entende que foi na Inglaterra que se originou o Tribunal do Júri. Carregada de origem mística e caráter religioso, o que se pode observar da própria origem da palavra “júri”, que vem de juramento, que é a invocação de Deus como testemunha25.
A reforçar o entendimento supra citado, Marques afirma ter sido na Inglaterra a origem do Tribunal do Júri, após o Concílio de Latrão:
Nascido na Inglaterra, depois que o Concílio de Latrão aboliu as Ordálias e os Juízos de Deus, ele guarda até hoje a sua origem mística, muito embora, ao ser criado, retratasse o espírito prático e clarividente dos anglo-saxões. Na terra da Common
Law, onde o mecanismo das instituições jurídicas, com seu funcionamento todo
peculiar, tanto difere dos sistemas dos demais países onde impera a tradição romanística, é o Júri um instituto secular e florescente, cuja prática tem produzido os melhores resultados 26.
No mesmo sentido, afirma Nucci que o Júri com as feições atuais tem origem na Magna Carta de 1215, na Inglaterra. Contudo, sabe-se que na Palestina já havia o Tribunal dos Vinte e Três nas vilas com população superior a 120 famílias, formado por padres, levitas
22 NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 41-42. 23 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 35.
24 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 35.
25 NORONHA, Edgard Magalhaes. Curso de direito processual penal. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 1976. p. 234. 26 MARQUES, José Frederico. Elementos de direito processual penal. 2. ed. Campinas: Millennium, 2000. p. 245.
e principais chefes de famílias de Israel, que realizavam o julgamento de processos criminais cominados à pena de morte27.
O entendimento de Rangel é no mesmo sentido, pois embora vislumbre a origem do Júri presente desde os povos antigos, afirma que o Tribunal do Júri como conhecemos tem origem inglesa, em razão de ser o berço dos direitos e garantias individuais no mundo28.
Compactuando de acepção semelhante, Vital de Almeida aponta a Inglaterra como berço do Tribunal do Júri que guarda maior similitude com o modelo atual:
O modelo do Júri, nos padrões de similitude atuais, efetivamente remonta ao embrião britânico do século XI, introduzido na geografia anglo-saxônica pelo conquistador normando Guilherme (1066), através do presentment of Englishry, manifestação inicial do Júri inglês, destinada à proteção dos conquistadores, haja vista a naturalmente insatisfeita e consequentemente danosa postura dos conquistados, bem sintetizada por Derek Roebuck, no sentido de que “Quando um
corpo era encontrado e não se conhecia o matador, o rei cobrava uma elevada multa da comunidade do lugar, a menos que o júri local declarasse, sob juramento, que o morto era inglês e não normando”29.
Prossegue Vital de Almeida estabelecendo que, com o advento da Magna Carta em 1215, passou aos cidadãos a incumbência de pronunciar e julgar o acusado. Isso porque com o IV Concílio de Latrão, passou a ser notório o descrédito no sistema de julgamento das ordálias realizados pela classe eclesiástica. Daí surgiu o Trial jury, onde cidadãos julgavam segundo seu conhecimento dos fatos, sensibilidade e determinação30.
Acerca do assunto, Tourinho Filho sobrepõe que: “Na Inglaterra, até 1972, só podia ser jurado o cidadão que tivesse uma residência cujo valor ultrapassasse certa quantia”31.
Nesse liame Calvo Filho, ponderando ainda que o berço do Júri tenha sido na Inglaterra, acentua que não há que se negar a existência de dois modelos de Tribunal do Júri: o inglês e o francês, este adotado pelo Brasil. E, após a extinção das Ordálias pelo Concílio de Latrão, o Júri foi recepcionado pela França com intuito de repelir a monarquia absolutista que
27 NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 41.
28 RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 13. ed. rev. ampl. e atual. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007. p.483-484.
29 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 31.
30 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 31-32.
31 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 24.
vigorava até então, disseminando-se pela Europa. Logo, conclui, a origem do Tribunal do Júri é eminentemente política32.
Calvo Filho observa ainda que, no sistema inglês, não há quesitos formulados aos jurados sendo que eles se comunicam, e a decisão é tomada por unanimidade (“guilty or not guilty” - “culpado ou inocente”), incumbindo ao juiz aplicar a pena. Já no modelo francês, destaca que os jurados respondem aos quesitos, não podendo comunicar-se entre si ou com terceiros quanto ao mérito da causa, e a decisão não precisa ser unânime, aplicando o juiz a pena33.
Deste modo, constata Tourinho Filho que a doutrina dominante entende que a origem do Júri remonta a época de Concílio de Latrão, onde restaram abolidos “os ordalia ou Juízos de Deus”34.
Para Nucci, o Júri foi instituído na França após a Revolução Francesa, com objetivo de combater as ideias mantidas pelos magistrados da monarquia, substituindo-os pelo povo, com novos ideais republicanos. Espalhando-se por toda a Europa com ideal de liberdade e democracia, e livre da participação de magistrados corruptos e atrelados ao interesse do seu soberano35.
Acrescenta Vital de Almeida sobre o modelo francês:
O liberalismo presente nos ideais da Revolução Francesa (1789) fez inicialmente formalizada a Instituição do Júri na Constituição de 1791, como passagem de evolução e afirmação históricas a desmerecerem esquecimento, nos termos do art. 9º, Capítulo V, firmando competência ratione materiae, utilizando o contraditório, limitando o número de jurados para os veredictos e restringindo aos juízes a aplicação da lei, referenciando recusas desmotivadas, invocando o princípio da publicidade dos atos judiciais e assegurando a soberania, ao tempo em que inumou o
bis in idem36.
De forma precisa, Noronha pontua que com o passar dos tempos, conforme o júri foi sendo transplantado para os diversos lugares, foi ganhando características próprias. Sendo que na Itália e na França foi substituído pelo escabinado, ou seja, um tribunal misto por
32 CALVO FILHO, Romualdo Sanches. Manual prático do júri. São Paulo: Liv. e Ed. Universitária de Direito, 2009. p. 31.
33 CALVO FILHO, Romualdo Sanches. Manual prático do júri. São Paulo: Liv. e Ed. Universitária de Direito, 2009. p. 31.
34 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 21.
35 NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 42.
36 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 33.
togados e jurados. Já na Argentina e na Holanda sequer foi adotado. Isto porque, embora bem sucedido em uns países, não quer dizer que assim o será em todos37.
Sob esse enfoque, Tourinho Filho preconiza que o Tribunal do Júri foi substituído pelo Tribunal dos Escabinos na França, Alemanha, Áustria, Grécia, Itália, Portugal, entre outros países da Europa, por conta da ocupação da França pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, quando estes implantaram o Tribunal dos Escabinos, Schoffen, dos alemães, e, Échevin, dos franceses38.
Nessa mesma perspectiva, Marques explica que o Júri não teve a mesma recepção em outros países, pois com a Revolução francesa se espalhou da França para todo o continente, menos Holanda e a Dinamarca. Contudo, o Júri não alcançou a mesma importância e eficiência da Inglaterra, pelo que aos poucos foi diminuída a sua competência, e transformando-os nos atuais tribunais do escabinado. Já na Alemanha, em 1924 o júri foi extinto. Na Itália, em 1935, foi substituído. Entretanto, em 1946 foram restabelecidas as Cortes d’Assisses39.
Na Espanha, segundo Manuel Silvela, a instituição representou uma terrível experiência porque, por volta de 1873 a 1875, em algumas províncias tornou-se impossível condenar alguém que detivesse influência, por mais repugnável o crime cometido40.
Assim denota-se que o Tribunal do Júri, ao longo do tempo, evoluiu e se difundiu em vários países do mundo, se amoldando às diversas realidades sociais, sendo imperioso notar o seu fortalecimento nos EUA, ante a forte democracia do Poder Judiciário ali existente.
Nesse sentido, Vital de Almeida:
De então, num processo evolutivo, empírica e axiologicamente lento, a partir do padrão inglês, o Júri evoluiu por quatro séculos até consolidar-se em patamar estável na ciência jurídica o suficiente para emigrar já solidificado a outras nações, a exemplo maior dos Estados Unidos da América (1787, Artigo III, seção 2, 3º parágrafo e Emendas VI e VII, da Constituição, estas aprovadas pelos Estados em 1791), onde recebeu, e vem recebendo, significantes contribuições, consolidada a
commom law, merecendo referência a inflexível vigilância dos magistrados em
plenário pela fairnerss, aplicando a Law of evidence. Os EUA são o grande celeiro mundial de força democrática do Poder judiciário, independente e soberano, fiel a mais extensiva acepção dos termos, frente aos quais muitos países que se pregam senhores de soberania judiciária, pouco valem no rol de exemplos assemelhados,
37 NORONHA, Edgard Magalhães. Curso de direito processual penal. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 1976. p. 235. 38 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 25.
39 MARQUES, José Frederico. Elementos de direito processual penal. 2. ed. Campinas: Millennium, 2000. p. 245.
pela carência de auto-valorização e excessiva complacência em relação à vontade expropriadora dos demais Poderes Constituídos41.
Todavia, Tourinho Filho adverte que no sistema de julgamento norte-americano, há um líder dos jurados, denominado foreperson, que tem por função conduzir os trabalhos, mas que por fim exerce certa influencia sobre os demais, o que se torna prejudicial, ainda que, em se tratando de um povo altamente politizado42.
Machado conclui que o processo que vigeu na Antiguidade Clássica moldou o modelo atual, e ainda continua influenciando o processo penal até hoje, pelo que justifica um interesse histórico43.
Logo, ainda que incerta seja a origem do Tribunal do Júri, a Instituição se disseminou ao longo dos tempos a diversas civilizações, a fim de dar ensejo à idéia de representatividade do povo, propiciando o julgamento de um integrante do grupo por seus pares. E o Brasil não ficou indiferente, instituindo o Tribunal do Júri num modelo muito próximo ao das quaestiones perpetuae, onde o julgamento de um processo de natureza pública era atribuído aos jurados e presidido por um magistrado, reservando características do contraditório e da oralidade, consoante abordagem no próximo item.
2.2 O TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL
O Tribunal do Júri ao longo do tempo foi se difundindo pelas diversas civilizações, a fim de submeter casos concretos a julgamento por membros da própria sociedade. Muito por força de um fenômeno chamado transmigração do direito, onde aos países colonizados são impostas ideias e Leis. Entretanto o Brasil, às vésperas da independência, começou a imprimir sua personalidade jurídica ao editar Leis destoantes do ordenamento jurídico de Portugal, razão pela qual o Júri foi adotado no Brasil antes mesmo do que em Portugal, contrariando uma ordem natural44.
Nesse sentido é a percepção de Porto, ao afirmar que a Instituição do Júri foi adotada no Brasil em 1822, com o sentido libertário quando, pelo Decreto de 25.05.1821 do
41 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 32.
42 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 24.
43 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 12. 44 NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 42-43.
Príncipe Regente Dom Pedro, foi inaugurada a autonomia da distribuição da Justiça, abrindo a fase preparatória de uma Constituição liberal45.
Nesse sentido, Rangel afirma que o Tribunal do Júri foi instituído no Brasil com o objetivo de retirar das mãos do déspota o poder de decidir contrariamente aos interesses do povo46. Prossegue Rangel, acentuando acerca do objetivo primitivo do Tribunal do Júri, que:
Percebam que o júri nasce e se desenvolve sempre com o escopo de frear o impulso ditatorial do déspota, ou seja, retirar das mãos do juiz, que materializava a vontade do soberano, o poder de julgar, deixando que o ato de fazer justiça fosse feito pelo próprio povo47.
Assim, o Júri foi instituído no Brasil em 18 de junho de 1822, inicialmente para o julgamento apenas de delitos de imprensa. Era composto por 24 jurados, e de suas decisões cabia recurso somente ao Príncipe Regente48.
Em 1824, com a primeira Constituição Imperial, o Júri foi incorporado como órgão do Poder Judiciário, agora com competência para as demandas cíveis e criminais, porém nas cíveis restou inviabilizada a atuação pois aos jurados leigos faltava capacidade técnica para resolver questões mais complexas. Os papéis estavam delineados pelo art. 152, onde previa aos jurados o pronunciamento sobre os fatos, e aos juízes, a aplicação das Leis49.
A sua composição também sofreu reformas, tem-se agora dois conselhos, onde um é formado por um júri de acusação, contendo vinte e três jurados; e outro conselho formado por um júri de sentença, com doze jurados. Neste momento já se discutia sobre o aspecto da representatividade vez que a capacidade para ser jurado era concedida apenas aos cidadãos que podiam ser eleitos, considerados “homens bons”, possuidores de certa renda, e por consequência, pertencentes às classes dominantes50.
Pontua Nassif que a Constituição de 1824 trouxe uma carga de arbitrariedade do Poder Executivo. Isto porque Dom Pedro I ao perceber o ideal constitucionalista dos
45 PORTO, Hermínio Alberto Marques. Júri: procedimentos e aspectos do julgamento: questionários. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 38.
46 RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 13. ed. rev. ampl. e atual. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007. p.485.
47 RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 13. ed. rev. ampl. e atual. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007. p.486.
48 MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri. Revista Jurídica da Unisul/Universidade do Sul de Santa Catarina – v. 1, n. 1 (1995). Tubarão: Ed. Unisul,
1995. p. 157.
49 MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri. Revista Jurídica da Unisul/Universidade do Sul de Santa Catarina – v. 1, n. 1 (1995). Tubarão: Ed. Unisul,
1995. p. 157.
50 STRECK, Lenio Luiz. Tribunal do júri: símbolos e rituais. 3. ed. rev., mod. e ampl. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998. p. 73.
nacionais envolvidos na sua elaboração, intervinha quando contrariado seus interesses. Chegando inclusive, após desentendimentos com os Andradas e com a Assembleia Constituinte, dissolve-la em 12 de novembro de 182351.
Ainda assim, Nassif conclui:
Mesmo assim, promulgou-se uma Constituição qualificada pela influência libertária, consequente às ocorrências históricas, especialmente as reflexivas da revolução francesa, às quais teve de adaptar-se para pacificação do ânimo republicano, sem comprometer, porém, os pressupostos imperiais. Por 65 anos tal objetivo foi alcançado. Assim foi o início da verdadeira história do Júri brasileiro, que se confunde com o do primeiro momento emanciopacionista nacional52.
Adiante, Martins esclarece que “com a Lei de 20 de setembro de 1830, foi instituído o Júri de Acusação e o Júri de Julgação53. Contudo assinala Marques que: “A instituição adquire contornos mais delimitados a partir da edição do Código Criminal do Império, em 16 de dezembro de 1830, e do Código de processo Criminal, em 29 de novembro de 1932”54.
Como consequência, o Tribunal do Júri teve atribuições ampliadas no Código de Processo Criminal, de 1832, sendo maior do que o grau de desenvolvimento da sociedade da época55.
Nesse contexto, Tourinho Filho afirma que embora o Júri tivesse competência para as causas cíveis e criminais, nunca funcionou nesses feitos. Mas a partir do Código de Processo Criminal de 1832, passou a ter competência para quase todas as infrações, criando-se para tanto, o Jury de Accusação, composto por vinte e três jurados, cuja atribuição era pronunciar os investigados, sendo que a investigação cabia aos Juízes de Paz. Assim, em média a cada seis meses, esse Jury se reunia, sob a presidência de um Juiz de Direito. Importante destacar que nesse Tribunal as decisões de pronúncia eram tomadas a partir de debates entre os jurados, fato este vedado pelo atual Código de Processo Penal. Decidindo-se
51 NASSIF, Aramis. Júri: instrumento da soberania popular. 2. ed. rev. e amp. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 16
52 NASSIF, Aramis. Júri: instrumento da soberania popular. 2. ed. rev. e amp. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 16
53 MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri. Revista Jurídica da Unisul/Universidade do Sul de Santa Catarina – v. 1, n. 1 (1995). Tubarão: Ed. Unisul,
1995. p. 157.
54 MARQUES, Jader. Tribunal do Júri: Considerações críticas à Lei 11.689/08 de acordo com as Leis 11.690/08 e 11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 23.
55 MARQUES, José Frederico. Elementos de direito processual penal. 2. ed. Campinas: Millennium, 2000. p. 249.
pela pronúncia, o julgamento era remetido então ao Jury de Sentença, este formado por doze jurados, ficando impedidos aqueles que funcionaram no Jury de Accusação56.
De acordo com Marques, se instalou uma disputa entre imperialistas e republicanos no período de 1830 a 1840, surgindo uma reação conservadora com a edição da Lei n. 261 de 3 de dezembro de 1841, acarretando significativa restrição na participação popular no Tribunal do Júri, impondo condições para qualidade de jurado, entre elas, ser eleitor, alfabetizado, possuidor de bens e rendimento etc. Cabendo a atribuição de formar a lista de jurados a cargo do delegado, que passava pelo juiz, promotor e presidente da Câmara Municipal57.
Outra transformação ocorrida em 1841, com advento da Lei n. 261 e respectivo regulamento n. 120, apontada por Vital de Almeida foi o fim do Júri de Acusação58.
Logo, as funções de investigação até então exercidas pelos Juízes de Paz passaram a ser dos Chefes de Polícia, Delegados e Subdelegados, e aos Juízes Municipais coube a pronúncia. Outra mudança sentida foi a abolição do Jury de Accusação, enquanto que o Jury
de Sentença permaneceu com a mesma composição, ou seja, doze jurados. Outra inovação da
Lei foi determinar que para ser jurado o cidadão, além de eleitor, necessitava comprovar renda anual de 400$000 (quatrocentos mil réis) nas cidades do Rio de Janeiro, Bahia, Recife e São Luiz do Maranhão, 300$000 nos Termos de outras cidades do império, e 200$00 nas demais59.
Destaca-se que, durante a República, o Decreto n. 848 de 11.10.1890 institui o Júri Federal competente para julgar crimes relativos à jurisdição federal, porquanto não perdurou por muito tempo60.
Com a proclamação da República e promulgação da Constituição de 1891, o Tribunal do Júri foi mantido, entretanto, com a quebra da unidade em matéria processual, acarretou sérias dúvidas sobre a permanência ou não da Instituição, uma vez que aos Estados foi concedido legislar a respeito da adoção do julgamento por jurados. Assim, Galdino de Siqueira defendia a aplicação constitucional apenas para o Júri Federal, pois aos Estados
56 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 22-23.
57 MARQUES, Jader. Tribunal do júri: Considerações críticas à Lei 11.689/08 de acordo com as Leis 11.690/08 e 11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 23.
58 VITAL DE ALMEIDA, Ricardo. Tribunal do júri – Aspectos constitucionais – Soberania e democracia social – “Equívocos propositais e verdades contestáveis.” Leme: CL EDIJUR, 2005. p. 37.
59 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 24.
60 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 24.
caberia legislar a respeito. Já Firmino Whitaker entendia que a matéria constitucional não poderia receber tratamento de direito substantivo, logo incabível a deliberação pelos Estados 61.
Na compreensão de Nassif, a Constituição de 1891 consagrou a autonomia políticas dos Estados Federados, aproximando-se da estrutura norte-americana62.
Significante alteração ocorreu com a Constituição de 1934, que em seu art. 72 levou o Tribunal do Júri do capítulo “Dos direitos e garantias individuais” para “Do Poder Judiciário”, passando, portanto, da esfera da cidadania para a do Estado63. O mesmo art. 72 consignou: “Ë mantida a instituição do júri, com a organização e as atribuições que lhe der a lei.” Assim, restou mantida a competência aos Estados para a legislação processual64.
Nesse contexto, Nassif pontua que a Constituição de 1934 foi embalada pelas ideias da Constituição de Weimar, após a 1ª Guerra Mundial, razões pelas quais estariam presentes várias vocações ideológicas, onde o constituinte buscava alcançar os vários segmentos sociais65.
Porquanto a Constituição de 1937 silenciou a respeito do Tribunal do Júri, mas, logo o Decreto-Lei n. 167/38 infligiu importantes mudanças, entre elas a previsão de recurso das decisões populares nos caso em que contrariassem as provas dos autos66.
Por outro lado, o mesmo Decreto-Lei n. 167/38, que retirou a soberania do Tribunal do Júri, apresentou como aspecto positivo a confirmação da sua existência, vez que o silêncio da Constituição de 1937 levantou sérias dúvidas a respeito de sua continuidade67.
Noronha anota que o Decreto-Lei 167/38, criado pelo Governo ditatorial, teve como fundamento permitir aos Tribunais de Justiça reformar o mérito das decisões proferidas pelo Tribunal do Júri, isso após claras demonstrações de ineficiência. Logo, o vocábulo soberania como poder incontrastável e absoluto não mais corresponde ao veredicto do júri,
61 MARQUES, Jader. Tribunal do júri: Considerações críticas à Lei 11.689/08 de acordo com as Leis 11.690/08 e 11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 23-24.
62 NASSIF, Aramis. Júri: instrumento da soberania popular. 2. ed. rev. e amp. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 18.
63 MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri. Revista Jurídica da Unisul/Universidade do Sul de Santa Catarina – v. 1, n. 1 (1995). Tubarão: Ed. Unisul,
1995. p. 158.
64 MARQUES, Jader. Tribunal do júri: Considerações críticas à Lei 11.689/08 de acordo com as Leis 11.690/08 e 11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 24.
65 NASSIF, Aramis. Júri: instrumento da soberania popular. 2. ed. rev. e amp. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 19.
66 MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri. Revista Jurídica da Unisul/Universidade do Sul de Santa Catarina – v. 1, n. 1 (1995). Tubarão: Ed. Unisul,
1995. p. 158.
vez que serua passível de reforma. Conclui, então, que o conceito soberania do veredicto é relativo, não coadunando com um poder ilimitado, tendo-se em vista o interesse geral68.
Por outro lado, Calvo Filho é enfático em afirmar que o Decreto-Lei n. 167 foi um duro golpe no Tribunal do Júri ao afastar a soberania dos veredictos. Estabeleceu ainda, o referido Decreto o número de 7 jurados ao invés de 12, como era desde 183069.
Calvo Filho assevera ainda novo rumo do Tribunal do Júri, com a queda de Getúlio Vargas em 1945, quando o Brasil voltou a trilhar na democracia, com a promulgação da Constituição de 1946, inserindo a soberania dos veredictos pela primeira vez a nível constitucional70.
Restaurada a soberania na Constituição de 1946 na qual, ainda, ao Júri foi dada a competência obrigatória para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, contudo, o legislador entendeu por aumentar o rol de crimes, pois o que se não podia era diminuir ante a competência obrigatória. Assim, criou-se o Tribunal para os crimes contra a economia popular. Mas com a posterior Carta de 1967, também época da ditadura, restringiu-se a competência do Tribunal do Júri tão somente aos crimes dolosos contra a vida71.
Nucci, ao analisar o Tribunal do Júri ante a Constituição de 1946, ressalta que este foi reinserido no capítulo “Dos direito e garantias individuais” como forma de firmar posicionamento contra o autoritarismo, muito embora Victor Nunes entenda razão diversa para este fato, apontando pressão do coronelismo para garantir subsistência de um órgão judiciário a fim de absolver seus capangas72.
Nesse mesmo sentido, Pontes de Miranda identificou características da Constituição de 1946 com a de 1891, asseverando, contudo, que aquela guarda maior parcela de democracia, liberdade e igualdade73.
A Constituição de 1967 conservou a Instituição do Júri, todavia, restringiu sua competência para os crimes dolosos contra a vida, portanto, retirando a competência para os
68 NORONHA, Edgard Magalhaes. Curso de direito processual penal. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 1976. p. 237. 69 CALVO FILHO, Romualdo Sanches. Manual prático do júri. São Paulo: Liv. e Ed. Universitária de Direito, 2009. p. 33.
70 CALVO FILHO, Romualdo Sanches. Manual prático do júri. São Paulo: Liv. e Ed. Universitária de Direito, 2009. p. 34.
71 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 19.
72 Apud NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 43. 73 Apud NASSIF, Aramis. Júri: instrumento da soberania popular. 2. ed. rev. e amp. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 16
crimes contra a economia popular. E a posterior Emenda Constitucional de 1969 silenciou quanto à soberania do Júri74.
Analisando o contexto histórico de quando foi promulgada a Constituição de 1967, Nassif afirma que esta veio marcada por resguardar a Segurança Nacional e ampliar os poderes do Presidente da República, porém em relação ao Tribunal do Júri foi mantida a mesma configuração. A Emenda Constituição n. 1/69 cassou a soberania dos veredictos, demonstrando o desprezo pela vontade do povo, representando um verdadeiro retrocesso na evolução da Instituição75.
Delmanto ressalta que o Júri há quarenta anos era bem diferente dos tempos atuais. Isto porque, inicialmente, havia apenas um Tribunal do Júri no Brasil, localizado na Comarca de São Paulo, instalado num esplendido salão no Palácio da Justiça. Os jurados, por sua vez, eram selecionados de forma a atingir diversas categorias de classe social. E quando este não mais atendia a demanda, foram sendo criados mais76.
Finalmente com o retorno da democracia no Brasil, em 1988, o Júri voltou ao capítulo “dos direitos e garantias individuais” como era previsto na Constituição de 1946, regressado princípios como: soberania dos veredictos, sigilo das votações e plenitude de defesa. Numa verdadeira busca ao status quo ante77.
Assim, percebe-se que a Instituição do Júri foi sendo moldada no Brasil pelas suas Constituições ao longo do tempo, conforme afirma Nassif: “Não há como deixar de identificar os momentos cruciais da história constitucionalista brasileira como configuradores do perfil do Tribunal do Júri”78. Influenciadas pelos períodos políticos, democracia e ditadura.
Atualmente, na América do Sul o Tribunal do Júri é admitido somente no Brasil e na Colômbia, com características próprias. No México sua competência para delitos comuns foi suprimida, mas mantida para julgar crimes de imprensa, contra a segurança externa e interna do país, e para delitos e faltas oficiais cometidas por funcionários da Federação79.
74 MARTINS, Marta Regina Sachetti. Aspectos históricos acerca da origem e evolução do tribunal do júri. Revista Jurídica da Unisul/Universidade do Sul de Santa Catarina – v. 1, n. 1 (1995). Tubarão: Ed. Unisul,
1995. p. 158.
75 NASSIF, Aramis. Júri: instrumento da soberania popular. 2. ed. rev. e amp. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 22.
76 Apud BARROS, Francisco Dirceu. Direito processual penal. Vol. II. Teoria, Jurisprudência e questões de concurso comentadas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. p. 774-775.
77 NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 44. 78 NASSIF, Aramis. Júri: instrumento da soberania popular. 2. ed. rev. e amp. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 16.
79 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Código de processo penal comentado. Volume 2. 11.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 25.
Por sua vez, no Brasil o Júri tem competência para julgar crimes dolosos contra a vida (homicídio, infanticídio, instigação, induzimento ou prestação de auxílio ao suicídio e aborto), na forma consumada ou tentada. Estando inserido no capítulo “Dos Direitos e Garantias Individuais, na Constituição Federal vigente”80.
Com efeito, Capez afirma que com a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 foi reconhecido o Júri, assegurados princípios básicos: plenitude de defesa, sigilo nas votações, soberania dos veredictos e competência mínima para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida. Estando inserido no art. 5º, XXXVIII, no Capítulo “Dos Direitos e Garantias Individuais” da CRFB. Com a finalidade de expandir o direito de defesa do acusado e ainda permitir que seja ele julgado pelos seus pares, em vez de um juiz togado vinculado as regras jurídicas81.
Salienta-se que o Tribunal do Júri, ao estar constando como direito e garantia individual, impede-se que seja ele suprimido, até mesmo por emenda constitucional, tratando-se de verdadeira cláusula pétrea em razão do art. 60, § 4º, IV, da CRFB82.
Calvo Filho ainda destaca que o fato do Júri ter sido reconhecido pela Constituição de 1988 significa que não mais ficou atrelado as antigas Constituições, e como consequência, não mais restrito a julgar tão somente os crimes dolosos contra a vida, bastando a previsão de Lei ordinária para ampliar sua competência, a exemplo, para crimes de roubo seguido de morte, extorsão mediante sequestro com resultado morte etc83.
De se notar que a Lei n. 11.698 de 2008 trouxe inovações importantes ao prever um procedimento todo especial para o Júri, regulado pelo capítulo II, título I, livro II do Código de Processo Penal, diferenciando a primeira da segunda fase de julgamento84. Segundo Campos, a primeira fase, judicium accusationes, tem por objetivo constatar a existência do crime, bem como se há indícios suficientes de ter o réu alguma participação, realizando-se uma verdadeira formação de culpa. Já a segunda fase, judicium causae, inicia após a admissão da acusação com a pronúncia do réu, o qual será submetido ao Tribunal do Júri, onde será realizada uma audiência única, com instrução, debates e julgamento. Nesta fase ocorre o que se chama de juízo da causa85.
80 MARQUES, Jader. Tribunal do júri: Considerações críticas à Lei 11.689/08 de acordo com as Leis 11.690/08 e 11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 25-26.
81 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. 15. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 535. 82 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. 15. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 535.
83 CALVO FILHO, Romualdo Sanches. Manual prático do júri. São Paulo: Liv. e Ed. Universitária de Direito, 2009. p. 35.
84 NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 46. 85 CAMPOS, Walfredo Cunha. Tribunal do júri: teoria e prática. São Paulo: Atlas, 2010. p. 21-22.
Quanto à formação atual, o Tribunal do Júri é constituído por um juiz togado, o qual tem a incumbência de presidir o feito, e de vinte e um cidadãos escolhidos por sorteio. Sendo, portanto, um órgão colegiado heterogêneo e temporário86.
Calvo Filho, ao analisar as possibilidades trazidas pela Constituição de 1988 esclarece que restou permitido um número par de jurados para composição do Conselho de Sentença, o que seria inclusive positivo ao acusado, pois impediria de ser condenado pela diferença de um único voto, mas então por dois votos, e em restando um empate, a decisão aplicada seria a mais favorável ao acusado87.
Assinala Nassif que a Constituição vigente é reflexo tanto do movimento popular quanto da movimentação política. Sendo resultados de atitudes corajosas e persistentes na busca do resgate de sua integridade político-jurídica88.
Os entendimentos acima mencionados convergem no sentido de que o Júri foi instituído no Brasil sob a expectativa de uma democratização do cenário brasileiro, sendo moldado conforme se apresentava o momento histórico.
A cada nova Constituição incidia uma releitura do Tribunal do Júri, a fim de adequá-lo a um momento social específico. De forma que torna-se indispensável o estudo dos princípios constitucionais contemporâneos inerentes a Instituição do Júri, que serão alvo do próximo capítulo.
86 CAPEZ, Fernando. Curso de processo penal. 15. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 537.
87 CALVO FILHO, Romualdo Sanches. Manual prático do júri. São Paulo: Liv. e Ed. Universitária de Direito, 2009. p. 35.
88 NASSIF, Aramis. Júri: instrumento da soberania popular. 2. ed. rev. e amp. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 23.
3 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS INERENTES AO TRIBUNAL DO JÚRI
O presente capítulo irá abordar somente os princípios constitucionais essenciais ao funcionamento do Tribunal do Júri, sendo sabido, no entanto, que além destes existem ainda os princípios processuais penais, os quais também tem aplicabilidade ao procedimento especial do Júri.
Essa abordagem se faz imperiosa tendo em vista o objetivo de este estudo, que é perquirir a conformidade do cenário de julgamento do Tribunal do Júri com os ditames constitucionais.
Precipuamente, importante destacar a diferença entre regras e princípios. Sendo o primeiro normas que prescrevem imperativamente uma exigência, enquanto que o segundo constitui-se exigências de optimização, que permitem o balanceamento de valores e interesses89.
Nessa mesma perspectiva, Machado assinala que, as regras devem ser estritamente observadas no caso concreto, infligindo uma única possibilidade de decisão num caso específico, já os princípios aceitam uma interpretação mais ampla, podendo ser utilizado a todos os casos, ou até mesmo de nem serem utilizados90.
Ressaltando a importância dos princípios constitucionais como norma, Canotilho enfatiza que:
Esta perspectiva teorético-jurídica do sistema constitucional, tendencialmente principialista, é de particular importância, não só porque fornece suportes rigorosos para solucionar certos problemas metódicos (cfr. infra, colisão de direitos fundamentais), mas também porque permite respirar, legitimar, enraizar e caminhar o próprio sistema. [...] Por último, pode dizer-se que a individualização de princípios-norma permite que a constituição possa ser realizada de forma gradativa, segundo circunstancias factuais e legais91.
Sob esse mesmo enfoque, Nucci leciona que “o princípio constitucional há de ser respeitado como o elemento irradiador, que imanta todo o ordenamento jurídico”92.
Ainda no que tange a princípios constitucionais, Bulos pontua que servem de vetor de interpretação, possibilitando a unidade e harmonia do ordenamento jurídico, impondo coerência geral ao sistema. Afirma que independente de conduzir valores, não possui
89CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição – 3. ed. reimp. Coimbra: Livraria Almedina, 1998. p.1087.
90 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 153. 91 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição – 3. ed. reimp. Coimbra: Livraria Almedina, 1998. p.1089.
dimensão puramente axiológica, isto porque tem status de norma jurídica. E assevera que violar um princípio constitucional é tão grave quanto transgredir uma norma qualquer, vez que não há gradação em relação ao nível de desrespeito a um bem jurídico93.
Porquanto, da CRFB emanam princípios constitucionais que regem os vários ramos do direito, e são essenciais ao bom funcionamento do Tribunal do Júri.
Todavia, a CRFB elencou, ainda, princípios específicos à Instituição do Júri, dos quais não se pode apartar, e que serão abordados neste capítulo.
3.1 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS FUNDAMENTAIS AO TRIBUNAL DO JÚRI Os princípios constitucionais, como já mencionados, servem como diretrizes básicas, dando sustentação ao sistema jurídico. Isto porque guardam força vinculativa, como normas de eficácia plena e direta. Mas, além disso, servem igualmente para mediar as relações entre o Estado e os indivíduos, estabelecendo limites ao poder estatal, salvaguardando liberdades fundamentais do indivíduo94.
Num outro ponto de vista, os princípios constitucionais também denotam a fundamentação do Estado, dando contornos quanto ao seu tipo, seu papel, suas finalidades e objetivos. De forma que, o Estado Liberal privilegia os princípios relacionados aos direito de liberdade; o Estado Social, os princípios ligados ao valor da igualdade social; e o Estado Democrático de Direito, os princípios que asseguram a liberdade e a igualdade, com participação política dos cidadãos95.
No mesmo norte Cunha, evidenciando que os princípios podem ter funções formais, exemplificando com as de construção, operação, continuidade e reforma do sistema, ou materiais, referenciando à projeção da Constituição na organização do governo e da sociedade96.
Cunha observa ainda que os princípios constitucionais podem ser explícitos ou implícitos, sendo que os explícitos consistem em princípios intencionais que se referem ao governo, à sociedade, aos direitos fundamentais, e não diretamente à Constituição, e pontua
93 BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. 2. ed. rev. e atual de acordo com a Emenda Constitucional n. 56/2007. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 387.
94 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 154-155. 95 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 155. 96 CUNHA, Sérgio Sérvulo da. Princípios constitucionais. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 191.
ainda, que estes são a maioria dos princípios articulados no artigo 5º da Constituição Federal97.
Assim, emanam da CRFB vários princípios que devem servir de verdadeiras balizas ao sistema jurídico; entretanto, neste capítulo serão tratados somente aqueles que são essenciais para o bom funcionamento do Tribunal do Júri.
3.1.1 Devido processo legal
O princípio do devido processo legal está inserto no art. 5º, LIV, da CRFB, que preceitua que “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”.
Segundo Machado, a sua origem remonta a law of the land da Magna Carta de João Sem Terra, em 1215, contudo sua fórmula expressa ocorreu na petition of rights, em 1627, que no seu art. 39, previa que:
Nenhum homem livre será detido nem preso, nem despojado de seus direitos nem de seus bens, nem declarado fora da lei, nem exilado, nem prejudicada a sua posição de qualquer outra forma; tampouco procederemos com força contra ele, nem mandaremos que outrem o faça, a não ser por um julgamento legal de seus pares e pela lei do país98.
Outro marco fundante se deu na Constituição dos EUA, em 1787, na emenda 5ª, onde foi proclamada a cláusula do due processo of law, garantindo-se ao indivíduo que não haveria perda de seus bens e de sua liberdade senão pelo devido processo estabelecido em Lei99.
Na concepção de Fernandes, o devido processo legal inicialmente visou resguardar direitos públicos subjetivos das partes, mas a partir da metade do século XX passou a ser visto como garantias e não direitos das partes100.
Para Rangel, o comando constitucional é no sentido de que se devem respeitar todas as formalidades legais para privar alguém de sua liberdade ou de seus bens. Logo, o processamento regular e legal é garantia ao cidadão de ter seus direitos respeitados,
97 CUNHA, Sérgio Sérvulo da. Princípios constitucionais. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 143-144. 98 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 159. 99 MACHADO, Antônio Alberto. Teoria geral do processo penal. São Paulo: Atlas, 2009. p. 159. 100 FERNANDES, Antonio Scarance. Processo penal constitucional. 4. ed. rev, atual e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. p. 45.