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Do Diagnóstico à Rotina Escolar: a percepção dos pais sobre o processo de inclusão de crianças com dislexia nas escolas regulares de ensino fundamental

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Academic year: 2021

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DO DIAGNÓSTICO À ROTINA ESCOLAR: A PERCEPÇÃO DOS PAIS SOBRE O PROCESSO DE INCLUSÃO DE CRIANÇAS COM DISLEXIA NAS ESCOLAS

REGULARES DE ENSINO FUNDAMENTAL1

Julia da Silva Rigon2 Michelle Regina da Natividade3

Resumo: O presente artigo possui o objetivo de analisar a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre a inclusão de crianças com Dislexia nas escolas regulares de ensino fundamental. Como procedimento metodológico foram realizadas entrevistas semiestruturadas com quatro pais de crianças com Dislexia utilizando a abordagem qualitativa e, para analisar os dados, foi utilizado o método de análise de conteúdo de Bardin. Com esse estudo pode-se concluir que as escolas necessitam de mais subsídios para identificar e auxiliar as crianças que possuem Necessidades Educacionais Especiais, e que o processo de diagnóstico pode influenciar nas atividades escolares, no relacionamento social e nos procedimentos de ensino utilizado pela escola. O diagnóstico adequado facilita a compreensão, dos professores, dos colegas e das famílias, sobre as dificuldades enfrentadas pelas crianças disléxicas. Como consequência, percebe-se o aumento da autoestima das crianças, melhorando na qualidade de vida para elas e para todos com quem ela se relaciona. Como houve dificuldade em encontrar, na revisão bibliográfica, subsídio para o tema Dislexia e educação, sob o ponto de vista investigativo da psicologia, este estudo poderá dar subsídio para as próximas pesquisas e para que o estudo das necessidades educacionais especiais cresça cada vez mais, auxiliando no desenvolvimento das crianças que as possuírem.

Palavras Chave: Dislexia, Educação Inclusiva, Escolas Regulares, Inclusão Social, Família.

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Artigo apresentado como requisito parcial para a conclusão do curso de Graduação em Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. 2019.

2 Acadêmico do curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul. E-mail:

[email protected]

3 Mestre em Psicologia – Instituição. Professora Titular na Universidade do Sul de Santa Catarina –

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1 1. INTRODUÇÃO

A educação é reconhecida como um direito a todos desde Outubro de 1988, com o artigo 205 da Constituição da República Federativa do Brasil, em que diz que a educação é um “dever do Estado e da Família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988). Sendo a educação um direito a todos, desde 1994, conta-se com a contribuição da Declaração de Salamanca para garantir que todas as pessoas que possuem Necessidades Educacionais Especiais (NEE) frequentem de forma inclusiva a escola e a todas as atividades que a mesma propõe.

Segundo a lei 9.364 de 1996, a educação é obrigatória dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade e possui três níveis de escolaridade neste período. A organização se dá em Pré-Escola que abrange crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos. Depois o Ensino Fundamental, com crianças de 6 (seis) a 14 (quatorze) anos, e o Ensino Médio que acolhe os adolescentes de 15 (quinze) a 17 (dezessete) anos (BRASIL, 1996). Identifica-se que a educação é extremamente importante para o desenvolvimento infantil, pois, segundo a Secretaria de Educação Especial (SEESP) do Ministério da Educação (MEC) (2001), é neste momento em que as escolas têm condições de identificar se a criança possui alguma necessidade educacional especial ou algum atraso em seu desenvolvimento.

Em 2003 foram lançadas, pela mesma Secretaria, as estratégias para a educação de alunos com Necessidades Educacionais Especiais (NEE), e que podem se referir a crianças que possuem dificuldades na aprendizagem, e não necessariamente possuem algum tipo de deficiência (BRASIL, 2003). Em 2008 o MEC implantou a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI), com a intenção de defender o direito de todos os estudantes com NEE, promovendo a inclusão dos mesmos dentro das escolas.

“A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva tem como objetivo assegurar a inclusão escolar de alunos com

deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas

habilidades/superdotação [...]” (MEC, 2008, p. 14).

A Inclusão, segundo Freire (2008), é uma ação que preserva o direito de todos os indivíduos atuarem na sociedade em que vivem, frequentando onde

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2 quiserem independente de serem deficientes ou não, sendo respeitados perante aquilo que os fazem ser diferentes dos outros, no âmbito educacional, social ou político. Dentro da PNEEPEI temos que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) necessita da atuação de psicólogos no conjunto, pois como estão dentro da Educação Especial, as necessidades se manifestam de várias maneiras, precisando de atenção específica para que estes estudantes não despertem dificuldades comportamentais com problemas psicológicos (AUSEC et. al., 2011).

Identifica-se com este trecho a necessidade da atuação em conjunto dos profissionais da Psicologia, tanto com os alunos quanto para os profissionais que atuam diretamente com esse público. A inserção do psicólogo na área educacional é voltada para a “[...] promoção de práticas educacionais que favoreçam a participação e aprendizado de todos os alunos.” (AUSEC et. al., 2011, p. 3947). Os autores Mattos e Nuernberg (2010) também relatam sobre a importância da atuação do psicólogo na Educação Especial, que se dá por conta do entendimento que se tem sobre o desenvolvimento humano em perspectiva emocional.

Ausec (2011) aponta que, além das deficiências, a alta habilidade ou superdotação, os transtornos globais do desenvolvimento, que estão contempladas nas políticas públicas, os transtornos de aprendizagem e os tratamentos de saúde, também influenciam no aspecto psicológico das crianças que, tanto quanto contemplados anteriormente pela legislação, necessitam das mesmas políticas de inclusão e educação especial. Infelizmente não se identificou na PNEPEEI a necessidade de apoio aos estudantes com Transtornos de Aprendizagem.

Segundo a 5ª Edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V, os Transtornos Específicos de Aprendizagem se caracterizam em prejuízos na leitura, na expressão escrita e na matemática. Este trabalho irá discorrer sobre o Transtorno de Aprendizagem com prejuízo na leitura, a Dislexia, pelo viés neuropsicológico.

A Dislexia, além de ser um transtorno de aprendizagem relacionado à leitura que se caracteriza pela dificuldade de compreender as palavras (ROTTA et. al, 2006), afeta também, a escrita, a fala e outras atividades relacionadas à aprendizagem (SILVA, 2009). A Associação Brasileira de Dislexia – ABD, utiliza a definição de Dislexia adotada pela International Dislexy Association – IDA, em que diz que:

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A Dislexia do desenvolvimento é considerada um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldade no reconhecimento preciso e/ou fluente da palavra, na habilidade de decodificação e em soletração. Essas dificuldades normalmente resultam de um déficit no componente fonológico da linguagem e são inesperadas em relação à idade e outras habilidades cognitivas (ABD, 2013).

Segundo Cabussú (2009), a Dislexia não é uma doença então não há como dizer que existe uma cura e, por isso os disléxicos precisam conviver com os sintomas pelo resto da vida. Por ter muitos fatores estressantes, a Dislexia pode influenciar a vida da pessoa tanto no desempenho escolar/acadêmico quanto na vida social e suas interações (CABUSSÚ, 2009).

Quando se busca entender qual a origem da Dislexia nas pessoas, vê-se que se dá por causas genéticas ou adquiridas. Na questão genética se dá por herança cromossômica, e na causa adquirida, pode-se dar por vários motivos, mas todos eles relacionados ao Sistema Nervoso Central – SNC, sendo uma má formação ou mau desenvolvimento deste, em problemas perinatais ou danos pós-natal (ROTTA et. al, 2006). O esperado é que, a primeira pessoa que identifica a dislexia na criança seja o professor pela proximidade ao processo de aprendizagem. Estanislau e Bressan (2014) afirmam que o diagnóstico deve ser feito depois dos sete anos de idade, por conta da fase de alfabetização.

Cabussú (2009) explica que a criança com Dislexia precisa passar por uma avaliação com uma equipe multidisciplinar que conta com os profissionais da medicina, psicologia, fonoaudiologia e psicopedagogia, tudo para que se obtenha o diagnóstico mais rápido e mais preciso. Sabendo que necessita de uma equipe multidisciplinar para tal, Silva (2009) traz que o diagnóstico nem sempre é feito da maneira correta, podendo acarretar em frustração e evasão escolar por parte das crianças disléxicas. Entende-se com isso que todos os profissionais citados acima são de extrema importância para que o diagnóstico seja dado corretamente, trazendo qualidade de vida, tanto para a criança, quanto para a família e os profissionais que atuam em conjunto.

Segundo Martins e Capellini (2011) a dislexia é algo pouco estudado no Brasil, e quando estudada deixa o foco maior para a área da fonoaudiologia para programas de atuação fonológica. Diante deste dado, surge a necessidade de olhar pelo viés psicológico, para responder aos objetivos específicos, que são: Avaliar a

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4 percepção dos pais e/ou responsáveis sobre o processo de diagnóstico da criança com dislexia; Verificar a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre o processo de inclusão de crianças com Dislexia em seu relacionamento social na escola regular de Ensino Fundamental; Verificar a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre o processo de inclusão de crianças com Dislexia sobre o procedimento de ensino adotado pela escola regular de Ensino Fundamental. E, com isso, responder o seguinte questionamento: qual a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre a inclusão de crianças com Dislexia em escolas regulares?

2. MÉTODO

Após discorrer sobre a educação e sobre crianças com dislexia e sua inclusão nas escolas, viu-se a necessidade de ir a campo e entrevistar pais, mães e/ou responsáveis para entender melhor como é a inclusão educacional destas crianças. Para auxiliar nesta questão, será escrito neste tópico o método da pesquisa, que explicará o tipo da pesquisa e como ela foi feita, explanando sobre os participantes, os materiais que foram utilizados para realizar as entrevistas e os preceitos éticos utilizados.

Inicialmente, a pesquisa foi classificada como exploratória, pois o principal interesse da pesquisa foi o de investigar exatamente como é a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre a inclusão da criança com dislexia no meio educacional e social. A pesquisa também tem um estudo interpretativo, pois segundo Gray (2012) busca-se analisar os fenômenos a partir do que o sujeito traz sobre o que foi vivenciado. Para se obter êxito com as entrevistas elas foram realizadas com corte transversal, pois foi questionado sobre um determinado período da vida da pessoa. Com isso, foram feitos estudos de caso, que resultaram em um estudo qualitativo, por serem poucos sujeitos envolvidos, mas com abundância de material para análise, que conta com as percepções e experiências do sujeito que está colaborando com a pesquisa (LEONEL e MOTTA, 2007).

Em relação ao instrumento para coleta de dados, foi realizada uma entrevista sociodemográfica de início, e depois uma entrevista semiestruturada, com base em um roteiro com 28 questões abertas. As perguntas foram elaboradas de acordo com os objetivos específicos, com o cuidado para não gerar o risco de ferir a

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5 subjetividade e a integridade do sujeito participante. Uma entrevista piloto foi realizada com a finalidade de revisar o material e adaptá-lo se necessário.

Os participantes desta pesquisa foram quatro pais, mães e/ou responsáveis de crianças com Dislexia entre sete e dez anos, matriculadas regularmente no Ensino Fundamental de escolas regulares que se localizam em Florianópolis. A tabela a seguir apresenta os principais dados dos entrevistados e os respectivos diagnósticos prévios ao estudo:

Nome (fictício) e idade dos pais Nome (fictício) e Idade da Criança Ano da criança na escola Diagnósticos da criança Entrevista 1 Ricardo – 44 anos

Mariana – 7 anos 2º ano Dislexia leve Entrevista 2 Amanda – 34

anos

Artur – 8 anos 3º ano Dislexia grave e Déficit do Processamento Auditivo Central DPAC) Entrevista 3 Renata – 43 anos

Sofia – 9 anos 4º ano Dislexia moderada, DPAC e Discalculia Entrevista 4 Sabrina – 38

anos

Amábile – 10 anos

4º ano Dislexia Grave e DPAC

Fonte: Elaborada pelas pesquisadoras, 2019.

Em relação aos dados sociodemográficos, todos os participantes são casados, possuem ensino superior completo e estão empregados nas suas áreas de formação. A classe social foi definida a partir da renda familiar mensal, no qual um(a) entrevistado(a) corresponde a classe C, outros(as) dois(duas) correspondem a classe B e um(a) corresponde a classe A (CPS, 2014). Todos os entrevistados afirmaram que seus filhos estudam em escolas particulares. Entende-se que a renda familiar mensal contribui para que as crianças possam estudar nas escolas em que seus pais e/ou responsáveis escolheram e facilita também que essas crianças possam continuar tendo acompanhamento com os profissionais que já acompanhavam.

Para encontrar os participantes para a coleta dos dados, utilizou-se o método bola de neve, ou seja, foram todos indicados. Os participantes foram convidados a

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6 comparecer às instalações da Unisul, unidade Trajano ou unidade Pedra Branca, onde se pôde ter controle e certeza de que não haveria presença de pessoas estranhas que pudessem influenciar nas respostas ou constranger os participantes. A pesquisadora se locomoveu até o local de trabalho de dois dos participantes, pois os mesmos não tiveram condições de comparecer na instituição. Para que fosse onde eles estavam, foi necessário pedir não tivesse circulação de pessoas para manter o sigilo. A importância de realizar a entrevista em um local privado se dá pelo sigilo que precisa ser mantido, para preservar a privacidade e integridade dos participantes.

As entrevistas ocorreram de forma individual e tiveram em média 27 (vinte e sete) minutos de duração, pela quantidade de perguntas abertas. O tempo foi considerado suficiente para coletar os dados tendo em vista que, a partir do momento em que os participantes começaram a falar, as outras perguntas foram sendo respondidas sem necessitar de muitas intervenções por parte da pesquisadora.

No início das entrevistas o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi apresentado e explicado para que o (a) participante compreendesse e concordasse com os termos. Foi esclarecido, ainda, que a pesquisa está em conformidade com os princípios éticos da Psicologia e fora submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa - CEP da UNISUL. Os riscos e benefícios foram explicados aos participantes, e que eles teriam o direito de desistir da entrevista a qualquer momento, caso em que os seus dados seriam excluídos e ninguém mais teria acesso a eles. Foi colocado, ainda, que a pesquisa seria divulgada e, após a divulgação, não seria mais possível remover o conteúdo.

Após a assinatura do TCLE, foi definido com o (a) participante como gostaria de ser chamado durante a entrevista ou na divulgação do material, para que sua identidade não fosse divulgada e para a organização dos dados apresentados na presente pesquisa. O participante que não decidiu no momento da entrevista, foi contatado posteriormente para a escolha do nome. Foram criados nomes fictícios, também, para as crianças mencionadas.

Após esta etapa de apresentação, iniciou-se a entrevista com a gravação da voz do (a) participante, que foi de extrema importância, pois possibilitou que a pesquisadora acessasse o material na íntegra posteriormente, o que possibilitou

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7 uma melhor compreensão no momento da transcrição, e forneceu melhor embasamento na análise dos dados. O (a) participante foi mencionado (a) da forma como fora combinado com um nome fictício, para manter sua identidade em anonimato. Depois de concluída a entrevista, a gravação foi transcrita na íntegra para a fase de análise.

Para a análise do conteúdo, foi utilizada a definição de Bardin (2011) na qual ele afirma se tratar de uma busca, uma investigação sobre o que se está pesquisando, considerando suas particularidades. Para isso, utilizou-se da Escuta Flutuante que, segundo a autora, trata-se de uma organização dos dados em categorias por semelhança de conteúdo.

Com isso, espera-se que as entrevistas e os dados relatados possam fornecer subsídios para futuras reflexões que possam demonstrar que a Psicologia tem muito mais a oferecer para a sociedade e trazer benefícios para todos. Esta entrevista foi realizada, de fato, com as partes mais interessadas no círculo de relacionamento da criança com dislexia (os pais ou responsáveis), que demostraram total interesse ao conteúdo divulgado por receberem atenção à sua subjetividade e receptividade a tudo o que ele(a) gostaria de falar sobre o assunto, mas que não o fazia por falta de oportunidade. Em decorrência desta abertura, em uma das entrevistas mobilizou-se, demonstrando um risco que havia sido previsto, em relação ao acesso do conteúdo pelo entrevistado: a mobilização emocional e afetiva. Quando esta mobilização ocorreu, o(a) participante foi acolhido(a) pela entrevistadora e em seguida concluiu a entrevista, sem causar a invalidação dos dados coletados.

3. ANÁLISE DOS RESULTADOS

Este capítulo abordará a análise sobre a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre o processo de inclusão da criança com Dislexia nas escolas regulares. Tendo-se como ponto de partida os objetivos específicos e o conteúdo das entrevistas, foram estabelecidos três eixos de análise com suas respectivas categorias. O primeiro eixo aborda o processo de diagnóstico, o segundo aborda o processo de inclusão e relacionamento social e o terceiro aborda o procedimento de ensino adotado pela escola.

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8 3.1. O Processo de Diagnóstico

O primeiro eixo corresponde ao objetivo específico que visa avaliar a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre o processo de diagnóstico da criança com dislexia, e possui as categorias: Aspectos Desencadeadores do Processo de Diagnóstico; Fatores que Facilitaram o Processo de Diagnóstico; Fatores que Dificultaram o Processo de Diagnóstico.

Nesta categoria serão abordados os aspectos desencadeadores do processo de diagnóstico da criança com Dislexia, ou seja, o que levou os pais a investigar as dificuldades dos seus (suas) filhos (as). Para isso, foram criadas cinco subcategorias, sendo elas Processo de diagnóstico; Profissionais que avaliaram durante o processo de diagnóstico; Profissionais que Diagnosticaram; Profissionais que acompanham a criança após o diagnóstico; Outros Diagnósticos.

Na primeira subcategoria será analisado como foi o Processo de Diagnóstico em si da criança com Dislexia. A Dislexia, tratando-se de um Transtorno Específico de Aprendizagem (DSM-V, 2014), entende-se que ela deve ser identificada na escola ou quando a criança está realizando atividades em casa que sejam voltadas à aprendizagem escolar. Pode-se analisar que, de quatro entrevistados, dois identificaram as dificuldades de seus filhos em casa, durante as atividades extraclasses, e dois receberam da escola a notícia de que a criança tinha dificuldades em sala de aula.

No relato de Ricardo pode se identificar que ele suspeitava que sua filha tinha Dislexia porque ele também possui e, levando em consideração as questões genéticas, ele resolveu prestar mais atenção quando ela realizava as atividades escolares em casa. O entrevistado relata que “quando ela chegou ao Infantil 3, que no colégio é o ano que antecede o primeiro ano, começou a pré-alfabetização e eu via o desconforto dela e as dificuldades, eu me identificava com algumas delas né”, ou seja, o próprio pai identificou que a filha possuía dificuldades em relação à aprendizagem escolar.

Segundo Tabaquim e outros (2016) cabe aos professores ter competências e conhecimentos necessários para identificar se a criança possui dificuldades para ler e/ou escrever, porém, entende-se que não é só o professor que está vinculado à criança no momento de sua aprendizagem. No relato da entrevistada Amanda, ela

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9 conta que conseguiu identificar as dificuldades do filho Artur porque ela era a professora dele, mas as outras profissionais da escola não deram atenção e diziam que ela pensava dessa forma porque era mãe.

O processo de diagnosticar, segundo Rotta e outros (2006), ocorre pela necessidade de encontrar-se uma solução para a criança que começa a ter dificuldades na alfabetização. No caso da entrevistada Renata, ela relata que foi investigar, pois a escola a chamava para conversar, dizendo que sua filha Sofia tinha comportamentos inadequados. Em entrevista, Renata disse “ela começou a frequentar a psicóloga, por questões comportamentais, na verdade ela tinha problemas comportamentais porque ela não entendia o que lhe era falado, e porque ela também tem o Déficit do Processamento Auditivo Central (DPAC), bem alterado”. O relato de Renata vai ao encontro com os autores Estanislau e Bressan (2014) no qual eles afirmam que os transtornos de aprendizagem inicialmente se apresentam como problemas comportamentais na criança.

Já com a entrevistada Sabrina, a Dislexia apareceu na sua filha Amábile depois de um tempo em tratamento com a fonoaudióloga e com a psicóloga. Amábile foi adotada pela família com 4 anos de idade e não falava, mas quem suspeitou de tudo foi a coordenadora da creche onde ela ficava, indo de encontro ao que os autores Tabaquim e outros (2010) falam sobre a primeira pessoa a identificar as dificuldades serem os professores. Com isso, pode-se verificar que a percepção das dificuldades das crianças foi feita por pessoas de diversas áreas, o que leva a retirar o professor de uma posição única, como o de responsável por identificar se a criança possui ou não dificuldades de aprendizagem.

Após a análise dos fatores que levaram os pais a investigar as dificuldades de seus filhos, identificou-se a necessidade em falar sobre os profissionais que avaliaram durante o processo de diagnóstico, que corresponde à segunda subcategoria. Após analisar os relatos na íntegra, identificou-se que profissionais de diversas áreas foram envolvidos, mas, de quatro entrevistados, duas entrevistadas relataram que tiveram acesso a uma equipe multidisciplinar, ou seja, os profissionais trocaram informações para melhor ajudá-los.

Uma delas é a entrevistada Amanda, que possui diversos profissionais ao seu lado, sendo eles a Fonoaudióloga, a Psicóloga, o Neurologista e a Neuropsicopedagoga. A outra entrevistada foi Sabrina que relatou sua dificuldade,

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10 pois, como Amábile foi adotada aos quatro anos e não falava, ela suspeitava que Amábile tinha traumas psicológicos, quando buscou por todos os profissionais possíveis e a avaliação foi feita em conjunto com a pedagoga, a psicopedagoga e a fonoaudióloga.

A equipe multidisciplinar é de extrema importância para que a avaliação seja feita da melhor maneira possível para que haja um diagnóstico preciso. Segundo Silva (2009) a criança que não obtém o diagnóstico da maneira correta pode se frustrar e querer se afastar da escola, podendo acarretar em evasão escolar. Por isso é tão importante que o diagnóstico seja assertivo e ocorra o quanto antes. Para Rotta e outros (2006), a equipe multidisciplinar deve ser composta por profissionais neurologistas, psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos e até neuropsicólogos.

Segundo Rocha e outros (2009) espera-se que os profissionais da Neuropsicologia estejam na equipe multidisciplinar para analisar e ajudar no diagnóstico, pois é o campo que estuda a relação entre o cérebro e o comportamento. A Neuropsicologia surgiu da junção entre medicina, psicologia e filosofia, e ela oferece tantos subsídios quanto os outros profissionais de outras áreas no momento em oferecer seu diagnóstico. A partir disso, observa-se a importância da psicologia na contribuição de conhecimentos para fornecer subsídios para formar profissionais mais qualificados e consequentemente diagnósticos mais precisos.

Os outros dois entrevistados não tiveram uma equipe multidisciplinar para auxiliar na avaliação, tendo acesso a apenas um profissional. O entrevistado Ricardo buscou por apenas uma profissional, que foi a psicopedagoga, e com a entrevistada Renata ocorreu a mesma situação, mas ela recebeu indicação da coordenadora da escola para que levasse sua filha em um profissional para ter o diagnóstico. Ela relata que “coloquei ela em outro colégio, que era no máximo 15 alunos por sala, a sala era pequeninha, e lá pela coordenadora eu conheci a psicopedagoga” e foi quando ela buscou pelo diagnóstico.

Após a análise de todas as entrevistas, pôde-se entender que existe uma precariedade na busca por psicólogos para auxiliar no momento da avaliação dessas crianças. Houve participação de psicopedagogas e fonoaudiólogas, mas as psicólogas quase não aparecem nos relatos, evidenciando que a psicologia carece de mais espaço e visibilidade neste campo. Os autores Mattos e Nuernberg (2010)

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11 afirmam que a psicologia ainda tem muito a contribuir no âmbito educacional traçando estratégias e atendimentos especializados para alunos com deficiências e transtornos de aprendizagem.

Com isso, identifica-se a necessidade de analisar sobre os profissionais que diagnosticaram a Dislexia nessas crianças. A autora Cabussú (2009) afirma que é necessário ter uma equipe multidisciplinar para poder diagnosticar a Dislexia na criança, mas o primeiro profissional a identificar as dificuldades daquela criança é o que mais contribui para o processo de diagnóstico pela atenção e agilidade. Nas entrevistas realizadas, apenas a entrevistada Sabrina afirmou que foi a equipe multidisciplinar, em conjunto, que fez o diagnóstico. Ela afirma com sua fala que “o diagnóstico da dislexia foi uma junção, da pedagoga, da psicopedagoga com a fonoaudióloga que fez a audiometria voltada pro DPAC”, o que evidencia a existência de uma equipe multidisciplinar no diagnóstico. Cabussú (2009) afirma que a equipe multidisciplinar conta com os profissionais da medicina, psicologia, fonoaudiologia e psicopedagogia, podendo também contar com os profissionais da neuropsicologia.

No caso do entrevistado Ricardo, que foi a primeira pessoa a identificar as dificuldades de sua filha, precisou levá-la para uma consulta com uma psicopedagoga, para ter certeza de suas suspeitas, e foi essa profissional que diagnosticou. Segundo a autora Cabussú (2009), “a psicopedagogia surgiu da necessidade de atendimento às crianças com problemas de aprendizagem, numa fronteira entre a psicologia e a pedagogia” (CABUSSÚ, p. 480, 2009), por isso é o profissional mais procurado quando se desconfia que a criança tenha dificuldades no processo de aprendizagem escolar.

A entrevistada Renata também levou sua filha em profissionais da área da Psicopedagogia, e foram esses profissionais que realizaram o diagnóstico. Novamente identifica-se a falta de busca pelos profissionais da psicologia no momento do diagnóstico, indo ao encontro com a subcategoria anterior. A partir desta análise, pode-se analisar que há necessidade de mostrar que a psicologia realiza muitos estudos na área educacional, mostrando que esses profissionais são qualificados e especializados, podendo assim ter espaço para colocar em prática todo seu conhecimento, e compartilhá-lo com outras áreas de atuação. Por isso a importância da psicologia na equipe multidisciplinar não só para o diagnóstico, mas

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12 para atuação junto à criança, juntando assim a teoria com a prática (CABUSSÚ, 2009).

Após analisar todas essas questões cabem investigar sobre os profissionais que acompanham a criança após o diagnóstico, ou seja, se são os mesmos que diagnosticaram. Para Cabussú (2009) a equipe multidisciplinar é importante tanto para o diagnóstico quanto para a atuação junto à criança, atuando como uma forma de tratamento para que a criança possa se desenvolver frente às suas limitações e dificuldades. Com isso, entende-se que é necessário que essa equipe continue presente, principalmente durante a vida escolar da criança.

Todos os quatro entrevistados afirmam que as crianças continuam recebendo acompanhamento com frequência, mas apenas o entrevistado Ricardo possui o acompanhamento da sua filha com apenas uma profissional. Ele afirma que sua filha vai toda a semana na psicopedagoga, e ainda diz que “a psicopedagoga que ela vai toda a semana é uma relação de amor, as duas são uma apaixonada pela outra, tanto que uma vez ela fez uma malcriação tão grande que o castigo foi não ir pra psicopedagoga naquela semana”. As outras entrevistadas possuem uma equipe multidisciplinar acompanhando seus filhos porque, em virtude do DPAC, eles frequentam a fonoaudióloga também. A entrevistada Amanda conta que leva seu filho Artur para a Neuropsicopedagoga e para a Fonoaudióloga toda a semana.

Já no relato das entrevistadas Renata e Sabrina pôde-se identificar que suas filhas estão mais desenvolvidas após o acompanhamento com a psicopedagoga. Renata afirma que depois de sua filha Sofia passar dois anos com a psicopedagoga, agora que ela está lendo mesmo. A situação da entrevistada Sabrina é bem parecida, relatando que “eu resolvi colocar a Amábile numa psicopedagoga, e aí foi onde ela começou o processo de alfabetização realmente e propriamente dito, porque até então ela não estava alfabetizada”.

Esses relatos mostram que a escola precisou da assistência de outros profissionais da área da pedagogia e da psicopedagogia para auxiliar as crianças da forma como elas realmente precisavam durante o seu processo de aprendizagem. A pedagogia auxilia no processo de alfabetização em si, e a psicologia faz com que este processo seja o mais fácil possível, preservando a saúde mental da criança e da família, e trazendo qualidade de vida para ambos. Porém, não é visto nas entrevistas profissionais da psicologia atuando em conjunto com as escolas.

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13 Após analisar os relatos e identificar que algumas crianças, além da psicopedagoga, fazem acompanhamento com a fonoaudióloga, identificou-se a necessidade de falar sobre outros diagnósticos. Dos entrevistados, três afirmam que seus filhos têm outros diagnósticos além da Dislexia, e apenas um entrevistado afirmou que sua filha tem apenas Dislexia, que foi o Ricardo.

Segundo Rotta e outros (2006) a Dislexia é classificada em 3 (três) tipos: Dislexia fonológica, Dislexia lexical e Dislexia mista. Especificamente, a Dislexia fonológica se caracteriza pela dificuldade de reconhecer palavras novas, ou seja, pela falta de capacidade em juntar o som à palavra que está sendo lida, ocasionando prejuízos tanto na memória quanto na consciência fonológica, e neste caso, três das entrevistadas afirmam que seus filhos têm essa característica.

A entrevistada Sabrina descobriu a dislexia em sua filha depois de trabalhar o DPAC com a fonoaudióloga. Ela afirma que, como sua filha não falava, precisou buscar uma fonoaudióloga para identificar o que estava acontecendo. Já a entrevistada Amanda procurou a fonoaudióloga para seu filho quando ele tinha 2 anos porque ele também não falava. Amanda ainda afirma que Artur passou 2 anos fazendo acompanhamento com a fonoaudióloga, mas estranhou porque ele não estava evoluindo, até que ela resolveu trocar e a nova fonoaudióloga fez os exames e descobriu o DPAC nele também.

A entrevistada Renata conta que buscou uma fonoaudióloga depois do diagnóstico da dislexia e acabou descobrindo que sua filha tem DPAC, mas sua filha também tem Discalculia. Segundo o DSM-V (2014) a Discalculia é um transtorno específico de aprendizagem com prejuízo na matemática, ou sej a, a pessoa tem dificuldade em memorizar fatores numéricos e não tem precisão no raciocínio matemático.

Como a Dislexia se trata de um Transtorno Específico de Aprendizagem com prejuízo na leitura (DSM-V, 2014), pode afetar muitas questões na vida da pessoa que a possui, porque a leitura “é um processo que envolve linguagem escrita, atenção, habilidade motora, vários tipos de memória, organização de texto e imagem mental” (ROTTA et. al., 2006, p. 152). Com isso entende-se que a presença do psicólogo é extremamente importante, pois a Dislexia afeta a vários outros aspectos da vida, influenciando no controle emocional da pessoa. Nesta pesquisa, não foi

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14 identificado se algum dos profissionais que acompanham essas crianças é psicólogo de formação.

Diante de tudo isso, entende-se que o processo de diagnóstico pode demorar para acontecer, o que leva a investigar sobre fatores que facilitaram o processo de diagnóstico, mas entende-se que tudo depende muito dos profissionais que estão atuando com a criança e da dedicação da família e isso será analisado nesta presente categoria. Todos os entrevistados demonstraram de certa forma, alguma facilidade durante o processo de diagnóstico de seus filhos, sendo essas facilidades algumas suspeitas por parte dos próprios pais ou até alguém com bastante atenção e conhecimento que entendeu as dificuldades dessas crianças e avisou aos pais.

A entrevistada Amanda relata sobre o que ajudou a identificar as dificuldades e limitações de seu filho, que foi sua formação em pedagogia, mas também sua vontade em ajudar seu filho. Ela pode ter esse reconhecimento do neurologista, no qual ela afirma que “ele falou ‘e agora ele tem 7 anos, tá em terapia desde os 5 anos, vocês estão de parabéns pelos pais que vocês foram, procuraram ajuda desde cedo, não deixaram acumular esses sinais’, aí eu disse que eu sou pedagoga né, e isso contribuiu muito pra ver esses sinais desde o começo”.

Segundo Jardini (2003 apud CABUSSÚ, 2009) as intervenções devem iniciar, preferencialmente, do 1° ao 4° ano do Ensino Fundamental, que corresponde às idades de 7 a 10 anos, por conta do processo de intervenção ser prolongado/demorado, recomenda-se que comece o quanto antes. A autora ainda afirma que para obter sucesso com o tratamento, é necessário que toda sua rede de convívio atue em conjunto com a equipe multidisciplinar, exigindo um esforço em conjunto (CABUSSÚ, 2009).

A entrevistada Sabrina conta que a coordenadora da creche onde sua filha ficava foi quem a ajudou a ir atrás do diagnóstico, pois ela já tinha tido essa experiência em outro local de trabalho e por isso falou de sua suspeita. Com a entrevistada Renata também foi a coordenadora da escola da sua filha, mas ambas as entrevistadas eram muito presentes e iam com frequência na escola. Segundo Braga e outros (2007) a família é muito importante no desenvolvimento e no processo de aprendizagem escolar da criança, pois é o primeiro núcleo social em que a criança se vê inserida, justificando que a presença das entrevistadas na escola fez diferença no processo de diagnóstico.

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15 Diante de várias situações que facilitaram o processo de diagnóstico, identificaram-se também no momento da análise dos dados, que houve alguns fatores que facilitaram o processo de diagnóstico. Apesar de todo o apoio e suporte, tanto de familiares quanto dos profissionais, é possível identificar nos discursos dos entrevistados as dificuldades que eles tiveram durante o percurso até chegar ao diagnóstico. A entrevistada Sabrina conta que sua história foi muito complicada, pois eles não tinham conhecimento sobre a primeira infância da Amábile, o que dificultou muito o processo. Então a psicóloga que atuava com a menina achava que ela não falava por ter traumas psicológicos, mas nunca suspeitou que pudesse ter algum trauma físico também como o DPAC.

A entrevistada Renata trouxe uma fala bem impactante sobre a dificuldade em diagnosticar sua filha, dizendo que “ela passou quase 8 ou 9 meses frequentando a psicóloga pra nada, no final das contas eu achava até que a psicóloga não queria ‘desmamar’ a menina porque não queria perder a paciente. Porque não ajudou em nada, não resolveu em nada o problema dela.” Esta percepção, caso se comprovasse verídica, seria uma falta de ética profissional por parte desta psicóloga, pois segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo de 2005, é vedado ao profissional que ele prolongue o atendimento ou qualquer serviço oferecido de forma desnecessária. Ela também afirma que os testes que a psicóloga queria fazer eram incompatíveis para a idade dela, então ela acabou não fazendo.

O entrevistado Ricardo afirma que a maior dificuldade para ele foi não poder fazer qualquer teste que pudesse ajudar a filha Mariana, porque na época do diagnóstico ela tinha 6 anos, e o diagnóstico só poderia ser confirmado quando ela pudesse fazer o teste com a psicopedagoga. A entrevistada Amanda relatou o mesmo problema sobre fazer o teste WISC com seu filho Artur antes da idade correta, mas ela conseguiu encontrar uma clínica escola que fizesse o teste antes da idade e, com isso, pôde descartar a hipótese dele ter Deficiência Intelectual.

Pode-se analisar com isso que, mesmo tendo profissionais dando apoio e suporte, muitas vezes aparecem empecilhos que fazem com que o processo de diagnóstico demore, tornando-se cada vez mais difícil e prejudicando, assim, a vida da família, da criança e a rotina da escola onde ela estuda. Silva (2009) afirma que esta dificuldade durante o processo de diagnóstico pode ocasionar em diagnósticos incorretos, podendo causar frustração nessas crianças e futuramente a evasão

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16 escolar. Entende-se que a evasão escolar ocorre pelo fato dessas crianças não possuírem a atenção que necessitam para poder entender o que está sendo passado, ocasionando desinteresse por parte desse aluno.

3.2. Processo de Inclusão e Relacionamento Social

O segundo eixo corresponde ao objetivo que pretende verificar a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre o processo de inclusão de crianças com Dislexia em seu relacionamento social na escola regular de Ensino Fundamental, tendo como categorias: Comunicação entre Professores e Pais e/ou Responsáveis; Comunicação entre Professores e Profissionais que Atuam com a Criança; Comunicação entre as Crianças; Recepção da Escola.

A partir do que foi analisado até agora, pode-se entender que é essencial que a criança tenha uma rede de relacionamento unida e com interesse em ajudar, para amenizar qualquer efeito da dificuldade na sua vida escolar. Com isso, o presente trecho abordará a comunicação entre professores e pais e/ou responsáveis dessas crianças. Cabussú (2009) afirma que a Dislexia, por ser um transtorno de extrema complexidade, precisa de uma equipe que apoie a criança, sendo eles os pais, professores e profissionais.

Todos os entrevistados apresentaram dificuldade em se relacionar com os professores das antigas escolas das crianças. A entrevistada Renata relata que “parece que as professoras têm certo medo de contar da dificuldade das crianças pros pais, é tudo muito cheio de ‘não me toques’, e isso atrasou bastante”. Nesta fala, podemos ver a relação desta categoria com a categoria “Dificuldades encontradas durante o processo de diagnóstico”, a qual foi apresentada no eixo de análise anterior.

O entrevistado Ricardo conta que quando começou a suspeitar que sua filha tivesse dislexia, foi até a escola pedir a atenção das professoras, falar sobre suas suspeitas, mas infelizmente elas não deram atenção. Quando a sua filha foi para o primeiro ano, a professora o chamou para falar que ela não estava pré-alfabetizada, sendo que ele já havia conversado com as professoras anteriores. Carvalhais e Silva (2007) mostram em seu estudo que os professores possuem muitas dificuldades em

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17 relacionar o conhecimento adquirido na graduação com a prática em sala de aula, podendo assim prejudicar o desenvolvimento da criança.

Pode-se evidenciar, nas entrevistas realizadas, que são poucos os profissionais que conhecem sobre a dislexia e, principalmente, sabem atuar com uma criança disléxica. A entrevistada Amanda teve muitos problemas na escola onde seu filho estudava durante o processo de diagnóstico, pois mesmo dizendo que Artur tinha dificuldades, as professoras ainda discordaram dela, fazendo com que ela se frustrasse cada vez mais. A preocupação da maioria dos pais entrevistados é de como seus filhos conseguirão evoluir, sendo que os profissionais que estão atuando em sala de aula não são qualificados o suficiente para apoiar a criança com dislexia.

Todos os entrevistados buscaram por uma escola que tivesse profissionais que pudessem ajudar seus filhos. As entrevistadas Renata e Amanda optaram por uma escola menor, na qual as salas de aula tinham um número menor de crianças, proporcionando assim mais facilidade para os profissionais atuarem com seus filhos. Mesmo optando por uma escola menor, Renata viu que lhes faltava conhecimento afirmando que “todas as professoras, até essa agora me preocupou um pouco porque ela não sabia nada sobre dislexia, e a psicopedagoga foi de novo na escola e acho que de repente até de todas é a que mais se empenhou em ler sobre o assunto”. Este presente relato vai ao encontro da próxima categoria, que aborda a comunicação entre professores e profissionais que atuam com a criança.

A entrevistada Sabrina conta que faz reuniões com os professores de sua filha apenas duas vezes ao ano, afirmando achar que eles não estão bem preparados para atender uma criança com Necessidades Educacionais Especiais ou com deficiência. Pode-se identificar que este relato vai ao encontro com os outros, mostrando que os profissionais de sala de aula, não conseguem relacionar adequadamente a teoria com a prática. Este cenário vai contra algumas políticas públicas, como a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI). A PNEEPEI afirma que o ensino para as crianças que possuem qualquer tipo de deficiência ou transtornos, deve ser inclusivo e de qualidade, tendo profissionais qualificados capazes de auxiliar essa criança como precisam, promovendo a sua inclusão (MEC, 2008).

Por isso identificou-se a necessidade de avaliar, pelo menos por meio dos depoimentos colhidos, como é a comunicação entre professores e profissionais

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18 que atuam com a criança. Nas entrevistas realizadas ficou claro que alguns dos profissionais que atuaram com as crianças, foram até as escolas para esclarecer as questões relacionadas às dificuldades da criança e para contribuir com informações necessárias que seriam capazes de modificar a forma como a escola avalia a criança. Apenas três entrevistados tiveram que levar esses profissionais nas escolas para esclarecimentos. Uma delas é a entrevistada Renata, que afirma ter levado a psicopedagoga na escola para conversar e explicar para a professora o que é a Dislexia, para que ela aprendesse a lidar com as crianças que a possuem.

A partir desta análise identifica-se, ainda mais, a necessidade em realizar estudos voltados para a área, principalmente para que os profissionais especializados possam ter espaço para colocar em prática o seu conhecimento, compartilhando este com outras áreas de atuação. Por isso a importância da equipe multidisciplinar não só para o diagnóstico, mas para atuação junto à criança, conciliando assim a teoria com a prática (CABUSSÚ, 2009).

Ricardo disse que na primeira escola da sua filha, a psicopedagoga foi conversar com a orientadora educacional e a professora, mas elas não concordaram com o diagnóstico e consequentemente não modificaram nada, por isso ele trocou sua filha de escola. Com a entrevistada Amanda a situação foi bem parecida: a Neuropsicopedagoga foi até à escola, pois eles não aceitavam que o Artur tinha Dislexia e queriam que ele repetisse o ano, mesmo ele tendo laudo, e Amanda afirma que o processo foi muito desgastante trazendo a fala “eu tinha que provar pra escola que ele não era preguiçoso”. Com esses relatos percebe-se que algumas escolas não apoiam essas crianças adequadamente, podendo gerar sofrimento para a família.

Tendo o conhecimento sobre como é o relacionamento entre os professores e os profissionais, identificou-se a necessidade de entender como é a comunicação entre as crianças em sala de aula. Dentre os entrevistados, dois falaram que seus filhos tem bom relacionamento com os colegas, e os outros dois afirmaram o contrário e até relataram sobre um possível bullying por parte das crianças.

Segundo Cabussú (2009), o ambiente escolar é um dos maiores estressores externos da criança disléxica, uma vez que ela se depara com outras crianças que não apresentam dificuldades na leitura e na escrita como ela. A entrevistada Amanda contou em seu relato que todos os amigos do Artur querem fazer atividades

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19 com ele, mesmo sabendo de suas dificuldades e limitações. Ela fala que seus amigos disputam para ver quem fará dupla com o Artur, afirmando que isso ajuda muito em sua autoestima, fazendo-o se sentir importante. O entrevistado Ricardo também afirma que sua filha tem um bom relacionamento com os colegas, pois suas dificuldades não atrapalham seu rendimento escolar, fazendo-a ser uma das melhores da turma.

Já a entrevistada Renata traz a fala “daí tem vezes que ela não quer muito ir pra escola porque eu acho que tem problemas de amigo e tal, as crianças já pegaram muito mais no pé dela” o que mostra o contrário da entrevistada Amanda. Renata diz que às vezes sua filha chega reclamando da escola, mas quando ela vai verificar, descobre que foi alguma coleguinha que implicou com ela. No relato de Sabrina é um pouco pior, pois ela conta que sua filha não era incluída nas brincadeiras por causa de uma menina só, ela diz que havia apenas uma menina que implicava com sua filha Amábile, fazendo todos os outros da turma excluí-la. Depois que a menina saiu da escola, Sabrina conta que a Amábile conseguiu se entrosar com as outras crianças, e agora elas passaram a ajuda-la.

Os autores Sekkel e outros (2010) afirmam que o convívio pode proporcionar experiências transformadoras nestas crianças, resultando em mais compreensão e respeito. A entrevistada Sabrina trouxe uma fala muito interessante, onde ela diz que: “se a gente colocar ela numa turma especial ali as crianças especiais vão trocar dificuldades, quando se coloca numa turma normal ela tende a absorver algumas coisas das outras crianças que já estão mais avançadas.” Afirmando que isso influencia muito no desenvolvimento de sua filha.

Analisando a relação dessas crianças com seus colegas, identificou-se que era imprescindível questionar os entrevistados sobre a recepção da escola a partir do diagnóstico realizado. Quando os entrevistados resolveram mudar seus filhos de escola, todos eles foram de antemão conhecer e ver se a escola realmente acolheria seus filhos com suas dificuldades, já que a antiga escola não fazia nada para ajudar. Apenas o entrevistado Ricardo buscou por uma escola que acolhesse sua filha com suas necessidades, independente do numero de crianças por turma. As outras três entrevistadas buscaram por uma escola menor, entendendo que o número de alunos por turma influenciava na forma como o professor atuava.

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20 O entrevistado Ricardo afirmou que foi muito bem recepcionado na escola nova, e relata que assim que mostrou o laudo de sua filha, ele afirma que “na matricula a gente explicou todas as dificuldades, no colégio eles falaram como que era o procedimento, como que eles trabalhavam e que eles tinham outras crianças com dislexia”. Segundo Barbosa e Conti (2011) a educação inclusiva é importante no sentido de que as escolas regulares devem acolher as crianças com Necessidades Educacionais Especiais - NEE nas salas de aula comuns.

A entrevistada Amanda disse entender que uma sala com muitas crianças não ajudaria o seu filho. Ela afirma que quando foi falar com a coordenadora, disse que estava pensando em segurar seu filho, ou seja, não deixa-lo passar de ano, mas a escola a surpreendeu dizendo que se ele tem laudo e CID, ele ia passar de ano sim. Com isso, identifica-se que a escola realmente inclui as crianças que possuem necessidades educacionais especiais, trazendo certo alívio para os pais e consequentemente qualidade de vida.

As entrevistadas Sabrina e Renata relatam que a escola de suas filhas são escolas muito afetuosas, que acolheram suas filhas com suas limitações e dificuldades. Todas as escolas mostraram na prática o que falaram no momento da matricula, promovendo a inclusão em todos os sentidos. Segundo Freire (2008) a inclusão é uma ação que preserva o direito de todos os indivíduos atuarem na sociedade em que vivem, frequentando onde quiserem independente de ser em deficientes ou não, sendo respeitados perante aquilo que os fazem ser diferentes dos outros, sendo no âmbito educacional, social ou político.

3.3. Procedimento de Ensino adotado na Escola

O terceiro e último eixo diz respeito ao objetivo que deseja verificar a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre o processo de inclusão de crianças com Dislexia sobre o procedimento de ensino adotado pela escola regular de Ensino Fundamental, dispondo como categorias: Recepção da Criança no procedimento de Ensino; Atividade Escolar Extraclasse.

Na análise anterior pode-se perceber como a escola recebeu seus alunos apesar de todas suas dificuldades e limitações. Discorre-se agora sobre como foi a

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21 recepção da escola no procedimento de ensino e após a análise do material, identificou-se imprescindível estabelecer duas subcategorias: Procedimentos de avaliação utilizados pela escola e Atribuição de notas.

Quando questionado aos entrevistados como eram os procedimentos de avaliação utilizados pela escola para avaliar seus filhos, todos falaram de provas, tarefas e trabalhos, apontando que eles passavam pelas mesmas avaliações de seus colegas, porém, com algumas adaptações. O entrevistado Ricardo afirma que a prova da sua filha é igual à de todos os colegas, mas no momento de corrigir é que as professoras levam em consideração suas dificuldades. Ele relata que as cobranças ortográficas são diferentes, pois enquanto as professoras descontam pontos dos colegas por cometerem esses erros, da sua filha elas não descontam, apenas sinalizam. Ele enfatiza também que a escola fornece um tempo extra se ela sentir necessidade durante as provas, o que ajuda muito.

Segundo Freire (2008) a inclusão é um direito de todos, trazendo como obrigatoriedade a ação de repensar as diferenças nas escolas, revendo os procedimentos de ensino para que ocorra uma transformação na sociedade em que se é inserida. A entrevistada Amanda deixa isso muito evidente em seu relato, no qual diz que as provas de seu filho são mais lúdicas, afirmando que todos na sala fazem o mesmo tipo de prova. Ela também relata que a escola oferece um tempo a mais se o Artur precisar, mas nesse momento ele consegue fazer junto com os colegas. Amanda relata que se preocupa com o próximo ano por conta das atividades e conteúdos aumentarem, mas a escola já se prontificou em ajudar, oferecendo ao Artur que termine a prova em casa ou vá até a escola no contra turno para poder finalizar a prova. Eles afirmam que é um direito dele utilizar esse tempo extra sem que os colegas saibam.

Segundo Mattos e Nuernberg (2010) as NEE se manifestam de varias maneiras e com causas distintas, exigindo recursos educacionais para dar suporte e atenção necessária que a criança necessitar. Tanto a entrevistada Sabrina quanto a Renata afirmaram que suas filhas possuem suporte da professora em relação à leitura e que as provas foram adaptadas para todos e não só para elas, e ainda afirmam que as mudanças ocorreram por orientação da psicopedagoga.

Com isso, foi surgindo à necessidade de falar sobre a atribuição de notas das escolas, pois outro motivo muito forte que fez com que todos mudassem seus filhos

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22 de escola, foi por que elas avaliavam as crianças sem levar em consideração suas dificuldades. A entrevistada Sabrina não mudou sua filha de escola, pois as atitudes foram mudando com as intervenções da psicopedagoga, e ela relata que ”antes a escola realmente avaliava a Amábile nú e crú, era tipo nota 3, 2, 1 e 0, e aí a gente tinha em contra partida a autoestima dela, que era terrível”. No entanto, em momento posterior ela fala que a psicopedagoga foi até a escola para orientar que fizessem prova oral com ela, consequentemente avaliando e levando em consideração todo seu esforço e dedicação.

Pode-se identificar com esta categoria de análise que, em vez de adaptar as atividades para seus filhos, as escolas modificaram para que todos fizessem a mesma atividade, beneficiando assim quem tem suas particularidades. A entrevistada Amanda afirma que “a escola dá muita possibilidade de tirar 9, e não é só prova, é trabalho, é o caderno, é ser pontual, tudo é uma nota, não é só a prova que é uma nota.” Ela ainda afirma que quando seu filho Artur vê seu boletim e não têm nenhuma nota abaixo da média, ele se sente muito bem e com isso eles identificam como é importante para a autoestima dele ver seu próprio êxito,

O entrevistado Ricardo afirma que sua filha Mariana ficava extremamente ansiosa, pois sabia que tinha errado na prova e achava que iria tirar nota baixa, mas, mesmo com erros ortográficos nada é descontado. Ele afirma que a nota da Mariana é boa, pois ela sabe a matéria, e o fato de não descontarem os erros ortográficos faz com que a autoestima dela aumente e ela se sinta confiante para continuar estudando.

Segundo Carvalhais e Silva (2007) as crianças que possuem sua autoestima elevada tendem a ter mais confiança sobre si, acreditando que conseguem executar atividades com mais propriedades e consequentemente passam a procurar obter mais conhecimento em situações inusitadas. Consegue-se, a partir desta análise, identificar também que muita contribuição em relação à autoestima da criança advém da inclusão da mesma em relação aos seus relacionamentos sociais.

A partir disso, houve o interesse por parte da pesquisadora de questionar se há alguma atividade escolar extraclasse, já que os entrevistados afirmaram que estudam em casa com seus filhos, dando a entender que essas atividades contribuem muito para que elas aprendam e consigam a tão desejada nota para passar de ano. Algo muito interessante e que chamou a atenção da pesquisadora foi

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23 o relato do entrevistado Ricardo, onde ele diz que “nas primeiras provas eu tava super preocupado por causa da letra cursiva então eu fazia um powerpoint animado com todas as matérias pra ela brincar de responder”.

Braga e outros (2007) explicam a importância que a família tem no desenvolvimento e no processo de aprendizagem da criança, pois é o primeiro núcleo social em que a criança se vê inserida. A entrevistada Amanda relata que todos na sua casa contribuem para que o Artur consiga fazer suas atividades e, principalmente estudar para as provas. Ela solicitou às professoras que tivesse acesso ao calendário de provas com mais antecedência, para poder ajudar o filho a estudar. Amanda afirma que “eu faço cartolina, ele faz desenho, ele faz esquema, ele faz seta, ele cola na geladeira, eu fico perguntando. Minha mãe também, minha família é muito parceira, minha mãe estuda, meu pai estuda, eu estudo, mas não é uma maneira que seja cansativa, mas sim lúdica”.

A entrevistada Sabrina diz que é muito difícil fazer atividades com sua filha em casa, pois ela não tem todo o conhecimento necessário para ajudar a filha, mas ela afirma que quando a Amábile começou a frequentar a psicopedagoga, tudo começou a melhorar. Os autores Casarin e Ramos (2007) falam exatamente sobre isso que a entrevistada relatou, sobre a família não se sentir preparada para ajudar a criança como ela necessita. Sabrina conta que a psicopedagoga fez sua filha se concentrar mais fazendo com que lá fosse mais fácil, já que em casa ela acabava fazendo birra e não realizava as atividades. Hoje depois de um tempo com o acompanhamento da profissional, Amábile está conseguindo fazer suas atividades tranquilamente.

Renata traz o relato muito parecido, dizendo que não consegue fazer as atividades com a filha em casa, mas que ela acaba fazendo as atividades com a psicopedagoga, apenas dois dias na semana ela faz em casa. Segundo Cabussú (2009) o psicopedagogo que atua na clínica consegue manter um olhar mais concentrado naquela criança e nas suas particularidades. Quando ele consegue identificar o que causa tanta dificuldade naquele sujeito, tudo se facilita a ponto de saber como intervir para que essa criança evolua na sua aprendizagem escolar, que é exatamente o que acontece com essas crianças. Identifica-se que o apoio familiar foi crucial para seu desenvolvimento, tanto escolar quanto psicológico, trazendo qualidade de vida para todos.

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24 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Dislexia, por se tratar de um Transtorno Específico de Aprendizagem, torna a vida escolar e acadêmica das pessoas que a possuem bem desafiadora, pois irão precisar conviver com os efeitos pelo resto da vida. Com isso, achou-se necessário entender como é a vida das crianças que possuem Dislexia, pela perspectiva dos seus pais e/ou responsáveis, com a intenção de conhecer mais sobre esse transtorno e seus efeitos na vida de quem tem dislexia e de seus familiares. A partir disso foi necessário traçar alguns objetivos específicos com a intenção de analisar os âmbitos pessoal, social e acadêmico da vida dessas pessoas.

Tendo-se em vista todas as necessidades, foram traçados três objetivos para dividir os temas que eram essenciais de serem investigados, sendo eles sobre o processo de diagnóstico da criança com dislexia, o processo de inclusão dessas crianças em seus relacionamentos sociais e o processo de inclusão nos procedimentos de ensino das escolas. Considera-se que esses três objetivos trouxeram os subsídios para sustentar o objetivo principal, que é de verificar a percepção dos pais e/ou responsáveis sobre a inclusão dessas crianças nas escolas de ensino regular.

No momento em que foi questionado aos pais sobre o processo de diagnóstico, todos ficaram muito mobilizados pelo diagnóstico em si, sabendo que seus filhos teriam que conviver com algumas dificuldades pelo resto da vida, mas se mostraram muito dedicados em ajudá-los nessa caminhada cheia de obstáculos. Dois dos entrevistados identificaram as dificuldades dos seus filhos durante atividades escolares extraclasses, ou seja, enquanto estudavam em casa com eles. As outras duas entrevistadas foram avisadas sobre as dificuldades de suas filhas por uma profissional da escola onde elas estudavam, mostrando que muitos profissionais estão atentos às questões das crianças. Todos os entrevistados procuraram profissionais da psicopedagogia para auxiliá-los no diagnóstico.

Houve diversos profissionais presentes durante o processo de diagnóstico, como neurologistas, psicopedagogas, fonoaudiólogas e até uma Neuropsicopedagoga, mas apenas uma das crianças foi atendida por profissional da área da psicologia. Há certa possibilidade da psicopedagoga e da

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25 Neuropsicopedagoga serem psicólogas de formação, mas esta informação não foi relatada. Uma das entrevistadas relatou que levou sua filha na psicóloga para ver suas questões comportamentais, porém ela afirma que a psicóloga não ajudou da forma como eles estavam esperando, resultando em receios por parte desta família quanto aos profissionais da psicologia.

Entende-se que foi necessário perguntar sobre o processo de diagnóstico dessa criança para compreender o que surgiria nas próximas perguntas, já que são em relação ao processo de inclusão escolar e social. Identificou-se ao longo da análise o quanto esses pais se preocupam sobre a inclusão de seus filhos, fazendo com que três entrevistados os trocassem de escola, procurando pela tão desejada inclusão. As primeiras escolas não eram inclusivas e não auxiliavam da forma como a criança necessitava, por isso ambos pegaram as características escolares que mais atendiam às suas necessidades e procuraram por escolas inclusivas.

As escolas escolhidas pelos entrevistados após a troca, mostraram acolhimento desde o primeiro momento, afirmando que auxiliariam seus filhos a se desenvolver respeitando suas dificuldades. Todas as escolas estão mostrando na prática o que afirmaram no momento das matrículas, deixando esses pais muito felizes. Entende-se que o bom relacionamento entre a rede que a criança está envolvida é de extrema importância, pois afeta no seu desenvolvimento trazendo qualidade de vida, tanto para ela quanto para todos a sua volta.

A partir dessas informações, espera-se que esta inclusão ocorra inclusive nos procedimentos de ensino das escolas, pois este é um dos âmbitos que mais influencia na vida desta criança, já que ela está totalmente relacionada às suas principais dificuldades. Analisou-se que os profissionais que estão diretamente vinculados às crianças precisam estar preparados para identificar suas dificuldades e adaptar as atividades escolares para que elas consigam fazer da melhor forma possível, resultando em aprendizado e satisfação em aprender. Os quatro entrevistados informaram que quando as atividades escolares foram adaptadas, as crianças conseguiram realizá-las e consequentemente ficavam extremamente felizes em entender o que estavam fazendo, transformando a experiência em algo totalmente positivo.

Após analisar todos os eixos, conclui-se que os pais e/ou responsáveis possuem o conhecimento de que, essas crianças quando são incluídas tanto nas

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26 atividades escolares quanto nos ciclos sociais, suas visões se modificam de algo ruim para algo satisfatório, aumentando assim sua autoestima respectivamente. Todos os entrevistados relataram sobre a autoestima de seus filhos, demonstrando que isso influencia completamente na vida da família. Sendo assim, o desfecho desta análise resultou em realmente entender como é a percepção des ses pais sobre a inclusão de seus filhos nas escolas regulares, concluindo que o objetivo principal foi alcançado.

Espera-se que este estudo traga interesse para futuros (as) pesquisadores (as) principalmente na área da psicologia, que tenham o interesse em atuar na área educacional, ganhando mais espaço na sociedade e nas escolas. A psicologia ainda possui muito a contribuir na área da educação, principalmente na inclusão de crianças, não só com transtornos de aprendizagem, mas sim com qualquer tipo de deficiência e superdotação. O futuro dessas crianças depende de profissionais qualificados e pessoas que estejam interessadas em ajudá-las independente de como for, trazendo para elas e para suas famílias a qualidade de vida tão desejada.

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