Coleção Ethos
Coordenação: Claudenir Módolo Alves
• Cérebro e o robô (O): inteligência artificial, biotecnologia e a nova ética, João de Fernandes Teixeira • Conceito de Deus após Auschwitz (O): uma voz judia, Hans Jonas
• Economia e bem comum: o cristianismo e uma ética da empresa no capitalismo, Élio Estanislau Gasda • Ética de Gaia: ensaios de ética socioambiental, Jelson Roberto Oliveira; Wilton Borges dos Santos • Ética e cidadania na educação: reflexões filosóficas e propostas de subsídios para aulas e reuniões, Antônio Bonifácio Rodrigues de Sousa
• Ética pós-moderna, Zygmunt Bauman
• Ética, direito e democracia, Manfredo Araújo de Oliveira
• Ética, direito e política: a paz em Hobbes, Locke, Rousseau e Kant, Paulo César Nodari • Hans Jonas e a filosofia da mente, Wellistony C. Viana
• Karl-Otto Apel: itinerário formativo da ética do discurso, Antonio Wardison C. Silva • Técnica, medicina e ética: sobre a prática do princípio responsabilidade, Hans Jonas • Tratado de bioética, Christian Byk
Élio Estanislau Gasda
ECONOMIA E BEM COMUM
O CRISTIANISMO E UMA ÉTICA
DA EMPRESA NO CAPITALISMO
Diretor editorial: Claudiano Avelino dos Santos Coordenação de revisão: Tiago José Risi Leme Capa: Marcelo Campanhã
Imagem da Capa: iStock
Editoração, impressão e acabamento: PAULUS
1ª edição, 2016
© PAULUS – 2016
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 – São Paulo (Brasil) Tel.: (11) 5087-3700 • Fax: (11) 5579-3627
paulus.com.br • [email protected] ISBN 978-85-349-4366-6
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Gasda, Élio Estanislau
Economia e bem comum: o cristianismo e uma ética da empresa no capitalismo / Élio Estanislau Gasda. – São Paulo: Paulus, 2016. – Coleção Ethos.
Bibliografia
ISBN 978-85-349-4366-6
1. Capitalismo - Aspectos religiosos - Cristianismo 2. Economia 3. Ética 4. Igreja Católica - Doutrina social 5. Mercado de trabalho - Aspectos religiosos - Cristia-nismo I. Título. II. Série.
16-04530 CDD-261 Índice para catálogo sistemático:
1. Trabalho e capitalismo: Igreja Católica: Doutrina social 261
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SUMÁRIO
ABREVIATURAS DOS TEXTOS BÍBLICOS CITADOS ... 9
SIGLAS DOS DOCUMENTOS DA IGREJA ... 11
INTRODUÇÃO ... 13
PARTE I ÉTICA, ECONOMIA, EMPRESA, CAPITALISMO CAPÍTULO 1 - ÉTICA, ECONOMIA E EMPRESA ... 25
Ética ... 26 Economia ... 29 Empresa ... 32 Reconciliar conceitos ... 35 CAPÍTULO 2 - CAPITALISMO ... 41 Origens ... 41
Revolução Industrial e sociedade de mercado ... 45
Empresa – uma periodização ... 47
Empresas anônimas holandesas e inglesas dos séculos XVII-XVIII ... 48
Capitalismo de empresa familiar britânico do século XIX ... 49
Corporações estadounidenses e capitalismo gerencial ... 50
CAPÍTULO 3 - EMPRESA NO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO ... 55
Sistema em permanente expansão ... 55
Globalização, um ciclo concluído? ... 59
Economia global financeirizada ... 60
(Neo)liberalismo, fundamento da financeirização ... 64
CAPÍTULO 4 - E-ECONOMY ... 67
Tecnologia e informação ... 67
Marx tinha razão ... 69
6
É l i o E s t a n i s l a u G a s d a
Gestão Network firm - Modelo de rede ... 74
Sharing economy (economia colaborativa) ... 78
CAPÍTULO 5 - TENTATIVAS DE INTEGRAÇÃO ... 83
Max Weber: a ética do trabalho ... 83
Werner Sombart: a transformação moral ... 84
Barnard Chester: a moralidade do dirigente ... 88
Peter Drucker: Business ethics (cultura corporativa) ... 90
Responsabilidade social ... 92
Eduard Freeman e os stakeholders ... 98
Códigos de ética ... 101
CAPÍTULO 6 - PROVOCAÇÕES ÉTICAS ... 103
Sociedade complexa ... 103
Desigualdade social ... 105
Trabalho escravo e exploração infantil ... 107
Discriminação racial e de gênero ... 108
Planeta contaminado ... 111
Consumismo e Marketing ... 114
Corrupção, sonegação, fraude ... 115
Poder dos bancos ... 117
CAPÍTULO 7 - EM BUSCA DE UMA NOVA IDENTIDADE ... 119
Competitividade e/ou responsabilidade? ... 119
Ética de mínimos e/ou ética de máximos? ... 122
Compromisso com o bem comum ou estratégia competitiva? ... 124
Linhas para pensar uma ética empresarial ... 125
Iniciativas ... 126
Pacto Global de Responsabilidade Corporativa ... 127
Guia de Sustentabilidade Empresarial ... 129
Princípio Global de Sullivan ... 130
ISO 26000: Ecodesenvolvimento e responsabilidade social ... 131
PARTE II DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA CAPÍTULO 1 - CRISTIANISMO E ECONOMIA ... 137
Perspectiva cristã ... 137
Inspiração bíblica ... 138
7
Moral econômica ... 142
Juízo moral da economia de mercado ... 146
CAPÍTULO 2 - A EMPRESA NA DSI ... 149
Leão XIII: O (im) possível equilíbrio entre trabalho e capital ... 149
Pio XI: Justiça social e a Subsidiariedade ... 151
Gaudium et spes: empresa como atividade humana ... 154
João Paulo II: papel social da empresa ... 157
Compêndio: empresa como espaço de liberdade ... 158
Bento XVI: A lógica do dom ... 160
CAPÍTULO 3 - ELEMENTOS FUNDAMENTAIS ... 165
A vocação do líder empresarial ... 165
Dignidade humana ... 166
Índole humanista do cristianismo ... 169
Bem comum ... 176
Bem comum como bem público ... 178
Bem comum universal ... 179
Bem comum e Justiça social ... 183
Destinação universal dos bens ... 185
Empresa e bem comum ... 188
CAPÍTULO 4 - POSSIBILIDADES OPERACIONAIS ... 195
Satisfazer as necessidades do mundo com bens verdadeiramente bons ... 195
Um dilema: satisfazer as necessidades ou o consumismo? ... 196
Novo nome da avareza? ... 201
Responsáveis pelo consumo ... 203
Priorizar as necessidades reais das pessoas ... 206
Acabar com a privação de cidadania ... 207
Grande desafio: promover os pobres à condição de agentes ... 212
CAPÍTULO 5 - JUSTA DISTRIBUIÇÃO, TRABALHO E SUBSIDIARIEDADE .. 215
Justiça, a primeira virtude ... 215
Uma preocupação antiga ... 215
Nas sociedades democráticas ... 217
A complexidade da justa distribuição ... 219
Sistema tributário/fiscal ... 223 S u m á r i o
8
É l i o E s t a n i s l a u G a s d a
Solidariedade e sistema tributário ... 226
Organizar um trabalho bom e produtivo ... 231
Trabalho Digno, Trabalho Bom ... 231
Erradicar o trabalho análogo à escravidão ... 234
Trabalho sustentável ... 236
Subsidiariedade ... 243
PARTE III ESPIRITUALIDADE CAPÍTULO 1 - VIVER AQUILO QUE SE É ... 251
Uma integração complicada ... 251
O que é espiritualidade? ... 253
Fé cristã, crer ... 257
Espiritualidade Trinitária ... 259
Por Cristo, com Cristo e em Cristo ... 261
Encarnada e comunitária ... 263
Toda pessoa é um mistério sagrado ... 265
CAPÍTULO 2 - ESPIRITUALIDADE NA VIDA COTIDIANA ... 267
Resposta diária ao amor de Deus ... 268
Mística: buscar a Deus em todas as coisas ... 269
Dimensão vocacional ... 273
Discernimento ... 278
Homens e mulheres de Esperança ... 287
Dai-lhes vós mesmos de comer (Mt 14, 16): uma utopia? ... 290
CAPÍTULO 3 - DESAFIOS DE UMA EMPRESA ORIENTADA POR VALORES ... 295
Pessoa humana como centro; bem comum como objetivo ... 295
O desafio da liberdade ... 298
Solidariedade e liberdade são complementares ... 301
Pobreza, desigualdade e espiritualidade ... 304
Revendo nossas lentes: uma reflexão sobre esse empreendedor ... 311
Assumindo o desafio ... 314
CAPÍTULO 4 - O BEM QUE AS EMPRESAS PODEM FAZER: RELATO DE UMA EXPERÊNCIA ... 319
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INTRODUÇÃO
A vocação de um empresário é uma nobre tarefa, sempre que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto lhe permite servir verdadeiramente
ao bem comum, com seu esforço por multiplicar e tornar mais acessíveis os bens deste mundo para todos.
(Evangelii Gaudium, 203)
O
mundo dos negócios ocupa o centro das preocupações deste livro. Os mercados financeiros, de bens e serviços, o mundo do trabalho e o Estado estão interconectados. Como atuar para que seja fomentada a cooperação entre pessoas, mercados, empresas e governos?Essa é uma pergunta moral, não apenas uma questão técni-ca. As dificuldades dos agentes econômicos para desempenhar suas funções incluem também as opções éticas que podem fundamentá-las. Na economia, cada indivíduo tem seu modo distinto de ver as coisas. Quem se ocupa profissionalmente dos negócios prefere ver seu trabalho como propriamente técnico. Também as falhas têm uma causa estritamente técnica. Quem aponta problemas éticos no mercado geralmente são indivíduos
externos a esse mundo: sociólogos, filósofos, religiosos, professores,
políticos, ONGs.
Esta é a preocupação de fundo: o reducionismo técnico acabou exilando a ética dos espaços de decisão. Por um lado, o passado e o presente estão fechados; são o que são — podem ser critica-dos, mas não mudados. Por outro, o futuro está aberto, depende das decisões pessoais e coletivas tomadas no presente. O futuro não é o resultado mecânico do passado. Somos livres, racionais, relacionais e autônomos. Somos chamados a prestar contas de nossas ações. Somos seres culturais e geradores de cultura.
Tam-14
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bém no mundo dos negócios, as pessoas atuam culturalmente. São responsáveis. Decidir e agir com responsabilidade é uma atitude ética.
No mundo dos negócios, nem sempre somos responsáveis pelas consequências de nossas decisões e ações. Os efeitos de uma ação não dependem unicamente de nós, mas dos outros, do contexto econômico e social que não controlamos. Continua-mos responsáveis por nossas ações (moral), mas não totalmente responsáveis por suas consequências (geral).
A responsabilidade moral nos situa no campo das relações so-ciais. Os fins éticos sempre são coletivos. Cada indivíduo participa na sociedade com sua moralidade própria, diretamente ou nas organizações. Então, como relacionar a moral da pessoa com a cultura moral de uma empresa? Toda organização é reconhecida pela forma como atua, seus princípios e códigos de conduta. As opções éticas podem modificar a cultura de uma organização? Este livro acredita que sim.
Em primeiro lugar, a figura do dirigente tem grande aceitação na organização econômica. Os conflitos de interesse fazem parte do seu cotidiano. Contudo, nem sempre ele tem toda a infor-mação adequada para a tomada de decisões. A complexidade econômica na qual está envolvido, a globalização dos mercados, o sistema financeiro, o tamanho da empresa, a intervenção de outros agentes fazem com que seja necessário delegar muitas decisões a terceiros. Muitos empresários e dirigentes confiam as decisões, o planejamento e as estratégias a especialistas, a marqueteiros e contabilistas. Nesse universo de atores, a empresa torna-se uma verdadeira arena de conflito de interesses: interesses de mercado, dos acionistas, dos conselhos de administração e financeiro, dos trabalhadores, do governo, dos consumidores.
Se dificilmente um diretor de empresa decide algo sozinho, do ponto de vista ético, levanta-se a questão: até onde uma decisão é realmente dele? E, portanto, ele é responsável
moral-15
I n t r o d u ç ã o
mente por ela? O que acontece, então, se a intencionalidade de uma decisão consiste em integrar-se ainda mais na empresa (escalando degraus na hierarquia, aumentando-se a remuneração etc.), assumindo como próprios os objetivos dela? A inteligên-cia e a liberdade da decisão moral andam comprometidas pela competitividade no interior da empresa. A ética profissional fica em que plano?
Em segundo lugar, a empresa também se caracteriza como um sujeito moral coletivo e pode modificar a moralidade de uma pessoa. Muitas convicções éticas pessoais são colocadas de lado diante das exigências da adoção da cultura organizacional. Apesar disso, as empresas podem ser espaços exemplares de vivência de uma nova cultura moral. Este livro entende a em-presa como um organismo social que interage com pessoas, com outras empresas, com os poderes públicos e o meio ambiente. Ainda que se fale com uma pessoa em particular (dirigente/ empresário), não se trata realmente com esse indivíduo, mas com uma organização que conta com protocolos e metas, representada por essa pessoa. Ela é a porta voz da política e da cultura da empresa no mercado e na sociedade. O dirigente e o empresário se comportam segundo essa identidade. Seu espaço de autonomia é reduzido diante dessa personalidade coletiva que é a empresa e sua cultura organizacional. Ele fala e decide em nome dos objetivos da empresa, dos códigos, dos associados ou em seu próprio nome?
Em terceiro lugar, o espaço por excelência do encontro entre trabalho e capital continua acontecendo no interior da empresa. A maioria da população economicamente ativa passa um terço do dia no trabalho. Ao lado do Estado, a empresa é uma das organizações mais influentes da sociedade, exercendo um pro-fundo impacto sobre os comportamentos públicos e na política. Mas o que aconteceu na história para levar essa organização primordialmente econômica a exercer tamanha influência social?
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Como evoluiu a empresa atual? Qual é o presente da empresa? Qual poderá ser o futuro?
O livro dirige um olhar ético e religioso para a empresa. A ética, como ciência que estuda os valores, os princípios e a nor-matividade moral, é dos assuntos mais debatidos do momento. Está na mídia, na universidade, na política, na economia, na medicina, na família, nos comportamentos sexuais etc. A ética leva em conta a realidade e o contexto histórico social no estudo dos comportamentos. A empresa, como organização que busca primordialmente fins econômicos, é uma instituição integrada no interior de um sistema econômico. Por isso, o livro a situa no interior do capitalismo atual.
O capitalismo é um sistema econômico, ou seja, um conjunto de elementos inter-relacionados desenhados para alcançar fins de modo mais eficiente. A atividade econômica está voltada para o mercado, e sua principal motivação está na acumulação de capi-tal. Entre seus componentes materiais, incluem-se a tecnologia, a relação capital e trabalho e os recursos naturais. O dinheiro financia toda a atividade econômica. “Os mercados de dinheiro são o quartel general do capitalismo” (Joseph Schumpeter). Entre as instâncias institucionais, destacam-se o sistema monetário que gerencia o dinheiro, a produção e o intercâmbio mercantil de bens e serviços conduzidos pela empresa.
Nesse sentido, é inevitável que o mercado seja uma arena de conflito entre trabalho e capital (Karl Marx), trabalhador e trabalhador (Max Weber), finanças e produção (George Soros). Pensar uma hipotética ética para o mercado ultrapassa as pretensões deste livro, é algo que mereceria outra (árida e paciente) inves-tigação. O mercado é um elemento do sistema. A produção de bens e serviços para satisfazer o mercado é realizada pela empresa. A empresa, no sentido moderno da palavra, nasce com o ca-pitalismo e designa uma entidade jurídica, de caráter individual ou corporativa, com fins lucrativos, organizada para oferecer bens
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e serviços no mercado. Os componentes materiais e as demais instâncias do capitalismo se encontram na empresa. Mas a gestão da empresa, assim como a do mercado, não se baseia unicamente na mão invisível, mas nas decisões de agentes econômicos: pes-soas com valores, interesses e princípios. Existe uma cultura de empresa. O empresário tem a capacidade de modificar a natureza do mercado.
A empresa não é uma entidade isolada. Ela é, também, uma unidade de produção social. Keynes define as economias capi-talistas como economias empresariais. Trata-se de uma estrutura complexa que abarca diversos aspectos: grupo humano, institui-ção social, organizainstitui-ção econômica, espaço de desenvolvimento científico-tecnológico. Contudo, o humano está na origem, na evolução e na finalidade da empresa. A empresa não se reduz a seus membros. É uma instituição social. Enquanto tal, tem compromissos e responsabilidades sociais. Todas as dimensões apontam para a ética.
Subornos, extorsões, danos ambientais, exploração do tra-balhador, fraude fiscal etc. O interesse pela dimensão ética está relacionado com o desgaste sofrido pelas empresas a partir do final da década de 1960. Watergate foi um escândalo de propor-ções ainda maiores que Enrom, Halliburton, Siemens/Alstom. Companhias passaram a incorporar códigos de ética, institutos publicam revistas especializadas, disciplinas acadêmicas são inse-ridas nas universidades, associações de empresários são fundadas. Proliferam cursos, códigos, projetos etc.
O livro não visa submeter toda a atividade econômica aos ditames da ética, mas quer identificar e explicitar o conteúdo ético que lhe é consubstancial. O texto reflete sobre o significa-do e a necessidade de uma ética para a empresa no contexto significa-do capitalismo global, que proporcione uma base conceitual para apoiar sua atuação. O objetivo é colaborar com a aproximação da ética à prática empresarial, superando visões caricaturescas.
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Alguns pensam que a ética se resume a fazer obras assistenciais ou adotar uma atitude paternalista.
Do ponto de vista religioso, o exílio da ética provocou a grande turbulência do capitalismo financeiro. Para Bento XVI, “o desenvolvimento econômico foi e continua a ser afetado por anomalias e problemas dramáticos... e o objetivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza” (Caritas
in veritate, 21).
O interesse da Igreja pelos pressupostos éticos da economia fundamenta-se no fato de que “a ética leva a Deus, que espera uma resposta comprometida que está fora das categorias do mer-cado” (EG, 54). Fé cristã e ética são duas faces de uma moeda. A Doutrina Social da Igreja tem uma contribuição, ainda que modesta, a oferecer na esfera da economia.
A reflexão iniciada com Leão XIII (Rerum novarum) ganhará impulso com seus sucessores até os dias da Encíclica Laudato si’ (LS), do papa Francisco. O conceito de ética de empresa fundado na dignidade humana e no bem comum alcançará sua maturidade no documento Centesimus annus, de João Paulo II, no Compêndio
da Doutrina Social da Igreja, e, finalmente, no subsídio A vocação do líder empresarial, elaborado pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz.
O livro está organizado em tem três partes. A primeira iden-tifica conceitos centrais: ética, economia, empresa e capitalis-mo. A ética empresarial é um dos campos da ética econômica (capítulo 1). Contextualiza-se a empresa tanto nas origens do capitalismo (capítulo 2) quanto na forma como se apresenta no século XXI — global, liberal, tecnológica e financeirizada (capítulo 3). Atenção especial será dada à empresa como sistema complexo altamente tecnológico (capítulo 4). Acompanhando essa trajetória histórica, o livro identifica as diversas tentativas de integrar a ética na vida da empresa (capítulo 5). Atualmente, quais seriam as grandes provocações da sociedade para a empresa
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(capítulo 6)? Tais provocações exigem repensar a identidade e o papel das organizações econômicas. Existem diversas iniciativas que apontam para a emergência de um novo conceito de em-presa (capítulo 7).
A segunda parte aborda a contribuição do olhar religioso, especificamente do cristianismo, para uma ética da empresa. A contribuição da Doutrina Social da Igreja inspira-se na mensa-gem do Evangelho proclamado por Jesus Cristo (capítulo 8). O livro passa em revista os documentos da Igreja que abordam a empresa (capítulo 9). Tendo como referência o subsídio A
voca-ção do líder empresarial, passa-se a aprofundar os dois pilares dessa
contribuição, a dignidade humana e o bem comum (capítulo 10). A abordagem das possibilidades operacionais desses princípios complementa a reflexão: satisfazer as necessidades do mundo com bens verdadeiramente bons (capítulo 11); justa distribuição, trabalho bom e subsidiariedade (capítulo 12).
Falta uma questão: como integrar a espiritualidade na direção da empresa? Esta é a pergunta condutora da terceira parte. Muitas pessoas se sentem divididas entre quem são como seres religio-sos e quem são como profissionais. Negócios e espiritualidade podem se integrar? O livro apresenta o cristianismo como uma religião que pode contribuir para a explicitação das estratégias de integração entre vida profissional e espiritualidade (capítulo 13). A consciência de que sua atividade no mundo pode ser uma resposta ao amor de Deus distingue um dirigente cristão de outros dirigentes (capítulo 14).
Quais são os grandes desafios de uma gestão orientada por valores? É a pergunta que faz Carmen Migueles, professora da Fundação Getúlio Vargas (capítulo 15). A responsabilidade so-cial empresarial atinge seu potenso-cial quando se reconhece que o papel central da pessoa na empresa tem por objetivo o bem comum. Na empresa, é possível trabalhar com a missão de aju-dar as pessoas a descobrir as fontes de seu comportamento e os
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princípios correspondentes, apoiando a todos na vivência e na prática de valores orientados pela ética.
Responsabilidade empresarial com princípios cristãos. É possí-vel? Os assuntos abordados aqui guardam sintonia com as propos-tas da UNIAPAC (União Internacional dos Executivos Cristãos de Empresa). O livro conclui com um relato do empresário e presidente da UNIAPAC-América Latina, Sérgio Cavalieri, que articula os diversos temas tratados no texto com a experiência de seu grupo empresarial (capítulo 16). A UNIAPAC trabalha na formação de líderes de empresas para que pratiquem na gestão de seus negócios os mesmos valores que professam como cristãos. No Brasil, a entidade se faz presente por meio da ADCE (Asso-ciação de Dirigentes Cristãos de Empresa). A Doutrina Social da Igreja serve de inspiração e fortaleza para que empresários e empreendedores superem questões delicadas, tão comuns ao confrontar fé e vida, no dia a dia da empresa.
O autor é investigador da área da ética econômica, política e social, com enfoque no capitalismo (sistema econômico) e no mundo do trabalho (setor produtivo). Nesse sentido, esta publi-cação insere-se no mesmo campo temático das obras anteriores:
Trabalho e capitalismo global: atualidade da doutrina social da Igreja
(Paulinas, 2011) e Cristianismo e economia: repensar o trabalho além
do capitalismo (Paulinas, 2014).
O livro pretende ser uma modesta contribuição, entre tantas outras. Oferece uma bibliografia de grande utilidade para estu-dos posteriores. O leitor também será contemplado com uma perspectiva histórica imprescindível para entender o contexto atual. Por último, mas igualmente importante, o olhar crítico, rigoroso e honesto da atual conjuntura é o fio condutor do texto. Subsidiar, formar, abrir caminhos.
A gênese deste texto remonta a 2010, a partir de anotações oferecidas aos participantes de Encontros de reflexão para dirigentes