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7º SEMINÁRIO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS. 23 a 26 de julho de 2019 PUC MINAS. Área temática: Instituições e Regimes Internacionais.

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7º SEMINÁRIO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

23 a 26 de julho de 2019

PUC MINAS

Área temática: Instituições e Regimes Internacionais.

QUANDO A ESTABILIZAÇÃO DO “SELF” BRASILEIRO

DEPARA-SE COM A DELIMITAÇÃO DO OUTRO

VENEZUELANO:ANÁLISE DA (IN)SEGURANÇA ONTOLÓGICA

NO FLUXO MIGRATÓRIO VENEZUELANO

Victória Figueiredo Machado

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Resumo:O recrudescimento do movimento migratório venezuelano em direção ao Brasil exacerbou reações governamentais e da sociedade baseadas em uma lógica de segurança nacional. Tendo em vista a percepção da população e das instituições brasileiras acerca do caráter “ameaçador” desse fluxo, as fronteiras tornaram-se o lócus do exercício de soberania e mobilização da segurança ontológica - termo usado por Catarina Kinnvall- do “self” brasileiro em detrimento do “outro” venezuelano. Buscando problematizar essa dinâmica, de como a segurança ontológica do Self brasileiro está vinculada com a securitização da migração venezuelana, postulando fronteiras físicas e subjetivas no acolhimento e integração desses refugiados, o presente artigo contará com uma dupla leitura. O primeiro movimento buscará discutir de que forma a soberania estatal cria e mobiliza identidades a favor de uma unidade e homogeneidade nacional,diferenciando-se daqueles “sem raízes nacionais”.Ademais, demonstrará como o conceito de segurança ontológica é alcançado através de discursos que valorizam o humanitarismo e acolhimento da nação mas que ao mesmo tempo reitera uma divisão entre cidadão e refugiado,insider e outsider, residente de uma nação estável,democrática e o oriundo de caos, autoritarismo.Posteriormente, o enfoque será deixar ecoar a narrativa desses “outros venezuelanos” e entender suas vivências nos abrigos, analisando como os mesmos sentem a postura governamental brasileira em aspectos mais subjetivos,identitários de seus cotidianos.Nesse momento, o artigo questionará se é possível afirmar que os abrigos configuram–se como espaços de controle e poder, possibilitando insegurança ontológica, ou seja, se essa política estatal pode ser sentida através de uma busca por adaptação identitária.Tendo isso em vista, a presente reflexão tem como objetivo central demonstrar como a”. migração venezuelana permite a reafirmação da segurança ontológica brasileira, possibilitando o “humanitarismo vanguardista da nação” e, ao mesmo tempo, em uma lógica securitizada, estabelece o nós versus os outros, delimitando identidades contrastantes e diferenças que devem ser “administradas”.

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Quando a Estabilização do “Self” brasileiro depara-se com a delimitação do “Outro” venezuelano: análise da (In)segurança ontológica no fluxo migratório venezuelano

Victória Figueiredo Machado1

Introdução

A temática do refúgio configura-se como um dos grandes desafios teóricos e normativos da atualidade, envolvendo questões jurídicas, éticas, econômicas, humanitárias e políticas a nível nacional e internacional.Sob a lente dos estudos de Segurança, esse assunto torna-se ainda mais nebuloso, haja vista que pode ser lido por diferentes correntes com preocupações desde ameaças materiais e soberanas - com enfoque no controle de fronteiras, vigilância, defesa - até mobilizações discursivas e xenófobas contra essa circulação heterogênea intimidando o “construto homogêneo nacional”.

Assim sendo, é fundamental uma reconceitualização do conceito de segurança para além de ameaças físicas,objetivas, observando a ontologia, identidade do self tanto de Estados quanto de indivíduos. Levar em conta a segurança como um conceito amplo,alvo de críticas, disputas, contestações, pelo qual sociedades institucionalmente e discursivamente posicionam indivíduos em estruturas de marginalização, exclusão, inferioridade é parte chave do esforço reflexivo e crítico dessa proposta:

“No other concept in international relations packs the metaphysical punch, nor commands the disciplinary power of "security." In its name, peoples have alienated their fears, rights and powers to gods, emperors, and most recently, sovereign states, all to protect themselves from the vicissitudes of nature--as well as from other gods, emperors, and sovereign states. […]And, less often noted in international relations, in its name billions have been made and millions killed while scientific knowledge has been furthered and intellectual dissent muted” (DER DERIAN ,1995,p.12

).

Tendo isso em vista, para além do tratamento burocrático, visando legitimidade internacional ou abordagem securitária, constantemente construindo o outro como uma ameaça a ser controlada e contida, é imprescindível a compreensão do poder discursivo do conceito de segurança

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Mestranda do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio.

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no tratamento do refúgio, relembrando seus significados esquecidos, entendendo suas utilizações atuais, reinterpretando e, possivelmente, construindo um conceito de segurança confortável com a pluralidade, de significados múltiplos e identidades fluidas(DER DERRIAN,1995).

Dessa forma, essa discussão perpassa diversos agentes políticos – sejam acadêmicos, atores governamentais, organizações internacionais, entidades privadas ou mesmo cidadãos comuns – com variados propósitos nos mais diferentes contextos. A fim de permitir uma compreensão crítica desses termos de refúgio e segurança em sua multiplicidade, é imprescindível um abrangente levantamento sobre a história dos conceitos, os interesses dos atores que os estão operando, as agendas político- econômicas envolvidas, tanto no passado, quanto contemporaneamente e o entendimento de que

ambos os termos além de pérfidos, são

ubíquos,multifacetados,parciais,devendo ser questionados infinitamente .

Partindo desse entrelaçamento e relacionamento dos estudos de Segurança com a temática do refúgio, busco analisar de que maneira o recrudescimento do movimento migratório venezuelano em direção ao Brasil principalmente no ano de 2017 exacerbou reações governamentais baseadas em uma lógica de segurança nacional concomitante a um humanitarismo vanguardista.

Em termos quantitativos, o Brasil registrou em 2017 o maior número de solicitações de refúgio desde o começo da série histórica do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça. Foram 33.865 solicitações contabilizadas em todo o país. Esse número representa quase o triplo dos pedidos registrados em 2016 (uma alta de 228%). Antes, o recorde de solicitações tinha sido alcançado em 2014, quando houve 28.670 requerimentos de estrangeiros (CONARE,2018).

Tendo em vista a percepção da população e das instituições brasileiras acerca do caráter “ameaçador” e desordenado desse fluxo, as fronteiras tornaram-se o lócus de exercício de soberania, militarização, performatividade de identidade e mobilização da segurança ontológica do “self” brasileiro em detrimento do “outro” refugiado venezuelano.

Dessa maneira, o presente artigo visa indagar de que forma, através de quais dispositivos discursivos o refúgio é mobilizado como ferramenta de

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estabilização da segurança ontológica nacional(fortalecendo ideal de acolhimento, multiculturalismo, vanguardismo) no contexto migratório venezuelano. Para tanto, a primeira seção buscará refletir acerca do próprio conceito de segurança ontológica, suas implicações e possibilidades de reflexão acerca da provisoriedade da identidade e a necessidade de constante rearticulação dessa definição para sua consolidação e fortalecimento. Nesse sentido, será evidenciado a utilização brasileira desse conceito, valorizando a legislação como uma das mais avançadas no continente – buscando exportar uma imagem da nação como humanitária, acolhedora, multicultural – como forma de estabilização dessa identidade instável, heterogênea, disputada. No segundo momento dessa primeira seção, será exposto como os discursos de humanitarismo, ao delimitar um outro, fora, estrangeiro, acabam gerando uma securitização da migração venezuelana, ao reiterar uma veemente divisão entre cidadão e refugiado,insider e outsider, residentes de uma nação estável,democrática e os oriundos do caos, autoritarismo.

Feita essa análise macro, a segunda seção buscará explicitar de que forma essa segurança ontológica é manifesta na prática, ou seja, como essa prática discursiva de diferenciação entre o self e o outro é expressa na fronteira entre Brasil e Venezuela, nos acolhimentos “mais emergenciais” que estariam ocorrendo em Pacaraima e Boa Vista, seguindo uma lógica militarizada.Nesse momento, a discussão ocorrerá no âmbito da realidade dentro dos abrigos, das regras de conduta a serem seguidas e de uma “autonomia limitada” por normas.

É importante ressaltar que essas indagações acerca das microdinâmicas são fruto de pesquisas em artigos científicos, matérias jornalísticas sobre os abrigos e do breve contato da pesquisadora com alguns abrigos em Boa Vista e em Pacaraima no início de junho de 2019 e que não busca estabelecer uma verdade sobre um complexo processo de vivência dentro dos abrigos.Pelo contrário, essa seção busca expor incipientes indagações, incômodos, dúvidas, contestações em relação a um sistema de proteção e abrigamento que recebe inúmeras demandas, dificuldades, almeja se adaptar para prover um melhor atendimento a essa população vulnerável mas que de certa medida, por enfocar em ordem, estabilização, pode acabar dificultando uma prolífica integração dos refugiados no cenário local.

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Portanto, de forma ampla, a fim de compreender esse problemático fenômeno de estabilização, ordenamento interno concomitante ao acolhimento de refugiados, o paper utilizará como base a abordagem pós-estruturalista,focando na construção discursiva de subjetividades e da identidade coletiva da “nação brasileira”, bem como nas consequências políticas de determinados discursos e práticas no tocante à identidade, segurança e mobilidade. Nesse sentido, um dos grandes interesses dessa pesquisa é entender como os discursos identitários,nacionalistas do Brasil acolhedor, multicultural no tocante ao refúgio é desenvolvido sob uma lógica securitizada de delimitação da alteridade, desencadeando em um momento no qual o humanitarismo encontra a militarização do espaço e de corpos.

1.1 Mobilização da Segurança ontológica brasileira: disputas acerca

pertencimento,cidadania, identidade nacional(Self) versus

refugiado,outsider (Outro)

“While physical security is (obviously) important to states, ontological security is more important because its fulfilment affirms a state’s self-identity (that is, it affirms not only its physical existence but primarily how a state sees itself and secondarily how it wants to be seen by others). Nation states seek ontological security because they want to maintain consistent self-concepts, and the “Self” of states is constituted and maintained through a narrative which gives life to routinised foreign policy actions”.(STEELE, 2008,p.2-3)

O conceito de segurança ontológica tem como gênese as indagações psiquiátricas de Laing3(1990,p.39) que buscava uma compreensão mais profunda da segurança do ser para além de visões filosóficas, encarando esse fenômeno como uma questão de vida e morte circundada pela sensação de exercício de identidade,autonomia, pertencimento,completude.

Giddens (1991) utilizou esse conceito no campo das ciências sociais para postular que um senso de ordem, estabilidade e rotina se combinam para dar significado à vida, enquanto caos, turbulência ameaçam a segurança, criando um estado de ansiedade e desconfiança na previsibilidade da vida.Segundo Vieira(2018,p.147) a contribuição de Giddens foi estabelecer o

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Ver definição em: "Precariously differentiated from the rest of the world, so that his identity and autonomy are always in question[ ... ) If a position of primary ontological security has been reached, the ordinary circumstances of life do not afford a perpetual threat to one's own existence. If such a basis for living has not been reached, the ordinary circumstances of everyday life constitute a continual and deadly threat [ ... ) If the individual cannot take the realness, aliveness, autonomy, and identity of himself and others for granted, then he has to become absorbed in contriving ways[ ... ) of preserving his identity, in efforts, as he will often put it, to prevent himself losing his self." (LAING,1990,p.42)

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elo intersubjetivo entre indivíduos e estruturas sociais que eles confiam para sustentar sua segurança enquanto Laing estava preocupado com a psicologia individualizada e inconsciente.

Dentro das Relações Internacionais,o estudo da segurança ontológica desenvolveu-se em várias direções, ora tendo enfoque nesse senso de self do Estado(Steele,2008)ora no indivíduo(Croft,2012),distinção que relembra a divisão e disputa entre estudos tradicionais de segurança e segurança humana. Contudo, o presente artigo buscará ressaltar a co-constituição, complementaridade entre a sensação de segurança identitária, pertencimento tanto do indivíduo quanto do Estado -movimento feito por Mitzen(2006) — entendendo a natureza das inseguranças coletivas dentro e além das fronteiras do Estado — valorizando assim a importância desse conceito para o campo de estudos internacionais, tendo em vista a interseção entre segurança, cidadania, identidade, discursos:

[…]It is a different way of understanding security than is used in conventional IR theory, and therefore ‘security-seeking’ is through dynamics different from those that are traditionally studied. Not only does this draw attention to other types of action as security-seeking – habitual as much as intentional, routines and rhetoric as much as behaviour – but it also suggests that if the actors in world politics seek ontological as much as physical security […] (KINNVALL, MITZEN, 2017,p.4)

De acordo com Kinnvall(2004,p.746) “a segurança ontológica refere-se ao senso fundamental de segurança da pessoa no mundo e inclui uma confiança básica de outras pessoas”. Tendo em vista que o ser humano está inserido em uma lógica de desejo, em uma busca incessante por

unidade,enquadramento na ordem social

(EDKINS,PERSRAM,PIN-FAT,1999,p.4)essa noção pode ser lida como um sentimento de credibilidade, veracidade do que o mundo é e será, quebrando com essa incerteza, ansiedade existencial tão presente nos tempos de globalização.

A segurança ontológica,portanto, relaciona-se com o senso de continuidade biográfica e integridade que é reconhecida através das relações entre o self com os outros (KINNVALL,MITZEN,2017,p.2). Esse imperativo de uma identidade segura é imprescindível , tanto para o que ela possibilita - relações sociais duradouras - quanto para o que a sua ruptura pode causar - conflito e violência (KINNVALL,MITZEN,2017).

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central para salientar como a busca por identidades homogêneas,unitárias e consistentes continua a desempenhar um papel crucial nas narrativas lineares que indivíduos e Estados constroem para dar sentido a si mesmos em termos de estabilidade da continuidade biográfica(KINNVALL,2017).

Apesar dessa escolha conceitual, a pesquisa concorda com as críticas4 ao uso desse conceito como forma de essencializar as identidades existentes, ou seja, o presente artigo compreende os riscos e armadilhas desse conceito e por isso, almeja propor uma releitura desse termo tendo em vista o caráter fluido,relacional, discursivo das identidades- como é trabalhado por Campbell(1992,1998a) ,Hansen (2003), Connoly(2002)Bartelson(1998) dentre outros - ,ou seja, reconhecendo as contradições,ambiguidades e impossibilidades do termo como regular, inabaláve

Complementar a essa ideia de certeza, estabilização da identidade que a segurança ontológica pode vir a proporcionar, Edkins,Persram, Pin-Fat (1999,p.5) salientam a relevância da soberania como instrumento considerado legítimo para satisfazer esse desejo de completude, e como o reforço da identidade soberana do Estado pode ocorrer através de mobilizações performativas de violência. Dessa maneira,é possível observar como essa construção política, que organiza e governa um povo, através de um contrato soberano, pode desencadear coesão e seguridade perante seus cidadãos,assim como medo e hostilidade frente aos estrangeiros.

Aliado a essas indagações, Asad(2003,p.137) busca desenvolver a ideia de que o vínculo humano com o Estado e a noção de soberania5 e identidade que dele emana torna possível o pensamento dominante de que necessariamente o Estado tem mais jurisdição soberana sobre todos seus

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Eberle(2019) e Rossdale (2015) podem ser inseridos nessa discussão, haja vista que o primeiro argumenta que embora a segurança ontológica preveja um sujeito seguro e estável (como um ideal), o sujeito lacaniano é irredutivelmente instável e incompleto e o objetivo, portanto, não seria encontrar um estado harmonioso (necessariamente temporário e ilusório) ou um eu seguro, mas sim aprender a aceitar e viver com essa falta constitutiva. Já Rossdale (2015) desafia os pressupostos de que a segurança ontológica é uma aspiração universal, demonstrando o perigo de utilizar esse conceito como forma de fechamento, uma vez que apaga as ambiguidades e contradições de um sujeito e impede os devires alternativos e salienta que sua aspiração pode despolitizar o sujeito, “limitando” a questão (política) do ser.

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Ainda nessa temática de soberania, Asad(2003) evidencia a incongruência existente entre direitos universais e direitos relacionados a cidadãos:”the notion that inalienable rights define the human does not depend on the nation-state because the former relates to a state of nature, whereas the concept of citizens including the rights a citizen holds,pressuposes a state that enlightenment theorists called political society.”(ASAD,2003,p.129)

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sujeitos, devendo criar uma identidade nacional exclusiva. Essa visão legalista e incorporada no cotidiano dá a autoridades governamentais a prerrogativa de decidir sobre o próprio destino desses indivíduos,moldando identidades, valorizando determinadas formas de comportamento em detrimento de outras. Assim sendo, através de uma análise histórica do tratamento dos direitos humanos a nível internacional,Asad (2003,p.153) busca entender como os Estados, com discursos, mobilização midiática contribuem para o recrudescimento do patriotismo exacerbado e de interesses nacionalistas hostis aos considerados outsiders.Nesse sentido, demonstra como determinadas práticas culturais atuam como formas de poder que penalizam e categorizam “diferentes tipos de seres humanos” (ASAD,2003,p.153).

Por conseguinte, questionar as linearidades, as definições categóricas acerca da identidade brasileira e da identidade venezuelana como se fossem homogêneas, únicas, com características naturais, basilares será central nesse artigo, de forma a entender “who in a world of nation states- has the authority to interpret and the power to promote the conditions that facilitate human rights and “the human” they sustain?(ASAD,2003,p.151)

Apesar de complexa e com inúmeros desdobramentos, um dos caminhos que podem ser pensados através dessa pergunta é de uma compreensão reversa:de como o Estado,através de discursos, símbolos,contém, controla e disciplina a diferença interna ao localizar a alteridade do lado de fora, o que para esse paper, seria na linha tênue da travessia da fronteira, tanto física, territorial quanto subjetiva, concernente à soberania e cidadania. É precisamente porque os Estados estão sempre em construção, que precisam se engajar em um evangelismo do medo, por meio de discursos de perigo, para tentar assegurar uma identidade precária e provisória, sendo o “outro” do lado de fora um aviso para os diferentes domésticos (CAMPBELL, 1992, p. 114).

Assim sendo, o Estado através de sua política externa realiza práticas

de exclusão e diferenciação, estabelecendo termos como

estrangeiros,desviantes - mesmo sendo indivíduos domésticos- (CAMPBELL ,1992,p.68). Ademais, a Política Externa pode ser lida como uma preocupação com a reprodução de uma identidade instável no nível do Estado e a contenção de desafios àquela identidade (CAMPBELL ,1992,p.68).

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A busca por segurança ontológica demanda a construção do self estável, democrático e por conseguinte, a definição do outro como desviante, haja vista que o self não é um objeto estático, mas parte de um processo intersubjetivo de construção de identidades tendo como referência a alteridade, o que nas palavras de Neumann(1999) podem ser entendidas :

The making of selves is dependent on the raw material of available identities. The forging of selves, then, is a path- dependent process, since it has to cram in a number of previously negotiated identities in order to be credible. Furthermore, even ruling out the emergence of new situations in which new identities will have to be negotiated, it is a never-ending process, since there will always exist more identities than can easily be accommodated in a coherent story of self, however minimalist a definition of "coherent" is needed. (NEUMANN,1999,p.218-219)

Indo para o contexto brasileiro, é possível observar discursos6 acerca da posição acolhedora, com pluralidade de culturas do país, sendo considerado pela ACNUR (2003) ator vanguardista no regime internacional de proteção aos refugiados no continente. Em relação ao fluxo migratório venezuelano, o presidente Temer afirma: ”o Brasil tem recebido todos os que chegam a nosso território. São dezenas de milhares de venezuelanos a quem procuramos dar toda a assistência.” (Discurso do Presidente da República, Michel Temer, perante Assembleia Geral da ONU-Nova York 2018).

Nesse sentido, é possível salientar como a segurança ontológica brasileira utiliza um senso coeso de self (acolhedor, respeitador dos direitos humanos) a fim de prover certeza, continuidade de comportamento, estabilizando sua identidade, criando coesão interna a fim de destruir críticas que possam ameaçar sua legitimidade internacional e nacional:”in the processes of control and administration of immigration and emigration, the states concerned are

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Ver mais em “o refúgio é uma política de Estado no Brasil. É um elemento importante da democracia brasileira e sua tradição de abertura. É um dos pilares da política de direitos humanos. (...) Nós esperamos aumentar as oportunidades de reassentamento no Brasil. A longa experiência do Brasil em ter um órgão tripartite em que governo, sociedade civil e ACNUR trabalham juntos em políticas para refugiados tem sido bem-sucedida. (...) O processo de integração social e econômico dos refugiados tem sido um constante desafio. Acreditamos que o engajamento de outros países em programas de reassentamento abre as portas para cooperação sul-sul. O Brasil está pronto a compartilhar sua experiência com parceiros interessados (Arquivo do Itamaraty, Delegação do Brasil em Genebra, apud MOREIRA, 2015, p. 5).Outro discurso que coloca o Brasil como receptor de refugiados:”no Brasil, temos orgulho de nossa tradição de acolhimento. Somos um povo forjado na diversidade. Há um pedaço do mundo em cada brasileiro”(Discurso do Presidente da República, Michel Temer, perante Assembleia Geral da ONU-Nova York ,2018)

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applying a specific picture of the site and it is territorial sovereign space” (EDKINS ,PERSRAM, PIN-FAT, 1999 ,p.14) .

Dessa forma, as instituições e os tomadores de decisão brasileiros mobilizam historicamente a composição populacional brasileira baseada pelo movimento migratório japonês, libanês, italiano, alemão e, devido ao processo de colonização e a escravidão imposta no território, africano para salientar a tolerância,receptividade presentes na identidade da população brasileira.Esse tom de país acolhedor e circundado pela pluralidade de raças e culturas vem sendo propagado desde então através de construções discursivas que para além do que Freyre (1933)7 postulou acerca da síntese cultural e mestiça do contato de negros, índio e brancos,coloca no imigrante, uma parte da identidade brasileira, elemento que pode ser evidenciado seja através de discursos de presidentes, ministros das Relações Exteriores até slogans governamentais, como a da campanha de sensibilização do Ministério da Justiça em 19 de agosto de 2015, intitulada Brasil é uma oportunidade de vida” ,com o objetivo de "esclarecer a sociedade brasileira sobre os compromissos internacionais do país e a importância do refúgio no mundo, mostrando também que o país garante o acolhimento, a assistência e a integração destes imigrantes (UNASUS,2015) .

Lutar contra esse “mito” ,fábula das três raças8

é reconhecer a situação deplorável de desigualdade – racial – que o Brasil enfrenta desde sua formação enquanto estado de direito,bem como questionar a postura solidarista,benevolente,de país do refúgio é problematizar a naturalização de discursos que ao produzirem narrativas nacionalistas,escondem propósitos políticos e deficiências,exclusões que permeiam a realidade dos refugiados no

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O autor defende que no Brasil brancos e negros mantêm relações pacíficas e harmoniosas e que tais relações supostamente próximas entre senhores e escravos antes da abolição da escravidão, em 1888 e o caráter benigno do imperialismo português, teria impedido o surgimento de divisões raciais rígidas no Brasil. Além disso, explicitava que a intensa miscigenação entre as raças no país teria levado ao surgimento de uma “meta-raça” e a criação de uma sociedade original.

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Conceitos amplamente abordados por DaMatta (1987) , que ataca essa visão de que a sociedade brasileira seria mestiça e homogênea, e,portanto,livre de preconceito racial, em que todos os indivíduos possuiriam igualdade formal, material e moral entre si.O autor evidencia como essa concepção reacionária viabilizou os fundamentos ideológicos das elites brancas, que sucederam os portugueses colonizadores no controle do aparato estatal brasileiro e legitimou a poderosa junção de interesses religiosos, políticos e comerciais que determinava quem teria direito à propriedade,exploração da terra e ao controle dos meios de produção, que foi responsável por reduzir o conhecimento social a algo "natural", baseado no resultado da "miscigenação das raças".

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país (MACHADO,2018,p.4).

Segundo Brasil de Fato(2018) em entrevista coletiva em Brasília, o presidente eleito Bolsonaro afirmou: “o governo federal tem que tomar medidas contra o governo Maduro, e não apenas acolher imigrantes e deixar que se resolvam as coisas naturalmente. Nós já temos uma série de problemas internos aqui”.

Com essa afirmação, é possível depreender a definição clara de ameaça, uma estratégia para conter esse “entrave”, o fardo do humanitarismo brasileiro de acolher esses indivíduos e uma diferenciação do “Nós, cidadãos brasileiros” desses outros venezuelanos, que podem ser lidos como pesos, tanto materiais como psicológicos, haja vista que “migration is identified as being one of the main factors weakening national tradition and societal homogeneity. It is reified as an internal and external danger for the survival of the national community or western civilization”(HUYSMANS,2000,p.759).

Concomitante a essa delimitação da figura nacional brasileira, estabelece-se uma construção imaginária mas prática de quem seria o refugiado venezuelano:aquele oriundo de um país caótico,autoritário,de ideologia de “esquerda” e por conseguinte, inapto ao reconhecimento de regras estabelecidas, podendo causar desordem e ameaçar a integridade dessa democracia plena,que seria a nação brasileira:

This process of turning the stranger into an enemy is an attempt to securitize subjectivity in times of uncertainty. Within this process, self and other are both seen as essentialized bodies, which means reducing self and other to a number of cultural characteristics. These characteristics, although constructed and fabricated, come to be seen as natural, unified features for describing the group.(KINNVALL,2004,p. 755).

Além das falas contundentes expostas anteriormente, outros trechos presentes nos discursos políticos brasileiros acerca dos refugiados venezuelanos são representativos das indagações que o artigo pretende desenvolver: “ o que falta ao governo do Brasil é se antecipar aos problemas. Talvez, campos de refugiados. E fazer um rígido controle. Tem gente fugindo da fome e da ditadura, e tem gente também que nós não queremos no Brasil”(O GLOBO, 2018), sendo a fala de Bolsonaro em novembro de 2018, durante aniversário de 73 anos da Brigada de Infantaria Paraquedista, na Zona Oeste do Rio. Nessa frase, é possível observar uma clara distinção entre o problema, aquele que deve ser securitizado (que seriam os refugiados com “más intenções”, que se aproveitariam da crise humanitária com finalidades

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escusas) e o que poderia ser aceito (vítimas da fome e da ditadura).

Para além da observação do movimento migratório como uma oportunidade de reificar a segurança ontológica brasileira expondo a capacidade vanguardista do país na temática do refúgio, a migração venezuelana apresenta uma conjuntura favorável para o estabelecimento de um veemente desejo por segurança, que acaba produzindo seu antônimo, haja vista que para alguns se sentirem seguros, outros precisam ter sua liberdade restringida. Outro exemplo dessa dinâmica ocorreu em fevereiro desse ano, através de um pronunciamento oficial do Ministério de Relações Exteriores que evidenciou mais uma vez a securitização da temática migratória, reforçando ideias como “o caráter criminoso do regime Maduro, [...]de um brutal atentado aos direitos humanos, que nenhum princípio do direito internacional remotamente justifica e diante do qual nenhuma nação pode calar-se” (ITAMARATY,2019) que ao mesmo tempo, permite a ideia de conciliação com o “o governo legítimo de Guaidó” (ITAMARATY,2019). Outra declaração elucidativa desse movimento ocorreu em março de 2019, no blog pessoal do ministro de Relações Exteriores Ernesto Araújo:

O Presidente Bolsonaro e eu estamos, sim, rompendo esse consenso infame. Estamos rompendo com a tolerância irresponsável que ajudou a acobertar os crimes do regime chavista-madurista, e que continuaria acobertando até hoje, se o sistema que vinha governando o Brasil permanecesse no poder. A esperança de uma nova Venezuela não existiria sem o novo Brasil. Nessa libertação, o sentimento de solidariedade humana para com os venezuelanos coincide com o interesse nacional brasileiro. Uma Venezuela eternamente chavista-madurista, vivendo do narcotráfico, albergando terroristas de toda estirpe, armando milícias criminosas, financiando crime organizado e movimentos pseudo-sociais em território brasileiro, expulsando seu próprio povo pela fome e pela doença, essa Venezuela seria uma ameaça permanente e tremenda à segurança do Brasil e dos brasileiros. Fazer algo efetivo a respeito, contribuir para uma Venezuela democrática, é algo que a melhor tradição diplomática brasileira exige e impõe. Estamos restaurando a verdadeira tradição diplomática brasileira, a tradição de um país livre, soberano, orgulhoso de si mesmo, consciente de sua capacidade e sua responsabilidade de contribuir para o bem da humanidade. começando por ajudar na libertação do povo-irmão venezuelano”(METAPOLÍTICA BRASIL, 2019).

Para além da demarcação do novo Brasil, da Venezuela ditatorial, inimiga e da nova, sendo amiga, observa-se uma veemente busca por segurança ontológica que demanda uma construção do self estável, democrático e por conseguinte, a definição do outro como desviante, tendo em

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vista que o self não é um objeto estático, mas parte de um processo intersubjetivo de construção de identidades com referência a alteridade.

Dessa maneira, ao mobilizar a identidade nacional como acolhedora e democrática em oposição à Venezuela, o Brasil se define em relação aos outros de acordo com determinada visão de poder, sendo uma tentativa de “controlar” em certa medida, a narrativa acerca do fluxo de refugiados, o que é salientado por Kinnvall (2004,p.749) “as their ontological insecurity increases, they attempt to securitize subjectivity, which means an intensified search for one stable identity (regardless of its actual existence).

Portanto, possuir cidadania e exercer essa expressão máxima do direito faz parte da identidade do imaginário de uma nação e de sua soberania,sendo os refugiados considerados anomalias,desviantes dessa lógica arbitrária,sendo alvos de intervenções, haja vista sua exclusão da família de nações “estável”. A cultura,identidade,cidadania, exercício do self estão subordinados à territorialidade e no momento em que essas fronteiras físicas e psicológicas são rompidas,” […]the identity of the dominant group or “us” is formulated around its tolerance and adherence to human rights compared to the intolerant

other”(ESED, 1991, p. 210).

Nesse sentido, o termo cidadania estaria intrinsciamente ligado em última análise, em uma "dialética" entre direitos e deveres, democracia e cidadania, liberdade e igualdade (BALIBAR,2015) e, portanto, aqueles que não possuem esse status, são desviantes, ao mesmo tempo que são colocados pela mídia em geral como vítimas que precisam de ajuda, perigos que devem ser controlados ou, ainda, possíveis representantes de mobilização, reconfiguração política. Dessa maneira, é relevante salientar como no caso brasileiro, esses refugiados venezuelanos apresentam múltiplas histórias,papeis mas que para termos explicativos nessa pesquisa, serão discutidos através de uma vertente de perigos dignos de repressão e controle e corpos sujeitos a domestificação, enquadramento a moldes culturais brasileiros.

Neumann(1999) é fundamental para a compreensão histórica e genealógica dessa noção de self e seu tratamento nas Relações Internacionais e desenvolve o argumento de que essa mobilização de identidade frente a

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alteridade é um complexo e paradoxal processo, que ainda conta com abordagens essencialistas e problemáticas:

The very same condition that makes it possible for identities to proliferate and that makes some people celebrate this, also sparks an impulse toward denying the possibility of multiple and imbricated identities in favor of celebrating essentializing grand narratives of a certain self. (NEUMANN,1999,p.212) .

Através de uma minuciosa revisão bibliográfica do campo de identidades, tanto na corrente pós estruturalista e construtivista, Neumann(1999) salienta a importância de um maior aprofundamento da área de Relações Internacionais no estudo da formação de identidade coletiva de forma a problematizar, criticar e contestar “linearidades” culturais, natureza identitárias, como as salientadas nos discursos políticos descritas anteriormente .

Com essas indagações,é possível salientar como a relação entre identidade e postura governamental é amplamente política, discursiva, social,sendo os discursos de perigo,segurança mobilizados de forma a construir ameaças, (re)produzir identidades coletivas, privilegiando o Estado como espaço e ator capaz de gerar sentimento de pertencimento coletivo e preservação física e psicológica:

Homelessness is a serious threat to moral behaviour…At the moment refugee cross the frontiers of his own world, his whole moral outlook, his attitude toward the divine order of life changes…[The refugees’] conduct makes it obvious that we are dealing with individuals who are basically amoral, without any sense of personal or social responsibility…They no longer feel themselves bound by ethical precepts which every honest citizen…repects.They become a menace, dangerous characters who will stop at nothing(CIRTAUTAS,1957,p.70)

Em suma, o Estado brasileiro mobiliza a migração venezuelana em termos de In(Segurança) ontológica, constantemente disputando o sentimento de descoberta de identidade do seu self, de modo a evitar que os acontecimentos do mundo exterior—leia-se entrada de refugiados venezuelanos, superlotação de abrigos, interiorização desses indivíduos, dentre outros eventos —ameacem a sua coesão interna e homogeneidade, desdobramentos que gerariam uma sensação de desaparecimento dessa confiabilidade,legitimidade tanto a nível nacional, quanto perante à comunidade internacional.

Portanto, repensar a soberania e entender como a mesma está imbricada com a subjetividade e são instrumentos de atuação política é

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fundamental, bem como observar que a soberania desempenha um papel de controle cultural, étnico, racial -elementos amplamente discutidos por Edkins,Persram,Pin-Fat(1999) - .

Securitização da migração venezuelana: enquadramento da diferença

The securitization of subjectivity is, however, always an intersubjective process, structurally as well as psychologically, which implies that an “other” is invariably involved in the process. Increasing ontological security for one person or group by means of nationalist and religious myths and traumas is thus likely to decrease security for those not included in the nationalist and/or religious discourse. (KINNVALL,2004,p.763)

Tendo em vista a constante tentativa de estabilização da segurança ontológica da nação brasileira por meio de reforço de identidade e diferenciação dos estrangeiros -nesse estudo de caso sendo os refugiados venezuelanos- discutida na primeira parte do ensaio, é incoercível salientar a securitização da migração como outro mecanismo prolífico de estabilização e “contenção” da diferença.

Esse conceito, consolidado por Buzan, Wæver e Wilde(1998,p.23) é útil para o entendimento de como ameaças são construídas intersubjetiva e discursivamente, permitindo a aplicação de medidas que extrapolem procedimentos políticos regulares no momento em que são aceitas pela audiência à qual se dirige9.Essa corrente de pensamento argumenta que uma importante estratégia de segurança usada por sociedades que enfrentam insegurança social seria auto-redefinição ou "gerenciamento de identidade” (BUZAN et al. 1998, p. 120).

Embora os discursos de tomadores de decisão brasileiros, como o presidente Michel Temer, defendam uma “abordagem humanitária” para a questão e ressaltem o caráter ativo, benevolente do país,a resposta observada nas cidades que recebem os venezuelanos tem aparecido no âmbito da segurança, sendo uma versão anacrônica, moldada por discriminações, exclusões e regressos herdados do Estatuto do Estrangeiro de 1980, indo

9Levando em conta a securitização, ver mais na citação:”the interpretation does not just explain

how a security story requires the definition of threats, a referent object, but also how it defines our relations to nature, to other human beings and to the self”(HUYSMANS,1998, p. 231).

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contra os preceitos da legislação de 2017, representando respostas militarizadas a dimensões humanitárias.

O recrudescimento do efetivo do Exército e das equipes da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal no Estado segundo a Folha de S.Paulo(2018), é mais um sinal do tratamento securitizado e militarizado a uma população vulnerável que foge para o país buscando primeiramente subsistência, questão trabalhada por Betts(2013) como “migração por sobrevivência”10

.

No momento em que os venezuelanos atravessam as fronteiras brasileiras, são vistos como ameaças à coesão homogênea interna, oriundos de um caos ideológico,tendo que ser “controlados”, ora por discursos de ódio, expulsão e xenofobia aos mesmos, ora pela contenção em espaços “brasileiros” quartelizados, de vigilância e exclusão, que são os abrigos – dois movimentos que serão desenvolvidos posteriormente.

Levando em conta a securitização:”the interpretation does not just explain how a security story requires the definition of threats, a referent object, but also how it defines our relations to nature, to other human beings and to the self”(HUYSMANS,1998, p. 231).

Seguindo essa lógica de construção de ameaças, transformação de qualquer questão em termos de segurança, permitindo o uso de medidas extraordinárias, é possível observar uma constância dessa visão na utilização do rótulo de crise, invasão, fluxo em massa de venezuelanos no Brasil. A partir dessa mobilização midiática, medidas emergenciais são tomadas, ignorando o longo prazo e reflexões mais profundas, como acerca dos efeitos nocivos das atuais políticas migratórias restritivas, somente focando na contenção, inspeção e vigilância da mobilidade humana.

Além disso, quando a imprensa ou tomadores de decisão demonstram

10

Segundo o autor, esse conceito é útil para o entendimento de indivíduos ou grupamentos que estão fora de seus países de origem, por conta de ameaças consideráveis às suas existências, ou seja,pessoas cujos direitos fundamentais primordiais para a manutenção da vida estão sendo negados ou violados.Nas palavras de Betts “It refers to people who are outside their country of origin because of an existential threat for which they have no access to a domestic remedy or resolution. The concept does not focus on a particular underlying cause of movement—whether persecution, conflict, or environment, for example. Instead, it is based on the recognition that what matters is not privileging particular causes of movement but rather clearly identifying a threshold of fundamental rights, which, when unavailable in a country of origin, requires that the international community allow people to cross an international border and receive access to temporary or permanent sanctuary….. (BETTS,2013,p.17).

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números expressivos de venezuelanos ingressando no país, a consequência mais direta é a percepção desses indivíduos como perigosos, que irão superlotar hospitais, escolas, “roubando” postos de trabalho e elementos imprescindíveis para a manutenção de uma vida “confortável” dos cidadãos nacionais. Assim sendo, medidas excepcionais como o fechamento de fronteiras, utilização de Forças Armadas são tomadas, tornando qualquer efeito colateral negativo absolvido.

Esse processo pode ser entendido através da chave de pensamento de Schmitt (2008) que analisa a essência da política como uma constante luta contra o inimigo, em uma divisão de mundo entre amigo e inimigo, insider-outsider que pode ser entendida como um passo em direção ao excepcionalismo, que é uma justificativa para reduzir as liberdades reconhecidas.

Segundo Schmitt (2014), o soberano possui dois poderes inter-relacionados: o poder de escolher e declarar os inimigos do Estado e o poder, em tempos de emergência, de invocar um estado de exceção - que seria pensado fora dos limites da lei e das normas comuns, no qual o soberano teria capacidades ilimitadas de fazer o que quiser para neutralizar as ameaças ao modo de vida da comunidade política –.

Além disso, Schmitt (2008) reconhece a possibilidade da delimitação não apenas de inimigos externos, mas também de inimigos internos, nas quais o estado pode usar uma variedade de técnicas como ostracismo, expulsão, proibição para designá-los como ameaças.

Nessa perene construção discursiva e simbólica de um objeto referente Nós(unitário, homogêneo,singular, cidadão) versus as ameaças que seriam os Outros(“estrangeiros”), a securitização, torna-se um movimento conceitual fundamental para a perpetuação dessas dinâmicas de poder, marginalização, norma e exceção e é bem sumarizado por Balzacq (2010, p. 3) em:

I define securitization as an articulated assemblage o f practices whereby heuristic artefacts (metaphors, polity tools, image repertoires, analogies, stereotypes, emotions, etc.) are contextually mobilized by a securitizing actor, who works to prompt an audience to build a coherent network of implications (feelings, sensations, thoughts, and intuitions), about the critical vulnerability of a referent object, that concurs with the securitizing actor’s reasons for choices and actions, by investing the referent subject with such an aura of unprecedented

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threatening complexion that a customized policy must be undertaken immediately to block its development. (BALZACQ, 2010, p. 3)

Na delimitação do inimigo nacional, as minorias e os adversários políticos são desumanizados, constituídos como ameaças através da mobilização de valores, tradições, informações comuns ao Self Nacional, que deve conter,expulsar, eliminar as diferenças existentes nesses outros, possibilitando ações desde marginalização, violência verbal e violência física, ou seja, efeitos práticos da construção dessa periclitante alteridade.

Campbell(1992) aborda essa questão ao explorar a maneira pela qual a dicotomia "eu-outro" atende a necessidade do estado de construir "discursos de perigo ", visando fornecer uma nova teologia da verdade sobre quem e o que 'nós' somos, consequentemente delimitando quem ou o que 'nós' não somos, e o que temos a temer e destruir.

Assim sendo, o ator securitizador para se solidificar, - nesse caso o governo brasileiro - evitar ameaças externas e manter uma coesão interna, cria discursos que colocam o outro como perigoso,desordeiro,inumano tornando consequentemente, o nacional dependente de proteção, que por sua vez,

incorpora consciente e/ou inconscientemente um sentimento

patriotista/belicista. Esse movimento de securitização pode então ser entendido

como:

[...] Um ato de fala: o ato de dizer segurança é capaz de declarar uma condição de emergência e constituir identidades até então inexistentes, entre elas as de inimigo e protetor. Sendo assim a segurança não é algo real, ela não é uma coisa. São os próprios atores políticos que criam ou deixam de criar as situações políticas especificas para que a segurança se torne uma necessidade inexorável. (AMARAL, 2010)

Agamben (2015) trabalha com o termo “Estado de Exceção” – abordado anteriormente por Schmitt (2014) - para entender a ação estatal no momento de erosão dos poderes legislativos e explorar como apesar desses estados estarem enquadrados em regimes democráticos, em suas entranhas, apresentam um caráter totalitário.

Dessa maneira, ao demonstrar que o ordenamento jurídico que foi estabelecido para conter a violência, contém em si o contrário - permitindo de forma jurídica a suspensão dos direitos garantidos - Agamben (2015) reforça que o Estado de Exceção torna-se a estrutura jurídico-política estabelecida

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com permissão da sociedade. Portanto, o que era, originalmente, para ser um estado provisório, tem se transformado como o novo paradigma de governo em razão da própria norma constitucional permitir a suspensão de direitos em situações fora da normalidade, com o objetivo de se restabelecer o status quo e a segurança estatal.

Em suma, , o governo brasilerio demonstra que somente consegue perpetuar seu poderio e desempenhar funções violentas - consequentemente reforçando a segurança- devido à propagação constante de uma ideologia nacionalista e criação de identidades ora do eu versus o outro, ora do eu auxilando o outro.

Assim sendo, a nação e a identidade nacional, longe de ser algo que existe apriori, natural, é o resultado de uma construção cultural levada adiante pelas elites de variados países através da incessante invenção de símbolos, memórias e tradições, de acordo com a corrente interpretativa “culturalista”, do qual Anderson (2008) faz parte.Usar discursos nacionalistas, portanto, somente exacerba a sensação de unidade, identidade coletiva de uma população, possibilitando ao Estado brasileiro, nesse caso, alcançar resultados como aceitação de seus cidadãos a ações consideradas emergenciais e extraordinárias, quando lidarem com minorias e membros da oposição.

Em artigo no Estadão, Kenkel(2018) afirma “na interseção das questões de identidade, soberania e segurança, a designação de um fenômeno como ameaça ou crise nunca deixa de ser uma escolha consciente que serve finalidades políticas concretas“. Nesse sentido, discursos populistas podem utilizar essa plataforma anti-imigração para fomentar a ansiedade e o temor que circundam as ontologias da população, recrudescendo a insegurança ontológica dos refugiados a fim de construir um self brasileiro homogêneo, ordeiro e linear:

Because losing a sense of state distinctiveness would threaten the ontological security of its members, states can be seen as motivated to preserve the national group identity and not simply the national ‘body’. Grounding group needs for ontological security in individual needs in this way suggests that state institutions are not just an aggregate of leaders’ decisions, and also that states project self-images to which their members will be attached in complicated ways (MITZEN, 2006,p. 352)

No caso de xenofobia ou negação da identidade dos venezuelanos, é relevante abordar a manifestação brasileira contra a entrada de venezuelanos

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em Pacaraima, em agosto de 2018, que resultou em um episódio de violência, no qual brasileiros agrediram,expulsaram e queimaram os pertences de venezuelanos, tendo como “suposta” motivação o assalto de um comerciante local que, alegam os brasileiros, foi vítima de um grupo de imigrantes segundo Último Segundo - iG(2018).

De acordo com a Folha de S.Paulo(2018)assustados com esses ataques violentos e ações xenofóbicas,dezenas de refugiados em Boa Vista em fevereiro de 2018, realizaram ato pedindo paz e melhor convivência na cidade.Segundo um dos organizadores do evento, o refugiado Benjamin Masta à Folha de S.Paulo(2018) “o brasileiro já não responde amavelmente nos semáforos ao venezuelano que limpa vidro, vende biscoito ou pede ajuda. Sente que está sendo invadido.”

Essa percepção de invasão e necessidade de reafirmação da identidade, cidadania brasileira frente aos refugiados venezuelanos é uma tentativa de resposta a tempos incertos e circundados por ansiedades oriundos da precariedade,instabilidade da segurança ontológica:

In times of an articulated crisis, insecurity increases along with the need to reaffirm identity. Border policy is of interest in this thesis through its partaking in the construction of subjectivities, as it through it narratives contributes to insecurity which in turn has to be reduced by the feeling of a secure community. Moreover, securitization of subjectivities becomes apparent through juxtapositions and through the process of through discursive power place the in-group above (OLSSON,2016,p. 28 )

Portanto, os brasileiros ao se posicionarem contra a entrada dos venezuelanos estão inseridos em uma lógica securitizada que vê nos mesmos ameaças a sua existência, sendo necessária uma análise acerca dos desdobramentos políticos, identitários desse processo:“analyzing security as a thick signifier means [...]investigating the structural reasons for why individuals experience insecurity as well as the emotional responses to these feelings of ontological insecurity and existential anxiety” (KINNVALL, 2004,p.748).

Abrigos como espaços de vigilância,controle e poder

Os abrigos existentes em Boa Vista e Pacaraiama que acolhem refugiados venezuelanos 11, geridos pelo Governo Federal com auxílio e

11

De acordo com o G1(2018) o estado de Roraima tem onze abrigos presentes na capital de Boa Vista e dois no município de Pacaraima, ao Norte do estado, na fronteira com a Venezuela. Deste total, sete deles não têm capacidade para receber novos imigrantes.

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suporte do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados são lócus de complexos processos de proteção, integração, relacionamento com a diferença, questões identitárias e logísticas. Nesse abrigamento, os refugiados tem regras a serem seguidas:desde horários rígidos de entrada e saída,até práticas de lazer delimitadas,comidas dadas – por exceção dos indígenas que recebem os alimentos e os cozinham da forma que desejarem - , todos elementos que acabam gerando uma relação de controle e dependência,ou seja, provendo uma “autonomia limitada” em função da busca por ordem. Outro elemento fundamental nessa dinâmica são os as rígidas três refeições (6 h o café da manhã, 12h o almoço e 18 h o jantar), o pouco diálogo entre Exército e refugiados e um frágil vínculo de convivência e laço afetivo entre eles, haja vista que em média, o pelotão muda a cada três meses.Além disso, é possível observar que os abrigos, que que eram para ser provisórios, acabando tornando-se soluções permanentes nas vivências desses refugiados.

Assim sendo, relatos de aceitação de determinadas formas de comportamento são recorrentes, o que pode ser relacionado com o conceito de otimismo cruel, abordado por Berlant(2011,p.178) no momento em que os refugiados estão constantemente se contentando com determinadas regras de controle e ordenamento como forma de racionalização necessária à sobrevivência, ou seja,a precariedade e liberdade de escolha tornam-se sinônimos de um ciclo vicioso presente na vida desses indivíduos.

Dessa maneira,os venezuelanos que estão dentro dos abrigos submetem-se a determinadas regras de conduta, como condição de possibilidade para serem interiorizados12, de forma a alcançarem uma vinculação “legítima” com o mundo social brasileiro,vivenciando entraves na esperança de uma melhoria em sua vivência material e psicológica:

What’s striking in the temporal imaginary of both the citizen and the migrant workers, then, is the ways they look forward to getting ahead, to making it, and to a condition of stasis, of being able to be somewhere and to make a life, exercising existence as a fact, not a project. In other words, in this version of transnational class fantasy, mobility is a dream and a nightmare. (BERLANT 2011, p.179)

Dessa maneira, as instituições brasileiras,responsáveis pelo o acesso ao procedimento de solicitação de refúgio,proteção e integração dos refugiados,

12

Somente os refugiados inseridos nos abrigos podem ser interiorizados - enviados para outros Estados -, criando assim uma nova chave de diferenciação entre aqueles que estão no fluxo governamental e aqueles que não estão.

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acabam exercendo poder e controle sobre a vivência dos mesmos.Os abrigos, por serem comandados pelas Forças Armadas, acabam expondo uma lógica militarizada para indivíduos que acabaram de chegar o Brasil e muitas vezes,por saírem de um ambiente de perseguição política, sentem-se incomodados com determinadas formas de autoridade. Salientar o humanitarismo exercido pelo Brasil através de veículos militares nos abrigos não significa dizer que armas e outros instrumentos das Forças Armadas façam parte do cotidiano desses refugiados (haja vista que os soldados ali presentes estão desarmados) e que essa forma de proteção não seja importante ou ineficiente, apenas por estar sob égide das Forças Armadas. Pelo contrário, o que o artigo pretende expor aqui é o paradoxo, contradição de uma postura discursiva que coloca o Brasil como a nação acolhedora, pronta para missões humanitárias – tendo em vista “o sucesso” da missão de paz no Haiti – que acaba colocando nas mãos dos militares a gestão e logística do fluxo migratório venezuelano.

Seguindo essa lógica disciplinada, com horários circunscritos, atividades delimitadas, os refugiados acabam “conformando-se” com as expectativas do self brasileiro, de forma a acelerar o processo de integração, aceitando padrões específicos - termos trabalhados por Kinnvall (2004,p. 746) - podendo ser […]”pushed, seduced, coerced, or persuaded into trying to change themselves

into something else, something that allows them to be

redeemed.”(ASAD,2003p.154).

Nessa chave de busca por aceitação, integração à sociedade brasileira, os venezuelanos acabam vivenciando uma situação de opulenta ansiedade,processo que Chow (2014) aborda em outro contexto, mas com prolíficas conclusões acerca da complexidades do não pertencimento desses indivíduos:

The formerly colonized, them, seems condemned to a vicious cycle of melancholic longing:displaced from her own indigenous language and accustomed to seeing herself and her culture from the outside, she is afflicted with grief,yearns for a return to a lost harmony, yet must continue to survive in a world in which such return is impossible (CHOW,2014,p.4813)

Além disso, outra problemática na questão dos abrigos é a expectativa de gratidão dos refugiados que tem a concessão de abrigo como um ato de

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bondade, dádiva, segundo uma grande parcela da população brasileira e relevantes tomadores de decisão.Essa visão do refugiado como mera vítima,dependente,passivo é amplamente errônea porque cristaliza identidades que são performativas, fluidas e coloca o humanitarismo e compromisso internacional de proteção aos refugiados como um voluntarismo,salvacionismo governamental, esperando gratidão dos mesmos nessa lógica simbólica de trocas recíprocas ao invés de ser lida como uma obrigação, devido a assinatura e comprometimento com tratados relacionados ao regime internacional de proteção aos refugiados.

Fassin(2001;2005;2006) é imprescindível para o entendimento desse processo no momento em que aborda como essas políticas de assitência social/humanitária podem ser enquadradas em uma lógica vulnerabilidade/risco ou de uma polarização moral entre compaixão e repressão, que mantém os corpos desviantes/diferentes sob controle e propaga uma visão de piedade, humanitarismo.

Portanto, os discursos securitários que visam à garantia da segurança de um grupo, geram insegurança e a vulnerabilidade de um “outro grupo”, sendo o espaço político e social um lócus de exclusão (BIGO, 2002). Esse espaço securitizado é amplamente mobilizado por políticos de forma a alcançarem apoio em campanhas eleitorais, que no contexto do fluxo migratório venezuelano, pode ser interpretado através da divisão antagônica entre o estado democrático de direitos brasileiro e do outro, uma “nação vermelha”, contaminada pela ideologia de esquerda.

Embora os discursos de segurança e mobilidade humana sejam utilizados como peças de xadrez por tomadores de decisão através de políticas de fronteira, ”o recebimento digno dos necessitados que enxergam na bandeira verde-amarela o aconchego da segurança não é questão de esquerda ou direita, mas de dignidade comum à humanidade, e, sobretudo de que Brasil queremos ser” (KENKEL,2018).

Considerações finais

Para além das fronteiras físicas e reais do território, o fluxo migratório venezuelano também afetou os contornos das subjetividades da coletividade

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brasileira concomitante as múltiplas identidades dos refugiados venezuelanos.Em uma tentativa de entender como a segurança ontológica desse Self brasileiro performatizado por instituições e líderes políticos está intrinsecamente vinculada com a securitização da migração venezuelana, o paper utilizou o pós estruturalismo como chave para abordar criticamente o acolhimento de refugiados venezuelanos no Brasil, que pode ser mobilizado como forma de estabilização da segurança ontológica do país.

Nesse sentido, a segurança ontológica é relevante para observação de um fenômeno dual e concomitante entre si: é utilizada de forma a salientar o aspecto avançado do país, no qual o refúgio faz parte de sua tradição de abertura bem como possibilita o entendimento dos refugiados venezuelanos como os outros necessários para a definição do self homogêneo, disciplinado e linear brasileiro. Para tanto, a literatura acerca do insider, outsider,da construção da nação soberana e da cidadania como elementos performativosforam fundamentais.

Paralelo a essas indagações, a presente reflexão ressaltou a securitização como forma de contenção da diferença em espaços do abrigo ou expulsão desses outros através da xenofobia sofrida pelos refugiados venezuelanos, que por possuírem identidades diferentes, serem cidadãos de um estado considerado “ perigoso, de uma ideologia de esquerda” são automaticamente questionadores da ordem e nesse processo, para que sejam considerados “dignos” de auxílio, aceitação e integração na sociedade brasileira, tem que adaptar suas identidades aos interesses e normas comportamentais brasileiras. Portanto, observar essa conexão entre segurança e identidade é imprescindível para a conexão entre o macro e o micro, para a compreensão de como indivíduos baseiam-se em estruturas coletivas para definição de suas identidades individuais e vice versa e de como a migração pode ser lida como uma instrumentalização estatal para a manutenção e reprodução de um script identitário já repassado dentro do meio interno social.

Nesse sentido, a presente reflexão almejou demonstrar como a migração venezuelana permite a reafirmação da segurança ontológica brasileira, possibilitando o humanitarismo vanguardista da nação e, ao mesmo tempo, em uma lógica securitizada, estabelece o nós versus os outros, delimitando identidades contrastantes e riscos que devem ser controlados.

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Apesar dessa visão da alteridade como alvo a ser contido pelas instituições brasileiras, o presente ensaio almejou salientar a co-constituição e fluidez das identidades e discursos de segurança, que podem ser utilizadas mobilizando a (In)Segurança ontológica,mas também podem ser lidos criticamente, podendo engajar com formas de resistência:

Different from enemies, strangers are disordering because they express the possibility of chaos within the existing order. Strangers are both inside and outside a society; they are insiders/outsiders. They articulate ambivalence and therefore challenge the (modern) ordering activity which relies on reducing ambiguity and uncertainty by categorizing elements. (HUYSMANS,1998,p.241)

Em suma, o artigo procurou defender que o quadro de segurança ontológica deve ser levado em conta nos estudos de segurança para entender a natureza das inseguranças coletivas dentro e além das fronteiras do estado, considerando, portanto, a segurança ontológica de indivíduos como partes fundamentais para a compreensão da securitização da migração e construção discursiva de eventos no tocante à mobilidade humana.

Além disso, nessa incipiente reflexão, buscou-se ressaltar de forma indireta, o papel da academia em resistir a sedução de determinadas figuras e preceitos essencialistas consolidados, entendendo assim como Edkins,Persram,Pin-Fat(1999) como a soberania e a subjetividade estão amplamente relacionadas e questionando: “is it possible to have a social order without a sovereign signifier?“(EDKINS,PERSRAM,PIN-FAT,p.15,1999)

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