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NOVOS ESTATUTOS DA ACADEMIA -- E DO

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ACADEMIA DAS SClÊNCIAS DE LISBOA

CONSIDERAÇÕES

so~ml!l .. ALGUNS PONTOS • -~ l. DOS

NOVOS ESTATUTOS DA

·

ACADEMIA

ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA BIBLIOTECA

--

E DO •

RESPECTIVO

·

REGULAMENTO

PELO SÓCI9 EFECTIVO

Fernandes Costa

·

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(3)

ACADEMIA DAS

.

SOI]jjNOIAS DE LISBOA

Separnl3 do (I Boletin1 d:\ Classe do Letras>>, rolume Xlll

CONSIDERAÇÕES

SOB R h:

ALGUNS PONTOS

DOS

NOVOS ESTATUTDS DA ACADEMIA

E DO

RESPECTIVO REGULAMENTO

PELO SÓCIO EFECTIVO

Fernandes Cesta

;~ i . ~·-•·.

·''·

~

COIMBRA

UIPRENSA DA UNIVERSIDADJ1:

1920

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CONSIDERAÇÕES SOBRE ALGUNS .PONTOS

. DOS NOVOS ESTATUTOS E RESPECTIVÓ REGULAMENTO

Tendo sido distribuídos, no comêço do período anual das férias académicas, os nossos novos Estatutos e seu respectivo Regulamento, e começando êstes a vigorar, por conseguinte, no período de actividade em que vamos entrar, seja-me permitido fazer sôbre diversos pontos deles algumas respeitosas observações que, se não inte-ressarem à unanimidade dos meus ilustres consócios, po-derão ser tomadas simplesmente. como uma explicação prévia da forma pela qual, daqui em deante, exercerei o facto da minha humilde colaboração, nessa actividade.

Depois de terem decorrido, infelizmente para mim, alguns anos de não frequência das nossas sessões, por serem estas nocturnas e, por isso, incompatíveis com as exigências da minha pouca saúde, a Academia. tomando a resolução de transferi-las para de dia, pôs termo ao motivo imperioso da minha não assistência; e eu, ime-diatamente, passei a frequenta-las com rigorosa assidui-dade. Isto deu-se no decurso da primeira parte do ano de ·1917.

Estimulado pelo exemplo de alguns consócios, que se_ esmeram em apresentar provas da sua dedicação e do seu afecto pela Academia, vindo aqui trazer-lhe, amiudadas ve-zes, os resultados produtivos dos seus estudos investigado-res, e,- não dêvo esquecei-o, porque seria injustiça,· -tambêm pelos honrosos convites do nosso zelosíssimo

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4

secretário da Class~, cuja bondade amiga o levou a supôr que· algumas contribuições literárias minhas po-diam ser úteis ao nosso Boletirn; incitado, àlêm disto, pela consciência do dever, que me impunha dar à Classe uma tal qual reparação pelo tempo demorado em que lhe não prestei quási nenhum serviço ; preparri com di-ligência, com boa vontade, alguns trabalhos sôbre assun-tos literários, que predilectamente tenho versado nos últi-mos tempos, e vim, aqui, apresenta-los, em sucessivas comunicações.

Se me não engano, foram estas, tanto em sessões da Classe, como em sessões da Assemblea Geral, em número de oito, no decurso de dez meses de funcionamento aca-d€mico. E dêvo dizer, desde já, que as apresentadas

em Assemblea Geral o foram pelo facto do ilustre

pre-sidente da Academia ter insinuado que ali deviam ser

realisadas, de preferência, as que simultaneamente

po-desHem interessar aos. estudos que às duas Classes

com-petem.

Duas dessas comunicações, pela sua nature~a, pela

restricção do assunto nelas versado, porque não

exi-giam o dizer-se mais do que o que nelas se disse, ocuparam as atenções dos meus ilustres consócios por

um limite mínimo de tempo ; pois seria abuso do seu favor o demora-los com divagações palavrosas e escu-sadas. Mas as seis restantes, consistindo m6I·mente na

apresentação de numerosos factos de ordem literária ou

de história da literatura, na de excertos indispensáveis

para do·cumentação das asserções aduzidas e das

conclu-sões tiradas, exigiram que essas atenções fôssem

solici-tadas por mais algum tempo, não excedendo, comtudo,

o normalmente adoptado, em toda a parte, para uma

c'Onferência literária ou para um discurso académico.

Uma hora, ou pouco mais, foi, em todas elas, o limite

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5

para eu fazer a apresentação dêsses meus estudos, em

termos; a um tempo, de os insinuar no conheeimento da

Classe 13 de dar satisfação a mim próprio, não

desapro-veitando, não inutilisando êsses frutos, embora precá-rios, da minha possível aplicação.

Entendia eu, e continuo entendendo, que uma das

maiores vantagens das agremiações estudiosas é a esti

-mulação recíproca dos membros que as constituem, entre

-chocando-se os seus espíritos, sugestionando~se mutu

a-mente, animando-se para o trabalho, cada um na sua

esféra) na sua competência, e de modo a contribuírem,

no conjunto, para o mesmo resultado, que deve ser a

maior utilidade e o maior prestígio da sociedade espir

i-tual em que se irmanam e confraternizam. Para isso é

preciso que uns compreendam, respeitem e alentem com

a deferência da sua atenção, a exposição dos trabalhos

dos outros; os incitem a vir associar a sua fôrça, mesmo

quando diminuta, às d0s que, melhor dotados, mais po

-derosamente podem concorrer para o conseguimento do

resultado último. Quando não seja êste o espírito das

sociedades como a nossa, ou quando, sendo-o, êle não

esteja sempre presente norteando os seus actos, é co

n-sequência fatn.l a dissolução do grémio fraterno ; se não,

ostensivamente, por meio de manifestações violentp,s, de

certo, práticamente, por meio de retraimentos, do afas

-tamentos, que muitas vezes se deixam ficar inexplicados;

mas que se manifestam com prejudiciais conseqüências, no·

desinterêsse pela obra comum e na deliberação resoluta

de não tomar parte nela.

Foi, guiado por êste modo de compreender o que,

dentro dêste recinto, devêmos uns aos outros, para

uti-lidade de todos, que eu, como um dos mais antigos

aca-démicos, conhecedor e respeitador dos usos e das tradi~

ções dêste antigo e nobre Instituto, e seguindo as praxes e os exemplos de todos quantos imperam ainda nesta

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6

casa, pela glória que lhe deram e nos reflexos da qual nós, hoje, como académicos, vivêmos; foi, por isso, repito, que vasei as minhas comunicações no molde secular-mente estabelecido, demarcando-lhes o âmbito que, por toda a parte, o consentimento geral e o bom senso pessoal admitem,- e até em muitos casos preceituam, -para

ser exposta a matéria- de uma lição de professor, de

uma conferência literária ou scientífica; emfim, geral-mente, a de um discurso.

Precisei de uma hora, e não menos, para realizar cada uma delas; e sempre, tanto a digna Presidência como todos os meus ilustres confrades me penhoraram com a sua atenção, evidenciando com ela e com o silêncio man-tido, o interêsse que lhes merecia, se não a palavra do expositor, a curiosidade e a novidade da matéria exposta.

Qual não foi, portanto,

a

minha surpresa quando, ao

lêr o nosso novo Regulamento, deparo com o seu

ar-tigo 36.0

, onde, só agora, depois dA quási século e meio

de existência desta Academia, se entendeu necessário limitar aos académicos o uso da palavra; restringir, para todos os casos e em todas as circunstâncias, -seja qual fõr a importância do assunto que desejem tratar e ·qual a abundância de matéria que tenham necessidade ou

vontade de expô r, - ao mesmo escasso período de trinta

minutos, a sua comunicação? Porque se tornou necessá-rio, agora, quando nunca o foi, em nenhum tempo, a pres-·crição regulamentar dessa limitação ?

Eu bem sei, e nisto não tenho dúvida nenhuma, que tanto o facto extraordinário de eu ter feito, dentro de pou-cos meses, seis comunicações académicas (creio que fo-ram seis) de uma hora de extensão cada uma, como o facto de ser, no próprio momento em que me mostrava dis-posto a prossegui-las, que o regulamento me vem coartar o anterior direito de lhes dar Epssa extensão, - bem sei, repito, que esses factos não passam de uma simples

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coin-7

cidê.ncia, sem a mínima intenção, que possa suscitar as minhas susceptibilidades ou justificar os meus me'!indres.

Bem .o sei; e para sabe-lo bastava-me considerar e

re-lembra-r o muito que devo em deferências, não só à Classe a que tenho a satisfação de pertencer, como aos nobres académicos meus amigos (e dos quais um, meu camarada ilustre, já é falecido), a quem foi dada a

incumbência de formular o novo Estatuto, e que nela, se

houveram com a. mais fervorosa intenção de' bem

servi-rem a Academia. Mas, há de convir-se que, pessoalmente, tenho fundamentó para julgar tal coincidência, pelo me-nos inoportuna.

No entanto, não venho aqui expôr êste caso e

sub-mete-lo à observação dos meus consócios,

exclusiva-mente por, nestn. conjuntura, êle me interessar de perto.

Esse caso, para mim, está resolvido. Habituado, pela minha profissão, a respeitar a disciplina, acatarei n académica.,

• como sempre acatei, a militar, e dispensar-me hei,

por-tanto, de trazer à Academia, de hoje em diante, traba-lhos no género daqueles com os quais, sem pensar que me estava enganando, julgava concorrer para o aumento do interêsse das nossas sessões, sobretudo para o de uma ou de outra, condenada por falta de comunicações doutros consócios, a ficar vasia e nula.

O meu fim é fazer observar que a letra expressa do

artigo 36.0 do Regulamento cerceia direitos que os

aca-démicos sempre usufruiram, desde a fundação da Aca-demia, e dos quais não há notícia de haverem jámais concorrido para a ineficácia dos seus serviços literários cu scientíficos, para deslustre das s{!.as sessões ordiná-rias ou solénes, emfim para deprestígio dela. E lembro as sessões solénes, porque o mesmo artigo também as atinge, não consentindo que excêda três quartos de hora a leitura de um elogio académico ou a de qualquer me-mória scientífica ou literária nelas apresentada.

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Mas, se sou disciplinado e obediente, e se da resolução

em que· estou de o $Cr não deriva nenhuma consequência

desproveitosa para a Academia,. o mesmo não entendo

com resp-eito a certa ordem de trabalhos e de estudos

de outros consócios, aos quais é imposta a penalidade injusta de os lançarem no leito de Procusto daquele

36.0 artigo; inovação reformadora, que pode ter

obe-decido a graves considerações daqueles que a propu-zeram e por cuja indicação ela foi aprovada; porém que, desconhecidas para mim, me tornam rebelde a aceita-la. E a todos declaro que será sempre com boa disposição que verei as transgressões frequentes a que tão rigorosa prescrição não poderá eximir-se, e que estarei sempre ao lado da nossa digna Presidência, quando, bem aconselhada pelo seu critério, justamentA autorise que esta seja transgredida.

*

*

Passarei, agora, a outras observações sôbre as quais

não serei igualmente extenso, limitando-me . apenas a

acentuar o meu desacôrdo com algumas das novas dis-posições do Estatuto ou do Regulamento; para que essa discordância fique consignada e eu não participe de futu-ras responsabilidades nem se suponha uma unanimidade de aprovação, que êsses diplomas não tiveram. Essas observações faço-as aqui, porque me não foi facultado ensejo de noutra parte e em devido tempo as fazer.

Não aprovo o disposto no artigo 65.0 do Regulamento,

em que se determina que «as comunicações scientíficas ou literárias, que se destinem a ser lidas em sessão, e publicadas nos boletins das classes, sejam primeiramente levadas ao conhecimento dos respectivos presidentes delas>>.

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9

Os sócios desta Academia, quando nela deram ingresso, tinham já atingido a sua maioridade literária ou scientí-fica; consideram-se, para todos os efeitos, no desenvolvi- ·

mento pleno da sua individualidade mental; e possuem a capacidade precisa para assumirem todas as responsa-bilidades do seu saber e do seu critério. Podem outros não pensar do mesmo modo ; mas eu declaro que entendo

in-quisitorial o estabelecimento dessa censura prévia e reputo humilhànte a·obediência a ela. Tal preceito nunca foi pre-ciso na. Academia desde a sua instituição ; nunca se reco-nheceu como inconvenientE\ a sua não existência; com-preendia-se que, se tivera existido, na vigência de um velho regime contrário à livre discussão, êle fôsse re-vogado agora. Mas vir introduzi-lo no período avançado em que as tradições da Academia se encontram, momen-taneamente em depósito nas nossas mãos, das quais devem passar· invioláveis e invioladas para os nossos continuadores, parece-me, pelo menos, um dAsacerto, que talvez não tivesse ocorrido, se para êle tivessem sido chamadas, a tempo, maior número de atenções.

A revogação da antiga faculdade, que a Academin tinha de poder recrutar sócios efectivos entre indivíduos extranhos a eln, confinando-se, agora, o preenchimento das vagas dessa úategoria, exclusivamente, nos seus sócios cor-respondentes, afigura-se-me ter sido uma auto-diminuição dos seus direitos, com gravíssimo e irremediável pre-juízo para a sua futura constituição. Ela não poderá jámais abrir as suas portas a altas individualidades lite-rárias, scientíficas, sociais, que, pela própria elevação já atingida, tenham o sentimento de que lhe dariam tanto pres-tígio, pelo menos, quanta a consideração que dela

recebes-l

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10

sem; porque essas índividualidades rarissimamente terão a condescendência de virem primeiro concorrer a uma

. vaga de sócio correspondente, para aí, no caso de serem eleitas, se submeterem a demorado estágio, até àlcança-rem uma efectividade tardia, que lhes não acresce nem as honras nem os méritos.

Neste mêsmo momento~ lá fóra, onde a nossa Acade-mia foi buscar o seu modêlo, atentemos na deliberação acabadn. de tom~r pela Academia Francesa. Imediata-mente a ser assinado o armistício, com o qual se pôs termo aos horrores sanguinários da lucta que em mais de quatro anos assolou a terra, essa grande e prestigiosa instituição, que é uma verdadeira glória da França, ofertou ao génio militar de Foch e ao .génio político e administrativo de Olémenceau, a honra máxima que tinha direito e poder de lhes tributar ; e, por aclamação, deu a cada um uma das suas cadeiras, que êles aceitaram e agradeceram, re-conhecendo o altíssimo valor dessa distinç:ão. Se Clé-menceau e Foch fôssem concidadãos nossos e houvessem prestado à sua pátria e ao mundo o serviço inapreciável que, como franceses, lhes fizeram, a Academia das Sciências de Lisboa tinha-se impossibilitado de lhes tributai: idêntica homenagem; porque ela, que sempre, através da sua existência secular, o poderia ter feito, ar~ancou, agora, a si mesma o direito d.e o praticar! E êsses nomes, que hoje se acrescentaram à lista gloriosa dos académicos franceses, se tivessemos a ventura nacional de serem de homens nossos, os seus altos feitos, os seus méritos quási sôbreumanos, não poderiam hoje fazer com que êles fôssem acrescidos aos de tantos outros com que a nossa,Academia, em passados tempos, engrandeceu os seus anais !

Esta restricção, a si própria imposta, como uma espé-cie de medida policial, nem visa, sequer, a remediar qualquer inconveniente, que tenha sido observado em

(13)

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eleições de sócios efectivos, até aqui feitas. Pelo contrá · rio: obstará a que ela, d'ora em seguida, possa praticar actos de altíssima justiça, como o que, em dias não re-motos, teve a boa fortuna de poder fazer, quando pre-miou com o diploma de sócio efectivo os serviços que, como seu funcionário, lhe prestou o distintíssimo homem de letras, Ramalho Ortigão, coroando, por es~~ forma, uma vida literária eminentemente gloriosa.

RestricÇão análoga tambêm a· ::;i impôs a Academia, limitando o número dos seus sócios correspondentes, ou antes, fixando em 40, e em cada classe, o número efec-tivo e necessário de sócios de tal categoria. Moven-n a essa situação, o reconhecer a própria imprevidência com que parece ter excedido uma proporção razoável entre os nómeros dos sócios das duas categorias ; e, tam-bêm, o facto, que todos lamentâmos, de. não · correspon-derem, nem o interêsse nem a assiduidade de muitos dêsses nossos confrades, à espectativa académica de quando foi votada a sua admissão.

Ora, o facto da Academia tirar a si própria o direito de, em tempo que pode ser longo,- e oxalá o seja porque só a morte de consócios o póde abreviar ! - en

-grossar as suas fileiras com sócios correspondentes, dignos de o serem e que sejam de utilidade para ela, não melhora as suas actuais condições sob êsse ponto de vista, nem desperta interêsse e assiduidade nos que, já

sobejamente, provaram não terem nem nm, nem outra. E se essa pletóra de sócios, que não a servem e que são tais quais como se o não fôssem, se tornon um mal, 13xigente de remédio pronto, êste deveria, lógicamente, encontrar-se na aplicação do regulamento, que advertida-mente preveniu o caso, e não no sacrifício fPito a êsses sócios, não úteis, de um salutar e vivificante recrutamento de sócios novos.

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contradi-12

ção, é, precisamente, no grupo dos sócios correspon-dentes, tal qual como está e como fica, que o novo Re-gulamento estabelece o viveiro, d'onde hão de sair os sens sócios efectivos, nas futuras eleições!

Tem êle a esperança de que venham a conc.orrer à efectividade académica aq neles para quem a Academia nunca foi objecto da sua ocupação? E, se concorrêrem, elegê-los-há esta, com êsses antecedentes. confiando numa assiduidade futura, que o passado, de antemão, desmente? Não elege, de certo; e, por conseguinte, todos esses concorrentes regulamentares, candidatos natos, estão, por sua· natureza, excluidos. Ficam, para a con-corrência às vacaturas de efectivos, sómente os corres-pondentes, frequentadores das sessões e colaboradores na proficuidade destas. No momento presente, o seu limitado núme1;o é de tal modo precioso p!tra a Academia e tão desveladamente a serve, que raro será aquele, que não seja candidato in-petto de mais· de um eleitor. Mas o Regulamento não é só par·a ocorrer às circunstâncias actuais ; é de efeitos perpétuos, e, suprimindo ou limi:. tando éxcessivamente a concorrência, anula de facto o concurso, e transforma-o em promoção.

A Academia, destruindo esperanças legítimas e justas aspirações, dificultando quàsi até à impossibilidade u seu acesso e tornando-se uma espécie de coterie, dispensa-dora das suas graças a raros privilegiados, aliena valores intelectuais, desenganados de entrarem nela pela acção do seu próprio mérito e que, vendo-se repelidos

e

mal snbstituidos, virão a ser outras tantas inimisades, conju-gadas no mesmo despeito, e empenhadas em deprimi-la no conceito público.

Antevêjo, - e bem desejára ser eu o iludido,- nestas novas disposições regulamentares, o germen fatal de próxima e acentuada decadência do nosso instituto. Re-ceio, que se fa<:a sentir em breve. A repulsã8 dos

(15)

grau-13

d.es nomes, das fortes individualidades, que ela tinha o direito, e já não tem, de assoeiar, directa e imediata-mente, na sua mais alta categoria, privá-la há de elemen-tos, que seriam sem; apoios sociais e qne lhe comunicariam prestígio pelo seu pessoal esplendor. E as Academias, como tem sido notório na própria Academia Francesa, se se ilustram com as glórias dos que delas fazem parte, tambêm sofrem grandes atenuações no seu brilho, quando a opinião pública extranha e lamenta, com motivo, que estas individualidades gloriosas lhes não pertençam.

*

* *

Foram extintas as nossas assemblêas gerais, scientí-:fico-literárias, e substituidas por um pequeno número de

sessões conjuntas em cada ano, todas subordinadas, de

-modo explícito, a fins restrictamente definidos e de cará-cter administrativo.

As antigas assemblêas gerais, realizadas todos os me-ses, eram outras tantas ocasiões de a Academia sentir e afirmar a sua unidade de verdadeira corporação única. Eram o élo maior que prendia entre si as duas classes. Esse élo foi quebrado agora. Hoje, tão sómente as liga a alternância na presidência académica, a secretaria ge-ral, e o cordão umbilical da administração dos fundos

comuns. No mais, são duas corporações alheias uma à

outra; são positivamente duas Academias.

Tambêm, por coincidência, em que a minha diminuta individualidade foi forçada a tomar parte, senti, mais do que qualquer outro dos meus ilustres colegas, o desatar dêsses laços académicos. No desejo de corresponder a uma indicação dada pelo sr. presidente actual da Aca-demia, para que fôssem feitas, não nas classes isoladas,

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14

e tendo sido essa indicação motivada por uma comuni-cação dêsse género, por ·mim apresentada na classe a que pertenço, preparei um estudo, do qual me foi auto-rizada a leitura da sua primeira parte, na que devia ser penúltima assemblêa geral, antes das últimas férias. Assim o fiz ; e a segunda parte do mesmo trabalho ficou, reservada, para ser lida na última assemblêa geral antes do mesmo período.

Mas, nesse intervalo, foi publicado o novo Estatuto, e como. por êle as assemblêas gerais foram extintas, ficou prejudicada a minha comunicação e anulado o empenho

com que a redigi. ·

Agora, não tenho meio regulamentar de concluir a apresentação dêsse trabalho, porque lhe não reconheço o valor suficiente para solic\tar a convocação de uma sessão conjunta extraordinária, afim de ir perante ela realizar a sua leitura ; nem mesmo pará, sendo estranho à classe de Sciências, ir pedir-lhe que me escuto, por cortês deferência. E se o assunto não é contra-indicado para que dele se possa ocupar exclusivamente a classe de Letras, tem o defeito de ser uma continuação ; não falando já em que, preparado para a vigência do regu-lamento anterior, a sua amplitude opõe-se a que eu o possa comprimir, até ca:ber na meia hora do regulamento actual.

Creio ser isto uma demonstração concreta de como a nova disposição dos Estatutos, operou a desligação scien-tífico-literária das duas classes.

Decididamente, pelo lado pessoal, não fui feliz com o novo regulamento, ou êle não foi feliz comigo. 'Não é isso, porém, o que mais importa.

(17)

1D

*

*

*

Abstenho-me de consignar observações, que outros pontos dos Estatutos me inspiraram, porque não devo

ser mais extenso. E vou terminar, rogando aos meus .

doutos consócios, que só vejam no expendido a dedica-ção de um velho académico pela alta corporadedica-ção literária e scientífica a que se honra, sinceramente, de pertencer, e por cujos destinos, com fervor, se interessa. A Acade-mia é uma herança, legada por antepassados eminentes, que muito a amaram, e que os seus detentores de cada

hora devem manter íntegra, para a transmitirem,· com as

mesmas condições de persistência e de vitalidade, aos seus continuadores no futuro. Não duvido de que seja êste o pensar de todos os que, na hora presente, a cons-tituem. Mas no empenho da conservação dela e no de lhe garantirem uma existência perdurável, são admissí-veis e próprio do que é humano divergências na profi-cuidade dos processos. Por isso, não perco a esperança

de que .as minhas considerações sejam ponderadas por

aq neles a cujo juízo as submeto ; nem de que venham, tarde ou cêdo, a serem atendidas, no que de razoável e justo tiverem. Uma certa veemência, que talvez haja no modo como as exponho, é, apenas, indicativa de temperamento individual, sem quebra do aprêço em que tenho todos aqueles a cujo lado me sento -e que sejam de parecer adverso às minhas impugnações.

Isto não é um protesto ; eu posso errar ; eu posso não ter razão; seria uma declaração de voto, se sôbre os diplomas, que em parte tenho apreciado, tivesse incidido votação. Não a houve ; e eu solicito do nosso digno Pre-sidente que, tomando esta minha exposição sob êsse as-pecto, a faça inserir na acta da sessão de hoje) ou

(18)

deter-16

mine a sua publicação separada no Boletim da classe, conforme melhor entender; para, como já disse, afastar de mim, perante os nossos continuadores, responsabilida-des que não responsabilida-desejo assumir, e para aí ficar arquivada como base para qualquer futura discussão.

(19)
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ÚLTIMAS PUBLlCAÇÕES

- ' I

- DA

ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS DE LlSBOA

Memó1:ias da Primeira Classe~ tom.Vll, parte Il .. Memórias ga Segunda Classe, tom. XJII ..•

Actas das Assemble-ias Gera-is, vol. III. . . • .• Actas da Prim~ira Classe, vól. II. • . • '. ~.

Boletim d_a Segunda Classe, vol. XII, n. o 2 . . • . ,.

Jornal de· Sciências Màtematicas, 3.'!.. séri~, n.0 5 .•.. , • Boletim Bibliográfico, 2.• sél'ie, vol. U, n.0 1 . . . . Cartas de Afonso de Albuquerque, vol. VI. • • . • Portugaliae Monume_nta .Historica cclnquisitiones», vol. I,

. parte II, fase. VI. . . . • . . . • Sá Chaves- Subsídios. para a história militar das nos;as

lu-~ tas civis, vol. ÍI. . . . .~ . . .. . . : . . . • . . . . D. G. Dalgado -~Lord -Byron's Childe Harold's Pilgrimage to

.Portugal. . . . ~ . . . . . . D. João I - Li.vro da Monta1:ia . . . . . . . Sebastião Dalgado!.,... Glossário luso-asiático, vol.·I ..

~odà.s literarias de D. Maria A. Vaz de Carvalho .•

Moliere--;;-0-medico à força; 2"• ed . . . _ .... . . Virgilio Machado- Elementos de neurosscmiologia clínica .• • Visconde de Carnaxide-:..._ Elpgio de Veiga Beirão -:-. . ·. . .

MONUrt'ENTOS DE LITERATURA DRAMÁTICA PORTUGUESA

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1 . ....: Jorge Ferreira de Vasconcelos"-- Comedia Eufrosin!J.·· .

- ÍI.- Ayres V!ctoria-- A ving,ança de Agamenom . ·. UI. - Je~nimo Ribeiro - A~ to do ·fís_i.Go . . • . . . , • . . ..

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