Curso de P´os-graduac¸˜ao em Matem´atica Dissertac¸˜ao de Mestrado
Ideais Monomiais Diferenci´
aveis
´
Erica Nogueira Macˆedo
Salvador-Bahia
Ideais Monomiais Diferenci´
aveis
´
Erica Nogueira Macˆedo
Disserta¸c˜ao de mestrado
apresentada ao colegiado do
curso de P´os-Gradua¸c˜ao em
Matem´atica da Universidade
Federal da Bahia, como
re-quisito parcial para obten¸c˜ao
do T´ıtulo de Mestre em
Matem´atica.
Banca examinadora:
Prof. Dr. Carlos Eduardo Nogueira Bahiano (Orientador)
Prof. Dr. Thierry Corrˆea Petit Lob˜ao
Profa
. Dra
renci´aveis. Salvador-Ba, UFBA, 2004 (Disserta¸c˜ao
de Mestrado apresentada ao curso de p´os-graduac˜ao em
Matem´atica)59p.
prazer n˜ao ´e o conhecimento e sim a aprendizagem, n˜ao ´e a posse mas a aquisi¸c˜ao, n˜ao ´e a
presen¸ca mas o ato de atingir a meta.”
Agradecimentos
A Deus, em primeiro lugar, por ter me dado for¸ca e determina¸c˜ao para chegar ao fim de
mais uma etapa na minha vida. Aos meus colegas de curso pelo incentivo e pelas horas em que
compartilhamos as dificuldades, em especial para Azly, Odete Amanda, Laura, Ivana, Andr´ea,
Nelson, Rosely, Paulo, Gilmar, Jorge. Aos professores do Mestrado, com destaque para o meu
orientador, Prof. Dr. Carlos Eduardo Nogueira Bahiano, pela paciˆencia e disponibilidade em
todas as etapas deste trabalho.
Agrade¸co a Maria de F´atima, minha tia, por ter sido a primeira referˆencia e incentivo
para o estudo da matem´atica. Agrade¸co em especial a minha fam´ılia, Macˆedo (meu marido)
e a Nath´alia (minha filha), pela paciˆencia, incentivo e compreens˜ao nas horas em que tive que
estar ausente.
O texto a seguir, tem como objeto b´asico de estudo, ideais diferenci´aveis em an´eis de
polinˆomios sobre um corpo de caracter´ıstica zero. Ser´a dada ˆenfase aos ideais monomiais e a
fam´ılia de deriva¸c˜oes que preservem estes ideais. Um dos objetivos deste trabalho ´e encontrar,
para um ideal preservado por uma fam´ılia de deriva¸c˜oes, a decomposi¸c˜ao prim´aria, cujas
com-ponentes prim´arias sejam tamb´em preservadas pela mesma fam´ılia. A.Seidenberg em seu artigo
Differential ideals in rings of finitely generated typegarantiu a existˆencia de uma decomposi¸c˜ao
prim´aria de um ideal diferenci´avel cujas componentes prim´arias tamb´em s˜ao diferenci´aveis, mas
n˜ao explicitou qual decomposi¸c˜ao assume esta propriedade, nem forneceu meios comput´aveis
para encontr´a-la. Portanto, mostraremos para alguns casos, um m´etodo de encontrar esta
decomposi¸c˜ao prim´aria com componentes diferenci´aveis. Neste mesmo trabalho, abordaremos
rela¸c˜oes entre ideais que n˜ao s˜ao diferenci´aveis e pontos regulares de variedades, como forma
da exemplificar a importˆancia do t´opico estudado.
Para desenvolver as a¸c˜oes descritas acima, estudamos sobre as propriedades das deriva¸c˜oes,
abordamos o m´odulo das deriva¸c˜oes e a sua rela¸c˜ao com a matriz jacobiana, que nos permite
calcular as deriva¸c˜oes que preservam os ideais em quest˜ao.
´Indice
1 Defini¸c˜oes B´asicas 9
1.1 Ideais Prim´arios . . . 9
1.2 Decomposi¸c˜ao Prim´aria e An´eis Noetherianos . . . 10
2 Deriva¸c˜oes e Diferenciais 15
2.1 Deriva¸c˜oes . . . 15
2.2 O m´odulo das diferenciais de K¨ahler . . . 22
2.3 Seq¨uˆencias Fundamentais . . . 24
3 Ideais Diferenci´aveis 27
3.1 Ideais diferenci´aveis . . . 27
3.2 Ideais diferenci´aveis e a decomposi¸c˜ao prim´aria . . . 32
3.3 Ideais diferenci´aveis e regularidade . . . 45
A Apˆendice 49
A.1 An´eis e M´odulos . . . 49
A.1.1 Opera¸c˜oes com Ideais . . . 50
A.1.2 Anel Noetheriano . . . 51
A.1.3 An´eis Regulares . . . 51
A.1.4 Anel das S´eries de Potˆencia . . . 51
A.1.5 M´odulos . . . 54
A.1.6 Produto Tensorial de M´odulos . . . 54
A.1.7 Extens˜ao de M´odulos . . . 55
Cap´ıtulo 1
Defini¸c˜
oes B´
asicas
Neste cap´ıtulo, abordaremos alguns conceitos necess´arios para a compreens˜ao das
deriva¸c˜oes em an´eis de polinˆomios, especificamente quando aplicadas em ideais monomiais,
objeto central de estudo.
Considere para todo o texto, A um anel comutativo e com unidade, exceto quando
explicitarmos o contr´ario.
1.1
Ideais Prim´
arios
1.1 Definic¸˜ao. Seja I um ideal de um anel A . O radical de I ´e o conjunto dado por
√
I ={x∈A; xn∈I para algum n ∈N}.
1.2 Definic¸˜ao. Um ideal pr´oprio I de A ´e dito ser prim´ario se para todo x, y ∈ A tais que
xy∈I tem-se x∈I ou yn ∈I para algum n ∈N
Em an´eis comutativos, isto equivale a dizer que sexy ∈I e y /∈√I ent˜aox∈I.Disto
decorre que:
I ´e prim´ario⇔ A
I 6= 0 e todo divisor de zero em A
I ´e nilpotente.
Vejamos alguns exemplos:
Exemplo 1.1. Os ideais prim´arios em Z s˜ao (0) e (pn),onde p´e um n´umero primo.
Exemplo 1.2. Seja A=R[x, y] e seja q= (x, y2) um ideal de A. Temos ent˜ao que:
A
q =
R[x, y] (x, y2) ∼=
R[y] (y2)
e portanto os divisores de zero s˜ao todos nilpotentes. Podemos concluir da´ı que q´e prim´ario e
temos que:
√
q=p(x, y2) = (x, y).
Exemplo 1.3. Seja A =R[x, y] e seja I = (x2, xy) um ideal de A. Temos que xy∈ I
e como x /∈I, para I ser prim´ario, ´e necess´ario que yn ∈ I para algum n ∈ N. Como isto de
fato n˜ao acontece, ou seja, yn∈/I para todo n∈N, I n˜ao ´e um ideal prim´ario.
1.3 Proposic¸˜ao. Seja I um ideal prim´ario de um anel A. Ent˜ao √I ´e o menor ideal primo contendo I.
Demonstra¸c˜ao. Basta mostrar que p = √I ´e primo, pois temos que o radical de I ´e a
intersec¸c˜ao de todos os ideais primos que o cont´em, e claramente pela defini¸c˜ao acima temos
tamb´em queI ⊂√I.
Seja xy∈p ent˜ao (xy)m ∈I para algum m >0.
Como I ´e prim´ario temos que xm ∈I ou (ym)n ∈I para algumn > 0, isto ´e , x∈√I
ouy∈√I. Portanto concluimos que p=√I ´e primo .
I ´e dito serp-prim´ario se I ´e prim´ario e √I =p.
1.2
Decomposi¸c˜
ao Prim´
aria e An´
eis Noetherianos
A decomposi¸c˜ao de um ideal em componentes prim´arias ´e uma ferramenta
12
alg´ebrica. Como nosso ambiente de trabalho s˜ao an´eis de polinˆomios sobre um corpo de
car-acter´ıstica zero, temos que estes an´eis s˜ao noetherianos e portanto admitem decomposi¸c˜ao
prim´aria.
1.4 Definic¸˜ao. A decomposi¸c˜ao prim´aria de um ideal I em A ´e uma express˜ao de I como intersec¸c˜ao finita de ideais prim´arios. Isto ´e,
I =Tn
ı=1qı, onde cada qı ´e prim´ario, ı= 1, ..., n
Um ideal ´e dito ser decompon´ıvel se possui uma decomposi¸c˜ao prim´aria.
Os ideais prim´arios que aparecem na decomposi¸c˜ao prim´aria de um ideal I s˜ao
geral-mente chamados de componentes prim´arias deI.Um mesmo idealI pode ter diferentes
decom-posi¸c˜oes prim´arias, embora o conjunto dos radicais das componentes prim´arias seja invariante
como mostra o teorema a seguir.
1.5 Teorema. Seja I um ideal decompon´ıvel e seja I = Tn
ı=1qı a decomposi¸c˜ao prim´aria
m´ınima de I. Seja pı =
p
(qı), 1 6 ı 6 n. Ent˜ao pı s˜ao precisamente os ideais que aparecem
no conjunto dos ideais {p(I :x) x∈A} e independem da decomposi¸c˜ao particular de I.
Demonstra¸c˜ao. Parax∈A, temos que
(I :x) = ( n
\
ı=1
qı :x) = n
\
ı=1
(qı :x)
e ent˜ao
p
(I :x) = n
\
ı=1
p
(qı :x) =
\
x /∈q
p.
Suponha que p(I :x) ´e primo. Ent˜ao temos que p(I :x) =p para algum.
Cada ideal primo da forma p(I :x) ´e um dosp. Por outro lado, para cadaı teremos
que se xı ∈/ qı ent˜ao xı ∈ T6=ıq, o que nos leva a concluir que a decomposi¸c˜ao ´e m´ınima e
ent˜ao temos
p
(I :xı) =pı.
Exemplo 1.4. Seja A=R[x, y] um anel e I = (x2, xy) um ideal deste anel.
O radical de um ideal ´e a intersec¸c˜ao de todos os primos que o cont´em, portanto,
√
I = (x)\(x, y) = (x)
Logo temos que I = (x)T
(x, y)2 onde os ideais (x) e (x, y)2 s˜ao prim´arios pois o primeiro ´e
primo e o segundo ´e a potˆencia de um maximal.
No entanto, observe que o ideal I n˜ao ´e prim´ario pois se temos h∈I ent˜ao
h =f x2+gxy =x(f x+gy),
mas x /∈I e f x+gy /∈√I = (x)
Se temos I =Tn
i=1qi com qi prim´arios e se
p
(qi) =pi dizemos que os ideaispi s˜ao os
primos associados deI. Indicaremos estes primos associados pela nota¸c˜ao Ass(I).
No exemplo anterior temos que (x) e (x, y) s˜ao os primos associados de I, ou seja,
Ass(I) = {(x),(x, y)}.
Um ideal I ´e prim´ario se, e somente se, possui um ´unico ideal primo associado.
Um ideal I de um anel A pode n˜ao ser decompon´ıvel, ou seja, pode n˜ao possuir uma
decomposi¸c˜ao prim´aria. Isto n˜ao o impede de ser expresso como uma intersec¸c˜ao de ideais
pr´oprios.
1.6Definic¸˜ao. Um idealI de um anelA´e dito ser redut´ıvel se existem ideais pr´oprios I1 6=I2
tais que I =I1∩I2. Caso contr´ario, o ideal ´e dito ser irredut´ıvel.
1.7 Proposic¸˜ao. Seja A um anel noetheriano, e ent˜ao todo ideal I de A ´e uma intessec¸c˜ao de ideais irredut´ıveis, isto ´e, existem ideais irredut´ıveisI1, . . . , Ir tais que I =∩rı=1Iı.
Demonstra¸c˜ao. SejaN o conjunto de todos os ideais de A que n˜ao podem ser escritos como
intersec¸c˜ao de ideais irredut´ıveis e assuma queN ´e n˜ao vazio.
Primeiramente, vemos que qualquer ideal emN ´e redut´ıvel, pois caso contr´ario ele seria
14
com I1 ou I2 ∈ N, pois caso contr´ario ter´ıamos uma decomposi¸c˜ao para I pela concatena¸c˜ao
das decomposi¸c˜oes deI1 eI2.
Dessa forma temos provado que para cada I ∈ N, temos J ∈ N tal que I est´a
pro-priamente contido em J e portanto podemos formar uma cadeia infinita ascendente de ideais
encaixados, o que contradiz o fato deA ser noetheriano.
A pr´oxima proposi¸c˜ao garante a existˆencia de decomposi¸c˜ao prim´aria em an´eis
noethe-rianos.
1.8 Proposic¸˜ao. Todo ideal pr´oprio irredut´ıvel de um anel noetheriano ´e prim´ario.
Demonstra¸c˜ao. Seja I um ideal de um anel noetheriano A. Seb ∈A ent˜ao existe m ∈N tal queI :bm =I :bm+1. De fato, temos que I ⊂ I :b ⊂I :b2 ⊂ · · · ⊂ I :bm ⊂ · · · ´e uma cadeia
ascendente de ideais encaixados. J´a que A ´e noetheriano, esta cadeia estaciona, isto ´e, existe
m∈N tal que I :bm =I :bm+1.
Se I n˜ao ´e prim´ario ent˜ao I ´e redut´ıvel. De fato, se I n˜ao ´e prim´ario existemf, h∈A
tais quef h∈I, f /∈√I eh /∈√I, isto ´e, f /∈I e hm ∈/ I para qualquer m ∈N.
Seja r ∈ N tal que I : hl = I : hl+1,∀l > r. Afirmamos que I = (I, f)∩(I, hr). Com efeito I ⊂(I, f)∩(I, hr) ´e imediato. Agora seja x um elemento desta intersec¸c˜ao; ent˜ao
x=s1+t1f =s2+t2hr, com s1, s2 ∈I e t1, t2 ∈A. (1.1)
Multiplicando 1.1 porhobtemoss2h+t2hr+1 =s1h+t1f h∈I; da´ı temos quet2hr+1 ∈
I, isto ´e, t2 ∈ I : hr+1 e uma vez que I : hr = I : hr+1 temos que t2 ∈ I : hr logo t2hr ∈ I e
finalmente, x∈I. Al´em disto (I, f)6=A e (I, hr) 6=A. De fato, se (I, f) =A ent˜ao existiriam
t ∈ A e u ∈ I tais que tf +u = 1 que multiplicado por hr resulta hr = thrf +hru e ent˜ao
hr∈I o que ´e uma contradi¸c˜ao. De maneira an´aloga mostra-se que (I, hr)6=A.
Podemos concluir ent˜ao que, em um anel noetheriano ou os ideais s˜ao irredut´ıveis,
portanto prim´arios, ou podem ser expressos por meio de uma intersec¸c˜ao de ideais irredut´ıveis.
Como todo ideal irredut´ıvel ´e prim´ario, garantimos uma intersec¸c˜ao finita de ideais prim´arios
Exemplo 1.5. Seja A=R[x, y, z] e seja I = (x2y, z) um ideal de A. Vemos que I n˜ao
´e um ideal irredut´ıvel pois podemos escrevˆe-lo da seguinte forma:
I = (x2, z)∩(y, z)
onde os ideais(x2, z) e(y, z)s˜ao irredut´ıveis e portanto prim´arios. Neste caso I n˜ao ´e um ideal
Cap´ıtulo 2
Deriva¸c˜
oes e Diferenciais
Neste cap´ıtulo, faremos uma abordagem sobre as deriva¸c˜oes e suas propriedades. A
seguir vamos caracterizar o m´odulo de diferenciais de K¨ahler que nos ajudar´a a encontrar o
conjunto de todas as deriva¸c˜oes de um m´odulo com o objetivo final de saber quais destas
deriva¸c˜oes preservam determinados ideais. Para caracterizar tais deriva¸c˜oes faremos uso das
seq¨uˆencias exatas, mais especialmente da segunda seq¨uˆencia exata fundamental.
2.1
Deriva¸c˜
oes
2.1 Definic¸˜ao. Sejam A uma k-´algebra, M um A-m´odulo. Uma deriva¸c˜ao de A com valores em M ´e uma aplica¸c˜ao D:A→M satisfazendo as seguintes condi¸c˜oes:
1. D(a+b) =Da+Db
2. D(ab) =aDb+bDa
3. D(λ) = 0, ∀λ∈k
Segue das propriedades acima que:
4. D(λa) =λDa, ∀λ∈k
5. D(an) =na(n−1)Da, para todo natural n.
Observe que decorre da defini¸c˜ao acima que toda deriva¸c˜ao ´e uma Z-deriva¸c˜ao, pois
D(1) =D(1·1) =D(1) +D(1)
Logo, D(1) = 0. Consequentemente, para todo, λ positivo, temos:
D(λ) = λ
X
D(1) = 0.
Por outro lado,
D(−1 + 1) = D(0)
D(−1) +D(1) = 0
D(−1) = 0
e ent˜ao, podemos concluir que :
D(−λ) =D(−1·λ) = −1D(λ) +λD(−1) = 0.
Ou seja, D(x) = 0 para todo x∈Z.
Observe que em an´eis sem unidade temos sempre uma deriva¸c˜ao nula.
Exemplo 2.1. Considere D: 2Z→2Z. Temos que:
D(4) = D(2·2)
= 2D(2) + 2D(2)
= 4D(2)
Por outro lado, temos que D(4) =D(2 + 2) =D(2) +D(2) = 2D(2).
Portanto,
4D(2) = 2D(2)
2D(2) = 0
18
Como a deriva¸c˜ao anula o gerador do anel, dever´a anular todo e qualquer elemento do
anel. Assim o anel 2Z, que ´e um anel sem unidade, admite apenas a deriva¸c˜ao nula. 2.2 Definic¸˜ao. Dados D, D1 ∈Derk(A, M) e a, b∈A definamos :
1. (aD)b =a(Db)
2. a(D+D1) =aD+aD1
Decorre desta defini¸c˜ao que o conjuntoDer(A, M) das deriva¸c˜oes deAcom valores em
M, ´e um A-m´odulo. Se A´e uma k-´algebra, ent˜ao o conjunto Derk(A, M) das k-deriva¸c˜oes de
A com valores em M , ´e um subm´odulo de Der(A, M). Se M = A escrevemos Derk(A) para
Derk(A, M).
2.3 Teorema. Seja A uma k-´algebra. Seja S ⊂ A um sistema multiplicativo tal que 0 ∈/ S. Seja S−1A o anel de fra¸c˜oes de A em rela¸c˜ao a S. Para qualquer S−1A-m´odulo B e para
qualquer D ∈ Derk(A, B) existe uma ´unica D′
∈ Derk(S−1A, B) que estende D. Al´em disto,
tem-se:
D′(x
y) =
yDx−xDy y2
Demonstra¸c˜ao. Suponha queD′ seja uma deriva¸c˜ao que estenda D.Neste caso,
D(x) =D′(x
1) = D ′
(y· x y)
= yD′(x
y) + x yD
′y
= yD′(x
y) + x yDy
= 1
y ·(y
2D′(x
y) +xDy)
Logo,
D′(x
y) =
yDx−xDy y2 .
Assim, D′ ´e determinada por D e tem que satisfazer a rela¸c˜ao acima e, portanto, a
unicidade est´a provada. Resta mostrar que de fato ela existe, e para isto basta verificar que a
Considere a aplica¸c˜ao D′ definida por D′(x y) =
yDx−xDy y2 .
Mostremos que, D′ : S−1A → B est´a bem definida, isto ´e, x y =
z
w nos leva a seguinte igualdade:
yDx−xDy y2 =
wDz−zDw w2
Sabemos que existe s∈S tal que s(xw−yz) = 0. Ent˜ao existe t∈S tal que:
t·[w2(yDx−xDy)−y2(wDz−zDw)] = 0
De fato, se s(xw−yz) = 0 ent˜aosxw=syz.
Assim temos que:
0 = D(sxw−syz) = D(sxw)−D(syz)
= [(xw−yz)Ds+s(xDw+wDx−yDz−zDy)](syw)
= s(sxw)yDw−s2y2wDz+s2w2yDx−s(syz)wDy
= s2y2zDw−s2y2wDz+s2w2yDx−s2w2xDy
= s2[w2(yDx−xDy)−y2(wDz−zDw)]
Para concluir basta verificar que D′ satisfaz as propriedades abaixo:
1. D′(x y +
z w) =D
′(xw+zy yw ) =D
′(x y) +D
′(z w)
2. D′(x y ·
z w) = D
′(xz yw) =
z wD
′(x y) +
x yD
′(z w)
3. D′(λ
1) =
D(λ)−λD(1)
12 = 0
2.4Corol´ario. SejaAumak-´algebra que ´e um dom´ınio de integridade eLum corpo contendo
A. Se D : A → L ´e uma deriva¸c˜ao, ent˜ao D pode ser estendido de maneira ´unica para uma
deriva¸c˜ao D′ :K
→L onde K ´e o corpo de fra¸c˜oes de A. Al´em disso temos
D′(x
y) =
yDx−xDy
20
Demonstra¸c˜ao. Segue de forma imediata.
Sendo o nosso ambiente de trabalho an´eis de polinˆomios sobre um corpo, precisamos
verificar como se comportam as deriva¸c˜oes neste ambiente. Como todo polinˆomio ´e uma soma
de monˆomios, encontraremos uma forma de calcular o valor que a deriva¸c˜ao assume em um
polinˆomio analisando o que acontece em cada parcela monomial.
2.5 Proposic¸˜ao. Seja D uma k-deriva¸c˜ao em A = k[x1, x2, . . . , xn], onde k ´e um corpo de
caracter´ıstica zero. Sejam um monˆomio da forma m=xr11 · · ·xrn
n . Ent˜ao
D(m) =D(xr11 · · ·xrn
n ) = n
X
ı=1
rıxr11 · · ·xırı−1· · ·xrnnD(xı)
Demonstra¸c˜ao. Seja gr(m) = r1+· · ·+rn o grau do monˆomio m.Usaremos a indu¸c˜ao sobre
gr(m).
Considere gr(m) = 1.Comorı ∈Npara ı∈ {1, . . . , n}temos que existe ∈ {1, . . . , n} tal que r = 1 e rı = 0 para todoı6=.Assim, m =x e portanto D(m) =D(x).
Suponha que para gr(m) = s a igualdade D(m) = n
X
ı=1
rıxr11 · · ·xırı−1· · ·xrnnD(xı) ´e
v´alida.
Paragr(m) = s+1 temos quem =xr11 · · ·xrn
n ·xıcomı∈ {1, . . . , n}.Logo, aplicando-se a deriva¸c˜ao emm obtemos
D(m) = D(xr11 · · ·xrn
n ·xı)
= xıD(xr11 · · ·xrnn) +xr11 · · ·xrnnD(xı)
= xı n
X
ı=1
rıxr11 · · ·xırı−1· · ·xrnnD(xı) +xr11 · · ·xrıı· · ·xrnnD(xı)
= n
X
ı=1
(rı+ 1)xr11 · · ·xırı· · ·xrnnD(xı)
2.6 Corol´ario. Seja A = k[x1, . . . , xn] e B um A-m´odulo. Ent˜ao toda k-deriva¸c˜ao D ∈
Demonstra¸c˜ao. Segue de forma imediata.
Assim para definir uma deriva¸c˜ao em um anel de polinˆomios, precisamos apenas indicar
o valor que ela assume no conjunto de geradores do anel .
Consideremos para a proposi¸c˜ao seguinte o anel Acomo sendo A=k[x] e utilizaremos
a nota¸c˜ao usual para representar as derivadas parcias relativas aos geradores do anel.
2.7 Proposic¸˜ao. Se A = k[x] = k[x1, x2, . . . , xn], ent˜ao Derk(A) ´e um A-m´odulo livre, de
posto n e {∂x1∂ , . . . ,∂x∂n} ´e uma base.
Demonstra¸c˜ao. DadoD∈Derk(A) definaD′ ∈Derk(A) por
D′ =a
1∂x1∂ +a2∂x2∂ +· · ·+an∂x∂n
em queaı =D(xı).
Temos ent˜ao que D′(xı) = a
i o que nos leva a concluir que D = D′ e portanto D ´e combina¸c˜ao linear das derivadas parciais.
Considere agora ent˜ao a seguinte igualdade:
α1
∂ ∂x1
+α2
∂ ∂x2
+· · ·+αn
∂ ∂xn
= 0
Aplicando xı a esta igualdade obtemos ent˜ao:
n
X
ı=1
aı
∂ ∂xı
(xı) = aı = 0 06ı6n.
Portanto podemos concluir que o conjunto{∂x1∂ , . . . ,∂x∂n}´e linearmente independente sobre A.
Logo, as k-deriva¸c˜oes de um anel de polinˆomios s˜ao geradas pelas derivadas parciais,
ou seja, toda k-deriva¸c˜ao pode ser escrita como uma combina¸c˜ao linear das derivadas parciais
com coeficientes em A. E claro que estes coeficientes coincidem com o valor que a deriva¸c˜ao´
22
Exemplo 2.2. Seja A = k[x, y] e seja D ∈ Derk(A) uma deriva¸c˜ao que satisfaz:
D(x) = x−y e D(y) = 1. Como sabemos que as deriva¸c˜oes s˜ao combina¸c˜oes lineares das
derivadas parciais podemos escrever que D=a∂ ∂x+b
∂
∂y. Assim temos que:
D(x) = a∂ ∂xx+b
∂
∂yx=a e D(y) = a ∂ ∂xy+b
∂ ∂yy=b.
Portanto temos que D= (x−y) ∂ ∂x+ 1·
∂ ∂y.
2.8 Proposic¸˜ao. Se ϕ:A→B ´e um homomorfismo dek-´algebras e D∈Derk(B, M) ent˜ao
D◦ϕ∈Derk(A, M).
Demonstra¸c˜ao. Definaϕ(a)·v :=a·v
Para D◦ϕ ∈Derk(A, M) temos que:
1. D◦ϕ(a+b) = D(ϕ(a+b)) =D(ϕ(a) +ϕ(b)) =D(ϕ(a)) +D(ϕ(b)) = (D◦ϕ)a+ (D◦ϕ)b
2. D◦ϕ(a·b) = D(ϕ(a·b)) =ϕ(b)D(ϕ(a)) +ϕ(a)D(ϕ(b)) = b(D◦ϕ)(a) +a(D◦ϕ)(b)
3. D◦ϕ(λ) =D[ϕ(λ)] =D(Pλ
ı=1ϕ(1)) =D(λϕ(1)) =λD(ϕ(1)) +ϕ(1)D(λ) =λ·0 = 0
Claramente a composi¸c˜ao D◦ϕ´e uma deriva¸c˜ao definida de A em M.
Exemplo 2.3. Seja A=R[x], B =R[x, y]e M =M2(B). ConsidereD∈DerR(B, M) dada porD(x) =
x 0
0 0
e por D(y) = 0 y 0 0
Podemos calcular ent˜ao novas deriva¸c˜oes a partir de composi¸c˜oes com homomorfismos
como abaixo:
1. Seja ϕ1 : A → B definida por ϕ1(f(x)) = f(x). Ent˜ao temos uma nova deriva¸c˜ao
D′
∈DerR(A, M)definida por:
D′(x) =D◦ϕ1(x) =D(x) =
2. Sejaϕ2 :A→B definida porϕ2(f(x)) = f(x+y). Ent˜ao novamente temos uma deriva¸c˜ao
D′′
∈DerR(A, M)definida por:
D′′(x) = (D◦ϕ2)(x) = D(x+y) =D(x)+D(y) =
x 0
0 0
+
y 0
0 0
=
x+y 0
0 0
Observa¸c˜ao 2.1. Sejam M e N A-m´odulos. Se ψ ∈homA(M, N) e D∈Derk(A, M), ent˜aoψ ◦D ∈Derk(A, N).
´
E claro que a express˜ao satisfaz as condi¸c˜oes da defini¸c˜ao de deriva¸c˜ao, como segue:
1. ψ◦D(a+b) =ψ(Da+Db) = ψDa+ψDb=ψ◦Da+ψ◦Db
2. ψ◦D(ab) =ψ(bDa+aDb) = ψ(bDa) +ψ(aDb) =b(ψ◦D)a+a(ψ◦D)b
3. ψ◦D(λ) =ψ(0) = 0
2.2
O m´
odulo das diferenciais de K¨
ahler
Introduziremos agora uma ferramenta importante para determinarmos o conjunto das
deriva¸c˜oes definidas sobre um m´odulo. Considere ent˜aoA uma k-´algebra e M um A-m´odulo.
2.9 Definic¸˜ao. Seja A uma k-´algebra. Um A-m´odulo Ω, munido de uma k- deriva¸c˜ao d :
A → Ω, ´e chamado um m´odulo de diferenciais(de K¨ahler) de A se, para todo A-m´odulo M e
toda δ ∈ Derk(A, M), existir um ´unico ω ∈ HomA(Ω, M) tal que δ = ω ◦d; isto ´e, tal que o
diagrama abaixo seja comutativo:
A →d Ω
δ ց ↓ω
24
SejaA uma k-´algebra, e escreva uma k-´algebra B definida porB =A⊗kA. Considere
as aplica¸c˜oesλ1, λ2 :A→B definidas por:
λ1(a) = a⊗1
λ2(a) = 1⊗a
Pela linearidade do produto tensorial temos que λ1 e λ2 s˜ao homomorfismos de k
-´algebras. Dadosa∈A e x⊗y∈B, define-se a multiplica¸c˜ao por escalar :
a·(x⊗y) = λ1(a)(x⊗y) = ax⊗y
a·(x⊗y) = λ2(a)(x⊗y) = x⊗ay
.
As multiplica¸c˜oes acima fornecem a B =A⊗kA duas estruturas deA-´algebra .
2.10 Definic¸˜ao. O homomorfismo ξ:B →A, induzido pela aplica¸c˜ao A-bilinear (x, y)→xy
´e dito ser o homomorfismo diagonal. Temos ent˜ao que ξ(x⊗y) = xy.
2.11 Proposic¸˜ao. Seja N ⊂ B o n´ucleo de ξ. Ent˜ao λ1, λ2 induzem a mesma estrutura de
A-m´odulos em N
N2, isto ´e, ∀a ∈ A e f ∈ NN2, θ(λ1(a))f = θ(λ2(a))f onde θ : B → NB2 ´e o
homomorfismo canˆonico.
Demonstra¸c˜ao. De fato, se ξ◦λ1 =ξ◦λ2 =IdA temos que (λ2−λ1)(A)⊆N.
Logo, para todo a∈A e f ∈N obt´em-se (λ2−λ1)(a)·f ∈N2 e ent˜ao
θ((λ2−λ1)(a)f) = θ((λ2−λ1)(a))·f
= (θ(λ2)(a)−θ(λ1)(a))·f
= θ(λ2(a))f −θ(λ1(a))f = 0.
Para isto basta termos a·f :=θ(λ2(a))f =θ(λ1(a))f .
2.12 Teorema. Sejam A uma k-´algebra , B =A⊗kA e N ⊆B o n´ucleo do homomorfismo
diagonalξ;λ1, λ2 como antes, eθ:B → NB2 o homomorfismo canˆonico. Escrevad=θ◦(λ2−λ1).
1. d :A → N
N2 ´e uma k-deriva¸c˜ao.
2. NN2 ´e gerado como A-m´odulo, por {dy/y∈A}
3. O A-m´odulo NN2 ´e um m´odulo de diferenciais de K¨ahler
A demonstra¸c˜ao do teorema acima pode ser encontrada em [2].
2.13 Corol´ario. Sejam A uma k-´algebra, m um A-m´odulo. Ent˜ao
HomA(Ω, M)≃Derk(A, M).
Demonstra¸c˜ao. Segue imediatamente da defini¸c˜ao.
2.3
Seq¨
uˆ
encias Fundamentais
As seq¨uencias fundamentais desempenham um papel importante na determina¸c˜ao do
conjunto das deriva¸c˜oes de um m´odulo. Tais deriva¸c˜oes podem ser encontradas quando
apli-camos homomorfismos na segunda seq¨uˆencia exata fundamental, j´a que o conjunto dos
homo-morfismos definidos do m´odulo das diferenciais de K¨ahler em um m´odulo ´e isomorfo ao m´odulo
das deriva¸c˜oes.
A segunda seq¨uˆencia exata do m´odulo de diferenciais diz respeito `a seguinte situa¸c˜ao
particular: sejam k um anel, I ⊂ A um ideal da k-´algebra A, e B = A
I. A aplica¸c˜ao δ : I → Ωk(A)⊗AB, definida por δ(x) = dA/kx⊗1, ´e um homomorfismo de A-m´odulos que satisfaz
δ(I2) = 0, e induz desta forma um homomorfismo de B-m´odulos δ : I
I2 → Ωk(A)⊗AB, dada porδ(f) = δ(f).
2.14 Teorema. (Segunda seq¨uˆencia fundamental exata)
1. A seq¨uˆencia de B-m´odulos, abaixo ´e exata.
I I2
δ
−→Ωk(A)O A
B −→β Ωk(B)−→0
2. Se A1 = IA2. Ent˜ao Ωk(A)
N
AB ≃Ωk(A1)
N
26
3. A seq¨uˆencia exata em (1) ´e cindida `a esquerda se, e somente se, a seq¨uˆencia exata natural
de k-´algebras
0→ I
I2 →
A I2 →
A I →0
´e cindida.
Demonstra¸c˜ao.
1. Uma vez que ϕ:A→B ´e sobrejetiva, temos que β ´e sobrejetiva eβ◦δ= 0.Veja que se
D ∈ Der(A, T), onde T ´e um A/I-m´odulo, ent˜ao a sua restri¸c˜ao a I induz, de maneira
natural, um homomorfismo D|I ∈HomA/I(II2, T). De fato, para a∈ A, m∈I temos que
D(am) = aDm+mDa = aDm, j´a que mt = 0 para qualquer valor de t ∈ T e m ∈ I.
Seque da´ı ent˜ao que D(I2) = 0, logo D ´e umA/I-homomorfismo, que se anula sobreI2.
Como visto temos que a seq¨uˆencia
I I2
δ
−→Ωk(A)O A
B −→β Ωk(B)−→0
´e exata se, e somente se, a seq¨uˆencia abaixo ´e exata para qualque B-m´odulo T :
HomB(I/I2, T)←−δ∗ Derk(A, T)←−β∗ Derk(B, T),
onde δ∗(D) = D
|I. Ent˜ao ´e claro que se D|I ≡ 0, D pode ser vista como a extens˜ao de uma deriva¸c˜ao de B em T.
2. Um homomorfismo deB-m´odulosM →N´e um isomorfismo se, e somente se, o
homomor-fismo induzidoHomN(M, T)←HomB(N, T) ´e um isomorfismo para qualquerB-m´odulo
T. Portanto,
Ωk(A)O A
B ≃Ωk(A1)
O
A1
B ⇐⇒Derk(A, T)≃Derk(A
I2, T),
para qualquerB-m´oduloT.Por outro lado, o isomorfismo acima entre m´odulos de deriva¸c˜oes
´e evidente: toda deriva¸c˜ao D ∈ Derk(A, T) satisfaz D(I2) = 0, e portanto induz uma
deriva¸c˜ao D′ : A
I2 →T definida por D
′(a) = D(a).
Reciprocamente toda deriva¸c˜ao D ∈ Derk(IA2, T) pode ser vista como uma deriva¸c˜ao
D : A → T, que se anula sobre I2. Estas associa¸c˜oes s˜ao, pela propriedade universal,
3. J´a sabemos que a aplica¸c˜ao θ′ : A
I2 → AI ´e o homomorfismo natural induzido pelo homo-morfismo canˆonico, definido por θ′(a+I2) = a+I, cujo n´ucleo ´e I
I2. Suponha que δ tenha inversa `a esquerda, dada da seguinte forma:
σ : Ωk(A)O A
B −→ I I2
Consideremos a aplica¸c˜aoD:A→ II2,definida porD(a) = σ(da⊗1).E claro que´ D´e uma
k-deriva¸c˜ao, e satisfaz D(x) = x para qualquer valor de x∈ I. Colocando-se ρ : A→ A I2
definida por ρ(a) = a−D(a),temos um homomorfismo que cumpre ρ(I) = 0,e portanto
induz em A/I-homomorfismo ρ: A I →
A
I2,dado por ρ(a+I) = (a+I
2)−D(a).
Compondo com o homomorfismo natural, temos que θ′(ρ(a)) =θ′(a−D(a)) = a.
Reciprocamente, suponhamos que exista ρ: A I →
A
I2, tal que θ
′◦ρ = 1
A/I. Consequente-mente, ρ◦θ′ : A
I2 → A
I2 ´e um homomorfismo que se anula sobre I I2,eθ
′(1
−ρ◦θ′) = 0. Em particular, temos
0 = (1−ρ◦θ′)((f)(1−ρ◦θ′)(g) = f g−f ρ(g)−gρ(f) +ρ(f)ρ(g),
Ou seja,
f g+ρ(f)ρ(g) = f ρ(g) +gρ(f).
Desta a forma, a aplica¸c˜ao D= 1−ρ◦θ′ ´e uma deriva¸c˜ao. Seχ
∈HomA/I(IA2, T), ent˜ao a composta D′ de
A−→ A I2
D
−→ II2
χ
−→T
´e um elemento de Derk(A, T), satisfazendo δ∗(D′) = χ. De fato, para qualquer x ∈ I,
temos queD′(x) = χ(x
−ρ(θ′(x))) =χ(x).Portantoδ∗´e sobrejetiva para todoA/I-m´odulo
T. Al´em disso se tomarmosT = I
I2,vemos que todo endomorfismo de II2,inclusive a iden-tidade, corresponde a restri¸c˜ao a I de um elemento deDerk(A,II2),ou equivalentemente,
a restri¸c˜ao de um elemento de HomA/I(Ωk(A)⊗AA/I,II2) ao subm´odulo {da;a ∈I}.
Vale salientar que a seq¨uˆencia da demonstra¸c˜ao do primeiro ´ıtem nos permite
ca-racterizar as deriva¸c˜oes de Derk(AI) como deriva¸c˜oes de Derk(A,AI) cujas restri¸c˜oes a I s˜ao
Cap´ıtulo 3
Ideais Diferenci´
aveis
Uma vez que j´a conhecemos as deriva¸c˜oes e suas propriedades, neste cap´ıtulo,
definire-mos o conceito de ideais diferenci´aveis e uma forma de encontrar a fam´ılia de deriva¸c˜oes que
os tornem diferenci´aveis. A seguir, em an´eis noetherianos, faremos rela¸c˜oes entre os ideais
dife-renci´aveis e as suas componentes prim´arias, que neste caso herdam a diferenciabilidade, para
uma mesma fam´ılia de deriva¸c˜oes. Relacionaremos tamb´em an´eis locais que s˜ao regulares com
ideais primos n˜ao diferenci´aveis.
3.1
Ideais diferenci´
aveis
Sejam A um anel comutativo com unidade eD uma deriva¸c˜ao de A .
3.1Definic¸˜ao. Um idealI de A ´e chamadoD-invariante ou D-diferenci´avel se D(I)⊆I. Se
Γ´e uma fam´ılia arbitr´aria de deriva¸c˜oes em A, I ´e dito ser Γ-invariante ou Γ-diferenci´avel se
D(I)⊆I para cada D∈Γ.
I ´e chamado de diferenci´avel, se ´e D-diferenci´avel para qualquer que sejaD∈Der(A).
Exemplo 3.1. Seja A = k[x1, . . . , xn] um anel e I = (f1, . . . , fr) ⊂ A um ideal. Seja
D uma k-deriva¸c˜ao de A, ent˜aoI ´e um ideal D-diferenci´avel se, e somente se, D(fı)∈I para
todo ı= 1, . . . , r.
Dado h ∈ I, h =
r
X
ı=1
aıfı, com aı ∈ A temos que D(h) ∈ I pois I ´e um ideal D
diferenci´avel. Em particular, cada fı ∈I. Logo, temos que D(fı)∈I.
Por outro lado temos que se D(fı)∈I para todo ı= 1, . . . , r ´e claro que
r
X
ı=1
D(fı)∈I.
Logo, dado um h =
r
X
ı=1
aıfı ∈ I temos que D(h) = r
X
ı=1
aıD(fı) ∈ I, provando assim que I ´e
D-diferenci´avel.
Em an´eis de polinˆomios sobre um corpo, todo ideal ´e finitamente gerado. Assim para
uma deriva¸c˜ao preservar este ideal, ´e necess´ario e suficiente que preserve os seus geradores, ou
seja, quando aplicada aos geradores do ideal resulte em um elemento do pr´oprio ideal.
Exemplo 3.2. Considerando A = R[x, y, z] e I = (xy, yz) vamos encontrar uma deriva¸c˜ao que preserve I, ou seja, que torne I invariante por esta deriva¸c˜ao.
Seja D uma deriva¸c˜ao de A. Como toda deriva¸c˜ao em an´eis de polinˆomios sobre um
corpo ´e combina¸c˜ao linear das derivadas parcias, escreva D = a ∂ ∂x +b
∂ ∂y +c
∂
∂z. Para I ser
invariante, precisamos queD(xy)eD(yz)∈I, ou seja, precisamos queD(xy) = xDy+yDx=
bx+ay ∈I e que D(yz) = yDz +zDy =cy +bz ∈ I. Portanto, basta que que a, c∈ (x, z) e
b∈(y).
Reciprocamente, a fam´ılia Γ :={(x, z)∂ ∂x + (y)
∂
∂y + (x, z) ∂
∂z} preserva o ideal I.
Logo, Γ ´e o conjunto das deriva¸c˜oes que preservam I.
3.2Proposic¸˜ao. Seja I um ideal de um anelA que satisfazI =P1∩P2 onde P1, P2 s˜ao ideais
primos distintos e incompar´aveis. SejaDuma deriva¸c˜ao emA.SeI´e um idealD-diferenci´avel,
ent˜aoP1 e P2 s˜ao tamb´em D-diferenci´aveis.
Demonstra¸c˜ao.
Suponha que f ∈ P1\P2 e g ∈ P2. E claro que´ f g ∈ P1 ∩P2 = I. Como I ´e um ideal
D-diferenci´avel, temos que D(f g)∈I e consequentemente D(f g)∈P2.
Por outro lado temos queD(f g) = f D(g)+gD(f)∈P2e j´a quegD(f)∈P2 temos que
f D(g)∈P2. ComoP2 ´e um ideal primo, temos que, se f D(g)∈P2 ef /∈P2 obrigatoriamente
D(g) ∈ P2, o que nos leva a concluir que P2 ´e um ideal D-diferenci´avel. De forma an´aloga
30
3.3 Proposic¸˜ao. Sejam I e J dois ideais de um anel A que s˜ao Γ-diferenci´aveis. Ent˜ao, s˜ao
Γ-diferenci´aveis
a) I∩J
b) I +J
c) I·J
Demonstra¸c˜ao.
a) Se I e J s˜ao Γ-diferenci´aveis ent˜ao D(I)⊂ I e D(J)⊂ J para qualquer D ∈Γ. Assim, se
x∈I∩J temos que x∈I ex∈J. Como I e J s˜ao Γ-diferenci´aveis ´e v´alido queDx∈I
e Dx∈J, o que nos leva a Dx∈I∩J. Portanto D(I∩J)⊂I∩J para qualquer D∈Γ.
Logo I∩J ´e um ideal Γ-diferenci´avel.
b) Se x ∈ I +J temos que x = u+v em que u ∈ I e v ∈ J. Como I e J s˜ao ideais
Γ-diferenci´aveis temos que D(u) ∈ I e D(v) ∈ J para qualquer D ∈ Γ. Logo D(x) =
D(u+v) = D(u) +D(v)∈I+J e, portanto,I+J ´e um ideal Γ-diferenci´avel.
c) Se x ∈ I·J ent˜ao x = X ı∈N
uıv em que uı ∈ I,∀ı e v ∈ J,∀. Assim para D ∈ Γ, temos
que D(x) =D X
ı∈N
uıv
!
=X ı∈N
D(uıv) =
X
ı∈N
[uıD(v) +vD(uı)] e como I eJ s˜ao ideais
Γ-diferenci´aveis, uıD(v) e vD(uı) pertencem a I ·J. Logo, D(x) ∈ I · J ∀D ∈ Γ, e
portanto I·J ´e um ideal Γ-diferenci´avel.
A seguir mostraremos uma forma mais espec´ıfica de encontrar as deriva¸c˜oes que
preser-vam ideais .
3.4Definic¸˜ao. O conjunto das deriva¸c˜oes que preservam um idealI de um anelA´e denotado por
DI(A) :={δ∈Derk(A)/δ(I)⊂I}.
3.5 Proposic¸˜ao. Se A=k[x1, . . . , xn] e I ⊂A ´e um ideal ent˜ao Derk(AI)≃
DI(A)
IDerk(A) como A
Demonstra¸c˜ao. Defina a fun¸c˜aoϕ :DI(A)−→Derk(A
I) comϕ(δ) = ˜δ,onde ˜δ(f) = δ(f)∈ A I.
Mostraremos que ˜δ ´e bem definida e queϕ ´e um homomorfismo de A-m´odulos.
Temos que ker(ϕ) =IDk(A, A).E claro da defini¸c˜ao que ˜´ δ= 0 se e somente seδ(f)∈I
para cadaf ∈S. Assim, escreva δ= n
X
ı=1
gı
∂
∂x com gı ∈A e δ(x) =g.
Assim temos: δ ∈ker(ϕ)⇔g∈I ⇔δ ∈IDerk(A).
Agora, de acordo com a segunda seq¨uˆencia exata fundamental (veja teorema 2.14)
temos que :
A I n v −→X ı A I
dxı −→Ωk
A
I
−→0 (3.1)
ondev denota a transposta da matriz jacobiana do conjunto de geradoresf1, . . . , fm deI.
Dualizando 3.1, temos que
0−→Derk
A
I
−→Derk
A,A I v∗ −→Hom A I n ,A I ,
e portantoDerk AI
= kerv∗. Para verificar queϕ ´e sobrejetiva, seja
X
ı
g
∂ ∂xı ∈
Dk A I, A I ⊂X ı A I ∂ ∂xı . Ent˜ao, X ı gı ∂ ∂xı !
(f) =X ı
gı
∂f
∂xı ∈
I, = 1, . . . , m
com X ı
gı
∂ ∂xı ∈
DI(A).
Decorre da demonstra¸c˜ao acima que, num anel de polinˆomios, para encontrar os
ge-radores do subm´odulo das deriva¸c˜oes que preservam um ideal I, basta calcular o n´ucleo da
transposta da matriz jacobiana deste ideal m´oduloI.
Exemplo 3.3. Seja A =R[x, y] e seja I = (x2+y2 −1) um ideal de A. Temos que a
transposta da matriz jacobiana ´e dada por
32
Calculando-se o seu n´ucleo m´oduloI,ou seja, o n´ucleo da matriz( 2x 2y x2+y2−1 ),
com utiliza¸c˜ao do software Singular, temos queDerk(AI)´e gerado como AI-m´odulo porn−y∂x∂ +x∂y∂ o.
Neste caso, as deriva¸c˜oes que s˜ao geradas pelo conjunto acima, s˜ao tamb´em as deriva¸c˜oes
que preservam o ideal I.
Exemplo 3.4. Sejam A =R[x, y, z] e I = (x2+y2 +z2−1). A transposta da matriz
jacobiana ´e dada por:
δ = ( 2x 2y 2z ).
Calculando o seu n´ucleo m´odulo I, obtemos que Derk(AI) ´e gerado por
−z ∂ ∂y +y
∂ ∂z,−y
∂ ∂x +x
∂ ∂y,−z
∂ ∂x +x
∂ ∂z
.
Assim, o conjunto acima, gera a fam´ılia Γ de deriva¸c˜oes que preservam I.
Exemplo 3.5. Sejam A = R[x, y, z] e I = (x2y, y2z, yz2). A matriz jacobiana ´e dada
por: δ =
2xy x2 0
0 2yz y2
0 z2 2yz
Calculando-se o seu n´ucleo m´odulo I, temos que o conjunto das deriva¸c˜oes que
preser-vam I ´e gerado por
x ∂
∂x, z
2 ∂
∂x, yz ∂ ∂x, y
∂ ∂y, x
2 ∂
∂z, z ∂ ∂z
.
Podemos escrever ent˜ao a fam´ılia Γ de deriva¸c˜oes que preservam I da seguinte forma:
Γ ={(x, z2, yz) ∂
∂x + (y) ∂ ∂y + (x
2, z) ∂
∂z}.
De uma forma espec´ıfica, temos que o conjunto das deriva¸c˜oes que preservam um ideal
monomialI ⊂A´e dado por DI(A) =Lnı=1(I : (I :xı))∂x∂ı, como pode ser visto em [3].
De acordo com o exemplo acima, temos que:
I : (I :x) = (x, z2, yz)
I : (I :y) = (y)
3.6 Definic¸˜ao. Se A n˜ao possui ideais Γ-diferenci´aveis com excess˜ao dos ideais (0) e (1),
ent˜ao A ´e chamado de Γ-simples, ou apenas simples se Γ ´e o conjunto de todas as deriva¸c˜oes
em A.
De modo an´alogo, se um ideal I ⊂A n˜ao ´e preservado por alguma das deriva¸c˜oes do
anelA,dizemos que este ideal ´e n˜ao diferenci´avel. Veremos mais tarde que estes ideais possuem
uma interpreta¸c˜ao geom´etrica interessante.
3.2
Ideais diferenci´
aveis e a decomposi¸c˜
ao prim´
aria
J´a vimos que o anel de polinˆomios sobre um corpo ´e um anel noetheriano e portanto
admite decomposi¸c˜ao prim´aria. Sabemos tamb´em que para um ideal decompon´ıvel, a
decom-posi¸c˜ao prim´aria n˜ao ´e unica, embora preserve a lista dos ideais primos associados. Nosso
ob-jetivo ´e encontrar uma decomposi¸c˜ao prim´aria de um ideal Γ-diferenci´avel, cujas componentes
prim´arias sejam Γ-diferenci´aveis. Para garantir a diferenciabilidade das componentes prim´arias,
precisamos de v´arias decomposi¸c˜oes prim´arias distintas. Como em an´eis de polinˆomios esta n˜ao
´e uma tarefa r´apida, estenderemos o anel para o anel formal das s´eries de potˆencia, pois atrav´es
de automorfismos teremos uma boa variedade de decomposi¸c˜oes prim´arias para um mesmo
ideal, j´a que a“propriedade” primariedade ´e preservada por automorfismos.
Considere A∗ := A[[t]] o anel de s´eries formais de potˆencia em uma vari´avel com
coeficientes emA; e sejaDuma deriva¸c˜ao deA.Considere as extens˜oes canˆonicas das deriva¸c˜oes
em A, dadas por D(P
aıtı) =PD(aı)tı com aı ∈A. Observe que esta deriva¸c˜ao que obtemos
em A∗ coincide com a deriva¸c˜ao Dde A.Ent˜ao esta deriva¸c˜ao poder´a ser denotada porD sem
perda de generalidade.
Seja A um anel contendo os n´umeros racionais e seja E a seguinte express˜ao:
E = 1 +tD+ t
2
2!D
2+ t3
3!D
3+
· · ·
que pode ser denominada como E =etD, em decorrˆencia da sua similaridade com a expans˜ao
34
Ent˜ao temos que
Eα= (etD)α = (1 +tD+ t2 2!D
2+ t3
3!D
3+· · ·)α
= α+tDα+ t
2
2!D
2α+t3
3!D
3α+
· · ·
para cadaα ∈A∗.
Observe que a aplica¸c˜ao que associa a cada α o valor determinado por Eα ´e um
automorfismo emA∗. De fato, dados a, b
∈A∗ temos:
E(a+b) = etD(a+b)
= a+b+tD(a+b) + t
2
2!D
2(a+b) + t3
3!D
3(a+b) +· · ·
= a+b+tDa+tDb+ t
2
2!D
2(a) + t2
2!D
2(b) + t3
3!D
3(a) + t3
3!D
3(b) +
· · ·
= [a+tDa+t
2
2!D
2(a) + t3
3!D
3(a) +
· · ·] + [b+tDb+ t
2
2!D
2(b) + t3
3!D
3(b) +
· · ·]
= etDa+etDb
= Ea+Eb
E(a)·E(b) = etDa·etDb
= (1 +tD+ t
2
2!D
2+ t3
3!D
3+
· · ·)a·(1 +tD+ t
2
2!D
2+ t3
3!D
3+
· · ·)b
= [a+tDa+t
2
2!D
2a+ t3
3!D
3a+
· · ·]·[b+tDb+ t
2
2!D
2b+t3
3!D
3b+
· · ·]
= ab+ [taDb+tbDa] + [t
2
2!aD
2b+t2
2!2DaDb+
t2
2!bD
2a] +
· · ·
= ab+tD(ab) + t
2
2!D
2(ab) +
· · ·
= etD(ab)
= E(ab)
Al´em disso, note que etD(e−tD)α = e−tD(etD)α = α. Assim como a aplica¸c˜ao possui
uma inversa, temos que ´e, de forma clara, bijetora.
3.7 Lema. Sejam A um anel noetheriano, I um ideal e A ֒→i A∗ o homomorfismo canˆonico.
Ent˜ao:
Demonstra¸c˜ao. Sejaα∈A∗ e β ∈I; ent˜ao α=P
aıtı, aı ∈A. Portanto temos que:
α·β = (Xaıtı)β =
X
aıβtı=
X bıtı
com bı ∈I.
3.8 Corol´ario. Seja I =I1∩I2 com I1 e I2 ideais de A. Ent˜ao I ·A∗ =I1A∗∩I2A∗. Al´em
disso temos que IA∗
∩A=I.
Demonstra¸c˜ao. Se α ∈IA∗, ent˜ao α =P
bıtı;bı ∈ I. Mas como bı ∈I1 e bı ∈ I2 temos que
α∈I1A∗ e que α∈I2A∗, e portanto α∈I1A∗∩I2A∗. Logo IA∗ ⊂I1A∗ ∩I2A∗.
Por outro lado temos que se α∈I1A∗∩I2A∗ podemos escreverα=Pbıtı,ondebı ∈I1
ebı ∈I2. Assimbı ∈I1∩I2 =I e da´ıα∈IA∗.Logo I1A∗ ∩I2A∗ ⊂IA∗.
Das inclus˜oes acima podemos concluir que IA∗ =I
1A∗∩I2A∗ e que IA∗∩A=I.
Para demonstrar um dos teoremas abaixo, precisamos trabalhar com os ideais
esten-didos definidos acima. Como nosso objetivo ´e encontrar componentes prim´arias diferenci´aveis
garantimos com os lemas abaixo que os ideais prim´arios que s˜ao estendidos continuam sendo
prim´arios. Para isto, demonstraremos primeiro que ideais primos estendidos continuam sendo
primos e ent˜ao para mostrarmos que ideais prim´arios estendidos s˜ao tamb´em prim´arios
usare-mos o fato de possuir apenas um ´unico ideal primo associado.
3.9 Lema. Sejam A um anel noetheriano e p um ideal primo. Ent˜ao pA∗ ´e um ideal primo.
Demonstra¸c˜ao. Sejam f = ∞
X
ı=0
aıtı e g = ∞
X
=0
bıt dois elementos de A∗ tais que f g ∈ pA∗, e
suponha queg = ∞
X
=0
bıt∈/ pA∗. Considere ent˜aor o menor ´ındice tal quebr ∈/ p,logo podemos
escreverg =g1+g2 com g1 =b0+b1t+· · ·+br−1tr−1 ∈pA∗ e g2 =brtr+br+1tr+1+· · ·∈/ pA∗.
Ent˜ao f g = f(g1 +g2) = f g1 +f g2 ∈ pA∗ e como f g1 ∈ pA∗ temos que f g2 ∈ pA∗.
J´a que f g2 =
∞
X
k=r
cktk, com ck =
X
ı+=k
aıb ∈ p, temos que cr = a0br ∈ p, e como br ∈/ p temos
que a0 ∈ p. De maneira an´aloga temos que cr+1 =a0br+1+a1br ∈ p e como a0br+1 ∈ p ent˜ao
36
De uma maneira gen´erica temos que cr+k = akbr + k
X
s=1
ak−sbr+s ∈ p e como por
recorrˆencia k
X
s=1
ak−sbr+s ∈ p temos que ak ∈ p para k > 0. Logo, f ∈ pA∗ e portanto pA∗
´e um ideal primo.
3.10 Lema. Sejam A um anel noetheriano,q um ideal prim´ario com p o seu primo associado. Ent˜aoqA∗ ´e prim´ario e pA∗ ´e seu primo associado.
Demonstra¸c˜ao. Temos que q⊂ p e portanto qA∗
⊂pA∗. Assim √qA∗ ⊆ √pA∗ = pA∗. Por outro lado, como A ´e um anel noetheriano, existe um r tal que pr ⊂ q. Logo, prA∗ ⊂ qA∗ e
portanto, √prA∗ =pA∗
⊆√qA∗.
Deste modo, podemos concluir que √qA∗ =pA∗.
Afirma¸c˜ao: Ass(qA∗) =
{pA∗
}.
Suponhap′ ∈Ass(qA∗).ComoA∗´e um anel noetheriano podemos escrever p′ = (qA∗ :
v) comv /∈qA∗,e suponha quev =a
0+a1t+a2t2+· · ·+artr+· · · em quer´e o menor ´ındice tal quear ∈/ q. Ent˜ao podemos escreverv =v1+v2 com v1 =a0+a1t+a2t2+· · ·+ar−1tr−1 ∈qA∗
ev2 =artr+ar+1tr+1+· · ·∈/qA∗. Note que v2 =tr·v2′ com v′2 =ar+ar+1t+· · ·∈/ qA∗.
Nestas condi¸c˜oes temos que (qA∗ : v) = (qA∗ : v′
2). De fato, (qA∗ : v) ⊆ (qA∗ : v2′)
pois se f ∈ (qA∗ : v) temos que f v =f(v
1+v2) = f(v1 +trv2′) = f v1+trf v′2 ∈ qA∗; e como
f v1 ∈qA∗ temos tamb´em que trf v2′ ∈qA∗, o que nos leva a concluir que f v′2 ∈qA∗ e portanto
f ∈ (qA∗ :v′
2). Reciprocamente, temos que (qA∗ :v)⊇(qA∗ : v2′) pois se f ∈(qA∗ : v2′) temos
quef v′
2 ∈qA∗.Comof v =f(v1+v2) =f(v1+trv′2) =f v1+trf v2′ ef v1 ∈qA∗ ent˜aof v∈qA∗,
nos levando assim af ∈(qA∗ :v).
Podemos ent˜ao escrever p′ = (qA∗ :w) em quew=w
0+w1t+· · · com w0 ∈/ q,e como
√
qA∗ =pA∗ temos que pA∗
⊆p′.
Seja agora f =b0+b1t+· · · ∈p′\pA∗, sendos o menor ´ındice tal quebs∈/p. Escreva
f =f1+f2 comf1 =b0+b1t+· · ·+bs−1ts−1 ∈pA∗; ent˜ao temosf2 =f−f1 =bsts+bs+1ts+1+
· · · ∈p′ \pA∗ com b
s ∈/ p. Temos ainda que f2 =bsts+bs+1ts+1+· · · = ts(bs+bs+1t+· · ·) e
comop′ ´e primo ets∈/ p′ temos (b
Logo, (bs+bs+1t+· · ·)·w∈qA∗ e portanto bsw0 ∈q. Masq´e um ideal p-prim´ario, e
comobs∈/p temos que ar ∈q, o que nos leva a uma contradi¸c˜ao.
Assim, pA∗ ⊇ p′, e portanto qA∗ possui um ´unico primo associado, isto ´e, qA∗ ´e um
idealpA∗-prim´ario.
3.11Lema. SejaA um anel noetheriano contendo os n´umeros irracionais e sejaΓuma fam´ılia de deriva¸c˜oes de A. Ent˜ao o ideal I ´e Γ-diferenci´avel se, e somente se, IA∗ ´e invariante por
{etD/D ∈Γ}.
Demonstra¸c˜ao. Considere queIA∗ ´e invariante, e seja a
∈I e D∈Γ; ent˜ao temos que
etD(a) = 1·a+tDa+ t
2
2!D
2a+
· · ·=a+ta′+· · · ∈IA∗.
Logo, fica claro que a′ = Da
∈ I para qualquer valor de a ∈ I, e assim I ´e Γ-diferenci´avel.
Reciprocamente temos que seI ´e Γ-diferenci´avel,D(I)⊂I para cadaD∈Γ.Portanto,
seα∈IA∗, α=P
aıtı com aı ∈I temos que
etD(α) = 1·α+t·D(α) + t
2
2!D
2(α) +
· · ·
com D(α) ∈ I para todo D ∈ Γ. Escrevendo Dn(α) = α
n com αn ∈ I, a express˜ao acima se resume etD(α) = P
αn · t
n
n! pertencendo claramente a IA
∗, sendo assim Γ-invariante por
{etD/D ∈Γ}.
Podemos concluir ent˜ao que tendo um idealD-diferenci´avel, o seu estendido ´e invariante
por uma express˜ao escrita em fun¸c˜ao deD. Logo, garantimos a diferenciabilidade de ideais por
meio da invariˆancia dos seus estendidos.
3.12 Teorema. Seja A um anel noetheriano e seja Γ uma fam´ılia de deriva¸c˜oes em A e I
um ideal Γ-diferenci´avel com p1, . . . ,ps seus primos associados. Ent˜ao p1, . . . ,ps s˜ao ideais
Γ-diferenci´aveis; al´em disto I pode ser escrito como uma intersec¸c˜ao q1 ∩ · · · ∩ qs de ideais
38
Demonstra¸c˜ao. Seja I = q1 ∩ · · · ∩qs com qı prim´arios associados a pı onde ı = 1, . . . , s.
Ent˜ao
IA∗ = (q
1∩ · · · ∩qs)A∗ =q1A∗∩ · · · ∩qsA∗
ondeqıA∗ ´e prim´ario compıA∗ seu primo associado.
Aplicando o automorfismoetD comD∈Γ,n´os temos queetD(IA∗) =etD(q
1A∗)∩ · · · ∩
etD(q
sA∗) onde etD(qıA∗) ´e prim´ario e etD(pıA∗) ´e seu primo associado, ı= 1, . . . , s.
Pelo lema 3.11 IA∗ ´e invariante e temos tamb´em que etD permuta p
ıA∗, ou seja,
etD(p
ıA∗) =pA∗.
Ent˜ao se a∈pı,aplicando o automorfismo descrito acima temos queetD(a) =a+ta′+
. . .∈A∗p
agora com a∈p e da´ıpı ⊂p.
Mas por outro lado temos que pıA∗ =e−tD(pA∗) e portanto p ⊂pı o que nos leva a
pı=p.
Agora suponha prı
ı ⊂ qı com ı= 1, . . . , s e fixe a seq¨uˆencia (r1, . . . , rs). Ent˜ao IA∗ = q1A∗∩ · · · ∩qsA∗ e (pıA∗)rı ⊂qıA∗.
Considere agora todas as representa¸c˜oes deIA∗ =q′
1∩ · · · ∩q′scom q′ı prim´ario e sendo
pıA∗ seu primo associado. Tome a seguir a interse¸c˜ao de todas estas representa¸c˜oes em que
(pıA∗)rı ⊂q′ı.
Seja IA∗ = q
1 ∩ · · · ∩qs. Ent˜ao qı ´e prim´ario com pıA∗ o seu primo associado e se
IA∗ = q′
1 ∩ · · · ∩q′s ´e uma outra representa¸c˜ao ent˜ao qı ⊂ q′ı. Aplicando o automorfismo etD com D∈Γ,vemos que qı⊂etD(qı).
De forma an´aloga temos que qı ⊂ e−tD(qı) e da´ı temos que qı ´e invariante pelo
auto-morfismo.
Seja qı ∩ A = q∗ı. Ent˜ao q∗ı ´e prim´ario com pı seu primo associado, e ´e claro que
(pı)rı ⊂q∗
ı e q∗ıA∗ ⊂qı com ı= 1, . . . , s.
Como IA∗
∩A = I obtemos que IA∗ = q∗
1A∗ ∩ · · · ∩ q∗sA∗ com uma propriedade importante: qı ⊂q∗ıA∗.
Assim, se I ´e um ideal Γ-diferenci´avel e decompon´ıvel, existe uma decomposi¸c˜ao
prim´aria, cujas componentes prim´arias s˜ao Γ-diferenci´aveis. O teorema acima ´e existencial,
ou seja, prova que existe uma decomposi¸c˜ao prim´aria cujas componentes prim´arias s˜ao
Γ-diferenci´aveis, mas n˜ao fornece qual decomposi¸c˜ao assume esta propriedade. Em primeiro lugar
desenvolveremos alguns resultados encontrados como conseq¨uˆencia deste teorema.
3.13 Corol´ario. Se A n˜ao tem ideal pr´oprio primo e Γ-diferenci´avel ent˜ao, ´eΓ-simples. 3.14 Corol´ario. Se I ´e um ideal Γ-diferenci´avel, ent˜ao √I ´e Γ-diferenci´avel.
Demonstra¸c˜ao. Se I ´e diferenci´avel, temos que todos os seus primos associados s˜ao
Γ-diferenci´aveis. Assim sep1, . . . ,pn s˜ao os ideais primos associados a I e como a intersec¸c˜ao de
ideais Γ-diferenci´aveis ´e Γ-diferenci´avel, temos que√I =p1∩ · · · ∩pn ´e Γ-diferenci´avel.
Exemplo 3.6. Seja A = R[x, y] e I um ideal de A dado por I = (x2, xy). A fam´ılia
de deriva¸c˜oes Γ : (x)∂x∂ + (y)∂y∂ preserva I e, de acordo com o ´ultimo teorema, deve preservar
tamb´em os primos associados a I.
De fato, como temos que I = (x2, xy) = (x)∩(x2, y) = (x)∩[(x, y)]2, os seus primos
associados s˜ao (x) e (x, y) e tais ideais s˜ao preservados por Γ pois para D ∈ Γ, D := g1x∂x∂ +
g2y∂y∂ com g1, g2 ∈A, obtemos :
i) D(x) =g1x∂x∂ (x) +g2y∂y∂ (x) =g1x∈(x)
ii) D(y) = g1x∂x∂(y) +g2y∂y∂(y) = g2y∈(y).
Neste caso(x)∩(x2, y)´e uma decomposi¸c˜ao prim´aria paraI cujas componentes prim´arias
j´a s˜ao Γ-diferenci´aveis. Observe que para f, h∈A temos que:
i) D(f x) =g1x∂x∂ (f x) +g2y∂y∂ (f x) =
g1x∂f∂x+g1f +g2y∂f∂y
x∈(x)
ii) D(f x2+hy) =D(f x2) +D(hy) = 2f g
1+g1x∂f∂x +g2y∂f∂y
x2+g
1x∂h∂x+g2y∂h∂y +g2h
y∈
40
Para o exemplo acima, a decomposi¸c˜ao prim´aria encontrada j´a possu´ıa componentes
prim´arias diferenci´aveis. Como isto nem sempre acontece, dado um ideal diferenci´avel,
pre-cisamos determinar uma forma de encontrar a decomposi¸c˜ao prim´aria cujas componentes s˜ao
diferenci´aveis.
Para ideais principais monomiais que s˜ao Γ-diferenci´aveis, temos uma maneira simples
de encontrar as componentes prim´arias Γ-diferenci´aveis, pois escrevendo este ideal como
inter-sec¸c˜ao de dois ideais quaisquer monomiais e principais preservamos a diferenciabilidade para a
fam´ılia Γ de deriva¸c˜oes.
3.15 Proposic¸˜ao. Seja A = k[x1, . . . , xn] e seja I um ideal Γ-diferenci´avel com I = (m) =
(m1 · m2) = (m1) ∩(m2) onde m, m1, m2 ∈ A s˜ao monˆomios. Ent˜ao (m1) e (m2) s˜ao Γ
-diferenci´aveis.
Demonstra¸c˜ao. Seja m = xr11 · · ·xrn
n com algum rı 6= 0, ı = 1, . . . , n. Ent˜ao temos que
I = (m) = (xrı
ı )∩(xr22 · · ·xrnn).
Considere Γ ={Dλ}λ∈Λ uma fam´ılia de deriva¸c˜oes tal que I ´e Γ-diferenci´avel.
Temos que (xı) ´e Γ-diferenci´avel pois ´e um primo associado a I, com rı 6= 0. Assim
(xrı
ı ) ´e Γ-diferenci´avel pois D(xrıı) = rıxırı−1D(xı), e como D(xı) ⊂ (xı), podemos escrever
D(xı) = f xı onde f ∈A.Logo D(xrıı) =rıxırı−1D(xı) = rıf xırı ∈(xrıı).
Suponha m=m1·m2 = (x
rı1 ı1 · · ·x
rıl ıl )·(x
rıl+1 ıl+1 · · ·x
rın
ın )
Calculemos Dλ(m1) = Dλ(x
rı1 ı1 · · ·x
rıl ıl ) =
l
X
=1
rıx
rı1 ı1 · · ·x
rı−1 ı · · ·x
rı
ı Dλ(xı)
Como os primos m´ınimos de I, {(xı)/xı ∈ supp{m}}, s˜ao Γ-diferenci´aveis, temos que
Dλ(xı) ∈ (xı para todo xı ∈ supp{m1}. Portanto para cada xı ∈ supp{m1} temos que
Dλ(xı) =hıxı para hı ∈A.
Logo Dλ(m1) =
l
X
=1
rıhıx
rı1 ı1 · · ·x
rıl ıl =
l
X
j=1
rıhı
! m1.
Assim, Dλ(m1)∈(m1) para qualquerDλ ∈Γ. De forma an´aloga temos queDλ(m2)∈
(m2) para qualquer Dλ ∈Γ.
· · · ∩(xrn
n ), e suas componentes ser˜ao diferenci´aveis.
Se o ideal diferenci´avel n˜ao ´e principal, mesmo que possamos escrevˆe-lo como uma
intersec¸c˜ao de ideais gerados por monˆomios, esta decomposi¸c˜ao pode n˜ao preservar
diferencia-bilidade como mostra o exemplo abaixo.
Exemplo 3.7. Considere o ideal I de R[x1, x2, x3, x4, x5] dado por
I = (x1x2, x2x3, x3x4, x4x5, x1x5, x2x4, x3x5).
Seja D:=x4∂x1∂ . Observe que D preserva o ideal I.
Podemos escrever I como uma intersec¸c˜ao de dois ideais I1 e I2 da forma:
I1 = (x1, x2x3, x3x4, x4x5, x1x5, x2x4, x3x5)
I2 = (x2, x2x3, x3x4, x4x5, x1x5, x2x4, x3x5)
onde I =I1∩I2.
Observe que I1 ou I2 n˜ao s˜ao necessariamente preservados porD. Para provarmos isto
basta aplicar a deriva¸c˜ao acima nos geradores de I1 e I2.
Neste caso temos que o ideal I2 ´e D-diferenci´avel. Em I1 temos que D(x1) =x4 ∈/ I1;
portanto I1 n˜ao ´e diferenci´avel.
3.16 Proposic¸˜ao. Seja I ⊂ A =R[x1, x2, . . . , xn] um ideal monomial Γ-diferenci´avel e Jı = [Dλ(xı)]⊂(I :I :xı),ondeDλ ∈Γ.SeH´e um ideal, tal queJı⊂H,ent˜aoH´eΓ-diferenci´avel.
Demonstra¸c˜ao. Sejaxr11 xr22 · · ·xrn
n e seja Dλ ∈Γ uma deriva¸c˜ao. Ent˜ao temos que :
Dλ(xr11 xr22 · · ·xrn
n ) = n
X
ı=1
rıxr11 · · ·xrı
−1
ı · · ·xrnnDλ(xı).
Como Dλ(xı)∈Jı temos que Dλ(xı)∈ H e consequentemente Dλ(xr11 x
r2
2 · · ·xrnn)∈H. Logo H est´a sendo preservado por Γ e ent˜ao temos que H ´e Γ-diferenci´avel.
Observe que nem todos os ideais prim´arios associados a ideais primos diferenci´aveis