MOÇÃO EM APOIO A PROTEÇÃO DAS CAMPINAS DO ESTADO DO AMAZONAS
(encaminhada ao Conselho Estadual de Meio Ambiente do Estado do Amazonas na figura de seu presidente Ilma. Sra. Nádia Ferreira, Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável).
É bem conhecido que a Amazônia apresenta uma enorme biodiversidade em suas florestas e rios. Muito menos conhecido e divulgado está o fato de que na região existem campos naturais com destaque para as campinas amazônicas, um ecossistema frágil que vem sendo estudado por pesquisadores deste os anos 1970. As campina amazônicas incluem os campos naturais abertos e as florestas ralas que ocorrem ao redor dos mesmos ou em manchas isolados em meio a floresta ombrófila amazônica, tipicamente, mas não exclusivamente, em solos arenosos e encharcados.
Nos dias 17 e 18 de abril de 2013, um grupo de pesquisadores se reuniu em um simpósio denominado Campinas Amazônicas: origens, biodiversidade e conservação realizado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) onde foram apresentados resultados de projetos de pesquisa financiados pela Fundação de Amparo a Pesquisas do Estado do Amazonas (FAPEAM) e Fundação de Amparo a Pesquisas do Estado de São Paulo (FAPESP).
Dentre os principais resultados apresentados pelos pesquisadores destacaram-se: (1) As campinas amazônicas apresentam uma elevada diversidade de espécies de aves e plantas. Muitas destas espécies são endêmicas deste ecossistema não ocorrendo em nenhum outro tipo de vegetação da Amazônia. 2) Estudos recentes têm levado a descoberta de várias espécies de aves novas para a ciência que são, aparentemente, endêmicas do Estado Amazonas. Só para citar alguns exemplos, foram descobertas uma gralha nova para a ciência (Cyanocorax sp) e um pequeno tiranídeo (família dos bem-te-vis) do gênero Zimmerius encontradas na região entre os rios Madeira e Purus. Estas espécies novas e endêmicas ilustram bem o quanto estas campinas são relevantes para a biodiversidade da Amazônia. 3) Estudos recentes resultaram na identificação de diferentes linhagens de aves com características genéticas bastante diferenciadas. Deste modo, as campinas contribuem com a biodiversidade amazônica tanto no nível de espécies quanto no nível de diversidade genética entre populações da mesma espécies distribuídas em diferentes regiões geográficas. (4) Apesar dos estudos já indicarem a relevância das campinas em termos de sua composição de espécies, a biodiversidade das
insetos, peixes, anuros, lagartos e mamíferos. (5) As campinas representam áreas relevantes para atividades de interpretação e educação ambiental já que tem uma importante contribuição para o conhecimento da diversidade amazônica. (6) Estudos científicos sugerem que mudanças climáticas ocorridas no passado podem ter afetado a distribuição de campos naturais na região amazônica. Outros estudos, no entanto, apontam que as campinas são resultado de uma forte transformação de solos argilosos em solos mais arenosos independente de mudanças climáticas. Este debate ainda é
controverso, mas os estudos das campinas podem dar uma significativa contribuição ao conhecimento da história ambiental da Amazônia e ao debate atual sobre as mudanças climáticas do planeta. Um exemplo disso é que estudos genéticos de aves indicam que esses ambientes podem ser especialmente sensíveis a mudanças climáticas, em especial ao aquecimento global. (7) As campinas amazônicas se desenvolvem, principalmente,
sobre solos arenosos muito pobres em nutrientes que são periodicamente encharcados. Além disso, incêndios naturais ou antrópicos freqüentemente afetam a vegetação deste ambiente. Estas limitações ecológicas condicionam um ecossistema muito frágil do ponto de vista da recuperação ecológica. (8) Uma vez perturbadas por atividades humanas como a mineração visando extrair areia para construção civil ou práticas agrícolas, as campinas não recuperam sua composição de espécies original de plantas e animais, muitas delas vindo a se extinguir localmente. Assim, as campinas configuram um sistema com baixa resiliência, onde as populações de animais e plantas uma vez perturbadas demoram muito tempo em se recuperar por causa do estresse fisiológico em que vivem. 9) Recentemente a comunidade científica classificou as campinas como áreas úmidas (wetlands) por se localizarem em áreas de nascentes de rios. Estas áreas úmidas recebem reconhecimento internacional de conservação através da Convenção Ramsar, da qual o Brasil é signatário.
1) O Estado do Amazonas possui o maior conjunto de campinas de todo o bioma amazônico distribuídas, principalmente no noroeste, sul e sudeste do Estado.. 2) A proposta de ampliação dos limites do Parque Estadual da Serra do Aracá, em
discussão no âmbito da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS) e do Centro Estadual de Unidades de Conservação (CEUC), irá aumentar de modo significativo a área de campinas amazônicas representadas dentro dos limites de unidades de conservação.
3) A mineração para extração de areia para construção civil tem colocado em riscas várias campinas localizadas nas proximidades de Manaus, especialmente nos municípios de Manacapuru, Novo Airão, regiões dos rios Tarumã e Tarumãzinho e ao longo da BR 174.
4) As campinas localizadas na região sul e sudeste do estado do Amazonas, também estão sofrendo forte pressão por parte de sojeiros, fazendeiros e grileiros, além da mineração.
5) As campinas amazônicas se enquadram perfeitamente na descrição de um paisagem natural notável de que trata a Lei Complementar Federal nº 140. 6) Recentemente, foi aprovado no âmbito do Conselho Estadual de Meio Ambiente
do Estado do Amazonas (CEMAAM), a Resolução Nº 15 e seus anexos, alinhada com a Lei Complementar 140, que dispõe sobre o Programa Estadual de Gestão Ambiental Compartilhada com fins ao fortalecimento da gestão ambiental no Estado do Amazonas.
7) A referida Resolução Nº 15 em seu Anexo I determina que as atividades de agricultura, silvicultura e de extração de vegetais de campos naturais representam um potencial poluidor/degradador de pequena significância, portanto passível de licenciamento ambiental. A mesma Resolução permite a
instalação de culturas agrícolas, silviculturais e extrativismo vegetal em campos naturais com área de projeto até 10 (dez) hectares.
Tarumãzinho, é um exemplo de assentamento numa área de campina encharcada, onde atividades agrícolas jamais serão produtivas e viáveis.
Levando-se em consideração o valor de conservação das campinas no Estado do Amazonas destacado acima, os pesquisadores abaixo-assinados recomendam que a política ambiental do Estado do Amazonas considere em suas decisões técnicas e políticas, a importância que os campos naturais têm para a conservação da biodiversidade do Estado. Especificamente solicitamos a este Conselho na figura de seu presidente a Ilma. Sra. Secretaria Nadia Ferreira: 1) Que as campinas amazônicas sejam consideradas formalmente como paisagem
natural notável de que trata a Lei Complementar 140.
2) Que o item que trata do licenciamento ambiental para atividade agroextrativista em campos naturais da Resolução 15 seja revista à luz da fragilidade do ecossistema dos campos naturais e seu baixo potencial agro-extrativista.
3) Que atividades de fiscalização e monitoramento sejam intensificadas no sentido de coibir a prática de mineração ilegal nas campinas próximas a Manaus.
4) Que o atual processo de ampliação do Parque Estadual da Serra do Aracá em discussão no âmbito da SDS/CEUC, considere a inclusão das grandes extensões de campinas do vale do Rio Aracá, contribuindo para ampliar a representação deste ecossistema em unidades de conservação.
5) Que sejam incentivados programas de apoio a pesquisas científicas com foco na biodiversidade das campinas amazônicas, a fim de ampliar o nível de conhecimento deste ecossistema ainda pouco conhecido.
Certos de poder contar com a sensibilidade ambiental dos conselheiros que compõem este importante colegiado assinam esta moção,
Sérgio Henrique Borges – Dr.
Marcelo Moreira – M. Sc.
Fundação Vitória Amazônica Fabiano Lopez da Silva – M. Sc. Fundação Vitória Amazônica
Cíntia Cornelius – Dr.
Universidade Federal do Amazonas Camila Ribas Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Da.
Mario Cohn-Haft – Dr.
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
Alberto Vicentini – Dr.
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
Nádia Nascimento – Dr.