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Atualidade de Shakespeare

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Academic year: 2020

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A T U A L I D A D E D E S H A K E S P E A R E

Fabio A D U R Ã O *

To beguile the time look like time Macbeth I 5.60-1.

O ensaio que se segue1 tem como objetivo principal demonstrar a i m p o r t â n c i a de Shakespeare e justificar sua leitura neste f i m de século. Dificilmente, contudo, esse pareceria um tema digno de interesse. A r e p u t a ç ã o de Shakespeare como, no m í n i m o , um dos maiores escritores do ocidente permanece inabalável e tem a força do lugar comum. Mas t a m b é m tem a sua fraqueza: mais laudado que interpretado, mais conversado que discutido, Shakespeare mais do que nunca corre o risco de tornar-se u m mero simulacro, imagem vazia de uma grandeza que nada diz, salvo talvez uma mensagem de pura autoridade.

O oposto do senso comum é a crítica especializada. Nela confrontam-se duas t e n d ê n c i a s contraditórias que poderiam ser descritas segundo o par universalidade v.v. particularidade. A primeira, decadente e crescentemente minoritária, é a herdeira do New Criticism. Basicamente, defende que Shakespeare teria captado e expressado valores a- ou supra-históricos, que corresponderiam de perto à essência do humano. Suas t r a g é d i a s testemunhariam a solidão do homem perante o divino ou a natureza;

Mestre em Teoria Literária pela UNICAMP. Doutorando do Programa de literatura da Duke University.

' O presente texto foi concebido originariamente como uma palestra para a 1* Semana de Letras da Universidade do Estado de Mato Grosso, no campus de Alto Araguaia, em julho de 1998. Ainda que modificado, ele mantém certos traços de oralidade que de outra forma mutilariam o original. Agradeço ao Prof. Arnaldo Cortina pela indicação desta revista, bem como pelo debate ocorrido naquela ocasião.

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suas c o m é d i a s a a c e i t a ç ã o e o j ú b i l o da c o m u n h ã o coletiva. O amor, o h e r o í s m o , a fraternidade, mas t a m b é m o ódio, a covardia, a inveja estariam perfeitamente retratados em Shakespeare, cuja leitura, e n t ã o , seria justificada por apresentar o humano em sua maior riqueza e diversidade. Fica claro, assim, que n ã o se apreenderia da leitura de Shakespeare uma n o ç ã o ética positiva, pois todos os seus personagens interessantes estariam de alguma forma vinculados ao mal ou ao vício - como Falstaff, Macbeth, Hamlet, Edmund, ou a t é mesmo o nobre Otelo em sua estranha ligação com Iago. Pelo c o n t r á r i o , o que se pode esperar tirar do texto shakespeariano, segundo esta p o s i ç ã o , seria certo poder cognitivo: conhecer o homem como ele é.

O final da ú l t i m a frase pode servir de gancho para apresentar a segunda p o s i ç ã o t e ó r i c a no debate da crítica shakespeariana. Apoiados por desenvolvimentos da teoria literária francesa dos últimos 40 anos, em especial baseando-se em Foucault, um grupo cada vez mais h e g e m ô n i c o4 defende a a u s ê n c i a total de essências e a historicidade radical dos artefatos culturais. Longe de ser o resultado do trabalho de u m indivíduo, a obra do Bardo representaria algo como a solidificação ou corporificação das energias vitais da R e n a s c e n ç a . Sua i m p o r t â n c i a derivaria assim da singularidade deste momento histórico, como veremos a seguir. A l é m disso, sob a rubrica de "materialismo cultural" ou "novo historicismo", diversos críticos enfatizam determinadas limitações do texto shakespeariano; ele n ã o poderia, dizem, deixar de apresentar a v i s ã o específica de sua é p o c a em relação, por exemplo, à s mulheres - como em A Megera Domada - corroborando assim o patriarcalismo que domina a história literária ocidental Por f i m , os materialistas culturais enfatizam o papel ideológico de Shakespeare na p r o p a g a ç ã o de certo modo " i n g l ê s " de ser (certa Englishness) e na f o r m a ç ã o do espírito nacional. Este, ao definir-se em o p o s i ç ã o a tudo o que é " b á r b a r o " , seria uma p e ç a - c h a v e na e x p a n s ã o colonialista da Inglaterra.

2 Para as comédias, veja-se, por exemplo, Brown (1957) e Barber (1959); para as tragédias, entre outros, Bradley (1961) e Knights (1959).

3 Drakakis (1985, p. 1-25) fornece uma perceptiva genealogia da crítica shakespeariana tradicional em seu desenvolvimento a partir de Coleridge até o presente.

4 Além do livro de Drakakis citado acima, uma referência importante é Parker & Hartman (1991).

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É importante frisar, ambas as posições apresentam pontos fracos. A

recusa da história por parte da visão humanista

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de Shakespeare tem

necessariamente que postular uma natureza humana trans-histórica, que, ao

tomar natureza o que é o resultado de um desenvolvimento histórico, em

última instância reforça estruturas existentes de poder Por outro lado, a

crítica ao papel ideológico de Shakespeare no funcionamento da cultura

move-se em um duplo paradoxo performativo.

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Em primeiro lugar, ao

minimizar a importância de Shakespeare, os materialistas culturais acabam

por desempenhar um papel destruidor que abole o valor do objeto que

discutem: "desmitificar" Shakespeare em grande medida equivale a

desencorajar sua leitura. Em segundo lugar, por estar desvinculada de uma

praxis política real e de massa, a crítica materialista da mercadorização da

cultura não consegue evitar que ela mesma se tome mercadoria cultural

reforçando o aparato institucional que denuncia.

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O desafio apresenta-se assim como uma tarefa de mediação: extrair

de cada posição o que contém de verdadeiro, sem, é claro, cair no caminho do

meio - o único que não leva a Roma. No restante deste artigo será feita a

tentativa de articular a oposição, dialética por certo, entre texto e história, ou

texto e tempo. Argumentar-se-á que existem temporalidades específicas

dentro e fora do texto e que é da tensão entre elas que vive a crítica literária.

Do ponto de vista teórico, este texto faz parte de uma tentativa mais ampla de

articular a teoria da influência de Harold Bloom com a estética de

"O senso comum propõe um humanismo baseado numa interpretação e m p í r i c o -idealista do mundo. Em outras palavras, o senso comum alega que o 'homem' é a origem e fonte do sentido, da ação e da história (humanismo). Os nossos conceitos e o nosso conhecimento são considerados o produto da experiência (empirismo), sendo esta experiência precedida e interpretada pela mente, razão ou pensamento, propriedade de uma natureza transcendente e cuja essência é atributo de cada individuo (idealismo). Estas asserções, postas em questão de forma radical pelas implicações da lingüística pós-saussuriana, constituem a base de uma prática de leitura que assume, explicita ou implicitamente, a teoria do realismo expressivo. Segundo esta teoria, a literatura reflete a realidade da experiência conforme é apreendida por um indivíduo (especialmente dotado), que a expressa num discurso que permite a outros indivíduos reconhecê-la como verdadeira" (Belsey, s.d., p. 16). 6 Para o conceito de paradoxo performativo, consultar Recanati (1979, p. 193-215). ' Isto pode ser verificado na abundância de slogans (crítica feminina ou feminista, desconstrutivista, marxista, semiótica, psicanalítica etc.) que, conquanto facilitem a demarcação de campos do saber, favorecem a circulação de teorias como produtos

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T. W. Adorno, em especial

O Cânone Ocidental

do primeiro e a

Teoria Estética

do segundo.

1. O T E X T O DENTRO D O T E M P O

Que o

corpus

shakespeariano seja um produto da sua época é

irrefutável. É já quase um truísmo afirmar que as diversas sociedades, ou até

mesmo civilizações, têm artefatos culturais que lhes são específicos, únicos,

singulares. Por que haveria de ser diferente com Shakespeare? Sua obra

-peças teatrais, sonetos, e poemas narrativos - sem dúvida alguma é fruto da

Inglaterra elisabetana, contendo em si elucubrações simbólicas para

problemas sociais.

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Segundo esta perspectiva, a grandeza de Shakespeare

residiria na singularidade do momento histórico no qual viveu. A Renascença

pode ser vista como um período de transição entre a Idade Média e os tempos

modernos.

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Shakespeare teria assim o privilégio de ter vivido na confluência

de duas

Weltanschauungen.

O mundo medieval paulatinamente dissolvia-se.

Com ele enfraquecia-se a estruturação fixa do universo natural e humano: o

modo de vida baseado na coletividade cedia lugar à ascensão do indivíduo.

Quanto à linguagem, a escrita - a letra - perdia em grande parte seu caráter

sagrado e performativo.

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Como exemplo de ancoramento do texto

shakespeariano no tempo seria interessante investigar rapidamente duas

categorias em sua passagem do mundo medieval para o moderno: a do sujeito

c a do tempo.

* Sigo aqui a bem conhecida formulação de Lévi-Strauss (1958), segundo a qual a produção cultural de uma determinada comunidade corresponde a uma resposta simbólica para um problema social por ela vivido e não conceituado. Como para o estruturalismo em geral, tomo a hipótese straussiana, mais como uma ferramenta heurística, a ser justificada pelo poder de explicação, do que como parte integrante do Real, ontologicamente ancorada na vida de todas as sociedades. Com efeito, penso que podemos usar Lévi-Strauss para explicar a ele mesmo, e interpretar seu estruturalismo como uma resposta simbólico-imaginária para uma crise do pensamento francês no pós-guerra.

9 Apesar de bem conhecida, a hipótese continua sendo cognitivamente rica e didaticamente acessível. Uma boa e recente elaboração pode ser vista em Novy (1984).

1 0 Detienne (1967) fornece uma valiosa descrição das implicações de uma concepção mágico-performativa da linguagem e sua relação com o conceito de verdade.

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Tomemos como exemplo a t r a g é d i a Macbeth. U m frutífero procedimento de leitura consiste em mapear o entrecruzamento da ordem subjetiva emergente com a coletiva, residual. A a ç ã o da p e ç a tem como origem, a t é seu desfecho, t r ê s fontes. H á as três bruxas, em inglês chamadas

Weird Sisters, que, é claro, representam o mundo sobrenatural, supra-humano ("fVyrd" é a palavra A n g l o - S a x ã para destino). A o opor o homem a uma

ordem que o transcende, elas representam uma idéia de totalidade e coletividade. Contudo, n ã o s ã o capazes de controlar os homens e u s á - l o s como meros joguetes, pois precisam de sua p a r t i c i p a ç ã o . Se elas, por u m lado, pavimentam o caminho de Macbeth para assassinar seu h ó s p e d e , p r i m o e rei Duncan, a t r a v é s de u m engenhoso estratagema que n ã o por acaso envolve jogos de linguagem, por outro, o efeito gerado em Macbeth é t ã o imediato (1.3.126-41) que nos faz suspeitar a p r e s e n ç a de horrible

imaginings antes da a p a r i ç ã o sobrenatural.

Outra influência sobre o protagonista é Lady Macbeth, sua mulher, que o instiga a cometer o assassinato que s e r á apenas o primeiro de uma longa série. Vale ressaltar que ela é a primeira personagem feminina forte na literatura inglesa, e x c e ç ã o feita à Mulher de Bath nos Contos da Cantuária de Chaucer. Ela é a primeira, no entanto, a expressar u m grau de d e t e r m i n a ç ã o e individualidade como o que se pode ver nesta i n v o c a ç ã o para os espíritos da noite:

The råven himself is hoarse

That croaks the fatal entrance of Duncan Under my battlements. Come, you spirits That tend on mortal thoughts, unsex me here And fill me from the crown to the toe top-full Of direst cruelty. Make thick my Wood; Stop up the access and passage to remorse, That no compunctious visitin gs of nature Shake my feil purpose, nor keep peace between The effect and i t Come to my woman's breasts And take my milk for gaH, you murdering ministers,

Wherever, in your sightiess substances,

You wait on nature's mischief. Come, thick night,

And pall thee in the dünnest smoke of heil, That my keen knife sees not die wound it makes, Nor heaven peep through the blanket of the dark To cry, "Hold, hold!" (1.5.36-52)

Até o próprio corvo está rouco, que crocita i entrada fatidica de Duncan sob minhas ameias. Vinde, espíritos sinistros que servis aos desígnios assassinos! Dessexuai-me, enchei-me, da cabeça aos pés, da mais horrivel crueldade! Espessai meu sangue, prevenindo todo acesso e passagem ao remorso; de sorte que nenhum compungitivo retorno da sensível natureza abale a minha determinação celerada, nem faça a paz entre ela e o seu efeito! Vinde, ó vós, ministros do Mal, seja onde for que, em invisíveis substâncias, instigais o que é contrario aos sentimentos naturais humanos! Vem, noite tenebrosa, e te reveste do mais espesso fumo dos infernos para que o meu punhal nao veja o golpe que vibrara, nem possa o céu ver nada através do lençol da escuridade para gritar: "Detem-te" (Trad. Manuel Bandeira)

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Interessa aqui notar que os meios sobrenaturais s ã o invocados para ajudar em uma tarefa cujo fim é p r i v a d o . A a m b i ç ã o de Lady Macbeth é pessoal e limitada à q u i l o que a p o s i ç ã o de rainha proporciona. "Nada ganhamos, n ã o , mas, ao c o n t r á r i o , tudo perdemos quando, o que q u e r í a m o s , obtemos sem nenhum contentamento (joy. gozo): mais vale ser v í t i m a d e s t r u í d a do que, por a destruir, destruir com ela o gosto de viver." ( I I I . 2 . 4 - 8 )

Finalmente, vejamos o p r ó p r i o Macbeth. Quanto a ele, n ã o podemos dizer claramente qual o seu grau de responsabilidade no assassinato de Duncan; o quanto agiu por si, o quanto motivado pelas bruxas, ou destino. É aqui que reside a diferença fundamental da t r a g é d i a elisabetana em r e l a ç ã o à grega: no papel do livre a r b í t r i o e sua indissociabilidade com o todo. C o m Macbeth, mas n ã o apenas com ele - lembremo-nos de Hamlet - nasce a r e p r e s e n t a ç ã o da consciência, da interioridade subjetiva:

If it were done when 'tis done, then 'twere well It were done quickly. tf the assassination Could trammel up the consequence, and catch VVith his surcesse success - that but this blow Might be the be-all and the end-all! - here, But here, upon this bank and shoal of time, We'd junip the life to come. But in these cases We still nave judgement here - that we but teach

Bloody instructions, which, being taught, return

To plague the inventor. This even-handed justice

Commends the ingredience of our poisoned chalice

To our ovm lips. He's here in double trust: First, as I am his kinsman and his subject, Strong both against the deed; then, as his host, VVho should against his murderer shut the door,

Not bear the knife myself. (I. 7.1-16)

Se nio houvesse mais que pratica-lo, seria bem fazê-lo sem mais delonga. Se o golpe detivesse em suas redes todas as conseqüências, lograsse triunfar com a morte dele; se o assassínio fosse aqui tudo e o fim de tudo - aqui, nestas praias do tempo, eu arriscaria minha vida futura. Nestes casos há aqui, porém, sentença, de maneira que as sanguinárias instruções se voltam contra o próprio inventor; e o conteúdo da nossa copa envenenada lava-a a justiça imparcial aos nossos lábios. Ele está aqui sob dupla salvaguarda: primeiro, é meu parente e eu seu vassalo, motivos ambos poderosos contra o ato; depois, neste momento o hóspede, nio devo abrir a porta ao assassino nem usar o punhal eu mesmo. (Trad. Manuel Bandeira)

H á neste trecho u m verdadeiro agon mental. A s p a i x õ e s , componentes psicológicas dos séculos X V I e X V I I , eram nesta é p o c a consideradas como exteriores aos indivíduos e plenamente m a n i p u l á v e i s por u m bom orador; daí vem a i m p o r t â n c i a da retórica como p r á t i c a a r t í s t i c o -s o c i a l .1 1 E m Macbeth as p a i x õ e s e s t ã o interiorizadas e passam a se confrontar d e n t r o de sua mente: a a m b i ç ã o e a m o d e r a ç ã o ainda s ã o p a i x õ e s ,

1 1 Devo ao Prof. Alcir Pécora esta hipótese de trabalho. 1 5 4

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-s ó que agora ocupam o palco interior da -subjetividade. O papel de p e r -s u a -s ã o do orador é s u b s t i t u í d o pelo p r ó p r i o personagem; é gerada assim uma forma de espelhamento em que o personagem passa a ouvir a si p r ó p r i o e a ficar obcecado com sua p r ó p r i a fala. Talvez seja por isso que haja t ã o pouca c o m u n i c a ç ã o entre os personagens shakespearianos,1 2 e que eles apresentem uma profundidade inédita a t é e n t ã o na história da literatura.

A categoria do tempo sofre uma m u d a n ç a semelhante. Ela apresenta uma m u d a n ç a qualitativa na passagem da Idade M é d i a para a R e n a s c e n ç a . O tempo medieval era cíclico, coletivo, diferenciado e tinha como unidades reguladoras as e s t a ç õ e s do ano. O tempo n ã o ia para lugar nenhum, mas constituía-se no retorno do que j á havia acontecido. A isso se opunha o tempo que poderia ser chamado de "moderno": ele é individual, idêntico a si p r ó p r i o , vazio, abstrato, e infinitamente decomponível. Este é u m tempo que progride e sem o qual é impossível pensar a idéia, p r o b l e m á t i c a por certo, de progresso.1 3

Grande parte dos sonetos de Shakespeare pode ser lida como uma s o l u ç ã o i m a g i n á r i a para uma s i t u a ç ã o na qual persistiam estas duas formas de temporalidade. Tomemos o n° 19.

Devouring Time, blunt thou the lion's paws, And make the earth devour he own sweet brood; Pluck the keen teeth from the fierce tiger's jaws, And bum the long Uved phoenix in her Hood; Make glad and sorry seasons as thou fleet'st, And do whate'er thou wilt, swift-footed Time, To the wide world and all her fading sweets, But I forbid thee one most heinous crime: 0 carve not with thy hours my love's fair brow, Nor draw no lines there with thine antique pen; 1 lim in thy course untainted do allow

For beauty's pattern to succeeding men. Yet do thy worst, old Time; despite thy wrong, My love shall in my verse ever hve young.

A garra do I^eao, Tempo voraz, apara, E da fauce do tigre arranca os feros dentes. Que sua geração devore a própria Terra, Que a fénix eternal se consuma em seu sangue. Faze horas, ao passar, de alegria e de dor, O que quiseres faz, ó levipede Tempo, Deste vasto universo e seus encantos breves Mas devo-te impedir um odioso crime: Nio grave o teu passar do meu amor a fronte, E poupa-lhe as feiçOes de tua pena os traços; Permite que sem mancha em teu percurso fique Modelo de beleza aos homens do futuro.

Mas podes, velho Tempo, encarniçar-te, embora! Nos versos meu amor vivera sempre jovem. (trad. Oscar Mendes)

1 2 Com efeito, Shakespeare teria muito o que dizer no debate Habermas-Adorno; dificilmente poder-se-ia imaginar um autor tão fortemente desprovido de uma razão comunicativa, e que parece tirar sua força justamente desta ausência.

1 3 Harvey (1990, p. 201-326) discute as transformações na vivência moderna e pós-moderna do tempo. A interessante tipologia de G. Gurvitch é citada nas páginas 224-5.

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É uma chave produtiva de leitura ler os 154 sonetos de Shakespeare como mobilizando sistematicamente campos semânticos que remetem ao velho e ao novo mundo. A q u i h á por u m lado a n o ç ã o moderna de tempo como destruidor do indivíduo, como aquilo que inexoravelmente passa para n ã o mais voltar. N ã o por acaso, o tempo progressivo o p õ e - s e à natureza: à s e s t a ç õ e s , que incorporavam o tempo circular, à terra, imagem de filiação, e ao tigre, que na mentalidade elisabetana é uma m e t á f o r a do mal da/na natureza. Contra isso se apresenta a escrita que preservaria a beleza do amado. Duas o b s e r v a ç õ e s devem ser feitas: em primeiro lugar, a p e r m a n ê n c i a pela escrita, a perenidade da letra, é um resquício mágico/religioso da linguagem e assim pertence ao velho mundo pré-renascentista. E m segundo lugar, como ato de fala, o poema corresponde a u m misto de i n v o c a ç ã o e desafio. A p e r s o n i f i c a ç ã o do tempo deve ser levada a sério, e n ã o como mero artifício ou c o n v e n ç ã o . Trata-se de uma entidade mortífera que é chamada à vida para ser derrotada: como desafio o poema reforça a individualidade do eu-lírico; como i n v o c a ç ã o faz parte do passado.1 4

Se o tempo é exterior ao texto e apresenta-se como o seu "fora", o valor da obra shakespeariana reside na continuidade do passado em r e l a ç ã o ao nosso presente. E x t r a p o l a ç õ e s p ó s - m o d e r n a s à parte, a subjetividade que conhecemos e vivemos é ainda em grossas linhas aquela que o Bardo descreveu; ou ainda, as t r a n s f o r m a ç õ e s que por ventura ocorreram n ã o podem ser entendidas sem a c o m p r e e n s ã o de sua origem justamente no p e r í o d o que Shakespeare representa. O mesmo acontece para a n o ç ã o de tempo. Aquele sob o qual vivemos (e morremos - a morte em uma temporalidade coletiva é dividida pelo grupo, sendo menos dolorosa) gerou as primeiras r e a ç õ e s de a n g ú s t i a na é p o c a de Shakespeare.1 5

2 . O T E M P O D E N T R O DO T E X T O

A o investigar a p o s i ç ã o c o n t r á r i a e tentar verificar o que haveria de universal em Shakespeare, em o p o s i ç ã o à q u i l o que estaria preso ao seu

1 4 A importância da invocação para a poesia é salientada por Greene (1993, p. 495-517).

1 5 É claro, os romanos j á haviam expressado o caráter irrevogável do tempo, como Séneca, por exemplo, em Sobre a Brevidade da Vida, ou Ovídio, nas Metamorfoses (cujo "tempus edax rerum" é utilizado por Shakespeare no soneto acima). No entanto, a angústia que descreviam era mais ligada ao conhecimento do que propriamente a uma vivência imediata e sensível.

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tempo, deve-se ter cuidado para n ã o se pressupor algo como uma natureza humana i m u t á v e l e perene, o que, além de ideologicamente perigoso, reduz muito a i n t e r p r e t a ç ã o . É mais proveitoso, ao invés disso, fugir do tempo pelo tempo e postular que, de maneira apenas aparentemente paradoxal, é a h i s t ó r i a da r e c e p ç ã o de Shakespeare que parece subtrai-lo do tempo. O século X V I I leu-o ainda como u m c o n t e m p o r â n e o . Ben Jonson (1572-1637), no poema de d e d i c a ç ã o das obras completas em 1623, " À m e m ó r i a de meu amado, o autor, W i l l i a m Shakespeare, e o que nos deixou" ("7b the Memory of My Beloved, The Author, Mr. William Shakespeare, and What He Hath Left Us") louva Shakespeare com a proximidade de um colega, fazendo uso de uma d i c ç ã o poética convencionalizada. Podemos notar aqui como Jonson o lê segundo seu gosto neoclássico. Em primeiro lugar menciona, ainda que em uma o r a ç ã o subordinada adversativa, que Shakespeare tinha "small Latin and less Greek". Somando-se a isso, o poema compara Shakespeare com autores de t r a g é d i a s e c o m é d i a s da A n t i g ü i d a d e Clássica, colocando-os como pano de fundo para a a v a l i a ç ã o e a p r e c i a ç ã o do nosso autor. E em último lugar, e mais importante, estabelece um ligeiro deslocamento de sentido, quase imperceptível: relega Shakespeare preponderantemente a u m estado de natureza. Suas obras estariam mais p r ó x i m a s do natural, sendo de alguma forma opostas à cultura em um sentido mais amplo, da qual, é claro, Jonson seria um grande expoente.

Esta n a t u r a l i z a ç ã o de Shakespeare pode ser interpretada como um mecanismo de defesa; serve assim como ponto de partida para introduzir, ainda que de forma s u m á r i a e simplificada, a teoria da influência de Harold Bloom. Para melhor entendêla é vantajoso tentar descrever a n o ç ã o p ó s -iluminista de influência, a da crítica tradicional, consolidada academicamente a partir de certo romantismo tardio. Em poucas palavras, dir-se-ia que ela se baseia em quatro postulados: (1) o poeta anterior funciona como uma fonte segura e estável, como uma origem inquestionável; (2) a influência é consciente e explícita, e n ã o e s t á escondida; (3) o estudo da influência respeita os limites da crítica literária e n ã o ultrapassa suas fronteiras; por f i m (4) a t r a d i ç ã o literária funciona de forma cumulativa e m a n t é m a promessa de riquezas crescentes, de forma que a influência se apresenta como positiva e desejável. Harold B l o o m se o p õ e de forma radical a esta idéia de influência. Para ele, a t r a n s m i s s ã o da literatura, a sua continuidade, n ã o se d á , como pensa a crítica tradicional, por u m processo linear e exterior, quando u m escritor seria influenciado ao ler u m precursor de acordo com temas, figuras, ou estilo.

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Para Bloom, pelo contrário, a t r a d i ç ã o é uma série de lutas, nas quais o j o v e m poeta tenta reverter a m a l d i ç ã o de ter nascido tarde demais; a história das relações de influência é uma história de poder, violência, e a p r o p r i a ç ã o . Didaticamente, a d i n â m i c a da influência é a seguinte: ao confrontar-se com a literatura j á estabelecida, o aspirante a poeta "escolhe" u m pai poético, contra o qual t e r á que lutar para poder dizer o que quer que seja. Desta luta resultam n ã o t r a ç o s específicos como temas, ou imagens, mas a p r ó p r i a obra. Cada texto literário, assim, seria a resposta a outro texto, gerada pela a n g ú s t i a da literatura existente. Os autores assim dividir-se-iam em dois grupos: os fracos, que, na luta pela originalidade, n ã o conseguiram vencer seus pais poéticos, continuando à sua sombra, e os fortes, que na a n g ú s t i a de terem nascido depois conseguem se desvencilhar do d o m í n i o de seus pais.

A obra resultante da a n g ú s t i a da influência, isto é importante ressaltar, representa uma leitura daquela que lhe precedeu. Para Bloom, esta leitura é sempre uma desleitura (misreading). Este é um conceito-chave para entendermos um bom n ú m e r o de teóricos p ó s - e s t r u t u r a l i s t a s americanos. Para que possa surgir uma obra forte é necessário que o poeta caracterize seu antecessor de forma a possibilitar o surgimento de sua p r ó p r i a obra; esta c a r a c t e r i z a ç ã o nunca c o r r e s p o n d e r á à realidade, simplesmente porque, para Bloom, a referencial idade necessária para tanto é apenas mais u m tipo de metáfora. Desta feita, o deslocamento de Ben Jonson mencionado acima configura-se como uma estratégia interpretativa necessária: é apenas g r a ç a s à n a t u r a l i z a ç ã o de Shakespeare que Jonson p ô d e escrever sua p r ó p r i a poesia.

Gostaria de propor duas reformulações para esta teoria. E m primeiro lugar, herdeiro que é da t r a d i ç ã o individualista norte-americana, Bloom enfatiza demais o pólo subjetivo da influência, a a n g ú s t i a . A ele é n e c e s s á r i o contrapor o que h á de objetivo no processo de influência, como a idéia de Benjamin e Adorno, segundo a qual os textos s ã o r e s p o n s á v e i s por sua r e c e p ç ã o e em grande medida escolhem seus leitores. A o j u d a í s m o de Bloom talvez fosse útil contrapor u m protestantismo: t a l qual a G r a ç a , a autoria forte é t a m b é m consignada, mas, ao invés de Deus, por poemas fortes. Recuperar-se-ia assim o sentido antigo da palavra influência, que, como a ç ã o das estrelas nos mortais, permitiria o mapeamento das constelações formadas pelas leituras h i s t ó r i c a s . T e r í a m o s assim uma teoria menos subjetivista e mais abrangente. E m segundo lugar, cumpre ter em mente o desenvolvimento histórico que permitiu a c o n f i g u r a ç ã o do conceito de literatura - vislumbrado por B l o o m em A angústia da influência, mas rejeitado posteriormente - em

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torno da autonomia da arte, tema central em Adorno (1997). Que Shakespeare tenha tanto a dizer; que tanto sentido possa ser instaurado a partir de seu texto; que o realmente novo tenha a capacidade de emergir do antigo - tudo isso deve ser inserido no contexto do paradoxo de l i b e r t a ç ã o da arte das amarras sociais, morais, religiosas e da perda de sua fundão em uma sociedade crescentemente homogeneizada e mercantilizada. Segundo Adorno, no capitalismo tardio a arte reveste-se de uma grande i m p o r t â n c i a tanto política quanto cognitiva, na medida em que representa o ú n i c o e s p a ç o parcialmente livre da lógica da mercadoria. Esta, j á tendo penetrado a esfera do espírito e dando origem ao que f o i chamado de indústria cultural, solapa a c r i a ç ã o e o livre pensar. N o mundo totalmente administrado a arte torna-se um ú l t i m o refúgio da Utopia. E m suma, contanto que seja colocada em a r c a b o u ç o mais amplo, h á promissoras possibilidades de a r t i c u l a ç ã o entre a teoria da influência de Bloom e a estética adomiana.

Estamos agora em condições de caracterizar a centralidade de Shakespeare no c â n o n e da literatura ocidental: ele foi o autor contra o qual o maior n ú m e r o de escritores se viram compelidos a ser rebelar; ele foi a maior

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causa de a n g ú s t i a na história da literatura. John M i l t o n , Goethe, Proust, Pessoa, todos tiveram que, de alguma forma, se desvencilhar do poder de sentido do Bardo inglês. Bloom chega ao ponto de inverter a cronologia e, ao invés de expor uma leitura freudiana de Shakespeare, o que é por demais comum e a t é enfadonho, p r o p õ e uma interpretação shakespeariana de Freud, renomeando o complexo de É d i p o como complexo de Hamlet: B l o o m mostra as tentativas s i s t e m á t i c a s pelas quais Freud tenta escapar de Shakespeare.

Este é o problema com Shakespeare: sua a b r a n g ê n c i a . O século X V I I leu-o e fabricou-o conforme suas p r e o c u p a ç õ e s ; o X V I I I v i u em seu teatro, n ã o sem alguma polêmica, como atesta por exemplo sua c o n d e n a ç ã o por Voltaire, u m poder de arrebatamento para além do decoro literário permitido; o século X I X (Coleridge) caracterizou Shakespeare como o ponto mais alto do poder criativo do homem, instância exemplar do g é n i o ; por f i m , o século X X p ô d e ver confirmado em Shakespeare desde a teoria p ó s -estruturalista do significante a t é defesas do marxismo, como no l i v r o

1 6 A autonomia da arte é uma das principais portas de entrada da difícil Teoria Estética. O melhor comentário que conheço é o de Menke (1993). Cf. também Zuidervaart (1991) e Jimenez (1977).

1 7 Como aponta Buck-Morss (1977), este é um imperativo de Adorno: julgar o passado a partir de constelações do presente, pois o presente muda o passado. 1 8 Este é o argumento central do livro de Bloom (1994).

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Espectros de Marx, de Jacques Derrida. E o século X X I por certo c o n f i g u r a r á seu p r ó p r i o Shakespeare, vendo nele a resposta para perguntas p r ó p r i a s . E no entanto todos os séculos leram o mesmo texto. Seja e n t ã o do ponto de vista da c r i a ç ã o literária, seja do â m b i t o da critica, que hoje mais do que nunca e s t ã o interligados, Shakespeare apresenta-se como uma p e r m a n ê n c i a na história das letras no Ocidente.

Textos que geram tanto sentido transcendem a o p o s i ç ã o entre sagrado e secular. Isso pode ser verificado no horizonte de relacionamentos possíveis com os textos. Em u m extremo existem aqueles que s ã o meramente informativos, e dos quais tiramos elementos para nosso uso: uma receita culinária, uma bula de remédio. N o outro extremo h á aqueles textos que parecem descrever nossa vida, e mais do que isto, que parecem prever nossa existência futura e sobre ela emitir julgamentos. Em uma palavra, s ã o textos que vivemos. Para muitos a Bíblia tem esta função, de servir como medida para a vida quotidiana.1 9 O mesmo acontece com Shakespeare. Estamos continuamente vivendo enredos, personagens, traumas e dilemas que permeiam sua obra. Isso se deve, tanto ao c a r á t e r fundador da R e n a s c e n ç a , quanto ao potencial instaurador de sentido que a literatura e a crítica acharam em Shakespeare no decorrer dos séculos.

E claro, um suposto interlocutor teria todo o direito de indagar: "Shakespeare foi apresentado como estando dentro do tempo e fora do tempo, representante de sua é p o c a e de todas desde então, como é possível que isto ocorra? N ã o é um absurdo? N ã o haveria uma forma de sintetizar esta c o n t r a d i ç ã o ? " Sinceramente falando n ã o vejo síntese possível. M a i s interessante do que conciliar as duas posições é investigar a t e n s ã o entre elas. E apenas devido a esta t e n s ã o , apenas ao fato de que as obras fortes da literatura e s t ã o dentro e fora do tempo, que se move a p r o d u ç ã o literária como um todo, a crítica incluída. N a realidade n ã o me acanho em usar o conceito teológico de r e d e n ç ã o (a Erlösung de A d o r n o2 0) para qualificar o dia em que o sentido histórico de uma obra se confunda com a história de suas leituras, quando a especificidade do momento seja explicada pela universalidade da

1 9 Se textos fortes, pelo sentido que instauram, merecem ser lidos como sagrados, o oposto também deve ser feito e a Bíblia erigida a monumento literário.

2 0 E interessante comparar este sentido da palavra com aquele utilizado por Adorno (1992, p. 215): " A filosofia, segundo a única maneira pela qual ela ainda pode ser assumida responsavelmente em face do desespero, seria a tentativa de considerar todas as coisas do ponto de vista da redenção." Etc.

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p r o d u ç ã o de sentido. A t é que isto ocorra s ó nos cabe vivenciar da forma mais intensa possível esta disjunção que nos constitui

R e f e r ê n c i a s b i b l i o g r á f i c a s

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Referências

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