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CODINA, Mónica – Donde vive la libertad: Una lectura de Romano Guardini.

Madrid: Biblioteca Nueva, 2011. 246 p. Ensayo; 43.

Mónica Codina, doutora em Filosofia e professora na Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, tem vindo a desenvolver a sua investigação sobre a obra de F. Dostoyevski (El sigilo de la tradición y nihilismo en la narrativa de Dostoyevski, Pamplona, 1997), cujo universo religioso da sua narrativa foi também objeto de refle-xão por parte de Guardini (Religiöse Gestalten in Dostojewsijs Werk, 1932). Eis tal-vez a razão que justifica o irmanar desta duas figuras incontornáveis da nossa história recente.

Romano Guardini (1885-1968) é um dos pensadores católicos do século XX a quem gradualmente se foi prestando menos atenção, a partir da década de 80, como de alguma forma comprova a bibliografia passiva que a professora da Universidade de Navarra nos oferece no final deste ensaio. É contudo absolutamente necessário revi-sitar o seu pensamento para a compreensão profunda da reforma eclesial de que o Concílio Vaticano II é testemunho histórico. Mas é também uma obra plural, aberta e criticamente dialogante, sem a qual se tornaria muito difícil a perceção de como o século XX se situou perante as tragédias, mas também perante a acelerada mudança de paradigma civilizacional.

Esta análise sobre Guardini constata a necessidade da recondução do pensa-mento ocidental para a questão do sentido, desde a razão e da mais profunda estrutura psicológica da trama relacional em que o ser humano se encontra, no plano de uma mundividência católica (katolische Weltanschauung). É precisamente nesta encruzi-lhada do sentido e da relacionalidade que a autora deteta uma profunda afinidade entre o pensamento do pensador italiano com a narrativa do escritor russo. A questão do sentido (logos) entrelaça-se com a da liberdade, situadas vital e existencialmente, pois «existencial é o pensamento, os factos e a intuição de relações de sentido que permi-tem ao homem chegar à compreensão de si mesmo, e à relação do mundo com ele e da sua com o mundo» (p. 157).

José Pedro Angélico

}4.1.

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DI PALMA, Gaetano, a cura di – Una Saggia Educazione: Letture teologiche

e prospettive. Napoli: Pontifi cia Facoltà Teologica dell’Italia Meridionale,

2011. 304 p. Biblioteca Teologica Napolitana; 32.

Se olharmos atentamente para a História, os desafios educativos são de sempre. Todavia, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, a questão da instrução, do ensino e da formação das gerações mais novas colocou-se com particular acuidade, dadas a evolução das tensões ideológico-políticas e sociais e a consolidação das ainda jovens ciências sociais, nomeadamente a sociologia e a psicologia (só por economia não refe-rimos outras) que vieram a impor-se de forma quase exclusiva às chamadas Ciências da Educação. Assim a visão tradicional de séculos da tarefa educativa tem vindo a ser posta em causa, sobretudo recentemente, com o rápido desenvolvimento dos meios de comunicação social e das tecnologias de informação e de comunicação (TIC).

Face a este panorama, o episcopado italiano, em 2009, avançou com um

relatório--proposta do que viriam a ser, no ano seguinte, as suas Orientações Pastorais para

a segunda década do milénio (“Educar para a vida boa do Evangelho”). Procurando contribuir para o debate, a Faculdade de Teologia da Itália Meridional organizou uma convenção de docentes da Secção São Tomás de Aquino, dedicada aos desafios da

educação, cujas atas deu à estampa no número 32 da coleção Biblioteca Teologica Napoletana. Temos assim um volume que se estrutura em oito capítulos, a cargo de

diferentes autores que tratam do tema da educação desde a antiguidade bíblica e greco-romana até aos desafios hodiernos que animam o debate educativo, abordando, entre outros assuntos, a visão cristã da pessoa e de como ela poderá ser o contributo mais apropositado que o cristianismo poderá oferecer.

O exegeta Luca Mazzinghi abre com uma abordagem aos Provérbios (O desafio

educativo na literatura sapiencial de Israel), perscrutando a forma como os sábios

de Israel enfrentavam e respondiam às questões educativas da época. Com profunda intuição e de forma empírica sabiam que as relações entre quem ensina (com a ten-tação de impor padrões e estereótipos, de forma mais ou menos dogmática, fixista e conservadora) e quem aprende (com o risco da ingenuidade e da inexperiência) nunca foram simples. Pesquisa profícua que visa haurir paradigmas e lições pertinentes para os contextos tão dissímeis dos dias de hoje, tais como a atenção posta na liberdade: educar não será prescrever, impor, ordenar, mas sugerir, fazer pensar. Tudo isto sem esquecer a fé: para os sábios de Israel, a educação é um convite a abrir-se aos mis-térios da vida e de Deus, com a humildade de quem sabe não deter toda a verdade.

O coordenador desta edição, Gaetano di Palma, também um exegeta, aborda o que modernamente se pode denominar como currículo oculto (“Não é digno da nossa

idade fingir” (2Mac 6, 24). O compromisso do testemunho para enfrentar o desafio educativo). Não se aprende exclusivamente através de processos educativos formais,

mas também (e muito!) com o testemunho, o exemplo modelar e público dos valores que orientam a vida (os ambientes educativos educam mais do que os conteúdos minis-trados). Assim, no quadro histórico do período selêucida, o autor colhe esta lição: antes a morte do que dar maus exemplos aos jovens, traindo assim os valores estruturantes da vida, perante a ameaça de o povo bíblico se deixar inquinar pelas múltiplas culturas com que esteve em contacto, perdendo a sua especificidade identitária especial. A

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educação servirá então o objetivo de manter a identidade (socializar, transmitir cultura), mesmo não recusando a novidade que o helenismo podia aportar. Hoje a globalização também pode pôr em causa as identidades nacionais ou regionais e os modelos edu-cativos tradicionais, mas, por outro lado, constitui oportunidade de abertura à novidade, de diálogo com a diferença.

Cesare Marcheselli-Casale (O cura morum e os catálogos sociofamiliares. Os

textos cristãos de finais do século I e os clássicos greco-romanos), outro exegeta,

entende que o confronto entre os autores clássicos e o cristianismo emergente per-mitiu apurar o sentido crítico para fazer melhores escolhas. Eis aqui um apontamento pertinente para o ensino religioso escolar católico em Portugal (EMRC), ao nível da concretização das orientações curriculares e programáticas: pretende-se educar a inteligência (e a vontade e o coração) ou impor modelos comportamentais estereoti-pados, de forma acrítica e apologética? Este texto pode ajudar-nos a perceber como a novidade do cristianismo aceitou os desafios que a cultura coeva lhe apresentava e, em confronto (diríamos: diálogo), procurar “escolher-se o que é útil, reconhecer a diversidade, descobrir a superioridade” (que útil seria hoje assim procedermos e não apenas importarmos acriticamente culturas e paradigmas alheios, sem aculturação, submetendo os nossos jovens a experimentalismos educativos decorrentes de teorias mais ou menos peregrinas que pouco refletem a nossa identidade e a nossa memória).

O professor de filosofia Pasquale Giustiniani (Filosofia cristã e pessoa para

ganhar a aposta educativa) apresenta a seguinte tese: o cristianismo deve responder

aos desafios educativos a partir da noção de pessoa. É o grande recurso, enraizado nas Escrituras e nascido das reflexões cristológico-trinitárias, consolidado numa tradição de dois milénios, que desborda sabedoria e lhe dá autoridade (lembremos Paulo VI na ONU ao referir a Igreja como perita em humanidade). A partir daqui o autor entende que a educação (enquanto formação da pessoa) não se esgota na preparação de um bom cidadão ou de um bom cristão, mas deve servir simplesmente para ser homem ou ser mais homem. Daí a necessidade de revisitar este semema à luz das categorias antropológicas mais recentes, a fim de evitar o exclusivismo antropológico que possa impor um único modelo de razão e de pessoa (uma antropologia sem o outro e até sem Deus). Então, o diálogo entre a fé e a cultura é oportuno e importuno e pode constituir-se como instância crítica do relativismo hodierno. Mas o autor adverte que, como a Patrística nos ensina, não se trata de apresentar o cristianismo como uma outra cultura que quer substituir a(s) cultura(s) existente(s), mas de dar uma nova semântica às estruturas culturais existentes.

O bispo Ignazio Schinella (A educação da consciência na sociedade moderna), moralista, põe a tónica na formação da consciência. A modernidade, em nome da absoluta autonomia do Homem e da sua visão individualista da liberdade como direito absoluto, gerou a convicção de “seguir a própria consciência”, para lá de quaisquer normas morais objetivas. Ora o cristianismo sempre entendeu a liberdade como “aber-tura à realidade e à verdade da vida”, como tensão e inclinação para o bem que a razão descobre e cuja palavra é a voz da consciência. E é a lei moral que põe em relevo o estatuto da pessoa, estatuto nascido e precedido pela relação com o outro. Nesta perspetiva, a autonomia é um valor fundamental, mas segundo (não secundário), pois a lei moral precede-a ao suscitar-me a atenção ao outro e ao respeito que lhe é devido. Quanto à tarefa educativa, será necessário educar a consciência desta relação com o outro que irrompe na vida de cada um.

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O professor de teologia espiritual Francesco Asti (Educação e autoformação na

era da Internet como parte do serviço da Teologia) discorre sobre as múltiplas

possi-bilidades pedagógico-didáticas que as TIC oferecem à investigação, estudo e ensino da teologia: o elearning e o eteaching encerram imensas potencialidades, embora exijam novas formas de ensinar e de aprender. Ora, que modelo de Homem está sub-jacente na cultura dos multimédia (redes sociais, chats, emails, sms)? Esse modelo põe em causa o modelo de homem da teologia? Como conjugar os “valores fortes” da pedagogia tradicional com os desafios e potencialidades das TIC? O autor socorre-se da andragogia, como oferta de um caminho formativo (e autoformativo) que permita chegar à maturidade. Mais do que o mero processo de transmissão de conhecimento (o professor ensina e o aluno assimila e reproduz), a andragogia reequaciona o modelo e as funções dos intervenientes e dos processos: o professor é guia e recurso na des-coberta das potencialidades do discente, encoraja a pesquisa pessoal, o percurso for-mativo e os resultados; o aprendente desenvolve capacidades e competências, criando processos significativos ao usar saberes adquiridos. Será um processo que favorece a interiorização de valores, a síntese ou sínteses finais, a reconstrução dos saberes e as práticas colaborativas. A andragogia proposta é um percurso educativo dinâmico e formativo que lembra o paradigma de ensino e da aprendizagem por competências, que vigorava no sistema educativo português até há menos de dois anos.

O pastoralista Antonio Palmese (Desafio ou aposta: que itinerários educativos?) defende a necessidade de ouvir os educandos a fim de se poder escolher um cami-nho convincente e credível. Os jovens crentes ou simpatizantes do cristianismo são uma minoria e, portanto, para lá dos inquéritos orientados para respostas desejadas, mais vale apostar seriamente numa realidade que pode conter novidades inesperadas. Assim se evitará o “consumismo de experiências” e se poderá procurar significados e projetos para a vida. Num tempo de pensamento débil e de crise da interpretação holística da realidade, os jovens têm dificuldade em estabelecer a sua identidade, uma “personalidade forte” e “um centro interior […] que permita a avaliação e o discerni-mento crítico em vista das opções concretas da vida”. Aqui a Igreja tem teimado quase exclusivamente no aspeto religioso, ignorando as outras dimensões da vida, fazendo propostas que excluem muitos e que dificultam o diálogo. Assim o autor aponta várias tarefas e itinerários que vão desde a não discriminação ou exclusão dos não crentes até ao pluralismo de projetos (contra uma visão monolitista, centralizadora, uniformizadora e exclusivista), passando pela preocupação com os “sujeitos reais” do processo educa-tivo, superando a tentação do proselitismo ou da apologética, fomentando uma “cidada-nia ativa” que privilegie o exercício quotidiano da democracia e das responsabilidades cívicas em vista do bem comum. Educar para esta cidadania ativa implica passar da reivindicação para a intervenção e empenho em projetos, no gozo dos direitos, no res-peito pelos limites e no cumprimento dos deveres, na solidariedade, na liberdade e na igualdade. Eis algumas sábias advertências para a forma como se tem vindo a imple-mentar curricularmente a Disciplina de EMRC no nosso país…

O texto seguinte é do professor de filosofia da educação Carmine Matarazzo (A educação entre emergência e desafio. Prospetivas filosóficas para uma sociedade em mudança.), que advoga que, em lugar de educadores autoritários (com a tarefa

educativa centrada exclusivamente em si), devemos concentrar a atenção nos apren-dentes. O Cristianismo, já desde as suas origens, teve uma “ânsia pedagógica” forte, pois a pessoa de Cristo e sua mensagem implicava uma nova paideia. E pelos séculos

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fora, este impulso inicial continuou com novos objetivos, práticas, métodos pedagógi-cos e o pulular de instituições e de modelos educativos. Tendo por p(l)ano de fundo a história, o autor conclui de forma otimista que, desde a ótica do cristianismo, mesmo neste mundo de cultura e mentalidade frequentemente niilistas, relativistas e embebi-das no pensamento débil, “educar é possível”. Exigir-se-á uma intencionalidade

educa-tiva em relação aos valores fundamentais da existência, uma proposta convincente que

possa superar o relativismo cultural, educativo social e moral. Para educar, o cristia-nismo deve pois descobrir as “ânsias e as inquietudes” do homem e oferecer um “real” projeto de vida dador de sentido.

Este volume fecha com Luigi Longobardo (A ação educativa da Igreja

ilumi-nada pelas antigas comunidades), patrologista, que refere a especial solicitude dos

Padres pela tarefa educativa. A noção cristã de pessoa, essa “pérola” do pensamento teológico, será a resposta adequada ao desafio educativo hodierno, pelo que se torna necessária a renovação de uma antropologia centrada na pessoa. E o futuro educa-tivo do cristianismo deve confrontar-se com os “estilos educaeduca-tivos”, as estratégias, os percursos pedagógicos e os métodos de resolução de problemas propostos pelas pri-meiras comunidades cristãs. Foi isso que permitiu ao cristianismo emergente, usando as categorias culturais greco-romanas, criar uma nova semântica, mantendo sempre a sua identidade original, sem se tornar irrelevante ou estranho aos processos educativos do tempo. Nesta altura, o grande modelo educativo é Cristo, o Pedagogo (Clemente de Alexandria).

Numa abordagem teológica e interdisciplinar, feita no horizonte da tradição, pre-tende-se lançar propostas concretas para a atualidade, na certeza de que a educação é “questão fundamental e decisiva” que exige escolhas estruturantes. Propõe-se pois uma sábia educação, que, em nome de Deus e do Homem, responda às questões edu-cativas hodiernas e procure ultrapassar a submissão e circunscrição, sempre redutoras e excludentes, a algumas das chamadas Ciências da Educação (que vieram a gerar o

eduquês, desde uma visão romântica da pedagogia, segundo o professor Nuno Crato,

atual Ministro da Educação). Sábia educação, em aprofundamento e (re)construção permanentes, para que as nossas escolas (e por extensão o sistema educativo) não se tornem em “baldio educativo” onde se fazem experiências (em nome de quê ou de quem?) com os jovens, à luz de modas e teorias mais ou menos peregrinas e ideolo-gicamente datadas. Para tal é premente a revisitação de uma antropologia global (fun-dada no conceito de Pessoa), que fundamente e valide os contributos de todas as áreas do saber, enquanto visões necessárias, mas sempre parciais.

As prospetivas destes docentes napolitanos são otimistas e interpelantes, embora a tarefa seja ainda incipiente, apesar da fina e cuidada análise e rigor científico patente, alcandorados na autoridade e na sabedoria acumulada de milénios. Eis um desafio sério a que a teologia, no seu âmbito epistemológico próprio, deverá também respon-der, sem deixar de se abrir ao mundo, às novas aquisições dos diversos saberes, com a elevada missão de dar à reflexão sobre a educação um “suplemento de alma”, uma unidade global de compreensão e uma chave de leitura que as diversidades ideoló-gicas, epistemolóideoló-gicas, filosóficas e culturais ainda não alcançaram. O próprio editor confessa que “não é possível falar de tudo de uma só vez. É preciso retomar o discurso e colmatar lacunas para que se possa oferecer um contributo substancial”.

Acresce que, se estes trabalhos são uma resposta às Orientações Pastorais do episcopado italiano e, portanto, se cingem à educação cristã em Itália, será premente

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universalizar a tarefa, ainda que só em contexto europeu. Entretanto já passaram dois anos e o mundo e a história continuam a girar à velocidade dos terabytes e dos

soundbytes…

Um reparo deverá também ser feito, salva melhor opinião. Estes contributos estão confinados a um universo quase estritamente eclesial, centrado na comunidade crente e não tanto no mundo (mesmo que um ou outro autor manifeste essa preocupação), em diminuto diálogo com os saberes profanos, com outras visões da educação. Ora, como já dissemos, a Igreja tem uma sabedoria milenar sobre o Homem (para já não falarmos do influxo do Espírito), contributo inestimável para o debate; debate que deve-ria ser não só no interior da Igreja ou com preocupações estritamente pastorais, mas como forma de apresentar a relevância da sua Mensagem e Missão no mundo e para o mundo, desde a sua identidade própria original.

Por isso, talvez tivesse sido academicamente mais oportuno e, porque não dizê-lo também, evangelicamente mais pertinente, dialogar com o mundo e a cultura desde um modo outro de ver as coisas: enriquecedor, dador de sentido, de olhos postos num futuro sempre novo para a tarefa educativa, desde a fé em Cristo Ressuscitado, razão, sentido e fim da nossa esperança. E não tanto insistir em afirmar, mais uma vez, a oportunidade, fundamento e validade de uma educação cristã. O diálogo com os outros saberes não deve redundar apenas no seu uso para justificação das nossas perceções e objetivos. Deve antes ser a atitude de honestidade requerida para se falar com o mundo e ao mundo em nome do Homem. Deste modo, o predicado cristão (incontornável, sem dúvida!) poderia ser postergado em função deste diálogo para concertar esforços no sentido da formação integral do Homem de amanhã. Inspirado em J. Moltmann, diria que, de facto e frequentemente, olhamos demasiado para a nossa identidade e memó-ria e esquecemos a relevância que o Cristianismo deve ter no mundo e na cultura.

Para terminar será oportuno referir que estamos perante úteis interpelações para os especialistas que, na hora que passa, se esforçam por compaginar as orientações da Conferência Episcopal Portuguesa de 2006 sobre o ensino de EMRC, com as pres-crições acerca do paradigma curricular e programático recentemente legisladas pela tutela da Educação. Como já foi dito, educar a inteligência (e a vontade e o coração) deverá, educativamente falando, prevalecer sempre sobre a vinculação a modelos comportamentais, sobre a sugestão de estereótipos moralistas, sobre a tentação da apologética e do proselitismo, de forma acrítica e pouco escolar(izada). Pode pois ser-vir esta obra como pro-vocação à Faculdade de Teologia, para ensaiar a superação das perspetivas pastoralistas e catequéticas e estruturar um discurso sistematizado e coerente sobre EMRC como uma sábia educação, com saber e sabor, escolarmente significa tiva, cientificamente sustentada, culturalmente pertinente, academicamente respeitada e institucionalmente reconhecida, que se confronte honestamente com os outros saberes e contribua eficazmente para a formação integral dos nossos jovens, em clima de liberdade e de pluralismo.

Francisco Guimarães

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DIMAS, Samuel – A metafísica da Saudade em Leonardo Coimbra: Estudo

sobre a presença do mistério e a redenção integral. Lisboa: Universidade

Católica Editora, 2013. 504 p. Investigação.

Esta é a segunda grande obra que o autor dedica a Leonardo, sendo a primeira a Metafísica da Experiência em Leonardo Coimbra. Dedicando-se agora ao tema específico da saudade, oferece-nos mais uma abordagem genuína do pensador por-tuense, aprofundando esta temática como anteriormente ainda não fora feito, embora inspirando-se ou dialogando criticamente com outros comentadores e hermeneutas de Leonardo e filósofos da saudade, como é o caso de Afonso Botelho, António Braz Teixeira, Andrés Torres Queiruga, Paulo Borges, Manuel Cândido Pimentel e Ruiz de la Peña.

A obra, prefaciada por Maria Celeste Natário e Maria de Lurdes Sirgado Ganho, divide-se em duas grandes secções: Parte I – A experiência metafísica da Saudade e a visão gnóstica da origem; Parte II – A experiência metafísico-religiosa do Mistério e a redenção integral.

A primeira parte divide-se em três capítulos: A Alegria matinal da eterna criação; A Dor da queda temporal; A Graça da ação redentora.

A segunda parte igualmente em três capítulos: A experiência-síntese do diálogo entre a fé e a razão no analógico discurso teológico-filosófico do criacionismo; A ple-nitude cósmica da relação entre a liberdade finita dos seres e a liberdade divina da Graça; A imortalidade integral da pessoa.

Os subtítulos dos capítulos, por si só, transmitem-nos o percurso hermenêutico do autor, que em magistral, densa e muito analítica curva interpretativa, parte da

repre-sentação analógica da primeira criação, antes de haver tempo e história, culminando no regresso à verdadeira Unidade da convivência social da Origem de Deus vivo consumando-se na espiritualização dos corpos ressuscitados.

Entre estes alpha e omega desenha-se todo um processo cósmico-ontológico definido pelo criacionismo leonardino, onde a saudade, enquanto puro sentir,

intencio-nalidade do sentimento, ocupa o lugar e a função de autêntico dinamismo metafísico,

o único capaz de conduzir o homem a transpor este percurso, desde a perceção das origens ao reencontro escatológico e unitivo com o Supremo Ser.

Seguindo de perto as palavras e o pensamento do autor, Leonardo trata a saudade como uma via de libertação. Assim, segundo ele, na saudade criacionista, Leonardo Coimbra afirma a contínua e eterna presença criadora da Graça de Deus no desenvol-vimento dinâmico do Universo.

No entanto, a interpretação que o autor faz do pensamento leonardino estabelece um subtil diálogo e contraponto entre uma visão gnóstica e uma visão cristã criacionista da origem e a evolução do Cosmos bem patente no capítulo subintitulado: a noção de

contínua criação dos seres na intemporalidade do Amor de Deus e a noção de queda separatista dos mundos no tempo em que as consciências vivem em saudoso exílio do convívio fraterno do Paraíso Original.

Assim sendo, a saudade é também presença privada do real sentir dos homens do seu sentido pleno, que só a escatológica espiritualização ou glorificação do Universo poderá restaurar com o regresso à condição da comunhão paradisíaca efetivamente

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perdida, que, em vez de significar a vacuidade do fundo sem fundo insubstancial, sig-nifica o Mistério da Relação pessoal.

Embora seja dinamismo de reunificação ontocosmológica, não se poderá negar a matriz antropológica da saudade. Só assim se compreende que o homem, apesar de alienado da presença de Deus em consequência da sua revolta contra a união amorosa primordial, caminhe em exílio no silêncio e solidão da matéria rebelde, e conserve em si, qual marca ontológica, a Saudade do Éden.

É a saudade que preserva na sua consciência e na ordem do Universo a luz origi-nária. Assim, a mesma voz que provocou a expulsão do paraíso nos dispersos mundos físicos é a fonte murmurosa que proporcionará o resgate integral dos exilados com a glorificação da sua existencial realidade corpórea (p. 158).

Deste modo, o percurso saudosista de Leonardo Coimbra apresenta-se distinto do messianismo de Teixeira de Pascoaes ou de Sampaio Bruno, na medida em que, recusando as fórmulas m íticas, imanentes e panteístas da gnose neoplatónica, insere--se na gnosiologia, cosmologia e escatologia de matriz judaico-cristã, fundamentando a sua metafísica da saudade em núcleos da realidade como Amor, Deus, Irracional,

Liberdade, Mistério, Alegria-Criação, Dor-Queda, Graça-Redenção, e nas noções

estruturantes de alma, analogia, relação, presença e memória (p. 129).

Ainda explorando a dimensão e as implicações metafísicas do pensamento de Leonardo, Samuel Dimas define o núcleo e o zénite dos processos gnosiológicos do filósofo portuense como razão mistérica.

Segundo ele, a razão mistérica tem como seu prelúdio e momento introdutivo uma visão mistérica. Isto porque, segundo ele, a origem do interrogar humano e do sentimento da atividade cognoscente, mesmo na mediação psicológica do espanto e admiração existencial, reside no radical plano ontológico, não do abstrato Enigma de ideais considerações herméticas conducente ao absoluto puro ou ausente, mas sim do Mistério da Origem, revelado como Mistério pessoal da Trindade.

Nesta perspetiva metafísica, de inspiração inequivocamente cristã, o mistério trini-tário das pessoas divinas e da criada relação social e espiritual das pessoas humanas, umas com as outras e com o Espírito de Deus, representa o rosto da dádiva do ser e a concreta e viva verdade total da sua Graça: Deus não é o absoluto da abstração filosófica, mas a Vida que se torna presente na Graça sacramental, nomeadamente na Eucaristia, com o fim da universal vitalização da matéria do cosmos e do homem (p. 255).

São pois estes os parâmetros metafísicos que enquadram a saudade que não pode pois ser já entendida como puro sentimento, mas como autêntica porta para o infinito e para o Ser Absoluto que é Deus.

Esta obra amplia assim o âmbito da obra anterior de Samuel Dimas que abordava a metafísica da Experiência. É esta visão global da filosofia leonardina, implicando desde a mais elementar experiência sensível até às intuições metafísicas centradas na experiência da saudade, que o autor nos transmite de modo livre e dialético, mas também sistemático.

Segundo ele, existe um discurso teológico-filosófico em Leonardo que se funda-menta no reconhecimento de que a consciência pessoal encerra uma unidade plural de distintas experiências da realidade, que não se limitam à certeza e objetivação da experimentação sensível.

Ultrapassando o jogo lógico do conceptualismo das conceções formais, essas experiências, que constituem o sentido da experiência humana, integram a experiência

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religiosa no questionamento acerca do Absoluto, concebendo-o como um Tu pes-soal e transcendente que, através de Cristo e da Graça, revela o plano salvífico da humanidade.

É assim, que, em modo de conclusão, o autor afirma que a filosofia em Leonardo Coimbra, enquanto amor da verdade essencial, é metafísica que, antes de ser uma Crítica e uma Teologia Filosófica, se afirma como uma Ontologia do espírito, conside-rando que o cristianismo é um fator de enriquecimento desta metafísica com a noção de

Pessoa divina, superando um vazio deixado pelos idealismos de origem grega (p. 204).

Na continuidade desse helenismo se integra o pensamento de matriz gnóstica, como é o caso de Sampaio Bruno, ou de inspiração simultaneamente mística, panteísta e evolucionista como em Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes.

Algo que de modo algum é exterior ao pensamento de Leonardo Coimbra, mas que na sua curva evolutiva se foi infletindo em direção a uma ontologia do espírito criacionista e cristã.

Samuel Dimas não se exime de explorar o pensamento de Leonardo, que pre-cisamente oscila ou evolui de um idealismo eventualmente com algumas influências gnósticas para uma ontologia integral de matriz criacionista e cristã.

Este tema tão central quanto fraturante do pensamento português de transição do século XIX para o século XX é tratado com a frontalidade de quem não evita tomar posição própria, mas também de quem o faz no âmbito de uma discussão ideográfica plural, aberta à diferença e com elevação na discussão dialética.

Por isto, bem como pelo inquestionável rigor especulativo, é já uma obra incontor-nável no rico acervo crítico e hermenêutico sobre o filósofo portuense.

José Acácio Castro

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LÁZARO PULIDO, Manuel, coord. – El cristianismo en Japón: Ensayos

desde ambas orillas. Cáceres: Instituto Teológico “San Pedro de

Alcántara”, 2011. 148 p. Estudios.

O Instituto Teológico “San Pedro de Alcántara” de Cáceres editou o volume acima referenciado, coordenado por Manuel Lázaro Pulido, que reúne seis textos sobre o cris-tianismo no Japão. A publicação pretende assinalar o 65.º aniversário dos bombardea-mentos atómicos sobre as cidades japonesas de Hiroxima e Nagasáqui, no contexto da II Guerra Mundial. No dizer do coordenador do volume, na introdução ao mesmo, os trabalhos publicados versam sobre «a entrada e perceção dos cristianismo no Japão, a trajetória do cristianismo católico e protestante na ilha do Pacífico e os aspetos antro-pológicos e sociológicos subjacentes a este encontro do cristianismo com as gentes do Japão a partir de uma nova forma de pensar a realidade social do século XXI, que afeta a forma como entendemos o diálogo inter-religioso» (p. 18).

Os primeiros dois trabalhos são de Osami Takizawa, doutor em História Medieval pela Universidade Complutense de Madrid e professor do programa oficial de pós-gra-duação em Ásia Oriental-Estudos japoneses da Faculdade de Filologia da Universidade de Salamanca. O primeiro, sob o título El conocimiento que sobre el Japón tenían los

europeos en los siglos XVI y XVII (I): Japón lugar de evangelización, aborda a imagem

do Japão subjacente aos missionários ocidentais que estiveram naquele território no século XVI e no início do século XVII. O trabalho de Takizawa sintetiza os passos da evangelização quinhentista do Japão às mãos dos padres jesuítas, num contexto de reunificação do território, graças à ação de Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi, num tempo em que o shogun ia pondo termo a uma espécie de feudalismo. De uma conjun-tura globalmente favorável e promissora para o cristianismo japonês, caminhou-se para um ambiente político hostil sobretudo no tempo de Tokugawa Ieyasu, hipotecando as expectativas de fé cristã naquele território. Focando-se sobretudo na imagem que os missionários tinham do Japão, o estudo, depois de individualizar a visão de cada um dos principais missionários (Francisco Xavier, Cosme de Torres, Organtino, Francisco Cabral, Alexandre Valignano), converge sobre o parecer deles sobre algumas áreas da vida nipónica: a sociedade, o idioma, as festividades, os costumes e a vida quotidiana, a economia. Transversal a todos os pontos de análise está uma visão positiva e otimista dos missionários europeus em terras do Japão: «as diferenças que encontraram foram objeto de intenso interesse e admiração, mas não de exclusão e desprezo» (p. 44).

O segundo estudo, do mesmo autor, sob o título El conocimiento que sobre el

Japón tenían los europeos en los siglos XVI y XVII (II): Los japoneses destinatarios de la evangelización, continua a abordagem anterior, centrando-se agora na estrutura

social do Japão à época. Trata primeiramente dos senhores feudais e samurais, refe-rindo-se ao estabelecimento destes e ao código ético de honra do guerreiro (Bushidō) que lhes era próprio, assim como à simbólica que os jesuítas apreenderam dos senho-res feudais, nomeadamente os shogun referidos no texto anterior. A imagem habitual-mente positiva desvaneceu-se à medida que, sobretudo a partir da viragem do século, avançou a severa perseguição aos cristãos. Num segundo momento, Osami Takigawa analisa a ideia que os europeus tinham dos japoneses no que se refere à possibili-dade de êxito da missionação, olhando os diferentes tipos de leigos (os fiéis do povo,

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as mulheres, as crianças) e a perceção da instituição familiar. Na multiplicidade de detalhes que os ocidentais manifestam do Japão, habitualmente bem compreendidos, mantém-se a visão positiva que possuíam dos seus habituantes e da sua organização de vida.

No terceiro trabalho, intitulado Civilización japonesa: La barrera cultural para

la aceptación del cristianismo, Mutsuo Yamada, professor da Graduate School of

Advanced Studies pertencente ao Museu Nacional de Etnologia de Osaca, estuda o cristianismo não já a partir da visão dos missionários, mas dos próprios japoneses, analisando as suas reações num arco temporal mais amplo, que se estende até ao século XX, e procurando compreender os motivos pelos quais um tão longo contacto do Japão com o cristianismo não resultou numa permeabilidade da cultura japonesa à fé cristã, comparativamente com outras civilizações orientais, nomeadamente a coreana: enquanto no Japão o cristianismo no seu conjunto não vai além dos 2% da população, na Coreia do Sul ascende a mais de 30%. Referindo uma «certa xenofobia» (p. 63) relativa-mente à presença estrangeira, pelo facto de o Japão não ter estado sujeito à conquista e dominação externa, Yamada sublinha a inclinação cultural para manter elementos antigos e para selecionar lentamente os elementos novos, recusando o que «muda radicalmente as relações entre os elementos já existentes» (p. 63). Entende também que a conservação da base ecológica do país, nomeadamente os bosques, cuja área atinge 65% do território, ajuda a compreender a permanência da cultura tradicional de base animista, que exige grande familiaridade com a natureza. Nesta cultura animista e agrícola pontifica o princípio “maternal”, de raiz xamanista, enquanto a civilização judaico-cristã se encontra marcada por um princípio “paternal”. O primeiro adota uma atitude integradora e de rejeição do confronto, enquanto o segundo envereda por uma lógica de separação e de aprovação do antagonismo. É certo que o Japão, no decurso da sua história milenar, acolheu outras crenças, nomeadamente o budismo, mas ainda assim de um modo próprio, ao ponto de haver quem pense que a religião dos japone-ses, mais do que o xintoísmo ou o budismo, foi o sincretismo de base animista que os integra. Foi esta cultura de integração que o cristianismo questionou, quando aportou ao Japão no século XVI, apesar dos reconhecidos esforços de respeito e adaptação cultural dos jesuítas, quando os shogun estavam sobretudo interessados nas relações comerciais, mesmo se temporariamente, como aconteceu no início sob Nobunaga, se bem que também tenham fomentado o cristianismo como contraponto ao poder de grupos budistas antagónicos que se impunha combater. Após a expulsão dos cristãos no início do século XVI, que pôs termo à possibilidade do cristianismo no Japão, nova oportunidade surgiu na segunda metade do século XIX, quando o governo, num quadro de abertura ao Ocidente, concedeu liberdade de culto sob pressão externa. O cris-tianismo, nas suas várias denominações, teve inicialmente um período de expansão rápida, a que se seguiu uma etapa de retrocesso coincidente com o fortalecimento da política oficial de veneração do imperador. O progresso das primeiras décadas do século XX favoreceu a difusão do cristianismo, sobretudo protestante, mas também católico, até ao confronto, no fim dos anos 30, com o nacionalismo japonês baseado no xintoísmo estatal, concretizado na obrigatoriedade da visita aos templos xintoístas e na reverência ao palácio imperial, que os cristãos, com dificuldade, foram acatando apenas como expressão de fidelidade à nação. Após a derrota japonesa na II Guerra Mundial e num quadro de tutela norte-americana, o cristianismo teve uma nova opor-tunidade, tanto mais que o expansionismo japonês radicava no xintoísmo estatal, que

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importava abolir. O novo contexto de liberdade religiosa e sobretudo o impulso externo estado-unidense permitiram o crescimento imediato do número de protestantes e cató-licos, mas sem sustentabilidade para as décadas seguintes. Mutsuo Yamada conclui o seu trabalho referindo a continuidade da mentalidade religiosa sincretista e animista dos japoneses e a situação atual do cristianismo no Japão, que, nas suas várias denomi-nações, não chega a 2% da população. Olhando para o futuro, refere que as possibili-dades do cristianismo no Japão dependem das mudanças que possam vir a ocorrer na cultura japonesa e no próprio cristianismo. Este precisará de superar o eurocentrismo e valorizar «a adaptação à cultura local, a independência financeira de fontes estrangei-ras e a autonomia doutrinal e política» (p. 78), consciente de que nada se implanta em território japonês sem sofrer modificações.

Domingos Barbolla Camarero, professor de Antropologia Social na Universidade da Estremadura, intitulou o seu estudo: Japón en una nueva civilización, desde una

primera aproximación al hecho religioso cristiano. Partindo da evangelização jesuítica

do Japão, segundo a lógica da razão, o autor desenvolve um conjunto de reflexões em torno dos conceitos de identidade planetária e de nova civilização, definida como «inter--relação entre as diferentes culturas do planeta, gerando proximidades evidentes que nos permitem falar de um único marco civilizacional para compreender a cultura real da humanidade no início do terceiro milénio» (p. 85). Traçando um cenário que mescla a análise antropológico-social com uma espécie de declaração de intenções para os tempos presentes e vindouros, Barbolla Camarero procura delinear esta identidade pla-netária num quadro de encontro de culturas: «No nosso tempo está a dar-se um passo decisivo: o conhecimento mútuo de todos os povos do planeta, os desafios comuns e a resposta conjunta perante eles; mais do que nunca e de forma substantiva os seres humanos estamos “condenados” a entendermo-nos, e é precisamente esta constatação que nos permite ser maiores, mais fortes perante os desafios de todos, perante o desa-fio que a vida nos impõe para continuarmos a tomar parte nela» (p. 89). Conclui com referências ao papel da religião neste novo quadro civilizacional, estabelecendo laços entre o Japão do século XXI e o espírito jesuítico do século XVI. Focalizando-se o texto na dita nova civilização, cremos que o autor poderia ter clarificado melhor a relação do quadro teórico apresentado com a cristianização do Japão no século XVI e com as vir-tualidades do cristianismo no quadro civilizacional contemporâneo, também no âmbito japonês, mesmo concordando nós que, pela lógica da razão e pelo conceito de criação, pode favorecer uma consciência de espécie comum.

Manuel Lázaro Pulido, investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto e professor de Filosofia no Instituto Teológico da diocese de Coria-Cáceres que edita esta obra, escreve sobre Japón-cristianismo: dos lógicas diferenciadas,

un mesmo ser humano. Diálogo inter-religioso en la nueva civilización del siglo XXI.

Retomando os conceitos de nova civilização e identidade planetária, o autor propõe uma viagem pela cultura japonesa na sua relação com a cultura ocidental e o cristia-nismo, afirmando a convergência de dois mundos distintos num mesmo ser humano. Subjacente às lógicas diferenciadas do Oriente e do Ocidente, há uma pergunta essen-cial – a pergunta acerca do sentido do homem que vive no mundo – a que cada lógica responde de modo diferente. O homem partilha, porém, de uma sabedoria ou de uma lógica que lhe permite perguntar-se pelo seu ser. Trata-se de uma identidade comum a todo o ser humano. Reconhecendo a diversidade das respostas, o estudo refere que «as diferenças não constituem divergências, mas são importantes para evitar a

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homogeneização, no terreno identitário, pessoal, social, cultural e religioso» (p. 101). A cultura japonesa, estando muito arraigada nas suas raízes longínquas, não deixa de ser permeável ao que chega do exterior como o exprime a adoção da grafia chinesa, adap-tada a seu jeito. Metáfora do encontro pode também ser o caraté com os elementos religiosos que lhe são próprios. Para clarificar esta metáfora, o autor faz um conjunto de observações sobre a religião como experiência comum, apresenta as várias religiões subjacentes ao caraté (a religião de Okinawa, o xintoísmo, o budismo, o budismo-zen, o taoismo) e alude aos princípios que regem a lógica do encontro no karaté, a partir do pensamento do mestre G. Funakoshi. Regressando à nova civilização, Lázaro Pulido entende que a vivência do cristianismo no Japão pode servir a identidade comum do homem: «O Evangelho pode ser lugar de encontro do homem japonês face aos seus novos desafios, que nascem da própria modernização da sua economia, mais do que da dificuldade histórica de mentalidade, numa sociedade adaptada às mudanças e às leituras» (p. 127).

O livro encerra com um breve texto de Miguel Ángel Aragón Moreno, presbítero da diocese de Cuenca e membro do Instituto Espanhol de Missões Estrangeiras, com uma presença missionária de 13 anos no Japão. Intitulado Clave s de la misión (ad

gen-tes) para nuestro momento actual, em torno a Francisco Javier, o seu texto apresenta

um registo diferente dos anteriores, com menos preocupações científicas e com um pendor mais exortativo, a partir da realidade vivida e perspetivada, quer para o Japão, quer para o Ocidente. Reconhecendo que o paradigma missionário atual é diverso do do tempo de Francisco Xavier, em que pontificava a conquista de almas para Cristo e se apreciava menos a cultura e religiosidade do território, identifica ainda assim algu-mas atitudes daquele missionário a ter em conta na pastoral eclesial: a confiança e a perseverança; o esforço por entrar em contacto com as gentes, fazendo-se entender na sua língua; o amor compassivo aos mais pequenos, doentes e pobres, tendo em conta a necessária ligação entre o compromisso com os pobres e a fé em Jesus. Entende que a figura de Francisco Xavier pode ser simultaneamente apelo ao não esquecimento da Ásia como lugar de evangelização e convite a olhar a nossa realidade eclesial e a nossa prática pastoral com um sentido missionário.

Estamos diante de uma obra que, sem pretender esgotar a temática, reúne um conjunto de contributos de valor sobre o cristianismo japonês, a partir de diferentes perspetivas de abordagem. Se os primeiros três trabalhos enveredam por uma angula-tura historiográfica, muito enriquecedora, porque resulta do conhecimento do terreno e das fontes missionárias e locais, os restantes abordam o cristianismo japonês a partir da antropologia social, da filosofia/teologia e da própria prática pastoral e missionária, abrindo para intuições e conclusões mais abrangentes e não necessariamente restritas ao cristianismo japonês. Para quem, por formação, se abeirou da obra essencialmente com um interesse historiográfico, como é o nosso caso, leu com muito interesse os tex-tos de Osami Takizawa e encontrou no estudo de Mutsuo Yamada uma excelente opor-tunidade para melhor conhecer o cristianismo japonês do século XVI até ao presente e assim compreender as dificuldades com que o cristianismo se debateu. Mas quem se abeirar da obra com centros de interesse mais voltados para o presente, nomeada-mente no que se refere ao encontro de culturas, ao diálogo inter-religioso, à evangeliza-ção, também se poderá sentir bem compensado e correspondido.

Adélio Fernando Abreu

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PINHO, Alexandrino Augusto Ribeiro Gomes de – Direito Natural Clássico

e Justiça em Santo Tomás de Aquino: Direito Natural, Justiça e Prudência.

Juiz de Fora: Mosteiro de Santa Cruz, 2010. 268 p.

Nesta obra do Doutor Alexandrino A. de Pinho, Direito Natural Clássico e Justiça

em São Tomás de Aquino é-nos apresentada de modo sistemático uma abordagem da

clássica temática do Direito Natural e das suas consequentes elações para a Justiça. O autor, nesta edição do próprio, diz-nos ser graduado em Filosofia, Teologia e Direito, tendo duas especializações em Teologia Catequética e Ciências das Religiões, mestrado em Filosofia e doutoramento em Ciências Jurídicas e Sociais.

Este livro está dividido em três grandes partes que, de modo bem elaborado, nos conduzem por um fio de pensamento orientado para a questão principal desta obra, a questão do Direito Natural e da Justiça num marco incontornável da teologia e filosofia escolástica: São Tomas de Aquino. Numa primeira parte, apresenta uma sistematiza-ção do Direito Natural na escolástica apresentando uma cosmovisão, a antropologia precedente à escolástica, a antropologia tomista e a questão primeira desta obra, o direito natural. Numa segunda parte e corpo principal deste livro, o autor apresenta a conceção de Direito Natural Clássico, primeiramente em São Tomás, e depois analisa a relação entre Direito e Justiça. Por fim apresenta, numa última parte, uma axiologia no direito natural clássico. Neste último bloco, mais filosófico, é-nos apresentada uma abor-dagem entre o antropocentrismo e o teocentrismo, uma dialética da lei natural, algumas grandes questões do direito natural e um capítulo sobre a virtude da prudência. O autor dá-nos também um interessante conjunto de anexos onde sistematiza alguns conceitos filosóficos, apresentando-os de modo esquemático e de fácil compreensão.

Pessoalmente considero que o autor faz uma boa apresentação da questão que se propõe, de modo sistemático. Apresenta algumas afirmações que são passíveis de uma futura discussão e abre portas para um profícuo debate sobre o jusnaturalismo numa sociedade ainda muito marcada pelo positivismo. Com o final da II Guerra Mundial e os atropelos nela cometidos, houve necessidade de uma séria mudança de conceção filosófica do direito, do positivismo para o jusnaturalismo. Contudo, o direito natural continua com uma grande resistência que se deve em grande parte à visão escolástica e tomista onde a antropologia vigente assenta na visão crente do Homem (antropologia teológica). Numa sociedade plural onde os direitos dos Homens assentam em catá-logos de direitos fundamentais, é sempre necessário saber de onde emanam esses mesmos direitos. O Doutor A. de Pinho dá-nos a possibilidade de ter em mãos um compêndio para uma primeira abordagem sistemática da questão do direito natural e da justiça em São Tomás de Aquino.

João Pedro Bizarro

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PINTO, Ana Paula et al., org. – Mithos e Heróis: A expressão do imaginário.

Braga: Publicações da Faculdade de Filosofi a, Universidade Católica

Portuguesa, 2012. 672 p.

Esta publicação surge no âmbito de uma Linha de Investigação dos Estudos Interdisciplinares do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos da Faculdade de Filosofia, em Braga, da Universidade Católica Portuguesa, que, no intuito de «promover e estimular uma reflexão crítica» em torno do imaginário mítico da Antiguidade Clássica na Literatura e na Cultura Ocidentais, deu à estampa esta publicação, resultante de um Colóquio realizado em 2010.

Como referem os organizadores na Nota Prévia, o presente volume «reúne estu-dos de investigadores e conceituaestu-dos especialistas em Estuestu-dos Clássicos, Literatura, Filosofia, Psicologia, História e Estudos Artísticos e Culturais, de mais de vinte institui-ções académicas». O tema central, que aglutina os contributos dos diversos interve-nientes neste Colóquio, foca-se num dos legados mais importantes da nossa identidade e matriz cultural: o Mito. Na verdade, o célebre historiador grego Heródoto, do século V a. C., afirmava sobre Esopo que ele era um exímio produtor de fábulas (logopoios). Já Sócrates, no diálogo Fédon 61 b, se define como alguém que não é um fazedor de mitos (poiein muthos […] autos ouk ê muthologikós).

Todavia, é pela mesma boca de Sócrates que se lê que a força do logos que o muthos contém não deixa de expressar a sua mais elevada função de racionali-dade, por meio do exame racional (diaskopein) e da narrativa mítica (muthologein). Assistimos, portanto, no divino Platão, a uma dupla utilização do mito, ora como fim último e inesgotável do termo de uma disputa dialética e racional, ora como princípio que instiga o início de uma investigação racional e suprarracional. Por isso se pode dizer que as narrativas míticas permitem que «através delas aprendemos a ouvir o inau-dível, a dizer o indizível, e a incorporar no silêncio da nossa perplexidade a explicação do inexplicável».

A obra está dividida em três secções: A. Mitos e heróis; B. Mito e literatura; C. Outras expressões míticas. A primeira secção apresenta seis estudos que se con-sagram, na sua maioria, a explorar a ideia de herói enquanto «modelo de humanidade» que se reinventa em vários momentos da nossa história cultural europeia, mormente, a literária. Daí que os estudos concentrados nesta primeira secção explorem, signi-ficativamente, alguns dos mitos mais representativos, reinterpretando o modelo de herói sobejamente polifacetado, nas diversas narrativas míticas e poéticas. O primeiro estudo abre este leque de amplas reflexões, tomando como mote o mito hesiódico das cinco raças que, enquanto interpretação de «uma progressiva deterioração do género humano» (p. 19), serve de modelo para a descrição, aqui tentada, de uma «evolução temática» do «herói» clássico. Na sequência desta perspetiva, os estudos seguin-tes exploram amplamente a significação particular de certas figuras da epopeia da Antiguidade greco-latina, reutilizadas e recriadas na «tradição literária posterior», como por exemplo, o mito de Dédalo e Ícaro, nalguns escritores da Literatura portuguesa (p. 33), ou o mito de Fausto na Literatura alemã (p. 63). O funcionamento político do mito é objeto de avaliação na figura de Licurgo, enquanto criador mítico da constituição espar-tana (p. 51), dando-se, de seguida, a uma exploração semântica e histórica na busca de

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«novos horizontes, buscando riquezas» que redescobrem o «mito clássico sempre fiel companheiro dos descobridores» (p. 84).

A segunda seção, dedicada ao Mito e literatura, está dividida em três épo-cas: 1. Época Clássica; 2. Época Medieval e Renascentista; 3. Época Moderna e Contemporânea. Contabilizam-se trinta e nove estudos, distribuídos pelas três épocas. Na época clássica concentram-se os estudos dedicados a diversas figuras mais repre-sentativas de algumas das obras da Antiguidade clássica grega. O mito na Literatura foi, e será sempre, uma fecunda realização. Os modelos da mitologia grega são ines-gotáveis, tal como se lê nestes onze estudos que analisam a narrativa mítica, através das diversas personagens heroicas da época clássica, como por exemplo, os pares heroicos: Agamémnon-Orestes, Odisseu-Telémaco e Héracles-Hilos, enquanto figu-ras de construção identitária de Pai-Filho, ou a Odisseia de Homero, enquanto modelo representativo de uma narrativa que inaugura a «criação do homem ocidental em busca de si mesmo». Por isso, este mito pode ser entendido como um «mito fundador da civili-zação helénica […] que interpela o homem do século XXI» (p. 115). Já a figura do herói Aquiles, ou a figura singular de Hércules, o «herói falhado», ou ainda a do herói Teléfo, na comédia de Aristófanes Acarnanses, e como «paródia da tragédia de Eurípedes» (p. 223), completam o quadro de análise destes heróis. Mas a mitologia não se confina a uma simples antropomorfização dos deuses gregos e à sua ampla simbolização e sobrevalorização, mesclando ações humanas e divinas. Também fazem parte do ‘herói’ alguns elementos metafóricos do mundo animal, que determinadas personagens trans-figuram. A figura da mulher é também outro tema aflorado num destes estudos, dando lugar a uma reflexão que intenta verificar como, no modelo espartano, a influência das mulheres na vida de Esparta pode ser entendida «entre o mito, a idealização literária e a realidade histórica» (p. 140). É sob o signo da ‘história’ que os mitos e os heróis nas

Historias de Heródoto nos revelam, para além dos aspetos da história e da cultura dos

diferentes povos e civilizações, a reprodução de algumas das lendas etiológicas (180). O segundo período recobre a época medieval. Encontramos aqui dozes estu-dos consagraestu-dos a uma análise textual, intertextual e construtiva sobre a presença do modelo heroico e mítico, no período medieval e renascentista, recriado na Literatura, na Hagiografia, na Historiografia e na Dramaturgia. Pode-se assim falar de «ressurgências míticas» e «transformações do modelo heróico» no século XII, através do romance, da poesia e das canções de gesta, em que se recriam novos mitos e novos paradigmas narrativos (p. 232). Um dos estudos faz uma explanação pontual e com uma compara-ção dos loci communes entre a obra de Dante e a sua presença na obra de Camões, como um dos motivos fundamentais para se perceber a referência na Odisseia Lusitana (253). Um outro estudo dedica-se ao estudo da história de Dido na obra de Afonso X, Estoria de España. Os aspetos míticos e lendários desta «magnífica personagem feminina» revelam ser intrigantes e sugestivos para a compreensão da obra, quando se procura entender «a que pretexto a história da princesa fenícia, que fundou Cartago e que nunca esteve em Espanha vem integrar esta compilação» (p. 271). Os restantes estudos afloram «Os exempla e a promoção de um ideal de perfeição» na tradição humanista renascentista que se inspira do modelo clássico; já o estudo sobre os «mitos do individualismo» explora o mito de Dom Juan, através da criação da peça de Tirso de Molina, que incorpora diversos heróis greco-latinos (p. 311). Outros estudos ainda ava-liam a construção de um herói no discurso hagiográfico, a partir da Vita de S. Fructuosi, e um outro procura descobrir o interesse da biografia de S. Millan de La Cogolla, cuja

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obra foi composta no século XIII e reconstrói uma nova versão da biografia do Santo (VSM), de modo a especificar um determinado modelo hagiográfico e heroico. Por último, encontramos um estudo que apresenta uma leitura hermenêutica do Auto da

Barca de Gil Vicente, comparando-o com a Auto da Compadecida de Ariano Suassuna,

sob o plano da perspetiva do imaginário (p. 359).

O terceiro período recobre a época moderna e contemporânea. Apresenta dezas-seis estudos que, tendo sempre como mote principal o mito e a sua presença na obra criadora, percorre, nos mais variados escritores da época moderna e contemporânea, as transfigurações possíveis do elemento mítico. Os estudos sucedem-se percorrendo uma longa trajetória literária e poética da nossa época contemporânea. Assim, e não podendo ser aqui tão exaustivos quanto desejaríamos, podemos apenas enunciar alguns deles: «A interpretação pós-moderna do mito sebástico», em Almeida de Faria, as «fulgurações» do mito de Orfeu, em António Lobo Antunes e em Maurice Blanchot, o mito de D. João na obra «Fábula Mágica» de António Patrício e a «persistência do arquétipo do herói» na poesia de António de Andrade, através do exemplo da viagem e do mar (p. 463). Já na obra de Lídia Jorge A Costa dos Murmúrios se explora a figura de Medeia e de Helena de Troia. Revistando uma vez mais o mito de Ulisses, surge-nos o estudo que procura desvendar esta figura na obra Os Passos em Volta de Herberto Helder. Termina esta longa secção uma análise da figura de Vénus na obra queirosiana. A terceira e última seção é dedicada a uma enunciação da presença significativa das diversas figuras míticas, nas mais variadas expressões criativas, como por exem-plo, a pintura, a coreografia e a numismática. Outros estudos avaliam o espaço urbano e citadino como fonte coletora e dinâmica do lendário e do mítico (p. 600). A perspetiva que se patenteia no estudo «depois do mito, a tecnologia» retoma a ideia defendida por Northrop Frye que, a respeito da ficção científica, afirma que ela é «a mode of romance with a strong tendency to myth» na medida em que configura e restitui ao mito a sua força inesgotável de transfiguração, que o pensamento de Ricoeur tão sabiamente soube explorar, quando define a narrativa (muthos) «enquanto atividade configuradora, recriadora e sobressignificadora da ação temporal do homem» (p. 667).

Esta obra condensa um vasto e amplo estudo sobre o mito e os seus heróis num horizonte alargado, mas permitindo, simultaneamente, análises bem determinadas, no âmbito da Antiguidade greco-l atina clássica. A área que mais bem representada está neste volume é a literária. Todavia, outras abordagens, em particular, o domínio da Filosofia, poderiam ter sido mais bem evidenciadas. Por tudo isto, é uma obra que se aconselha vivamente a ler.

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Maria Manuela Brito Martins

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PUIG I TÀRRECH, Armand – L’Esperit Sant en la Bíblia. Catalunya: Abadia

de Montserrat, 2013. 441 p. Scripta Biblica; 13.

A Associação Bíblica da Catalunha, desde janeiro do presente ano, coloca à dis-posição do público o número 13 da coleção Scripta Biblica, intitulado L’Espirit Sant en

la Bíblia. Fruto do trabalho executado pelos exegetas desta associação, ao longo de

dois cursos (2010-2011 e 2011-2012), este volume debruça-se sobre uma temática deli-cada e, ao mesmo tempo, desafiante da Sagrada Escritura, ao longo de 365 páginas, num total de dezassete artigos.

Tal como nos sugere o título do referido volume, procurando interpretar a noção de Espírito Divino, consoante os diversos ambientes textuais e históricos, esta obra apresenta-nos uma leitura sagaz e abrangente, que transvasa a própria Bíblia, reme-tendo para outros ambientes textuais, como o Targum, o apócrifo de Henoc ou os textos de Fílon de Alexandria.

Por um lado, realça-se o carácter plural e pluriforme da presença do Espírito no Antigo Testamento, cujo discurso se vai solidificando a partir da linguagem apocalíp-tica, que surge na Teologia Judia a partir do Segundo Templo e que aplica, pela pri-meira vez, a noção de espírito às forças malignas do mundo. Por outro lado, destaca-se a autoridade de Jesus perante as forças do mal e a afirmação da presença plena do Espírito Santo, na ação e na pregação de Jesus, que se prolonga na ação e pregação da Igreja, cuja pneumatologia só se pode entender a partir da afirmação do carácter plenamente pessoal do Espírito.

Ora, se o reputado teólogo Frei Antonio Royo Marin, em 1972, na famosa obra

El gran Desconocido: El Espiritu Santo e sus dones, afirmava que a falta de

publica-ções sobre o Espírito Santo era um dos motivos para o desconhecimento generalizado acerca da Terceira Pessoa da Trindade, que se verificava – e verifica – na maioria dos fiéis, a verdade é que, desde então, o número de obras publicadas sobre um tal tema, e com variados matizes, aumentou exponencialmente. Porém, permanecia in albis uma abordagem a partir dos textos e contextos bíblicos, que este volume pretende agora colmatar, ainda que se apresente em catalão, e que se oferece aos estudiosos da exe-gese bíblica e aos leitores mais interessados sobre tais matérias.

Bernardo Corrêa d’Almeida

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ROCHA, Afonso – Fernando Pessoa e o Quinto Império. Porto: Universidade

Católica Editora, 2012. 2 vols. 612 p. + 436 p.

Teria eu 12 ou 13 anos de idade (talvez em 1951) quando tomei conhecimento da existência do poeta Fernando Pessoa. Frequentava, em Vila Viçosa, o 1.º ou 2.º ano do Seminário Menor na vila calipolense, a terra natal de Florbela, e ia aprendendo português – o que nos ensinavam e o que ia aprendendo livremente por mim próprio. Não nos ensinavam (ainda) literatura, mas eu estudava um pouco de literatura, infor-mando-me sobre os escritores que me impressionavam. Fazia-o consultando a obra

A Língua e a Literatura Portuguesa: História e crítica, de Arlindo Ribeiro da Cunha,

que alguém me facultara. Foi lá que encontrei a referência a Fernando Pessoa, com informação que fez nascer em mim o interesse pelo poeta. Poemas, poemas..., só li os primeiros no outono de 1954, já saído de Vila Viçosa e estudante no Colégio de Ponte de Sor, quando o pai de uma colega me ofereceu a pequena antologia editada pela Confluência, volume organizado por Adolfo Casais Monteiro. Foi um deslumbramento. Interminável, perene deslumbramento.

Talvez um ano não fosse tempo de mais para fazer a recensão adequada de

Fernando Pessoa e o Quinto Império. Isto que tenho à minha frente não é um livro;

é uma obra. Aprendi a distinguir com Ruy Bello. Por acaso os volumes são dois; mas podia ser só um e o todo não deixava de ser uma obra. Pela substância, pela extensão, pela estrutura, pela complexidade, pela fundamentação científica, pelo alcance e pro-fundidade da mensagem transmitida: no plano material ou hílico, no plano anímico ou psíquico, no plano espiritual ou pneumático – para recorrer a vocábulos e conceitos da filosofia gnóstica, tão ao gosto do Doutor Afonso Rocha. E ao meu – posso acrescentar.

Parece-me a mim que um livro só merece o estatuto de obra quando o mundo que instaura, a pulsação que o ritma, o telos ou finalidade que o orienta, a autoridade que o alicerça, o horizonte que o circunscreve, a intencionalidade que o move – tudo isso eixo a eixo e tudo isso na sua unidade ontológica – impõem a presença da qualidade magna. Encontro tudo isso neste livro duplo, em duas partes ou volumes, e reconheço estar perante uma obra.

Fernando Pessoa e o Quinto Império – que significa este “e”? Que há uma relação

fundamental entre Fernando Pessoa (tudo o que este nome possa ter dentro de si) e o Quinto Império (o Quinto Império enquanto conceção de Fernando Pessoa); ou o

Quinto Império é expressão que designa aqui o Quinto Império propriamente dito,

aquela entidade ontologicamente exterior e transcendente a Fernando Pessoa, enti-dade de que ele procura(ou) captar ou construir a (sua) conceção?

Eu gosto que a apresentação de um livro, ou de uma obra, seja revelada ontica-mente no objeto que é. No caso presente, logo a capa dá que olhar e dá que pensar. Sobre fundo branco, destaca-se o título da obra, o número do volume, o nome do autor, o nome da editora e a representação da figura de Fernando Pessoa, como se vivo e pre-sente ali estivesse, caminhando no espaço projetado pelo chapéu, de grande dimensão – um chapéu de que me lembro na memória da minha infância –, que acima e sobre a cabeça o segue, acompanha e protege, numa ligação física e espiritual que inclui o corpo na sua totalidade, privilegiadamente a cabeça, e com destaque para os braços e as mãos – a direita livre e disponível para escrever e falar consigo mesmo, na orquestra

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ortonímica e heteronímica da sua personalidade, no papel que na mão esquerda reco-lherá as palavras-frutos dessa conversa. A obra deve começar a ser lida ali.

E deve ser acabada de ler na contracapa. Nesta deparamos com dois textos distin-tos, que também podem ser lidos com um “e” copulativo. O primeiro texto informa sobre

Fernando Pessoa e o Quinto Império; o segundo, sobre o autor da obra, Afonso Rocha.

O que o autor aqui informa sobre o conteúdo da obra é extraordinariamente importante. Dessa informação destacarei apenas dois ou três pontos. Afonso Rocha sabe que o seu estudo é uma contribuição real «para um conhecimento alargado do pensamento de Fernando Pessoa». Do pensamento, não exatamente da obra literária, poética ou em prosa. Lemos: «[…] este estudo constitui a demonstração de que Fernando Pessoa, a par do artista e do poeta, foi um verdadeiro pensador e filósofo […]». A par dos maiores que Portugal já teve. O autor o afirma: «[…] um verdadeiro pensador e filósofo, e que o terá sido eventualmente com a elevação das maiores figuras do pensamento filosófico português dos séculos XIX e XX, nomeadamente Pedro de Amorim Viana, Antero de Quental, Sampaio (Bruno), Leonardo Coimbra, José Marinho». Todas estas afirmações se estribam na análise feita ao longo de todo o Volume I, que é o alicerce do Volume II, que portanto se erguerá sobre ele. Neste, «com base numa conceção mítico-simbólica, [Fernando Pessoa] subsume, por um lado, que “Portugal” é “Quinto Império”,e, por outro lado, que o “Quinto Império” de Portugal (“Quinto Império do Mundo”) é figura ou sacramento da religião universal que a humanidade é chamada a adotar em substituição do cristianismo católico e de toda e qualquer religião de teor institucional ou organi-zado». Espero que tenhamos ouvido bem. Eu conheço razoavelmente, para não dizer que conheço bem, a personalidade de Afonso Rocha. Ele não fala cripticamente para intérpretes sofisticados, ele fala para o leitor racional comum. O que diz é o que pode confiadamente ser ouvido. Não diz A para interpretarmos B, não diz B para interpretar-mos A. O que diz é o que deve ser ouvido, o que escreve é o que deve ser lido.

Dito isto, impõe-se-me chamar a atenção para a grandeza, nobreza, verdade e abertura da atitude e comportamento da Universidade Católica Portuguesa, cuja Editora-Porto decidiu publicar esta obra, em vez de dissuadir o autor de a ver editada ou, no mínimo, de não ser ela a editá-la. É um grande gesto, é uma exemplar postura.

O louvor que estas minhas palavras modestamente representam acaba por recair também sobre o autor da obra, Afonso Rocha. Quem é ele? É licenciado em Teologia, mestre em Antropologia Teológica e doutor em Filosofia, é investigador/professor da Universidade Católica Portuguesa no Porto. Ou seja: a sua formação é integralmente católica, tal como a sua inserção profissional como docente e investigador. Católica é de igual modo a atmosfera filosófica nuclear da sua obra, na qual se incluem sinais de interesse investigativo sobre a gnose.

Estamos perante uma obra de grande envergadura, consistência e solidez. Para a necessária brevidade de uma apresentação, parece-me que o melhor é dar a pala-vra ao próprio autor. Como ninguém, ele sabe o que fez, o edifício que longamente construiu com os imensos materiais que para o efeito reuniu e recolheu. Diz-nos, na Introdução: «[…] o presente estudo, sob o título Fernando Pessoa e o Quinto Império, desenvolvido no âmbito do plano de investigação do Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica do Porto, restringindo o corpus da sua pesquisa e análise às obras e escritos, em prosa e em verso, do Pessoa “ortónimo”, propor--se-á estudar a natureza, as perspetivas e as eventuais referências do messianismo do Quinto Império de Fernando Pessoa no quadro do pensamento filosófico do autor,

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muito designadamente de âmbito metafísico, gnosiológico, antropológico, estético, ético-moral, religioso-esotérico e político-messiânico» (Volume I, p. 16 ).

Para o efeito, mover-se-á

«no desenvolvimento da seguinte estrutura temática:

Parte primeira – “Fernando Pessoa: ortonímia e heteronímia […]”. Parte segunda – “O pensamento filosófico de Fernando Pessoa […]”. Parte terceira – “Fernando Pessoa e a filosofia da religião […]”.

Parte quarta – “O messianismo do Quinto Império de Fernando Pessoa […]”. Parte quinta – “A interlocução do Quinto Império de Fernando Pessoa […]”» (Volume I, pp.16-18).

Curiosamente, temos de constatar que esta estrutura é ela mesma quinária, como se obra musical fosse, escrita num compasso de cinco tempos, dividido internamente em três tempos mais dois, um compasso ternário mais um compasso binário, fechando com o último tempo deste, ou seja, o quinto tempo do compasso quinário. É a estrutura quinto-imperial. Eis como o autor explica o fecho da peça, ou seja, como organiza inter-namente o tempo do compasso final. Lemos: a Parte quinta, «desdobrada nos capítulos “O Quinto Império na conceção messiânica de Fernando Pessoa e do Padre António Vieira” e “O Quinto Império de Fernando Pessoa e o ‘misticismo idealista’ de Sampaio (Bruno)”, procederá, finalmente, à explicitação da eventual interlocução que Pessoa pode ter estabelecido com outras conceções para formular a sua conceção messiâ-nica do Quinto Império, nomeadamente com as do Padre António Vieira, de Sampaio (Bruno) e de Pascoaes» (Ib., p. 18).

Afonso Rocha sabe que não está sozinho, que integra um vasto colégio de estu-diosos, investigadores e editores de Fernando Pessoa. O Índice onomástico, que se estende e distende pelos dois volumes, ajustando-se a cada um, atingindo a extensão total de dez páginas, fornece-nos de forma clara o elenco das suas referências, desse modo sistematizando as referências exaustivas e muitas vezes extensas das notas, de pé de página ou inseridas no texto próprio. A Bibliografia, apresentada no Volume II, é exaustiva e vê-se que foi laboriosa e cuidadosamente trabalhada pelo autor.

A sua gratidão e honestidade encontram expressiva confirmação no parágrafo derradeiro da Introdução. A sua obra é rigorosamente objetiva e isenta, não se des-cortinando uma palavra menos amável seja para quem for e procurando ser integral-mente fiel ao pensador de cujo estudo – difícil, complexo e aliciante – se ocupa. Eis o que lemos no último parágrafo da Introdução: «Finalmente, pondo-se termo a esta introdução, cumprirá exprimir uma palavra de reconhecimento, e mesmo de homena-gem, a todos quantos, especialistas e editores, se têm dedicado ao ingente trabalho de publicação do espólio de Fernando Pessoa, muito designadamente à equipa de M. Aliete Galhoz e à Nova Aguilar, à equipa de J. Serrão e à Ática, a J. Augusto Seabra e à Archivos/Fundação Eng.º António de Almeida, à equipa de T. Rita Lopes e à Assírio & Alvim, à equipa de Ivo Castro e à INCM. Sem o seu contributo, este estudo pura e simplesmente não teria sido possível...». (Ib., p. 18).

Na análise de Afonso Rocha, compreendendo toda a sua larga e longa investiga-ção, o interlocutor decisivo de Fernando Pessoa, relativamente à questão do Quinto Império, é Sampaio (Bruno). Sintetizando a sua posição final sobre os interlocutores Padre António Vieira e Sampaio (Bruno), pronuncia-se assim: «Pessoa está interessado

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Referências

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