MICROECONOMIA 2
Departamento de Economia, Universidade de Bras´ılia
Notas de Aula 1 – Gradua¸c˜
ao
Prof. Jos´
e Guilherme de Lara Resende
1
Equil´ıbrio Geral com Trocas
1.1
Introdu¸
c˜
ao
Na teoria de equil´ıbrio parcial, estudamos o funcionamento do mercado de um bem isoladamente. Agora vamos estudar o funcionamento de uma economia como um todo. De modo geral, a demanda e a oferta de um bem dependem n˜ao somente do pre¸co deste bem, mas tamb´em dos pre¸cos de outros bens da economia. Essa rela¸c˜ao de dependˆencia entre os mercados torna o estudo de uma economia mais complicado. Esse estudo ´e chamado equil´ıbrio geral.
A ideia da m˜ao invis´ıvel de Adam Smith pode ser interpretada como uma sociedade formada por indiv´ıduos com interesses pr´oprios interagindo por meio de trocas de bens e servi¸cos leva a uma situa¸c˜ao de equil´ıbrio eficiente:
“Every individual...generally, indeed, neither intends to promote the public interest, nor knows how much he is promoting it. By preferring the support of domestic to that of foreign industry he intends only his own security; and by directing that industry in such a manner as its produce may be of the greatest value, he intends only his own gain, and he is in this, as in many other cases, led by an invisible hand to promote an end which was no part of his intention” (Adam Smith, A riqueza das Na¸c˜oes, Livro IV, Cap´ıtulo II, p. 477).
Veremos que essa ideia est´a relacionada ao conceito de eficiˆencia de Pareto e ao Primeiro Teorema do Bem-estar.
Outras quest˜oes importantes com rela¸c˜ao a este t´opico s˜ao: • Defini¸c˜ao: o que ´e um equil´ıbrio.
• Existˆencia: sob que condi¸c˜oes podemos garantir que um equil´ıbrio existe. • Unicidade: sob que condi¸c˜oes o equil´ıbrio ser´a ´unico.
• Estabilidade: desvios do equil´ıbrio tendem ao equil´ıbrio ou n˜ao.
Walras no final do s´eculo XIX argumentou a existˆencia de equil´ıbrio nos moldes de demanda igual `a oferta. Por´em h´a um erro na argumenta¸c˜ao de Walras. Esse erro foi apontado e corrigido por Wald em 1935, que provou a existˆencia de equil´ıbrio sob condi¸c˜oes bastante restritivas (utilidades separ´aveis, utilidade marginal decrescente para todos os bens, etc). Debreu e Arrow (1954) e McKenzie (1954) provaram a existˆencia de equil´ıbrio em um mercado competitivo, sob condi¸c˜oes bem mais gerais do que as de Wald.
A hip´otese fundamental no estudo de equil´ıbrio geral ´e a de mercados competitivos. Isso implica que os agentes da economia (consumidores e firmas) s˜ao tomadores de pre¸cos.
Hip´oteses Comportamentais. A hip´otese de mercados competitivos pode ser posta como: 1. Para cada bem, existe um grande n´umero de firmas e consumidores atuando no seu mercado; 2. Consumidores maximizam a utilidade, sujeita `a restri¸c˜ao or¸cament´aria, onde tomam os pre¸cos
dos bens como dados;
3. Firmas maximizam lucros, dada a sua tecnologia e tomando os pre¸cos dos insumos e dos bens produzidos como dados.
Outras hip´oteses importantes s˜ao referentes a ausˆencias de: 1. Custos de transa¸c˜ao,
2. Externalidades, 3. Bens p´ublicos,
4. Problemas de informa¸c˜ao.
Vamos supor nesta se¸c˜ao que n˜ao exista um mercado formal (ou seja, que n˜ao exista um sistema de pre¸cos). Logo, todas as intera¸c˜oes entre os diversos agentes da economia s˜ao realizadas por meio de trocas volunt´arias (“barter economy”).
Tamb´em n˜ao lidaremos neste momento com a quest˜ao de produ¸c˜ao. Cada indiv´ıduo da economia recebe uma dota¸c˜ao inicial de bens. Vamos representar pelo vetor ei ∈ Rn
+ a dota¸c˜ao inicial dos n
bens do consumidor i, i = 1, . . . , I.
O caso de dois indiv´ıduos e dois bens, I = 2 (nesse caso vamos representar os dois consumidores por A e B, para facilitar a nota¸c˜ao) e n = 2, pode ser analisado graficamente por meio da caixa de Edgeworth.
A dota¸c˜ao total de uma economia, eT, ´e a soma das dota¸c˜oes iniciais dos indiv´ıduos da economia.
No caso de dois consumidores e dois bens, temos que eT = eA+ eB, onde ei = (ei1, ei2), i = A, B. Defini¸c˜ao: Caixa de Edgeworth. A caixa de Edgeworth ´e uma representa¸c˜ao gr´afica dessa economia, onde cada ponto da caixa possui quatro coordenadas, duas referentes ao indiv´ıduo A e duas referentes ao indiv´ıduo B.
A dimens˜ao (o tamanho) da caixa ´e definida pela dota¸c˜ao total de bens na economia. Um ponto na caixa representa uma poss´ıvel distribui¸c˜ao de dota¸c˜ao entre os participantes da economia, sem desperd´ıcios. Todas as poss´ıveis distribui¸c˜oes de bens na economia est˜ao representadas na caixa.
0A 6 -0B ? s s eA 2 eA 1 s s eB 2 eB 1 s e = (eA, eB) Bem 1 Bem 2
Para completarmos a caracteriza¸c˜ao dessa economia, temos que especificar as preferˆencias in-dividuais. Representamos estas preferˆencias por meio de fun¸c˜oes de utilidade. Supondo que todas as preferˆencias sejam bem comportadas, obtemos um mapa de curvas de indiferen¸ca que preenche a caixa de Edgeworth, para cada indiv´ıduo.
0A 6 -0B ? s s eA2 eA 1 s s eB2 eB1 s e = (eA, eB)
Suponha que existam I indiv´ıduos e n bens. Cada indiv´ıduo ´e representado por uma rela¸c˜ao de preferˆencia i(ou, equivalentemente, por uma utilidade ui) e uma dota¸c˜ao inicial ei. Vamos denotar
por I o conjunto dos consumidores, I = {1, . . . , I}. A cole¸c˜ao E = (ui, ei)Ii=1 representa uma economia de trocas (ou economia de trocas puras ou economia de trocas simples, sem produ¸c˜ao). Defini¸c˜ao: Aloca¸c˜ao. Vamos denotar por e = (e1, . . . , eI) a distribui¸c˜ao de dota¸c˜oes na economia e por x = (x1, . . . , xI) uma aloca¸c˜ao dessa economia. Portanto, uma aloca¸c˜ao para a economia E
Defini¸c˜ao: Aloca¸c˜ao Fact´ıvel. Dizemos que a aloca¸c˜ao x = (x1, . . . , xI) ´e fact´ıvel se ela exaure
a dota¸c˜ao total de cada bem na economia. Logo, para cada bem, a quantidade consumida ´e igual ao total dispon´ıvel. O conjunto das aloca¸c˜oes fact´ıveis, denotado por F (e), ´e dado por:
F (e) = ( x | I X i=1 xi = I X i=1 ei )
Para o caso de dois consumidores, A e B, a aloca¸c˜ao x = (xA, xB), com xA = (xA
1, xA2) e
xB = (xB
1, xB2), ser´a fact´ıvel se:
Bem 1: xA1 + xB1 = eA1 + eB1 Bem 2: xA2 + xB2 = eA2 + eB2
1.2
Eficiˆ
encia de Pareto
Dizemos que uma aloca¸c˜ao fact´ıvel ´e Pareto-eficiente se n˜ao for poss´ıvel melhorar (estritamente) pelo menos um indiv´ıduo sem piorar ningu´em.
Defini¸c˜ao: Aloca¸c˜ao Pareto-Eficiente. A aloca¸c˜ao fact´ıvel x ∈ F (e) ´e Pareto-eficiente (ou Pareto-´otima ou eficiente de Pareto) se n˜ao existir nenhuma outra aloca¸c˜ao fact´ıvel y ∈ F (e) tal que yi i xi, para todo i ∈ I, e yj j xj, para pelo menos um j ∈ I (em termos de utilidade:
ui(yi) ≥ ui(xi), para todo i ∈ I, e uj(yj) > uj(xj), para pelo menos um j ∈ I).
Dado que as trocas na economia s˜ao feitas de forma volunt´aria, se a economia se encontra em uma aloca¸c˜ao Pareto-eficiente, n˜ao ser´a poss´ıvel mudar essa aloca¸c˜ao. Portanto, as aloca¸c˜oes Pareto-eficientes s˜ao candidatas naturais ao equil´ıbrio da economia.
Observa¸c˜oes sobre o Crit´erio de Pareto:
• Uma outra maneira de interpretar: aloca¸c˜oes de recursos em que n˜ao ´e poss´ıvel fazer com que todos melhorem ou que n˜ao ´e poss´ıvel fazer com que algu´em melhore sem que pelo menos uma outra pessoa piore s˜ao aloca¸c˜oes Pareto ´otimas.
• Aloca¸c˜oes eficientes de Pareto s˜ao aloca¸c˜oes em que todos os ganhos de troca se exauriram. Logo n˜ao existem mais trocas mutualmente vantajosas para serem feitas.
• Em geral h´a um conjunto grande de pontos Pareto ´otimos em uma economia. Dizer que a economia deve estar em um ponto Pareto ´otimo ´e um ju´ızo de valor, mas o mais fraco ju´ızo de valor que se pode fazer a respeito da situa¸c˜ao da economia.
• O crit´erio de Pareto apenas diz que n˜ao deve haver perdas ou desperd´ıcios na economia, ele n˜ao diz nada sobre a distribui¸c˜ao de riqueza de uma sociedade. Se a sociedade partir de uma dota¸c˜ao inicial de recursos muito desigual, ´e prov´avel que a aloca¸c˜ao de equil´ıbrio seja tamb´em desigual, mesmo sendo eficiente.
Defini¸c˜ao: Curva de Contrato. A curva de contrato ´e o conjunto de todas aloca¸c˜oes Pareto eficientes da economia. Essa curva tamb´em ´e chamada conjunto de Pareto.
0A 6 -0B ? s e = (eA, eB) s s Curva de Contrato
Para o caso de dois consumidores, A e B, uma aloca¸c˜ao eficiente de Pareto pode ser vista como uma aloca¸c˜ao onde um dos agentes est´a t˜ao bem quanto poss´ıvel, dada a utilidade do outro agente. Se as utilidades dos dois agentes forem bem comportadas, ent˜ao as aloca¸c˜oes fact´ıveis no interior da caixa de Edgeworth em que as TMS dos dois agentes s˜ao iguais definem as aloca¸c˜oes Pareto eficientes, ou seja, a curva de contrato.
Portanto, em uma aloca¸c˜ao Pareto eficiente, as taxas marginais de substitui¸c˜ao entre dois bens devem ser iguais entre os consumidores (se n˜ao fosse o caso, existiria alguma troca que melhoraria um dos consumidores sem piorar o outro – observe a figura acima). Note que isso vale para utilidades bem comportadas e aloca¸c˜oes no interior da caixa de Edgeworth.
Exemplo: Suponha dois consumidores, A e B, que possuem dota¸c˜oes iniciais representadas por eA= (exA, eyA) e eB = (exB, eyB), e utilidades Cobb-Douglas denotadas por:
uA(xA, yA) = xαAyA1−α e uB(xB, yB) = xβBy 1−β B
Igualando a TMS dos dois consumidores, obtemos: T M SA(xA, yA) = αyA (1 − α)xA = βyB (1 − β)xB = T M SB(xB, yB)
Lembrando que toda aloca¸c˜ao Pareto eficiente ´e fact´ıvel e que as aloca¸c˜oes fact´ıveis satisfazem xA+ xB = eTx e que yA+ yB = eTy, obtemos: αyA (1 − α)xA = β(e T y − yA) (1 − β)(eT x − xA)
Resolvendo essa equa¸c˜ao, encontramos yAem fun¸c˜ao de xA, de modo que define a curva de contrato.
Suponha que as utilidades dos dois indiv´ıduos s˜ao iguais (logo, α = β). Ent˜ao a ´ultima express˜ao acima se torna: αyA (1 − α)xA = α(e T y − yA) (1 − α)(eT x − xA) ⇒ yA = eTy eT x ! xA,
ou seja, a curva de contrato ser´a uma reta, qualquer que seja a utilidade Cobb-Douglas considerada (isso n˜ao ocorrer´a se as utilidades dos dois indiv´ıduos forem distintas).
Defini¸c˜ao: Conjunto de Possibilidade de Utilidade. O conjunto de possibilidade de utilidade (CPU) ilustra combina¸c˜oes de utilidades poss´ıveis de serem obtidas, dados os recursos da economia. Na fronteira da CPU s˜ao representadas combina¸c˜oes de utilidades geradas por aloca¸c˜oes Pareto eficientes. Mais ainda, toda aloca¸c˜ao Pareto eficiente possui uma representa¸c˜ao da utilidade gerada na fronteira de possibilidade de utilidade (FPU).
6 -uB uA Fronteira de Possibilidade de Utilidade
Vamos definir um conceito ainda mais forte do que o de aloca¸c˜oes Pareto eficientes. Dada uma aloca¸c˜ao fact´ıvel qualquer, vamos assumir que coaliz˜oes (grupos de indiv´ıduos) que possam obter uma aloca¸c˜ao melhor entre si, ent˜ao eles realizam trocas para alcan¸car essa melhora. Esta ideia ´e formalizada nos conceitos a seguir.
Defini¸c˜ao: Bloqueio. Seja S ⊂ I uma coaliz˜ao de consumidores. Dizemos que S bloqueia a aloca¸c˜ao fact´ıvel x ∈ F (e) caso exista uma aloca¸c˜ao y tal que:
1. P
i∈Syi =
P
i∈Sei, e
2. yi i xi para todo i ∈ S, com pelo menos um j ∈ S tal que yj j xj.
Uma aloca¸c˜ao para a qual n˜ao existe nenhuma coaliz˜ao que a bloqueie, ou seja, em que para todo S ⊂ I n˜ao exista y ∈ F (e) tal que yi i xi para todo i ∈ S, com pelo menos uma preferˆencia
estrita, ´e chamada aloca¸c˜ao n˜ao bloque´avel.
Note que aloca¸c˜oes ineficientes s˜ao bloqueadas pela coaliz˜ao formada por todos os indiv´ıduos da economia (S = I). Logo, toda aloca¸c˜ao n˜ao-bloque´avel ´e Pareto-eficiente (a volta n˜ao ´e v´alida em geral).
Defini¸c˜ao: N´ucleo. O conjunto das aloca¸c˜oes n˜ao bloque´aveis, denotado por C(e), ´e chamado n´ucleo da economia E .
As aloca¸c˜oes no n´ucleo de uma determinada economia de trocas puras s˜ao as candidatas naturais para serem alcan¸cadas por meio de uma sequˆencia de trocas volunt´arias. Por´em para isso ocorrer h´a um exigˆencia informacional gigantesca para cada participante da economia.
1.3
Equil´ıbrio em Economias de Trocas
Vamos supor a partir de agora que as transa¸c˜oes s˜ao efetuadas em mercados competitivos, onde cada consumidor maximiza o seu bem-estar, dados os pre¸cos que observa. Vamos continuar assumindo que n˜ao exista produ¸c˜ao na economia. Logo, cada consumidor recebe uma dota¸c˜ao inicial de bens, que pode ser vendida e da´ı usada para adquirir outra cesta de bens.
Portanto, o sistema de pre¸cos ´e o instrumento alocativo de uma economia de mercado. Ele determina o valor de cada dota¸c˜ao inicial e, consequentemente, quais cestas de bens est˜ao dentro da possibilidade de consumo de cada indiv´ıduo.
Suponha I consumidores, I = {1, . . . , I} denota o conjunto dos I consumidores. Suponha tamb´em que as preferˆencias i de cada consumidor i ∈ I s˜ao representadas por uma fun¸c˜ao de
utilidade ui bem comportada (cont´ınua, estritamente crescente e estritamente quasecˆoncava). O problema do consumidor i, no caso de dois bens apenas, ´e:
max
xi 1,xi2
ui(xi1, xi2) s.a. p1xi1+ p2xi2 ≤ p1ei1+ p2ei2,
onde ei = (ei
1, ei2) ´e a dota¸c˜ao inicial do consumidor i.
Resolvendo o problema do consumidor, encontramos a sua demanda xi(p, p · ei), onde para o caso de dois bens temos que xi(p, p · ei) = (xi
1(p, p · ei), xi2(p, p · ei)). Note que a renda do
consumidor agora ´e end´ogena e depende dos pre¸cos vigentes na economia.
0A 6 -0B ? @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ s xA s xB se = (eA, eB)
obs: xi: demanda bruta de i, i = A, B
Observe que no sistema de pre¸cos representado na figura acima, cada um dos dois consumidores est´a maximizando a sua utilidade dada a restri¸c˜ao or¸cament´aria que enfrenta, em que essa restri¸c˜ao ´e determinada pelo sistema de pre¸cos. Por´em, a economia n˜ao est´a em equil´ıbrio: h´a um excesso de oferta do bem 1 e um excesso de demanda do bem 2.
Vimos que o n´ıvel de pre¸cos representado na figura acima n˜ao iguala a demanda `a oferta, para nenhum dos dois bens. Nesse caso, dizemos que os mercados n˜ao se equilibram ou se exaurem. Logo, a economia est´a em desequil´ıbrio. O equil´ıbrio ser´a obtido via ajuste de pre¸cos, que faz com que a demanda se iguale `a oferta para todos os bens da economia. Essa situa¸c˜ao ´e chamada equil´ıbrio de mercado, ou equil´ıbrio competitivo, ou equil´ıbrio Walrasiano. Pre¸cos que alcan¸cam o equil´ıbrio s˜ao chamados pre¸cos de equil´ıbrio. A aloca¸c˜ao resultante ´e chamada aloca¸c˜ao de equil´ıbrio (ou aloca¸c˜ao de equil´ıbrio Walrasiano).
Defini¸c˜ao: Excesso de Demanda Agregada. A fun¸c˜ao de excesso de demanda (ou excedente de demanda) agregada do bem k ´e definida como:
zk(p) = I X i=1 xik(p, p · ei) − I X i=1 eik.
O vetor de excesso de demanda agregada ´e:
z(p) = (z1(p), . . . , zn(p)) .
Observe que zk(p) = 0 equivale a: I X i=1 xik(p, p · ei) = I X i=1 eik
Ent˜ao, aos pre¸cos p, se zk(p) = 0, a demanda de mercado pelo bem k iguala a oferta de mercado
desse bem. Se z(p) = 0, onde 0 = (0, . . . , 0) denota o vetor de zeros, ent˜ao os mercados de todos os bens est˜ao em equil´ıbrio.
Defini¸c˜ao: Equil´ıbrio. O vetor de pre¸cos p∗ ´e um equil´ıbrio Walrasiano se z(p∗) = 0.
Propriedades da Fun¸c˜ao Excesso de Demanda. Se para cada consumidor i ∈ I, ui ´e
bem-comportada, ent˜ao, para todo p 0, temos que:
1. (Continuidade) z(·) ´e cont´ınua em p. Se um pre¸co varia em uma quantidade pequena, o excesso de demanda agregada varia por uma quantidade pequena. O excesso de demanda ser´a cont´ınuo se as demandas individuais forem cont´ınuas. Tamb´em, se cada consumidor for tomador de pre¸co e sua demanda for pequena em rela¸c˜ao `a demanda de mercado, ent˜ao mesmo que a demanda individual seja descont´ınua, a demanda agregada poder´a ser cont´ınua. 2. (Homogeneidade) z(αp) = z(p), para todo α > 0. Apenas pre¸cos relativos importam – podemos normalizar os pre¸cos e usar um numer´ario. Logo, n˜ao podemos determinar o valor dos pre¸cos absolutos de equil´ıbrio da economia. Se existem n pre¸cos na economia, apenas n − 1 pre¸cos ser˜ao independentes. No caso de dois bens, podemos normalizar um deles em 1 e apenas encontrar o pre¸co relativo de equil´ıbrio do outro bem.
3. (Lei de Walras) p · z(p) = 0. O valor do excesso de demanda agregada ´e sempre zero, quaisquer que sejam os pre¸cos de mercado. Consequentemente, se existem n mercados na economia, e n − 1 mercados est˜ao em equil´ıbrio, ent˜ao necessariamente o ´ultimo mercado estar´a em equil´ıbrio. Portanto, para o caso de dois bens, precisamos verificar o equil´ıbrio apenas para um dos mercados (uma vez que se um mercado estiver em equil´ıbrio, o outro automaticamente tamb´em estar´a em equil´ıbrio).
Um vetor de pre¸cos ´e um equil´ıbrio se a demanda agregada se igualar `a oferta agregada em todos os mercados da economia. A quest˜ao fundamental ´e sobre a existˆencia de equil´ıbrio, ou seja, sob quais condi¸c˜oes podemos garantir a existˆencia de um vetor de pre¸cos tal que os consumidores maximizem a sua utilidade, dados esses pre¸cos, e demanda agregada iguala oferta agregada? O pr´oximo teorema responde essa quest˜ao.
Teorema de Existˆencia de Equil´ıbrio. Se as utilidades de cada consumidor forem bem-comportadas e se a dota¸c˜ao total de cada bem for positiva, ent˜ao existir´a (pelo menos) um vetor de pre¸cos p 0 tal que os mercados de todos os bens estejam em equil´ıbrio.
Defini¸c˜ao: Aloca¸c˜ao de Equil´ıbrio Walrasiano. Seja p∗ um equil´ıbrio Walrasiano para a economia E = (i, ei). O vetor x(p∗) ´e chamado uma aloca¸c˜ao de equil´ıbrio Walrasiano, onde temos que:
1. (Maximiza¸c˜ao dos Consumidores) x(p∗) = (x1(p∗, p∗· e1), . . . , xI(p∗, p∗· eI)) ´e o vetor com
as cestas ´otimas de cada consumidor, quando os pre¸cos s˜ao p∗ e a renda do consumidor i, i = 1, . . . , I, ´e p∗· ei;
2. (Equil´ıbrio) Os mercados de todos os bens est˜ao em equil´ıbrio: X i∈I xik(p∗, p∗· ei) = X i∈I eik, ∀k = 1, . . . , n. 0A 6 -0B ? @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ s Aloca¸c˜ao de equil´ıbrio s xA∗2 xB∗2 s xA∗ 1 xB∗ 1 se
A caixa de Edgeworht ilustrada na figura acima mostra um vetor de pre¸cos de equil´ıbrio, que leva os consumidores A e B, a partir de suas dota¸c˜oes iniciais, representadas no ponto e na caixa, `
a aloca¸c˜ao de equil´ıbrio x = (xA∗, xB∗), na qual ambos os consumidores est˜ao maximizando o seu bem-estar e os mercados dos dois bens est˜ao em equil´ıbrio.
2
Economias com Produ¸
c˜
ao
2.1
Introdu¸
c˜
ao
Vamos introduzir firmas no modelo de equil´ıbrio geral desenvolvido anteriormente. A produ¸c˜ao e, portanto, a oferta agregada, s˜ao consequˆencias do comportamento maximizador de lucros das firmas. Logo, a quantidade de bens dispon´ıveis para consumo n˜ao ser´a mais fixa e depender´a da decis˜ao de produ¸c˜ao das firmas. O lucro das firmas ´e distribu´ıdo aos consumidores, os propriet´arios das firmas. Vamos caracterizar firmas por meio da tecnologia de produ¸c˜ao que possuem. Na an´alise de equil´ıbrio geral ´e mais conveniente representar a tecnologia de uma firma usando o conceito de conjunto de possibilidade de produ¸c˜ao, em vez de represent´a-la usando o conceito de fun¸c˜ao de produ¸c˜ao.
Suponha que existam J firmas. O conjunto de possibilidade de produ¸c˜ao da firma j, denotado por Yj ⊂ Rn, com n bens, ´e o conjunto de todas as combina¸c˜oes de insumos e produtos dispon´ıveis para a firma. Um vetor yj ∈ Yj ´e chamado plano de produ¸c˜ao. Vamos usar a conven¸c˜ao de que
se o bem k for um insumo l´ıquido (a firma usa mais desse bem do que ´e capaz de produzir), a coordenada k de yj ser´a negativa (ykj < 0). Se o bem k for um produto l´ıquido da firma (a firma produz mais desse bem do que o consome no processo produtivo), ent˜ao a coordenada k de yj ser´a
positiva (yjk> 0). 6 -x2 x1 * Conjunto de Possibilidade de Produ¸c˜ao (convexo)
Dado o vetor de pre¸cos p ≥ 0, a firma j escolhe o plano de produ¸c˜ao que maximiza lucros: max
yj∈Yj p · y
j
(1) Esse problema ´e similar ao problema de maximiza¸c˜ao de lucros em termos de fun¸c˜oes de produ¸c˜ao, s´o que agora escrito em termos de conjuntos de possibilidade de produ¸c˜ao.
Propriedades da fun¸c˜ao lucro e oferta ´otima. Se o conjunto de possibilidade de produ¸c˜ao (CPP) Yj satisfizer certas condi¸c˜oes, ent˜ao, para todo vetor de pre¸cos p 0, a solu¸c˜ao do problema da firma (1) acima ser´a ´unica e cont´ınua (denotada por yj(p)). Al´em disso, a fun¸c˜ao lucro, Πj(p) =
p · yj(p), ser´a bem-definida e cont´ınua.
O vetor yj(p) ´e chamado fun¸c˜ao de oferta da firma j, em sentido amplo, j´a que engloba n˜ao somente os bens que a firma produz, mas tamb´em os bens que a firma utiliza como insumos.
2.2
Eficiˆ
encia T´
ecnica e FPP
Suponha que existam dois produtos, X e Y , produzidos por duas firmas distintas, que usam dois fatores de produ¸c˜ao, capital, K e trabalho, L. Suponha que as quantidades de capital e trabalho est˜ao fixas. Podemos construir uma caixa de Edgeworth para produ¸c˜ao, onde uma firma ´e representada no v´ertice sudoeste da caixa e a outra firma ´e representada no v´ertice noroeste da caixa. Representamos as isoquantas de ambas as firmas na caixa. Pontos de tangˆencia destas isoquantas representam pontos de eficiˆencia produtiva ou eficiˆencia t´ecnica. Podemos ent˜ao definir uma curva de contrato para a produ¸c˜ao.
01 6 -02 ? s s s Curva de Contrato para Produ¸c˜ao
Observe que na curva de contrato para a produ¸c˜ao, as taxas marginais de substitui¸c˜ao entre os insumos s˜ao iguais para ambas as firmas. Logo, em pontos de eficiˆencia t´ecnica, as taxas marginais de substitui¸c˜ao entre dois insumos quaisquer s˜ao iguais entre firmas, mesmo que estas firmas produzam bens diferentes (assumindo fun¸c˜oes de produ¸c˜ao bem comportadas e aloca¸c˜oes no interior da caixa). Podemos construir o seguinte conceito a partir da curva de contrato para a produ¸c˜ao:
Defini¸c˜ao: A fronteira de possibilidade de produ¸c˜ao (FPP) mostra a quantidade m´axima do bem Y que a sociedade pode produzir, para qualquer quantidade do bem X produzida.
Pontos na FPP representam a quantidade m´axima do bem X que pode ser produzida para certa quantidade do bem Y . Pontos que est˜ao sobre a FPP, tais como o ponto B na figura abaixo, s˜ao os pontos de eficiˆencia t´ecnica ou eficiˆencia produtiva. Pontos no interior da FPP, tais como o ponto A na figura abaixo, s˜ao ineficientes no sentido t´ecnico. Nos pontos sobre a FPP, a taxa marginal de substitui¸c˜ao t´ecnica entre dois insumos ´e igual para todas as firmas, quaisquer que sejam os bens que elas produzam, assumindo que a tecnologia de produ¸c˜ao seja “bem-comportada”.
Podem existir pontos de eficiˆencia t´ecnica que n˜ao representem aloca¸c˜oes Pareto eficientes. Por´em, toda aloca¸c˜ao Pareto eficiente est´a necessariamente associada a um ponto de eficiˆencia t´ecnica.
6
-Bem Y
Bem X Fronteira de Possibilidade de Produ¸c˜ao
sA sB
A FPP tem inclina¸c˜ao negativa devido `a escassez de recursos. Se estamos no ponto B na figura acima e queremos produzir mais do bem X, precisamos abrir m˜ao de um pouco de bem Y (a sociedade realoca alguns dos recursos usados na produ¸c˜ao de Y para a produ¸c˜ao de X). Portanto, a escassez de fatores de produ¸c˜ao implica que a FPP ´e negativamente inclinada.
Defini¸c˜ao: O custo marginal do bem X ´e o custo de produzir uma unidade adicional de X, expresso em unidades do outro bem que deixa de ser produzido:
CM gX,Y = − dY dX F P P
O formato da curva da FPP reflete como o custo marginal de um bem muda com a quantidade do outro bem sendo produzida. Esse custo de oportunidade marginal da FPP ´e chamado taxa marginal de transforma¸c˜ao dos bens. Essa taxa mede a taxa pela qual um bem pode ser transformado em outro, no sentido de que os fatores de produ¸c˜ao s˜ao realocados da produ¸c˜ao de um dos bens para a produ¸c˜ao do outro bem.
Portanto, o custo marginal de produ¸c˜ao de um bem em termos de outro bem ´e dado pela inclina¸c˜ao da FPP. Uma FPP com inclina¸c˜ao constante (isto ´e, uma reta) significa que este custo marginal ´e constante, independente da quantidade produzida. Uma FPP cˆoncava significa que este custo marginal aumenta quanto mais desse bem ´e produzido. Ou seja, quanto maior a produ¸c˜ao de vinho, para produzir mais um litro de vinho, temos que abrir m˜ao de uma quantidade maior de p˜ao.
2.3
Equil´ıbrio
Os consumidores s˜ao modelados como antes, por meio de uma fun¸c˜ao de utilidade e de uma dota¸c˜ao inicial, que inclui bens ou servi¸cos que o consumidor oferece ao mercado, como trabalho, por exemplo. Com a inclus˜ao de firmas na an´alise, precisamos descrever a distribui¸c˜ao dos lucros dessas firmas na economia. Vamos denotar por θij a fra¸c˜ao da firma j que o consumidor i det´em.
Devemos ter que:
0 ≤ θij ≤ 1, ∀i ∈ I, j ∈ J , e X
i∈I
θij = 1, ∀j ∈ J .
Um consumidor possui duas fontes de renda: a sua dota¸c˜ao de bens e servi¸cos e a quantidade de a¸c˜oes de firmas que possui. A restri¸c˜ao or¸cament´aria do consumidor i se torna ent˜ao:
p · xi ≤ p · ei+X
j∈J
θijΠj(p) = mi(p),
onde mi(p) denota a renda do consumidor i. O problema do consumidor i ´e portanto:
max
xi∈Rn +
ui(xi) s.a. p · xi ≤ mi(p) (2)
Resolvendo este problema, encontramos as demandas ´otimas dos consumidores, o que permite calcular a demanda de mercado.
Com a introdu¸c˜ao das a¸c˜oes das firmas, completamos a caracteriza¸c˜ao da economia, que pode ser denotada por E = (ui, ei, θij, Yj)
i∈I,j∈J (chamada economia de propriedade privada).
A fun¸c˜ao excesso de demanda agregada do bem k ´e agora dada por: zk(p) = X i∈I xik(p, mi(p)) −X j∈J yjk(p) −X i∈I eik,
e o vetor de excesso de demandas ´e denotado por:
z(p) = (z1(p), . . . , zn(p)) .
O vetor de fun¸c˜oes excesso de demanda agregada definido para economias com produ¸c˜ao con-tinua satisfazendo as mesmas trˆes propriedades que eram satisfeitas no caso de uma economia de trocas puras: 1) continuidade, 2) homogeneidade, e 3) lei de Walras. Essas propriedades possuem as mesmas interpreta¸c˜oes e implica¸c˜oes que vimos anteriormente.
Considere a economia de propriedade privada E = (ui, ei, θij, Yj)
i∈I,j∈J. Suponha que cada
util-idade individual satisfaz certas propriedades (por exemplo, ´e bem-comportada) e que o conjunto de possibilidade de produ¸c˜ao de cada firma satisfaz certas hip´oteses (por exemplo, apresenta retornos decrescentes de escala). Suponha tamb´em que y +P
i∈Ie
i 0 para algum vetor de produ¸c˜ao
agregada.
Nesse caso, podemos garantir que existe pelo menos um vetor de pre¸cos p∗ 0 tal que o vetor de excessos de demanda seja igual a zero, z(p∗) = 0. A aloca¸c˜ao de equil´ıbrio para uma economia com produ¸c˜ao deve descrever al´em das cestas de consumo de cada indiv´ıduo, os planos de produ¸c˜ao ´
Defini¸c˜ao: Aloca¸c˜ao de Equil´ıbrio. Seja p∗ um equil´ıbrio para E = (ui, ei, θij, Yj)
i∈I,j∈J. O
par de vetores (x(p∗), y(p∗)) ´e uma aloca¸c˜ao de equil´ıbrio Walrasiano, onde temos que:
1. (Maximiza¸c˜ao dos Consumidores) x(p∗) = (x1(p∗), . . . , xI(p∗)) ´e o vetor com as cestas ´otimas de cada consumidor, quando os pre¸cos s˜ao p∗e a renda do consumidor i, i = 1, . . . , I, ´e mi(p∗);
2. (Maximiza¸c˜ao das Firmas) y(p∗) = (y1(p∗), . . . , yJ(p∗)) ´e o vetor com os planos de produ¸c˜ao ´
otimos de cada firma j, quando os pre¸cos s˜ao p∗;
3. (Equil´ıbrio) Os mercados de todos os bens est˜ao em equil´ıbrio: X i∈I xik(p∗) =X i∈I eik+X j∈J ykj(p∗), ∀k = 1, . . . , n.
A figura abaixo ilustra uma situa¸c˜ao de equil´ıbrio, considerando uma economia com um ´unico consumidor. Observe que se a condi¸c˜ao de tangˆencia n˜ao for satisfeita, isso significa que a taxa na qual o consumidor est´a disposto a trocar um dos bens pelo outro ´e diferente da taxa na qual esse bem pode ser transformado no outro. Ent˜ao existe a possibilidade de melhorar o bem-estar do consumidor, ao se rearranjar a produ¸c˜ao. Portanto, se a condi¸c˜ao de tangˆencia n˜ao for satisfeita, a aloca¸c˜ao n˜ao ser´a Pareto eficiente.
6 -Bem Y Bem X FPP s Y∗ X∗ Curva de Indiferen¸ca @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @ @@ N´ıvel de Pre¸cos de Equil´ıbrio
Observa¸c˜oes Importantes:
• A figura acima deixa claro que nem todo ponto de eficiˆencia t´ecnica ser´a Pareto eficiente, mas todo ponto Pareto eficiente ser´a tecnicamente eficiente.
• Uma aloca¸c˜ao Pareto eficiente satisfaz as seguintes trˆes condi¸c˜oes:
1. Eficiˆencia nas trocas: As taxas marginais de substitui¸c˜ao entre quaisquer dois bens devem ser iguais.
2. Eficiˆencia t´ecnica ou produtiva: Para todas as firmas, as taxas t´ecnicas de substitui¸c˜ao entre quaisquer dois insumos devem ser iguais.
3. Eficiˆencia no mix de produtos: A taxa t´ecnica de transforma¸c˜ao entre dois bens deve ser igual `a taxa marginal de substitui¸c˜ao dos consumidores.
Exemplo 1. Suponha uma fronteira de possibilidade de produ¸c˜ao para os bens X e Y representada pela equa¸c˜ao cX2 + dY2 = e. A fun¸c˜ao de utilidade do agente representativo desta economia ´e
uma Cobb-Douglas u(X, Y ) = XαYβ. Ent˜ao a taxa marginal de substitui¸c˜ao (TMS) entre os dois bens, em valor absoluto, ´e:
|T M S| = ∂u(X, Y )/∂X ∂u(X, Y )/∂Y =
αY βX
J´a o valor absoluto da taxa marginal de transforma¸c˜ao (TMT) entre os dois bens pode ser encon-trado usando o Teorema da Fun¸c˜ao Impl´ıcita, definindo f (X, Y ) = cX2+ dY2− e:
dY dX = ∂f (X, Y )/∂X ∂f (X, Y )/∂Y = cX dY Igualando o valor absoluto da TMS ao da TMT, obtemos:
αY βX = cX dY ⇒ Y 2 = βc αd X2 ⇒ Y = r βc αd ! X
Note que se α = β e c = d, ent˜ao a solu¸c˜ao ´otima consiste em X = Y . Os valores de X e Y podem ser encontrados substituindo a rela¸c˜ao ´otima derivada acima entre X e Y na FPP, cX2+ dY2 = e:
cX2+βcX 2 αd = e ⇒ X 2 = αde αcd + βc ⇒ X ∗ = s αde αcd + βc
A quantidade ´otima de Y pode ser obtida usando a rela¸c˜ao ´otima entre X e Y acima e o valor ´
otimo de X encontrado acima, o que leva a Y∗ = pβce/(αcd + βc). J´a os pre¸cos de equil´ıbrio podem ser encontrados fazendo px/py = |T M S(X∗, Y∗)| = |T M T (X∗, Y∗)|, o que resulta em:
px py = αY ∗ βX∗ = cX∗ dY∗ ⇒ px py =r αc βd Voltando ao caso em que α = β e c = d, ent˜ao px/py = 1.
Exemplo 2: Economia de Robinson Crusoe. Suponha uma economia com dois bens, formada por apenas um indiv´ıduo e uma firma. A utilidade do consumidor ´e:
u(h, y) = h1−βyβ,
com 0 < β < 1. Vamos supor que a dota¸c˜ao inicial do consumidor ´e eT = (T, 0). A tecnologia da
firma ´e descrita pela fun¸c˜ao de produ¸c˜ao y = hα, com 0 ≤ h ≤ b, b > T e 0 < α < 1. O problema da firma ´e:
max
h≤0 ph
α− wh,
onde p ´e o pre¸co do bem final e w ´e o sal´ario. A solu¸c˜ao do problema da firma resulta em: hf =αp w 1−α1 e yf =αp w 1−αα O lucro ´otimo ´e: π = π(w, p) = 1 − α α wαp w 1−α1 ≥ 0 .
O problema do consumidor ´e: max
h,y≥0h
1−βyβ s.a. py + wh = wT + π(w, p).
A solu¸c˜ao do problema do consumidor ´e: hc= (1 − β) wT + π(w, p) w e yc = β wT + π(w, p) p
Como apenas pre¸cos relativos importam, vamos normalizar p∗ = 1. Pela lei de Walras, basta verificarmos a condi¸c˜ao de equil´ıbrio de um dos mercados para determinar o pre¸co w de equil´ıbrio. No mercado h, temos que hf + hc= T resulta em:
hf + hc= T ⇒ w∗ = α 1 − β(1 − α) αβT
1−α .
3
Bem-Estar Social
3.1
Eficiˆ
encia de Pareto
Vimos que o princ´ıpio b´asico de eficiˆencia usado em economia ´e o crit´erio de Pareto, que formaliza a ideia de que se na situa¸c˜ao social A um indiv´ıduo fica melhor e nenhum fica pior comparado `a situa¸c˜ao B ent˜ao a situa¸c˜ao A ´e melhor para a sociedade do que a situa¸c˜ao B. Ou, se na situa¸c˜ao social A, todos os membros da sociedade est˜ao melhores comparados `a situa¸c˜ao B, ent˜ao, a situa¸c˜ao A ´e melhor para a sociedade que a situa¸c˜ao B. O crit´erio ou princ´ıpio de Pareto tamb´em pode ser formalizado da seguinte maneira.
Defini¸c˜ao: Uma aloca¸c˜ao social A ´e Pareto-dominada pela aloca¸c˜ao B se a aloca¸c˜ao B ´e fact´ıvel e nenhum agente fica pior, e pelo menos um fica melhor, na aloca¸c˜ao B que na aloca¸c˜ao A.
Defini¸c˜ao: Uma aloca¸c˜ao fact´ıvel ´e Pareto ´otima (ou eficiente de Pareto) se n˜ao ´e Pareto-dominada por nenhuma outra aloca¸c˜ao fact´ıvel.
Uma aloca¸c˜ao eficiente de Pareto satisfaz as seguintes trˆes condi¸c˜oes (“em situa¸c˜oes bem-comportadas”:
• Eficiˆencia nas trocas: as taxas marginais de substitui¸c˜ao entre quaisquer dois bens devem ser iguais.
• Eficiˆencia produtiva: para todas as firmas, as taxas t´ecnicas de substitui¸c˜ao entre os insumos devem ser iguais.
• Eficiˆencia no mix de produtos: a taxa marginal de transforma¸c˜ao entre dois bens deve ser igual `a taxa marginal de substitui¸c˜ao dos consumidores.
3.2
Os Dois Teoremas de Bem-Estar
O Primeiro e o Segundo Teoremas do Bem-Estar s˜ao resultados cruciais sobre bem-estar em economias de mercado. Os dois teoremas respondem `a pergunta em que sentido e sob quais condi¸c˜oes mercados competitivos levam `a eficiˆencia econˆomica e quando qualquer situa¸c˜ao de eficiˆencia pode ser alcan¸cada por um mercado competitivo.
Primeiro Teorema do Bem-Estar. Toda aloca¸c˜ao de equil´ıbrio Walrasiano ´e Pareto-´otima. O Primeiro Teorema do Bem-Estar afirma que todo equil´ıbrio Walrasiano satisfaz o crit´erio de Pareto, ou seja, todo equil´ıbrio em concorrˆencia perfeita ´e Pareto ´otimo. Logo, n˜ao existe nenhum rearranjo de recursos (ou seja, nenhuma mudan¸ca na produ¸c˜ao ou no consumo) tal que algu´em possa melhorar sua situa¸c˜ao sem ao mesmo tempo piorar a situa¸c˜ao de outro. Portanto, o mercado agindo sozinho alcan¸ca uma situa¸c˜ao de equil´ıbrio Pareto ´otima, mesmo com cada agente econˆomico agindo de modo ego´ısta, no sentido de buscar apenas o seu pr´oprio bem-estar. Este resultado est´a relacionado com a famosa “m˜ao invis´ıvel ” de Adam Smith. Observe que a aloca¸c˜ao de equil´ıbrio pode ser bastante desigual e ainda assim ser Pareto eficiente.
Segundo Teorema do Bem-Estar. Sob certas hip´oteses, se x ´e Pareto-eficiente, ent˜ao x ´e uma aloca¸c˜ao de equil´ıbrio Walrasiano para algum pre¸co p de equil´ıbrio, ap´os uma redistribui¸c˜ao adequada de dota¸c˜oes iniciais.
O Segundo Teorema Fundamental do Bem-Estar diz que, “sob certas condi¸c˜oes”, toda aloca¸c˜ao Pareto ´otima pode ser obtida pela economia de mercado, por meio de uma redistribui¸c˜ao adequada das riquezas iniciais dos agentes.
Portanto, o teorema implica que qualquer aloca¸c˜ao Pareto-´otima pode ser atingida por meio do mecanismo de mercado descentralizado, ou seja, n˜ao ´e necess´ario haver um planejador cen-tral. O pr´oprio mercado pode alcan¸car a aloca¸c˜ao desejada, sendo necess´aria somente a correta redistribui¸c˜ao de recursos na economia. Neste sentido, ´e poss´ıvel dizer que o segundo teorema do bem-estar permite a separa¸c˜ao dos problemas de eficiˆencia econˆomica e de distribui¸c˜ao dos bens na sociedade.
O segundo teorema do bem-estar sup˜oe uma s´erie de hip´oteses para a sua validade. As mais importantes e restritivas s˜ao relacionadas a quest˜oes de convexidade. Primeiro, as preferˆencias dos consumidores devem ser convexas. Segundo, o conjunto de produ¸c˜ao de cada firma deve ser convexo (´e poss´ıvel relaxar esse requerimento, mas devemos ter que o conjunto de possibilidade de produ¸c˜ao agregado da economia seja convexo). Isso elimina a possibilidade de que o teorema seja v´alido na presen¸ca de retornos crescentes de escala (pelo menos de maneira geral para toda a economia).
Falhas de mercado s˜ao situa¸c˜oes que invalidam os teoremas de bem-estar. Em particular, se alguma falha estiver presente, n˜ao podemos afirmar que a aloca¸c˜ao de recursos e bens alcan¸cada por uma economia de mercado satisfa¸ca o crit´erio de eficiˆencia de Pareto.
Exemplos de falhas de mercado: • Bens P´ublicos;
• Externalidades; • Poder de mercado; • Informa¸c˜ao Imperfeita.
3.3
Aloca¸
c˜
oes Justas
Seja x = (xA, xB) uma aloca¸c˜ao qualquer. Dizemos que o indiv´ıduo i inveja a cesta do indiv´ıduo j caso ele prefira a cesta de j `a sua pr´opria cesta. Por exemplo, dizemos que o indiv´ıduo A inveja a cesta de B caso uA(xB
1, xB2) > uA(xA1, xA2).
Defini¸c˜ao: Aloca¸c˜ao Equitativa. Uma aloca¸c˜ao equitativa ´e uma aloca¸c˜ao para a qual nenhum indiv´ıduo inveja a cesta de outro indiv´ıduo.
Defini¸c˜ao: Aloca¸c˜ao Justa. Uma aloca¸c˜ao justa ´e uma aloca¸c˜ao equitativa e eficiente.
Podemos mostrar que sempre existir´a pelo menos uma aloca¸c˜ao justa: a aloca¸c˜ao de equil´ıbrio obtida de uma divis˜ao igualit´aria de recursos ser´a uma aloca¸c˜ao justa.
Leitura Recomendada
• Varian, caps. 31 - “Trocas” e 32 - “A Produ¸c˜ao”.
• Pindick e Rubinfeld, cap. 16 - “Equil´ıbrio Geral e Eficiˆencia Econˆomica”. • Nicholson e Snyder, cap. 13 - “General Equilibrium and Welfare”.
Exerc´ıcios
1. Desenhe a caixa de Edgeworth para as economias descritas abaixo, ilustrando as dota¸c˜oes iniciais, as curvas de indiferen¸ca que passam por essas dota¸c˜oes e as aloca¸c˜oes descritas nos itens.
(a) Economia 1: uA = xA
1xA2, uB = xB1x2B, eA = (3, 7), eB = (7, 3). Aloca¸c˜oes: (xA, xB) =
((2, 5), (8, 5), (˜xA, ˜xB) = ((0, 3), (10, 7), (ˆxA, ˆxB) = ((6, 6), (6, 6).
(b) Economia 2: uA = xA1xA2, uB = min{xB1, xB2}, eA = (4, 5), eB = (11, 5). Aloca¸c˜oes:
(xA, xB) = ((12, 3), (3, 7), (˜xA, ˜xB) = ((10, 5), (5, 5), (ˆxA, ˆxB) = ((3, 6), (2, 7).
(c) Economia 3: uA = xA
1 + xA2, uB = min{xB1, xB2}, eA = (4, 5), eB = (6, 15). Aloca¸c˜oes:
(xA, xB) = ((5, 8), (5, 12), (˜xA, ˜xB) = ((10, 5), (0, 15), (ˆxA, ˆxB) = ((3, 13), (7, 7). 2. Para as economias descritas nos itens da quest˜ao anterior, responda:
(a) Quais aloca¸c˜oes s˜ao fact´ıveis?
(b) Descreva a curva de contrato para cada uma dessas economias. Ilustre graficamente a curva de contrato na caixa de Edgeworth.
(c) Descreva as aloca¸c˜oes no n´ucleo de cada uma dessas economias. Ilustre graficamente o n´ucleo na caixa de Edgeworth.
3. Suponha uma economia com dois consumidores, A e B, com utilidades definidas sobre cestas de dois bens, x e y, denotadas por uA(xA, yA) = x
1/2 A y
1/2
A e uB(xB, yB) = xByB. As dota¸c˜oes
iniciais de A e B s˜ao eA= (6, 4) e eB = (4, 6).
a) Desenhe a caixa de Edgeworth para essa economia, ilustrando as dota¸c˜oes iniciais. b) Descreva os conjuntos das aloca¸c˜oes fact´ıveis e das aloca¸c˜oes Pareto eficientes. Descreva
as aloca¸c˜oes que est˜ao no n´ucleo desta economia. c) Determine os pre¸cos de equil´ıbrio para esta economia.
d) Normalize o pre¸co do bem y em 1. Mostre que para os pre¸cos de equil´ıbrio encontrados no item anterior, temos que de fato demanda iguala oferta no mercado dos dois bens. 4. (NS) Suponha que existam apenas trˆes bens, denotados por x1, x2 e x3, em uma economia
sem produ¸c˜ao. As fun¸c˜oes de excesso de demanda agregada pelos bens 2 e 3 s˜ao: z2(p) = − 3p2 p1 +2p3 p1 − 1 , z3(p) = 4p2 p1 − 2p3 p1 − 2 .
(a) Mostre que essas fun¸c˜oes s˜ao homogˆeneas de grau zero nos pre¸cos.
(b) Use a Lei de Walras para mostrar que se z2(p) = z3(p) = 0, ent˜ao z1(p) tamb´em deve
ser igual a zero. Vocˆe consegue calcular z1(p) usando a lei de Walras?
(c) Resolva esse sistema de equa¸c˜oes para encontrar os pre¸cos relativos de equil´ıbrio p2/p1
5. (P1-2/18) Suponha uma economia com dois consumidores, A e B, com utilidades definidas sobre cestas de dois bens, x e y, denotadas por uA(xA, yA) = x2AyA2 e uB(xB, yB) = xByB. As
dota¸c˜oes iniciais de A e B s˜ao eA = (12, 8) e eB = (8, 12).
a) Desenhe a caixa de Edgeworth para essa economia, ilustrando as dota¸c˜oes iniciais. b) Descreva os conjuntos das aloca¸c˜oes fact´ıveis e das aloca¸c˜oes Pareto eficientes. Descreva
as aloca¸c˜oes que est˜ao no n´ucleo desta economia. c) Determine os pre¸cos de equil´ıbrio para esta economia.
d) Normalize o pre¸co do bem y em 1. Mostre que para os pre¸cos de equil´ıbrio encontrados no item anterior, temos que de fato a demanda ´e igual `a oferta no mercado dos dois bens.
e) Calcule a aloca¸c˜ao de equil´ıbrio Walrasiano. Ela ´e uma aloca¸c˜ao justa? Explique intu-itivamente a raz˜ao da sua resposta.
6. (PS-2/18) Considere uma economia sem produ¸c˜ao com dois bens, x e y. Suponha que existam apenas dois indiv´ıduos, A e B, com fun¸c˜oes de utilidade dadas por uA(x, y) = xy2 e uB(x, y) =
min{x, y} e dota¸c˜oes eA= (10, 20) e eB = (20, 10).
a) Descreva o conjunto de aloca¸c˜oes fact´ıveis, o conjunto de aloca¸c˜oes Pareto-´otimas e o n´ucleo dessa economia.
b) Determine as fun¸c˜oes de demanda dos dois consumidores. c) Determine a rela¸c˜ao de pre¸cos de equil´ıbrio.
d) Normalizando o pre¸co do bem y em 1, verifique que de fato os dois mercados se equilibram aos pre¸cos encontrados no item c).
e) Determine a aloca¸c˜ao de equil´ıbrio e verifique se ela ´e justa.
7. (P1-1/19) Suponha uma economia com dois consumidores, A e B, com utilidades definidas sobre cestas de dois bens, x e y, denotadas por uA(xA, yA) = x2AyA2 e uB(xB, yB) = xB+ yB.
As dota¸c˜oes iniciais de A e B s˜ao eA = (6, 4) e eB = (4, 6).
a) Desenhe a caixa de Edgeworth para essa economia, ilustrando as dota¸c˜oes iniciais. b) Descreva os conjuntos das aloca¸c˜oes fact´ıveis e das aloca¸c˜oes Pareto eficientes. Descreva
as aloca¸c˜oes que est˜ao no n´ucleo desta economia.
c) Determine os pre¸cos de equil´ıbrio para esta economia (dica: lembre-se que no equil´ıbrio, os pre¸cos relativos ser˜ao iguais `as taxas marginais de substitui¸c˜ao em valor absoluto para os dois consumidores).
d) Calcule a aloca¸c˜ao de equil´ıbrio Walrasiano. Ela ´e uma aloca¸c˜ao justa? Explique intu-itivamente a raz˜ao da sua resposta.